segunda-feira, 21 de outubro de 2019

A queda de Salazar.


 
 
 
 
Apresentação de A Queda de Salazar,

de José Pedro Castanheira, António Caeiro e Natal Vaz

(Tinta da china, 2019)

 
               
 
        
         Foi com muita honra – ou, como antigamente se dizia, foi com subida honra – que aceitei o convite dos autores deste livro para qui vir falar dele, para mais na companhia de Maria Inácia Rezola, de quem sou amigo e admirador há muitos anos.
 
         Honra que advém de ser amigo, também há muitos anos, do José Pedro Castanheira, e admirador das incursões orientais de António Caeiro. À Natal Vaz, que não conhecia, digo apenas que neste livro, como sabe melhor do que eu, se juntou a dois nomes grandes do nosso jornalismo e das nossas letras e com eles formou uma trindade, porventura santíssima.
 
         Uma trindade de jornalistas que se caracterizam pela sua maturidade e pela sua senioridade, com isto não querendo dizer ao público aqui presente, e que saúdo, que estejamos perante uma brigada do reumático do jornalismo português, longe disso.
 
         Estamos, isso sim, perante três profissionais da escrita com provas dadas e créditos mais do que firmados, autores de peças jornalísticas que ainda retemos na memória pois são verdadeiros ensaios de história contemporânea (e permitam-me um aparte recorrente nas minhas conversas com o José Pedro Castanheira para o exortar uma vez mais, e desta feita em público, a reunir as suas reportagens no Expresso e publicá-las em livro).
 
         Sobre a queda e morte de Salazar já existiam diversas obras. Além das biografias gerais, de Franco Nogueira ou de Filipe Ribeiro de Menezes, a agonia do ditador gerou um processo judicial entre os herdeiros de Eduardo Coelho e Vasconcelos Marques, um livro de Eduardo Coelho e de seu filho, Eduardo Macieira Coelho, um tratado detectivesco do catedrático de Direito Paulo Otero, e uma investigação jornalística de Miguel Pinheiro.
 
         Os autores deste livro quiseram demonstrar – e conseguiram-no – que, apesar de já tanta tinta ter corrido sobre a queda de Salazar, com engenho, faro e, sobretudo trabalho, é sempre descobrir dados novos, elementos surpreendentes, de que falarei mais adiante.
 
         Mas, por ora, gostaria de começar por uma perplexidade que me assaltou todas as vezes que li este livro: o que é que levou estes três autores, jornalistas de créditos firmados que nada precisam de provar a ninguém, o que é que levou estes três autores a regressarem a este Forte de Santo António da Barra? Existindo já tanta coisa publicada e dita, o que os motivou nesta empresa?
 
         Decerto, não um fascínio apologético ou, se quisermos, admirativo pela figura do ditador, já que as credenciais democráticas dos nossos autores são conhecidas de todos.
 
         Também, por certo, não foi um objectivo de marcar pontos e criar bibliografia numa trajectória profissional ascendente, pois José Pedro Castanheira, António Caeiro e Natal Vaz, longe de se encontrarem numa trajectória descendente, atingiram já os cumes da consagração e não precisam de juntar fama à muita e boa fama que já têm.
 
         Decerto também não foi com intuitos comerciais ou de lucro, ainda que nunca devamos esquecer o famoso dito de Richard Nixon segundo o qual «ganhar dinheiro é bom», e saibamos todos que Salazar, que tinha fama de sovina, está agora a dar dinheiro a ganhar a muita e muita gente, nem sempre gente escrupulosa e rigorosa nos seus trabalhos.
 
         Sem querer forçar o escândalo nem instilar a provocação, creio que o motivo maior que animou esta empresa foi o fascínio que Salazar desperta.
 
         E, fazendo-lhe nós um museu, ou não, em terras de Santa Comba, importaria perceber a razão pela qual Salazar desperta esse fascínio, tantos anos volvidos sobre a sua queda, política e física. Um fascínio que, nada tendo de laudatório, pelo menos para os que se encontram aqui hoje, tem o seu quê de voyeur e de algum deslumbre.
 
