quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Memórias Perdidas - 10







         Nesta rubrica «Memórias Perdidas» tem-se falado, regra geral, de testemunhos de pessoas comuns, que não se destacaram publicamente pelo que tenham feito em vida. Não é bem o caso de Memorial de Dom Quixote, do embaixador Eduardo Brazão, publicado em 1976 pela Coimbra Editora, Limitada. A capa, pavorosa.
         O livro, aliás, é bastante conhecido, sobretudo entre os historiadores e, mais ainda, entre os historiadores que estudam as relações entre Portugal e a Santa Sé. O autor, por sua vez, é detentor de uma vastíssima bibliografia sobre história diplomática, pelo que não será grande novidade falar deste Memorial de Dom Quixote. Deixa-se a nota, em todo o caso, dado tratar-se de uma obra que bem justificaria ser reeditada, sendo hoje uma raridade de alfarrabista – o que é pena, atendendo ao sem-fim de livros idiotas que se publicam actualmente, a uma cadência impressionante, sobre Salazar e o Estado Novo. Não sei como nem por que meios, em 2014 o livro foi alvo de uma reedição que se vende na Amazon, aqui, mas julgo que não deu entrada nas nossas livrarias – pelo menos, não o vi.
         Filho do actor de teatro Eduaardo Brazão (cujas «memórias», aliás, compilou), Eduardo Brazão (1907-1987) foi diplomata e homem de letras. Por vezes, a sua inclinação para as letras – ou, melhor dizendo, para os estudos de história diplomática, amplamente documentados – sobrepôs-se à vocação de representante de Portugal noutros países. Bibliófilo voraz, logo nas primeiras páginas de Memorial de Dom Quixote Eduardo Brazão lamenta a perda da sua magnífica livraria, uma parte afectada pelas cheias, outra por larápios da Cidade Eterna.
         É Roma que se constitui como o centro da obra, narrando o autor-embaixador as sucessivas vezes que por lá passou. A dado passo, curiosamente, Brazão diz não apreciar muito a capital italiana, mas talvez essa sua afirmação não seja para levar a sério. Como aqueloutra em que manifesta algum distanciamento face ao fascínio que a aristocracia exerce, citando Almada Negreiros («Nem nobre, nem plebeu, sou eu») e Alfredo Pimenta («Antes ser que descender»). Ora, em todo o livro, página sim, página não, são desfiados nomes da altíssima aristocracia romana, os seus esplendorosos palácios, a sua convivência profana com os príncipes do Vaticano. E é visível (logo na imagem da contracapa, por ex.) o orgulho com que Brazão exibia as suas condecorações e troféus da exclusivíssima Ordem de Malta.
         Tendo feito o liceu no colégio dos jesuítas em La Guardia, na Galiza, uma opção típica em muitos jovens das classes abastadas do seu tempo, Eduardo Brazão cursa Direito em Lisboa, mas o fascínio da História e das Letras é mais forte do que a vocação jurídica. Cedo se associa aos círculos da boémia literata de Lisboa, bem como a personalidades marcantes da nossa vida cultural: Teixeira de Pascoaes, Afonso Lopes Vieira, Caetano Beirão, João Ameal, Mário Beirão, Hipólito Raposo, Alberto de Monsaraz, Manuel Múrias, Almada Negreiros, António Pedro e Francisco da Cunha Leão. Tudo gente «das direitas», ou por lá perto. Uma excepção curiosíssima: entre os amigos, Álvaro Cunhal, de quem Eduardo Brazão dizia conservar um lindo projecto de vitral, assinado pelo autor, representando Nossa Senhora com o Menino Jesus ao colo!
         Data de 1925 a primeira vez que foi a Itália, regressando a Roma e, 1941, como bolseiro do Instituto de Alta Cultura. Depois, voltaria mais vezes, sempre cada vez mais alto na hierarquia dos Negócios Estrangeiros. Uma certa ideia de «casta», a par da narrativa dos mexericos das Necessidades, são características patentes na visão do mundo de Eduardo Brazão. O livro, aliás, é uma excelente anatomia do corpo diplomático, ontem como hoje.
