domingo, 7 de maio de 2023

São Cristóvão pela Europa (213).

 


 

A pequena aldeia de Hanzinelle situa-se na Bélgica, também na Província de Namur e no município de Florennes.

A igreja matriz, construída em 1899 com projecto do Arquitecto François Van Riel, é dedicada a São Cristóvão.

No exterior uma estátua:

 


No interior uma imagem do Santo:




 

Um altar:

 


E três pendões processionais:

 




 

                                                                    Fotografias de 21 de Abril de 2023

 

                                                                                                    José Liberato


quinta-feira, 4 de maio de 2023

São Cristóvão pela Europa (212).

 

 

Neste final do mês de Abril dei uma volta pela Bélgica, pela França e pela Holanda e não deixei de me interessar pelo nosso Santo.

Hun-sur-Meuse é uma aldeia nas margens do rio Meuse, pertencendo à Província de Namur na Bélgica.

Na aldeia, uma pequena capela é dedicada a São Cristóvão. Sucedendo a outras capelas foi inaugurada na actual forma em 1927.  Durante a II Guerra Mundial, em 1944, foi incendiada pelos alemães.

 



No exterior, uma estátua do Santo:

 


No interior uma imagem:

 


E uma série de vitrais inaugurados em 1953, contando a saga de São Cristóvão.

Ao serviço de um rei que tinha receio do diabo:

 


Ao serviço do demónio:

 

 

À procura do mais poderoso:

 

 

E a imagem tradicional do grande protector dos viajantes:

 


O martírio, quando as flechas não conseguem ferir o Santo:

 


Uma flecha desvia-se e atinge um olho do Rei que dirige o martírio:

 


Um capacete ao rubro colocado na cabeça do Santo como forma de o martirizar:

 

 

E finalmente é degolado:

 


 

                                                                        Fotografias de 21 de Abril de 2023

 

                                                                                                            José Liberato


quarta-feira, 3 de maio de 2023

A contagem decrescente do Estado Novo, de fevereiro a abril de 1974.

 





 

Os meses finais do chamado regime de Marcello Caetano foram dominados por acontecimentos imprevistos, uns, outros uma tentativa desesperada para comprar armas sofisticadas na quimera de que era possível manter uma guerra em três frentes, num quadro de solidão internacional, e num país sem dinheiro e com graves carências de oficiais. O ensaio Rumo à Revolução, de José Matos e Zélia Oliveira, Guerra e Paz Editores, 2023, alicerçado numa grande consulta de documentos e arquivos nacionais e estrangeiros, revela o que de fundamental aconteceu nos meses que precederam à queda da ditadura num só dia. Trata-se de uma narrativa que irá seguramente enfurecer aqueles que insistem que a guerra colonial tinha sustentabilidade, os recursos não faltavam, para eles a hecatombe foi a falta de vontade em combater, e por tal “crime” se desmoronou o Império. Num país em que ainda impera o culto do sebastianismo, tais nostálgicos não serão desarmados pela verdade dos factos, bem evidentes neste primoroso ensaio.

No essencial, vamos ver aqui abordados: o que de decisivo representou a publicação do livro de Spínola; a busca de armas, sobretudo contando com a gratidão dos EUA pela cedência das Lajes após a guerra dos 6 dias, que trouxe consequências nefastas também para a economia portuguesa; as alterações que se tinham registado em Moçambique, o eterno problema da Guiné, a movimentação dos capitães; as consequências da demissão de Costa Gomes e de Spínola; e, como depois da abortada revolta nas Caldas, um golpe fulminante fez baquear um regime que durara décadas e que parecia não ter fim.

Estamos em 15 de fevereiro de 1974, Marcello Caetano preside, sem saber, à última reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional. O general Costa Gomes informa os presentes de que tinha sido assinado um contrato para a aquisição de uma bateria de mísseis antiaéreos e de que se procurava rapidamente adquirir armas anticarro para enfrentar as viaturas blindadas que se dizia estarem na posse do PAIGC. O chefe do Governo referiu as grandes dificuldades em comprar armas nos mercados internacionais, era o que se estava a passar com os mísseis antiaéreos franceses Crotale. Costa Gomes retoma a palavra para salientar a degradação da situação interna em Moçambique, nesta frente militar faltavam helicópteros e caças, o secretário-de-Estado da Aeronáutica referiu igualmente as dificuldades da sua aquisição e, mais adiante, chamou a atenção para a necessidade para prosseguir com o reequipamento da Força Aérea, pendiam graves ameaças na Guiné e Angola. Dias depois, Caetano irá ler o livro de Spínola, compreendeu que era agora inevitável o golpe de Estado. Os autores espraiam-se sobre o pensamento daquele que irá ser o presidente da Junta de Salvação Nacional, uma quase comédia de enganos de quem autorizou a publicação do livro. Caetano chama os dois generais enquanto os capitães conspiram, temos aqui uma súmula dos acontecimentos que vão espoletar o descontentamento corporativo com a legislação do ministro Sá Viana Rebelo numa tentativa de suprir a escassez de oficiais. Caetano está demissionário, Thomaz não aceita, começa um período da fuga para a frente, desde o seu discurso na Assembleia Nacional até à remodelação ministerial.

É bem interessante a exposição que os autores fazem sobre a esperança em que os EUA fornecessem armas capazes de contrabalançar equipamento superior de guerrilha, Kissinger, que viera a Lisboa agradecer em 17 de setembro de 1973 o auxílio prestado pelo Governo de Caetano, deixará claro de que o Congresso nunca permitiria a cedência às claras daquele armamento, dava como contrapartida o fornecimento e instalação de uma central nuclear, bolsas de estudo, fornecimento de cereais e colaboração técnica e financeira na prospeção de energia geotérmica nos Açores. E avivam-se as dificuldades em Moçambique e na Guiné, a África do Sul compromete-se a fazer um empréstimo de seis milhões de contos, o que daria para cobrir grande parte das necessidades portuguesas no campo do armamento, isto enquanto o PAIGC fez a sua declaração unilateral de independência com o imediato reconhecimento de muitas dezenas de países.

