quinta-feira, 20 de novembro de 2025

A operação Mar Verde, à luz das mais recentes investigações.



         

          Como observa o investigador José Matos, a Operação Mar Verde, desencadeada em novembro de 1970 por um contingente das Forças Armadas Portuguesas e um agrupamento de oposicionistas do regime de Sékou Touré, foi das mais ousadas levadas a cabo durante toda a guerra colonial. Resta dizer que trouxe terríveis consequências para o Governo de Marcello Caetano, marcou o isolamento diplomático português ao seu nível mais baixo. Há significativa literatura sobre esta operação, inclusivamente José Matos e o investigador Mário Matos e Lemos já se tinham debruçado sobre o assunto. As limitações para investigar são muitas, mas foi possível juntar mais documentação e trazer novas informações a público. A obra intitula-se Ataque Secreto, Operação Mar Verde em Conacri, Guerra e Paz 2025.

As peripécias da operação são por demais conhecidas. Uma força naval portuguesa, em 22 de novembro de 1970, cercou a capital da República da Guiné. De acordo com o plano operacional elaborado por Alpoim Calvão, usou-se a escuridão da noite e desembarcaram vários grupos de tropas especiais em pontos estratégicos da cidade.

Calvão propusera esta operação inicialmente com objetivos mais modestos, foram crescendo depois os objetivos. E da libertação dos prisioneiros portugueses e do afundamento das embarcações do PAIGC, passou a sonhar-se com um golpe de Estado que derrubasse Sékou Touré, de modo que o novo Governo, amigável com o Estado Novo, levasse ao afastamento do PAIGC naquele país, que lhe dava um apoio fundamental. A operação contou com o apoio total de Spínola, Caetano aprovou-a, ministros do seu Governo mostraram radical oposição. José Matos levanta interrogações de peso que hoje nos fazem pensar no que houve de leviano e temerário, faltou uma verdadeira medição dos prós e contras: seria praticamente impossível não associar Portugal ao golpe, até porque havia a possibilidade de capturar Amílcar Cabral (dividem-se os investigadores se não se pretendia acima de tudo a sua liquidação física) o que deixaria Spínola com um problema em mãos; questiona se o aureolado comandante-chefe ficaria mesmo numa situação vantajosa para negociar com o líder dos nacionalistas uma saída pacífica para a guerra de guerrilhas, ou a guerrilha continuaria a lutar; o que seria se houvesse a perda de apoio na Guiné Conacri com a mudança de regime e a captura (ou morte?) de Amílcar, esta mudança levaria a guerrilha a desistir da luta?; e por quanto tempo seria possível manter um Governo desta oposição a Sékou Touré, um Governo do Front de Libération Nationale de la Guinée sem uma intervenção externa ou contra as forças do PAIGC e de Cuba que estavam no país?

São questões cruciais e a historiografia existente passa-lhe ao lado. Inequivocamente, Spínola perdera a ilusão de quebrar a espinha ao PAIGC, depois dos dramáticos acontecimentos de abril passado, com o massacre de uma equipa de negociadores no chão Manjaco. Perdera-se qualquer paridade no armamento, o PAIGC tinha um conjunto significativo de bases territoriais e com controlo administrativo, escolas e hospitais, o projeto de Armazéns do Povo estava em marcha. O Governador e comandante-chefe deste maio de 1968, imprimiu uma nova estratégia, recebeu fundos chorudos, constituiu a sua própria equipa, estabeleceu um plano de abandono de destacamentos, anunciou uma política dominada “Por uma Guiné melhor”, nesse mesmo ano de 1970 apareceram Congressos do Povo destinados a conquistar o apoio das comunidades tribais. Sempre que se desloca a Lisboa e participa nas reuniões do Conselho Superior de Defesa Nacional, fala categoricamente no agravamento da situação, pede mais meios humanos e materiais. Logo na exposição que faz ao Conselho em 8 de novembro de 1968, ficou escrito em ata que “O senhor Governador da Guiné voltou a salientar que é imperativamente necessário evitar que o inimigo atinja a fase de implantação militar em todo o território da Guiné, sob pena de a nossa soberania ficar irremediavelmente perdida”.

