segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Jimmy.








 
 
Celebra-se hoje o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro e, por isso, lembrei-me de contar mais uma história de reencontros, tão do agrado do Malomil.

         Há um livro muito bom, excepcional, sobre o cancro, misto de história da luta que esta(s) doença(s) motivaram e narrativa autobiográfica. É One in Three, de Adam Wishart. Ao que parece, os cancros – é um erro continuarmos a falar de cancro, no singular – vão afectar, a breve trecho, não one in three mas two in three. Talvez as probabilidades de cura sejam maiores, mas a taxa de incidência, segundo dizem, irá aumentar. Mas a história que vou contar descobri-a noutro livro, que acabei de ler há umas semanas atrás. O Imperador de Todos os Males. Uma biografia do cancro, de Siddhartha Mukherjee. É uma obra notável, galardoada em 2011 com o Prémio Pulitzer. Até surgir este livro, o que mais me fascinara foi o One in Three; agora, reconheço que The Emperor of All Maladies o supera largamente – na profundidade da investigação, na dimensão do volume. Existe tradução portuguesa, sofrível. É um livro fascinante, sobretudo porque tem uma arquitectura e uma lógica internas extraordinárias. Não quero estragar o interesse daqueles que se abalançarem a ler uma obra de mais de 700 páginas sobre os cancros, mas o livro, na parte final, tem um capítulo que recupera tudo quanto se disse atrás, fazendo uma síntese, em breves páginas, de milhares de anos de História. Em 500 a.C., a rainha persa Atossa teve, provavelmente, cancro da mama. Em três páginas magistrais, Siddhartha Mukherjee explica o que lhe teria acontecido se, em vez de o cancro ter aparecido em 500 a.C., tivesse surgido na Idade Média, em meados do século XVIII, nos tempos oitocentistas da mastectomia radical de Halsted, nos inícios do século XX, nos anos 50 ou nos anos 70, 80 ou 90. Terapêuticas diferentes, todas explicadas ao pormenor ao longo deste longo livro. Depois, o autor vai até 2050, prevendo o que aconteceria à rainha persa se vivesse nesse futuro, em que, muito provavelmente, poderia sobreviver com o auxílio de fármacos direccionados. Se isto nos deixa mais confortáveis, o mesmo se não dirá sobre o que vem logo no parágrafo seguinte: se, em vez de cancro da mama, padecesse de cancro pancreático, por exemplo, ou certas formas mais invasivas de cancro da mama, o seu prognóstico de vida não seria muito diferente daquele que teria há 2.500 anos atrás.

         Mas a história que quero contar é outra, muito diferente. Nos Estados Unidos, em meados do século XX, foi lançada uma grande campanha de luta contra o cancro. Escolheram como «mascote» - por assim dizer… - uma criança real, «Jimmy». Conhece o Jimmy? (…) O Jimmy é qualquer uma dos milhares de crianças com leucemia ou qualquer outra forma de cancro, nesta nação ou em todo o mundo – dizia um panfleto de 1963, para obter donativos para o «Fundo Jimmy». Numa história típica da América de Frank Capra ou de Norman Rockwell, os norte-americanos comoveram-se com Jimmy. O «Fundo Jimmy» conseguiu arrecadar uma quantia astronómica para a investigação e o combate à leucemia. Um apelo radiofónico de «Jimmy», emitido em 1948, quando tinha 12 anos, permitiu obter 200.000 dólares em donativos para a Children's Cancer Research Foundation, levando à criação do Jimmy Fund.
 



 


         «Jimmy» era o nome fictício de uma criança que em 1948 chegara ao Instituto Oncológico de Boston, vindo do Maine com um diagnóstico de linfoma nos intestinos. No Verão de 1997, uma mulher escreveu para o Instituto Oncológico Dana-Farber, o mesmo onde, quase 50 anos atrás, «Jimmy» estivera internado. Julgava-se que, à semelhança de todas as outras crianças que estiveram com ele naquela ala hospitalar, «Jimmy» já estaria morto. Ainda assim, houve falsos avistamentos de «Jimmy» em vários pontos dos Estados Unidos, ao longo de décadas, e o Instituto Dana-Farber já estava acostumado a receber cartas e telefonemas de pessoas que diziam ter encontrado a lendária criança.
 
