quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Casas Vazias, de Filipe Condado.





Casas Vazias
Fotografia de Filipe Condado
 

 
 
 
 

 



Cores garridas, luzes quentes e direccionadas, superfícies polidas e refulgentes… algumas imagens de Casas Vazias podiam ser de um catálogo de decoração, outras sugerem vadiagens entre o pop e o burlesco. Quase nenhuma nos faz chegar ao vazio. A princípio estranha-se a incoerência. Depois as imagens entranham-se e o desconcerto pacifica-se.

 

 
 


 

 

P – Há muito pouco vazio nas tuas fotografias, sei que é um comentário que já recebeste de muita gente que visitou a exposição. «Falta pó…» já te disseram, não foi? Concordas com estas opiniões que identificam uma aparente contradição entre o título e o tom da tua exposição? O que achas que leva as pessoas a terem essa percepção?

 

É verdade, de facto algumas pessoas não viram o que estavam à espera mas sim, e sobretudo para mim, viram o que não estavam à espera. Fascina-me a ideia de ser capaz de mostrar um lado das coisas e das realidades que, numa primeira instância, nos passa despercebido.

Como dizia Roland Barthes, «a fotografia ganha existência quando provoca algum tipo de aventura». Penso que esta frase ilustra muito bem este desafio. De facto, parece haver muito pouco «vazio» nas minhas fotografias porque o meu interesse concentrou-se nos objectos que pareciam habitados ou ainda vividos, conferindo-lhe, assim, um carácter mais misterioso.

As casas também tinham muito lixo e algumas apresentavam vestígios de ocupação ilícita, mas não era isso que eu queria mostrar. A fotografia tem este poder como forma de comunicação; como forma de mostrar uma realidade que é sempre parcial e que é fruto de uma decisão do autor.

 

P – Este projecto surge no seguimento de outro, «Casas Perdidas». Nesse, os desígnios cénicos eram óbvios: querias fazer suspender móveis sobre empenas de prédios ruídos para simular uma reocupação imaginária daqueles espaços. Achas que é o mesmo princípio que está subjacente à manipulação dos objectos que fizeste nas «casas vazias»?

 
Sim. Sendo que no projecto «Casas Perdidas» a manipulação era total.

 

P – Em ambos os projectos das casas – perdidas ou vazias – há uma deliberada manipulação do real. O que procuras na fotografia? Achas que a fotografia te serve mais para brincar com a realidade do que para tentar captá-la? E em que medida é que achas isso pode ser um elemento de coerência no teu trabalho?


Não sei muito bem o que é a realidade, ou melhor, o que é usar a fotografia como meio para captar a realidade. A própria fotografia puramente documental ilustra ou apresenta uma realidade que é parcial e muito condicionada pelas decisões do autor... Um dia, um grande amigo disse-me que achava que a minha fotografia era muito asséptica, muito cuidada.

Nisto, parece-me haver um fio condutor no meu trabalho. Interessa-me olhar demoradamente para aquilo que quero retratar; tenho sempre muita preocupação com todos os elementos e com a sua composição. A minha fotografia raramente apresenta um instante irrepetível.
 
 
 
 

Exposição patente na Sala do Veado, Museu Nacional de História Natural
Até dia 3 de Março
 



 
 
Isabel Corrêa da Silva


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