Não deixa de ser curiosa a comparação da correspondência de Schulz e de Spínola a pedir meios aéreos mais suscetíveis de fazer recuar a presença dos grupos do PAIGC dentro do território, só em abril de 1974 é que as negociações para a aquisição de aviões Mirage pareciam bem encaminhadas. Acresce que o PAIGC já podia contar com a ajuda cubana e apoio humanitário da Suécia. A presença do PAIGC na República da Guiné era por demais evidente. É então que descobre que havia um movimento de dissidentes da Guiné-Conacri dispostos a derrubar Sékou Touré, foi assim que nasceu a convergência com Alpoim Calvão, este idealizara somente a libertação dos prisioneiros portugueses e o afundamento dos meios navais inimigos.

José Matos faz-nos uma resenha dos antecedentes da Mar Verde, da evolução dos objetivos para a operação, cedo se começou a verificar que a oposição a Sékou Touré tinha imensas fragilidades; os grupos hostis foram sendo recolhidos em vários países e comprou-se armamento soviético sigilosamente na Bulgária; irá comprovar-se que o envolvimento da PIDE não garantiu informações rigorosas quanto à situação e localização de entidades e objetivos; também se esclarece  neste historial do José Matos que havia contactos com os opositores de Sékou Touré desde 1966, os oposicionistas durante muito tempo limitavam-se a pedir uma contribuição financeira e fornecimento de material bélico.

Estamos agora em plena invasão de Conacri, descrevem-se os meios em prémios, as dúvidas suscitadas logo na ilha de Soga, Spínola discursa aos comandos africanos antes da partida e desencadeia-se o assalto, conhecemos já os contornos essenciais de tudo quanto se passou, os meios aéreos da República da Guiné não estavam em Conacri, não encontraram o ditador, Cabral estava ausente de Conacri, falhou a ocupação da emissora, o tenente Januário dos comandos africanos desertou com vinte homens, houve afundamento de meios navais, libertaram-se os prisioneiros portugueses, sofremos baixas ainda que modestas. Ficou comprovado que os meios militares da República da Guiné estavam numa completa desorganização.

Segue-se a tempestade internacional: a condenação na ONU, a URSS oferece os seus préstimos navais, o que irá inquietar a NATO. Em definitivo, Spínola fica convencido da inviabilidade de uma solução militar e irá argumentar nesses termos na reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional que se realizou em 7 de maio de 1971, consta na documentação:

“Devemos excluir, de uma vez para sempre, a veleidade de ganharmos militarmente a guerra que enfrentamos, a qual só poderia ser ganha no campo das armas face a uma viragem imprevisível na presente conjuntura mundial. O problema só poderá resolver-se no campo político e quero crer que tal solução ainda se apresenta viável.”

O resto da história já a sabemos: desentendimento entre Marcelo Caetano e Spínola; caminha-se para a exaustão dos meios; o PAIGC recebe mísseis e armamento que lhe permite operar em termos de guerra convencional; a legislação de Sá Viana Rebelo incendeia os ânimos, aos poucos irá constituir-se o Movimentos dos Capitães. Tudo culmina no 25 de abril.

José Matos dá-nos novamente prova das suas capacidades de rigor e assegura-nos uma leitura bastante emotiva.


                                                                                    Mário Beja Santos 

 



São Cristóvão pela Europa (332).

 

 

 

A cidade italiana de Trento é hoje a capital da província do mesmo nome na Região de Trentino – Alto Adige.

Aqui, entre 1545 e 1563, teve lugar o Concílio de Trento, o último a realizar-se fora de Roma. Neste Concílio, a Igreja Católica enfrentou um dos maiores desafios da sua existência: a resposta à Reforma lançada por Martinho Lutero uns anos antes.

Fê-lo lançando a Contra-Reforma. Grande parte dela foi concebida no Concílio.

E um dos temas cruciais teve muito a ver com o culto de São Cristóvão.

Uma das mais fortes críticas que a Reforma protestante dirigiu à Igreja Católica dizia respeito ao uso devocional das imagens religiosas. Houve mesmo actos iconoclásticos na Europa Central protestante.

Na parte final do Concílio de Trento (na 25ª e última sessão em 4 de Dezembro de 1563) foi promulgado um decreto sobre a invocação e a veneração das relíquias dos santos e as imagens religiosas.

Segundo esse decreto, o uso devocional das imagens religiosas devia apenas ser destinado à instrução religiosa da população analfabeta. A veneração das imagens não devia dirigir-se às imagens materiais, mas às ideias que representavam

Os fiéis incultos que cometessem erros perigosos deveriam ser corrigidos ou afastados, e qualquer forma de licenciosidade deveria ser eliminada. Por fim, os bispos foram incumbidos da tarefa de apreciar quaisquer representações invulgares antes de permitir que fossem expostas nas igrejas.