É o momento azado de se fazer a descrição do nascimento do MFA, isto enquanto Caetano discursa na Assembleia Nacional, começaram as transferências compulsivas de militares, inequivocamente críticos do Governo, este é remodelado, introduzindo-se uma nova orgânica, Luz Cunha substitui Costa Gomes, segue-se a precipitação da chamada revolta das Caldas, o Governo parece aliviado e anuncia que há normalidade em todo o território. Escreveu-se no Avante! que “o Governo e o regime não cairão por si próprios nem tão pouco por ação de umas dezenas de oficiais do exército, mesmo que corajosos e patriotas. A sublevação no 16 de março mostra-o mais uma vez”. Não deixa de ser curioso o que se passa na noite de 24 de abril de 1974 durante um jantar em Bona como elementos do Partido Social Democrata Alemão em que o ministro das Finanças disse a Mário Soares que a ditadura portuguesa estava para durar, Mário Soares não conseguiu convencer o seu interlocutor que o fim do regime português estava para breve.

O cônsul português em Milão recebe instruções para ir a Londres, num quadro de total secretismo para falar com o representante da guerrilha do PAIGC, propunha-se denunciar uma possível independência para a colónia portuguesa, reunião inconclusiva, fica prevista uma outra para meses depois, dá-se o 25 de Abril. A 28 de março, Caetano profere a sua “conversa em família”, deixa claro que se mantém intransigente, a guerra prosseguirá.

A súmula dos acontecimentos do golpe de 25 de Abril, pelo seu rigor e frescura narrativa, revela-se um dos mais belos textos sobre a organização do golpe, num contexto que alguns ainda acreditavam ser de completa normalidade: 23 de abril reúne pela última vez o Conselho de Ministros, Caetano é a máscara do cansaço físico e psicológico, há jantares e encontros entre os homens do Estado na noite de 24, temos o desenrolar dessa noite, tudo culminará com a tomada da PIDE/DGS, no amanhecer de 26, isto enquanto Spínola dá a primeira conferência de imprensa na Pontinha:

“Ao contrário do que seria de esperar, os arquivos da polícia política que continham milhões de fichas foram encontrados aparentemente intactos. Nas mesas de alguns agentes encontraram algumas revistas Playboy e Penthouse. No gabinete de Silva Pais permaneciam três quadros fixos na parede com as imagens de Américo Thomaz, Marcello Caetano e Salazar. São dadas ordens para os retirar e Silva Pais prontifica-se para tal, mas o de Salazar era mais difícil por estar mais alto. Diz-se que alguém foi então buscar um escadote e o retrato de Salazar também foi removido. O fim do regime estava consumado.”

Uma narrativa de grande fôlego a não perder.

  

                                                                                Mário Beja Santos





quinta-feira, 27 de abril de 2023

Não há, na literatura portuguesa e lusófona, uma joia literária como esta.

 

 



 

“Aqui estamos em frente da Torre, meus senhores, peço que se descubram e ao mesmo tempo um minuto de silêncio pela alminha dos Senhores que lá estão.

Esta Torre já não se sabe de quantos séculos podemos datá-la, mas é certo é que Dom Raymundo Barbela – crê-se que tenha sido o primeiro da família da Torre – saiu destas bandas para ajudar com os seus homens as cargas de Dom Afonso Henriques, seu primeiro do coleteral. As pedras são todas da prumitiba, mesmo lá perto da torreta podemos ainda ler as inscrições latinas que rezam a sepultura de Dom Martim, morto de adigestão quando de uma lampreiada para festejas as vitórias do primo. Tem a Torre trinta e dois metros de altura, é a máor da península e os degraus contam-se em oitenta e nove, com patamares de descanso. A vista lá de cima é grandiosa”.

Sim, nem antes nem depois desta aventura literária de Rúben A. se foi tão longe a falar de um Portugal feérico, mitológico, façanhudo. Há um guia que apresenta os visitantes as memórias de um Portugal inventado, e momentos há em que se pode supor que estamos perante romance do fantástico, com incursões pelo sobrenatural, mas recomenda-se leitura cuidada, porque este romance escrito em plena década de 1960 é uma xácara habilidosa para caricaturar o nacionalismo bacoco, Rúben A. tratou com pinças esta visita ao alto daquela Torre, “outrora de menagem, estendia-se um país inteiro, ceiva virgem de uma nação. Toda a História se abria com a paisagem.” Em plena pandemia, a Coleção Miniatura de Livros do Brasil fez reaparecer uma das obras-primas da literatura portuguesa e lusófona, A Torre de Barbela, em boa hora o fez, tem preço acessível, é obra para ficar nas nossas estantes, leitura a retomar quando se impõe repensar o Portugal do Quinto Império, das bravuras mil, das extraordinárias peregrinações, nação mirífica e imortal. Porque os que vivem na Torre levam às centenas de anos uma boa convivência, tudo na margem esquerda do rio Lima, a Ribeira Lima, após o horário da visita com aquele guia estrondoso, os antigos Barbelas, vindo de oito séculos diferentes, ressuscitam e habitam os seus arredores, é uma azáfama de amores e ardores, coscuvilhices e êxtases, naquele espaço minhoto, onde se vai falar da Moutosa, a Vila de Serzedelo, Viana do Castelo, a Serra de Arga, o Jardim dos Buxos, e do que pelo adiante se dirá, esses Barbelas, têm muito para contar:

“Quando a linha do horizonte baixava em intensidade e os fumos azulados batiam a favor do vento e do andar das coisas, naquela dimensão abrupta que testemunhava o acender das constelações, os Barbelas realizavam-se vindos do sonho e da fantasia para os reais domínios da Torre. De noite, ressuscitavam e, de companhia, traziam os amores e os ódios de outras eras e de outras sensibilidades, os dramas pessoais e a contagem de fábulas capazes de entrarem pelas ruelas aveludadas dos vizinhos de Serzedelo e de Vitorino das Donas. Aquele ressuscitar transfigurava a Torre. A procissão saía a pé ante pé dos túmulos de pedra, dos sarcófagos egípcios – trazidos por Dom Payo da Barbela quando das suas incursões por terras do Prestes João – e também da vala comum surgiam ainda os apátridas, filhos ilegítimos, frades, freiras, e os que remotamente pertenciam à venerável espérmia da Torre.” Entraram em cena o Menino Sancho, Dona Urraca, o Cavaleiro e o seu garrano Vilancete, Dona Mafalda Madeleine de Barbelat (esta terá papel crucial num desfecho trágico que nem vos conto), percorre-se toda a História de Portugal e a sua épica, e chega o momento de apresentar a grandeza do lugar:

“O Solar da Barbela data precisamente do século XVI, quando os Barbelas em protesto contra os anos de cativeiro espanhol resolveram abandonar a capital do Reino e regressar às terras. Nessa época, os Barbelas voltaram à vida rural e nada mais encontraram da propriedade do que a Torre e o terreiro ao lado, com algumas habitações toscas. O oiro das especiarias e o comando das esquadras da Índia tinham levado os braços disponíveis nas redondezas. Quando Dom Sebastião desapareceu na sua fatal correria de Alcácer, além de arrastar muitos Barbelas consigo, deu também um ar desolador à pátria. Os fumos da Índia e as espumas de África trouxeram consigo a desolação, sem que para isso fossem bastantes as façanhas dos fidalgos de Entre Douro e Minho.” Os Barbelas até tiveram santos, como São Cyro, é o comandante espiritual da Torre. Há paixões escondidas, dignas de Tristão e Isolda, como o Cavaleiro e Madeleine, há visitas dos Barbelas à Beringela, que têm um fumeiro muito especial, logo as enguias. E ao longo destas centenas de páginas vamos convivendo com os Barbelas, há gente que até lembra o Eça de Queiroz, como o Dr. Mirinho, que ninguém se iluda, a Torre de Rúben A. é o miraculoso país do passado, onde se celebram centenários, onde há bruxas apaixonadas, como aquela que vive em São Semedo, Madeleine é ligação à França, convém não esquecer os caixotes de Paris e a literatura que nos afogueou, antes e depois com a monarquia constitucional. Espantosa arquitetura da escrita, onde não falta o bobo italiano, passeios de burro, igrejas como não há no outro Portugal. Veja-se só: “A única igreja no Norte de Portugal que se pode comparar vagamente com a da Moutosa é a da Montaria, no caminho de Orbacém para São João de Arga. Mas é melhor não comparar. O curioso distinguirá imediatamente uma qualidade única em São Lourenço. Possui, como só a Torre de Belém, uma proporção de medidas que equilibra o pensamento ao primeiro relance. Olhando-se em frente fica-se à procura do desnível e do imperfeito. O talho de pedra granítica, com os santos padroeiros das principais freguesias da Ribeira Lima empunhando uma escada para subirem mais facilmente ao Céu, transmite uma doçura de penetração que envolve até o menos crente.”

Não esqueça o leitor de acompanhar a trama amorosa do Cavaleiro por Madeleine, tudo isto num lugar soberbo, de nome a Fontinha, que “fora desde tempos idos o ponto de partida dos Barbelas para as viagens de aquém e além-mar. Daquele estreito molho de granito e terra batida, sombreado pelas ramagens quentes de salgueiros e choupos, as bateiras saíam em direção a Viana, donde os barcos de maior calado levavam a família aos mais diversos destinos do mundo.”

Não se fala aqui só do Portugal maravilhoso, há histórias de assombrar, é o caso do Grande Nevoeiro, uma das diabruras mais imprevistas do destino. “De Barcelos ao Lindoso, dos contrafortes do Gerês até às terras raianas do rio Minho, e descendo pela linha das costa, montes e vales ficaram cobertos de um misto de nevoeiro e neve que transformou o sentido do voo das aves e deu aos homens uma atitude meio religiosa meio borguista que perdurou pelos tempos.”

Porventura por sermos descentes dos Barbelas, é imperativo dever nosso conhecer de fio a pavio toda esta saga genialmente redigida por Rúben A. Está aqui o nosso retrato, caso não esteja muito iludido: “Falavam, falavam, conversando fiado por tempos sem conta, discutiam, assentavam decisões e conversas, e ao fim encaminhavam-se ao natural de nada se ter passado. Enfim, o que havia era, bem ou mal, a prata da casa. Aquela prata que se apresentava nas grandes ocasiões de cerimónia e onde se comia a malga do caldo-verde e o naco de broa acompanhado de uma lasca de bacalhau cru ou de uma rodela de enchido de porco. Um destino embebido de fatalismo, uma espécie de não-te rales. O resto não os preocupava em profundidade.”

Nem vale a pena insistir que estamos perante um livro de leitura obrigatória.


                                                                                            Mário Beja Santos




quarta-feira, 26 de abril de 2023

São Cristóvão pela Europa (211).

 


 

Não tinha ainda tido ocasião de pesquisar imagens do nosso Santo na cidade de Évora.

