sexta-feira, 29 de novembro de 2019

O Abismo de Fogo.

 
 

 
 
Apresentação de O Abismo de Fogo,
de Mark Molesky
 
 
 
          Queria agradecer, antes de mais, ao meu estimado amigo Francisco Vale, um grande editor que conheço há muitos anos e com quem tive o privilégio de trabalhar, o convite para vir apresentar este livro, um dos grandes livros publicados em Portugal este ano.
 
          O Francisco Vale, com aquele jeito manso que é só seu, começou por me pedir sugestões de nomes para fazerem esta apresentação e eu apontei três ou quatro pessoas dos muitos milhares de pessoas mais qualificadas do que eu para aqui estarem. 
 
Suspeito que, por afazeres pessoais ou profissionais – e não, como é óbvio, por falta de apreço por este magnífico livro e, menos ainda, pelo seu autor – suspeito, como dizia, que os nomes contactados se tenham mostrado indisponíveis, pois outra razão não vejo para estar aqui hoje diante de vós, a quem cumprimento muito calorosamente.
 
          No e-mail que me enviou, o Francisco Vale disse que a minha aceitação ao seu convite seria uma reparação por não publicar livros meus na Relógio d’Água, mas, meu caro Francisco, olhando para a excelência do seu catálogo de muitas décadas – o melhor catálogo de uma editora portuguesa – e olhando para a excelência deste livro – um dos melhores, ou talvez mesmo o melhor, livro publicado este ano – peço-lhe que compreenda as razões do meu constrangimento.
 
          E peço também ao autor, o Professor Mark Molesky, que compreenda a minha dificuldade nesta hora, pois não sou especialista neste tema nem sequer neste período histórico e, pior ainda, não sou um historiador académico ou profissional.
 
A única vez que me cruzei com o terramoto de 1755 – graças a Deus! – foi quando coordenei, para outra editora, a publicação entre nós dos escritos de Immanuel Kant sobre a catástrofe de Lisboa, que neste livro de Mark Molesky são citados, obviamente, e, como se impõe, na sua versão original em língua alemã. Ainda assim, não pela minha coordenação, como é evidente, mas por ter uma introdução muito interessante de Wolfgang Breidert, da Faculdade de Filosofia da Universidade de Karlsruhe, e um posfácio igualmente muito interessante de João Duarte Fonseca, professor do Instituto Superior Técnico, permito-me sugerir ao Professor Mark Molesky que veja este livrinho, até porque conhece e cita outros trabalhos de João Duarte Fonseca, uns de natureza mais científica e sismológica, outro o seu belo livro sobre o terramoto, saído em 2004 com a chancela da Argumentum.
 
          Se a minha presença aqui decorre, pois, de um erro de casting, o mesmo se não dirá do autor deste livro. Licenciado na Universidade do Michigan e doutorado em Harvard há quase vinte anos, Mark Molesky é actualmente professor na Seton Hall University, e autor de numerosos trabalhos sobre o terramoto de 1755, que culminaram em 2015 na publicação deste livro, pela prestigiada editora Alfred A. Knopf, livro que recebeu já merecidos prémios e distinções honrosas, que se juntam às várias distinções e prémios que o Prof. Molesky tem recebido ao longo da sua trajectória profissional e da sua brilhante carreira académica.  
 
Antes de entrar no livro – ou, de certa maneira, já entrando no livro – gostaria de falar um pouco da capa, que é importante, mais do que um pormenor gráfico.
 


 


O que vêem na capa é o quadro Cena de desolação junto das ruinas da desparecida Igreja de Sta. Catarina or Alegoria ao terramoto de 1755 na cidade de Lisboa.
 
Trata-se de uma tela do pintor João Glama Ströberle, pintada em 1760, e actualmente exposta no Museu Nacional de Arte Antiga, sendo obviamente referida neste livro que hoje apresentamos. Mark Molesky define-a certeiramente como «um estudo sobre a guerra entre a ordem e caos».
 
E, já agora, porque não tenho a certeza que o Prof. Mark Molesky tenha esta informação, o ano passado houve uma exposição em Arte Antiga sobre este quadro e foi feito um pequeno catálogo do maior interesse, Anatomia de uma Pintura.
 
A escolha desta imagem para a capa foi particularmente feliz, como disse, porquanto o pintor João Glama, além das suas qualidades artísticas, teve o desafortunado privilégio, digamos assim, de ser testemunha ocular da catástrofe de 1 de Novembro de 1755. Nesse dia, como o próprio contou, encontrava-se a ouvir missa na Igreja das Chagas, mas logo saiu dali ao sentir o primeiro tremor. A presença do pintor em Lisboa é atestada também por um facto singular: em 22 de Dezembro de 1755, ou seja, poucas semanas passadas sobre o terramoto, casou na freguesia das Mercês, onde residia a sua noiva, Maria Danina, moradora na Rua Rosa das Partilhas. À época, João Glama vivia na freguesia dos Mártires, uma das mais afectadas pelo terramoto, e a igreja onde estava na altura do desastre, a Igreja das Chagas, tinha sido aquela em que fora baptizado e, como se vê, aqui no Museu da Farmácia estamos mesmo no centro – ou no epicentro – da vida de João Glama.
 
Assento de Maria Danina (ou Damiana), cedido por José Liberato
 
 
O pintor, de resto, e como é frequente, autorretratou-se em algumas personagens da sua Alegoria ao Terramoto e, tendo ido viver para o Porto em 1756, o facto é que a memória da tragédia naturalmente o acompanhou – e acompanhou-o até à morte, pois, como disseram os seus biógrafos e contemporâneos, Glama não concluiu o quadro não porque se tivesse desinteressado dele mas porque morreu entretanto, razão pela qual, muito provavelmente, algumas das figuras da tela, especialmente as da sua parte central, se encontram inacabadas ou apenas esboçadas.
 
