sexta-feira, 10 de abril de 2015

Tic-Tac

 
 
Vasco Granja (1925-2009)
 
 


No Centro Cultural de Cascais, até dia 19, está aberta ao público (excepto segunda-feira) uma exposição pequenina. Cabe toda ela numa sala, mas, como nos contos de crianças, nela há muito que contar. Cartas de Norman McLaren, desenhos originais de Zlatko Grgic ou Bruno Bosetto, vários livros preciosos. Bilhetes de identidade, cédulas profissionais, cartões da Escola Machado de Castro, da Sociedade Portuguesa de Naturologia e, suma delícia, do Clube de Campismo de Lisboa. É extraordinário – até comovente – ver como a riqueza de uma vida inteira cabe toda ali. Nunca o conheci, mas naquela salinha escura confirmei  uma impressão que tinha, de memória doce: Vasco Granja era um homem generoso e bom. Sei que há vozes que dizem que martirizou várias infâncias com sobredoses soporíferas de filmes búlgaros.  Não é verdade.Vasco Granja não foi isso – foi muito mais do que isso. Foi um homem que aos 16  anos de idade já trabalhava ao balcão nos Grandes Armazéns do Chiado. Depois, esteve na Foto Áurea, na Casa Travassos, na Editorial Arcádia, na Bertrand, tendo trabalhado nesta editora durante muitos e muitos anos (mais precisamente, de 1961 até se reformar, em 1990). Todos os que lemos banda desenhada publicada pela Bertrand devíamos estar mais cientes do que lhe devemos. A meio da exposição, um artigo de jornal, visado pela Censura. Título: «Em louvor de Mafalda». Todos os que lemos os livros da Mafalda e do Quino devíamos estar mais cientes do que lhe devemos (e, claro, às Publicações Dom Quixote e à sua fundadora). 

Em 1954, Vasco Granja foi detido pela PIDE por ter exibido o filme neo-realista italiano O Caminho da Esperança, de Pietro Germi. Esteve seis meses preso no Aljube, o tempo máximo permitido por lei sem julgamento nem acusação. Em 1963, quando já havia aderido ao PCP, foi novamente detido pela polícia política. Interrogado na PIDE, é transferido para o Aljube e depois para Caxias, onde aguarda julgamento. A sentença aplica-lhe 18 meses de prisão, que cumprirá em Peniche, onde lê, escreve, pensa e ensina rudimentos de francês aos seus companheiros de cadeia. Uma carta para a família, escrita nessa altura, toca-nos fundo, muito. O seu interesse pelo cinema remonta aos tempos de juventude: em 1944, com 18 anos, integrava já a equipa do filme A Noiva do Brasil, do realizador Santos Mendes. No folheto-jornal que acompanha a exposição há independência suficiente para dizer que esta obra cinematográfica foi, e cito, «arrasada pela crítica». Gostava um dia de ver o filme, mas a única cópia que existia desapareceu num incêndio. É pena. Cineclubista, começou a interessar-se pelo cinema de animação, creio que logo no início dos anos 60, ou talvez um pouco antes. A ida às Terceiras Jornadas de Animação, em Annecy, França, em 1960, terá sido o momento de viragem. Foi a primeira vez que Vasco Granja saiu do seu país. A essa viagem outras se seguiram, e assim se fez uma vida dedicada a uma arte, que não é menor nem só para menores. 
Após o 25 de Abril, entraria na RTP, onde permaneceu desde Junho de 1974 até 1990. É muito ano seguido a dar animação à malta. Gerações inteiras cresceram a vê-lo no pequeno écran, de voz aflautada e cândida, um sorrir lunático. Ninguém se esquece de Vasco Granja porque, e perdoem-me o lugar-comum, todos crescemos com ele, e ele connosco. Na exposição passa um filme, ou reportagem filmada, que mostra Vasco Granja em todo o esplendor da sua simplicidade, saindo de casa para passear o cão.
No fim da linha, outro episódio comovente. A 5 de Maio de 2009, aos 83 anos, Vasco Granja morreu em Cascais, fruto de complicações respiratórias. Poucas horas antes, estivera a ler com a filha um poema de Vinicius de Moraes e a folhear um exemplar da revista infantil Tic-Tac. Quando era criança, vivendo no Príncipe Real, os pais, apesar das poucas posses, compravam-lhe o Tic-Tac, entre outras revistas com histórias aos quadradinhos, como O ABC-zinho ou O Senhor Doutor. No dia da sua morte, Vasco Granja folheou uma revista que certamente lera em criança. Depois… koniec.
O mundo seria melhor se nele houvesse mais pessoas como Vasco Granja, o Sr. Koniec da nossa infância feliz. Num tempo em que havia tempo. E em que, por bendita graça, o diabo à solta não inventara ainda os reality-shows.
 
 
António Araújo


 
 
 
 

9 comentários:

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    1. Já corrigi, obrigado!

      Cordialmente,

      António Araújo

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  2. Um grande aplauso pelo texto, um ainda maior agradecimento pela homenagem a uma pessoa a quem devemos tanto, desde logo por ter contribuído para tornar muitas infâncias (na qual incluo a minha) mais felizes - e mais animadas. E isso ninguém nos tira.

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  3. Vasco Granja não fez parte da minha infância, mas era uma figura agradável e acabei de ler que um Homem . Porém, vi alguns dos desenhos animados de que fala, talvez búlgaros; achei engraçado. Eram muito diferentes dos que então se usavam.

    Parecia-me uma pessoa cândida. E era tanto mais.

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  4. António - Conheci o Vasco Granja quando trabalhei com o Eduardo Prado Coelho enquanto Director Geral da Acção Cultural. O Eduardo reuniu um grupo muito interessante de colaboradores no Palácio Foz e foram tempos inesquecíveis. O Vasco Granja era um colega muito simpático para com uma jovem que passava por ser de direita em inícios de 1976. Os outros colegas do PCP não eram para comigo nada afáveis... A minha filha mais velha fartava-se de vê-lo na TV (é da sua geração, António)

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  5. Um grande bem haja ao caríssimo A. Araújo pelo enaltecimento de boa memória ao Vasco Granja. É precisamente assim que o recordo!! Cresci com ele desde que me lembro de mim. Desde que me lembro de mim e da televisão, que nem sei de qual me lembro primeiro, de memória! A preto e branco, primeiro, e a cores, depois! O Vasco Granja era o Sr. dos desenhos animados. De todos os desenhos animados, ainda que o não fosse!! Recordo-me com gosto, saudade e melancolia, do Vasco Granja, de mim e da minha televisão!!

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  6. Embora a ideologia política (seja lá o que isso for...) nos separasse, sempre gostei de o ver e o que mostrava.

    Gostei muito dos KONIECS e dos cartoons americanos que mostrava.

    Tinha bom gosto, amabilidade, afabilidade - e sabia falar à fantasia dos jovens.
    Jovem da fantasia, aliás, que sempre foi.
    Para nosso bem.

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    1. Agradeço muito todos os simpáticos comentários.

      Cordialmente,

      António Araújo

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