         Salazarista convicto, Brazão terá sido próximo do Presidente do Conselho. Em diversos momentos, relata, em discurso directo, conversas tidas com o ditador. Se são verdadeiras ou falsas, cabe aos historiadores indagar. Mas que são interessantíssimas, são. Diz, por exemplo, que Salazar considerou ser um erro histórico tremendo de Mussolini ter envolvido a Itália na guerra. Isto ter-se-á passado em 1940, cinco anos antes de Brazão ter assumido o posto de segundo secretário da nossa Embaixada em Roma, naquela que foi a sua terceira passagem pela Cidade Eterna. Impressionou-o muito a devastação de Itália, mas não se vivia mal. Pagos em dólares, os diplomatas portugueses obtinham avultadas quantias em liras no câmbio do mercado negro. Por ordem do embaixador, era o jovem Brazão quem tratava deste obscuro negócio, feito nas traseiras da sumptuosa loja Bulgari, na Via Condotti. A troca era feita com um dos patrões gregos da Bulgari, e permitia ao pessoal diplomático viver à grande num país em escombros. Brazão, animado pela paixão bibliófila, frequentava os leilões de livros, como um, memorável, onde arrematou uma peça ou outra da biblioteca do antigo chanceler do Império alemão, o príncipe Berhard Bülow.
         Não se pense, porém, que este livro é um repertório de mundanidades frívolas. Por exemplo, Brazão conta ao pormenor os rituais diplomáticos do Vaticano, a hora solene em que apresentou credenciais ao Papa Paulo VI. E, mais tarde, o tempo de brasa em que teve de gerir a crise suscitada pela audiência concedida por Paulo VI aos líderes dos três movimentos de libertação, já no consulado de Marcello Caetano. Que a Santa Sé de há muito considerava insustentável a política portuguesa em África é algo que se nota logo nas primeiras páginas do livro, onde também se refere o histórico atrito entre a Propaganda Fide e o Padroado português.   
         Para os que contestam o Acordo Ortográfico, muito interessantes as observações de Brazão a este propósito, dizendo que «é grave erro pensarmos em Portugal que continuamos a ser os mesmos de cá e de lá do Atlântico». O Brasil, segundo ele, manterá e desenvolverá a sua maneira de falar e de escrever – como todos os povos lusófonos, de resto –, indiferente a convenções firmadas em papel ou a tentativas infrutíferas de fixar, e impor, oficialmente uma ortografia comum. Isso foi patente aos olhos de Brazão nos múltiplos contactos que teve com os seus homólogos brasileiros, entre os quais o grande Maurício Nabuco, autor de um livro cujo título diz tudo: Drinkologia. Receitas de cocktails, ilustradas – note-se – por desenhos do pintor Giorgio De Chirico.
         De permeio, histórias deliciosas, de Roma e Lisboa. No Chiado, à porta da Bertrand, Alberto Oliveira comentava com um amigo a nomeação de alguém para um alto cargo internacional; tendo dito que se tratava de uma nulidade para o posto invejado, observou, indignado: «Não, isso não – para medíocres estamos cá nós!». Logo de seguida, uma sagaz reflexão de Brazão sobre a nossa diplomacia: «O perigo na carreira diplomática portuguesa é (…) o brilho excessivo, as evocações históricas dum passado morto, altamente prestigiado mas que só continuado nos poderia dar força e peso junto dos demais».
         Adiante. Pelo caminho, Brazão passa pelo local onde mataram e expuseram o cadáver de Mussolini e sua companheira, a Petacci. Sente-se horrorizado («ali estiveram ignobilmente expostos para que a multidão os contemplasse na miséria humana»). Atravessa a Suíça no caótico pós-guerra, país que o surpreende pela relojoeira organização: «os comboios chegam à hora marcada e os porteurs nas gares não nos insultam (…), não se vendo qualquer indício de pobreza nem de desespero. Maravilhosa Suíça, ajuizado país!». Só lamenta os preços: «o custo de vida é no entanto altíssimo». Passando por França, insurge-se contra os jornais que condenavam a comutação de pena de morte aplicada ao marechal Pétain («por aqui está tudo bolchevizado, amoralizado»). Depois, Espanha, onde Brazão enaltece Franco, defendendo-o dos seus inúmeros inimigos. «Por toda a parte atira-se a Franco como um cão raivoso», diz; e, no entanto, em Espanha via-se «tudo tão em ordem, cores tão garridas, mulheres tão vistosas… e bom pão, vinho forte, comida farta no pequeno restaurante da Alfândega!». «Tudo isto que foi conseguido com inteligência e prudência não será destruído dentro de pouco tempo?», interroga-se o diplomata luso.
