Prosseguindo
o périplo pela Mão da Pátria (ou Mãe de Brejnev), pedia apenas que vissem
o vídeo acima. Dura só 46 segundos e dá uma ideia muito aproximada da estátua
de que estamos a falar – e até que ponto, já lá iremos, tudo isto nos pode
ajudar a compreender o que nestes meses, dias e horas está a ocorrer na Ucrânia.
No momento em que escrevo estas linhas, não se duvide, está a jogar-se ali o
futuro da Europa, por muitas e muitas décadas. Quem não quiser ver o vídeo, tem aqui
uma galeria de imagens do local onde se situa a Mãe da Pátria, o Complexo Memorial da Grande Guerra Patriótica. Em
alternativa, vai infra uma selecção inquestionavelmente excessiva da estátua, concebida
no início dos anos setenta por Yevgeny Vuchetich mas só inaugurada em 9 de Maio
de 1981, sob a presença tutelar do secretário-geral do PCUS, Leonid Brejnev.
Começamos com umas imagens dos planos de edificação, da autoria do arquitecto
Vasyl Borodai, para nos fixarmos depois na escultura, que merece ser bem vista. É irreal de gigantesca.
O
que impressiona e surpreende é que, no desenho, pouco parece ter mudado relativamente à
estatuária monumental clássica do realismo soviético, da década de trinta. Em
quarenta anos, naquilo que parece ser uma metáfora do regime que serviam, nada
evoluiu ou mudou na concepção daquelas figuras tão majestosas e serenas. A estátua
de Vuchetich em Berlim, do soldado com uma criança ao colo, foi inaugurada em
1949. Mas, na substância, a traça permanece a mesma nesta Mãe da Pátria, que foi oficialmente aberta ao público em 1981. Existem
dois elevadores acessíveis ao público, que levarão os turistas até a uma plataforma
situada ao nível de 36 metros. Mas é possível ir mais acima. Do alto,
contempla-se Kiev e os seus arredores, a curva do Dniepre. E para quem diz que tudo aquilo, à
semelhança de outra obra de Vuchetich, A
Mãe-Pátria Chama!, em Volgogrado, pode estar na iminência de ruir, a página oficial do Complexo da Guerra Patriótica é peremptória, garantindo que a
estátua é constantemente monitorizada e perfeitamente segura. Curiosamente, o
nome de Vuchetich não é citado a propósito da estátua, só se fala de Borodai. Porquê? Resposta aparentemente fácil: porque
era ucraniano, nascido em Dnipropetrovsk
em 1917, membro da Academia de Artes da
Ucrânia, herói da Grande Guerra Patriótica, secretário da Sociedade Artística da
Ucrânia, galardoado com o Prémio Lenine. Simplesmente, Vuchetich também era ucraniano (e, por sinal, também de Dnipropetrovsk, à semelhança da recentissimamente reabilitada Yuliya Tymoshenko). A página oficial do Complexo de Guerra Patriótica alude fugazmente ao nome de Vuchetich quando fala da planificação geral do monumento. Mas a paternidade da estátua é atribuída a Borodai. Vejamos a matriarca a partir dos céus, com fotografias e um vídeo a terminar a excursão:
Num breve
parêntesis sobre a Ucrânia, que está na ordem do dia, devemos recordar que, até
há pouco, Kiev possuía um dos MacDonald’s
mais frequentados do mundo: junto à estação de comboios, era o terceiro
MacDonald’s mais visitado em todo o planeta, atendendo cerca de dois milhões de
pedidos por ano. Para quem gosta destes números, lembre-se também que os
ucranianos são dos povos que mais bebem álcool em toda a Terra , ficando apenas atrás dos
moldavos, dos russos, dos húngaros e dos checos. Nos processos-crime, a taxa de
condenações situa-se também em valores elevados (90%), bastante acima da média
europeia, com uns tolerantes 30 a 40%. Quando formalmente se libertou da tutela soviética, existiam na Ucrânia
quase 20 milhões de porcos. O número reduziu-se significativamente, e, apesar da fama, um
ucraniano consome hoje, em média, 18 quilos de carne de porco por ano, três
vezes menos do que um alemão.
Quanto
à estátua Mãe da Pátria, seria de
esperar que existissem milhares de recriações e pastiches, mas encontrei pouca coisa, apenas uns postais e as habituais
medalhas comemorativas. Existe, todavia, uma escultura que segue de perto a Mãe de Brejnev. Chama-se Sabre de Luz, foi feita em 1992-1994 por Hartmut Skerbisch (1945-2009) e está situada junto ao edifício da Ópera de Graz, na Áustria. É uma obra muito desenxabida, na minha modesta opinião.