O quadro tem um especial valor por João Glama ter sido uma testemunha presencial do terramoto e por nesta tela ter feito, e cito um seu biógrafo, uma «cópia fiel» do que vira naquela manhã do Dia de Todos os Santos.
 
Mas há também um outro aspecto, uma dimensão oculta, diria eu, para citar o título de um livro de Edward T. Hall, editado por Francisco Vale.
 
Na obra de João Glama, que estudou e trabalhou em Roma, existem vários trabalhos com vistas ruinescas da Cidade Eterna, as quais muito se assemelham às célebres gravuras de Giovanni Battista Piranesi.
 
Piranesi é citado en passant neste livro de Mark Molesky a propósito do arquitecto escocês Robert Adam, mas gostaria de dar uma breve nota sobre outro aspecto, que é o seguinte; se observarmos as gravuras das ruínas da Roma imperial feitas por Piranesi, mas também alguns desenhos e aguadas de João Glama (como um, do Coliseu, actualmente no Getty Research Institute, em Los Angeles) e se as compararmos seja com a tela da Alegoria do Terramoto, seja sobretudo com as gravuras feitas no rescaldo da catástrofe de Lisboa – veja-se as que são publicadas neste livro, das ruínas da Sé, da Igreja de São Nicolau ou das ruínas da Casa da Ópera – surpreenderemos uma flagrante semelhança.
 





          Uma semelhança que é ditada, a um primeiro nível, mais imediato, pelo facto de se tratar, em ambos os casos, de composições «ruinescas», em que a ruína, em si mesma, adquire um valor cénico e monumental, sendo em simultâneo um monumento-que-já-foi, e cuja forma e função pressentimos entre os escombros, mas que, além desse valor pretérito, digamos assim, tem um valor actual, do monumento-que-ainda-é, apesar de parcialmente abatido e despojado da sua forma e funções pretéritas.
 
A Casa da Ópera de D. José não é capaz de desempenhar a tarefa para que foi construída, servir de palco a espectáculos, muitos dos quais se passavam fora do palco, como o escandaloso flirt entre o monarca e a marquesa de Távora, à vista de todos, na ópera levada à cena no dia do quadragésimo primeiro aniversário do rei, 6 de Junho de 1755, poucos meses antes da hecatombe. Mas, se a Casa da Ópera já não pode alojar óperas nem romances régios, o nome persiste, a memória também, e o edifício, ainda que inutilizado, ainda é e será sempre a Casa da Ópera. Daí a atracção que sobre nós exercem as imagens de ruínas, quer as que contemplamos de Roma ou de Lisboa, quer as que, por exemplo, são feitas pelo fotógrafo Gastão de Brito e Silva, autor do blogue Ruin’Arte e do livro Portugal em Ruínas, que tive o gosto de publicar.
 
 
Mas, a par desse nível mais imediato, há outro sentido ainda mais oculto, quiçá misterioso, da evocação de Piranesi. Piranesi foi também um retratista de subterrâneos e masmorras, de escadarias tortuosas, envoltas numa atmosfera de negrume e vazio. Os seus trabalhos carcerários são sobejamente conhecidos, como conhecidas são as influências na obra de outro gravurista prodigioso, o holandês Escher, que pudemos admirar há uns meses em Lisboa.
 
 
Sem querer forçar uma analogia com a célebre gravura de Goya com a legenda «o sonho da razão produz monstros», o facto é que quer as ruínas de Roma ou Lisboa, quer os cárceres imaginários de Piranesi, todos eles são metafóricos ou alegóricos dos limites da razão.
 
A ruína mostra que mesmo o pensamento racional mais iluminado e moderno, plasmado no desenho e na geometria dos edifícios, na sua concepção e no seu planeamento, mas também na sua construção e engenharia, tudo isso cede perante as fúrias da terra, para usar o título de um livro de Claude Allégre, justamente sobre terramotos, que o Francisco Valle editou há vários anos.  
 
 
Mas também o retorcido barroco das celas e das masmorras, as suas trevas perenes, também isso, dizia, convoca dimensões que estão para lá do pensamento racional, e é aqui, é justamente aqui, que ganha sentido o subtítulo deste livro, Apocalipse na Idade da Ciência e da Razão.
 
Que o terramoto de Lisboa interpelou o Iluminismo e, se quisermos, o seu optimismo panglossiano é algo que sabemos há muito, sendo impressionante notar que o abismo de fogo de 1755 despertou o interesse de todos os pensadores da época, como este livro bem demonstra, à cabeça dos quais Voltaire, Rousseau e Kant.
 
Talvez seja útil usar aqui uma imagem: a energia libertada pelo terramoto de Lisboa equivaleu à detonação de 32 mil bombas atómicas, como se diz logo no início deste livro. Pois bem, imagine-se o impacto que teria, nos nossos dias, 32 mil bombas de Hiroxima a explodir no Atlântico, não longe da costa portuguesa – da West Coast da Europa.
 
Imagine-se o que isso significaria em termos filosóficos e existenciais, e sobretudo imagine-se o que isto significou num tempo em que a ciência e a razão, apesar de pujantes, não tinham ainda vencido por inteiro – de modo algum – as explicações metafísicas ou teológicas da realidade, as teogonias que, também elas, foram sismicamente abaladas pela catástrofe lisboeta.
 
Não por acaso, e o livro cita-a, Susan Neiman fala do terramoto de Lisboa na obra que dedicou ao conceito de mal no pensamento moderno (obra que, como sabem, está traduzida entre nós).
 
