quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Sob os telhados de Lisboa, de Manuel Martinho.

 
 
 
 
 

O veraneio é um chiquismo de que se não prescinde na sociedade elegante. Toda a gente, mal apertam os primeiros calores, costuma dizer: «Não aguento a cidade! Quem dera ir já para fora!». Antigamente, só as famílias gradas, que viviam de grossos cabedais, se davam ao luxo de ter, no verão, uma modesta casa na Trafaria ou em Fornos de Algodres. Hoje, porém, mudou de figura esse aspecto – aliás injustificável, porque as pessoas que trabalham têm muito direito às merecidas férias: não há ninguém que, ostentosamente, não vá para fora. Fazer o quê?
 
 
 





impulso!

100 discos de jazz para cativar os leigos e vencer os cépticos !

 

# 60 - GIL EVANS



 
Fotografia de William Claxton
Penosa é a vida de um orquestrador e arranjador: se a experiência auditiva de uma composição lhe deve bastante, os direitos de autor costumam dever-lhe quase nada. Gil Evans que o diga: das obras em que interveio, com maior ou menor discrição, nem todas lhe foram creditadas e menos ainda terá sido a prata arrecadada. Erro seria porém, achar que viveu sempre na sombra de Miles Davis.
Uma expressão torna-se um lugar-comum por ter sido verdade muitas vezes. Ao swing não lhe falta substância para esta teoria; com o advento do bebop em meados da década de 40 e com a concomitante transferência do jazz para pequenas disposições, padronizadas na forma de quartetos e quintetos, as big bands da era do swing colapsaram umas atrás das outras, sobrevivendo apenas um punhado delas, com dificuldade, a esta contracção. Da nova geração de músicos, praticamente só Dizzy Gillespie com o seu “cubanismo”, e Charles Mingus, com a sua vívida modernidade, procuraram uma nova fórmula para o antigo modelo.
O destino atribuiria a Gil Evans a missão de dar às grandes massas sonoras uma arquitectura que rescindisse com a tradição do jazz.
Foi no humilde rés-do-chão de Gil Evans na rua 55, a dois passos da movida da rua 53, ainda bastante feérica naquele ano de 1949, que se juntaram os descontentes com o bebop, a conspirarem por um outro modelo, mais descontraído e, até, lírico, menos nevrótico e virtuosista. Miles Davis, Gerry Mulligan, Lee Konitz, salientaram-se na criação do que viria a chamar-se de cool – os concertos e o posterior disco “Birth of the Cool”. Se depois deste feito a turma dispersou, a afinidade entre Evans e Miles ganhou raízes, na promessa de um dia vir a dar frutos.
Terminado o contrato de Miles Davis com a editora Prestige na maratona de sessões de 1955 e 1956 – as “The Legendary Prestige Quintet Sessions”, na origem de vários álbuns – que marcaram também o adeus ao Primeiro Grande Quinteto do trompetista, a sua nova escuderia, a Columbia, sugeriu-lhe um rumo diferente – que tal uma coisa em grande, com uma banda de 18 elementos à maneira, a capitar um som inconfundível? Assim foi que em estreita colaboração com Gil Evans, Miles assinou os momentosos “Miles Ahead” (1957), “Porgy and Bess” (1959), “Sketches of Spain” (1960) e ainda “Quiet Nights” (1964), publicado contra a vontade dos autores.
 
 
 
Out of the Cool
1961 (2007)
Impulse! - 9589
Gil Evans (composição, orquestração, piano), Johnny Coles, Phil Sunkel (trompete), Jimmy Knepper, Keg Johnson (trombone), Tony Studd (trombone baixo), Bill Barber (tuba), Ray Beckenstein, Eddie Caine (saxofone alto, flauta, piccolo), Budd Johnson (saxofones tenor e soprano), Bob Tricarico (flauta, piccolo, bassoon), Ray Crawford (guitarra), Ron Carter (contrabaixo), Charlie Persip, Elvin Jones (bateria, percussão).
 
 
A este colar de pérolas faltava uma gema capaz de provar que Gil Evans tinha asas para voar sozinho. Intitulada “Out of the Cool” como quem se desembaraça de um passado, para mais lançado pela progressiva Impulse!,  esta foi a obra que louvou o génio de Evans.
Com toda a carga equívoca que hoje a expressão possa ter, o trabalho de Gil Evans desenvolve a criação de ambientes sónicos, com grande poder evocativo e cinematográfico, exercício que o tempo e a pop vulgarizaram ad nauseam. Os temas de “Out of the Cool” vão, passo a passo, cirando uma atmosfera coerente que paira entre a pulsão rítmica e harmónica de Duke Ellington – na verdade de Billy Strayhorn –  e de um Bernard Herrmann, o formidável compositor para filmes, que escrevia música para ver e não para ouvir (esse suprassumo que é a música de “North By Northwest” de Alfred Hitchock, é apenas 2 anos anterior).
Poucas obras no jazz foram tão idiomáticas e seminais, e de maneira tão discreta, como “Out of the Cool” e nos dias de hoje, os génios de Maria Schneider ou Darcy James Argue muito lhe devem.
 
 
José Navarro de Andrade
 
 
 
 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Atenas e Roma (2ª Parte).