Hartmut Skerbisch, Lichtschwert («Sabre de Luz»)
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Além de uma
performance algo apatetada de um grupo de rapazolas, que fez desaparecer e
reaparecer a estátua ao jeito de David Copperfield, em Março de 2011 algumas activistas do Grupo Femen decidiram manifestar-se no seu habitual modo provocatório:
Parece
existir, portanto, alguma indefinição quanto à autoria da estátua. A Wikipedia
e outras fontes atribuem-na a Vuchetich. A página oficial do Complexo de Guerra
Patriótica pende sem duvidar para o nome de Vasyl Borodai. Aliás, se virmos este vídeo, de onde consta a já insuportável comparação fanfarrona com a Estátua da Liberdade,
parece ser essa a versão oficial. Mais ainda: em alguns locais, como aqui, e sobretudo no site de Borodai, reclama-se para
este, sem pestanejar, a criação da Mãe da
Pátria, chegado-se a exibir o modelo e muitos pormenores da edificação. Ora,
isso é natural, uma vez que os trabalhos de construção só se iniciaram após a
morte de Vuchetich. Mas, a ser verdade que a estátua foi concebida por Borodai,
cai por terra a ideia de que o autor da famosa e esmagadora A Mãe Pátria Chama!, de Volgogrado, é o mesmo de A Mãe da Pátria, de Kiev.
Da autoria de Borodai é, indubitavelmente, a estátua aos fundadores de Kiev, que fica nas imediações do Memorial à Grande Guerra Patriótica.
Ladya, assim se chama o monumento. Erguido à glória dos quatro irmãos que, segundo a lenda, fundaram Kiev: Kiy, Sckek e Koriv, juntamente com a sua irmã Lybid. O mito fundador da capital da Ucrânia pode ser lido em vários lugares, como este.
Vasyl Borodai, Ladya
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Os
ucranianos têm tal afecto por esta lenda que, em Kiev, possuem duas
estátuas que a evocam. A mais recente, na Praça da Independência, situa-se no
preciso local onde tanta gente foi morta nos últimos dias.
A estátua dos Fundadores de Kiev, na Praça da Independência,
nos confrontos dos últimos dias
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Outra,
a original, nas imediações da Mãe-Pátria,
foi concebida por Vasyl Borodai, com arquitectura
de Nikolay Feshenko. A estátua foi feita algo às pressas, a tempo de ser o
ponto alto das comemorações dos 1.500 anos de Kiev, em 1982. De início, pensou-se em
algo muito grandioso, talvez mesmo em colocar os founding brothers no cimo de um pedestal de 100 metros de altura.
Na altura da verdade, foi-se para um orçamento mais modesto e razoável – e,
ainda assim, a estátua foi inaugurada com numerosas imperfeições, com destaque
para as figuras serem em cobre e não em bronze, como desejava Borodai. Há uma
história comovente em torno desta escultura: a figura feminina, Lybid, foi
inspirada na filha do escultor, Galina, também ela artista – pintora –, falecida prematuramente. Borodai homenageou a sua filha figurando-a como Lybid. Numa noite de Fevereiro de 2010, justamente por serem
em cobre e terem ganho verdete, as figuras não resistiram ao frio gelado. Apenas
uma das estátuas permaneceu intacta: a de Lybid.
Vasyl Borodai (1917-2010)
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Vasyl e Lybid (ou Galina)
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A inauguração, em 1982
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Iniciaram-se
de imediato os trabalhos de reparação, mas Vasily, na altura com 94 anos, não
resistiu. Morreria 55 dias depois do desastre, devastado pela culpa, sem ter podido ver a
reinauguração da sua obra, ocorrida em Maio desse ano.
A reparação da estátua, 2010
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Quanto
à disputa da paternidade da Mãe Pátria,
é questão secundária. Dizem alguns, e talvez com razão, que Borodai concretizou aquilo
que tinha sido idealizado pelo génio de Vuchetich. Assim, é possível chegar a
acordo, alcançar a paz. Para mais, a aconselhar a harmonia, lembre-se que o local onde fica a tão amada Ladya, de gosto algo duvidoso, é um dos cenários
por excelência das fotos casamenteiras dos habitantes de Kiev.
Borodai é ainda
o autor de uma das muitas estátuas do poeta e artista Taras Shevtchenko, o
autor da antologia poética Zobzar, o
bardo nacional. Considerado o fundador da moderna literatura ucraniana, foi
mais do que isso: foi ele que teve o sonho da Ucrânia que hoje, a esta hora,
luta pela liberdade. Shevtchenko foi escravo, ou servo, quando criança. Em
vida, foi poeta e pintor, figura maior do nacionalismo ucraniano. Quando morreu, foi sepultado em São Petersburgo, mas,
por seu expresso desejo, os restos mortais seriam trasladados para os
arredores de Kaniv, na sua Ucrânia natal. Não por acaso, as comunidades
ucranianas espalhadas pelo mundo continuam a erguer-lhe estátuas por toda a parte. A de Nova Iorque, por sinal das mais esquálidas, é da autoria de Borodai.
