quinta-feira, 9 de março de 2023

São Cristóvão pela Europa (209).

 


 

Segóvia é uma cidade da Comunidade Autónoma de Castela e Leão, capital de província e declarada Património da Humanidade pela UNESCO.

Nela avultam os seus belíssimos alcazar e aqueduto romano:





São numerosas as igrejas românicas. Distingue-se a Igreja de San Millan construída no Século XII. Que nos revela uma enorme surpresa.




Um fresco de São Cristóvão cinocéfalo! Ou seja, com cabeça de cão.

Já qui mencionei representações de São Cristóvão com cabeça de cão. Em especial no Oriente e no contexto da Igreja Ortodoxa. Mas é o primeiro que encontro em plena Europa Ocidental e no centro da Cristandade. Esta imagem relaciona-se com o mito, também justificado pelo seu gigantismo, de que São Cristóvão pertencia, antes da conversão, a tribos meio animais e mesmo canibais.





Edward Wilson-Lee no seu recente livro “A torre dos segredos”, sobre Luís de Camões e Damião de Góis, aborda o tema.

Segundo Luís de Camões, o s navegadores portugueses teriam ficado muito chocados com os deuses indianos muitas vezes com traços animalescos ou sendo figuras híbridas de animal e ser humano. Se lermos as estrofes 47 e 48 do Canto VII dos Lusíadas vemos registadas estas impressões:

47

Ali estão das deidades as figuras

Esculpidas em pau e em pedra fria;

Vários de gestos, vários de pinturas,

A segundo o Demónio lhe fingia:

Vêem-se as abomináveis esculturas,

Qual a Quimera em membros se varia:

Os Cristãos olhos, a ver Deus usados

Em forma humana, estão maravilhados.

 

48

Um na cabeça cornos esculpidos,

Qual Júpiter Amon em Líbia estava;

Outro num corpo rostos tinha unidos,

Bem como o antigo Jano se pintava;

Outro com muitos braços divididos

A Briareu parece que imitava;

Outro fronte canina tem de fora,

Qual Anúbis Menfítico se adora.

 

A tese de Wilson-Lee é que se trata de um manifesto exagero porque também existiam na Igreja cristã representações com características animalescas. Cita os exemplos das imagens dos evangelistas representados por animais e o da Igreja de San Millan em Segóvia, onde existe este São Cristóvão cinocéfalo.

 

Não muito longe, Medina del Campo é a cidade onde em 26 de Novembro de 1504 morreu Isabel a Católica.

 


 

A Colegiada de San Antolin, um dos principais monumentos da cidade, adquiriu a sua estrutura actual no Século XV. Foi elevada a Colegiada pelo Papa Sixto IV em 1480, a pedido dos Reis Católicos.

À entrada, um fresco muito deteriorado de São Cristóvão, de grandes proporções como habitualmente:






                         Fotografias de 25 de Fevereiro de 2020 e 20 de Fevereiro de 2023

 

                                                                                                             José Liberato

 


terça-feira, 7 de março de 2023

A Pintura Moderna Vista Por Um Nazi (português).

 





 

 

Numa das minhas incursões pela Feira da Ladra encontrei um livrinho encadernado, o título prontamente me chamou à atenção, fui levado a supor que se prendia com uma conferência feita por um prosélito nazi sobre o que eles pensavam da arte moderna, e que dera mesmo origem à queima de obras de arte e a uma exposição intitulada “A arte degenerada” exibida por todo o Terceiro Reich, como manifestação da barbárie e até da conspiração judaica mundial.

É nisto que vejo o autor da obra, Arnaldo Ressano Garcia, conferência realizada em abril de 1939 na Sociedade Nacional de Belas Artes. Ressano Garcia era um ultraconservador, abominava o futurismo, qualquer manifestação de cubismo expressionismo, tratava Almada Negreiros como um louco, entrou em polémica com o Cardeal Cerejeira por causa da Igreja de Nossa Senhora de Fátima como irá entrar em polémica pelas teses vencedoras de António Ferro quanto às artes plásticas na Exposição do Mundo Português. Ressano Garcia tinha currículo:

Docente da Escola do Exército, Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa; dirigente da Sociedade Nacional de Belas Artes; docente de Astronomia, Geodesia e Topografia no curso de Engenharia Militar; profissão: artista plástico e caricaturista.

O exemplar que adquiri tem a dedicatória ao poeta Cardoso dos Santos, resta saber se foi este senhor que mandou encadernar os textos da conferência e deliberou tratar Ressano Garcia por nazi. Este coronel do exército português viajou até Paris, visitou a Exposição Universal de Paris de 1937, e seguramente museus e outros institutos de cultura. Adverte-nos no prefácio: “Conheci lá fora os bastidores de certas manifestações e o desgraçado caminho tomado pela pintura impropriamente chamada avançada, num regresso repugnante para a selvajaria, glorificando-se a ignorância e a degenerescência, verdadeira afronta.” Na primeira parte da sua conferência, este artista plástico e caricaturista já esquecido procura dar uma lição sobre a história de arte e quando chega ao Modernismo, diz que na Alemanha os museus se tinham enchido das mais espantosas aberrações, mentais e sexuais, e exalta Hitler:

“Hitler é um artista candidato a uma escola de Belas Artes e nunca um simples pintor de tabuletas, como malevolamente se espalhou. Compreendendo quanto prejudicial seria aquela degenerescência nas artes para o bom nome da cultura alemã, manda limpar os seus museus de todas as imundícies artísticas que o desvairamento iconoclasta havia imposto. Nomeia, para tal fim, uma comissão de indivíduos da mais alta competência artística e honestidade de caráter. A maioria dessas obras é mandada queimar. Com as outras, as escolhidas, as menos horrorosas, forma-se um museu que se intitula ‘O Museu da Arte Degenerada’. Quando algum artista estrangeiro deseja realizar na Alemanha uma exposição das suas obras, tem de as sujeitar a uma prévia censura artística por parte da mesma comissão. Hitler não descansa, torna-se, e cada vez mais, exigente. Quer que a Alemanha nova, a do seu tempo, apresente só artistas insignes.”