Esta irrupção do mal, do «mal elemental», como diria Emmanuel Lévinas (não de um «mal élémentaire», note-se), de um mal que surgiu sob a forma de natureza enfurecida, desafiou todas as explicações do mundo, as científicas e as teológicas. No nosso tempo, a única analogia que encontro é com o Holocausto, que, também ele, desafiou a racionalidade e a fé dos seres humanos. Com Miguel Nogueira de Brito, na introdução a Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt, tive ensejo de tecer esse paralelismo entre o terramoto de 1755 e o Holocausto, à luz da questão da teodiceia que, como se sabe, foi um conceito cunhado em 1710 por Leibniz para justificar um Deus cuja Criação se estende aos monstruosos crimes de que é feita a História humana, à luz da convicção de que vivemos no «melhor dos mundos possíveis».
 
Auschwitz, num certo sentido, implicou a liquidação da teodiceia e não vou abusar da paciência dos presentes e falar do célebre artigo de J. L. Mackie em que este criticou a posição teísta e tentou demonstrar que das três proposições «Deus é omnipotente», «Deus é infinitamente bom» e «o mal existe», se as duas primeiras forem verdadeiras, a terceira seria falsa, e – aqui bate o ponto – se a terceira, «o mal existe» for verdadeira, as duas primeiras são falsas, Deus não é omnipotente nem infinitamente bom.
 
A questão que se coloca – e imaginemos até que ponto se colocaria para as mentes do século XVIII – é que a tragédia de 1755 não tinha uma causa imediatamente humana, foi um sismo, não uma guerra nem um holocausto, e o facto de se tratar de um acontecimento da natureza conferia-lhe uma singularidade ainda mais perturbadora do ponto de vista da teodiceia, desde logo, mas também do Iluminismo, por outro lado.
 
A tese de Mark Molesky, e muito bem, vai no sentido de valorizar o impulso dado pelo terramoto ao Iluminismo, algo que não tem sido devidamente salientado e penso que era relativamente desconhecido no estrangeiro, sobretudo na América – e daí a importância a todos os títulos histórica deste livro.
 
No entanto, se houve um impulso à causa das Luzes, o terramoto foi também, ao menos num primeiro momento – e, de resto, este livro di-lo claramente – um elemento perturbador para os que acreditavam numa modernidade luminosa e livre de preconceitos e do obscurantismo pretérito.
 


 
Para os devotos – ou seja, para toda ou quase toda a gente – a explicação mais plausível era que tudo aquilo foi fruto da ira divina, de um castigo dos céus à Lisboa pecaminosa (e o livro mostra como a Lisboa da época era assaz pecaminosa…). Simplesmente, não se percebia, então, porque é que tantas igrejas e conventos foram arrasados, tantos padres foram mortos, muitas freiras tiveram de sair dos mosteiros e viver em barracas, em perigoso contágio com as fontes do mal, como é que em muitas igrejas o Santíssimo foi destruído e houve episódios como um, passado a poucos metros daqui, de dois frades em que um morreu pelo sismo e outro, logo a seguir, devorado pelas chamas do grande incêndio. E, pior ainda, porque é que muitos devotos de outros credos – comerciantes ingleses ou alemães, protestantes – sobreviveram, como sobreviveram negros de pouca fé e, mais grave ainda, sobreviveram ladrões e criminosos que de imediato aproveitaram a tragédia para as piores malvadezas. E, já agora, também foi estranho o facto de ter sido totalmente poupada pela fúria divina a Rua do Capelão, famosa pelos seus bordéis, na altura chamada, não por acaso, Rua Suja…
 
Tudo isso, como é evidente, abalava a fé dos crentes, e logo no Dia de Todos os Santos – e daí a importância que teve, para a restauração dessa fé, um ponto que o livro salienta, o extraordinário trabalho de conforto espiritual, mas também material e até médico, que muitos sacerdotes desempenharam naquelas horas e naqueles dias. É sintomático, por exemplo, que D. José tenha pedido aos frades dos Jerónimos, um local pouco afectado pela hecatombe (o mosteiro dos Jerónimos e o aqueduto das Águas Livres foram dos lugares menos afectados), para virem para Lisboa ajudar ao trabalho de reconstrução – de reconstrução da ordem, com apoio no exército, de reconstrução de edifícios e remoção dos escombros mas, acima de tudo e antes de mais, de reconstrução das almas.
 
Do ponto de vista racional, na perspectiva do Iluminismo, o desastre de Lisboa, como lhe chamou Voltaire, era igualmente perturbador por ser, não um produto da acção humana, como as guerras (a quem Montaigne chamou, elogiando-as, «a sangria das repúblicas», uma espécie de purgante para os males do mundo), mas por ser um acontecimento natural. Daí que se tenham precipitado as explicações ou descrições científicas, e os escritos de Kant são, essencialmente, textos científicos, não filosóficos. Mas o desafio que o terramoto colocava ao racionalismo e ao seu humanismo radioso, como o de Rousseau, decorria da percepção de que a natureza poderia ser, ela própria, uma fonte de mal e de sofrimento.
 
Poder-se-ia dizer, como Rousseau dirá, que o homem era naturalmente bom, mas o problema é que a natureza, pelos vistos, não era naturalmente boa. Aliás, quando se dizia «naturalmente bom», o que significava «natural»?
 
Nos nossos dias temos cada vez mais a noção de que a natureza, em si mesma, é avessa a esse critério de bondade ou maldade, que releva de uma visão antropomórfica atribuirmos-lhe caracteres morais de bem ou de mal. A Natureza está, para parafrasear Nietzsche, para além do bem e do mal.
 
A questão central, e não vou maçar muito com isso, é que a bondade ou maldade da Natureza decorre muito da acção humana, e que a Natureza, como Deus, será boa ou má para os seres humanos consoante for tratada por eles, perdoem-me o simplismo.
 
Falei de Hiroxima e do Holocausto, e é importante dizer que, em ambos os casos, se tratou de um produto da razão humana, que a bomba atómica foi resultado da ciência ao mais alto nível e que a industrialização da morte em Auschwitz também foi, como sabem. o resultado de uma planificação racional e germânica ao milímetro. El sueño de la razón produce monstruos, como diz a gravura de Francisco Goya. 
 