O conteúdo do decreto, publicado na colecção de cânones do Concílio, revela porém a preocupação da hierarquia eclesiástica com a liberdade dos artistas e a consequente necessidade de reconduzir a sua actividade aos limites codificados pela autoridade religiosa.

Ora, a devoção de São Cristóvão, caracterizava-se pela prática de um certo grau de imediatismo na concessão das graças. Bastava olhava para Ele. Não era preciso rezar nem sequer ajoelhar. É razoável pensar que as novas orientações foram pelo menos prejudiciais àquela devoção. Daí a redução do número de imagens e mesmo o apagamento de muitos frescos.

Na Catedral de Trento existe a capela do Crucifixo, hoje barroca. Foi diante deste crucifixo em madeira que foram promulgados os decretos resultantes do Concílio.

 



A catedral de Trento, dedicada a São Vigílio, um dos primeiros bispos de Trento (no final do Século IV).

No interior um belo fresco representando São Cristóvão.





No Museu Diocesano, duas obras representam o nosso Santo.

A primeira é um quadro de Martin Teophil Polak (1551-1639), pintor activo em Trento, mas provavelmente de origem polaca. O quadro exibe uma interpretação, caucionada pelo Bispo de Trento, sobre a nova estética lançada pelo Concílio. Com efeito, São Cristóvão é enquadrado e protegido pela Virgem.

A segunda é um altar com abas do início do Século XVI. No centro, o tema da Santa Parentela (a família alargada de Santa Ana) ladeado por Santa Catarina de Alexandria e Santa Bárbara. Esta seria a configuração do altar nos dias de festa. Nos dias da semana o altar era fechado. Se espreitarmos a pintura por trás da aba, lá está São Cristóvão.

 




Na época do fascismo foi lançada uma nova arquitectura particularmente vocacionada para os edifícios públicos, em especial os Correios. Pretendia-se substituir a estética austríaca.

Em Trento, o edifício austríaco dos Correios foi demolido em 1929 e no seu lugar construído um novo que rapidamente foi envolto em polémica. Um boato circulou na época: que os projectos de Trípoli (Líbia) e Trento tinham sido trocados por engano, dado o facto das duas primeiras letras das cidades serem iguais!...

Numa esquina do edifício foi colocada uma estátua de São Cristóvão em mármore de Carrara da autoria do escultor italiano Stefano Zuech (1877-1968).

Hoje o edifício está em obras e oculto por andaimes. Consegui vislumbrar a estátua de esguelha. Publico uma imagem de arquivo.

 



                                            

                                                Fotografias de 6 e 7 de Agosto de 2025

                                                                                          José Liberato



terça-feira, 11 de novembro de 2025

Abstenção, a grande pedra no sapato da democracia participativa.

 


 

          A Fundação Francisco Manuel dos Santos desenvolve meritórias iniciativas para procurar dar a conhecer em equação o que é hoje ser português, que problemas trazemos connosco, quais as nossas marcações de identidade, como nos vemos na esfera do tempo; ah, como nos comportamos em cidadania e encaramos a democracia participativa. É nesta última temática que está em cima da mesa um osso duro de roer, dele se especula muito, há muitos porquês sobre a abstenção, nem a parte nem o todo apresentam resultados satisfatórios. Por isso a indagação é persistente, nem vale a pena falar dos riscos que representa o alheamento democrático. É assunto seríssimo, a Fundação acaba de tomar algumas iniciativas. Primeiro, um estudo. Vejamos o que ele diz.

           Consta no site da Fundação Francisco Manuel dos Santos o seguinte:

“Quem se abstêm em Portugal e porquê? O novo estudo da Fundação é a mais extensa análise já feita (até à data) sobre as causas e as consequências da abstenção eleitoral em Portugal, cobrindo todo o período democrático e os vários tipos de eleições. Os autores recomendam estimular o dever cívico nas escolas, logo a partir o 1º ciclo, e expandir o voto em mobilidade para aumentar a participação eleitoral, mas deixam de fora o voto obrigatório e o voto online.

Portugal registou um declínio significativo na participação eleitoral ao longo das últimas décadas. Mas qual é a dimensão da abstenção? O que leva tantos eleitores a decidir não votar e quais são as consequências de não escolherem os seus representantes? Há diferenças entre as posições políticas de quem vota e de quem se abstém? E que estratégias podemos implementar para estimular a participação eleitoral?