Ressano Garcia também não é peco a falar do Futurismo em Itália, diz que Mussolini fracassou deixando estes artistas de vanguarda à rédea solta. Não deixa de zurzir o Pavilhão de Espanha, “onde toda a charlatanice de Picasso campeava à vontade”. Entende discretear sobre a responsabilidade dos comerciantes da arte, atribui-lhe uma grande responsabilidade na propaganda à arte degenerada. Não se conforma com os disparates de Rodin, sente-se à altura de proferir juízos definitivos sobre este génio da escultura: “Rodin só foi sincero e gigante exatamente na parte séria da sua obra. Na parte filosófica, embora sempre de maravilhosa técnica, a sinceridade na ideia é, em geral, nenhuma. Executava uma estatueta, contorcida e estranha, só pelo prazer de vencer dificuldades de atitudes e de movimento. Depois, aguilhoado pelo tal cabotinismo, ele, ou algum dos seus amigos, compunha o título filosófico, a legenda que melhor se casava com a produção.” Também não deixa de vergastar a arte de El Greco ou a de Goya. E chega o momento de falar sobre a responsabilidade de um comerciante (um marchand) de arte, Ambroise Vollard, velho traficante de quadros, judeu, grande admirador e amigos dos mais célebres artistas da vanguarda.

Entrando nas conclusões, faz advertências ao Governo, este deve firmar-se num nacionalismo vigoroso e sensato. Remete uma mensagem aos artistas portugueses: “devem todos pôr os olhos na corrente mórbida, que devasta as artes plásticas, lá por fora, não para, cegamente, a canalizarem também, para nós, mas, ao contrário, para, à força de razão, estudo, talento e patriotismo, lhe oporem um dique, inexpugnável.”

Porque tínhamos grandes mestres de pintura, e elenca-os: Domingos Sequeira, Vieira Lusitano, Vieira Portuense, Cristino da Silva, Anunciação, Lupi, Silva Porto, Columbano, Malhoa, Luciano Freire, Roque Gameiro e Condeixa. A partir destes, era como se tivesse chegado um deserto de tártaros. E lança ao público a sua tremenda mensagem, o seu desmedido apelo:

“Unamos todas as nossas forças artísticas, todas as nossas energias, todas as nossas inteligências, na ideia de elevar ao máximo a Arte Portuguesa!

Não sejamos, nem contra o classicismo, nem contra o romantismo, nem contra o realismo, nem contra o modernismo, mas em compensação, unamos todas as nossas forças artísticas, todas as nossas energias, todas as nossas inteligências contra a invasão atual do… intrujismo!”

Ressano Garcia fazia circular pela assistência duas provas de degenerescência e intrujismo, duas aberrações de Picasso, falando de “La femme qui pleure”, de 1937, faz a seguinte observação: “É a este o ideal que certos amadores do intrujismo desejam para a pintura do novo Portugal”. 


                                                                                   Mário Beja Santos 



Caricatura de Salazar por Arnaldo Ressano Garcia 






quinta-feira, 2 de março de 2023

Português, quem és tu?

 



 

 

O mínimo que se pode dizer da mais recente incursão do pensador e ensaísta Marcello Duarte Mathias é que concebeu e concretizou uma antologia do pensamento nacional contemporâneo de uma forma perfeitamente original: O Português visto por (alguns) Portugueses, Publicações Dom Quixote, 2023. É uma leitura que não deixará ninguém indiferente pelo acicate reflexivo a que nos obriga, momentos há em que andaremos por ali a rabiar, numa tentativa de formar uma opinião consistente sobre o que é ser português, com tais e tantas poliédricas opiniões.

A subtileza é a de pôr ao despique um conjunto de autores dos séculos XX e XXI, desde os finais da monarquia até ao tempo presente, dá-se a cada um dos autores antologizados a oportunidade de tratar perfis, ressaltar qualidades e defeitos, virtudes e imperfeições, sobre o que antigamente se chamava a alma portuguesa; há mesmo gente intempestiva e detentora de desabafos brutais, no final, cada um deles dá um contributo para que o leitor se avenha com a resposta que lhe aprouver, a cada um de nós cabe sentenciar quanto à individualidade do português e se ele possui mesmo um caráter distintivo, no arrebol de tantos olhares. Chegamos ao final da leitura e está tudo fica em aberto.