Na aparência, fenómenos como um abalo sísmico dependem pouco da acção dos homens, mas se observarmos o caso de Fukushima talvez não seja tanto assim; os homens podem nada ter a ver com a origem de um abalo de terra, mas depende muitíssimo da sua acção, da sua razão preventiva, a amplitude dos efeitos da catástrofe e a minimização das suas consequências – não foi indiferente, de modo algum, que à frente dos destinos do país estivesse um homem ambicioso e decidido como Pombal, e também que D. José, não por estar abalado ou atordoado (e o livro demonstra-o) mas por ser essa a regra do despotismo iluminado, ter confiado na acção do seu primeiro ministro e do núcleo restrito de aristocratas que ele mobilizou nas horas de emergência imediata. D. José, diga-se de passagem, foi mais activo do que se julga e, como este livro mostra, apesar de naturais cautelas (a família real dormiu em carruagens na primeira noite), não deixou de dar ordens, abrir aos necessitados o Palácio da Quinta de Baixo, acompanhar os trabalhos à devida distância
 
Mas, se falarmos do Holocausto e da Natureza, há um dado assombroso, terrível, referido no não menos terrível livro A Terra Inabitável, de David Wallace-Wells, há pouco publicado entre nós. Diz o autor, com base em estudos científicos e projecções credíveis, que se a temperatura do planeta aquecer 2 graus, em vez de 1,5 graus, só a poluição atmosférica levará a mais 150 milhões de mortes – 25 Holocaustos.
 
Portanto, e desculpem o tom sombrio, se 1755 equivaleu a 32 mil bombas atómicas no mar, 2018, se nada fizermos, pode equivaler, na melhor das hipóteses, a 25 Holocaustos.
 
Por isso, o melhor é regressarmos agora ao século XVIII, rapidamente, e a uma tragédia que, apesar de colossal, parece mínima quando comparada com aquilo que nos ameaça, e nos ameaça já, agora mesmo.
 
 

 
A propósito da teodiceia e do iluminismo, postos em crise em 1755, é igualmente curioso assinalar que as duas explicações contrastantes, a da fé e a da razão, foram ambas postas em crise pelo terramoto de Lisboa (e não sei porque continuamos a chamar-lhe terramoto de Lisboa quando, na realidade, foi um terramoto que se fez sentir, com mais ou menos intensidade, em muitos pontos da Europa e do Norte de África,). Ou seja, numa fase inicial, pelo menos, na fase do atordoamento e do pavor, com a família real refugiada na Real Barraca, nessa fase, dizia eu, nada ficou de pé, nem a ciência nem a teologia.
 
O que este livro tem de mais maravilhoso, permitam-me o uso da palavra, é justamente esse reconstruir, a partir dos escombros – dos escombros da fé e da razão iluminada – uma narrativa de história cultural sobre o terramoto de 1755 e a sua projecção na Europa das Luzes.
 
É certo que sobre o terramoto de 1755 têm sido publicados vários livros, e aos mais desprevenidos poderá parecer que o livro de Mark Molesky pouco acrescenta ao conhecimento acumulado ao longo de décadas e que não existem dados novos descobertos em arquivos perdidos nem o livro avança uma interpretação historiográfica ousada ou revolucionária.
 
Na verdade, e sem preocupações de exaustividade, citando apenas alguns títulos mais recentes, a catástrofe de 1775 mereceu a atenção de
 
- João Duarte Fonseca, num ensaio de síntese com abundante informação científica, O Terramoto de Lisboa de 1755, Argumentum, 2004;
 
- 1755. A Memória das Palavras, fruto um projecto coordenado por Joaquim Boiça, saído em 2005 (e que, curiosamente, não é citado por Mark Molesky), que é uma interessante resenha de textos, cartas, relatos e até poemas feitos em torno do terramoto, por autores tão diversos como o Padre Gabriel Malagrida (por onde começa este livro que hoje lançamos), pela rainha D. Maria da Vitória, por Ribeiro Sanches ou por Francisco de Pina e de Melo;
 
- A Terra Tremeu, o Mar Transbordou, igualmente com coordenação de Joaquim Boiça (e de Maria de Fátima Rombouts de Barros), catálogo de uma exposição patente em Oeiras e que convoco por julgar que também não é do conhecimento de Mark Molesky, tratando-se de uma introdução a este tema com um especial enfoque na zona de Oeiras e da costa do Estoril e, depois, com uma referência desenvolvida aí pelo marquês de Pombal;
 
- já há mais tempo, mas ainda assim com actualidade, em 1998 Isabel Barreira de Campos publicou um livro volumoso, O Grande Terramoto, que serviu de fonte a este livro de Mark Molesky e que o autor bem conhece, sendo uma obra extremamente informada e densa sobre a fúria de 1755;
 
- numa linha algo diversa, pois trata-se de uma obra colectiva de artigos muito heterogéneos, o livro coordenado por Helena Carvalhão Buescu e Gonçalo Cordeiro, O Grande Terramoto de Lisboa. Ficar Diferente. Nesta obra existe um interessantíssimo ensaio de Vítor Serrão sobre João Glama e a sua Alegoria e uma secção inteira dedicada às ruínas e à sua dimensão cultural, com escritos sobre ruínas e renascer das cinzas em Cesário Verde ou em Maria Velho da Costa;
 
