quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Gisberta Salce Júnior.

 



Há exactamente 18 anos, num dia 22 de Fevereiro, morria Gisberta Salce Júnior no Porto. Causa da morte: afogamento. Causa da causa: sete dias (sete!) a levar pancada de um grupo de 14 rapazes adolescentes, que a deixaram inconsciente e, temendo tê-la matado, resolveram atirá-la para um poço.  

Causa da causa da causa: transfobia. Causas da causa da causa da causa: invisibilidade social das pessoas transgénero e hostilidade generalizada para com elas, bem como o facto de que os 14 adolescentes, nascidos em contextos de violência e negligência, estavam entregues a uma instituição de acolhimento cuja ideia de integração social consistia em ensinar um ofício e o temor a Deus, bem como em, aos fins-de-semana, deixar jovens com tal passado à sua sorte, livres para cirandar e asneirar pela cidade. O local onde encontraram e mataram Gisberta ficava a 40 minutos a pé da instituição que os (des)acolhia. 

Gisberta nasceu no Brasil e emigrou aos 18 anos, fugida de uma vaga de assassinatos transfóbicos. Viveu no Porto os últimos 20 dos seus 46 anos de vida. Nos últimos 10, com SIDA. Fez de Marilyn Monroe em espectáculos transformistas na noite portuense, prostituiu-se para ganhar a vida. Foi sem-abrigo nos seus últimos anos. Esse foi o estado em que 3 dos 14 adolescentes a encontraram e, apiedando-se dela inicialmente, lhe deram de comer, conversaram com ela, voltaram várias vezes. Até que falaram dela aos outros 11 e tudo descambou. 

O horror da morte de Gisberta levou Pedro Abrunhosa e Maria Bethânia a cantá-la, originou peças de teatro e uma curta-metragem premiada (em breve, também o fabuloso livro de Afonso Reis Cabral sobre o tema será vertido em filme). Os crimes transfóbicos passaram a ter penas pesadas, nasceram o Centro Gis e a Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto para dar apoio e visibilidade às pessoas transgénero. 

Outra prova de que Gisberta não morreu em muitos corações é que em breve haverá uma Rua Gisberta Salce Júnior no Porto. Ficará entre a Rua e a Travessa das Eirinhas, na freguesia do Bonfim. A poucos minutos de onde Gisberta teve casa e dois cães, e a ainda menos minutos de onde foi sem-abrigo e perdeu a vida de modo horrível.

                                                                Rui Passos Rocha 


Argélia: o tempo da Fraternidade? (11).

 


Também surpreendente é o Museu Nacional Público de Belas Artes em Argel.

Criado em 1927 na colina sobranceira ao Jardim de Ensaios de Hamma, é considerado o mais importante museu de arte da Argélia mas talvez mesmo de África.

Expõe naturalmente artistas argelinos sendo o escultor Paul Belmondo, o pai do célebre actor francês, o mais conhecido.

Mas a panóplia de arte europeia é vastíssima. 




Belmondo 

 


Auguste Rodin


 

Camile Pissaro 



Claude Monet

 


Henri Matisse

 

 

A biblioteca

 

Mas a arte contemporânea está também presente em Argel.

Uma galeria de arte contemporânea foi também visitada.

 



 

 

                                    Fotografias de 20 de Outubro de 2024

 

                                                                José Liberato

 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

São Cristóvão pela Europa (256).

 

 

 

Voltemos à Pátria! E ao Alentejo.

Em Vila Nova da Baronia, concelho do Alvito, existe uma lindíssima ermida rural construída no Século XVI em honra a São Neutel. Sofreu bastante no terramoto de 1755 e desde há algum tempo passou a ser chamada de Santa Águeda

É profusamente decorada por frescos datados do Séculos XVII e XVIII, o que contrasta com o facto de não haver nenhuma entrada de luz. Um deles representa São Cristóvão, algo deteriorado.

Várias outras capelas e igrejas da Região têm frescos.

 







 

Na freguesia de São Cristóvão, no concelho de Montemor-o-Novo, de que já aqui se falou, o Dr. Carlos Vences possui uma extraordinária colecção de arte sacra que inclui evidentemente o nosso Santo. Uma pintura sobre madeira e uma imagem talvez do Século XVIII. Agradeço, sensibilizado, ao ilustre colecionador a hospitalidade.

 



 

 

                          Fotografias de 28 de Setembro de 2023 e 8 de Fevereiro de 2024

 

                                                            José Liberato






segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Argélia: o tempo da fraternidade? (10).

 


 

Um dos locais mais surpreendentes de Argel é o chamado Jardim de Ensaios de Hamma.

Criado em 1832 pelos franceses num local pantanoso e insalubre, destinava-se a sanear a cidade, mas também a constituir um jardim onde pudessem ser feitos estudos científicos sobre a adaptação de espécies botânicas ao clima local. O mesmo foi feito pelos franceses em outras paragens como os Camarões, Marrocos, o Congo ou as Maurícias.