Foi o que fiz há poucos dias com bons resultados.

No Museu de Évora existe um quadro, representando São Cristóvão, do pintor conhecido como Frei Carlos. Falecido cerca de 1540, Frei Carlos era natural de Lisboa mas tinha ascendência flamenga. Professou como frade jerónimo no Convento do Espinheiro em Évora onde organizou uma escola de pintura.  O quadro é um óleo pintado sobre madeira de carvalho e deve ter sido realizado por volta de 1530.

 


Na Igreja de São Tiago, construída no Século XIV mas objecto de profunda reformulação nos Séculos XVI e XVII quando foi profusamente revestida por frescos que misturam de forma curiosa motivos sagrados e profanos. Um dos frescos representa São Cristóvão:

  




Finalmente as Casas Pintadas, anexas ao actual Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida, antigo Palácio da Inquisição, devem o seu nome a um notável conjunto de frescos que decoram uma galeria e um oratório, nos jardins do Centro de Arte.

Estas casas pertenciam a D. Francisco da Silveira, Coudel-Mor dos reis D. Manuel I e D. João III e foram anexadas ao Palácio da Inquisição no final do Século XVI.

Nos frescos, a imagem de São Cristóvão:





                                                    Fotografias de 18 de Abril de 2023.

 

                                                                                       José Liberato


domingo, 23 de abril de 2023

Desnudar a perversidade da invasão do Iraque? Foi o que fez John le Carré numa das suas obras-primas.

 




Em 2002, John le Carré manifestou-se publicamente contra a invasão do Iraque perpetrada pela Administração Bush e aliados, escreveu, andou em manifestações, deu entrevistas. E em 2003 publicou (título em português) Amigos até ao Fim, que Publicações D. Quixote acaba de reeditar, esta obra-prima literária é de leitura oportuna neste mundo de mentiras, em que estamos vergados a vendilhões do jornalismo. A arquitetura do romance é extraordinária, anda à volta da história de dois amigos, Ted Mundy, filho expatriado de um oficial do Exército britânico, mobilizado para o Paquistão, e Sacha, um radical alemão, pequenote, claudicante, mas com uma mente brilhante e um entusiasmo inquebrantável. O destino pô-los juntos em Berlim nos anos 1960, ambos anarquistas e com vivência comunitária. A narrativa mistura tempos e lugares, iremos percorrer a carreira de Ted, desde espião camuflado ao serviço ao British Council até guia turístico num castelo de Luís da Baviera, Linderhof; depois de Berlim, Sacha desapareceu da cena e reencontram-se agora, dez anos depois, numa receção num país da Europa de Leste; Sacha, para estupefação de Ted, é agora funcionário da RDA e propõe a Ted uma operação de espionagem: passar segredos de Estado para o Ocidente, apoiando-se nas tarefas que ele exerce no Birtish Council. Andamos numa corrediça entre o passado e o presente, Ted, depois de tanta vicissitude, parece ter encontrado o seu ninho de amor com uma turca, fartou-se de aventuras, a Guerra Fria acabou como o seu casamento com Kate culminou num desastre.

E John le Carré, dentro deste bordado que se irá transformar numa teia de aranha, afasta-os, estamos agora centrados em Ted Mundy, dentro da tal narrativa de feedback, faz jornalismo e biscata, e depois encontra trabalho no British, vem casamento e filho. Quando tudo parece sedimentar-se e o fogo da juventude ficar para trás, dá-se o assombroso reencontro com Sasha, passara de anarquista a marxista-leninista, mas estava agora dececionado, interessa-se em trair, é preciso que a mentira comunista se desmorone. John le Carré faz sair da cartola um autocarro psicadélico com um grupo de teatro que serve às mil maravilhas para que, a pretexto do teatro de Shakespeare, Sasha lhe entregue os tais segredos de Estado, tão importantes que os Serviços Secretos Britânicos os repartirem com os Primos, ou seja, a CIA. Esta irá entrar em campo, a seu tempo, e com uma perversidade devastadora.

Dentro desta arquitetura da escrita de altos e baixos, vemos o desmoronamento do Muro de Berlim, o impensável acontece, vem aí a reunificação. A vida familiar de Ted estiolou após o divórcio, a Guerra Fria já não precisa dele. E Sasha surge de novo. Ted tivera um instituto de línguas em Heidelberg, um sócio especializado em gestão danosa levou o negócio à ruína. Sasha irá surgir naquele universo ameaçador em que eramos regidos por uma superpotência unipolar, vem inflamado, é indispensável mudar tudo, encontrou patrono, o impalpável Dimitri, para financiar uma academia que será um altifalante de alternativa ao capitalismo. É nesse contexto, que será desencadeada a invasão do Iraque e montada uma operação que pretende mostrar ao mundo que o radicalismo satânico de Saddam Hussein tem antenas perigosíssimas no mundo ocidental.

As derradeiras páginas desta obra-prima oscilam entre solilóquios premonitórios, Ted apercebe-se que foi atraído para uma cilada, vagueia à volta da escola, anda confuso, os Serviços Secretos britânicos deram-lhe passaportes para ele e Sasha, urge que eles desapareçam, fora montada uma trama ignóbil. E rebentam explosões, os amigos reencontram-se, foram vítimas de uma operação da CIA, mas são demonstradamente amigos até ao fim.

O cinismo, o maquiavelismo de todo este ardil, fica para o fim, como o autor relata:

“O círculo de Heidelberg, como se tornou imediatamente conhecido nos media de todo o mundo, desencadeou ondas de choque através das cortes da Velha Europa e de Washington e foi um sinal claro para todos os críticos da política americana de imperialismo democrático-conservador.