- por último, mas não menos importante, o êxito comercial de Rui Tavares, objecto de várias reedições, O Pequeno Livro do Grande Terramoto, também saído em 2005, que foi, por razões comemoracionistas, um annus mirabilis em termos de publicações. O autor é sobejamente conhecido, mais conhecido hoje do que na altura, até porque entretanto publicou a sua tese de doutoramento, O Censor Iluminado, mas este livro é muito da minha predilecção pois faz um percurso muito original pela Lisboa do terramoto vista, em larga medida, a partir de depoimentos e vestígios de cidadãos anónimos e vulgares, de testemunhos de estrangeiros que viviam em Lisboa, relegando de certo modo para um plano secundário a história política e a intervenção dos grandes decisores. Note-se, no entanto, que Rui Tavares é também autor de um texto recente, saído numa obra colectiva, sobre o cerimonial da inauguração da estátua equestre de D. José, uma cerimónia dominada pelo marquês de Pombal e pelo seu filho, que na altura ocupava um lugar algo similar ao de presidente da câmara municipal de Lisboa, e uma cerimónia em que, simbólica e curiosamente, o monarca homenageado não esteve presente (a rainha, aliás, odiara a estátua de Machado de Castro). 
 
Perante este caudal de livro, este autêntico tsunami bibliográfico, que sentido faz publicar esta obra de Mark Molesky, em princípio destinada a um público estrangeiro e originalmente saída nos Estados Unidos?
 
Diria que é precisamente por isso que este livro é muitíssimo relevante no panorama bibliográfico sobre o terramoto de 1755, precisamente por se tratar de uma obra escrita por um grande historiador norte-americano e vocacionada para um público anglo-saxónico.
 
Ao elogiar este livro, e ao elogiá-lo desta maneira, não quero cometer a deselegância de o comparar com as obras atrás citadas. Mas sempre direi que este livro tem qualidades narrativas que são muito próprias e típicas do universo anglo-americano e que, infelizmente, não são especialmente cultivadas nem acarinhadas na Europa continental e, menos ainda, no nosso país.
 
Veja-se, desde logo, a forma magistral como o livro começa, capturando o leitor desde a primeira linha. O olhar concentra-se no Padre Malagrida, e recorda que era um sobrevivente, que chegara a ver a morte nas florestas escaldantes do Maranhão, que escapou por um triz de ser morto pela temível tribo guarani.
 
Esta abertura do livro, plena de trepidação e exotismo, é depois interrompida por um breve apontamento que, num parágrafo, nos diz o essencial do que foi o terramoto: a libertação de energia equivalente a 32 mil bombas de Hiroxima, um dos mais intensos sismos da História da Humanidade, três vezes mais potente do que a erupção do Krakatoa, 1000 vez mais poderoso do que o terramoto que assolou o Haiti em 2010. Ainda assim, não tão mortífero como o que ocorreu em Shaanxi, na China, em 1556, com 800 mil vítimas, nem tão poderoso como o do Chile, de 1960.
 
Num parágrafo, o terramoto está apresentado, e apresentado de forma contundente, com uma breve descrição em cadência dos três choques sucessivos: o abalo de terra propriamente dito; o tsunami subsequente e, por fim, o incêndio devastador. (Mark Molesky critica, e bem, o uso da palavra ou do conceito de tsunami, mas utilizo-o aqui por mera comodidade).
 
A oscilação entre a narrativa biográfica do Padre Gabriel Malagrida e a narrativa do tremor de terra é, também ela, uma oscilação sísmica, que abala o leitor e o introduz ao a seguir se irá relatar.
 
E, logo aqui, ficamos com um retrato muito vivido do Portugal de então, pois entram logo em cena as procissões de Lisboa, os autos de fé e duas personagens centrais, a Inquisição, de um lado, e Sebastião José, do outro.
 
Está montado o palco e armado o cenário para o drama da execução de Gabriel Malagrida, para o impacto que isso teve nos jesuítas, e o capítulo fecha com um regresso aos factos do terramoto: os abalos foram sentidos na Suécia, na Noruega, nos Açores, em Itália, na Península Ibérica, e uns trabalhadores de minas em Derbyshire, na Inglaterra, foram sacudidos por 5 abalos.
 
Depois, a nota sobre Casanova, que até na sua masmorra em Veneza sentiu o abalo sísmico, e a terminar, ilustrando a perenidade da projecção do desastre de Lisboa, a notícia de que ele foi citado, inclusivamente, na Montanha Mágica de Tomas Mann.
 
Assim termina o introito, os dados estão lançados. Mas atente-se na abundância de informação e na cópia de pormenores, expostos de uma forma nada academizante, de um modo que, pelo contrário, envolve e seduz o leitor pelo ritmo que, como vimos, passa da necessária apresentação da persona principal, Sebastião José, para um retrato a sépia do Portugal da época e do que foi, em termos efectivos, palpáveis, o abalo de 1 de Novembro, tudo enquadrado pela figura de Gabriel Malagrida, que nas primeiras páginas surge como o grande protagonista para se ir lentamente esfumando da narrativa, dando lugar ao que interessa.
 
Uma tal qualidade narrativa só é possível não apenas por dotes estilísticos ou virtudes de prosador. Não, de modo algum. O que o livro tem de fascinante, quase diria assombroso, é o manancial de informação e conhecimento que mobiliza, mas que mobiliza de uma forma inteligentíssima, sem alardes de erudição.
 
Dir-se-á que para um leitor português muito do que ali se escreve não é novidade. Com efeito, se muita informação de enquadramento é conhecida dos portugueses, o que é particularmente visível no capítulo dedicado a resumir a História de Portugal e a descrever a Lisboa de meados do século XVIII, importa salientar a extraordinária capacidade de síntese do autor, o modo como resume o País em breves páginas, e nos faz revisitar o colorido de uma Lisboa ainda imperial – e daí a analogia «ruinesca» com a Roma de Piranesi, duas capitais de impérios derrotados pela fúria da natureza e pelo desvario dos homens.
 
E aí temos, pois, no Capítulo I, a Babilónia Portuguesa, com os seus autos de fé e os seus escravos, com senhores e mercadores, com constantes procissões e actos devotos, gestos pios que não foram capazes de fazer escapar a cidade de um castigo divino ou de uma vingança da Providência.    
 