Quem lê esta magnífica e caleidoscópica antologia tem tudo a ganhar com a bem esboçada introdução onde o autor explica os propósitos do seu cometimento de coligir reflexões sobre isto de se ser português, dá as suas razões sobre a seleção dos antologizados que não é arbitrária, alguns deles faleceram antes do Estado Novo, a generalidade deles foram contemporâneos do Estado Novo, temos depois o 25 de Abril; é, pois, uma galeria versátil, há a melancolia de gente da Direita assumida, gente que mudou de opinião e que participou em tempos de oposição e que se veio a sentir desadequada nos ziguezagues da democracia, o que dá azo para que em dado momento o autor observe: “A frustração das elites para com o país é uma constante histórica e fundamenta essa espécie de desajuste insanável que se estabeleceu ao longo dos tempos entre o país e aqueles que o representam no campo da cultura. Acresce que em Portugal, como se sabe, não há escol, é outra das nossas particularidades – a própria noção é desvalorizada por certas formações ideológicas como pertencendo a uma visão retrógrada do que deve ser a sociedade; seja como for, existem, sim, individualidades que se impõem nos seus respetivos domínios por mérito próprio, as mais das vezes de forma isolada, sem apoios e sem aplausos. Paralelamente, é coisa conhecida, nós somos o povo que mais mal diz de si próprio, verdadeiro desporto nacional, e são com frequência os estrangeiros, que nos conhecem e nos estimam, os primeiros a assinalar as nossas qualidades.”

O leitor não deixará de se impressionar com a gravidade dos queixumes e a pronta firmeza com que a generalidade destes autores revela nostalgia pela pátria, ninguém desdenha do patriotismo, apesar dos azedumes.

Discreteia o autor sobre a psicologia do português, logo a sua mansidão, o fugir às belicosidades, o ser mais reativo do que empreendedor. Mas há os rasgos empolgantes, e a referência que o autor escolhe é a travessia aérea do Atlântico Sul, por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. E há um aspeto a considerar, ver a História como um fantasma que não morre: “São numerosos os autores aqui presentes que de uma forma ou de outra a essas coisas do passado se referem – de Fernando Aires a Franco Nogueira e Raúl Brandão, de Miguel Torga a Vergílio Ferreira e Aquilino Ribeiro, de Agostinho da Silva a Teixeira de Pascoais e Manuel Alegre.”

Estamos agora comprometidos com o ideal europeu, somos maioritariamente liberais e o impacto da globalização não nos parece afetar. O autor questiona esta Europa, tem bases para o a fazer, exerceu a diplomacia, conhece os bastidores da política, está profundamente estruturado para falar sobre estes desafios europeus no contexto da nossa continuidade histórica, alude com serenidade à dominante pessimista de uma boa parte destes testemunhos aqui registados, vê muita inquietação quanto ao destino do nosso país, reconhece em todos o que há de mais afincado na portugalidade: “Retrato crítico, sem dúvida, dilacerado tantas vezes; impregnado, porém, de uma profunda fidelidade ao que somos e ao que não podemos deixar de ser.”

E mergulhamos então nesses retratos críticos, cada um de nós que junte as peças: “Coragem, Portugueses, só vos faltam as qualidades”, Almada Negreiros; “Povo tradicional, mas extraordinariamente poroso às influências alheias; povo convivente, mas facilmente segregável por artes de quem o conduz ou se propõe conduzi-lo”, Manuel Antunes; “Os portugueses são várias coisas, são muitas coisas. São muito velhos por causa da História, são novos porque estão a aprender. Isto cria uma contradição dentro de cada um de nós. São pobres e pequenos – porque o país é pobre e pequeno – mas, como têm as mesmas expetativas que os noruegueses e canadianos, são muito ricos em expetativa”, António Barreto; “O divórcio entre os homens políticos e os homens de cultura tem sido uma das ruínas deste país” – João Bigotte Chorão; “Coberto de luto, suporta mal o sol africano que coze o pão na planície; mais a norte veste-se de palha e vai atrás da cabra pelas fragas nordestinas. Empurra bois para o mar, larva sargaços; pesca dos restos, cultiva na rocha. Em Lisboa, é trepador de colinas e de calçadas; mouro à esquina, acocorado diante do prato. Em Paris e nos Quinto dos Infernos toca-a-tudo e minador. Mas esteja onde estiver, na hora mais íntima lembrará sempre um cismador deserto, voltado para o mar”, José Cardoso Pires; “Os portugueses odeiam-se tanto uns aos outros que têm dificuldade em admitir que se possa gostar deles”, José Cutileiro; “Portugal define-se melhor como uma ideia que, de vez em quando, alguns portugueses têm”, Miguel Esteves Cardoso; “O português revê-se no pequeno, vive no pequeno, abriga-se e reconforta-se no pequeno: pequenos prazeres, pequenos amores, pequenas viagens, pequenas ideias”, José Gil; “Camões fez mais do que pintar-nos. Deu-nos o palco do mundo, celebrou nele a nossa aventura descobridora e simbólica em tais termos que não parece ter deixado outra alternativa como entidade coletiva do que refazer sem fim a viagem do Gama, ou ficar de braços cruzados na praia deserta do Restelo a lamentarmo-nos do que fomos e já não somos, assistindo humilhados à aventura dos outros. Foi o que Pessoa quis dizer, quando escreveu que depois da descoberta do caminho marítimo para a Índia os portugueses ficaram sem emprego”, Eduardo Lourenço.

O leitor que se prepare para entrar numa montanha russa de opiniões, pode dela não sair de bem consigo, mas não se esqueça do que diz Miguel Torga: “Somos, socialmente, uma coletividade pacífica de revoltados.”

Leitura imperdível.