 



 
 

 
5. Roma, da República ao império
 
Diferentemente da Grécia, Roma não conheceu verdadeiramente nenhuma forma de democracia – e como vimos, no Latim nem havia equivalente para essa palavra –, embora, após a queda da monarquia (509 a.C.) as assembleias ou comícios (comitia curiates e comitia tributes) exercessem, teoricamente, a soberania directa popular. Os patrícios conseguiram que as assembleias populares fossem assumidas por proprietários rurais. E embora a plebe fosse conquistando direitos ao longo dos séculos V-IV a.C., na verdade as funções mais importantes de governo estavam reservadas ao patriciado romano, formando-se uma casta senatorial que iria monopolizando todas as magistraturas. A chamada ordem equestre, criada no final da República, e a crescente proletarização das massas, situação de que os chefes militares em disputa pelo poder supremo (Mário, Pompeu e César) se aproveitaram para formar um regime poria fim ao sistema republicano de Roma que culminaria no império de Augusto, uma nova forma de principado hereditário ou monarquia.
     Com o império de Caio Júlio Octavianus, depois designado como Octávio e, por fim, Augusto (63-14 a.C.), conservou-se o essencial das instituições públicas da república romana, embora todos os poderes na prática se concentrassem na figura do Divo Augusto, o Princeps, esse deus representado sempre, na estatuária romana, de pés descalços, já que uma divindade não usa sapatos. Como sobrinho-neto de César e, por essa via, membro da gens julia, a qual alegava ter uma ascendência grega troiana, o que a unia ao mítico Eneias, filho de Anquises e da deusa Afrodite, Octávio era, deste modo, um novo Eneias que assumia na sua pessoa mortal a origem, a história e a essência de Roma, pois criara um arquétipo de príncipe que se iniciava com ele, observa Lucien Jerphagon, “o divus Augustus – cuja persona continuaria a existir para além da morte de Octávio, que se fizera o suporte dela (…) e iria prosseguir a sua acção providencial. Ele iria reinar, irradiar durante uma eternidade duradoura – Roma aeterna – a unidade activa, a força pacificadora, a virtude organizadora que fizera, literalmente, o Império. E todos os Césares vindouros tomariam o nome de Augusto acedendo à suprema responsabilidade”.[1]





Augusto de prima porta


 
  Coube ao poeta romano Virgílio (70-19 a.C.), fazer na Eneida, seu poema épico inacabado, em hexâmetros, em 12 livros, uma fantasiosa celebração mitopoética da criação e finalidade de Roma como prodigioso destino imperial, associando a guerra de Ilion e a queda e destruição desta cidade nos Dardanelos (hoje Issarlyk, no noroeste da actual Turquia, a 6 kms do mar Egeu, base aérea norte-americana), após dez anos de cerco dos os gregos, empenhados em vingarem o rapto da princesa Helena, mulher do grego Menelau, rei de Micenas e bisneto de Minos -, como o êxodo donde resultaria a fundação duma nova Tróia que seria a civilização romana, o Império de Augusto, na altura da composição deste poema épico, narrando as peregrinações marítimas de uns quantos troianos, prófugos conduzidos por Eneias, que saíra da cidade destruída levando o pai Anquises às suas costas, numa frota de vinte navios, acompanhado ainda da mulher Creusa – filha do rei Príamo e que se perderia logo no início da fuga, cuja sombra contaria ao marido (narrativa que Eneias faria a Dido, no livro II) as longas peregrinações que este haveria de conhecer antes de fundar a nova Illion –, e ainda do seu filho Ascânio, levando consigo os penates, os vasos sagrados da família, além do famoso Palladium (estatueta de Atenas), em direcção à Hespéria (o poente), em busca duma terra, chamada Lavinium (nome derivado de Lavínia, a mulher italiana do herói) onde reconstruíssem a cidade cantada por Homero.
Virgílio, devotado ao imperador Augusto e amigo de Mecenas, não concluiria o seu poema épico, mas a obra seria publicada por ordem de Octávio, o que era mais um exemplo da convergência cultural da mitologia grega e dos sonhos imperiais romanos, consagrados na expressão “immensa romanae pacis majestas” (a imensa majestade da paz romana), a qual era, antes de mais, a própria pax augusta inaugurada pelo reino do descendente de Júlio César. Caberia, assim, a este poeta do círculo do imperador, Virgílio, realizar no poema Eneida (29-19 a.C.), a grande epopeia nacional inspirada tanto na Ilíada como na Odisseia de Homero, exaltando agora a grandeza do destino de Roma a partir da sua fundação mítica, narrando o êxodo ao longo do Mediterrâneo de uns quantos fugitivos de Tróia após a queda desta, chefiados por Eneias, filho de Anquises e de Afrodite (a Vénus romana), chefe desse êxodo que os conduziria até ao berço de Roma. O herói detém-se em Delos e Creta, após o que uma tempestade provocada pela inimiga Juno o lança nas costas cartaginesas, sendo acolhidos por Dido, rainha de Cartago, que se apaixonou por Eneias (livro IV), embora os deuses não permitiam que os troianos se estabelecesse numa cidade que seria a futura rival histórica de Roma. Eneias abandona então a sua apaixonada e retoma o mar, a inconsolável Dido suicida-se – tema que o poeta arcádico Correia Garção dedicaria a famosa Cantata Dido –, perdendo entretanto o seu pai Anquises, falecido na escala precedente. Visita então Cumas na Itália, onde a Sibila lhe permite descer aos infernos, encontrando a sombra do seu falecido progenitor, que lhe revela o futuro prodigioso de Roma:
     “Tu regere imperio populos, Romane, memento,
       hae tibi erunt artes: pacisque imponere morem
       parcere subjectis, et debellare superbos.”
