sexta-feira, 3 de abril de 2020

O som mesmerizante do mundo







O som do riso de ratos em Manhattan, se quisermos começar por aí. Ou da terra a estalar no deserto.      

A que soa a lava? E a barreira de coral?

Ouvir um concerto de chuva, que afinal é vento, que afinal são 47 000 árvores, que afinal são uma só. O que será um indivíduo em tudo isto, afinal-afinal?

Ou a guerra das estrelas travada aqui tão perto, tão à mão das orelhas, na atmosfera dos cabos dos teleféricos nas montanhas.

E além da revelação da acústica acidental dos mausoléus, podemos enfim conhecer o que é isso de “ruidoso silêncio” de que se fala por tudo e por nada. O verdadeiro, the one and only [spoiler alert], o das profundezas das cavernas dos morcegos.

Sobretudo, podemos matar saudades da paisagem sonora, agora já quase tão exótica e longínqua, da convivialidade feliz de seres humanos em espaços abertos.

O som, lembram nesta peça, é a primeira e a derradeira experiência dos sentidos. Começamos a discerni-lo já antes de nascermos, e é a última coisa a apagar-se quando nos extinguimos.

[a ouvir ou em autoplay, ou saltar à escolha no menu, no canto superior direito. No inferior direito, a pausa / play. É só levar lá o rato mais perto de si, para aparecer onde clicar; pode demorar uns segundos a carregar ao entrar]



Manuela Ivone Cunha







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