O estudo, da autoria de José Santana Pereira e João Cancela, responde a estas questões com base num inquérito a 2405 eleitores, 6 focus groups com abstencionistas/votantes intermitentes e três encontros com representantes políticos a nível local, nacional e europeu, oferecendo a mais extensa análise até à data sobre o fenómeno no nosso país.

Esta investigação revela que em eleições legislativas, presidenciais e europeias, a participação eleitoral é mais elevada nas zonas urbanas, enquanto nas autárquicas os eleitores das zonas rurais e híbridas tendem a votar mais.

Sabe-se também que a abstenção não é um comportamento aleatório nem uniforme. Os autores destacam que características sociodemográficas, como a idade, o nível de escolaridade e de rendimentos, fatores atitudinais, como o sentimento de dever cívico ou o interesse pela política, e barreiras práticas, como a distância do local de voto, influenciam a decisão de não votar.” O leitor pode ter acesso ao estudo completo em: file:///C:/Users/M%C3%A1rio%20Beja%20Santos/Downloads/Estudo%20completo%20(PDF).pdf

Em simultâneo com a publicação do estudo era editado o livro O tanto que grita este silêncio, Porque se abstêm os portugueses?, por Nelson Nunes, Fundação Francisco Manuel dos Santos, setembro 2025.

Vota-se para quê? O autor recorda que o país está dividido em dois: nos meios urbanos, é mais fácil de chegar às urnas, mas, para os milhares de pessoas que vivem em meios rurais, o caso muda de figura. É muito provável haver milhares de abstencionistas involuntários nestes contextos. Não há explicação para esses porquês da inércia e do alheamento, mas não sobra dúvida que a política não está a comunicar a ponto de mexer com todos, e não vale a pena passar desculpas para os casos de corrupção, criminalidade, falta de satisfação de necessidades básicas como a saúde, recrudescimento de violências, matérias-primas que os órgãos de comunicação social que primam pelo sensacionalismo exploram até à exaustão.

Sabe-se que há abstenção como forma de protesto, se querem explorar o lítio na nossa terra, nós não votamos. Há quem diga que os partidos são todos iguais, nenhum deles dá resposta à falta de empregos, às remunerações justas dos primeiros empregos, e por aí fora. Nelson Nunes foi ouvir pessoas, grande surpresa foi perceber que há abstencionistas politicamente esclarecidos, há quem se apresente como abstencionista temporário, há quem foi muito tempo imigrante e que se sinta injustiçado por pagar impostos em Portugal, há mesmo quem diga nunca ter sido estimulado para as diversas formas de participação cívica, há quem não esconda um certo desconforto por saber que ao não votar há quem esteja a fazer escolhas por si, há também aquele inquirido que saltita de trabalho em trabalho e de país em país e que não vota alegando que os problemas se resolvem com decisões que nem foram anunciadas nos programas eleitorais.

Há quem se sirva da abstenção como um grito de revolta. E há respostas que nos apanham de surpresa, como esta: “Considero que a política é muito mal paga. Um bom gestor, um bom líder, não vai para a política. Vai para uma boa empresa, que lhe pague muito bem. Por isso, só vai para a política quem não é muito bom.” É como se dissesse que não se vota neles porque são genericamente medíocres. Quando, subitamente, em março de 2024, a abstenção foi das mais baixas de sempre, houve quem desse a seguinte interpretação: “É a revolta a falar. As pessoas estão cansadas, fartas do mesmo. Eu decidi não ir, mas com a generalidade das pessoas aconteceu o contrário. Foram votar porque querem respostas.”

Os inquéritos de Nelson Nunes não nos dão milagres explicativos: descobre-se que há quem foi durante muito tempo abstencionista e que agora participa, há quem durante muito tempo foi atraído por ideias de esquerda, está cansado de promessas, procura agora valores diferentes no populismo, mas também há quem se manifeste cansado numa direita e centro-direita que só tem uma certa política social para não perder o barco. O autor também bateu à porta de especialistas em ciência política, as respostas também são complexas no meio académico. Dirá mesmo, em jeito de conclusão, que o modo como as pessoas votam está diretamente relacionado com o estado das suas vidas. E os abstencionistas são mais do que a representação tosca que vemos deles na comunicação social. Acresce que a abstenção também é uma forma de representação mediática, por outras palavras, diz ele, o que falta é pôr os abstencionistas na comunicação social: libertá-los de um certo sentimento de vergonha, ou vê-los e perceber que caminho construtivo se pode desenvolver a partir daí. Estes abstencionistas silenciosos têm todo o direito a ser ouvidos.

