domingo, 12 de janeiro de 2014

Ostalgia.

 
 
 













 













 














Fotografias de Simona Rota


 
Ostalgia – ou, talvez melhor, Ostalgie – é um neologismo germânico que procura descrever o sentimento de saudade que se apossou de alguns alemães após a reunificação. Talvez não seja propriamente «saudade», antes perplexidade e confusão em face do mundo novo que, subitamente, muitos viram entrar-lhes muros adentro. Ost+Nostalgie = a busca do passado, que, por ser um território conhecido, é sempre mais seguro, mesmo quando securitário. Há quem aproxime o conceito da noção de Soviet chic mas não é bem a mesma coisa. O Soviet chic é a apropriação desbragada, por parte do capitalismo selvagem e com intuitos totalmente mercantis, das imagens e do «estilo» dos tempos soviéticos. Não tem nada de ideológico, é só comércio e moda. Aqui, no mundo da Ostalgia, há algo mais fundo e sentido. Mas, em rigor, ninguém deseja regressar aos tempos da Stasilândia. Sente-se nostalgia porque se sabe que aquele passado está mesmo enterrado. Agora, podemos olhar com ternura sobranceira e até rir do foleirismo daqueles festivais da Alegria e da Amizade, daquelas jornadas da Paz, daquelas filas intermináveis para comprar pão escuro, feito a martelo e cortado a foice. Era tudo com maiúsculas, da Amizade e da Paz até ao tamanho das filas. Para os que apreciarem a Semiótica, também a há, e da boa, sobre a Ostalgia, aqui num artigo de Andrea Rota.
         Rota, mas Simona, é o nome de uma fotógrafa nascida em Bucareste, no ano de 1979. Foi em Espanha, mais precisamente nas Canárias, que construiu carreira como coordenadora de um gabinete de arquitectura, entre outras coisas, todas do domínio da cultura. Simona Rota distinguiu-se pelos seus trabalhos de fotografia documental ao serviço do Museu de Arquitectura de Viena. Foi aí que, entre outros, produziu Ostalgia, uma série feita entre 2010 e 2012 e que agora está exposta, até ao próximo dia 2 de Março, na Fotonoviembre, a Bienal Internacional de Fotografia de Tenerife. Como costuma dizer quem é calão e não está para escrever muito, as fotografias falam por si. Velhos blocos do Bloco Leste, em imagens depuradas e despojadas. Azul do céu? Nem um. Simona Rota acentua o abandono e o sentimento de desolação mostrando fotografias de uma limpidez cortante, onde raramente se vêem pessoas. Edifícios esfacelados, em planos abertos que mostram lama ou neve. A Ostalgia chegou à fotografia antes dela – e já aqui falei dos Spomenik da ex-Jugoslávia (a propósito, há uma Yugo-nostalgia) ou da arquitectura cósmica da URSS. A subtileza artística de Simona Rota está no modo delicado como enquadra os edifícios do brutalismo arquitectónico e paisagens urbanas desumanas de onde estão ausentes os sentimentos: de nostalgia e de qualquer espécie.
         Já que tratamos de Ostalgia, e ainda que um pouco à margem, ando intrigado com uma questão de coração, cabeça, estômago: houve uma culinária comunista? Saiu há pouco um livro sobre a gastronomia soviética, de Anya von Brezmen, Mastering the Art of Soviet Cooking: A Memoir of Food and Longing. Não li, só a recensão na NYRB. Também não conheço ainda o DDR Museum, um museu privado que existe em Berlim, dedicado à antiga República Democrática, sobre o qual espero dar notícias muito em breve, lá para Abril. Mas, pelo que vi na Internet, é muito melhor do que outro em que já estive, o Museu do Comunismo, em Praga. Ambos são descaradamente comerciais, mas o de Berlim leva vantagem, quer na exposição permanente, muito mais sofisticada e interactiva, quer pelo facto de ter associado um restaurante de cozinha leste-alemã. Há até um livrinho de receitas. 
 
 
 
 

Pelos vistos, houve mesmo uma gastronomia comunista – ao menos, na União Soviética e na Alemanha de Leste. Não, não comiam crianças ao pequeno-almoço. O almoço é que era sempre pequeno. Ostalgia, saudade da frugalidade.



António Araújo
 
 
 
 



 

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