       (“Ó Romano, lembra-te de que deves comandar as nações
       e os teus talentos serão estes: impor a regra da paz,
       poupar os submissos e esmagar os poderosos”.) [2]
Em suma, era-lhe prognosticado o futuro, que consistiria em fundar uma nova Tróia, arquétipo da futura Roma imperial. Eneias seria recebido na Itália por Latinus, rei dos Aborígenes (i.e., das origens), no Lácio, enfrentando o povo dos Túrtulos (livro VII), sendo Lavinia, a filha de Latinus dada como noiva ao troiano, estabelecidos os fugitivos de Ilion no local onde se ergueria, no Palatino, a vindoura cidade de Roma (Eneida, livros VII-VIII). Mas Turnus ataca os barcos dos troianos e intenta incendiá-los, embora a chegada de Eneias salve a situação, saindo este vencedor do combate pessoal com o rei adverso, assim como derrota a cavalaria da rainha Camila (livro XI) e põe fim aos combates matando Turnus, reinando desde então sobre populações em que se harmonizam as virtudes dos latinos e dos troianos, cruzamento dum povo do Lácio com os fugitivos de Tróia formaria, assim, o povo romano (livro XII). Como Eneias havia de desaparecer durante uma violenta tempestade, caberia a um dos seus descendentes, Rómulo, fundar a cidade de Roma.
Notemos que esta epopeia romana não estaria distante do poema épico de Camões sobre os lusitanos, já que a épica d’Os Lusíadas, além de misturar figuras mitológicas pagãs e temas cristãos, comparava o navegante Gama com o prófugo Eneias: “aquele ilustre Gama / Que para si de Eneias toma a fama” (canto I, 12). Eneias será mencionado ainda seis vezes no poema camoniano). O início da saga épica de Camões traduz literalmente os primeiros versos da Eneida “arma virumque cano”(“canto os combates militares e o homem”)[3], com “as armas e os barões assinalados”, sendo estes últimos,  os portugueses. (A viagem e as aventuras de Vasco da Gama são também comparadas às do “facundo Ulisses”, Lusíadas, canto V. 86). Na verdade, o poema de Camões actualizava a Eneida, considerando Gama como equivalente a Eneias, aparecendo Portugal como uma nova Roma à qual Neptuno e Marte tinham obedecido, ou seja, o deuses do mar e o da guerra[4], cidade prometida ao domínio do mundo, tendo criado, como se diz também nas estrofes iniciais, um “novo mundo que tanto sublimaram”, esse império luso resultante da expansão marítima dos sécs. XV e XVI. O facto dessa epopeia, com o seu orgulho e o seu cânone civilizacional, ter sido publicada apenas oito antes de Filipe II de Espanha ter invadido Portugal e posto fim, por seis décadas, à nossa independência como nação, em nada altera o significado essencial e o transcende propósito simbólico da épica de Camões.
O mundo romano e o seu longo império – que só acabaria em 476 d.C., como civilização mediterrânica e unidade imperial – realizam, assim, uma síntese onde se encontra, afinal, o melhor da cultura e da história da própria Atenas, engrandecida e geograficamente dilatado a até aos confins orientais do continente, às costas do Atlântico. Nessa síntese do forte veio histórico greco-romano percebemos a primeira forma de uma Europa que ia, então, desde as fronteiras com o Médio Oriente ou Ásia Menor até ao oceano atlântico. Com a cristianização do império romano, tomada por Constantino (270-337 d.C.) em 313 d.C., assim como a sua decisão de transferir a capital imperial para Constantinopla (330), futura Bizâncio e, mais tarde ainda, Istambul, desde a tomada da cidade pelos maometanos em 1453, separar-se-iam de vez os destinos da Europa dos da sua versão oriental. O cristianismo, religião pregada por um profeta judeu crucificado pelos romanos, não seria capaz de realizar a os destinos da Europa dos da sua versão oriental. De qualquer modo, o cristianismo não seria capaz de realizar a união do Império, cindido desde então, nem salvá-lo da invasão dos bárbaros (hunos, vândalos, godos, ostrogodos, visigodos, etc.) vindos da Germânia, que o haviam de despedaçar essa admirável unidade que durara séculos, aquela que o sírio Aelius Aristides, no seu Elogio de Roma, dissera ser “a única na história dos povos e dos impérios que soubera pôr a força ao serviço dum direito que agora se impõe duma ponta do mundo civilizado à outra”.[5]
Seria preciso esperar pela Idade Média e pelo imperador Carlos Magno (742-Aix-la-Chapelle, 814), imperador do Ocidente, de 800 até à sua morte, para que um esboço de nova forma de unidade europeia surgisse. O seu efémero santo império romano-germânico que duraria menos de uma década e meia, situando-se na sua base geográfica essencial num território entre o Sena e o Reno, sendo o mesmo da Europa “neo-carolíngia” do século XX, a dos seis países que lançaram a ideia de unir a Europa numa comunidade (Itália, Alemanha Federal, Holanda, Bélgica e Luxemburgo e França). Este núcleo inicial de seis países criaria a nova Europa do século XX empenhada em fazer dela uma vasta estrutura unitária continental, a partir em 1951, primeiro com a C.E.C.A. (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço) e depois com o tratado de Roma (1957), impulso federador europeísta que havia de gerar o Mercado Comum e, por fim, com o tratado de Maastricht, a actual União Europeia (1992), assim como a moeda única, o Euro, criado em 1990 e posto a circular desde 2002. Desta unidade europeia foram verdadeiros pais fundadores o alemão Konrad Adenauer, o luxemburguês Robert Schuman e o italiano Alcide de Gasperi – todos os três nascidos em regiões onde se falava alemão e todos igualmente políticos democrata-cristãos -, além de Jean Monnet (1888-1979), que presidira à C.E.C.A, de 1952 a 1955.



