terça-feira, 17 de setembro de 2019

Império Invisível.

 
 

Deve construir-se um aeroporto no Montijo?


 
 
 
 
Não. Nas páginas do Expresso, Miguel Sousa Tavares disse o óbvio: não. Como é que um país que está comprometido com uma agenda de descarbonização pensa em construir um novo grande aeroporto? As emissões de gases-estufa na União Europeia aumentaram 87% entre 1990 e 2006, e não dão sinais de parar. Na conferência trienal da ICAO, em 2016, a aviação internacional conseguiu iludir o problema, que se agrava de dia para dia, até ao dia. Para ter uma ideia do impacto ambiental da aviação, basta ler esta entrada da Wikipedia. Como é óbvio, as coisas vão mudar, e mudar drasticamente, provavelmente com a imposição de taxas pesadas, com aumentos de preços e diminuição do número de voos – será económica (e ambientalmente) viável um grande aeroporto em Lisboa, daqui a quarenta ou cinquenta anos? Não, e não venham com projecções enviesadas sobre o aumento do tráfego aéreo, pois essas projecções não têm em conta o que irá acontecer em termos de taxas, preços, custos, diminuição de passageiros. É sustentável um novo grande aeroporto no Montijo? Não. E ninguém pensa nisso?

Columbia Street, Fall River, Massachusetts.

 
 



Fotografias de Onésimo Teotónio de Almeida





 

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Duas ou três coisas que não sei sobre a Maçonaria.






 

         Primeira, porque é que numa sociedade democrática e aberta, baseada na igualdade e na transparência das instituições, a Maçonaria se mantém elitista e de acesso reservado, secretista, opaca e nebulosa, mas se proclama progressista e avançada? Porque é que não há gente do povo na Maçonaria, porque é que os pedreiros livres não podem ser pedreiros-livres?

         Segunda, porque é que uma organização que reclama um longo historial em defesa dos direitos humanos e da igualdade mantém uma separação discriminatória – pior que a da Igreja – entre maçonaria masculina e maçonaria feminina? E porque é que é incapaz de se libertar desse arcaísmo misógino?

         Terceira, porque é que, sempre que se fala da Maçonaria, alguns respondem com o Opus Dei, numa tentativa de equiparação de culpas, reveladora de má consciência?

 
 
 
 

domingo, 15 de setembro de 2019

A filosofia política dos sacos de plástico.





 

         Estou a ler Green Philosophy, do papa do conservadorismo Roger Scruton, e sobre o livro falarei depois, se tiver vagar, paciência, engenho – e vontade.

         Há uma coisa que Scruton diz e que, não sendo muito original (a discussão sobre «externalidades» é antiga e vasta), faz que pensar. A propósito dos plásticos, mas também poderia ser a propósito de outras coisas, como a construção de casas em leitos de cheias ou actividades poluentes. Diz ele, e com razão, que para umas empresas não pagarem por embalagens de vidro ou de outros materiais, para aumentarem o lucro ou pouparem usando o plástico, mais baratinho, todos nós acabamos por pagar – em custos ambientais mas em custos económicos, com as despesas de remoção, tratamento, etc., etc. Quer dizer – e isto não é dito por um marxista, mas pelo nome maior do conservadorismo de direita –, estamos todos a pagar para alguns, poucos, não pagarem. É uma espécie de imposto indirecto, ou oculto, a favor de uns privados, não destinado ao Estado para ser distribuído e gasto em despesas sociais. É um preço adicional que acarretamos. Quando paga mais barato por um produto numa embalagem de plástico, não está verdadeiramente a pagar mais barato; no imediato, parece mais barato, em comparação com uma embalagem de vidro, de cartão, de metal. Mas, na verdade, há um preço diferido, e bem elevado. O que julga que custa três euros se calhar vai custar-lhe cinco euros, o custo que vai suportar no ambiente que o envolve, na remoção e no tratamento, nos serviços de limpeza urbana, no que for. Estou a extrapolar um pouco a partir do que diz Scruton, mas creio que esta é uma injustiça oculta do nosso tempo, mais uma. Injustiça não é apenas vertical, ricos e pobres, ou geracional, de idosos para mais novos. É injusto, parece-me, que, para uns poucos pouparem nos custos de produção e aumentarem os ganhos, todos termos de pagar. Sem nos apercebermos disso, o que torna ainda menos transparentes, claras e leais as regras do mercado. Bom domingo.
 
