sábado, 19 de outubro de 2013

A malignidade do banal.

 
 
 
O Volksgerichtshof, 1934
 
 
No momento Hannah Arendt torna-se tópico de conversas banais. Tudo por causa de uma vida condensada num filme sobre um julgamento. É curioso: o filme genial de John Ford sobre Abraham Lincoln também não pretendeu ser uma biografia – no cinema não se pode fazer verdadeiramente biografias. Foi apenas, como o de Hannah Arendt, um filme concentrado num julgamento onde o bem triunfou sobre o mal devido à coragem que um homem teve para fazer frente à turbamulta.
O tribunal é esse palco da vida onde simbolicamente o bem e o mal se defrontam. Mas nunca se sabe de que lado eles estão. Ora, o mais extraordinário do nazismo não foi o facto de ele ser a expressão radical do mal, mas a sua capacidade para revelar em cada pessoa o mal que nela vive e que a civilização tentou controlar e polir, baldadamente. Por mim, julgo que o mais incompreensível do nazismo foi o modo como homens que identificamos com o bem – médicos e juízes – se tornaram protagonistas do mal.
 
 
Roland Freisler
 
 
 
Roland Freisler, ao lado de outros juristas nazis como Franz Schlegelberger, Otto Thierack, Curt Rothenberger (alguém lhes chamou os quatro reformadores legais e judiciários do nazismo) corporizou muitos dos males do Direito ao serviço do totalitarismo. Insigne (se é que tal palavra se justifica) jurista nazi, Freisler teve a distinção de assinar o livro de presenças em Wannsee, ao lado de outras luminárias do sistema concentracionário. No final da guerra, distinguiu-se pela histeria com que condenava os poucos homens de coragem para quem, na Alemanha, o bem foi um imperativo categórico que exigiu a acção.
Dos conspiradores de 20 Julho de 1944, tantos condenou à pena capital. Mas ainda a Freisler faltava condenar mais alguns. Naquele dia 3 de Fevereiro de 1945, no Volksgerichtshof, o Tribunal do Povo de Berlim, preparava sofregamente mais uns quantos julgamentos. Ouviram-se as sirenes que anunciavam mais um bombardeamento diurno da aviação americana. Insensível, Freisler continuou a alinhar os processos daqueles que já antecipadamente condenara. Guiada por forças superiores, uma daquelas bombas acertou em cheio no edifício do tribunal.
 
 
Fabian von Schlabrendorff
 
 
Freisler morreu e poucos o terão chorado. Quando descobriram o seu corpo, junto dele encontraram o último processo que ele estudara, o de um dos conspiradores, Fabian von Schlabrendorff. Este, advogado antes da guerra, adjunto de um opositor de Hitler durante o serviço militar, opositor da primeira hora, não conseguira ficar inactivo. Em 1943 colocara uma bomba no avião do ditador que desastradamente não explodira e, em 1944, colaborara com Stauffenberg. Preso pela Gestapo, tinha sido torturado. Ia ser julgado na sessão de 3 de fevereiro e a condenação à morte era certa. Devido à bomba providencial, sobreviveu. Depois, passou por Sachsenhausen e por Dachau, até ser libertado pelos americanos em Maio. Com a paz, voltou à actividade como jurista. Entre 1967 e 1975 seria um distinto juiz do Tribunal Constitucional alemão.
 
 
Robert Rosenthal
 
 
 
 
Quem carregara no botão que libertara a bomba fatal? Não se pode saber com certeza. Mas é certo e sabido quem comandava a esquadrilha que atacara Berlim: Robert Rosenthal, o tenente-coronel que era um dos pilotos mais condecorados (16 medalhas) da força aérea americana. Um extraordinário piloto que sempre se ofereceu para o combate. Depois de ter completado 25 missões poderia ter sido desmobilizado. Mas renovou a comissão e completou 53 ataques. Numa delas, sobre Münster, de um total de 13 bombardeiros, o seu B-17 Flying Fortress foi o único a regressar, com um respeitável buraco na asa direita, devido a um impacto directo da antiaérea alemã. Depois, foi abatido duas vezes. Numa delas, de retorno da  Alemanha, apesar de gravemente ferido foi recuperado pela resistência francesa e regressou a Inglaterra onde se ofereceu de imediato para mais missões. A seguinte foi a de 3 de Fevereiro. Com o bombardeiro atingido, o comandante Rosenthal, imperturbável, manteve o rumo direito a Berlim. Depois de largar as bombas, esperou que a tripulação saltasse de paraquedas. Foi o último a saltar, mesmo antes de o avião explodir. O Exército Vermelho resgatou-o e ainda voltou a Inglaterra para continuar a combater. Acabada a guerra na Europa, ofereceu-se para combater no Pacífico, mas já não foi necessário.
O que movia Robert Rosenthal?  Diz-se que era por ser judeu, um judeu americano. Alguns insinuaram que era por vingança, por ter tido familiares em campos de concentração. Rosenthal sempre negou: alistou-se no dia seguinte a Pearl Harbor sem saber que ia combater os alemães. Tinha vinte cinco anos e era um advogado jovem mas já bem cotado, graduado “summa cum laude” pela Brooklyn Law School e contratado por um bom escritório de Manhattan. Pela idade e pelas competências, foram-lhe oferecidas missões de não combatente, mas sempre insistiu que queria defrontar o inimigo, fossem os alemães ou os japoneses.
 