         Chegado a Lisboa, avista-se com Salazar, a quem conta os horrores da Europa devastada. Respondeu o chefe do governo: «todos os que vêm do estrangeiro trazem as mesmas impressões sobre as terríveis consequências desta guerra que terminou. Era preciso que aqui se soubesse melhor». Em face disto, Brazão apresenta uma proposta ingénua: «Porque não manda V. Exª, pagos pelo Estado, grupos de recalcitrantes a ver o estado dos países que não souberam libertar-se da guerra?». Salazar riu-se ante a candura do seu diplomata.
Brazão encontrar-se-á pouco depois com D. Duarte Nuno, numa conversa em que este lhe diz apoiar «incondicionalmente Salazar» e não ambicionar o poder em Portugal. Salazar, em contrapartida. Lamentava o escasso apoio dos monárquicos ao Estado Novo…
         Num breve interregno da sua carreira diplomática, Brazão trabalhará no Secretariado Nacional de Informação (SNI), experiência que detestou, pelo ambiente de intriga aí vivido. O diplomata não era «dos deles», pertencia a outra casta, do mesmo modo que, assevera Brazão, António Ferro nunca foi amado nas Necessidades nem foi feliz como diplomata em Berna e em Roma. Na capital italiana, organizou um dia um desfile de trajes tradicionais portugueses, em que cada qual ia identificado pela sua região de origem: algarvio, transmontano, minhoto e por aí fora. Acontece que «minhota» era a expressão em italiano para mulheres da vida, facto que motivou uma senhora, algo desinformada, a exclamar: «Então em Portugal as prostitutas são obrigadas a vestir um uniforme?»
         O livro está repleto de histórias como esta, bem como de observações sobre personalidades com quem Brazão se encontrava, como Jacques Maritain (na altura, embaixador de França em Itália e feroz anticomunista), Giulio Andreotti, que Brazão classifica como «um dos políticos mais honestos e sãos da Democracia Cristã» (!), o general De Gaulle, o príncipe Rainier e Grace do Mónaco («ainda mais actriz de cinema que Princesa – há situações que não se aprendem ao espelho», diz, com um laivo de snobismo, o filho do actor de teatro Eduardo Brazão…). Bizarra, no mínimo, era a inclinação de Sukarno, da Indonésia, por meninas jovens. Conta Brazão que, ao chegar a Portugal, Sukarno terá pedido ao Protocolo «que lhe enviasse meninas, muitas meninas impúberes pois na sua vasta colecção não conhecia mulheres portuguesas!». Ao saber do facto, Salazar ficou incrédulo. Só faltava acrescentar que, segundo Brazão, quando passara em Itália o presidente Sukarno pretendeu, a todo o custo, conhecer intimamente Gina Lollobrigida…
         Em Roma, Brazão teve de lidar também com a pretensão de «uma megalómana» que se dizia filha bastarda de D. Carlos. A conhecida Maria Pia, imagine-se, ser-lhe-ia apresentada num cocktail na Embaixada do Líbano por… Agostino Casroli. Os meandros do Vaticano são insondáveis. Noutra ocasião, Brazão apontava Roncalli como futuro Papa, sucessor de Pio XII, ao que um seu colega da embaixada portuguesa replicou, cortante: «ora, ora, esse conheci em Ankara, não vale dois caracóis!...». Seia eleito Papa, tomando o nome de João XXIII.
         Brazão não o conheceu bem, ao contrário de Motini, futuro Paulo VI, de quem era amigo há muitos anos – o que tornou ainda mais difícil a gestão da «crise» aberta pela audiência aos líderes africanos, que o autor do Memorial de Dom Quixote classifica, à maneira da época, como «terroristas».
         Porém, nem tudo foram espinhos na sua passagem por Roma, aqui retratada a traços muito largos. A dada altura, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Marcello Mathias, disse-lhe: «Meu caro Brazão, Roma é uma terra maravilhosa, cheia de lindas mulheres. Distraia-se… e não me mande mais problemas para eu resolver!...». Dom Quixote não se fez rogado, À tarde, ao chegar à Cancelaria, mandou reunir todo o pessoal e decretou que, dali em diante, só se trabalharia na parte da manhã. Tardes livres, dolce fare niente, em gozo de Roma e dos seus encantos.
 