                                                                            Mário Beja Santos 







sábado, 25 de fevereiro de 2023

São Cristóvão pela Europa (208).

 

 

Madrid, como muitas outras cidades europeias, contribui largamente para a iconografia do nosso Santo. Mas há sempre a possibilidade de encontrar mais imagens.

O museu Lázaro Galdiano é pouco conhecido. Situado na Calle Serrano foi instituído por José Lázaro Galdiano (1862-1947), editor literário e homem de finanças, casado com rica herdeira argentina. Coleccionador compulsivo, reuniu um acervo de enorme qualidade no domínio da pintura e das artes decorativas em geral.

 


 

O Museu possui um óleo muito interessante do primeiro quartel do Século XVI de autor anónimo, representando Cristóvão Colombo vestido com o hábito de Almirante sobre a armadura, o nosso Santo e a Virgem Maria. Ao fundo, a Catedral de Santo Domingo, a primeira cidade cristã da América. É Intitulado A Virgem de Cristóvão Colombo

 


Perto de Barajas, que dá nome ao Aeroporto Internacional de Madrid, ergue-se a cidade de Pegaso, construída para alojar os trabalhadores da fábrica espanhola de automóveis, camiões e autocarros que existiu entre 1946 e 1990 data em que foi adquirida pela italiana IVECO. A Igreja paroquial é dedicada a São Cristóvão.

No seu interior uma estátua de madeira de grandes dimensões:




 

No exterior, um cruzeiro datado de 2010, contendo a imagem de São Cristóvão:

 







                                                            Fotografias de 19 de Fevereiro de 2023

 

                                                                                                José Liberato

Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos, com o desnorte na alma.



 

Guardo num bloco um registo de certas frases que me parecem merecedoras de alguma visita, com ou sem propósito de estado de alma, esta devo-a Chico Buarque, meu músico e escritor de eleição: “Solidão não é o vazio da gente ao nosso lado… isto é circunstância. Solidão é muito mais do que isto. Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.” Ocorreu-me este aforismo a propósito do belíssimo ensaio de Ana Margarida de Carvalho intitulado Viver Só, Portugueses esmagadoramente sós, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2023. É talvez porque há uma certa parentela entre viver só e sentir solidão. Não é obrigatório, viver só pode ser opção, contingência dolorosa, o resultado de um exilio, de uma separação, de um estado de abandono; enquanto a solidão é uma dor, uma apoquentação em permanência, os líderes políticos, financeiros, militares ou religiosos sentem-na na pele, é por vezes na mais completa das solidões que se tomam medidas de peso para a vida de muitos outros, cabendo-lhes o ónus total dessas decisões, não podem ser partilhadas em termos de responsabilidade.

Esta autora, uma magnífica revelação na escrita, estruturou de forma aliciante a trajetória do ensaio. Temos cada vez mais idosos, ninguém desconhece tal realidade, cerca de meio milhão de idosos sós, vai dentro da tendência europeia, mas parece que queremos tomar a dianteira. E dá-nos elementos factuais dignos de ponderação: o envelhecimento populacional, a litoralização do país, o aumento da esperança de vida, a drástica diminuição da natalidade, o facto de existirem, hoje, mais divórcios e muito menos casamentos – esta gama de fatores conflui para um conjunto recorde de mono-agregados. E não se esquece de elencar quem vive só: por vocação, autónomos por predisposição, celibatários por aptidão, isolados por circunstâncias, infortúnios vários, entre os perenes até aos transitórios. E dedica o seu ensaio às 1.027.924 pessoas que vivem só em Portugal.

Quando procuro estudar a realidade do envelhecimento e os quadros de vida solitária, procuro reter um dado influente nas sociedades de países mais desenvolvidos que é o hiperindividualismo que leva à quebra de laços, às responsabilidades de vida em comum a favor de relações impessoais, pragmáticas ou assentes em redes sociais. E bem elenca a autora os matizes da solidão, porque não há solidão, há solidões, não esquecendo mesmo obras literárias relevantes centradas em contextos de solidão, um desses expoentes foi José Saramago que compôs uma galeria de personagens solitárias, pega mesmo nessa obra-prima que é O Ano da Morte de Ricardo Reis onde há uma expressiva definição: “a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio de uma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz”.

Também nos esclarece que pode haver uma larga distância entre estar só e estar sozinho. A generalidade das pessoas temem a solidão, recordem-se das manifestações durante o período mais aceso da pandemia da covid e as formas bem imaginosas como todos nós procurámos estender as mãos, desde as salas de música que ofereceram récitas e concertos gratuitos, canais televisivos que puseram à disposição do público programas que tinham tido êxito no passado, espetáculos engenhosamente preparados com cada um dos artistas em sua casa, não faltou bailado e cantores na rua para fustigar a solidão. E depois há a informação médica que é devastadora para quem vive em solidão, contraem-se mais doenças, pode crescer até a propensão para o suicídio. E os investigadores questionam o que verdadeiramente está por detrás desta era de comunicação e em que os laços humanos, paradoxalmente, se desgastam ou puramente se ignoram. E não podemos igualmente esquecer que há vidas em que a solidão parece satisfatória e até necessária.

Chegou a hora de pôr protagonistas em pleno palco, vozes isoladas mas também iremos conhecer o SOS Voz Amiga, uma linha preventiva e de apoio em que os voluntários apenas lidam com solidão, angústia, tristeza; iremos conhecer a aldeia das mulheres sozinhas, mais propiamente A Aldeia das Mulheres Divorciadas, é bom ver estes testemunhos para entender como o nosso mundo é versátil e a gente à procura de estacionar em locais onde se sinta bem, onde campeie a amizade.