 
 
6. Da ordem feudal ao mundo moderno e reinvenção da democracia com as revoluções liberais (séculos XVIII-XIX)
 
Quanto à Idade Média cristã, apesar do cristianismo declarar os homens todos iguais, a sociedade política que vigorou fez-se no sentido de consagrar o poder da feudalidade, ou seja, duma sociedade hierárquica de estrutura tripartida de “ordens”, dividida em poderosos e servos, entre os oratores (sacerdotes), os bellatores (guerreiros) e os laboratores (os trabalhadores), isto é, as três ordens medievas, clero, nobreza e povo. De qualquer modo, a Europa medieval, apesar de unida pela religião e pela civilização cristãs de que esta impregnara a vida dos europeus, não logrou estabelecer uma verdadeira unidade política, nem pela via do predomínio teocrático da Igreja romana nem através da acção dos estados absolutos – em França, por exemplo, esta via foi esboçada desde Filipe o Belo e Luís XI a Francisco I até ao absolutismo de Luís XIV, aquele monarca que cunharia a fórmula “o Estado sou eu”- que sucederam ao regime da feudalidade, já que os capetos nunca se reconheceram vassalos do imperador romano cristão ou da Santa Sé, até porque fundavam o seu poder no direito romano. Com a Magna Charta (1215) e o “parlamento modelo” de 1265, retomou-se na Inglaterra a ideia que caminharia lentamente para a democracia no período moderno, a de que havia uma distinção fundamental entre realeza e tirania, consagrando como símbolo da soberania segundo a regra da lei, o que seria de fundamental importância para o desenvolvimento constitucional do sistema político britânico, bem como noutros países nos quais os sistemas legais de governação seguiriam o caminho aberto pelo acordo entre João Sem Terra e os seus súbditos, esse conjunto de cláusulas entre as quais estava uma, a 39, estabelecendo o habeas corpus, segundo a qual ninguém podia ser preso a não ser após julgamento de acordo com a lei.
No campo espiritual e cultural, a criação das universidades europeias, no século XIII, a crise do papado, agravada na centúria posterior com o exílio do papa em Avinhão (1309-141), chegando a haver três papas em funções (1378-1417), sem esquecer o impetuoso brotar de uma série de seitas cristãs heréticas (cátaros, albigenses, valdenses, bogomilos, etc.) não só exigiam o regresso à pobreza evangélica (v.g., a ordem franciscana), como a crescente afirmação do poder dos estados nacionais, o esboço de um pensamento humanista laicista que a Renascença reforçaria e o crescimento da burguesia urbana, ou seja, levariam à afirmação de uma Europa burguesa, com um novo espírito europeu no quatroccento e na cultura das diversas nações europeias exprimindo-se doravante em línguas vulgares, marcará uma Renascença greco-romana que se faria ultrapassando o mundo fechado da feudalidade e da teocracia cristã, num sentido totalmente novo, laico e burguês. No século XVIII, a “crise da consciência europeia” (expressão de Paul Hazard) conduziria a uma nova Europa onde triunfaria, na sua Aufhebungn dialéctica de modelos e cânones conflituosos, finalmente chegados a uma síntese inovadora, ultrapassados os ideais dos “despotismos esclarecidos” do século das Luzes na Europa, às revoluções liberais americana e francesa – Jacques Godechot chamou-lhes com razão “revoluções atlânticas”, embora no caso da revolta anti-inglesa (1774) e posterior independência da  América do Norte (1776), expressa na admirável fórmula tão forte e irreprimivelmente democrática que abria o texto da declaração do diploma constitucional de 1787 (“We the people of the United States…”)[6] –, esta assumisse mais o aspecto de um movimento de descolonização que recorria a valores políticos herdados da Luzes ( e até da Magna Charta que submetera o rei João à vontade dos barões ingleses, assim consagrando o habeas corpus, posteriormente legislado em 1679) –, modalidades de democracia que teriam, contudo, na Europa revolucionária, como na França desde 1789, assumindo no seu processo algumas formas aberrantes, como o Terror jacobino, de 1793 a 1794, e, na sequência deste, o consulado bonapartista (1799-1804) e, depois, o Império napoleónico (1804-1815), que seria uma maneira de criar uma Europa unida pela força das baionetas  da sua Grande Armée, único cimento dessa aparente unidade europeia, já que esta, para o Imperador francês, se resumia à sua hegemonia militar sobre o continente, desígnio rematado com o falhado Bloqueio continental (1807)  imposto à Grã-Bretanha, procurando que um continente inteiro, de Portugal à Rússia, obedecesse ao que Georges Lefebvre designou como a sua simples “vontade de poder” napoleónica, que já a sua inimiga Mme. de Staël designara como o “desejo de subjugar a Europa”. Este pseudo-europeísmo de Napoleão I, definitivamente destroçado por Wellington na batalha de Waterloo (1815), desde logo o arredava do punhado de políticos que, mais de um século depois, podiam efectivamente ser considerados como “pais fundadores” dessa unificação que só no século seguinte se veria esboçar e, erguer-se, finalmente, a partir de uma ideia de concórdia e de paz no seio do Velho Continente.
 
João Medina
 
         
      NB: Este texto serviu de base a uma conferência pronunciada no Grémio Literário do Funchal.

 





[1] Lucien Jerphagnon, Les divins Césars. Ideólogie et Pouvoir dans la Rome impériale,  Paris, Le Grand Livre du Mois, 2004, p.60.
[2] Virgílio, Aeneidos, livro VI, versos 851-853, in Pub. Virgilii Maronis Opera, editada com notas por por Emannuel Telles da Sylva, edição de Josefo António da Silva, Lisboa, 1735, p.421. Veja-se o que sobre esta mesma passagem dizemos no nosso livro Ulisses o Europeu, Lisboa, Livros Horizonte,2000, ilustr., pp.73 e 92-93.
[3] Esta passagem inicial da Eneida merece ser transcrita na íntegra; “Arma virumque cano, Trojae qui primus Italiam, fato profugus, Laviniaque venit”( “canto as guerras e o homem, levado pelo destino, de Tróia, o primeiro que  veio às costas italianas e de Lavínio”), ed. em latim supracit., p.159. Lavínio, cidade fundada por Eneias no final das suas errânciaa e aventuras, foi assim denominado em homenagem à sua mulher Lavínia, que lhe trouxe em dote uma legitimidade política.
[4] “Que eu canto o peito ilustre lusitano / a quem Neptuno e Marte obedeceram”, Camões, Os Lusíadas, canto I, 3).
[5] Aelius Aristides apud Lucien Jerphagnon, op. cit., p.161. Escritor grego e orador público, Aristiudes estudara literatura grega com um professor que ensinara Marco Aurélio, visitando Roma quando tinha 26 anos. Passando a viver em Esmirna, publicara alguns escritos como Ensinamentos sagrados e o Elogio de Roma, além de um testemunho sobre o terramoto de Esmirna, endereçado ao imperador Marco Aurélio, persuadindo-o em 178 d.C. a reconstruir esta cidade na Turquia.
[6] Três quartos de século depois, Abraham Lincoln (1809-1865) diria, no seu discurso em Gettysberg, junto das campas dos soldados caídos em luta pela União, que estes não tinham morrido em vão e que “esta nação, debaixo de Deus, terá um novo nascimento de liberdade -  e que o governo do povo, pelo povo e para o povo não há-de perecer na terra.”(19-XI-1863).


terça-feira, 27 de setembro de 2016

Atenas e Roma.