 
António Araújo       
 
 
 

        

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Zeca Afonso, na Torre do Tombo.

 
 
 




Ericeira, 1945.

 
 
   
Praia dos Pescadores, Ericeira

 


 
(…) a maioria dos portugueses, aos quais nos ligavam laços tão estreitos, festejava com razão o fim da guerra. Contavam com a substituição de Salazar e do seu regime. Quem podia imaginar que os governos anglo-saxónicos tinham acordado entre eles um modus vivendi com os poderes de Portugal e Espanha, já prevendo conflitos futuros com o Leste?
         Para a maior parte dos residentes forçados da Ericeira tudo isto quase passava despercebido, na excitação da partida que se aproximava. Para onde ir? – Era a principal preocupação. Só para os raros “políticos” havia algo de mais importante. Durante pouco tempo, os naufragados em Portugal tiveram a liberdade de escolher o seu destino. A situação na Europa ainda não permitia, ou então só escassamente, que fossem utilizadas as quotas de imigração do outro lado do Atlântico. Por isso, as portas dos EUA, do Canadá, da Austrália e de outros países vistos como países de sonho, estavam abertas temporariamente aos refugiados acolhidos em Portugal, excepto a alguns de esquerda. Muitos aproveitaram a oportunidade. Como marxista convicto e empenhado sempre quisera regressar a Berlim e tudo fizera para ficar na Europa, mesmo que fosse neste ponto extremo. Quanto a isso, não tinha mudado de ideia, apesar de todos os actos inconcebíveis que os alemães tinham cometido contra outros seres humanos. Pelo contrário, eu continuava a ser de opinião de que uma Alemanha demasiado forte e promissora quanto ao poder económica, à grandeza demográfica e capacidade em vários sectores, em circunstância alguma deveria ficar à mercê de homens incorrigíveis.
         Não demorou muito que a permanência forçada fosse levantada; só para mim, rebelde, é que não. Comigo ficava Selma Oppenheimer, de livre vontade. Se bem me recordo, seríamos os últimos refugiados a deixar a Ericeira. O resto de 1945 e até ao final do Verão de 1946 tentara, esforçadamente, junto dos Consulados da Grã-Bretanha e dos EUA, obter a autorização de regresso a Berlim. Como potências ocupantes estar eram as autoridades competentes na matéria. Tudo em vão, durante meses, e também para uma dúzia de outros que tinham a Alemanha em mira, entre eles Owczarzak ou o janota romeno Josipovici. Regressar à Alemanha era logo entendido por alguns como traição; até da parte de “quakers” tive de suportar insultos. Depois, a situação mundial anuviou-se e aos de esquerda, ou tidos como tal, eram abertamente levantados obstáculos. Alguns, também antigos combatentes de Espanha, conseguiram sair por outros meios, pois quem fosse politicamente de esquerda e quisesse regressar pelas vias oficiais tinha ainda de esperar um ano e meio. Perguntávamo-nos porquê esta demora?
         Só no fim do Verão de 1946 é que chegou a autorização dos aliados ocidentais para regressarmos. Em Agosto, recebi um telegrama do solícito vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, informando-me de que eu poderia embarcar para a Alemanha, juntamente com outros exilados, no navio americano “Marine Marlin”, até então ao serviço do transporte de tropas. Mais não era conhecido, apenas sabíamos por um impresso quanta bagagem podíamos levar e qual o cais em que nos devíamos encontrar para o embarque. Mandeu vir de Lisboa em grande baú de marinheiro, de rija madeira, reforçada a aço. Últimas compras no senhor Caré, o dono da principal mercearia da Ericeira, de que eu era velho freguês. Prevendo a escassez de víveres que, por certo, havia na Alemanha vencida, comprei, experiente como era, toucinho salgado, azeite, margarina em latas, óleo de fígado de bacalhau, enchidos fumados, açúcar, leite em pó, chocolate, café, chá, cigarros, alguns medicamentos e outros artigos.
         Neste navio-transporte americano eram deportados para a Alemanha diplomatas nazis e o seu pessoal de segurança das SS. No meio deles, nós, judeus! Já não pudemos sair do barco. Assim navegámos até Bremerhaven. Dali seguimos, juntamente com os nazis – alguns deles gravemente incriminados –, num comboio de mercadorias adaptado ao transporte de prisioneiros e cercado por arame farpado. O nosso destino: o campo de internamento americano de Hohenasperg, próximo de Stuttgart. Só decorridos alguns dias, em que ameaçámos com a greve de fome. É que nós, antifascistas, fomos postos em liberdade…
 