          Lisboa, como salienta o autor, ainda era em larga medida uma cidade imperial, e o paralelismo que tracei com a Roma antiga era consciente e explorado há muitos séculos, bastando recordar que D. Manuel, para mimetizar os imperadores da Antiguidade, promoveu uma célebre luta entre um elefante e um rinoceronte, à maneira dos antigos circos.
 
          E, em 1755, Lisboa era, de resto, mais populosa do que a Roma da época, ou que Madrid, como o livro nota. Com 200 mil habitantes, era a quinta cidade mais populosa da Europa, logo a seguir a Londres, Paris, Nápoles e Amesterdão. Era o maior porto da Europa, a seguir a Londres e a Antuérpia.
 

 
 
          O terramoto liquidou um montante igual a todo o PIB português da época, mas o PIB português da época era superior ao de Espanha: em 1750, o PIB português era 60% superior ao de Espanha, mais elevado do que o da Suécia, mas em 1800 o PIB português caíra abruptamente, sendo apenas 12% superior ao de Espanha. O terramoto foi, em termos económicos e culturais, uma espécie de «contra-Descobrimentos», sendo amargo pensar que o principal contributo português para as Luzes e para a Europa iluminada foi uma catástrofe de proporções bíblicas. Ainda assim, o país não estava inteiramente na miséria: na Casa da Moeda acumulava-se uma enorme quantidade de ouro do Brasil, que o favor dos deuses e a diligência de um herói, o tenente Sousa Mexia, evitaram que fosse destruída ou saqueada.
 
 
          Lisboa era um dos centros da Europa e do mundo, o que, como é evidente, deu ao terramoto uma projecção, um impacto e uma dimensão verdadeiramente europeia e mundial.
 
 
          É curioso assinalar isso num tempo globalizado. Vivemos hoje num mundo global, festejamos a rápida circulação de informação e de mercadorias, a integração global de pessoas e de culturas, mas o facto é que o terramoto de 1755 teve uma projecção global que, muito provavelmente, não teria nos nossos dias.
 
 
          Explico-me: quando vemos algo como a tragédia do Haiti ou de Fukushima pensamos em fenómenos distantes, lá longe. Se em Pequim se soubesse de uma catástrofe em Lisboa, isso é também longínquo, apesar de próximo em termos noticiosos ou informativos.  E o mesmo se passa connosco quando sabemos de um tremor de terra na China. Se for na Europa, como as inundações de Veneza ou o incêndio de Notre Dame, o sentimento é diverso, mais intenso, pois actuamos de acordo com círculos de proximidade, algo que foi muito patente do 11 de Setembro, como tentei mostrar num livro chamado Consciência de Situação.
 
 
          Mas, apesar de mais próximo, ainda o temos por distante, alheio, não nosso.
 
          Pois bem, se esse sentimento prevaleceu também em 1755, o facto é que o terramoto foi um momento de crise da consciência europeia, para usar o título de um célebre livro de Paul Hazard.
 
          E foi-o porque não existiam ou não estavam desenvolvidas as explicações científicas que temos hoje (e o livro tem um belo e muito informativo capítulo sobre a ciência dos terramotos desde a Antiguidade).
 
 
          Isto é, como pouco se sabia da origem de tudo aquilo, da tectónica de placas e de ondas sísmicas, um fenómeno com aquelas características era perturbador num nível e de uma forma muito diversa da dos nossos dias.
 
          E, se quisermos compreender o impacto de 1755, temos de perceber que os sentimentos eram diversos perante as tragédias e de vencer o anacronismo da nossa perspectiva.
 
          A mentalidade da tragédia era diferente no século XVIII, em larga medida devido à ignorância científica.
 
          E, por isso mesmo, era também mais provável a formação de uma comunidade de tragédia que envolvia, pelos menos, as elites cultas das nações civilizadas.  
 
 
          Explicando melhor: como sabemos hoje que um dado tremor de Terra no Irão ou em Marrocos foi causado pela falha X ou por algo assim, como os abalos de terra estão, digamos assim, naturalizados, «domesticados» por uma explicação científica que os atribui à Natureza, nunca à acção humana, a comunidade de tragédia que se gera pode mobilizar movimentos de solidariedade mas não cria, digamos assim, uma comunhão de destino similar à do século XVIII, que não era mais intensa do que a actual, era diferente.
 
E muitos viviam na pele o stress pós-traumático, como o cônsul britânico em Lisboa que, regressado ao Massachusetts, continuou até ao fim da vida, todos os dias 1 de Novembro, a retirar do armário o seu casaco manchado de sangue e a passar o dia trancado num quarto, de janelas fechadas, em total escuridão, em actos de oração, jejum e mortificação à memória da catástrofe de Lisboa. 
 

 
          No século XVIII, as intervenções dos publicistas e dos «pensadores profissionais» falavam do ser humano, da razão, do optimismo ou pessimismo, de Deus e do destino.
 
          Nos nossos dias, falam em escalas de Richter ou Mercalli, epicentro, ondas, falhas tectónicas ou na dinâmica das placas.
 
          Não significa isto, de modo algum, que o altruísmo ou o humanismo setecentistas fossem maiores. O livro mostra, aliás, como mesmo numa altura de comoção personalidades como Frederico da Prússia não deixaram de fazer os seus frios cálculos geopolíticos, ou abandonaram friamente a intenção de mandar auxílio para Portugal, como sucedeu com a czarina da Rússia.
 