 



 
 


 
As cidades de Atenas e Roma na formação da civilização europeia:
mito, cultura e política
 
 
 
Nos Europaei”.
Francis Bacon (1561-1626), 1623
 
 
 
1.     A Europa como mito
 
“Étranger, ce taureau qu’au sein des mers profondes
D’un pied léger et sûr tu vois feindre les ondes (…)
Il nage aux bords crétois. Une jeune beauté
Dont le vent fait voler l’écharpe obéissante
Sur ses flancs est assise, et d’une main tremblante
Tient sa corne d’ivoire et, les pleurs  dans les yeux,
Apelle ses parents, ses compagnons de jeux (..)
L’art a rendu l’airain fluide et frémissant,
Ce taureau, c’est un dieu: c’est Jupiter lui-même.”
André Chénier, “Sur un groupe de Jupiter et d’Europe”.
 
 
A Europa, como mito, pertence à lenda grega de uma princesa fenícia, uma mulher de cabelos doirados, filha de Agenor, rei de Tiro, na costa de Sídon, onde é hoje o Líbano. A princesa Europa passeava junto ao mar com algumas amigas, quando Zeus, o rei dos deuses da mitologia prega, a viu, apaixonando-se por ela, e de imediato se transformou num touro de imaculada brancura. Vindo a jovem acariciá-lo, acabaria por trepar para a sua garupa, aproveitando o animal o ensejo para a raptar, levando-a às costas para a ilha de Creta através do curto espaço do mar que separava a Fenícia da Grécia. Chegados a Creta, Zeus retomou a sua forma humana e uniu-se à princesa raptada, donde nasceram três filhos, Minos, Radamanto e Sarpeidon. Minos, rei de Creta, casaria com Pasifé (Pasiphae), que se apaixonou por um touro, que aliás não lhe retribuía a paixão, o que levou a rainha adúltera a disfarçar-se de bezerra para se poder unir ao animal, acasalamento contra natura de que resultou o nascimento dum monstro sanguinário, o Minotauro. Este teve de ser encerrado, a pedido de Minos num edifício sem saída, o labirinto inventado pelo arquitecto Dédalo, exigindo a besta de cabeça taurina e corpo humano sete raparigas e sete rapazes de Atenas, como tributo anual. Para o matar, Teseu, filho de Egeu, rei de Atenas, aceitou ser um dos jovens sacrificados ao Minotauro, embora precavendo-se com um fio dado por Ariana, estratagema que lhe permitiu sair da prisão labiríntica, depois de matar o Minotauro.
Não deixa de ser curioso esta relação tão íntima da vida cretense com a raça taurina, desde os murais do palácio onde vemos mulheres que saltam por cima de touros bravos. Note-se, de passagem, que alguma da mitologia grega gira em torno da ilha de Creta, famosa desde a idade do bronze da civilização minóica, estudada por Sir Arthur Evans em Cnossos, nos começos do séc. XX, pois sãos diversos os mitos em torno de Minos, do labirinto e do monstro Minotauro – do seu arquitecto Dédalo e do seu filho Ícaro, que escaparam ambos daquele envergando asas. Todavia, Ícaro, filho do “grande arquitecto” (Os Lusíadas,  canto IV, 104), voaria tão alto que o sol derreteu a cera que unia as asas, provocando a sua caída e morte no mar icariano.[1]
Quanto ao mito do rapto da princesa fenícia Europa, ele foi objecto de infindáveis tratamentos nas artes e nas letras, desde os poemas Metamorfoses de Ovídio, André Chénier e Leconte de Lisle aos  frescos de Pompeia e aos óleos de Martin de Vos, Rubens, Ticiano, Rembrandt, Boucher e Moreau, e ainda à ópera de Milhaud L’Enlèvement d’Europe.
Em suma, a princesa fenícia acabaria por dar o seu nome, antes de mais, à Grécia e, depois, a todo um continente que iria do Bósforo ao Atlântico, do Cabo Norte ao Cabo de São Vicente, assim como o seu raptor designaria no céu a constelação do Touro. Quanto à Grécia, esta, na sua parte continental, foi sempre considerada como sendo a Europa, embora fosse tomada também como a parte ocidental da Ásia Menor (ou Médio Oriente), até porque, como o sublinha o estudioso Richard Buxton,[2]  a primitiva mitologia helénica fazia pouca distinção inicial entre “Gregos” e “Bárbaros”, até que as guerras com os persas, no séc.V, modificariam essa atitude, como mais adiante veremos. Quanto às nem sempre fixas fronteiras tradicionais entre a Europa e a Ásia, esses dois dos cinco continente da terra incluíam, para leste do Bósforo, as regiões eslavas até ao rio Don. Ao longo do séc.XV o continente europeu alargaria a sua extensão até às margens do Volga ou às montanhas dos Urais. Neste sentido, a Rússia tem sido entendida sobretudo como um país asiático, como também havemos de referir adiante.

 


 
 