 

                                                                Mário Beja Santos


segunda-feira, 10 de novembro de 2025

É preciso muito saber para apresentar a descolonização portuguesa com tal simplicidade e rigor.

 


 

          O Essencial sobre A Descolonização Portuguesa, por António Duarte Silva, Imprensa Nacional, 2025, é um ensaio que parte da ambição de dar ao leitor o ponto de partida no processo da descolonização, mostra-nos as modificações no programa do MFA, a pressão internacional, tanto dos movimentos de libertação e seus apoiantes como, em curto lapso de tempo, as novas autoridades fizeram o reconhecimento do direito à autodeterminação e independência para todas as colónias africanas portuguesas; prosseguindo essa linha de rumo, o autor dá-nos conta dos sucessivos acordos que envolviam todas as parcelas do Império; e conclui, hoje, em que estão ultrapassadas as tensões ideológicas que envolveram então os acontecimentos, que a evolução dos acordos, na cena política portuguesa, dificilmente podia ter sido de outro modo assumido pelo poder político; uma descolonização que se saldou numa mera transferência de poder e gerou uma comoção inusitada com a chegada de cerca de meio milhão de portugueses que, aos poucos, se foram diluindo na população portuguesa; e, questão mais do que premente, há que ter em conta da gestão deste processo, como está historicamente consagrado: “Os principais atores da descolonização portuguesa foram, solidariamente, os movimentos de libertação nacional e o MFA, a sua chave foi a independência da Guiné-Bissau, o estatuto dos movimentos de libertação nacional como sujeitos de direito internacional determinou os termos e efeitos da descolonização, distinguindo-a das demais, por a independência ter sido, bilateral, rápida exclusivamente negociada entre eles e o Estado português.”

          É um ensaio brilhante, abarca todas as questões medulares, é uma narrativa rigorosa e clarificadora, uma escrita que vai ao ritmo da complexidade e velocidade desse processo que analisa passo a passo, o fim do Império.

          O programa do MFA, a concomitância entre um golpe de Estado e um regime que caiu aparatosamente em escassas horas, sem defensores, tinha que fazer avultar a questão de fundo do levantamento militar e do seu sucesso, a inexistência de uma solução política para uma guerra de guerrilhas que deixara o Estado Novo na mais completa solidão política. O programa do MFA referia explicitamente que se impunha o lançamento dos fundamentos de uma política ultramarina conducente à paz; a operacionalidade de se chegar à paz mostrou claramente um conflito entre o presidente Spínola e os demais militares, a tese federativa preconizada pelo autor de Portugal e o Futuro eram perfeito anacronismo, logo uma Guiné-Bissau já reconhecida como Estado por muitas dezenas de países nas Nações Unidas; também estas, cedo apareceram a reclamar a aplicação e os princípios e resoluções referentes à autodeterminação e independência dos povos coloniais. Ultrapassada a visão spinolista, mas já aprovada a lei da descolonização, avança-se em busca de solução para a questão mais premente, assim se chega ao Acordo de Argel, em 26 de agosto de 1974, o reconhecimento da independência realizou-se em Lisboa a 10 de setembro. Estavam lançados os dados, avançou-se para outro teatro de luta manifestamente degradado, Moçambique. De agosto para setembro trabalhou-se num protocolo de acordo, este foi assinado em 7 de setembro. Como lembra o autor, estava-se no auge do radicalismo revolucionário em Portugal e do radicalismo da FRELIMO, convencida de que com a ideologia se governava o país. Segue-se o reconhecimento da independência de São Tomé e Príncipe pelo Acordo de Argel de 26 de novembro de 1974.

          O ano finda com novo reconhecimento, prende-se com Cabo Verde, dá-se através do Protocolo de Lisboa de 19 de dezembro, o autor dá-nos uma súmula perfeita das questões conexas entre Cabo Verde e Guiné-Bissau, o princípio da unidade consagrado na doutrina do PAIGC, durante todo o período da luta e relevado nas negociações que conduziram à independência de Cabo Verde, em julho de 1975.