Durante cinco dias inteiros a imprensa e a televisão foram obrigadas a respeitar qualquer coisa de parecido com um silêncio estupefacto. Havia manchetes sensacionais, mas não havia notícias substanciais, pela boa razão de que as forças de segurança tinham agido dentro de uma espécie de estúdio cinematográfico vedado a estranhos.

Um setor inteiro da cidade tinha sido isolado e os seus habitantes, perplexos, tinham sido evacuados para hotéis equipados com pessoal especializado e sem poderem comunicar com ninguém durante a operação.

Nenhum fotógrafo, nenhum repórter dos jornais ou das televisões tinha tido acesso à cena do assalto até que as autoridades tivessem a certeza de que os mínimos vestígios de potencial de espionagem tivessem sido todos retirados para análise”.

Amigos até ao Fim é a denúncia de um mundo onde se instalou a não-verdade, onde é possível estarmos permanentemente a ingurgitar falsidades, ou ficarmos em estado de dúvida, é a manipulação sórdida dos noticiários onde as centrais de intoxicação debitam, hora a hora, as “verdades” que interessam. Porque aquilo que foi a espionagem é hoje um expediente de envenenamento dos espíritos, tornando derrisório o primado da liberdade de pensamento, que aqueles dois amigos até ao fim teimavam em defender, a despeito de muita utopia nos amanhãs que cantam.

John le Carré já era universalmente conhecido desde que escrevera O Espião Que Veio do Frio e um conjunto de obras que passaram ao cinema e à televisão, valorizadas pela genialidade do ator Alec Guinness.

Quando a Guerra Fria acabou, le Carré fez mudança de agulha, observou à sua volta aquele mundo que se compunha e decompunha, com exércitos privados, uma indústria farmacêutica ignóbil, milionários inescrupulosos na venda de armas, o acirramento de conflitos regionais. E mostrou, se dúvidas subsistissem, que era um dos magníficos operadores da escrita à escala mundial. Não sei se Amigos até ao Fim, mas, não posso, a pensar nesta infeção das fake news convido o leitor a embrenhar-se nesta obra-prima, é mesmo de leitura obrigatória. 


                                                                        Mário Beja Santos 

 

 


sábado, 22 de abril de 2023

O politicamente correto nesta era de fanatismos e de sapiências de ocasião.

 




 

A obra intitula-se Manual do Bom Cidadão, Para Compreender e Resistir à Cultura do Cancelamento, o seu autor é Jorge Soley Climent, professor universitário e com ativismo em várias causas, Publicações D. Quixote, 2023. O título é chamativo, e o autor abre o seu ensaio dizendo que vivemos tempos em que o pasmo se torna rotina, e pronto exemplifica: “Professores com processos disciplinares por ensinar que o sexo é determinado por um par de cromossomas, contas do Twitter suspensas por referirem que a relva é verde, violadores condenados que dizem ser mulheres para os transferirem para uma prisão feminina onde violam umas quantas reclusas…” Será que enlouquecemos todos? O autor diz que não: “Estamos agora a assistir à deflagração de algo laboriosamente preparado, algo que vem de longe.” E dá-nos a sua interpretação de como se constituiu esta nossa era do politicamente correto, apresenta alguns autores que abordam as situações paradoxais de minorias ativas, refere clássicos que denunciaram o totalitarismo comunista, vem um pouco mais atrás aos pensadores da Escola de Frankfurt que geraram uma Teoria Crítica que apontava para a demolição da sociedade, cita-se o inevitável Marx, entra em cena Marcuse, que ganhou fama e algum proveito na crise de maio de 1968, não podia faltar Mao Tsé-Tung e a sua Revolução Cultural, tudo para derrubar e construir uma nova ordem e até o pensador italiano António Gramsci tem direito à palavra, com a sua previsão de que é preciso trabalhar para uma nova cultura que substitua a velha. Em nenhuma circunstância Jorge Soley explica os fundamentos deste ordenamento para se chegar a este tempo em que minorias ativas pugnam a favor da demolição do racionalismo, dos valores solidários, e procura dar-nos um quadro caleidoscópico destas movimentações onde estarão presentes a identidade de género, o racismo, a revolução trans, a perseguição àqueles que defendem o direito de pensar livremente e aceitar as regras do senso comum, tudo tem que ser inclusão, identidade de género, o politicamente correto.

Admito que Jorge Soley acredite piamente que a sua escolha de pensadores que levaram à criação da cultura do cancelamento possua evidência científica. Ora, pensar é divergir. E um filósofo francês, Gilles Lipovetsky, que publicou em 2004 O Crepúsculo do Dever – A Ética Indolor dos Novos Tempos Democráticos, Publicações D. Quixote, já levantara exatamente esta questão na sua análise: moral laica, acabou a época do dever, vivemos numa nova ética nesta sociedade do vazio, do narcisismo, da negação da existência de significados estáveis; as nossas sociedades contemporâneas movem-se numa perda de sentido das grandes instituições morais, sociais e políticas. Lipovetsky escreve mesmo: “A era da felicidade das massas celebra a individualidade livre, privilegia a comunicação e multiplica as escolhas e as opções”; e, mais adiante: “A cultura da felicidade ‘leve’ induz uma ansiedade crónica de massa, mas faz desaparecer a culpabilidade moral.”

 O filósofo trabalha a sua análise de sociedade pós-industrial e de maneira alguma remete para o esquecimento o conceito de “pós-modernidade”. Todo este universo de transformações engendra novos estilos de vida e a restruturação das nossas escalas de valores. Lê-se Jorge Soley e fica-se com a ideia de cultura do cancelamento mistura alhos com bugalhos: técnicas de manipulação, a transformação da discordância em discurso de ódio, a multiplicação dos assassinatos de caráter nas redes sociais, tempos em que o poder político tem medo de se mostrar firme, em que o Twitter ou o Facebook rejeitaram dar a palavra a Trump, à mistura com a eutanásia e o aborto, temas que são muito caros a Jorge Soley, ele é patrono da Fundação Pró-Vida da Catalunha.