Fritz Teppich

 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Ericeira, 1944.

 
 
Fritz Teppich (1918-2012)
 
 
 
Antigo combatente na Guerra Civil espanhola, Fritz Teppich foi um exilado de guerra alemão (ver também aqui). Ao chegar a Portugal, envolvido em mil peripécias, é detido pela PVDE e preso no Aljube, onde conhece o dirigente comunista Joaquim Pires Jorge. Depois, será transferido para a Ericeira, em regime «aberto», sendo aí que assiste ao fim da 2ª Guerra, como podemos ler no seu interessantíssimo livrinho de memórias, Um Refugiado na Ericeira, publicado pela Editora Mar de Letras em 1999, com prefácio de David Evans. Ver aqui a notícia da sua morte.
 
 
O Fim da Guerra Visto da Ericeira
 
Em Portugal, no Inverno de 1942/43, nós, exilados, acompanhámos durante semanas angustiantes a batalha incerta de Estalinegrado, uma super-Verdun. Quando finalmente já não havia dúvida quanto à vitória do Exército Vermelho de Libertação, os nossos receios transformaram-se em alegria transbordante.
         Seguimos todo o desenrolar dos acontecimentos na segunda metade de 1944 e Primavera de 1945, ainda no exílio seguro da Ericeira. Derrotadas, as tropas do Reich foram repelidas pelos russos e também pelos aliados ocidentais que em Junho de 1944 tinham desembarcado no Norte da França. Mas corriam notícias preocupantes – na sua fuga, os bárbaros reforçavam as suas acções de extermínio. Auschwitz começou a tornar-se um conceito. Nem sequer nós, prevenidos, tínhamos pensado que outros alemães fossem capazes de tais actos.
         Em Portugal reinava a indignação. A Legação alemã ainda procurou contrapor a isto uma autêntica inundação de iniciativas culturais. Em Março de 1944, o proeminente Carl-Friedrich Von Weizsäcker brilhou nas Universidades de Lisboa, Coimbra e Porto com conferências sobre “Física Atómica e Filosofia”. Em Maio, seguiu-se o famigerado especialista em Direito Político, Carl Schmitt, que falou sobre “A Situação Actual da Jurisprudência”, bem como sobre outros temas que lhe serviam para dar uma imagem manipulada do III Reich como Estado de Direito. Um grande número de intelectuais alemães deixou-se levar nesta ofensiva de dissimulação. Entre eles, os Professores K. Vossler, H. Lautensach, W. Andreas, G. Gadamer, E. Schultze, W. Stepp, E. G. Nauck, H. Runge, H. Haubold e W. Rudorf. Em 21 de Janeiro de 1944, fora inaugurada em Lisboa a sede do Instituto de Cultura Alemã. Em Fevereiro, realizara-se em Lisboa e, logo a seguir, no Porto uma exposição de Arte alemã; em Junho um concerto em honra de Richard Strauss, etc., etc. No número inaugural da sua Revista, o Instituto de Cultura Alemã dá-nos conta da intensa actividade que desenvolveu nesse período de 1943/44.