         Não deixa de ser curioso, aliás, que durante décadas a oposição tenha retratado Salazar como um homem tacanho e desinteressante, um provinciano de vistas curtas, e agora, como numa vingança póstuma, o ditador demonstre ser uma personagem tão sedutora post-mortem como foi para alguns – ou algumas – nos seus quase 80 anos de existência.
 
         O passado é um estranho lugar, como disse alguém, numa frase já estafada, de tão usada. Mas o passado, e, neste caso, o passado recente, um pretérito que ainda é nosso, não o sendo, o passado recente é um território de fascínio e de refúgio, creio eu, porque vivemos desalentados com o presente e muito inseguros quanto a um futuro que tem inscrita a terrível possibilidade, cada vez menos remota, de extinção em massa da espécie humana.
 
         O passado abre-se, assim, à nossa vontade de poder e domínio, à nossa sede de controlo e poder, pois conseguimos conhecer o passado sem que esse conhecimento nos ameace ou ponha em causa. E conseguimos moldá-lo, remodelá-lo e conhecê-lo de acordo com as nossas prioridades ou, como agora se diz, com a nossa «agenda».
 
         Não é isso que sucede com o presente e com o futuro. Por muito que eu não queira saber mais notícias de Bolsonaro e de Trump ou das alterações climáticas, o presente e o futuro impõem-se contra a nossa vontade, e somos bombardeados com notícias da televisão ou dos jornais sobre coisas que não queremos saber, ou que gostávamos de não conhecer.
 
Com o passado não é assim, posso escolher saber ou não a história dos meus avós ou fixar-me na época dos Descobrimentos, nas batalhas da 2ª Guerra ou nas colónias africanas. Passado, modos de usar, como disse o historiador Enzo Traverso.
 
         O passado é diferente do presente, é moldável, abre-se à viagem, à escolha do destino e do percurso, à selectividade dos gostos, e talvez seja interessante notar que não é por acaso que a história e o turismo são dois tópicos essenciais do nosso tempo. Como não é por acaso que nas livrarias encontramos, lado a lado, livros como este, de indiscutível qualidade, romances históricos de gosto duvidoso e cartões de oferta com «experiências» e viagens.
 
O passado é, ele próprio, uma «experiência», uma experiência nostálgica. Não necessariamente para figurarmos o passado como um lugar idílico, mas por sermos incapazes de ler, como lemos neste livro, que a governanta de Salazar, a temível Dona Maria, não confiava nas capacidades profissionais de uma médica por ela ser mulher e fumar, somos incapazes de ler isto, dizia, ou ler pormenores sobre o dia-a-dia de Salazar, as suas rotinas e as suas liturgias, as dinastias médicas de outrora e coisas assim, somos incapazes de ler tudo isso sem um trejeito nos lábios e um sorriso condescendente, com uma certa complacência paternalista da nossa parte, como se os homens do passado, por mais ditadores e poderosos que fossem, fossem, afinal, mais pueris do que nós. Até por isso, este livro, abundante em pormenores, é uma leitura instrutiva mas também muito, muito recreativa.
 
         Desculpem esta deriva algo etérea e metafísica mas penso que devemos reconhecer que a nossa curiosidade pelo passado exprime, ao cabo e ao resto, uma pulsão de domínio e um desejo de segurança que não andam longe dos desígnios políticos do doutor António de Oliveira Salazar…
 
         E Oliveira Salazar foi também alguém que fez um uso manipulatório de passado, presente e futuro. No seu pessimismo antropológico, estava consciente – e disse-o a vários confidentes – que a sua obra não lhe sobreviveria, no que em parte estava enganado. Tinha, pois, uma visão pouco optimista sobre o futuro próximo e, talvez por isso, buscou no passado, exactamente como nós, o refúgio para as desventuras do presente. Mas foi mais longe, converteu o passado em programa político, mobilizou-o como ideal de propaganda, tentou fazer com que o passado se fizesse a todo o instante presente, que um pretérito idealizado retirasse a liberdade de, a cada momento, podermos escolher o que queremos.
 