 
 
 

sábado, 14 de setembro de 2019

São Cristóvão pela Europa (93).

 
De novo na Baviera prossigo uma rota de Imagens de São Cristóvão desde Füssen até Augsburg.
Em Füssen, a fachada da Igreja do Hospital do Espírito Santo, construída em 1748 e 1749 e uma jóia do rococó da Suábia e da Baviera:
 

 
 
No Museu da Abadia de Ottobeuren, duas imagens de São Cristóvão. A da esquerda proveniente da Região alemã de Allgäu de fins do Século XV e a da direita da também região alemã da Alta Suábia, datada de cerca de 1500:
 
 
Em Memmingen, na Igreja de São Martinho, um fresco:
 

 
 
Fotografias de 11 de Agosto de 2019
José Liberato

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Tortúlia.




 

 

TORTÚLIA
 
 
 
Definição de Tortúlia (substantivo neutro): conversas treta-a-treta à volta da lixeratura e do bolorento miolo literário, encontros de poetretas e poetísicas pulítica e pueticamente correctos, festivais de puetaria decorados com prosas murchas de plástico, eventos coolturais, lançamentos de fogo-de-artifício editorial seguido de apanhamento de canas ocas e rachadas para entretenimento da província do espírito, distribuição de papos-secos sem côdea nem miolo, cursos de escrituração criativa e outras deformações profissionais de inseminação artificial, explicações de Brutoguês, doutoramentos Horroris Causa, obscuras aparições instantâneas naturais desta patética República das Badanas, leituras à capela de «puemas» e «textículos» de saco privado subsidiadas por bolsas públicas, exibições e palrações de artistas da escola do Rotundismo de freguesia, congressos e colóquios do movimento Bacoco-Cocó, mesas redondas ocupadas por bestas quadradas, «e assim sucessivamente».
 
Ricardo Álvaro
 

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

São Cristóvão pela Europa (92).


 
 
 
Ainda no Tirol austríaco, de Innsbruck até de novo à fronteira alemã em Füssen, o nosso santo continua a acompanhar o viajante.
Em Telfs, pinturas no exterior de edifícios, um deles um hotel:
 

 

 
Num prédio de habitação em Silz:



Na Igreja de São Crisanto e Santa Dária em Haiming, com a curiosidade de o Santo estar vestido como um dandy do Século XVII:
 


 

E no exterior da Igreja da Ascensão de Maria em Imst:
 

José Liberato
Fotografias de 10 de Agosto de 2019
 

Tiverton, Rhode Island.

 
 


Fotografias de Onésimo Teotónio de Almeida
 



quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Bolsou (Carlos) Bolsonaro - 20

 
 




O Jorge mais Amado.


 
 
 
 