         Longe de Portugal, em breve os acontecimentos precipitaram-se. O exército soviético tinha avançado centenas, milhares de quilómetros. Libertara Auschwitz e outros campos de concentração, repelira os exércitos nazis dos estados a leste e a sudeste. Finalmente, as forças soviéticas estavam às portas de Berlim, enquanto as forças ocidentais tinham já atravessado o Reno. No rio Elba, na Alemanha Central, era a confraternização dos libertadores que se encontravam, vindos do Leste e do Oeste. Por toda a parte surgia a esperança em melhores tempos de paz. E nós continuávamos ainda na Ericeira.
         Naquele lugar acolhedor, batido pelo Atlântico, vivi o fim da guerra. Pouco a pouco, foi chegando ao conhecimento da maior parte de nós que os seus familiares, que tinham ficado nos países da Europa Central ou Oriental ocupados pelos alemães, haviam acabado nas câmaras de gás, fuzilados, assassinados. A Cruz Vermelha Holandesa escreveu-me a comunicar que a minha mãe Gertrud Teppich, o meu irmão mais novo Helmut, bem como tias, tios e muitos outros parentes, que antes da guerra tinham encontrado asilo na Holanda, foram vítimas do extermínio em massa. A dor provocada pelo fim horroroso de todos eles não me larga.
 
(Continua)  



domingo, 19 de fevereiro de 2017

Impérios Perdidos.

 
 











A minh´alma está parva. Acabo de descobrir o Nuno Perestrelo e o seu trabalho. O Nuno é um jovem fotógrafo freelancer, nascido em 1988, que, à semelhança de muitos, se deixou levar por uma paixão ruinesca típica do nosso tempo. Lembre-se Ruínas, de Manuel Mozos, ou Ruin’Arte, do também fotógrafo freelancer Gastão de Brito e Silva. Com Lost Empires, o Nuno traz-nos imagens de antigos colossos industriais, em estado arqueológico e prognóstico reservado. Naves imensas, paradas no tempo, os interiores de oficinas e armazéns, grafitos das velhas lutas operárias. E máquinas, gigantescas, gruas ameaçadoras, toneladas de papéis de arquivo delidos pela passagem dos anos, perdidos no meio de fábricas vazias. Imagens que mostram silêncio onde outrora houve ruído. Fotografias que exalam a quietude dos cemitérios, em lugares antes movimentados e em plena laboração febril, fabril. Um trabalho oficinal fantástico, do outro mundo, que deve ser conhecido – e, por isso, aqui fica, com um abraço grato ao Nuno, do
António Araújo
 
 
 
 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Memórias Perdidas - 9



 