         O que motiva o fascínio por Salazar é também, creio eu, o seguinte paradoxo: em vida, e como se diz logo na primeira linha deste livro, Salazar cultivou a distância e a reserva, desenvolveu até aquilo a que José Gil chamou a «retórica da invisibilidade». No entanto, deixou um legado documental gigantesco, milhares e milhares de papéis onde ainda se descobrem factos surpreendentes. Nesse sentido, e este ponto é curiosíssimo, Salazar parece ter desejado o confronto com a História e não mostrou aparentemente qualquer temor perante o futuro.
 
         Através de um espólio acumulado ao longo de décadas, Salazar tem muito mais visibilidade do que Marcello Caetano, por exemplo. Marcello Caetano foi muito mais visível em vida, aparecia na televisão, que ajudou a fundar e que mobilizou como instrumento de propaganda. Salazar, ao invés, tinha aparições fugazes, fazia-se invisível, a ponto de uma mulher idosa de poucas letras, ao ver Marcello Caetano na rua, já como chefe de Governo, ter dito «este Salazar é mais simpático do que o outro»... Mas, mercê do seu arquivo, Salazar adquiriu uma visibilidade e, podemos dizê-lo, uma «transparência» que não encontramos na personalidade torturada e sombria de Marcello Caetano.
 
         É claro que – e este ponto é também curioso –  a dimensão e o conteúdo do Arquivo Salazar decorrem também da sua extraordinária longevidade política (décadas a acumular papéis de Estado) e da forma como o Presidente do Conselho caiu e morreu. Se acaso tivesse passado os últimos dias na sua terra natal, a arrumar e a selecionar papéis, a destruir documentos, tudo seria diferente. Ainda assim, e salvo um ou outro papel mais comprometedor, não creio que Salazar tivesse destruído muita coisa. Ou destruiria tudo, num exercício místico de total apagamento, ou teria mantido o espólio mais ou menos como está.
 
         E, nesse espólio, existe o «Diário» de Salazar. Não com anotações íntimas ou confissões assombrosas, mas com o registo factual, quase telegráfico, dos trabalhos e dos dias de um consulado político de muitas décadas, vividas compassadamente ou, como ele diria, vividas habitualmente («és um animal de hábitos!», disse-lhe Cerejeira, ainda nos tempos dos Grilos de Coimbra)
 
         O Diário tem uma importância extraordinária para a historiografia do salazarismo, para uma historiografia séria, rigorosa, feita com apoio em documentos e em trabalho árduo, antes de avançar «interpretações» ousadas mas construídas no vazio e na ignorância dos factos.
 
         Temos, pois, de saudar e agradecer o trabalho paciente e beneditino de Madalena Garcia, que ao longo de décadas conviveu de perto com a «caligrafia diabólica» de Salazar (a expressão «caligrafia diabólica» também, creio, de Cerejeira).
 
         É através do Diário que os nossos autores puderam descobrir um dos factos inéditos mais surpreendentes deste livro, muito falado aquando do seu lançamento, as famosas injecções de Salazar, tomadas a um ritmo impressionante.
 
         As doenças e as nosografias dos poderosos, e dos ditadores em particular, sempre motivaram grande interesse. Há um belíssimo ensaio de Sergio Luzatto sobre o corpo de Mussolini, sabe-se que pedaços do cérebro do Duce chegaram a ser levados para a América para tentar provar-se, sem sucesso, que padecia de sífilis ou de outra doença venérea, e que era essa a causa do seu comportamento «louco». Também em relação a Hitler, e basta ler-se a biografia de Allan Bullock, por exemplo, se fala recorrentemente do facto de padecer de monorquismo, isto é, de só ter um testículo, como se refere que o seu ódio aos judeus derivava do facto de ter contraído uma doença venérea com uma prostituta judia em Viena. E falou-se também das injecções ministradas pelo doutor Morell (este livro também fala do doutor Morell, na busca de um paralelo entre Hitler e Salazar)
 
         Confesso que tenho o maior receio destas incursões. Não pelo seu voyeurismo mas pelo risco que criam de se gerar uma explicação «clínica» para comportamentos muito mais complexos, como se o Holocausto e a morte de 6 milhões de judeus se pudessem explicar por uma noite num prostíbulo austríaco.
 