Hoje é um jardim botânico que atrai famílias e visitantes atraídos pela sua beleza extraordinária.

Tornou-se célebre por servir de cenário em 1932 ao primeiro filme de Johnny Weissmuller (1904-1984) como Tarzan: Tarzan, o Homem Macaco.

 







 

                                                Fotografias de 20 de Outubro de 2023

  

                                                                                    José Liberato




domingo, 18 de fevereiro de 2024

Carta de Bruxelas.




 

                                                                                                    Dois em um

 


O antigo Primeiro-Ministro holandês, Dries van Agt morreu por eutanásia, acompanhado da sua mulher, Eugenie, num casamento de sete décadas. As reações afinaram pelo mesmo diapasão: tão bonito, acabar a vida assim, de mãos dadas com quem se ama – o pormenor que encantou o mundo. O derradeiro acto que coroa uma vida, com um adeus a dois.

A morte liga-se directamente ao kitsch, tal como o amor. Por razões de fundo.  Tratando-se das desestabilizações existenciais por excelência, cada uma delas dependendo da outra, conjuram inexoravelmente a transfiguração estética. Em vez do horror da decomposição do cadáver ou das cinzas, mais higiénicas, o corpo, sujeito às práticas estético-tantológicas, ironicamente retratadas por Evelyn Waugh n’ O Ente Querido, não mostra o nada que já é, torna-se uma aparência em negativo. Também o kitsch, basta lembra a provável etimologia do termo, pretende enganar. E com os mesmos objectivos: criar a aparência de uma harmonia inexistente, sossegar o pensamento, aferrolhar a imaginação.  A vida, porém, não é da ordem da estética. Avaliar uma vida esteticamente é cortar os laços do tempo antes do tempo. Só a vida dos mortos poderá ser bela. Para os Gregos de nenhum homem se podia dizer que era feliz antes de morrer. Enquanto o tempo corre, a vida pertence à vida, por mais que a morte brilhe como uma promessa; talvez por isso, no famoso poema de Dylan Thomas, são os adjectivos, ao introduzirem a nota da contradição, que fazem dele algo mais do que um apelo ou um pedido prosaico: do not go gentle into that good night. Fora do tempo, a vida pode revestir-se de um sentido estético, ser vista como uma obra de arte. Mas não no tempo, não enquanto for causa de sofrimento, não enquanto constituir uma interrogação para si mesma, não enquanto estiver ligada aos outros. Pode até suceder que seja necessário matar para que ninguém morra como numa obra de arte, para que o kitsch não se imponha, porque também ele pode ser assassino. Karen Blixen ilustrou modelarmente o problema em O Poeta, o último dos Sete Contos Góticos.

A pressão, às vezes sub-reptícia, às vezes insinuada, às vezes ostensiva, às vezes diáfana, a que são sujeitos os velhos, pela inutilidade, pelo estorvo, pelos custos, e sabe-se lá por que mais, fá-los interiorizarem o desvalor radical da sua vida. Há, ainda assim, uma consciência da verdade do negócio. Sabe-se bem o que se está a trocar. A fealdade moral da transacção não escapa a ninguém. Primeiro, foi o deslize lexical, falsamente moral – a eutanásia era uma morte digna – mantinha-se assim o horizonte do esforço e da superação, tanto no acto pessoal da escolha como na superação da resistência social que se associava à causa.

 Mas, agora, o kitsch à condenação acrescenta a mentira. Apesar das flutuações nos números, a prática da eutanásia a dois está a aumentar. Só é necessário que os velhos interiorizem como o momento será belo, para que o caminho fique desimpedido e suavemente se desapareça, quase sem morrer. Ser-lhes-á extorquido o acto a expensas da falsa consciência, a deles, tantas vezes debilitada, e a dos que ficam, que, além de se furtarem à má consciência moral, passam a dispor do plus de uma boa consciência estética: são os espectadores enternecidos da morte alheia.

De mãos dadas, tão bonitos! É o dois em um, e num duplo sentido.

 

                                                                João Tiago Proença


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Dia dos Namorados.

 




Hoje é aquele dia do ano que muitos casais comemoram e que para outros casais é indiferente; que pessoas solteiras gostariam de comemorar e outras acham uma piroseira. Um dia que se diz dos Namorados, mas que a Igreja, que o instituiu, prefere chamar de São Valentim – porque não só isso puxa a brasa à mitologização dos santos mártires, mas também acentua a importância do casamento (católico), que é, dizem, o verdadeiro sinal de união entre duas pessoas (heterossexuais). 

Por falar disso: não há provas de que o bispo romano Valentim, do século III, tenha celebrado casamentos num tempo em que estes estariam supostamente proibidos pelo imperador. Nem que ele tenha curado da cegueira a filha do seu carcereiro e, logo depois, caído de amores por ela. A própria Igreja, que o santificou, abandonou a celebração do Dia de São Valentim há cerca de 50 anos. 