 
Filho da Pneumónica – Narrativas da vida real, de Arthur Ligne, editado pela Câmara Municipal de Lagoa em Novembro de 2014, não é propriamente um livro de memórias. Ou, melhor dizendo, não é uma autobiografia. Por isso, segundo um critério estrito, não deveria figurar nesta rubrica «Memórias Perdidas».
         Acontece que o MALOMIL não é um blogue muito regrado. E sucede que o livro de Ligne, se tiramos uma ou outra observação mais simplista deste jornalista da «Gazeta de Lagoa»(ex., a favor da prisão perpétua), contém histórias de vida que são muitíssimo interessantes. Como a de Fernando Ribeiro, filho de Deolinda de Jesus Ribeiro e de pai incógnito, nascido na freguesia de Belém em Agosto de 1913 (em boa verdade, Fernando não era filho de pai incógnito. O progenitor, todos os sabiam, era um graduado da GNR, que Fernando acabaria por conhecer, ainda que só na idade adulta). Sua mãe nascera em 1889, residia no Barreiro e deu entrada no Hospital Camões, a 26 de Outubro de 1918, depois de ter sido transportada até ao Cais das Colunas, no Terreiro do Paço, em Lisboa. Vinha Deolinda da Outra Banda em estado terminal de gripe pneumónica, de que viria a falecer três dias depois. Com 29 anos de idade.
         De pai incógnito, órfão de mãe, a avó pediu ajuda à Cruz Vermelha. Foi então Fernando internado no Orfanato Temporário da Junqueira, onde deu entrada em Setembro de 1920. Um ano depois, com o encerramento do Orfanato, foi transferido para a Casa Pia. Anos depois, ainda jovem, meio adolescente, começou a trabalhar na Fábrica de Malas Trindade, corria o ano de 1929. Tinha Fernando a idade de 16 anos.
         Aos 17, ofereceu-se como voluntário na Marinha de Guerra, onde assentou praça. Depois, por supostamente se ter envolvido na Revolta da Madeira, esteve detido no Forte da Graça, em Elvas, de 1932 a 1933. Até ao final da vida, foi um oposicionista a Salazar, tendo a ventura de assistir ao fim do Estado Novo, em Abril de 1974. Após sair da prisão, fez mil e um cursos, especializou-se como electricista, tornou-se simpatizante ou mesmo militante comunista, foi responsável pela electrificação das casas de pescadores da Costa da Caparica. Uma vida vivida, em suma.
         De permeio, tornou-se feirante, com tasca de comes e bebes à Feira Popular, na altura sita ao Parque de Santa Gertrudes, onde é hoje a Fundação Gulbenkian. Como electricista e feirante, Fernando percorria o país de lés a lés e, numa ocasião, conheceu Maria das Neves, rapariga modesta residente em Tomar. Aquilo que seria mais um episódio da sua vasta carreira de pinga-amor, virou caso sério. Maria das Neves era uma valente, curtida pela vida, que nascera, também ela, filha de pai incógnito e filha ilegítima de sua mãe, que, por sua vez, foi exposta na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
         Esta história diz-nos muito do que se vivia – e sofria – em tempos do nosso tempo. O que a distingue de uma novela pungente ou de um romance neo-realista é o facto de ter sido autêntica, realmente passada com gente. Maria das Neves tornou-se criada de servir e, numa ocasião, foi à festa na Várzea Grande. Foi aí que se enamorou do feirante-Fernando, com quem passou a coabitar, e de quem teve quatro filhos, sucessivamente nascidos, ao ritmo da biologia. Às tantas, seguindo o script clássico, Fernando abandonou-a, trocou-a por outra mulher. Por bandas de 1944 ou 1945, andava a Europa mergulhada numa guerra tremenda, Maria das Neves não foi de modas. Deslocou-se a Lisboa e fez uma escandaleira. Ali, na Feira Popular, em pleno restaurante (no «Marco do Correio» ou «Fernando das Caldeiradas»), frente a Fernando e à nova companheira. Esta última apaziguou Maria das Neves, ultrajada no seu pudor e, pior do que isso, incapaz de carregar em exclusivo o fardo de criar sozinha quatro filhos em pleno crescimento. Chegou a propor a Fernando que lhe ficasse com metade da prole, que ela, abandonada, não podia educar por inteiro. Não vamos entrar em detalhes. O certo é que Ferrando assentou, acabou por casar com a nova companheira, Maria de Jesus. Isto muitos anos passados, em Outubro de 1976.