Mas não é possível ignorar as plataformas de encontros, o Tinder é o mais famoso veículo em Portugal, ouvem-se testemunhos, conhecem-se sonhos e ilusões. Fica-se com a ideia que Ana Margarida de Carvalho abriu em toda a sua extensão a angular sobre o conhecimento de quem vive só, como se confronta com a solidão e como se buscam novas partilhas, colhe mesmo o testemunho da vida de faroleiro, acabamos por descobrir que é a profissão que é tudo menos solidão e contemplação, há muitíssimo para fazer e seguramente que não é por acaso que é profissão que passa de pais para filhos, talvez por se ganhar um sentido de devoção e respeito pelo mar, por se aprender a desenvolver a imaginação, o mar torna-se incansável. Alguém que viveu no farol do Cabo Carvoeiro não se inibe em dizer que ainda tem memórias de ver e ouvir a maresia bater nos vidros do quarto em dias de tempestade, ainda recorda o som do ritmo cadenciado do rebentar das ondas deitado numa praia em dias da acalmia, concluindo: “No fundo, a solidão nunca passou por mim. Provavelmente esteve lá. Mas nunca a senti. Ou, por outras palavras, fez-me sempre boa companhia.”

E há quem se envolva em projetos, caso da Associação Salvador (a sua missão é promover a inclusão de pessoas com deficiência motora na sociedade e melhorar a sua qualidade de vida); fala-se no projeto Conversas Com Alma, da Associação Salvador, e ouvimos o depoimento de um tetraplégico, afinal há casos felizes, dois portadores de deficiência superaram preconceitos.

É um belíssimo ensaio sobre o quanto viver sozinho é diferente de se sentir sozinho. “A experiência de solidão é tão individual e privada que se torna quase indefinível. Como se poderá ler relatos de vidas solitárias aqui expostas, viver só pode ser um privilégio, uma questão de liberdade irrenunciável ou uma dor profunda irreversível. A solidão pode ser desde sempre ou para sempre.”

De leitura obrigatória.

  

                                                                                            Mário Beja Santos


domingo, 19 de fevereiro de 2023

Porque era ele, porque era eu.

 




 

1 – Este blogue chama-se Malomil porque, há alguns anos, eu e o João Pedro George (JPG) assim o baptizámos. Passávamos os dois, já noite alta, pela Mouraria, Rua do Benformoso, quando ali tropeçámos no reclame luminoso de um distinto estabelecimento de quinquilharias, propriedade do não menos distinto e porventura já saudoso Manuel Alonso Misa. Assim ficou este nome Malomil: copiado, apropriado, descaradamente plagiado – e ainda hoje são muitos os que me enviam fotos da montra do Malomil, Lda., julgando tratar-se de feliz e fortuita coincidência…

 

2 – No tempo áureo dos blogues, mais sadio e interessante do que este agora do “Face” e das redes, o Malomil era um projecto pensado e criado a dois, ou mesmo três, já que o Diogo Ramada Curto também tencionava juntar-se ao grupo, na veste ou traveste de Padre Lagosta, seu herói da pluma. Como em várias outras ocasiões (por ex., na escrita do livro Da Direita à Esquerda, em que a ele competia ter feito um Da Esquerda à Direita), JPG deixou-me na mão e sozinho, mas não menos seu amigo, que o sou deveras e muito – e há muitos e muitos anos. Daí o título deste escrito, que plagiei de Montaigne, sem citar edição e página.

 

3 – Está feita a declaração de amizade, que não de interesses, porque o JPG  não os tem, sendo essa, aliás, uma das suas principais qualidades: em tudo quanto  opina e escreve, jamais o vi movido por intenções escondidas ou propósitos obscuros de servir a Abel ou Bento, de maldizer Sicrano em benefício de Beltrano. Quem age como ele, no métier e no estilo, na implacável ética dos que aspiram a malditos, não faz “amizades” nem “pontes”, dessas que dão lugares e empregos, cátedras na academia, presença assídua nos media, almocinhos e jantares. E isto tem de ser dito, precisa mesmo de ser dito: em JPG, tudo leva e come em igual medida, num salutar exercício de cacetada ecuménica, lapidarmente democrática, que nem os amigos poupa. Há nisso muita coragem, talvez loucura, mas há nisso também, goste-se ou não, uma independência de carácter e uma transparência de intenções que não são raras – são únicas, absolutamente únicas, num meio paroquial feito de cunhas, vaidades, invejas e muitas capelas. E não deixa de ser curioso, caricato até, observar os que ontem se compraziam com as suas impetuosas críticas, louvando-lhe o génio e o arrojo, calarem-se quando lhes toca e magoa (e em surdina almejarem-lhe a desgraça e queda). Quer dizer, sejamos honestos, sobretudo com nós próprios: quem flagele JPG, no modo como ele se posiciona e opina, não pode depois dizer que a sua voz, mesmo que excessiva e por vezes abusiva, é “necessária” e “saudável”, “imprescindível”, a bem do asseio do nosso meio cultural e literário.

 

4 – Acumulada durante anos de raiva e ranger de dentes, a vingança contra JPG serviu-se agora, mais morna do que fria, sob a forma de um artigo no Expresso a propósito da sua biografia de Pessoa, O Super-Camões.