Confesso que fiquei danado por este livro só ter surgido agora nas livrarias, passado o Verão. Porque melhor companhia de praia não haveria, a biografia de um Jorge tão amado, tão bem investigado num livro gordo, mas não flácido.  
Confesso que quando li as primeiras linhas fiquei alarmado, pois, como bem notou o meu amigo António Cabral, sempre arguto, elas podiam indiciar erro gravíssimo da autora, que parecia imputar a Salazar a expulsão dos jesuítas de Portugal. Relido o parágrafo, talvez seja o modo de escrita, lá não se diz, preto no branco, tamanha enormidade histórica.
O que do livro se percebe, entre tanta coisa, foi a absoluta centralidade da militância comunista na vida e obra de Jorge Amado, e que essa militância esteve a ponto de fazer perder um grande, enorme escritor (isso também ressalta, e muito, na correspondência trocada com Zélia, livro maravilhoso publicado há um par de anos pelos filhos do casal). Foi essa militância, é certo, que em larga medida o lançou e projectou no mundo, e não fora isso Jorge seria apenas um escritor brasileiro, de timbre regionalista. A autora não carrega muito nessa tecla, mas devia, como devia ter falado mais na veneração patética de Jorge Amado por José Estaline. Transcrevem-se alguns trechos do execrando O Mundo da Paz, não os mais pornográficos. Salvou-se Jorge através da lenta dissidência, mais precoce que a da mulher Zélia, precipitada pelo relatório Krutchev ao XX Congresso, cuja leitura fez verter lágrimas a outra lenda do comunismo tropical, Carlos Marighella. Curiosa é a fatwa que o Partido Comunista lançou sobre Jorge Amado quando ele deu sinais de tímido desalinho, e logo lhe foi dito que seria liquidado como escritor, que dentro de meses a força do Partidão faria com que não mais ouvissem falar dele. Justo o oposto: escreveu o estrondoso Gabriela, foi feito imortal na Academia das Letras, o melhor da sua produção esteve aí, na fase da maturidade (excepção feita ao grande Jubiabá, de tempos mais recuados).
Portugal aparece de quando em vez, pela voz de Ferreira de Castro e Alves Redol. Mas, até por isso, teria sido útil buscar apoio num livrinho que Álvaro Salema escreveu só sobre a presença de Amado na nossa terra. Mas isso são pecadilhos menores, talvez não tão menores assim para quem se recorda de Jorge Amado no Tivoli ou às mesas das Mimis do Parque Mayer (restaurante Amadora), a que tanto fui com meu Pai. Várias vezes o vi lá, na companhia de Beatriz Costa. Ou de Alçada Batista.  
Numa temporada em Paris, na junto com o Miguel, por pensões de turcos e putas nas cercanias da Gare du Nord, quando éramos muito pobres e muito felizes, como diz Hemingway em A Moveable Feast, avistámos Zélia e Jorge, nas escadarias do Sacré-Coeur, a contemplar o entardecer. Eu trazia um livro comprado turisticamente na Shakespeare & Co., Paris! Paris! de Irwin Shaw, e lembrei-me de pedir-lhe um autógrafo logo ali, nas páginas de livro alheio. Jorge assinou, pois claro, mas só agora soube que tinha por hábito sentar-se ali, a cidade desenrolada a seus pés como uma tapeçaria de um bazar oriental. Julgava-o visitante ocasional, como eu. Mas não, Jorge era assíduo do Sacré-Coeur.
Essas e outras novas são dadas por este livro, excelente, que doravante figurará como a grande biografia, há tanto tão aguardada, de Jorge Amado, do nosso tão amado Jorge.
 





 
 

terça-feira, 10 de setembro de 2019

«Morte à PIDE!»

 
 

São Cristóvão pela Europa (91).

 
 
No meu percurso pelo Tirol austríaco pude verificar como São Cristóvão está bem presente nos caminhos que os viajantes outrora palmilhavam. Neste caso, entre Kitzbühel e Innsbruck.
Em Kitzbühel, capital do distrito do mesmo nome, na fachada da Igreja de Santa Catarina:
 
Na Igreja de São Leonardo em St. Leonhard uma pintura no exterior, um pouco apagada:
 
 
Na Igreja de São Virgílio em Rattenberg:
 

 
Na Igreja da Ascensão de Maria em Schwaz, também capital de distrito, uma pintura no exterior:
 


José Liberato
Fotografias de 8 e 9 de Agosto de 2019.
 

Portugal é Sensacional.

 
 
 

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Tarde demais.


 
 
 
 