         E note-se que a ideia de que Mussolini, Hitler ou sobretudo Salazar não se encontravam no uso das suas faculdades pode até, no limite, funcionar como um expediente desculpatório e desresponsabilizante para os seus gestos.
 
         Bem sei que não é essa a perspectiva dos nossos autores e que a questão das injecções não ocupa sequer um lugar central na estrutura deste livro.
 
         No entanto, e como esse tema foi o mais falado aquando do lançamento do livro, talvez em parte devido à avidez de sensacionalismo da imprensa, importa dizer que esta obra não é, não é apenas, o tratado das dependências viciosas do Senhor Presidente do Conselho.
 
         O livro tem revelações tão ou mais importantes do que esta – por exemplo, a visita de Marcello Caetano a Salazar, na Cruz Vermelha, contrariando tudo o que se sabia e disse até aqui sobre a omissão de Marcello nessa hora decisiva, ou a publicação na íntegra da acta do Conselho de Estado que tratou da sucessão – o livro, dizia, tem revelações importantes – e, para mais, revelações num terreno que, como disse, já tinha sido revolvido por muitas mãos, incluindo as de um jornalista talentoso e sério como o Miguel Pinheiro, que teve acesso, por exemplo, ao espólio de Anselmo da Costa Freitas.
 
         Por isso, creio ser meu dever resgatar este livro do seu teaser publicitário e dizer, no que não sei se sou acompanhado pelos autores, que a questão das injecções é muito curiosa mas não terá a relevância histórica que alguns podem querer atribuir-lhe.
 
Da dependência das injecções ninguém duvida, bastando ver a longevidade e a regularidade com que Salazar era picado pelo enfermeiro Merca.
 
Mas não se sabem três coisas essenciais:
 
(1)     em primeiro lugar, para que fim e com que propósito médico se ministravam as injecções, qual a patologia que visavam tratar ou debelar (a resposta a essa pergunta, de um milhão de dólares, foi levada para o túmulo pela reserva e pela deontologia do dr. Eduardo Coelho ou do dr, Bissaia Barreto);
(2)     em segundo lugar, não é seguro, de modo algum, que a substância ministrada tenha sido, ao longo do tempo, sempre a mesma e, menos ainda, sempre o fármaco Eukadol;
(3)     em terceiro e último lugar, o ponto mais decisivo: não há provas consistentes nem testemunhos de que esta dependência tenha afectado o comportamento pessoal e, sobretudo, a acção política de Salazar. Esta terá sido afectada pelo desgaste dos anos e pela natural perda de faculdades que a idade implica, pela solidão progressiva, terrível, em que mergulhou, mas não há, creio eu, qualquer indício de que Salazar tenha sido influenciado, negativa ou positivamente, pelas injecções intramusculares – não intravenosas, sublinhe-se – que tomou com muita regularidade.
 
Do ponto de vista historiográfico, esta questão das injecções tem interesse, isso sim, para a compreensão da personalidade do Presidente do Conselho. Salazar é um homem que vem de um tempo em que a doença – e sobretudo a doença crónica – se convertia frequentemente em elemento da identidade pessoal, até mesmo em elemento preponderante, hegemónico e exclusivo da identidade pessoal. Uma menina de família apanhava uma tuberculose e tornava-se na «tísica de estimação», rodeada de mil cuidados, não casava, vivia a entrar e sair de sanatórios ou estâncias de repouso, o facto de ser tísica acompanhava-a até ao fim dos seus dias. Se lermos um best-seller hoje esquecido, o Livro de San Michele, de Axel Munthe, encontramos muitas descrições, algumas até caricatas, de senhoras aristocratas ou da alta burguesia que assumiam a doença como segunda pele, como sua identidade, muitas vezes imaginária ou hipocondríaca.
 
