terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ignorância atrevida.

 
 
 

 
 

Última hora: Peixoto decidiu abrir um livro. Fê-lo numa livraria japonesa e, talvez por isso, não admira que fiquemos todos de olhos em bico perante a sua ignorância.

         Decidiu Peixoto castigar o livro que viu, dizendo que estranhara ao seu orgulho nacionalista e patrioteiro que, em terras de Portugal, os autores hajam decidido colocar símbolos de Espanha: Picasso, D. Quixote, a paella, o flamenco. Peixoto ficou «a pensar nisso», o que é mau. Decidiu até «fazer algumas buscas», o que ainda é pior.

         O livro é um atlas parta crianças, da autoria de Aleksandra Mizielinska e Daniel Mizielinski. Sou um ávido coleccionador de atlas e mapas – em especial, de atlas para crianças – e tenho aqui à frente um exemplar desse livro. É, aliás, um livro maravilhoso.

         Diz Peixoto, douto: «Ignorância deste tamanho é triste».

         O que é triste é não ter reparado que a página em causa apresenta um mapa de Espanha, trata só de Espanha, não de Portugal. Se tivesse ido às páginas 6 e 7, onde está o mapa da Europa, verificaria que Portugal está devidamente destacado e identificado.

Neste livro – que, insisto, é dos mais bonitos que neste domínio se têm publicado nos últimos anos –, os autores escolheram diversos países. Estão no seu direito. As páginas 32 e 33 são dedicadas a Espanha e o que acontece, tão-só, é que as imagens desse país estão colocadas a toda a largura da folha. Bastaria a Peixoto ter recuado às páginas logo atrás, as 30 e 31, para ver que, num mapa de França, inúmeros símbolos gauleses são colocados nos territórios de países vizinhos. Não há confusão possível. Só na cabeça de quem não sabe ler, nem sequer um livro infantil.
 
        

 

      Tem Peixoto o atrevimento de dizer que aos autores «bastava uma busca no google com a palavra “Portugal”». A ele, o douto Peixoto, bastava-lhe ir à página 6 do livro para lá ver, preto no branco, Portugal escrito com todas as letras, até com identificação da capital, Lisboa.
 
 
 
 
José Luís Peixoto, romancista consagrado, nem um livro infantil sabe ler, coitado. Pior ainda, desata a falar da ignorância dos outros, a recomendar-lhes buscas no Google, quando é ele, só ele, que bem precisava de… estar calado.
 
 
António Araújo

 
 
 


23 comentários:

  1. Por esses e outros motivos de pseudo-superioridade exacerbada não consigo ir à bola com grande parte dessa tão elogiada "nova geração de autores".

    Tentam ser algo que, muito sinceramente, não conseguem, todavia, a "crítica" sedenta por pescar "novos tesouros" vais atrás deles todos e põe-se para aí a elevá-los a "novos Saramagos, Eças, e Pessoas". Longe, muito longe.

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  2. Discordo. O homem abriu o livro, viu la umas coisas, leu com atenção suficiente para ser levado a pensar noutras coisas que poderiam estar "no google". Isto ja é muito para um so dia. Sugerir que ele poderia ter virado as paginas do livro no mesmo dia é um exagero, e julgo que poderia até ser perigoso para a saude. O Antonio Araujo não se preocupa com as pessoas.

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  4. Antigamente havia os diários com um chave que eram guardados numa gaveta.
    Só os próprios sabiam as palermices que escreviam.
    Depois apareceram a Lux, Vidas, Caras, Maria e o Correio da Manhã e outras pessoas passaram a saber as palermices que outras escreviam.
    Depois apareceu o facebook e toda a gente ficou a saber das palermices que outras pessoas escreviam.
    O Peixoto ainda não interiorizou isto, coitado.
    A consolação que ele pode ter é que está muito bem acompanhado.

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    1. Salvo erro, o que se explica neste texto é exactamente a mesma coisa do que o exposto no texto do Malomil. Portanto se ha ignorância (e parece que ha), ela pertence toda ao Joaquim Peixoto. Neminem laedere !

