terça-feira, 3 de julho de 2012

Nos 80 anos do Sr. Oliveira da Figueira.

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"Muito gosto em conhecê-lo, senhor. E apresento-me sem mais cerimónias: posso fornecer-lhe, a preços sem concorrência, qualquer artigo de que necessite".
E foi assim, há 80 anos, impingindo a Tintin uma série de coisas inúteis num pequeno barco no Mar Vermelho, que o Sr. Oliveira da Figueira, de Lisboa, surgiu no mundo da banda desenhada, na aventura Os Charutos do Faraó, que começou a ser publicada em 1932. Foi nessa aventura que o herói juvenil das calças de golfe se notabilizou como o único caminhante do deserto que alguma vez usou camisola de gola alta durante o dia.


Os Charutos do Faraó (1932)




Oliveira da Figueira voltaria a surgir em Tintin no País do Ouro Negro, na cidade de Wadesdah, vendendo um par de patins num árabe fluente. Depois, oferecendo a Tintin "um bom copo de vinho de Portugal ... do sol do meu país!" Vinho e sol ... onde é que eu já ouvi isto?
Termina o seu papel nessa aventura ajudando Tintin a entrar no antro do malvado Müller. O melhor português de todos os tempos a dinamizar a iniciativa privada na actividade de vendedor a exercer funções no estrangeiro apresenta Tintin aos sequazes do malfeitor como o seu sobrinho Álvaro "que acaba de chegar de Portugal". Há sempre um Álvaro a tentar vender produtos nacionais ao estrangeiro... Onde estará a melhor ficção, na banda desenhada ou na nossa realidade?
Talvez esteja na estória interminável que Oliveira da Figueira conta, para distrair a atenção dos homens de Müller. A estória terrível de um criador de caracóis, de uma rica mulher que morreu de desgosto (amoroso?) com a provecta idade de noventa e sete anos, seguida no desenlace fatal pelo marido, este sem indicação de idade. Ainda aparece no relato o luso conde que proferiu as imortais palavras "Oh! Oh!", em português, bem entendido, porque, como Oliveira da Figueira tem o cuidado de esclarecer, essa era a sua língua materna.
O que perturba, neste "Oh! Oh!", não é tanto a exclamação, mas a reiteração, que não prenunciava nada de bom. Infelizmente, ficámos privados para sempre de conhecer a razão de tão profundo "Oh! Oh!", pois Tintin foi descoberto nesse preciso momento e Oliveira da Figueira, lamentando embora a sorte do "pobre Tintin", tomou a atitude, senão nobre, pelo menos própria de uma sensatez tão lusitana, de retirar tão discretamente quanto pôde.
Reapareceria em Carvão no Porão, quando Tintin, agora secundado pelo inefável Haddock, voltou à capital do Khemed. Eis que surge a inolvidável cena em que o criador da célebre invectiva "com mil milhões de macacos" despeja uma garrafa de refrescante rosé português, depois de já ter emborcado uma de outro refrescante, esse escocês. De seguida, Oliveira da Figueira ajuda a disfarçar Tintin e Haddock de mulheres árabes, uma vez mais para poderem dar de frosques. E conseguiram, apesar da envergadura do capitão barbudo.
Recordo o infeliz norte-americano que quis passar despercebido no Afeganistão no tempo dos talibãs, abrigando-se debaixo das vestes femininas locais e de uma opaca burca. Ninguém via um bocadinho que fosse de si, mas foi facilmente descoberto. Tinha 1,90 metros de altura ...
Só se volta a ouvir falar em Oliveira da Figueira em As Jóias de Castafiore, quando tem o desplante de felicitar Haddock pelo seu consórcio, aliás frustrado, com a dita diva. Afinal, ninguém casa no Tintin, e raramente se tem filhos.

Campanha contra o mercado negro (1947)

Pelo meio, em 1947, Oliveira da Figueira participa numa campanha contra a especulação do mercado negro na Bélgica devastada pela guerra. O amável português quer vender aos esfaimados náufragos de uma jangada comida e bebida a preços ligeiramente exagerados. Dupond e Dupont comem os chapéus, Haddock uma bota (mais uma influência portuguesa, agora da Nau Catrineta?), enquanto Tintin recusa a oferta porque os preços não são “os oficiais”. Girassol, como sempre absorto, procura com o seu pêndulo qualquer coisa que há de, seguramente, encontrar.
Tintin nunca veio a Portugal e, quanto a outras menções lusitanas, só a um sábio da Universidade de Coimbra e ao Diário de Lisboa. Tudo entidades extintas ou em extinção.


O Papagaio



Ora, o facto é que há uma ligação muito especial de Tintin e, já agora, também de Hergé a Portugal. A revista infantil da Rádio Renascença, O Papagaio, foi a primeira publicação a oferecer Tintin a um público não francófono. Transformando-o em Tintim, com “m” no fim. E apresentando-o a cores, sem autorização, o que, estranhamente, não desagradou de todo a Hergé, normalmente muito cioso da preservação das suas criações.