Sobre esse inacreditável e miserável texto, assinado pela jornalista Luciana Leiderfarb, há que dizer sem rodeios que:

 

a) –  é mentiroso, descaradamente falso e inverídico, pois afirma, e cito, que, na obra de JPG, “a biografia de Zenith apenas consta, genericamente, da bibliografia listada no fim do livro, e só na versão portuguesa” (sic). Ora, logo na página 20 do livro de JPG a bio de Zenith é citada, como, de resto, também nas páginas 406 ou 880. Aliás, os trabalhos de Richard Zenith são citados mais de 30 vezes – 30 vezes! – na biografia de João Pedro George. A par disso, Luciana Leiderfarb trunca e deturpa as respostas que JPG lhe enviou: este considerou “ridícula” uma afirmação de Cavalcanti, baseada em Botto (ver aqui); Luciana corta e amputa, para fazer parecer que JPG considera “ridícula” a discussão sobre a sexualidade de Pessoa e todos os seus protagonistas, o que é falso e abusivo, eticamente abjecto;

 

          b) – é canalha, pois que a sua autora (e autora de uma reportagem há pouco alvejada por JPG, mandando a ética que os leitores o saibam), pretende figurar como uma neutra e imparcial “comparação” entre dois livros aquilo que é, do princípio ao fim, uma mal disfarçada tentativa de assassinato de carácter, sabendo-se de antemão que lamas como esta são indeléveis e irreversíveis, colando-se aos visados como uma segunda pele ou como o fumus da eterna dúvida, que de futuro será recorrentemente lembrada.   

Diz Luciana que “o Expresso falou com ambos”, mas um deles, Richard Zenith, é apresentado como “especialista na obra e no espólio pessoanos há três décadas”, que “trabalhara 12 anos no volume de mais de mil páginas, que veio actualizar e ampliar as abordagens do género anteriormente feitas e acabou sendo finalista do Prémio Pultizer”, enquanto o outro, JPG, autor de diversas biografias, com obra mais extensa e variada do que a de Zenith, surge descrito, sem mais, como “crítico literário e sociólogo”. De um lado, um colosso; do outro, um gaiato. Bastaria isso, não mais do que isso, para desqualificar o artigo com que Leiderfarb analisa os dois livros e com que o Expresso, até com chamada de 1ª página, pretendeu fazer passar por “reportagem” aquilo que é, no fundo, o artigo de opinião que Richard Zenith não teve a lisura nem a coragem de ousar escrever. Fazê-lo implicaria descer do pedestal em que pretende situar-se, rebaixar-se ao nível de JPG, cujo livro, todavia, esmiuçou ao milímetro. Depois, foi fácil arranjar uma jornalista que lhe fizesse o serviço e um jornal que o patrocinasse, na mira do escândalo e das vendas. O descaro é tal que a própria Leiderfarb confessa, e cito, que “só um pessoano munido de uma lupa” poderia detectar os erros de JPG, reconhecendo, no fundo, que se limitou a ser um alter ego ou heterónimo de Richard Zenith. Para disfarçar a coisa, e como compete, lá está a frase “quando o Expresso abordou Richard Zenith…”, como se não tivesse sido ele a engendrar a marosca, do princípio ao fim, e a produzir o essencial do texto da jornalista-ventríloqua.

Diz Luciana que, no seu artigo, se confrontam as duas obras, mas isso é mentira, uma falsidade abjecta: o livro de JPG é sempre colocado ao lado, ou em baixo, do de Richard Zenith, mas este não sofre uma só crítica, uma beliscadura sequer, jamais sendo escrutinado nas suas virtudes e defeitos, que também os tem, seja nas propostas interpretativas que faz, alvo de controvérsia, seja nas fontes em que se apoia e não cita (v.g., os “ensaios luminosos” de Robert Bréchon), seja nos erros que naturalmente comete, e que Luciana obviamente papa (ex., dizer que Pessoa não tinha telefone em casa, o que a sobrinha do poeta desmente), próprios de qualquer empresa humana, decerto, mas menos desculpáveis num especialista de três décadas na vida e obra de Pessoa, sobre a qual escreveu – e nada custa reconhecê-lo – uma biografia notável, que por muitos e muitos  anos ficará como referência dos que se interessarem pelo autor de Mensagem.  

  

c) – o artigo é também cobarde e desonesto, porque insinua o plágio, não o dizendo, ou seja, sem ter a coragem de proclamar a fraude, tão-somente sugerida – no fundo, sem ter a coragem que JPG indiscutivelmente teria e aliás já teve em ocasiões várias, algumas das quais lhe valeram o chamamento à justiça, entre mil outros dissabores e dores.

Luciana fala de “semelhanças flagrantes”, mas o que encontra é, pasme-se, a afirmação de que, lá na ponta da África meridional, ao Cabo Agulhas, começa o Índico e termina o Atlântico. Segundo ela, portanto, tendo Zenith escrito que “Cabo Agulhas, onde oficialmente o Atlântico acaba e o Índico começa”, George teria a obrigação de citar a fonte, pois teve o desplante de afirmar que o dito do Cabo Agulhas é “onde o Atlântico termina e o Índico começa”. Eu nunca estive no Cabo Agulhas para dizer se sobre ele se poderia dizer algo mais do que esta obviedade geográfica, que Zenith aliás chupou, ipsis verbis, de uma obra sobre… submarinos no Índico. Quer-me parecer, no entanto, que, pelo exigentíssimo critério de Leiderfarb, que impõe citação e nota até para banalidades de Wikipédia, muito pouco se aproveitaria do que é escrito nos nossos jornais e nas nossas academias.