2.     Os “Barbaroi”
 
Convém recordar que, para os Gregos, os povos a leste do território helénico, contra os quais tantas guerras travaram, sobretudo contra os Persas, povo indo-europeu instalado desde o século VIII a.C. a norte do golfo Pérsico, eram bárbaros (barbaroi), o que dava a esses orientais uma dimensão claramente negativa, como sendo inimigos desprovidos de verdadeira civilização, e que tinham falhado as várias tentativas de submeterem os helenos nas Guerras médicas, no tempo de Dario I (século V a.C.), embora tivessem conseguido anexar todas as cidades gregas da Ásia, no território da actual Turquia. Contudo, esta permanente ameaça dos persas desfez-se para os Gregos com as vitórias de Salamina (480 a.C.) e com as conquistas de Alexandre o Grande (século IV a.C.) que conseguiu aniquilar o império persa, a que se seguiria, algum tempo volvido, a ocupação do seu território pelos romanos. Para os gregos, eram barbaroi não só os persas mas todos os povos orientais cuja língua lhes parecia incompreensível, como os egípcios, os caldeus, bem como os romanos.
Todavia, na sua peça Os Persas (472 a.C.), Ésquilo mostrava o desastre persa em Salamina, em 476 a.C., na qual os gregos derrotaram Xerxes, cuja grande frota foi desbaratada nessa batalha decisiva. A peça não era, porém, feita contra os vencidos, mas contra a hybris (desmedida) de Dario, vencido pelos gregos na batalha de Maratona (490 a.C.), verdadeiro responsável por uma política agressiva que conduzira ao descalabro do poderio aqueménida, servindo sobretudo, para o público helénico, como uma lição moral, pondo-o em guarda contra a tirania, ao mesmo tempo que nas palavras do coro persa ressoavam acentos dolorosos para exprimir a dor dos vencidos. Com o posterior domínio do mundo mediterrânico pelos romanos – que os gregos tinham considerado também como bárbaros –, o termo perdeu o seu carácter xenófobo para designar, agora, os povos que não participavam na Romanitas. Note-se que, para os romanos, os germânicos que invadiriam o império no seu final tinham olhos azuis que os impressionavam como funestos, pois a cor cerúlea (azul do céu) lhes era desagradável e tida como aziaga. Foi preciso uma mudança cultural das simpatias cromáticas ocidentais, durante a Idade Média cristã, para que o azul ganhasse valor e dignidade, figurando essa cor no manto de Nossa Senhora.[3]

 
 

 
3. A Europa livre e a Ásia despótica
 
No século das Luzes, o pensador francês Montesquieu (1689-1755), autor das Cartas persas e do tratado de política De l´Esprit des Lois (1748), tipificava os regimes políticos em três formas, a Monarquia, a República a o Despotismo, fazendo-os depender, respectivamente, da honra, da virtude e do medo, considerando que ao último sistema pertenciam os impérios asiáticos, como o persa, o chinês, o indiano e o japonês, em suma, a países da Ásia, já que todos esses regimes eram essencialmente despóticos, ou seja, baseados no medo. Quanto à República (livro II, cap. II e livro III, cap. III), fundava-se esta numa organização igualitária das relações entre os membros da colectividade, ou seja, na qual o povo em corpo ou em parte dele tinha o poder soberano, não significando isso que nela todos os homens seriam virtuosos, mas que podiam sê-lo. Já a monarquia se baseava na diferenciação e na desigualdade, na “honra”(livro  III, cap.V II), pois só um governa e tem o poder soberano, enquanto o despotismo asiático, sendo a lei sem regra, em que a igualdade só se estabelecia no medo (L’Esprit des Lois, livro II, cap. I e livro III, cap. IX). O governo republicano, acrescentava, podia assumir duas formas diferentes, a democracia e a aristocracia.
Estas considerações do grande pensador político da Gironda marcaria de forma muito clara – e na sequência das convicções reflexivas tantos dos gregos como dos romanos –  a noção de que a Europa seria o continente onde não existiam regimes fundados no medo, o que levava o filósofo iluminista a declarar que “a constituição de Roma e a de Atenas eram muito  sensatas (sages)”, considerando ainda que seria “ainda uma lei fundamental da democracia que só o povo faça leis”(livro II, cap. II). Já Hobbes, no século anterior, achava que o medo era o sentimento humano político mais natural, sendo o Estado – ou o Leviatã como lhe chamava, com inspiração bíblica - formado com base nele. Todavia, Montesquieu, não sendo pessimista como o era o teorizador político inglês, tinha uma convicção liberal arreigadamente europeísta, pensando que o despotismo era intrinsecamente asiático – convicção que nós europeus, hoje ainda, facilmente aceitamos, pensando sobretudo, por exemplo, na passagem do antigo Leviatã czarista para a actual Rússia de Putin, ou nas sete décadas de regime ditatorial soviético[4] –, assim como, na sua teorização sobre a influência do clima nas formas de governo, insistia que o poderio asiático, ligado por natureza aos grandes impérios, “deve ser sempre despótico na Ásia”, enquanto que, na Europa, a medíocre extensão dos seus estados formara nelas um “génio da liberdade que torna cada parte muito difícil de ser subjugada e submetida a uma potência estrangeira”. E concluía que “reina na Ásia um espírito de servidão que nunca a abandonou”(…), não sendo possível encontrar uma só característica que marque uma alma livre: ali só se verá o heroísmo da servidão.” (livro XVII, cap. 7).
Se pensarmos no destino histórico da Rússia, desde o primeiro czar, Ivan, o Terrível (1530-1584) – que nos custa crer que foi contemporâneo da rainha Isabel I da Inglaterra (1533-1603) – até ao derradeiro dos czares, Nicolau II, assassinado em 16/17-VII-1918, passando pela queda da realeza e a efémera revolução democrática chefiada por Kerensky (1881-1971)[5] e a instauração da ditadura bolchevista (Outubro/Novembro de 1917), durante a qual Lenine mandou executar o czar e fechou a duma, instaurando um regime que, sobretudo a partir de Estaline (falecido em 1953), levaria ao apogeu o sistema despótico soviético que só teve equivalente na dureza e inclemência dos métodos de terror utilizado e de genocídios cometidos, nos anos 30-40, ao de Hitler na Alemanha do Reich milenar que só duraria doze anos.[6] Um punhado de grandes escritores russos dessa época sombria – Zamiatin, Platonov, Bulgakov, Vassili Grossman, Siniavsky,[7] Soljenitsine, Pasternak – deixaria desse verdadeiro Behemoth russo os depoimentos mais impressionantes do que foi a dolorosa passagem da Utopia bolchevista à atroz Distopia soviética, com os seu Gulag e as suas arbitrariedades sob as formas mais implacáveis de um regime despótico, não podemos deixar de observar que, mesmo quando este chegou ao fim, em 1991, com Gorbatchev, não se instaurou ali a democracia num país que jamais a conhecera em séculos da sua existência histórica, antes se resvalou para a restauração dos métodos que tinham caracterizado os despotismos anteriores, desse os czares a um antigo funcionário dos serviços da KGB, a omnipotente polícia política, Vladimir Putin. Em suma, não se pode deixar de evocar o liberal Montesquieu quando comparamos os regimes europeus e os asiáticos.
 