Aqui e acolá o autor encontra tremendas analogias entre estes próceres da cultura do cancelamento e as práticas comunistas. Haverá, segundo ele, uma conspiração em curso para gerar um terramoto da nossa cultura, há já colégios a queimar ou destruir exemplares de livros das suas bibliotecas escolares, a iconoclastia é mesmo isso, fazer tábua rasa do passado, destruir monumentos que possam sugerir racismo, colonialismo, religião. É bem verdade que o nosso tempo também se rege por hesitações, algumas delas permanentemente incendiadas, e ele fala nas pessoas de origem hispano-americana que vivem nos EUA, questionando se devem ser tratados por hispânicos ou latinos; há uma minoria de 5% de inquiridos que concordam em ser designados por Latinx, e uma conta satírica no Twitter aproveitou para dizer que os restantes 95% sofrem de racismo interiorizado e deveriam ser classificados como brancos. Alega o autor que o problema posto pela Teoria Crítica da Raça define implicitamente qualquer bom resultado social como uma coisa própria dos brancos. É evidente que um conjunto de instituições entra neste jogo do politicamente correto, será o caso da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood que tem novas normas desde 2020, traduzem-se em critérios que os filmes devem cumprir para serem considerados elegíveis na categoria de Melhor Filme, por exemplo: pelo menos um dos atores principais ou secundários significativos deve pertencer a um grupo social ou étnico infra representado; pelo menos 30% de todos os atores em papéis secundários devem pertencer a pelo menos dois dos seguintes grupos sub-representados: mulheres, grupo racial ou étnico, LGBTQ+, pessoas com incapacidades cognitivas ou físicas ou surdas. O mínimo que se pode dizer é que este conceito normativo é idiota e anda fora da história.

Jorge Soley detém-se na revolução trans, e questiona como é que é possível desligar género da biologia, e caricatura que na ideologia de género, uma pessoa pode levantar-se sendo um aborrecido cisgénero, passar a gender queer à hora do almoço, transsexual ao lanche, andrógino ao jantar e deitar-se como cisgénero. E dá exemplos de fanatismo, caso de uma inglesa que foi exonerada do seu trabalho por exprimir a sua convicção de que, falando em termos biológicos, por muita autoperceção que se tenha, uma mulher continua a ser uma mulher embora se declare homem. O que a levou a ser acusada de transfobia e despedida do seu emprego. A autora de Harry Potter, J. K. Rowling, também anda metida em apuros, acusada de ser transfóbica.

É evidente que o somatório destes casos nos impede dizer que se anda a fazer uma tempestade num copo de água: merece a maior as ponderações o pedido que a ideologia trans faz de abrir as prisões de mulheres a qualquer prisioneiro que se declare mulher. Como igualmente merece toda a prudência o que se está a passar no desporto feminino.

Gerou-se, pois, o imperativo de ver com novos olhos estas arremetidas do politicamente correto e o seu fervor sectário, estas manifestações de mentiras merecem objeção e discussão, nenhum de nós pode ficar à margem destes conflitos e controvérsias que podem, em última instância, minar a base da coesão.

Obra a ler com muitas reticências.


Mário Beja Santos 





sexta-feira, 21 de abril de 2023

A minha celebração do 25 de Abril.

 




    Falar em pormenor da minha participação no processo revolucionário português desencadeado pelo golpe de estado de 25 de Abril de 1974 é difícil, em virtude da gravidade e melindrosa sensibilidade da matéria, em virtude da complexidade e da extensão dessa participação, e, sobretudo, em virtude da escassez de documentação pertinente (sim: tive comigo essa documentação, mas, por cautela e a conselho de coconspiradores, que  se diziam superiormente informados, fui praticamente impelido a destruí-la, o que hoje sinceramente lamento). Em vista disso, tocar-se-á apenas naqueles aspectos que, em meu modesto entender, parecem revestir maior relevância, para além de estarem mais profunda e indelevelmente gravados na memória.

          E, sem mais preâmbulos, vamos ao relato.

     Animal político, português da diáspora, sempre com a imagem da velha Pátria entranhada na mente e no coração, há muito que me acostumara a despertar ao som do noticiário transmitido pela rádio, especificamente pela emissora de Hartford da NPR (National Public Radio). E foi ao “som do noticiário transmitido pela rádio”, no meu “sempre velho e sempre novo” Grundig, o primeiro objecto de algum valor e muita estimação que comprei nos Estados Unidos, juntamente com a Enciclopédia Britânica, em Inglês, que, na manhã de 25 de Abril de 1974, despertei, no meu apartamento de Storrs, no Estado de Connecticut. E o que ouvi pôs-me em delírio. Um grupo de jovens capitães, dizia o locutor, sem derramar uma gota de sangue, derrubara o governo ditatorial de Marcello Caetano (e de Salazar, naturalmente), com quarenta e oito vagarosos, penosos e pesados anos de duração, e prometera solenemente implantar um regime democrático em Portugal.

          Ouvida a auspiciosa notícia, sentei-me ao piano e toquei A Portuguesa, com a maior emoção. Em seguida, peguei do telefone e chamei o Dr. Adriano Seabra Veiga, meu amigo, meu médico e Cônsul Honorário de Portugal, em Waterbury, estado de Connecticut, e, ébrios de orgulho, celebrámos com lágrimas de alegria a libertação de Portugal. Nas aulas desse dia, a primeira coisa que eu dizia aos meus alunos é que Portugal, o país que me dera o berço, era finalmente uma nação livre. E nos corredores e nos escritórios dizia a mesma coisa aos meus colegas.