 
 
É bom que se diga que os tripulantes de bombardeiros tinham a maior taxa de mortalidade de todos os combatentes americanos, a seguir aos tripulantes dos submarinos no Pacífico. Nada o demoveu: o seu sentimento de dignidade humana impelia-o a combater aquilo que via como a encarnação do mal. Sempre garantiu que não havia razões pessoais para a sua ânsia de combater: “Everything I´ve done or hope to do is because I hate persecution.  A human being has to look out for other human being or there´s no civilization.”
O seu combate continuou numa sala de tribunal. Juntou-se à equipa de acusação americana de Robert H. Jackson em Nuremberga. Durante o julgamento, foi um dos interrogadores do marechal Keitel e do incompetente chefe da Luftwaffe, Herman Goering: “Seeing these strutting conquerors after they were sentenced – powerless, pathetic and preparing for the hangman – was the closure I needed. Justice had overtaken evil. My war was over.” Não posso deixar de pensar que a justiça teria sido poética se a bomba que matou Freisler tivesse efectivamente sido despejada pelo botão pressionado por Rosenthal. O dia 3 de Fevereiro de 1945 ficaria nos anais assinalado pela luz da vitória do bem sobre o mal radical, por meios extraordinários.
A dimensão e a visceralidade de tudo o que aconteceu leva-nos, contrariando de algum modo Hannah Arendt, a pensar que o mal nunca é banal. O banal pode ser mau, é certo. Radicalmente mau, assustadoramente mau. Mas, ainda assim, banal. A isso, afinal, alude a pensadora que recusava ser filósofa. Por isso, falemos, não da banalidade do mal, mas da malignidade do banal. O bem, igualmente por definição, nada tem de banal. E dispõe de instrumentos incomuns. Que o diga Schlabrendorff, o jurista salvo no último minuto das garras de um jurista das forças do mal por um jurista e, sobretudo, por um homem bom que nada tinha de banal.
 
José Luís de Moura Jacinto
 
 
 
 

6 comentários:

  1. Muito bom! Não admira que ao longo dos séculos se tenham inventado entidades exteriores à humanidade que seriam "responsáveis" pelo mal...

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  2. a sua capacidade para revelar em cada pessoa o mal que nela vive e que a civilização tentou controlar e polir, baldadamente.
    Que pensamento maravilhoso.
    Deviamos meditar nisto.
    Todos, mas mesmo todos, estamos à disposição do Mal.

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  3. F.A. O fenómeno repete-se um pouco por todo o lado, aqui e agora, mas não damos por ele pois não tem as características de massa que teve o fenómeno nazi, mas se atentarmos nas promiscuidades, nas mesquinhas conspirações, invejas, perseguições nos locais de trabalho, para que seja o outro a ser despedido ou dispensado... para salvar o c... , o medo das direcções e chefias , as lisonjas,as coligações , os grupelhos de apoio aos pequenos poderes,isolando os que se movem por princípios, então descobrimos que, infelizmente, é assim mesmo, a banalização do mal é que nos deve preocupar. Só os respeito por princípios, só a luta para mantermos a coluna vertebral direitapode evitar que mal vingue.

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  4. História curiosa e muito interessante, sobretudo como argumento cinematográfico...

    Desculpe a discordância, mas a malignidade do banal chega a ser quase benigna, quando comparada com a banalidade do Mal.

    Ana Areias.

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  5. O que movia Robert Rosenthal?
    A vontade de matar. Um genocida banal cuja diferença para Hitler residiu nos números.

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