segunda-feira, 27 de abril de 2015

Um país, muitas Espanhas.

 
 
 















Fotografias de Rafael Sanz Lobato




Já tinha por aqui falado, há muito tempo, de Rafael Sanz Lobato, caçador solitário, pioneiro do fotojornalismo e do documentalismo antropológico em Espanha. Morreu agora. Com os seus pretos e brancos violentos, captou como poucos a alma de uma certa Espanha, um passado que já passou. Outro nome que se foi há pouco, José Miguel Iribas, sociólogo do turismo, o grande estudioso do crescimento anárquico de Benidorm. Dois homens, duas Espanhas. Ambas agonizantes.
Lembrei-me agora de uma história, a história de Benidorm. Nos alvores dos anos cinquenta, o alcaide da terra, don Pedro Zaragoza Orts, impulsionou o betão – e, pecado maior, autorizou o biquíni. O arcebispo de Valência, Marcelino Olaechea, excomungou don Pedro. Nem mais, nem menos. Pedro Zaragoza era um homem curtido pela vida, velha raposa de muitos ofícios: filho de marinheiro, foi criado pela avó, dado sua mãe ter morrido precocemente. Estudou também para marinheiro, em Barcelona, mas largou os livros e fez-se mineiro. Sairia das entranhas da terra para ir trabalhar como maletero em Madrid, na estação Las Delicias. Para abreviar: voltou à terra natal, foi eleito alcaide. A ele se deve o início daquele caos urbanístico completo. Sancionado pelo prelado, não o fez por menos: meteu-se na sua Vespa, percorreu muito quilómetro, chegou a Madrid e pediu audiência a Francisco Franco. Disse, e com razão, que sem biquíni não haveria turistas de cara al sol. O Generalíssimo tranquilizou-o quanto ao uso do biquíni nas praias de Benidorm. Excomungado pela Igreja, don Pedro saía da capital com o beneplácito de quem mandava. E assim, de biquíni em biquíni, o betão tomou conta do Sul da Espanha. José Miguel Iribas estudou o assunto a fundo, enquanto Rafael Sanz Lobato ia captando imagens poderosas doutra Espanha profunda, dolorida e negra.   
 
 
O biquíni em Benidorm
 
 
Ocorreu-me esta história porque li há dias que o candidato dos Ciudadanos à câmara de Benidorm vai a Madrid no próximo dia 3 de Maio. Como? De Vespa, pois claro. Certamente conhece a épica jornada de don Pedro Zaragoza, que agora repete, em tempos democráticos, para exigir de Madrid que considere Benidorm «município turístico», um estatuto que trará à terra uma mão-cheia de «benefícios», todos péssimos para o bom-gosto e o bom-senso. Para os que não conhecem, eis a costa de Benidorm, onde pontifica o grandioso Intempo, um arranha-céus capaz de ombrear com as Petronas de Kuala Lumpur:
 

Benidorm, a imortal, abrilhantada pelo Intempo

 
 
 
E, falando em senso, como é possível que Benidorm não seja já considerada  «município turístico»? Por que bulas? As do bispo de Valência, desautorizado pelo Caudilho? Mistérios de Espanha. Quase tão misteriosos e insondáveis como os caminhos do Edifício Espanha, em Madrid, de que já falei aqui (e vou voltar a falar quando a Laura me mandar um documentário que se fez sobre o bicho).
 
 
Edificio España, Madrid
 
O portentoso mastodonte encontrava-se em ruínas, ou perto disso. O seu interior era atravessado por fantasmas e espíritos tenebrosos. Como o de Hortensia, a secretária que foi lançada do 14º piso, ao surpreender um ladrão em flagrante delito. O España vai agora ser renovado. Por chineses, claro. Dentro de quatro anos, prometem os sínicos investidores, será um hotel de luxo. Madrid merece-lo.
 
 
A fregona de Manuel Jalón
 
 
Resta saber se foi também chinês o comprador anónimo que deu 500 euros por uma esfregona. Não uma esfregona qualquer, daquelas made in China. Não. Uma original, das concebidas por Manuel Jalón nos anos cinquenta. É verdade: enquanto don Pedro Zaragoza ia até Madrid, montado na sua Vespa, em Saragoça Manuel Jalón Corominas inventava a fregona. Vespas, biquínis e esfregonas, é muito design junto. Assim se foi exterminando o que restava da Espanha feudal, capturada pela objectiva de Sanz Lobato.  Os modelos originais da fregona do engenheiro Jalón, considerados um prodígio de funcionalidade, tão libertadores da mulher como os biquínis excomungados, são agora leiloados em hasta pública como peças de colecção. Do modelo Doméstico, agora levado à praça, só foram feitos duzentos exemplares. Uma raridade, portanto. Quase tão rara e singular com a vida de Sor Sonrisa, de que falarei em breve, se não for maçada.
 
 
Para o José António Teles Pereira, um abraço antigo  
 
 
 
      António Araújo          
 
 


4 comentários:

  1. Muito obrigado pelos comentários de ambos. Grandes fotografias as de Sanz Lobato, sem dúvida. Palavras exageradas sobre o Malomil, mas que agradeço, obviamente.

    António Araújo

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  2. Quem nunca foi feliz em Benidorm que atire a primeira pedra! Eu não atiro:)

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