          No dia seguinte, sabendo da atenção e da assiduidade com que eu sempre tinha acompanhado a política portuguesa, desde que fora contratado para professor de Espanhol e de Português, na Universidade de Connecticut, em Setembro de 1969, fui convidado pelos dois principais jornais da capital do Estado de Connecticut - The Hartford Times e The Hartford Courant - para lhes dar entrevistas sobre a chamada "Revolução dos Cravos", em Portugal, entrevistas em que manifestei o meu júbilo inenarrável por um acontecimento que eu tão ardentemente desejara e por que tanto tempo ansiosamente esperara e suspirara.

          Dizer que foi com o maior entusiasmo e intensidade que passei a viver a revolução portuguesa é desnecessário. Todos os dias assistia aos noticiários internacionais da televisão e todos os dias lia The New York Times e comprava com a maior regularidade os jornais portugueses que chegavam pela TAP aos Estados Unidos no próprio dia em que eram publicados, dada a diferença de cinco horas entre Portugal e a costa leste dos Estados Unidos, onde eu vivia e continuo a viver. E, embora não tivesse planos para me deslocar nesse Verão a Portugal, a primeira coisa que fiz foi telefonar a uma agência de viagens e marcar passagem de avião para o dia a seguir à conclusão dos exames finais do segundo semestre na minha universidade.

          Os exames acabaram, as provas foram corrigidas, as notas foram dadas e eu tomei o primeiro avião da TAP a caminho de Lisboa, onde aterrei no dia 22 de Maio de 1974 e donde regressei aos Estados Unidos no dia 5 de Julho.

          Chegado ao aeroporto da Portela, a primeira coisa que fiz foi procurar um cravo vermelho. E como, para surpresa e desilusão minha, não havia cravos à venda no aeroporto, ao contrário do que as notícias que me chegavam diariamente pela imprensa, pela rádio e pela televisão, me tinham induzido a crer, dirigi-me a um soldado fardado e pedi-lhe que fizesse o favor de me presentear com o cravo que ele tinha espetado na ponta da baioneta. E o soldado deu-me o cravo, com um sorriso nos lábios, gesto que eu agradeci e retribuí com idêntico sorriso.

          De cravo vermelho na lapela do casaco, saí do aeroporto e tomei um táxi. Quando o motorista me perguntou pelo destino, eu disse-lhe que se dirigisse ao Marquês de Pombal e que daí me levasse até ao fim da Avenida da Liberdade. Uma vez lá chegados, o motorista perguntou-me onde queria que me deixasse, ao que eu respondi que subisse a Avenida da Liberdade e que depois me levasse ao Campo Grande.

          Ao acabar de proferir estas palavras, o motorista de táxi, meio perplexo, olhou para mim de uma forma estranha e perguntou-me se eu tinha muito dinheiro para desperdiçar. Respondi-lhe que não e expliquei-lhe a razão por que tinha descido e subido a Avenida da Liberdade. Tinha esperado durante tantos anos pela libertação de Portugal, que queria celebrá-la simbolicamente, apenas chegado ao meu país de origem, país que trazia sempre gravado na mente e no coração, mesmo que tivesse optado pela aquisição da nacionalidade americana, acontecida no primeiro de Maio de 1967, por conveniências cívicas e profissionais.

          Após haver passado uns momentos com minha irmã, filha da caridade, no seu convento, Casa Central de São Vicente de Paula, na Avenida Craveiro Lopes, tomei um táxi para o Sabugo, uma pequena aldeia entre Belas e Pero Pinheiro, do concelho de Sintra, onde vivia um irmão meu, com a esposa, os três filhos e a minha mãe. A todos encontrei em casa, com excepção de meu irmão, que se encontrava preso no Forte-Prisão de Caxias, desde o dia 26 de Abril.

          Não constituiu para mim grande surpresa o ver que a apreensão de minha mãe e de minha cunhada pela sorte de meu irmão não era tão grande como seria de esperar, noutras circunstâncias. É que elas, da mesma maneira que eu e o povo português, em geral, tinham sido levadas a crer, a julgar pela habilidosa e manhosa propaganda de que diariamente se faziam eco os meios de comunicação social, ferreamente manipulados pelos mandarins do novo regime, que se tratava de uma espécie de estado de asilo político para altos funcionários públicos, legionários, ministros, secretários e subsecretários de estado, altas patentes militares e grandes empresários, até ao momento, que surgiria num futuro muito próximo, dizia-se falsa e falaciosamente à boca cheia, através de uma comunicação social controlada e censurada, em que se evaporasse definitivamente uma certa fúria popular contra esses e outros servidores do velho regime político.

          Tratava-se no fundo, como me tinha sido dito pelos novos donos do poder, e como voltaria a ser-me frequentemente repetido, no futuro, de proteger esses cidadãos contra possíveis represálias por parte de meia dúzia de fanáticos e de energúmenos, maldosamente atiçados em surdina por elementos do PCP (Partido Comunista Português) e de outros partidos políticos radicais de esquerda e por muitos representantes marxistas do MFA (Movimento das Forças Armadas).

          Após o almoço, minha mãe, minha cunhada, meus sobrinhos e eu dirigimo-nos ao Forte-Prisão de Caxias, para ver se conseguíamos visitar o meu irmão. Que não era possível: que nesse dia não havia visitas; que os prisioneiros estavam de quarentena - foi-nos dito por um militar fardado, barbudo, guedelhudo e de metralhadora em punho, postado desleixada e preguiçosamente ao lado de um tanque carrancudo e ameaçador, a uns bons metros do portão do Forte-Prisão.