          Tenho para mim que todo o texto referente a Angola, e que se prende com o Acordo de Alvor, de 15 de janeiro de 1975, é historiografia doravante referencial, não podia imaginar que toda a complexidade da questão angolana ganhasse tanta luminosidade na síntese de pouco mais de vinte páginas, era o processo mais complexo e tortuoso, está aqui tudo resumido e compreensível a qualquer leigo.

          Seguem-se três processos, num deles correu sangue, um demencial caso de anexação, uma emocionante resistência que acabou no desfecho feliz da independência e do recurso à via democrática – Timor-Leste, como observa o autor: “No conjunto da descolonização portuguesa, Timor, onde não tinha havido luta de libertação nacional, acabou por ser, de facto e um pouco paradoxalmente, um caso atípico e dramático; a democracia portuguesa retomou relações diplomáticas com o Estado da Índia, surgiu o Tratado do reconhecimento da soberania da Índia sobre esta nossa colónia de Goa e de mais parcelas no último dia do ano de 1974; a questão macaense ocorreu sem nenhum drama, aprovou-se o Estatuto Orgânico de Macau em fevereiro de 1976, as relações diplomáticas entre Lisboa e Pequim foram estabelecidas em 8 de fevereiro de 1979; em 1987 assinou-se a Declaração Conjunta Sino-Portuguesa sobre a questão de Macau, a administração portuguesa findou a 20 de dezembro de 1979.

          E deste modo o autor conclui que tivemos uma descolonização tardia, apressada, consensual e conforme ao direito. Recorda que logo a seguir ao 25 de abril os movimentos de libertação nacional impuseram-se com condições e exigências não negociáveis; o programa do MFA foi-se sujeitando às inúmeras tensões externas e internas e num curto espaço de tempo, depois de aprovada a lei da descolonização, marcaram-se datas para sucessivas independências, tudo se resumiu a uma mera transferência de poder. Sucederam-se dois fenómenos simultâneos: nas cinco colónias africanas os movimentos de libertação apropriaram-se do poder, não faltaram versões ideológicas recrutadas dos modelos soviético, argelino, cubano e chinês, como ideais de organização da sociedade e do Estado e, ao mesmo tempo, Portugal vivia um processo revolucionário que muito impressionou a comunidade internacional e em simultâneo houve que procurar resolver quem vinha de retorno ou nascera nas colónias e viria assumir ser português.

          Na capa deste livro vem uma consigna que foi determinante para a descolonização, um belo achado.

          De leitura obrigatória.

 

                                                                        Mário Beja Santos

 

 

 


 


 


São Cristóvão pela Europa (331).

 

 

 

O município italiano de Tubre (Taufers im Münstertal) é o mais ocidental de toda a Região de Trentino Alto Adige.

A igreja de São João Baptista é uma belíssima igreja românica construída no Século IX, a mais antiga da Região. O fresco exterior representando São Cristóvão tem grandes proporções (5,80m), data do princípio do Século XIII e situava-se no início do caminho que conduzia à Suíça.

 



Dentro da povoação de Tubre, na fachada de uma casa, um mural:

 


Passada a fronteira, em plena Suíça, encontram-se também São Cristóvãos…

Há quatro línguas nacionais na Suíça: o alemão, o francês, o italiano e o romanche. Estamos precisamente na região onde se fala romanche, no cantão de Grisons.

A igreja em Santa Maria de Val Müstair foi construída em 1492. Após o eclodir da Reforma, curiosamente, a comunidade protestante e a comunidade católica resolveram, muito pragmaticamente, partilhar o espaço exercendo o seu culto por turnos. Em 1838 passaram cada uma a ter a sua igreja própria. No exterior um belo mural representando São Cristóvão, datado de 1513.

O município de Val Müstair é, por sua vez, o ponto mais oriental da Suíça.

 




 

Um ponto de actualidade:

Saiu recentemente o livro Notre Dame de Paris da autoria de Claude Gauvard e publicado na colecção Que sais-je? da editora Presses Universitaires de France.

Já aqui abordei por duas vezes a questão da enorme estátua de São Cristóvão que existia à entrada da Igreja de Notre Dame. Ver https://malomil.blogspot.com/2018/01/sao-cristovao-pela-europa-49.html e https://malomil.blogspot.com/2020/12/sao-cristovao-pela-europa-134.html.