No livro, os autores entrevistam o psiquiatra José Gameiro e lembro-me de uma conferência dele num colóquio sobre o Estado Novo em 1986, há mais de 30 anos (isto para verem há quantos anos ando a receber injecções de Salazar e salazarismo!). Como referiu José Gameiro, Salazar sempre teve uma relação muito especial com a mãe e, acrescento eu, desde muito cedo assumiu, também ele, a persona pública de homem enfermiço, débil, adoentado, cansado, desejoso de repouso em Coimbra ou no Vimieiro, um intelectual com constantes achaques, alguns deles reais, muitos imaginados. O ponto é relevante até para a caracterização do regime e para a eterna questão do fascismo ou não fascismo em Portugal, Quanto a mim, não é irrelevante que o dirigente máximo do Estado Novo português, ao contrário de um militar garboso como Franco ou de um macho alfa atlético como Mussolini (que se fazia fotografar em tronco nu, a saltar a cavalo, vestido de marinheiro ou de aviador), não é irrelevante, dizia eu, que o regime fosse dirigido – e dirigido ditatorialmente – por alguém que interagia com o rótulo de pessoa frágil e adoentada. Talvez fruto da sua natureza ciclotímica, neurasténica ou depressiva (não quero entrar muito por estes caminhos…) essa era a autoimagem de Salazar, que saudava a mocidade que praticava desporto e fugia do vício dos cafés – e tem um interessante e pouco falado discurso sobre isso – mas que não era, ele próprio, um líder que dominasse pela fisicalidade. O que não significa, obviamente, que o regime deixasse de ser «fascista» por causa disso (Goebbels era deficiente e nem por isso o nazismo deixou de ser o que foi). Mas o ponto é importante para perceber a natureza muito sui generis do regime português, julgo eu.
 
O segundo aspecto que interessa realçar neste livro, em traços largos, tem a ver com a atenção dada ao humano. Talvez este livro seja humano, demasiado humano, como diria Nietzsche, mas o que é facto é que, por um lado, ele convoca o fascínio que os relatos terminais sempre despertam (e há uma vastíssima «literatura terminal», da Morte de Ivan Ilitch à Cerimónia do Adeus, de Beauvoir, até livros mais recente, como o impressionante relato autobiográfico de Tobny Judt). Mas, por outro lado, e é esse o ponto que quero realçar, este livro convoca, como disse, o aspecto humano, em que os traços de carácter e de personalidade dos protagonistas têm o peso devido – não um peso excessivo, pois esta não é uma novela psicológica, mas o peso devido.
 
Nem sempre foi assim. Durante anos, vivemos dominado pelo paradigma da Nova História e da Escola dos Annales em que os protagonistas não interessavam, só importavam as «estruturas» e os «processos», a «longa duração». Felizmente, houve um recentramento na história política e, sobretudo nos últimos anos, há uma redescoberta muito intensa, até por razões comerciais, do género biográfico.
 
E ele é importante, como o livro o demonstra. É importante, por exemplo, vermos como são díspares e até contraditórios os olhares dos protagonistas, o que nos deve levar a questionar o valor excessivo tantas vezes atribuído a relatos memorialísticos ou similares, como os de Franco Nogueira. Sobre o último Conselho de Ministros do salazarismo – ou seja, sobre uma reunião que não foi propriamente de somenos – dois ministros têm memórias conflituantes, bem plasmadas nas páginas 82 e 83 deste livro. José Hermano Saraiva diz que Salazar fez uma intervenção demorada sobre os reflexos do Maio de 68 em Portugal. Franco Nogueira, pelo contrário, afirma que Salazar não proferiu qualquer intervenção nesse Conselho…
 
São pormenores como este que, sem explicarem tudo, explicam muita coisa. Não é possível compreender a ascensão de Marcello Caetano ao poder sem sabermos que Américo Thomaz estava agastado com Salazar, até por este não ter elevado a ministro da Marinha o seu amigo Tenreiro, como é importante sabermos que uma parte da família próxima do Presidente da República se opunha à nomeação de Caetano. Como, já agora, é importante saber que, ao contrário do que muitas vezes se disse, Marcello Caetano esteve no Hospital da Cruz Vermelha, visitou Salazar no seu estertor. O livro mostra quem desfilou por lá, desde 35 funcionárias da PIDE a Eusébio ou a Amália, de Alfredo Marceneiro ao duque de Bragança, passando pelo célebre cirurgião sul-africano Christian Barnard. Amália até versejou: «Ponha-se bem depressa / Meu querido presidente/ Depressa, que essa cabeça/Não merece estar doente». Seria estranho que Marcelo Caetano não tivesse lá ido… Estranho é, isso sim, o silenciamento da sua visita.
 