Dois livros absolutamente obrigatórios. A sério, não exagero. Um, sobre alterações climáticas, que ainda estou a ler, aterrado. It is worse, much worse, than you think, são as palavras já célebres do livro de David Wallace-Wells, The Uninhabitale Earth. Senhores editores, TRADUZAM-NO E PUBLIQUEM-NO CÁ. Feita esta súplica, outro livro. Este deveria ser obrigatório em escolas, gabinetes ministeriais, salas de conselhos de administração, em toda a parte. Deveria existir um exemplar em cada lar português. Não, não estou a exagerar. Peter Frankopan, um reputadíssimo académico, que ensinou em tudo o que é excelência universitária, já tinha escrito As Rotas da Seda, traduzido cá, e muito bem. Regressa agora com As Novas Rotas da Seda. Além de estar escrito de uma forma, digamos, arrebatadora e ligeiramente mais sedutora do que as fotografias de Verão da Senhora Dolores Aveiro, o livro conta histórias de pasmar, começando por referir o óbvio: todos os grandes clubes de futebol europeus estão nas mãos de estrangeiros. Sintomático, não? Depois, mil e um episódios: o do chinês que comprou uma propriedade de 3000 hectares em França só para produzir trigo para uma rede de boulangeries destinada às classes emergentes de Pequim ou Xangai, a do pó de talco com que polvilhamos os nossos bebés vir do Afeganistão e, mais precisamente, dos talibãs (sabia?), etc., etc. Percebe-se aqui Trump ou o Brexit: mais não são do que estertores de um Ocidente em agonia. Enquanto por cá andamos em querelas e xenofobias, e a Europa e a América não têm desígnio nenhum, absolutamente nenhum (a América, quando muito, terá o desígnio de tentar resistir à esmagadora hegemonia da China, perante a qual tem uma dívida de biliões), enquanto por cá não temos desígnio nenhum, dizia, a China lançou há anos a gigantesca iniciativa da Rota da Seda, vamos chamar-lhe assim. O mais espantoso é que quando falei dela – e deste livro – a algumas pessoas, pessoas ilustradas, ninguém sabia o que era a iniciativa Uma Rota, Uma Faixa… É uma coisa longínqua, distante… Será? Com os nossos centros de decisão económica já muito hipotecados aos chineses, com as vias de construção da Rota a serem preparadas para acabarem em Portugal, com os chineses a deixarem de ser imitadores de tecnologia e a já terem a vanguarda de muita investigação de ponta? (ver aqui, ou aqui, e até já uma Associação Amigos da Nova Rota da Seda...) Com as sanções de Trump ao Irão e a outros países a serem aproveitadas pela China, que de caminho engole os países africanos através de dívidas colossais (à China…), a troco de infraestruturas megalómanas, edificadas… pela China? De quem é o porto do Pireu, ou a EDP? Muitos de nós ainda não percebemos que o Ocidente acabou, morreu. Na melhor das hipóteses, Portugal será um resort para turistas asiáticos, com vinhos de marca e uns castelinhos d’encantar. Nada mais. O próximo século é do Pacífico, e regiões limítrofes. O que se anda para lá a fazer na Ásia Central – e que este livro mostra com abundantes exemplos –, o que se faz e as parcerias que existem no Tajaquistão, no Cazaquistão, no Turquemenistão, etc. O quão distraídos andamos nós, com as novelas do governo italiano ou do Brexit, enquanto China e Índia se desenvolvem e armam à bruta. O que não percebemos que, com o domínio global da China, que é um país não-democrático, a democracia – toda a democracia! – está em risco em todo o mundo. O que não percebemos que para dominar um país já não são necessárias frotas navais ou carros de assalto, nem soldados, basta a asfixia económica, o investimento maciço, o controlo da informação, a manipulação da Internet. Duvidam? Leiam este livro. Que ademais não é um panfleto sinofóbico, longe disso. É um extraordinário livro, não muito grande, que se lê num ápice. E que, insisto, devia ser obrigatório, lido por milhões de europeus, como o livrinho vermelho do nunca renegado Mao Zedong (apesar de ter morto milhões e milhões, quem fala disso, quem ousa clamar por justiça histórica transnacional? Já agora, quem se ergue hoje por Taiwan ou pelo Dalai Lama?). Ia escrever que é bom ler e meditar neste livro «antes que seja tarde», mas não: já é tarde, já acabou. Mas convém sabê-lo, estar consciente disso. Discorda? Leia As Novas Rotas da Seda. Já agora, uma pergunta: porque é que a sociedade de advogados Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados é sócia honorária da Associação Amigos da Nova Rota da Seda???
 




 
 
 
 
 

  

 

 







domingo, 8 de setembro de 2019

São Cristóvão pela Europa (90).


 
 
No extremo Sudeste da Baviera (também o é da Alemanha) encontrei várias imagens do nosso Santo.
Em Grabenstätt, junto ao Chiemsee (um dos lagos marcados pela presença de Luís da Baviera), na igreja de São João:
 


 
 
 
Em Marktschellenberg, mesmo junto à fronteira com a Áustria, um São Cristóvão mais moderno:
 
 
Em Ettenberg, no alto de uma montanha junto à povoação anterior, num local de peregrinação, a Igreja da Visitação de Maria:
 


 

José Liberato
Fotografias de 8 de Agosto de 2019