O livro apenas vem confirmar o que escrevi já há uns anos. O tema é mencionado em dois momentos:

A estátua de São Cristóvão, de uma altura fenomenal, oferecida por Antoine des Essarts em 1413, colocada à entrada da Catedral, era objecto de numerosas orações.

Em 1785, destruiu-se a estátua colossal de São Cristóvão à entrada da nave.

 

 

 

                                            Fotografias de 6 de Agosto de 2025

                                                                               José Liberato


quinta-feira, 6 de novembro de 2025

São Cristóvão pela Europa (330).

 

 

 

Prosseguindo no Norte da Itália agora na região de Vinschgau a caminho da fronteira suíça, Laces (Latsch) é uma comuna da província de Bolzano onde avulta a Spitalkirche Heilig-Geist, ou seja, a igreja do hospital do Espírito Santo, A construção do hospital terminou em 1337 e foi financiada através de indulgências autorizadas pelo Papa, sistema que veio a ser posto em causa durante a Reforma.

No exterior, distingue-se um portal de estilo gótico datado de 1517.

No interior, um magnífico altar da autoria do escultor alemão Jörg Lederer (1470-1550). Ao centro, um Trono das Mercês: Deus sentado segura com as mãos o corpo do Seu Filho morto. A pomba representa o Espírito Santo. Está ladeado por São João Baptista e São Wolfgang. São Cristóvão está no topo.

Um quadro representa os catorze santos auxiliares da autoria do pintor local Simon Ybertracher (1694-1772). Entre eles São Cristóvão.

 






Em Prato allo Stelvio (Pradam Stillserjoch), a igreja românica de São João Baptista foi construída no final do Século XIII. No exterior um fresco representando São Cristóvão.

 



 

                                                            Fotografias de 6 de Agosto de 2025

                                                                                                 José Liberato




segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Carta de Bruxelas.

 





Outono


O Verão, diz o poeta, é a única estação. Depois da alegria ruidosa, exterior, objectiva, vem o tempo do recolhimento. Lá fora e lá para trás ficaram as aventuras movimentadas, os risos colectivos, as festas longas – e a promessa de mais no dia seguinte. Em casa, junto da família, sente-se o perfume quente e adocicado da compota ao lume, o conchego da lareira com o seu fogo antigo, a manta no sofá – talvez um bom livro para ler. O Porto velho substituiu a cerveja. Já chegaram as chuvas, que reflectem as luzes das lojas e dos automóveis, e chegaram também os vendedores de castanhas; é pena já não serem servidas nos cones feitos com as folhas das listas telefónicas. O frio faz-se sentir, tão agradável antes de se recolher ao lar, no contentamento discretamente sorridente de quem se cruza com as crianças pequenas que regressam da escola, ruidosas, ainda entusiasmadas como tudo o que começa. As ocasiões e os passeios pedem já outra roupa, que, pesada, sai ligeira dos armários; um encontro marcado no passado que se cumpre como esperado e com a satisfacção serena de uma surpresa não inteiramente surpreendente. E com o passar do tempo aproximam-se as férias e o Natal, os planos, as compras. É o Outono – de todos os lados chega o convite à traição. 


                                                                                João Tiago Proença




domingo, 2 de novembro de 2025

São Cristóvão pela Europa (329).

 

 

 

Tirolo (Tirol) é uma pequena localidade a seis quilómetros de distância de Merano. Mas a sua importância ultrapassa largamente a sua dimensão.

Parece claro que deu o nome ao Tirol italiano e ao Tirol austríaco, vastas regiões entre a Alemanha e a Itália. Desde o notável Castelo Tirol, os Condes de Tirol, administraram este vasto território até ao momento em que os Habsburgos tomaram o poder no condado.

 

 

A igreja de São Ruperto em Tirolo foi mencionada pela primeira vez em 1332 e objecto de múltiplas alterações ao longo da História. No exterior, um fresco de São Cristóvão. No interior, um tríptico tem uma imagem do Santo numa das suas abas.

 





A igreja de São Pedro, nos arredores de Tirolo, é de origem carolíngia.

Tem um mural representando São Cristóvão, já ostentando as marcas do tempo.

 



Em Naturno (Naturns), a Igreja paroquial de São Zeno possui uma imagem gigante de São Cristóvão muito deteriorada talvez pela construção de alguma janela.

A igreja tem origem pré-carolíngia, mas a estrutura actual (gótica) é da segunda metade do Século XV.

 




                                                                                Fotografias de 6 de Agosto de 2025

                                                                                José Liberato