          A descendência de Maria das Neves e de Fernando fora dividida trinta anos antes: dois ficaram com a mãe, dois para o pai. Os filhos de Maria e Fernando tiveram filhos e netos e bisnetos. Fernando teve ainda um filho com Maria de Jesus e, em 1971, uma menina, fruto de uma ligação extra-conjugal. A vida daria de Jesus, passada com o feirante-electricista, fora madrasta, a ponto de terem sido classificados como indigentes por uma junta de freguesia, que o narrador não especifica. Antes disso, viveram em condições apertadas, amargas: primeiro, no Seixal, para onde fugiu Fernando às perseguições políticas do regime autoritário; depois, num velho prédio nas Escadinhas da Mãe d’Água, na Praça da Alegria; a seguir, num rés-do-chão acanhado nas imediações da Rua de São José. Até ao fim da vida, diz Arthur de Ligne, Fernando Ribeiro manteve uma espécie de «paixão política hereditária» (sic) por Álvaro Barreirrinhas Cunhal.       
            Maria de Jesus, por seu turno, morreria em Maio de 2007.





quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Higiene Militar, por Chaves de Almeida.






         Se um beijo se tornar suspeito, devemos proceder, como medida preventiva, à lavagem imediata dos lábios com água e sabão, mas não devemos esquecer o que acabo de referir no tocante às vantagens dos corpos gordos. Aplicaremos sobre eles uma camada de vaselina, que deverá ser mantida durante alguns minutos.
         Pelo mesmo motivo, não será asneira engordurar as partes genitais antes do acto do coito.  





A Cartilha do Sifilitico.
















         Nenhum sifilítico deverá casar sem que o médico que o costuma tratar o autorize a fazê-lo, pois os seus filhos podem nascer idiotas, aleijados e tarados.









A Banana.









 






         Nunca devem comer-se bananas no dia em que se comam batatas, batatas doces e outros feculentos similares, porque a digestão total intestinal leva de 19 a 23 horas e encontram-se os anticorpos nos sucos da absorção quilífera da ramificação hepática.







quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Malomil.

 
 
 
 

 
 
 
Da esquerda para a direita: Leonor, Juliana, Catarina, João e Andrea.
Não falei com o Sr. Manuel Alonso Misa, Lda., mas o Malomil fica…
E vocês, Leonor, Juliana, Catarina, João, Andrea, ficam a partir de agora no coração do Malomil, com a imensa gratidão do
 
António Araújo
 
 
 

& etc... na Biblioteca Nacional.


 
 
 

 
& etc
EXPOSIÇÃO | 22 fev. - 31 maio '17 | Mezzanine | Entrada livre
 
O periódico & etc, quer na sua forma primitiva (1967-1971) como suplemento literário do Jornal do Fundão, quer já autónomo (1973-1974), como magazine cultural, marcou uma época histórica que acompanha a resistência ao salazarismo e, depois, o fim do marcelismo.
 
As suas caraterísticas contraculturais e libertárias ficaram a dever-se a um vasto conjunto de escritores e ilustradores, de que Vitor Silva Tavares sempre se fez rodear, numa deliberada proposta límpida e moderna, posteriormente enformadora do que veio a ser a editora de livros homónima.
 
A Biblioteca Nacional de Portugal assinala com a presente exposição os 50 anos decorridos sobre a publicação do número 1 do periódico, mas também o inesperado falecimento do seu respetivo mentor.
 
 
 
Vitor Silva Tavares, filho da Madragoa, nascido a 17 de julho de 1937, faleceu num hospital da sua cidade a 21 de setembro de 2015.

Mais conhecido como editor de livros e do periódico & etc, são de assinalar as suas fulgurantes passagens pela programação da editora Ulisseia, num curto período que se estende de finais de 1964 ao início de 1967, esporadicamente até meados de 1968, e pela direção do suplemento literário do Diário de Lisboa, no início dos anos 70. De permeio inventa, para encarte no Jornal do Fundão, o suplemento cultural & etc..., já na altura de cariz libertário, e experimental no sentido em que ali se ensaiaram algumas das regras básicas no jogo de iludir a censura.
 
Paulo da Costa Domingos
Comissário da Exposição
 
(aqui)