quarta-feira, 11 de julho de 2012

Um crime antes do tempo.





A 1.ª Exposição Colonial, instalada no Palácio de Cristal, abriu as suas portas ao público no dia 16 de Junho de 1934, após ter sido inaugurada, com pompa e circunstância, na noite anterior, numa sessão solene no Palácio da Bolsa do Porto em que esteve presente o Presidente da República, general Óscar Carmona.
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O Presidente da República, Óscar Carmona sentado ao centro em cima, 
Henrique Galvão, sentado em baixo, terceiro a contar da direita

O tenente Henrique Galvão, director técnico da Exposição Colonial era então um promissor quadro em ascensão no firmamento do novíssimo Estado Novo. Em 1931, acompanhara o seu amigo e então ministro das Colónias, Armindo Monteiro à Exposição Colonial de Paris, onde apresentou uma comunicação no Congresso da Imprensa Colonial, na qualidade de director da revista Portugal Colonial, que fundara nesse mesmo ano.

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Henrique Galvão, por Eduardo Malta.


Portugal Colonial, n.º 5 – Julho de 1931


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A Exposição Colonial de 1934 no Porto pretendia ser, à nossa dimensão, uma réplica da exposição francesa mas evidenciando o carácter único da vocação colonial portuguesa. Como director técnico, Galvão era a alma daquele mini-Império que se espalhou pelos jardins do Palácio de Cristal, com as aldeias de indígenas das colónias expressamente trazidos para o Porto  ‑ a parcial nudez das mulheres africanas foi um enorme sucesso popular ‑, com numerosos stands comerciais, restaurantes, reproduções de monumentos célebres, como o arco dos vice-reis da Índia ou o farol da Guia de Macau, com um parque zoológico com diversos animais vivos (um zebu, uma leoa, uma gazela e um camelo) e, ainda, com um Luna-Park com diversas atracções tais como o Muro da Morte e o Comboio Fantasma.
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Aldeia africana no Porto

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Pavilhão da H. Vaultier

Salazar visitara o recinto da Exposição durante a sua construção e Galvão tinha tido a possibilidade de lhe mostrar a sua capacidade de concretização dos ideais do Estado Novo. A Exposição de 1934 pretendia ser a lição de colonialismo que faltava ao povo português, já que, afirmou Galvão no discurso da inauguração, os homens da sua geração tinham vindo ao Mundo num país pequeno mas, felizmente, pretendiam morrer num Império. Longe estavam, pois, os tempos da dissidência de Henrique Galvão. Ainda faltavam muitos anos para o seu apoio à candidatura oposicionista de Quintão Meireles à Presidência da República, para o desvio do paquete “Santa Maria” no mar das Caraíbas e do avião da carreira Casablanca-Lisboa da TAP .
E, no entanto ...
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Torre do Tombo, PIDE/DGS, Delegação do Porto, Processo nº 4632/1934, NT 2838

Dois dias antes da inauguração circulava pelas ruas do Porto, um texto policopiado, com a reprodução da assinatura de Henrique Galvão, em que comunicava “ao Exmo. Público do Porto, do País e turistas estrangeiros” que a Exposição não iria ser inaugurada como previsto no dia 16 “ devido a um malfadado de um macaco africano ter destruído a jaula destinada a Sua Exa. General Carmona”.
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Torre do Tombo, PIDE/DGS, Delegação do Porto, Processo nº 4632/1934, NT 2838
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Em 23 de Junho, a Direcção da Polícia de Investigação Criminal do Porto abriu o “competente” processo crime, tendo sido ouvido o comerciante Virgílio Correia mas não houve quaisquer outras diligências. Henrique Galvão não chegou sequer a ser ouvido.
Ainda era cedo para que aquelas irónicas palavras lhe pudessem ser atribuídas...





 Francisco Teixeira da Mota






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