Por exemplo: há dias, publiquei no Expresso, versão online, o obituário da Rachel Welch; como nunca tive a dita de a conhecer pessoalmente, com grande pena, baseei-me na Wikipédia, no The New York Times, no que disseram sobre ela os jornais portugueses e estrangeiros, num ou outro link ou site. Possivelmente, provavelmente, e como em todos os textos que vou publicando no Diário de Notícias, no Público, na Mensagem de Lisboa, na LER, na Almanaque, etc., usei expressões alheias, frases de outros autores e contextos, talvez na íntegra, mas não os citei (com pena: quem me conhece sabe que sobrecarrego os meus textos com escusadas notas e referências). Pelo crivo de Leiderfarb, serei um plagiador e dos reles, sobrando-me tão-só o consolo de, nessa minha desventura, merecer a companhia de muitos, quase todos. Na última edição do Expresso, um belo artigo sobre Sá Carneiro chamava-lhe, em título, “um meteoro na política”, faltando portanto dizer que, em 1992, José Freire Antunes publicara uma bio de Sá Carneiro intitulada “um meteoro nos anos setenta”. E já que falamos dos astros, o Expresso/Blitz apelidou António Variações de “cometa”, expressão já usada, anos antes, no Diário de Notícias (“passou como um cometa pelo panorama pop/rock”) e, depois, no Público (“o cometa que iluminou a música portuguesa”) e na publicidade de uma sua biografia (“foi fugaz como um cometa”).

Por este novel critério do Cabo Agulhas, seriam de facto poucos, quase nenhuns, a bordejarem o Cabo, cabendo também dizer-se que a própria Luciana Leiderfarb, tão exigente, é igualmente dada à paráfrase e ao pastiche, já que ainda há dias descreveu o apartamento nova-iorquino de Norman Mailer e a sua “vista monumental sobre a baixa de Manhattan” na esteira da “panoramic view of lower Manhattan”, de um artigo na Paris Review, que cita, sem que isso a redima daquilo que a própria designa, a propósito de JPG, de “semelhança flagrante”. Como é evidente, nem Zenith nem JPG estiveram no Cabo Agulhas, nem Luciana era visita de casa de Mailer em Nova Iorque: baseiam-se todos no que outros viram e disseram por eles, e muito bem. Lembrai-vos, irmãos, da velha máxima, vinda de tempos bíblicos: quem copia um, é plagiador; quem copia vários, é investigador.  

          Além do Cabo Agulhas, notou Zenith, ou Luciana por ele, que existem “semelhanças flagrantes” com a descrição feita de um encontro, num “americano”, entre o padrasto e a mãe de Pessoa. A notícia desse encontro fora dada há muitos anos, em 1951, por Eduardo Freitas da Costa, no livro Fernando Pessoa – Notas para uma biografia romanceada. As versões de Zenith e de JPG são bastante diferentes, como se pode ver aqui, mas, sem sequer ter falado com o JPG, admito perfeitamente que ele se tenha inspirado e baseado num trecho da biografia feita pelo americano-luso, adaptando-o, remodelando-o profundamente.

O ponto, esse sim assaz curioso, é que a própria descrição de Zenith é inteiramente inventada, efabulada, ou, como diz Luciana Leiderfarb, “o autor [Zenith] esclarece que encenou o episódio”. Quer dizer, a sua obra é uma biografia romanceada, com pedaços recriados? Além deste episódio, que outras liberdades criativas se permitiu o maroto? No seu volume de 1200 páginas, obra de summo rigore factual (pelos vistos, não…), onde termina a realidade e começa a ficção? Teriam os leitores do seu livro – e, já agora, os leitores do Expresso – o direito de saber onde se situa, afinal, o Cabo Agulhas da verdade e ficção, pois havendo este episódio “encenado”, que outros não haverá? Esse teria sido o serviço que o Expresso bem poderia ter prestado a quem o compra: confrontar, na substância, as interpretações de Pessoa feitas numa e noutra das obras (até porque são divergentes, sobretudo no que à sexualidade do poeta diz respeito), coisa que, como é evidente, Zenith não gostaria, pois isso implicaria situar-se em plano de igualdade com JPG, o que é para si impensável (atente-se, no artigo do Expresso, no altivo e condescendente paternalismo, na insuportável sobranceria, com que Zenith trata JPG, acusando-o de o ter copiado e, em simultâneo, de o não ter seguido suficientemente).    

          Por outro lado, e mais decisivamente, JPG jamais escondeu que se inspirou em Zenith, como se inspirou por igual, ou mais, em muitos outros autores. Nas entrevistas que concedeu, fez até questão de louvar a obra de Zenith, faltando acrescentar que seria muito, mas mesmo muito estúpido da parte dele, o “crítico-buldôzer” escrutinado ao milímetro pelos seus (numerosos) inimigos, estar a copiar desbragadamente um livro de que todos falam, ademais acabado de sair. Como o conheço, posso afiançar: JPG é casmurro como um burro, mas burro jamais será (sobretudo a este ponto, tão óbvio e infantil).