          Um dos pontos mais interessantes e originais deste livro, onde muito aprendi, e confesso que nunca tinha visto explorado com tal profundidade e vastidão de informação, é precisamente o do impacto do terramoto na Europa inteira e na América. O autor levantou periódicos da época, entre outras fontes, para nos dar uma panorâmica que a partir de agora é essencial para situarmos o terramoto no contexto da época de uma forma muito mais informada e conhecedora – daí que, insisto, este livro seja muito importante não só para os leitores estrangeiros, mas também para os leitores e investigadores portugueses.
 
          Para todos eles, Lisboa é retratada de uma forma exemplar, cheia de colorido e movimento, ainda que estas descrições, como a de Mark Molesky e de tantos antes dele, me pareçam sempre, permitam-me dizê-lo, um pouco assentes em lugares-comuns que se foram sedimentando com o tempo e que assinalam, digamos, os aspectos mais salientes, folclóricos ou dignos de nota mas que não tenho a certeza de serem os que efectivamente correspondiam â vivência das pessoas.
 
          É que muitas das descrições do que era a Lisboa da época baseiam-se em relatos de estrangeiros ou de críticos de costumes, como Gil Vicente ou Nicolau Tolentino, e, por isso, realçam o pitoresco e o singular, o «diferente»: as negras vendedeiras nas ruas, as infidelidades dos nobres, o recato das senhoras indolentes, enclausuradas pelos maridos nas suas casas tristonhas, as procissões, as fogueiras da Inquisição, os crimes de sangue em vielas esconsas.
 
          A dado passo, e permita-me o reparo a este pormenor ínfimo, apenas para mostrar que li e reli o livro com atenção, o autor diz, a dado passo, que a população de Lisboa comia bem («em geral, os lisboetas comiam bem», pág. 75), o que não tenho a certeza que fosse verdade para todos, e sei que se trata de um período muito diverso, mas os que tenham visitado a exposição que esteve há pouco na Torre do Tombo, sobre a alimentação na Lisboa medieval, podem talvez concordar comigo.
 
          A reserva que faço, não a este livro em concreto, mas a toda a historiografia da vida quotidiana é saber se, por escassez de outras fontes coevas, não há uma perspectiva algo desfocada e descentrada, muito ligada ao viver dos monarcas e das elites ou muito concentrada em peculiaridades que, de modo algum, retratam o que era mesmo viver em Lisboa em finais do século XVIII.
 
          Era como se daqui a duzentos anos fizéssemos um retrato da vida quotidiana em Lisboa baseada nos guias da Lonely Planet ou da Michelin e nas impressões de viajantes, que falam do fado e dos tuk-tuks, do Chiado trendy ou da Mouraria fadista, mas nada dizem sobre os subúrbios onde vivem milhares ou milhões, sobre os transportes suburbanos, o trabalho nos escritórios e nos call-centers, etc. etc.
 
          Como disse, esta desfocagem é muito ditada pela escassez de fontes e pela superabundância de fontes centradas nos reis e nas elites, ou seja, o movimento da people’s history tem de chegar também, e principalmente, à historiografia do quotidiano. Lisboa dos anos 1940 não era a dos espiões do Estoril ou do Senhor Gulbenkian no Hotel Aviz, era muito, muito mais do que isso, eram funcionários públicos, operários, casas boas ou más, um mundo que não vemos porque estamos ofuscados por uma visão glamorosa e artificial.
 
             Não vou, como é evidente, resumir o livro, até porque este tem uma riqueza infindável de pormenores. De detalhes como este: o facto de ter sido avistada uma baleia ao largo de Lisboa, uma semana antes do cataclismo, porventura um presságio da tragédia. É que, no ano mil, como nos conta Georges Duby, e não sei se o Professor Mark Molesky fez essa associação, no ano 1000, cheio de milenarismos e profecias apocalípticos, a visão de uma baleia a dar à costa, em França, também foi vista como sinal de um perigo iminente, na forma de um monstro marinho que, entre o mais, evocava o episódio bíblico de Jonas e da baleia. E o mais curioso é que, como refere este livro, nos primeiros dias de Novembro, nas costas da Holanda, foi pescado um boto, da família dos golfinhos, e logo a população associou a singular captura do cetáceo ao terramoto que dias antes tinha ocorrido em Lisboa.
 
          Além do impacto cultural na Europa, o livro traz-nos também o impacto sísmico propriamente dito, com ondas na londrina Old Street ou o levantamento das águas do rio Alster, em Hamburgo (a primeira pessoa a sentir o terramoto terá sido um pacato contabilista de Hamburgo e Hamburgo foi a cidade que mais nos ajudou), e patente em estranhas ocorrências: às 8 da manhã, uma hora antes do megassismo, o ar de Nápoles ficou densíssimo, e todos os poços de Portugal e de Espanha secaram. Se ainda hoje, ao lermos isto, temos uma sensação sobrenatural e fantástica, imagine-se as associações religiosas e supersticiosas feitas na época. O terramoto fez-se sentir em Turku, na Finlândia, a 3 mil quilómetros de distância do epicentro. E espoletou, no fundo oceânico, uma nuvem de lama e lodo que matou toda a vida marinha num raio de centena de quilómetros.
 
          Outro pormenor, interessante: o sismo fez vítimas de todas as condições sociais, foram muitos os nobres que morreram (a lista está na página 319), a vítima mais importante, o conde de Perelada, embaixador de Espanha, morreu ao sair para a rua, quando a pedra de armas da sua casa lhe caiu em cima, mas, como sempre, quem mais sofreu foram os mais pobres, o sismo não foi socialmente justo ou democrático, quer no momento inicial (a construção era diferente, como é óbvio), quer sobretudo nos momentos do resgate. E também foi, de certo modo, misógino, já que as mulheres foram mais afectadas, seja pela sua condição física, seja por causa da sua fé, já que muitas andavam na rua para as missas de Finados.
 