 
Sidney Farber (1903-1973)

 

         Durante décadas, a família tinha ocultado a identidade e a sobrevivência de «Jimmy». Apenas uma pessoa sabia da sua existência: Sidney Farber – o grande, o enorme médico Sidney Farber, a quem muitos milhares ou milhões de pessoas devem a vida, mesmo nunca tendo ouvido falar do seu nome. Todos os invernos, os familiares de «Jimmy» recebiam um postal de Natal de Farber, até que este faleceu, em 1973. A mulher que escreveu em 1997 para o Instituto Dana-Farber dizia ser irmã de «Jimmy», assegurava que este se encontrava vivo e de boa saúde. Chamava-se Einar Gustafson, era camionista no Maine e tinha três filhos. Todos os anos, ano após ano, década após década, os irmãos Gustafson tinham contribuído para o «Fundo Jimmy», sem revelarem que a criança cuja imagem lhe servia de símbolo era seu irmão. O próprio Einar fazia donativos para o Fundo que tinha o seu rosto, o rosto de uma criança que jogava beisebol – e que todos julgavam que não tinha sequer chegado à idade adulta. Einar não queria que se soubesse que era «Jimmy», para que não julgassem que se pretendia vangloriar por ser uma pop star na América ou um sobrevivente do cancro. Mas ficou aliviado quando a irmã lhe contou que contactara o Instituto Dana-Farber. Ela não queria que o irmão morresse sem que soubessem que sobrevivera. Ele compreendeu que a irmã tinha razão.

         No Instituto Dana-Farber, por pouco a carta não era deitada para o lixo, pois eram frequentes, como se disse, os relatos dos que afirmavam ter visto «Jimmy». Os médicos, aliás, já tinham informado o Departamento de Relações Públicas do Instituto que as hipóteses de sobrevivência de «Jimmy» eram nulas, pelo que não deveriam dar ouvidos a mais histórias sobre ele. Fora uma criança; agora, era um símbolo, uma efígie que servia de imagem de marca. Nada mais. Alguns pormenores da carta, no entanto, revelavam coisas que só alguém muito próximo de «Jimmy». Por exemplo, as longas viagens a Boston, que chegavam a durar dois dias, com «Jimmy» deitado nas traseiras de uma carrinha, sempre equipado com o equipamento de um jogador de beisebol. Uma funcionária do Instituto, Karen Cummings, compreendeu que aquela carta não era igual às outras. Semanas mais tarde, marcou um encontro com «Jimmy» numa área de serviço nos arredores de Boston. Einar Gustafson, a.k.a. «Jimmy», apareceu com a mulher. Às seis da manhã de um dia gelado, nos subúrbios de Boston, ambos ouviram, emocionados até às lágrimas, uma cassete de 1948, com uma gravação de «Jimmy» a cantar a sua canção preferida. Mais tarde, Cummings foi de carro até ao Maine e, na casa de «Jimmy», este mostrou-lhe o uniforme de beisebol que lhe tinha sido oferecido quando era uma criança-símbolo da luta contra o cancro. Tinha-o guardado, durante décadas, numa caixa de cartão no sótão da sua casa.

         Em Maio de 1998, «Jimmy» regressou ao Hospital Pediátrico de Boston, onde tinha sido acolhido por Sidney Farber. Entrou no edifício agora chamado «Fundo de Jimmy», visitou os quartos, percorreu os corredores. Tudo mudara. Ali estava Einar Gustafson, cinquenta anos depois. Tinha, nessa altura, 63 anos de idade. Recordava a ala oncológica infantil como um sítio com muitas cortinas. «Quando as crianças estavam bem, as cortinas eram abertas. Mas em breve voltavam a ser fechadas e não havia criança alguma quando se tornavam a abrir». Einar Gustafson sobrevivera a tudo isso, quando eram nulas as hipóteses clínicas de sobrevivência, como diziam os médicos do Instituto Dana-Farber, em 1997. Ainda hoje, é impossível determinar se sobreviveu devido à cirurgia a que se sujeitou, à quimioterapia a que se submeteu ou, pura e simplesmente, devido ao facto de o seu cancro ter tido um comportamento benigo. Surpreendentemente benigno. Tão espantosa como a sua sobrevivência é a modéstia de Sidney Farber, que poderia ter erguido o triunfo de Jimmy sobre a morte como uma vitória da sua prática médica na luta contra o cancro. Como espantosa é a modéstia de Einar Gustafson, que durante décadas silenciou o facto de ter vencido a fatalidade das cortinas fechadas.
 
 
Einar Gustafson com os seus netos

 
 
         Gustafson participaria em algumas campanhas do Fundo que tem o seu nome fictício. Morreu em 2001, com 65 anos de idade, de ataque cardíaco. O tempo que foi famoso não durou muito: cerca de dois anos. Morreu relativamente novo, ainda que muito mais velho do que todos julgavam ser possível. Quer em 1948, quer em 1997, ninguém acreditava que a sua sobrevivência era possível. No entanto, foi possível, ainda que não saibamos como.  Einar Gustafson manteve-se em silêncio esse tempo todo. E todos os natais recebia um cartão do médico que o salvara. Ao longo desses anos todos, o Fundo Jimmy obteve milhões e milhões de dólares, que foram investidos principalmente na investigação da quimioterapia para crianças. Na altura da morte de Einar Gustafson, a taxa de mortalidade do cancro infantil – da leucemia, em especial – baixara de 90 para 10%.  

 
António Araújo


 
 
 
 

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