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    2. Bom, também há um bocadinho de ignorância e prosápia de Sérgio Cunha, mas como ele pensa em inglês, talvez não tenha compreendido o post.

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    3. José Luís Peixoto já tentou responder dizendo que fotografou a edição japonesa...

      Nada como ir directamente ao editor:

      http://www.bigpicturepress.net/our-books/maps/

      Aí está o livro, na edição que tenho, anglo-saxónica, onde Portugal se encontra devidamente assinalado (basta ver as imagens e clicar para ampliar). Aliás, na edição polaca Portugal também está destacado, numa mapa da Europa. O texto de Sylwia Kleckzowska, que Sérgio Cunha cita, diz exactamente o que eu digo. Assim, não percebo o sentido da observação de Sérgio Cunha, mas agradeço-lhe o facto de, com apoio na edição polaca, só ter vir reforçar o que digo. Se Sérgio Cunha não percebe isso, posso fazer-lhe um desenho - ou um mapa, talvez.

      Cordialmente,

      António Araújo

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    7. Peixoto não necessitava de mudar de página, bastava ter reparado na bandeira espanhola no canto superior direito. Os mapas em geral, são cromaticamente em tons suaves, não devem é sacrificar a clareza da leitura. Neste caso a bandeira poderia ser maior, ou então, o nome do país (スペイン, Spain ou Hiszpania) em letras garrafais para que todos soubéssemos que a dupla página era todinha dos espanhóis.
      Mas - agora vou-me alongar um pouquinho -, nas três imagens do post não há um animal do mar em terra (a lampreia no mapa de França não conta porque é de água doce). A minha interpretação é séria: subliminarmente os autores reconhecem que "cada macaco deve estar no seu galho", até porque, só com esforço criativo, puseram Velasquez em Portugal e um carro a nadar.

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    8. Pelos vistos, o leitor Sérgio Cunha continua a não entender. O mapa de Espanha consta quer da página 32 da edição polaca (de 2012, publicada pela Wydawnitctwo Dwie Siostry, Varsóvia), quer da página 32 edição inglesa/australiana (2013, da Big Pictures Press). Portugal não foi selecionado para figurar autonomamente, foi um critério dos autores. Aliás, a Dinamarca, a Noruega, vários países europeus, dezenas de países africanos não têm mapas autónomos. Mas, repito e insisto, quer na edição polaca, quer na edição anglo-saxónica, Portugal está destacado no mapa da Europa (página 7) e a bandeira portuguesa consta da antepenúltima página. José Luís Peixoto não percebeu que aquele não dera um mapa dos dois países Península, era um mapa de Espanha, e desatou a chamar «ignorantes» aos autores e a recomendar-lhes que fossem ao Google... Podemos lamentar que Portugal lá não esteja autonomamente, mas onde está Angola ou Moçambique? Ou, já agora, a Coreia do Norte e a Coreia do Sul? Custa assim tanto admitir um erro e pedir desculpas aos autores do livro?

      Cordialmente,

      António Araújo

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  6. JLP responde: " Dada a polémica, vejo-me na necessidade de fazer um segundo post sobre a tal ilustração ibérica. Percebi agora que, como foi referido por algumas pessoas, a ilustração apenas se refere a Espanha. No entanto, esse facto incomoda-me ainda mais. No dito mapa (ao contrário dos exemplos de outras páginas), está presente todo o território continental português. Preenchê-lo com símbolos da cultura espanhola é contribuir de uma forma muito clara para a desinformação.
    Neste detalhe, creio que o livro referido no post anterior não foi feito com o cuidado devido e, se considerarmos a importância da cultura e da história portuguesas, trata-se de uma falta grave.
    Não é assunto que mereça reacções exageradas. Mas merece um post no facebook. Neste caso, até merece dois. "

    E mais um terceiro post, se tiverem curiosidade de verificar na página dele. Como diz o outro, "he has a point". Não é por acaso que às vezes, em jeito de brincadeira ou não, nas terras do uncle Sam dizem que somos o Spain's ass.