 

5 – Quanto aos erros da biografia de JPG, a primeira coisa a dizer é que o meu amigo teve a sorte, a grande sorte, de ter um “pessoano munido de uma lupa” (Luciana dixit) a rever-lhe o texto. Isso é, aliás, outro momento caricato do retrato leiderfarbiano de Zenith, ora elevado às alturas de Prémio Pessoa e finalista do Pulitzer, ora descido às funduras do close reading miudinho. Os erros que detectou são uma bênção para o George, que num livro de 900 páginas, cometeu seis ou sete deslizes, apontados por Zenith: a maioria niquices, como um pormenor sobre onde morava Gandhi ou casas “eduardianas” em Durban. De Pessoa, num livro de 900 páginas, há três, quatro lapsos, caricatos e menores, prova de que a obra, afinal, passou com distinção no mais exigente dos crivos, o da lupa de Richard Zenith. Quanto aos erros deste último, como dizer que Pessoa não tinha telefone em casa (essencial para compreender o relacionamento com Ofélia), passam incólumes e em claro, pois o artigo de Luciana Leiderfarb é um inquisitório a George, desleal e parcial, não uma comparação honesta. Mais caricato ainda, JPG já assumiu outros erros, também menores decerto, mas nenhum deles topado na implacável lupa de Zenith, pelos vistos murcha e bem fraca.

Resta a questão das falsas cartas de Pessoa a Sá Carneiro, merecedora de chamada de atenção na 1ª página do Expresso, a mesma com que, há meses, se noticiou que Pedro da Silveira era informador da PIDE, a prova provada de que só Deus está livre do erro, o que importa é reconhecê-lo de forma aberta e honesta (como o Expresso fez, e muito bem, à semelhança do que fez há anos, quando Nicolau Santos admitiu ter sido “embarretado” pelo saudoso embusteiro Artur Baptista da Silva, para não falar, por mais antigos, dos plágios de Miguel Veiga, esses sim verdadeiros e comprovados em tribunal). A este propósito, JPG já admitiu o erro de ter citado como verdadeiras três cartas pessoanas constantes da Internet, num exercício literário de Pedro Eiras, que decidiu publicar lado a lado cartas verdadeiras, outras imaginárias. Antes de JPG, outros haviam cometido o mesmo lapso, como um “crítico de um jornal” referido por Eiras, cabendo agora aos leitores de Super-Camões (e muitos são eles, o livro vai a caminho dos dois milhares de exemplares and counting) dizerem se isso mancha e compromete em definitivo um livro que, à uma, não foi escrito por um especialista, nem com pretensões a sê-lo; e, à outra, que se baseia num monumental volume de informações, das quais, pelos vistos, só uma meia-dúzia estarão erradas.    

 

6 – É inútil perguntarmo-nos sobre que diria Pessoa de tudo isto, já que ele nunca e jamais imaginaria a projecção mundial que conquistou nas últimas décadas, convertendo-se numa “marca” de valor universal e de consumo urbi et orbi. A milhas de distância de Saramago ou Lobo Antunes, Fernando Pessoa é o único autor português que permite alcançar fama e crédito internacionais, razão que explica que sobre ele e a sua obra se precipitem, e em parte bem, tantos académicos e estudiosos vindos do estrangeiro. É também isso que explica as eternas polémicas e quezílias pessoanas, com o poeta, coitado, convertido em ninho de vespas ou saco de lacraus, como é isso que explica que muitos se acotovelem para comprar o que de Pessoa resta, sejam as cartas ou a arca mítica, pois a posse dos seus bens garante, ipso facto, uma legitimidade acrescida na hora de falar dele. A remuneração é alta, pode ir até ao Pulitzer, o que explica a ferocidade do mercado e o empenho implacável em esmagar à nascença todos os potenciais focos de concorrência (como há anos sucedeu ao historiador Orlando Figes, que, sob pseudónimo, escrevia recensões na Amazon a denegrir o trabalho dos colegas). Só alguém obcecado com isso, como Zenith, pode cometer a deselegância atroz de menorizar a obra de Robert Bréchon, já falecido, com o qual diz ter aprendido muito, mas dizendo que ela “não se preocupou em descobrir informações sobre Pessoa, mas sim em mapear a sua vasta obra literária”. Na verdade, só a sofreguidão em possuir Pessoa, pondo-o a render, e sem largar a bola, pode explicar que alguém com o estatuto de Richard Zenith se ponha a esmiuçar à lupa uma biografia popular, destinada ao grande público, que do ponto de vista da profundidade não tem, e jamais teve, pretensões de ombrear com a sua. Que o Expresso se disponha, neste texto, a defender-lhe os interesses (até comerciais!), fazendo-o de uma forma tão canhestra e abusiva, tão moralmente corrupta, é algo que impressiona e confrange. Mas que demonstra que a acção crítica de João Pedro George, mesmo que controversa e polémica (e da qual tantas vezes discordei e lho disse), é urgente e necessária. Que honra ser seu amigo.

 

                                                                                     António Araújo   

 

P.S. – e não, este não é o habitual texto em socorro de um amigo em apuros, pois várias vezes esteve JPG debaixo de fogo e, em muitas delas, não ergui um dedo sequer em sua defesa. Porquê? Porque achei que ele não tinha razão, ou não tinha toda a razão. Aqui, estou tranquilo e sereno: JPG tem toda, mas toda, a razão consigo. E a verdade também.