Padre Abel Varzim (1902-1964)


A introdução do dono de Milu (transformado em feminina Ronrom), em Portugal ficou a dever-se ao Padre Abel Varzim que, estudando na Universidade de Lovaina de 1930 a 1934, aí tomou conhecimento das aventuras do herói do destacável juvenil Le Petit Vingtième do jornal católico, e ultraconservador, Le Vingtième Siècle. Tintin, na altura, já era publicado em França e na Suíça, em jornais católicos. Não por acaso, o Osservatore Romano proclamou Tintin, em 2011, como herói católico. Recorda-se, neste ponto, que Benoît Peeters, grande biógrafo de Georges Remi, dá conta de que, na entrevista concedida por este a Numa Sadoul, já no fim da vida, Remi afirmava que nunca acreditara em Deus. Para poder ser publicada, em Tintin et Moi, entretiens avec Hergé (1975), este alterou profundamente o seu conteúdo, desaparecendo qualquer referência à fé do criador de Tintin.
Foi, pois, na imprensa juvenil católica que Tintin surgiu em Portugal. O diretor de O Papagaio, Adolfo Simões Müller, estabelece então uma relação com Hergé que é reforçada no tempo da guerra.
Em 1940, com a invasão alemã, Hergé foge para a França. Mas, com a derrota, quer da Bélgica, quer da França, quer retornar a casa. Mas não tem dinheiro. Escreve ao seu editor português, para que lhe seja enviado o dinheiro correspondente ao pagamento dos seus direitos de autor.
Mais tarde, durante a ocupação, e devido às dificuldades de aprovisionamento, pede que os seus direitos sejam pagos em espécie. Passou a receber encomendas de latas de sardinha e de atum. Boa parte delas seguiam para um campo de prisioneiros alemão, onde permaneceu durante toda a guerra o seu irmão Paul Remi (cf. Pierre Assouline, Hergé. Biographie, Paris, 1996, p. 150). Paul Remi tentou várias vezes fugir, sempre sem sucesso. Com a ajuda do hábil e astuto Oliveira da Figueira, sempre disponível para contar uma estória folhetinesca ou para fornecer uma indumentária feminina árabe, teria sem dúvida tido êxito.



Jan Aarnout Boer, De Avonturen van Kuifje in Portugal (2004)



Assim, apesar do que afirma um douto especialista holandês em Tintin, Jan Aarnout Boer, autor de De Avonturen van Kuifje in Portugal (acreditem ou não, Tintin na versão em flamengo das suas aventuras apresenta-se como o repórter Kuifje, dando-se alvíssaras a quem souber pronunciar tão curto e simultaneamente arrevesado nome), o nosso país foi seguramente importante para Hergé. Mas Tintin não foi menos importante para os jovens leitores portugueses. De tal modo que, quando Adolfo Simões Müller abandonou O Papagaio para criar outra revista juvenil  O Diabrete –, fez questão de levar as histórias de Tintin.
Foi aí que saltou o verniz, porque o Padre Abel Varzim fez tudo para que Tintin continuasse em O Papagaio. Hergé, tendo boas relações e uma dívida para com ambos, hesitava em escolher entre os dois amigos. Foi então que recebeu uma carta espantosa de Abel Varzim. Essa carta foi revelada por Jan Aarnout Boer, sendo citada em Portugal na edição do jornal Público, de 22 de Maio de 2007, por ocasião do centenário do nascimento de Hergé.



Abel Varzim, Comunismo, 1949




Antes de revelarmos o conteúdo dessa carta, importa dar conta da figura do Padre Abel Varzim. Autor, entre outras, de uma obra que condena o comunismo ao fogo do inferno, singelamente intitulada Comunismo (Sociedade Editorial Trabalhador, Lisboa, 1949) e de uma conferência intitulada "Catolicismo e nacional-sindicalismo", onde dá conta da sua identificação com o regime, aquele sacerdote teria, em Lovaina, repete-se, nos já distantes anos de 1930 a 1934, tomado consciência dos problemas sociais e das virtudes da Encíclica Rerum Novarum e da doutrina social da Igreja.
O lastro que deixou a sua vida supõe a seguinte narrativa: ainda tendo acreditado, num primeiro momento, na virtude do regime corporativo para responder às injustiças que permeavam a sociedade portuguesa, descreria depois, de tal modo que, em 1945, teria chegado à oportuna conclusão de que o Estado Novo não resolveria a questão social. Democratizou-se.
Pois, em 1943, para convencer Hergé a deixar que as aventuras de Tintin continuassem a povoar as páginas de O Papagaio, em vez de migrar para O Diabrete, escreveu-lhe para a distante Bélgica tão somente as palavras que seguem:
“O nosso jornal – como pode constatar – é para a elite das famílias portuguesas. O Diabrete não passa de um jornal para as classes menos bem, pois para poder viver vende-se a metade do preço do nosso, não tendo mesmo tentado colocar-se ao nível do Papagaio.”
Pois foi assim que o Padre Abel Varzim, enaltecendo as virtudes da elite familiar nacional, quis preservar o heróico Tintin da ignomínia de ser lido por “classes menos bem”. Aprende-se muito lendo correspondência alheia...
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José Luís Moura Jacinto

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