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    1. Caro André,

      Muito obrigado pelo seu comentário. Toda esta historieta começou por um «post» de JLPeixoto em que este, sem ter visto bem a obra que tinha entre mãos e que fotografou numa livraria japonesa (!), começou a insultar os seus autores, falando em, e cito, «ignorância deste tamanho é triste». Aconselhou os autores, inclusivamente, a irem ao Google verem onde é Portugal… Depois, num segundo «post», finalmente compreendeu que se enganara: «Percebi agora…», são as palavras que usa. Ora, nem uma linha de arrependimento, um pedido de desculpas aos autores do livro, que, no fundo, são seus colegas de ofício? Como se sentiria Peixoto se a sua obra fosse avaliada, criticada e insultada desta forma tão leviana? Nem um pedido de desculpas sequer? Nada. O estratagema clássico, a fuga para a frente. Agora, manipula os sentimentos mais básicos, patrioteiros e anti-castelhanos dos seus leitores. No livro não há uma referência a Portugal, disse – o que é mentira. Não existe, isso sim, um mapa exclusivamente dedicado a Portugal. Como não existem mapas específicos de dezenas e dezenas de países. Um atlas infantil deveria ser um calhamaço com páginas dedicadas a todos os países do mundo? Talvez, mas a opção dos autores foi outra. Foi uma opção, uma escolha deliberada, não um erro – e, menos ainda, não foi produto de ignorância. A haver ignorância sobre o conteúdo da obra não foi dos seus autores, mas de JLPeixoto. «Percebi agora…», é o que tem para nos dizer. Desculpas, perdão, um mea culpa? Nada. Pelo contrário, refere que mantém o que disse, «no essencial» (este recuo estratégico do «no essencial» é extraordinário...). Estranha-se é que Peixoto defenda as cores nacionais com tanto denodo e goste, ao mesmo tempo, de se afirmar como cidadão do mundo, escritor cosmopolita que vai da Amazónia a Tóquio, com escala na Coreia do Norte. Tanta viagem e tanto mundo e, pasme-se, não estranha que o livro, de África inteira, apenas mencione cinco ou seis países. Não lhe interessava falar disso, claro. O que interessava era dissimular o seu erro apelando aos sentimentos fadistas dos leitores lusitanos. Quem quiser deixar-se enganar, que deixe. Mas que ele errou e não pediu desculpas – disso não duvide, André. O modo como José Luís Peixoto geriu este pequeno episódio começou por dizer muito sobre a sua incultura e a ligeireza das opiniões que emite. Agora, esta reacção escapista diz muito sobre o seu carácter. Mas, tudo visto e ponderado, o facto é que, mesmo sem o admitir, Peixoto arrepiou caminho, meteu a viola no saco. No fundo, apresentou desculpas; sem ter a dignidade de as pedir expressamente. Um problema de linguagem, tão-só uma dificuldade de saber expressar-se. O que, tratando-se de JL Peixoto, não é nada que nos surpreenda.

      Cordialmente,

      António Araújo

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    2. Boa noite António e obrigado eu pela resposta.

      Perante tamanha resposta penso que há vários pontos a abordar.

      O primeiro é que não sou fã nem deixo de o ser de JLP nem tão-pouco alguma vez li algum dos seus trabalhos. Já ouvi entrevistas dele e não me disse muito - posso dizê-lo a título de declaração de interesses.

      O que aconteceu aqui é que vi no facebook via ECT (foi meu professor na faculdade e gosto de acompanhar os seus escritos) este tema da crítica de JLP a esta obra. Vim dar a este blog, li o post que muito apreciei e de seguida fiquei curiosíssimo em saber se JLP tinha dado resposta ou seguimento a esta matéria. Fê-lo e por isso achei por bem partilhar aqui.

      Em segundo lugar, já percebi que quer aqui quer no facebook a animosidade face a JLP é grande. Eu aí estou muito à vontade pois como já disse, nem sequer a obra do mesmo conheço e sinceramente também não faço tenções de conhecer tão cedo.

      O que eu sei é que por muito mau escritor que JLP possa ser isso não lhe tira o crédito da crítica em causa. JLP até podia ser arrumador de carros que, por mim, crítica que tem lógica, tem lógica.