É
difícil dizer se a maior obra de Borodai é a severa Mãe
da Pátria ou a delicada Ladya. Em tamanho, a
primeira ganha, sem dúvida. No afecto do povo, vence a segunda. Uma evoca a destruição
da guerra, outra o acto de criar uma cidade. Os noivos de Kiev preferem Ladya. E, ao contrário do que parece suceder com A Mãe da Pátria, existem reproduções por todo o lado:
Ladya não é, no entanto, a estátua de Kiev que melhor exprime o triunfo do amor sobre
tudo o resto. Termino com história pequenina, falando de uma estátua de Kiev
de que poucos falam. Nada tem de belicista; e, na sua simplicidade, é superior a
todas as mitologias e ideologias. Esmaga por completo a esmagadora Mãe de Brejenev e tudo quanto lhe está associado, ontem como hoje: a cólera e a guerra, a avidez da terra, aquilo de que é feita a História.
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Há
mais de setenta anos, num campo de concentração, Luigi Pedutto
conheceu Mokryna Yurzuk. Ele era italiano, prisioneiro de guerra. Ela era
ucraniana, e tinha sido condenada a uma pena de trabalhos forçados, esta ali detida com
uma filha pequena, nascida no campo nazi perto da aleia de Sankt Pölten, na Áustria. Ela
trazia-lhe comida, ele costurava sapatos e vestidos para a impressionar. Tinham
ambos vinte anos. Apaixonaram-se, como acontece aos melhores mamíferos. Nos
tempos de repouso, caminhavam juntos, de mãos dadas, no mais puro dos silêncios:
nenhum entendia o que o outro dizia. Quando o campo foi libertado, em 1945,
Mokryna foi levada de volta para a Ucrânia. Luigi quis ir atrás dela, mas
impediram-no (aqui, aqui, aqui, aqui).
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Passaram anos, passaram décadas, casaram
ambos, enviuvaram, legando ao futuro diversos filhos e netos. Luigi ligou-se à finança, Mokryna trabalhou numa exploração agrícola
colectiva na Ucrânia. Dois países, dois destinos: um no capital, outro no
colectivismo. Graças a um programa de televisão, reuniram-se em Moscovo, em
2004. Abraçaram-se ao fim de décadas, como talvez nunca o tivessem feito.
Luigi e Mokryna, o reencontro em 2004
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Kiev, Maio de 2013
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No ano passado, em Maio, foi erigida
uma estátua em Kiev em sua homenagem. Num local romântico, numa ponte do Parque
Khreschatyi, onde os pares de namorados fazem entre si juras de amor eterno.
Muitas vezes, incumpridas. Neste caso, a jura durou sete décadas. Ela encontrava-se
demasiado debilitada para poder viajar, mas os seus familiares disseram que
estava feliz por o seu amor servir de exemplo a outros casais. A neta afirmou que
a avó lhe contara, vezes sem conta, aquele amor de guerra, mas jamais
imaginaria que voltaria a reencontrar o rapaz italiano, que é um hoje um homem feito.
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Com
90 anos, vestido em uniforme de gala do exército italiano, Luigi Pedutto falou
na cerimónia, comoveu-se. Lágrimas de quem esperou. «Quando tinha nove anos»,
afirmou, «o meu professor disse-me uma vez: lembra-te que, por tudo o que de mau
passares na vida, serás recompensado». «Sinto que fui recompensado por tudo
aquilo que passei».
Luigi Pedutto, Kiev, Maio de 2013
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Durante 62 anos, Luigi esperou por ela,
guardando uma pequena fotografia e uma medalha com uma mecha do seu cabelo. Um
dia, decidiu escrever uma carta para um programa de televisão na Rússia, na
esperança de a localizar. Vivia numa pequena aldeia na região de Dnipropetrovsk.
Exactamente: a terra natal de Timoshenko e dos dois escultores que ergueram A Mãe da Pátria. Depois de se
reencontrarem, pediu-a em casamento. «Quando a pedi em casamento, ela riu-se»,
diz Pedutto. Mas a senhora já visitou a sua terra natal, Castel San Lorenzo, em Salerno, de
que foi feita cidadã honorária. Luigi viaja por vezes até à Ucrânia, levando-lhe azeite e
queijo parmesão para preparar spaghetti.
Falam num estranho dialecto, que mistura ucraniano, italiano e russo. Pensam um
dia visitar juntos a estátua que, em Kiev, imortalizou o seu amor de décadas.
Há um movimento na América de que só se
aproveita o nome: True Love Waits. Luigi Pedutto ainda não perdeu a esperança de
que, um dia destes, Mokryna Yurzuk aceite casar com ele.
António Araújo
O meu caro A. Araújo é indisputável nestas andanças do extraordinário ao bizarro!!
ResponderEliminarUm grande bem haja,
Muito obrigado pelas suas palavras, tão amáveis.
ResponderEliminarCordialmente,
António Araújo
Muitos parabéns, um post indescritível de tão bom.
ResponderEliminarMuito obrigado pelo seu comentário, que - acredite - é um incentivo muito importante para continuar a escrever estas coisas que, boas ou más, dão muito trabalho...
EliminarCordialmente,
António Araújo
bom trabalho. obrigado
ResponderEliminarCaro António, espero que o Malomil dê a reportagem do casamento quando ela finalmente aceitar!
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