Igualmente me parece estranha a afirmação atribuída a Marcello Caetano de que não se deveriam gastar recursos excessivos no tratamento a Salazar, que o sistema de saúde tinha outras prioridades... Na perspectiva da sucessão, e Marcello Caetano era um homem de grande inteligência, seria um erro grosseiro revelar um tal desprezo pelo antecessor venerando e seria um erro revelar uma tal ambição de poder. No fundo, aquela frase é má demais para ser verdadeira, e, como já disse pessoalmente ao José Pedro Castanheira, receio que tenha sido posta a circular, antes ou depois do 25 de Abril, pelos adversários «ultras» direitistas de Marcello Caetano, os que eram próximos de Thomaz e os que, após o 25 de Abril, o consideraram o coveiro do império e do regime (lembre-se, por exemplo, o livro Acuso Marcelo Caetanom, saído nessa altura). Não é descabido supor que esse retrato de Marcello Caetano, e sobretudo essa frase que lhe atribuem, seja uma fake news posta a circular pelos seus detractores.
 
Indiscutivelmente, Marcelo Caetano era o candidato mais bem preparado à sucessão. A todos os níveis: prestígio académico, experiência política, inteligência e cultura, conhecimento da máquina do Estado, etc., etc. E era também o que, ao longo de décadas, mais bem se preparara para suceder a Salazar, quer nas proximidades quer nos distanciamentos face ao ditador (e a correspondência entre ambos mostra-o), quer no uso de novos meios de comunicação, quer na formação de uma clique em seu redor, o «grupo da Choupana» com ramificações poderosas aos centros de propaganda e difusão de informação, quer nas «pontes» estabelecidas com os meios intelectuais nem sempre afectos ao salazarismo.  
 
Não é possível percebermos o final do regime sem compreendermos esta ambição pessoal – e legítima – de Marcello Caetano, como não é possível percebermos a «ditadura catedrática» de Salazar sem percebermos o peso das redes de sociabilidades das elites, a importância de Coimbra, etc.
 
O livro tem outro mérito, com o seu olhar «jornalístico», no melhor sentido desta palavra. Nas linhas e entrelinhas, esta narrativa do Portugal provinciano numa Europa atravessada pelo Maio de 68 e por outros grandes acontecimentos, da Primavera de Praga até á ida à Lua. O livro é um retrato do Portugal periférico e paroquial, um país que era e é pequeno geograficamente, mas que a ditadura tornava ainda mais pequeno e ainda mais periférico. O Portugal da governanta Maria de Jesus (que pensava ainda ser possível «tratamento domiciliário» para o seu patrão…), o Portugal da cunha e dos empenhos (o arquivo de Américo Thomaz na Presidência da República está cheio de empenhos e agradecimentos), das leituras francófonas do dinossauro excelentíssimo (leituras muito mais modernas e heterodoxas do que muitos julgam), das intrigas e das coscuvilhices (que Salazar, feminino, adorava, sabendo até que o médico Vasconcelos Marques era casado com uma espanhola da Andaluzia), dos chás e lanches do Chefe do Estado e família, do glamour da Linha, dos restaurantes do Guincho, dos cuidados delicados calista Hilário, dos príncipes da medicina com consultório aberto na Baixa de Lisboa, com clientela passada de pais para filhos. O Portugal que recebia com deslumbramento mas com receio e reserva o sábio vindo da América, com quem Salazar tem um diálogo inolvidável, mostrando ser, até ao fim, um beirão matreiro que a Providência colocara à frente dos destinos de um país – e de onde só saiu pela queda de uma cadeira, em data que não se sabe ao certo, sendo possível, até provável, que não esteja correctamente indicado o dia dessa ocorrência na placa que vemos lá fora, neste Forte.
 