      Entendo perfeitamente que a maneira como JLP se exprimiu não terá sido porventura a mais diplomática e que, para além da animosidade (pelos vistos, que eu desconhecia) já existente ainda aumentou mais essa mesma animosidade. Por mim tudo bem, desde que isso não tire o foco central da crítica em causa.

      Repito que entendo perfeitamente o que o António disse e estou de acordo que o comentário de JLP foi feito de forma muito ligeira. Estamos de acordo e o facebook é uma ferramenta que, para o bem ou para o mal, promove essa ligeireza diariamente portanto para mim, não é qualquer surpresa. Tenho como doutrina que na net não digo nada que não dissesse cara a cara ou em público. Talvez JLP na TV não teria feito a crítica da mesma forma e aí ele dá e deu o flanco para críticas como a sua António, a qual eu concordo.

      No entanto, não sendo hipócrita, em privado volta e meia poderia dizer algo do género do que o JLP disse. Acho que, em privado e "aqui entre nós que ninguém nos ouve" é algo perfeitamente normal.

      Quanto às desculpas, aparentemente JLP já esteve em contacto com os autores da obra. Nesse caso... não sei se pediu desculpas ou não mas acredito que o contacto tenho sido cordial, naturalmente.

      Em suma, a mim pouco me importa o carácter (e etc.) de JLP.

      A mim faz-me confusão ver símbolos espanhóis em cima de Portugal, ainda para mais num atlas.

      Não sou também perito em atlas nem pretendo sê-lo e também já li a explicação do António relativamente à figura em questão e para que não restem dúvidas, percebi perfeitamente e agradeço o post e a explicação.

      O que me pergunto é se esta terá sido a forma adequada de actuar. Já sei que para alguns JLP não será o ser mais esperto na Terra, mas se um adulto pode pensar que aqueles símbolos dizem respeito àquela zona o que impede uma criança (dado que é um atlas infantil) de ficar com a mesma ideia e imagem marcada do atlas na cabeça?

      Para mim não faz sentido. Entendo perfeitamente no entanto que não seja nem ignorância nem erro dos autores. Nem quero ir por aí.

      Mas se no atlas não está claro, principalmente para uma criança, então há a possibilidade de a criança ficar com essa informação errónea para mais tarde. Principalmente se falarmos de cultura de algibeira, que essa também conta.

      Por exemplo no mapa onde aparece os EUA os bonecos também vão para cima do México. Não acho correcto mas se os autores acharam por bem... não sei.

      Quanto atlas ser muito bonito, também estamos de acordo pois é-o de facto.

      Muito obrigado pela atenção!
      André

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  7. Já agora, segundo corre no Facebook, até já há mapa para um segundo livro:
    http://bit.ly/1AbNpP9

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  8. Chamem Pedro Chagas Freitas e os incontáveis inanes da inimputabilidade jovem. Eu juro, haver gente a estipêndio estatal por babar umas merdices peixotianas é coisa que acresce à minha lista de merceeiro, a negra.

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  9. O ocio ao contrario do que dizem não é pai da filosofia ma sim de imbecilidades aos montes.

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  10. Impulso ignorante. Quem nunca o teve que lance a primeira pedra.

    Isto está a ficar muito parecido aos vídeos que por aí circulam da falta de cultura de concorrentes de reality shows que são a causa da risota de quem se acha muito culto e superior. (ou servem para esse desiderato!)

    Voltando ao livro INFANTIL. É infantil, e não querendo menorizar esse facto, muito pelo contrário, os autores podiam perfeitamente ter isolado Espanha se queriam falar dela em exclusivo. Ser preciso um segundo olhar, não desculpa. Graficamente, uma página, mesmo fazendo parte de um plano, a 32 deve(ia) poder viver isoladamente e não dar azo a segundas interpretações.

    Para finalizar, os doodles (desenhos) representam a cultura/gastronomia/fauna/flora /etc… e nós não tendo sevilhanas nem D. Quixote, temos linces, azeite, touros, toureiros… e touradas como esta :)

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