          A lista das igrejas destruídas é impressionante, como lemos nas páginas 110-111, e talvez concluamos que o sismo, se não foi democrático, foi, pelo menos, agnóstico, já que fez vítimas entre civis e clero, entre edifícios públicos e templos religiosos, sem olhar à fé ou à crença dos homens. 
         
          A par disso, a devastação indiscriminada, que arrasou os principais monumentos do centro de Lisboa, com destaque para o magnífico Cais da Pedra, todo em mármore, e de caminho engoliu bibliotecas com milhares de volumes, e a quem não valeram as preces a Santa Rita de Cássia, padroeira das causas impossíveis. O fogo deflagrou numa centena de lugares dispersos pela cidade, alimentado pelo ar seco e sobretudo pelo vento. Chegaram a atingir-se temperaturas de 1000 graus e a Baixa, pela sua localização e pelo emaranhado do casario favoreceu a propagação violenta. Assim se perderam os 70.000 volumes da Real Biblioteca ou os 15 mil volumes da livraria dos dominicanos, para não falar das bibliotecas e arquivos do duque de Lafões, do marquês do Louriçal, do conde do Vimieiro. Foram muitas – e o livro cita-as, uma a uma – as igrejas devastadas pelo fogo, bem como os numerosos conventos. A mais afectada terá sido a Igreja de São Julião e, no meio da catástrofe, salvou milagrosamente o Arquivo Real, por acção de Manuel da Maia, na altura com 88 anos. Mas perderam-se milhares de documento, entre os quais os livros de receitas e de tesouraria, algo como se toda a documentação do IVA e do IRS se tivesse esfumado, que para muitos não seria grande perda, mas enfim… Às tantas, faltou até o numerário, essencial às trocas comerciais, e, à semelhança do que irá acontecer com o Brexit, não foi apenas a economia nacional a ser afectada: por efeito colateral, também as economias de outros países, e as finanças de muitos comerciantes estrangeiros, sofreram um abalo sísmico. 
 
          A casa de Pombal, na Rua Formosa, hoje Rua de O Século, sofreu poucos estragos. E, se Mark Molesky me permite, sugiro-lhe um curioso livro que saiu há não muito, precisamente sobre essa casa e a zona adjacente, A Lisboa Subterrânea do Marquês de Pombal, de Fernando Teigão dos Santos e Pedro Costa, um exercício de espeleologia nas entranhas de Lisboa, atravessando essa artéria, a Mãe de Água da Patriarcal, o Palácio do bichinho-da-conta, fronteiro ao actual Palácio Ratton, e assim chamado na gíria maldosa porque a esposa do proprietária se enrolava como um bicho da conta sempre que o marido dela reclamava o débito conjugal.
 
          O livro demonstra que a famosa frase enterrar os mortos e cuidar dos vivos não foi proferida por Pombal, mas pelo marquês de Alorna, vice-rei da Índia. Na sua acção enérgica, Sebastião José rodeou-se do duque de Lafões, regedor das casas da Justiça e da Suplicação, do marquês de Marialva, estribeiro-mor, do marquês de Alegrete, presidente do Senado de Lisboa e do cardeal patriarca.  Depois, mandou vir a tropa, para cuidar dos vivos e acalmar a populaça das ruas, onde circulavam os mais desencontrados e apavorantes boatos, como o que jurava que um bando de piratas argelinos se aprontava para desembarcar em Lisboa para a saquear (correu mesmo a notícia que o governo português, com medo de ser invadido por uma potência estrangeira, apresentou um número de baixas mais reduzido do que o real). Agiu-se à força, sem contemplações, e não foram poucos os lugares onde se ergueram forcas, como a Cruz de Buenos Aires, as obras do conde de Tarouca, o Campo de Curral, a Cruz de 4 Caminhos. Para abastecimento das gentes, mandou o marquês que vários aristocratas – entre os quais o seu próprio irmão, Paulo de Carvalho e Mendonça – fossem comprar trigo a Alenquer, Mafra, Torres Vedras, Sintra, Cascais, Oeiras.   
 
No centro e arredores da cidade ergueram-se 9000 barracas e o rei e a alta aristocracia deram o exemplo de austeridade: D., José, por exemplo, mandou matar todas as feras e animais do Palácio de Belém, para poupar nas suas rações, e os príncipes bastardos, os Meninos da Palhavã, permitiram que os sobreviventes ficassem no jardim do seu palácio, onde hoje é, creio, a embaixada de Espanha. Chegou a pensar mudar a corte para o Brasil ou a capital mais para ocidente, para a zona de Belém ou Alcântara, e o médico Ribeiro Sanches tentou, sem grande sucesso, que a reconstrução erguesse ruas e edifícios mais amigáveis da higiene e da saúde públicas.
 
 
«Estou sem casa, numa tenda, sem criados, sem súbditos, sem dinheiro e sem pão», escreveu D. José ao seu cunhado, D. Fernando VI, num autorretrato que era também o retrato do seu país.
 
A contabilidade dos mortos (6 a 7 mil, só no grande incêndio, talvez 38.000 mil no total, para uma população de 200 mil) e dos prejuízos materiais é difícil, talvez impossível, e Mark Molesky apresenta as várias estatísticas que têm sido avançadas, mas o essencial sabe-se desde 1 de Novembro de 1755: foi a maior tragédia que se abateu sobre Lisboa – e, possivelmente sobre Portugal – ao longo de séculos de História.  
 
Uma História que teimamos em ignorar. Sobre a maior tragédia natural que se abateu sobre Lisboa a seguir ao terramoto – as cheias diluvianas de 1967 – não há ainda um único livro, uma publicação evocativa.
 
Até por isso, apresentar um livro sobre uma tragédia acaba por ser, paradoxalmente, um momento de alegria e festa, sobretudo quando o livro é bom, é muito bom, mesmo que as minhas palavras não tenham conseguido fazer-lhe a justiça que merece.
 
Muito obrigado.
 

 

 

 

 

 

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