Há poucos dias – e desculpem-me este aparte – li um livro sobre alterações climáticas chamado Losing Earth, de Nataniel Rich. Pode parecer estranho que fale desse tema a propósito de Salazar, mas o livro é um relato do que podia ter sido feito, e não foi, nesse domínio do combate às alterações climáticas, e que acção – que acção perniciosa – tiveram certas pessoas, colocadas em lugares-chave. Para o que agora vivemos em matéria de alterações climáticas não foi indiferente que uma personalidade como John Sununu tivesse sido chefe de gabinete de George Bush na Casa Branca. Provavelmente, poucos sabem quem é John Sununu, mas peço que vão ver, e sobretudo vejam o modo como sabotou os compromissos dos EUA em matéria ambiental.
 
Só mencionei este caso para que percebamos a importância do valor pessoal, que o facto de num certo lugar estar a pessoa A ou B faz a diferença (no caso Béjart, como se mostra neste livro, não era indiferente a presidência da Gulbenkian pertencer a Azeredo Perdigão, que Salazar respeitava e até temia). E, a essa luz, á luz da importância do lado humano, da personalidade, podemos talvez concluir que desde o início Marcello Caetano era o sucessor óbvio e natural de Salazar, nenhum dos rivais tinha a mínima hipótese de êxito. Soares da Fonseca, só para dar um exemplo, era demasiado próximo de Américo Thomaz para poder ser designado. Nomes como Gomes Araújo também eram descartáveis, por razões diametralmente opostas. A Franco Nogueira, um dos mais bem posicionados mas muito concentrado na diplomacia e na ambiência das Necessidades, faltava a experiência política, sobretudo a diversificação da experiência política de Marcello Caetano e a sua «ambiguidade construtiva», o facto de ser um homem do regime, inquestionavelmente, mas capaz de gestos de algum distanciamento e relativa independência.
 
Num certo sentido, a lógica de «presidencialismo de 1º ministro» inscrita na Constituição de 1933 e sobretudo na prática política sedimentada em décadas, essa lógica não condicionou apenas o exercício do poder em vida de Salazar – condicionou também a forma como se processou a sua sucessão. Este ponto é muito curioso: Thomaz, que em lágrimas anunciara na televisão o fim político de Salazar, se queria ser fiel ao seu legado tinha de nomear… Marcello Caetano.
 
Como sempre sucede, houve opiniões discrepantes e compassos de espera, mas esses ritos, esses tempos, são inerentes à política, fazem parte da sua encenação e do seu mistério. Para que Marcello Caetano fosse nomeado a final era imprescindível que não parecesse logo que viria a sê-lo. Se também isto se passa em democracia, passava-se sobremaneira no Estado Novo, um regime de fachada constitucional, em que a prática do sistema era divergente da letra da Constituição. Daí a importância das aparências, dos protocolos cénicos, dos dispositivos figurativos.
 
O desfile de individualidades na Cruz Vermelha, onde se incluíram ministros vindos à pressa de um baile faustoso de um milionário estrangeiro (outra metáfora do fim de um regime austero e frugal), o desfile de individualidades, dizia, inscreve-se precisamente nessa lógica de teatralização e encenação política – e ética, como o caso Ballets Roses viera mostrar em termos mais ou menos escandalosos.
 
Este livro acompanha pari passu este drama shakespeariano, ou este filme de Kurosawa decorrido entre o Forte de Santo António da Barra, os grupos políticos da Linha do Estoril, o Hospital da Cruz Vermelha do quarto 68 e a residência oficial do chefe do governo em São Bento.
 
O Parlamento, como sempre, esteve arredado do que se decidia sobre os destinos da nação.
 
Lá fora, ao longe, os portugueses aguardavam o desenlace de tudo, mantidos à distância por um prudente cordão sanitário, feito de ignorância e de medo.
 
Portugal era então um país desfasado do mundo e do tempo.
 
E António de Oliveira Salazar, quando morreu, era a personificação desse anacronismo.
 
Haverá destino mais cruel do que esse?
 
Muito obrigado.
 
 
 
António Araújo
 
 
 



















 

 

 

 

 

 

 

 

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