 


 
4. A invenção da Democracia ou a Grécia como primeiro grande contributo para a civilização europeia
 
A Europa, entendida como uma específica formação histórico-cultural, assim como civilização política e institucional, tem, antes de mais, como pólos duas grandes cidades territorialmente expansivas e colonizadoras que foram, também, duas formas de estado, acabando uma delas, a do império romano, por gerar a primeira configuração da Europa como um todo continental e de governação político-jurídica. Roma foi, assim, o primeiro império realmente europeu, progressivamente alargado do Próximo Oriente às costas do oceano atlântico, as ilhas britânicas e uma parte da Germânia, fazendo do Mediterrâneo o mare nostrum (também designado poro mare internum) ao longo do qual, foi estabelecendo o seu poderio e o uso do latim, fonte de diversas línguas novilatinas, entre as quais aquela que o poeta brasileiro Olavo Bilac evocava como a “última flor do Lácio”, o português.
Nessa nebulosa histórica, a Grécia surge como um preâmbulo da futura civilização europeia, sobretudo graças à invenção que nela se fez do regime democrático que, alguns séculos mais tarde, seria o cimento essencial do poder numa Europa unida. Convém, pois, começar por referir a invenção grega da democracia (demokratia) – palavra que não figura nos dicionários de Latim – como um dos elementos fundamentais da civilização da Hélade para a afirmação dum fortíssimo e essencial veio europeu a que podemos dar o nome de greco-romano, sobretudo se atendermos que Roma, no seu desenvolvimento como potência imperial, sobretudo depois de ter derrotado Cartago nas guerras púnicas (sécs.I-II a.C.), que dominara o comércio do Mediterrâneo durante séculos, se afirmou como a grande e duradoura potência unificadora do espaço europeu.[8]
 Roma, ao integrar Atenas e o seu património político e cultural na sua realidade, fez dos atenienses um dos elementos fundamentais da herança que a Europa moderna acolheria como basilares da sua genética. Das três variantes históricas da Grécia – a Grécia arcaica (ou Grécia antiga, do século VIII a.C. ao fim do séc.VI a.C.), a Grécia clássica (que se estende do século V a.C. ao fim das Guerras Médicas, em 479 a.C., e que corresponde ao apogeu da civilização grega) e a Grécia helenística (que vai do século IV a.C. à conquista romana do reinos helenísticos saídos do império de Alexandre o Grande, no século I a.C.) –, o período que mais nos interessa é a Atenas do tempo de Péricles (século V a.C.), com a sua capital situada na Ática, em cuja Acrópole (cidade alta) Fídias foi o escultor principal do Parténon, assim como da monumental estátua da deusa Atena e os grandes dramaturgos Sófocles, Ésquilo e Eurípedes escreveram as suas peças, cidade rodeada de montanhas e adversária de Esparta tanto como dos Persas com os quais travou guerras incessantes e, ao final, vitoriosas para os gregos, desde Maratona a Salamina.
A Grécia foi dominada por uma poderosa aristocracia desde a tirania moderada de Pisístrato (600-527 a.C.), que ensaiou a primeira democracia social, ao mesmo tempo que iniciava a expansão helénica. Mas foram as reformas de Clístenes (508 a.C.) que de facto estabeleceram a democracia, ainda que esta se mantivesse sempre bastante limitada: havia apenas 1/12 de cidadãos activos na Atenas do século V a.C. no meio de 200.000 escravos e 70.000 estrangeiros desprovidos de quaisquer direitos políticos. Nos séculos VII e VI a.C., Dracon, Sólon, Pisístrato e Clístenes tornaram o regime democrático na Grécia uma realidade. Nesse período de apogeu ateniense, que duraria até à conquista macedónica, o governo de Péricles (492-429 a.C.) levaria esse sistema democrático ao seu auge, atingindo Atenas a hegemonia como cidade-estado dominante da Hélade, assim como com o máximo do seu poderio económico e militar, eliminando os persas do mar Egeu e implantando colónias helénicas no território da actual Turquia (uma delas fora Tróia, ou Ilion, hoje Hissarlik – que significa fortaleza –, a 6 km do Helesponto (Dardanelos), cujos vestígios  o alemão  Heinrich Schliemann (1822-1890) [9] escavaria no século XIX, descobrindo desde 1871 nove camadas arqueológicas sobrepostas, sendo uma delas a da cidade devastada cerca de 1184 a.C. – data fixada por Eratóstenes para a queda de Tróia, quando se supõe que esta teria ocorrido durante o sécs.XII ou XIII, urbe que Homero (séc. VIII a.C.) cantara na Ilíada, narrando na Odisseia o regresso ao lar, em Ítaca, de Ulisses, o astuto grego que ajudara a conquistar a cidade através do famoso estratagema do cavalo de pau, um  dos poemas lendários que, como veremos adiante, serviria a Virgílio para filiar a romanidade do império de Augusto num grupo de fugitivos da famosa cidade cercada e tomada por causa do rapto de Helena, mulher de Menelau, rei de Micenas, raptada por Páris, o filho de Príamo, rei troiano.
Com a democracia grega, os cidadãos eram todos iguais diante da lei – termo designando pela palavra isonomia –, completada pela isotimia (acesso de todos às funções públicas, conferidas não segundo o nascimento mas por eleição ou sorteio) e idegoria (direito de todos à palavra diante dos tribunais e assembleia do povo. Esse sistema politico democrático, que teve o seu auge no do século V a.C., era, desse modo, a primeira forma histórica de uma democracia directa, ainda que nem todos os habitantes de Atenas participassem nele, já que as mulheres, os escravos e os estrangeiros residentes (metecos) estavam excluídos desses direitos nas leis escritas feitas para as pequenas cidades. Este sistema democrático que regia a polis grega estava concebido para cidades pequenas (como mais tarde sucederia com a democracia helvética dos tempos modernos, estabelecida e reconhecida desde 1499). Além disso, a democracia ateniense custava caro, já que era preciso pagar, desde Péricles, os salários indemnizações de presença na assembleia popular (a eccclesia), a qual tudo decidia, tanto a guerra como a paz, votando o orçamento, julgando os crimes de Estado e formando um tribunal para muitos outros crimes, além de eleger estrategos (chefes militares) e tesoureiros, sendo as suas sentenças sem apelo. 
A existência da escravatura era, deste modo, essencial o funcionamento deste sistema democrático helénico, na medida em que só assim os homens livres se permitiam consagrar-se à vida pública. Péricles fez mesmo votar leis limitando o número de cidadãos, donde resultou que em 400.000 habitantes, na Ática, só 40.000 fossem verdadeiros cidadãos masculinos e adultos, dos quais só uns 5 a 6.000 tinham assento nas assembleias do povo. As grandes obras artísticas públicas no tempo de Péricles - como a construção do magnífico Parténon na Acrópole de Atenas, com o seu friso de figuras e cavalos de estilo dórico, esculpido por Fídias em mármore pentélico[10], e as festas organizadas para agradar ao povo, o que fazia o regime democrático depender do financiamento que lhe era assegurado pelos aliados de Atenas (a Confederação ateniense ou de Delos) –, pelo que a democracia grega foi perdendo apoio. Em suma, a democracia ateniense foi sobretudo o governo de uma minoria, dum demos de alguns milhares de cidadãos livres, mas na qual uma classe de escravos e aliados mais ou menos submissos não participava, o que permitia oferecer-se um grande nível artístico e o luxo de se governar a si mesma. E jamais a democracia ateniense considerou estabelecer a igualdade entre todos os homens ou entre todas as cidades.
 
