sexta-feira, 19 de julho de 2019

Mandume.

 
 
 
 
Mandume Ya Ndemufayo
O último soba do povo Cuanhama
 
O povo cuanhama habitava a região correspondente à parte sul de Angola (Ovambo), que faz fronteira atualmente com a Namíbia. Apesar do clima ser semi-árido e não favorecer a agricultura, as terras agrícolas, trabalhadas pelas mulheres cuanhamas, atingiam uma dimensão considerável. Devido aos constrangimentos climáticos, os cuanhamas eram forçados a constantes transumâncias, ora na busca de pastos, ora na busca de água – um elemento raro no espaço geográfico do Ovambo.
Entre os cuanhamas havia bons metalúrgicos, possuidores de técnica apurada para a obtenção do metal líquido, e era-lhes reconhecida a grande paixão pela cor vermelha e por ritmos fortes, normalmente emitidos por agigantados tambores cilíndricos com tímpanos de pele.
Revelavam uma inata vocação poética, possuindo no seu cancioneiro centenas de poemas, a maioria dedicados aos bois.
Os cuanhamas usavam como armas tradicionais o arco e flechas, o porrinho e a lança de arremesso equipada com caudas. Eram bons caçadores e destros cavaleiros, o que os tornava proprietários de muitos cavalos, constituindo esse facto motivo de grande prestígio e de vantagem estratégica em combate.
 

Mandume
O último chefe (soba) do povo cuanhama (ou kuanyama) foi Mandume ya Ndemufayo. Nasceu em 1884 e morreu em 1917, tendo reinado de 1911 até à sua morte. Num ponto, o povo cuanhama e a História são unânimes: era um homem cruel, mas muito inteligente e politicamente hábil: um déspota feroz, sagaz, mas corajoso.
O soba Mandume era letrado e, abstraindo a suas atitudes bárbaras, tolerava as missões protestantes alemãs, que o instruíram na língua, na escrita e na religião. Dizia ele, ao que consta, que «todos os brancos que estivessem dentro do seu território deviam ser mortos, à exceção dos padres», e a comprová-lo mandou matar um português, a mulher e os amigos que o acompanhavam. Para justificar a diferenciação que fazia entre as missões, católicas e protestantes, inimigas as primeiras, amigas as segundas, referia o facto de os católicos «só se dedicarem à catequese e se meterem em negócios de gado», enquanto os luteranos primavam por «elevar o nível social e intelectual das massas».
O seu fim, trágico define o homem que era: valente, ousado, arrogante e aventureiro. Abandonando N'Giva, sede do reino, depois da última batalha da Môngua com os portugueses, em Agosto de 1915, fugiu para Lhole, na fronteira com o Sudoeste, e prestou vassalagem à Coroa Britânica.
Impaciente, de espírito ardente e guerreiro, desenvolveu uma enorme atividade nos domínios já abrangidos pelos portugueses, incitando à revolta contra os brancos e intimando-os a passarem para o sudoeste com suas manadas. Eufórico, foi além dos limites da prudência e exerceu uma ação de combate em território inglês.
No ano seguinte, dirigiu investidas ao Cuanhama, tentando reconquistar o seu reino. Foi então que as autoridades portuguesas de Namakunde decidiram pedir aos ingleses que terminassem com as atividades de Mandume. A 30 de Outubro de 1916, o soba aniquilou uma força portuguesa, comandada pelo tenente Raul de Andrade, habilmente atraída a uma cilada.
Convocado pelos ingleses para uma conferência de paz em Windhoeck, no atual território namibiano, recusou-se a ir, argumentando: «os ingleses que venham ao Lhole, se quiserem», e preparando-se para os receber, sabendo de antemão que apressava o seu fim, declarou: «se os ingleses me querem, podem vir apanhar-me. Não dispararei o primeiro tiro, mas não sou um touro do mato. Sou um ser humano. E como também não sou uma mulher, combaterei até ao último cartucho».
 
 
 
 
 
 
Assim terá morrido, embora outras versões relatem o suicídio do soba, perante a ameaça das tropas portuguesas, ou o ter sido abatido a tiro por estas, sendo depois decapitado e a sua cabeça exibida «durante anos» pelas autoridades lusas. Desconhecendo-se os pormenores históricos e qual a versão que corresponde à verdade, mas deverá ficar para a memória coletiva esta personagem, bem relatada num poema épico laudatório escrito em sua honra pelo Padre Carlos Estermann, e que consta da sua obra Etnografia do Sudoeste de Angola, editada em 1960.
 
Mário Cordeiro




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