          Mediante tal resposta, comecei por dizer que tinha chegado dos Estados Unidos, na manhã desse mesmo dia, com uma única finalidade: a de visitar meu irmão na prisão. E como o militar ainda continuasse a dizer-me que não era possível efectuar visitas nesse dia, tirei do bolso dois recortes de jornal, publicados na cidade de Hartford, capital do Estado de Connecticut, nos Estados Unidos, com entrevistas minhas, dadas no segundo dia a seguir à revolução, no dia 26 de Abril, portanto, como foi referido anteriormente.

          Quando verificaram que nessas entrevistas eu celebrava em termos superlativamente encomiásticos a "Revolução dos Cravos" (o título de uma das entrevistas era assim: "The most beautiful coup d'état of the century"), os zelosos e fanáticos guardiães dos carcereiros e dos encarcerados do Forte-Prisão de Caxias, apearam-se momentaneamente do pedestal em que se tinham alcandorado, retiraram todas as objecções e, a título de excepção, permitiram-me, assim como a toda a minha família, uma rápida visita a meu irmão.

          Depois de termos passado por entre grades e soldados barbudos e guedelhudos, armados de iradas metralhadoras, chegámos a uma sala onde nos mandaram esperar. Passados momentos, acompanhado de dois soldados, também fortemente armados, chegou meu irmão. Separavam-nos espessas e ameaçadoras grades de ferro e grossos vidros, à prova de bala, e tornava-se impossível abraçarmo-nos. Mutuamente fizemos o gesto do abraço fraterno. E eu, ingenuamente, e na melhor boa fé, dei-lhe a entender, por gestos, que lhe queria oferecer o cravo que levara comigo, mas que não sabia como poderia dar-lho. Lembrei-me então que poderia pedir a um soldado que tivesse a bondade de lho entregar por mim. Fiz esse pedido e o soldado entrou no recinto em que se encontrava meu irmão e entregou-lhe o cravo. E a visita terminou, decorridos escassos e fugitivos minutos.

          Essa visita foi o doloroso prelúdio de outras visitas, durante o resto dessa minha estadia em Portugal e durante outras futuras estadias, por ocasião das férias de Natal e de verão, visitas que viriam a mudar de destino, que não de finalidade, à medida que meu irmão andou, como outros prisioneiros políticos portugueses, de Pilatos para Caifás, quer dizer, de prisão para prisão, passando do Forte-Prisão de Caxias para a Penitenciária de Lisboa, da Penitenciária de Lisboa para o Forte-Prisão de Peniche, do Forte-Prisão de Peniche para o Estabelecimento Prisional de Monsanto, e do Estabelecimento Prisional de Monsanto finalmente para a liberdade, depois de um julgamento perfuntório, com louvores do juiz, uns vinte e oito meses mais tarde, após o encarceramento. Encarceramento puramente discricionário, facto de que eu - e todos os que tivessem olhos para ver - viria a ter provas irrefutáveis, à medida que o tempo passava.

          Foi por ser testemunha ocular desse procedimento, por parte dos vários governos que se foram formando e caindo, que eu comecei a repensar a Revolução de Abril e que fui concluindo, pouco a pouco, com demasiada lentidão, infelizmente, devido à minha proverbial ingenuidade, que não era essa a revolução com que eu poderia continuar a identificar-me, com o entusiasmo e o fervor com que me identificara com ela nos primeiros tempos. Si parva licet componere magnis (Se é lícito comparar as coisas pequenas com as coisas grandes), também eu diria, amargurado e triste, com Ortega y Gasset, perante o malogro que foi a Segunda República Espanhola (1931-1939), por cujo advento ele valente e denodadamente pugnara: “no es esto, no es esto.”

          Tinha eu regressado aos Estados Unidos e meu irmão continuava na prisão, à espera de uma acusação formal que nunca chegava, porque afinal não existia causa-crime para se poder fazer essa acusação.

           Um belo dia, por fins de Novembro de 1974, resolvi escrever uma carta ao Presidente da República Portuguesa, já então o General Costa Gomes, pedindo-lhe que mandasse proceder ao julgamento de meu irmão, se achava que ele tinha cometido algum crime, ou então que o mandasse pôr em liberdade. Era assim que se agia nos países civilizados e genuinamente democráticos - dizia eu nessa carta. E era assim que estava exarado na Carta das Nações Unidas, de que Portugal galhardamente se orgulhava de ser um dos países signatários, a partir de 1955.

          O tempo passava e de Lisboa não chegava qualquer resposta à minha carta. E foi assim que, tendo sido convidado pelo Embaixador de Portugal às Nações Unidas, Professor Veiga Simão, e pelo Cônsul Honorário de Portugal, em Waterbury, a representar a comunidade luso-americana do meu Estado, Connecticut, por ocasião do discurso do Presidente de Portugal, General Costa Gomes, nas Nações Unidas e da recepção dada por ele à comunidade portuguesa nos Estados Unidos, no Hotel Astoria de Nova Iorque, levei comigo uma cópia dessa carta e, no momento em que o cumprimentei, fiz questão de lha mostrar, de lhe dizer por alto do que se tratava e depositá-la nas mãos de um dos seus assessores. Só passados uns três meses é que recebi uma resposta a essa carta, do punho de um tal Capitão Geada. Resposta muito vaga, pelo que se referia à sorte de meu irmão, prisioneiro político, mas muito concreta pelo que se referia ao meu empenho pelo triunfo da revolução portuguesa, como constava dos recortes de entrevistas dadas por mim a prestigiosos jornais dos Estados Unidos, recortes que eu tinha enviado, em anexo à cópia da carta que escrevera ao Presidente da República Portuguesa, General Costa Gomes.

 

                                                                                           António Cirurgião