(continua)
 
João Medina





[1] Camões incluiria, na fala amargamente profética do Velho do Restelo (Lusíadas, IV, 94 e ss), ao considerar que a nossa aventura marítima se comparava ao voo fatal de Ícaro.
 
[2] Veja-se  Richard Buxton, The Complete World of Greek Mythology, Londres, Thames & Hudson, 2007, ilustr., p.98. Esta obra é excepcional como tratado de mitologia e ainda pela alta qualidade das suas ilustrações. Buxton sublinha a importância do sexo no comportamento do deuses gregos, dizendo que “um dos mais impressionantes modos nos quais terrível poder dos deuses se exprimiu através do sexo” (p.94), dando exemplos das muitas formas dessa verdadeira pan-sexualidade mitológica (pp.94-101), sem esquecer a homossexualidade do próprio Zeus, apaixonado por Ganimedes, jovem príncipe troiano, a ponto de, transformado em águia, o raptar, levando-o para o no Olimpo e fazendo dele o copeiro dos deuses, o que lhe garantia a imortalidade e a juventude eterna (pp.99-100)..
[3] Sobre a história das cores, veja-se a obra inovadora de Michel Pastoreau, entrevistado por Dominique Simonnet, Paris, Éditions du Panama, 2014, maxime pp.14-26 (o azul).
[4] Vide:–Hélène Carrère d’Encausse, La Russie inachevée, Paris, Fayard, 2000. -La Russie des Tsars. D’Ivan le Terrible à Vladimir Poutine, dir. de Emmanuel Hecht, Paris, Perrin, 2016, maxime pp.391-413 (Putine). -Vladimir Fedorovski, De Raspoutine à Poutine, Les Hommes d l’Ombre, Paris, Perrin, 2001.
[5] Veja-se o testemunho de Alexandre Kerenski (1881-1970) no seu livro La Russie au Tournant de l’Histoire, Paris, Plon, 1967, e 447-584 (queda do governo de Kerternski e tomada do poder pelos bolchevistas).
[6] Veja-se o Dictionnaire du Communisme dirigido por Stéphane Courtois, Paris, Larousse, 2007, ilustr. com fotos e mapas, maxime pp.338-349 (Lenine e o leninismo) e 529 -544 (Estaline)..
[7] Sobre estes dois importantes romancistas russos, veja-se o estudo que lhes dedicámos no nosso livro  Auschwitz e Moscovo. O Silêncio de Deus em Auschwitz, Lisboa, Caleidoscópio, 2006, ilustr., maxime pp.83-103 (Grossman) e 109-121 (Siniavsky).
[8] Veja-se a obra fundamental de Paul Veyne L’Empire gréco-romain, Paris, Le Grand Livre du Mois, 2005, ilustr., maxime pp.163-257 (a  identidade grega contra e com Roma, “colaboração” e vocação superior).
[9] Vejam-se os seguintes estudos: -David A. Traill, Schliemann’s of Troy: Treasure and Deceit,  Nova Iorque, St.-Martins, 1996, ilustr.. -Catherine Moorehead, Lost and Found. The 9.000 Treasures of Troy. Heinrich Schliemann and the Gold that got away, Nova Iorque, Viking, 1996. Sobre a Guerra de Tróia ver: - Quinto de Esmirna, The War of Troy. What Homer didn’t tell, trad. e notas de Frederick M. Combellack. Nova Iorque, Barnes and Noble, 1996. -Moses I. Finley, On a perdu la Guerre de Troie, Paris, Les Belles Lettres, 1995. – Stéphane Foucart, La Guerre de Troie a-t-elle eu Lieu? Enquête sur un Mythe, Paris, La Librairie Vuibert, 2014.
[10] O Parténon seria comprado ao governo turco em 1801-2 por Lord Elgin, embaixador inglês na Turquia, e transportado nas sua quase totalidade, para o British Museum, em Londres, o que indignou Lord Byron, que lhe vibrou uma violenta crítica no seu poema Childe Harold’s Pilgrimage, de 1812 (recorde-se que o poeta inglês morreria em 1824, perto de Missolonghi, combatendo pela libertação da Grécia das mãos do império otomano). Veja-se a obra de Roderick Bewton, Byron’s War. Romantic Rebellion, Greek Revoluition, Cambridge, N.Iorque, Cambridge Universitry Press, 2013, maxime pp.211-263 (os cem dias de Byron em Missolonghi, onde morreria), ilustr. com mapas e imagens,