Restam então os namorados, que existem e são muitos, felizmente. Pois se tiverem relações verdadeiramente amorosas (sejam elas monogâmicas ou de outros tipos, entre pessoas com as identidades de género x, y ou z), o que é certo, diz-nos a ciência, é que tendem a ter melhor saúde mental, melhores índices de pressão arterial, colesterol e inflamação, uma maior capacidade de entrega aos outros, um maior sentimento de bem-estar e de realização pessoal. 

O problema, muitos dirão, é que as Escadinhas do Amor (em Caneças, Odivelas) muitas vezes desembocam numa Rua do Jogo (na freguesia de Amor, em Leiria). Assim é. Porém, não faltam também casos de ruas dos Amores que acabam bem, como a dos arredores de Braga amorosamente colada a uma Rua dos Abraços.  

De todos os topónimos adequados a este dia, o meu preferido é o Jardim dos Namorados da cidade onde cresci, Penafiel. Não porque lhe associe memórias amorosas (olhem, não calhou), mas pela tranquilidade desse recanto, a beleza do seu verde, o ar puro que ali se respira e as vistas deslumbrantes – e também pela óptima biblioteca e a deliciosa pastelaria ali mesmo ao lado, bem no centro da cidade. 

 

                                                                    Rui Passos Rocha


terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Argélia: o tempo da fraternidade? (9).

 

 

Duas mesquitas se distinguem em Argel.

A Mesquita El Djedid foi construída em 1660 pelos Turcos e é também conhecida pela Mesquita das Pescas. Escapou à reconversão urbanística feita pelos franceses no Século XIX nesta zona da cidade.

Segue a forma de uma cruz latina como se fosse uma igreja cristã, o que pode ser explicado pela vontade de seguir um estilo bizantino. Outros elementos distintivos são a sua cor branca e o relógio da época francesa.

 


Outra mesquita situa-se no Casbah e é conhecida como a Ketchaoua ou Planalto das Cabras. Data de 1612 e acaba de ser restaurada.

No local existiram anteriormente as termas romanas e um próspero mercado de escravos.

A Administração francesa transformou-a em catedral de São Filipe, consagrada em 1860. Aqui se celebraram em 1921 as cerimónias fúnebres do compositor Camile Saint-Saëns.

Em 1962 voltou a ser mesquita.

 

 


O Monumento dos Mártires foi edificado em 1982 por ocasião do vigésimo aniversário da independência e desfruta de vista ampla sobre a cidade. Exibe uma estética comum a vários países árabes nessa época.

 





 

                                                Fotografias de 17 e 20 de Outubro de 2023.

 

                                                                                            José Liberato


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Tomás da Fonseca.

 



Leio sobre o início da vida dele e parece que estou a ler sobre o meu pai, nascido sete décadas depois: cresceu numa família de proprietários rurais; cedo se juntou à lavoura, tal como os muitos irmãos; teve de caminhar quilómetros e quilómetros, duas vezes por dia, para poder estudar; prosseguiu os estudos num seminário bem longe; e abandonou o seminário antes de se tornar padre, para desgosto dos pais. 

Mas ao contrário do meu pai, católico até hoje, Tomás da Fonseca tornou-se um ateísta fervoroso e militante para o resto da vida. Em artigos de jornal e nos livros que publicou, criticou o sadismo, a misoginia e a pedofilia nos seminários; escreveu que os professores deviam ser carinhosos para com os alunos, e não punitivos como era norma; pugnou por um ensino laico, liberto de obscurantismos e democrático (na região onde cresceu havia apenas uma turma para 12 raparigas em 20 quilómetros, enquanto três das muitas turmas para rapazes tinham falta de alunos). 

Foi assessor na Primeira República, odiou o sidonismo e ainda mais o Estado Novo, que o prendeu no Aljube por ter escrito sobre o Tarrafal. Criticou a beatificação de Nuno Álvares Pereira, instrumentalizado por monarquistas e conservadores no final da República. E, mais do que tudo, lançou-se de unhas e dentes contra o Cardeal Cerejeira e outros dois membros do clero por, juntos, terem montado a estratégia propagandística que fez das visões de Fátima, décadas antes, um fenómeno nacional e internacional com reconhecimento, até, pelo próprio Papa. 

Tomás da Fonseca morreu a 12 de Fevereiro de 1968, meses antes da queda de Salazar e anos antes do fim do Estado Novo. Bem no centro da sua Mortágua natal, a longa Rua Tomás da Fonseca serve de residência para a biblioteca municipal (a que foi dado o nome de um seu filho) e conduz os visitantes até uma Praceta 25 de Abril na qual se encontra um busto deste escritor, activista e professor. A apenas 10 minutos dali, de carro, chega-se a Santa Comba Dão e ao seu Largo Dr. Salazar. Duas mundivisões tão distintas em tão curta distância. 

 

                                                                    Rui Passos Rocha



domingo, 11 de fevereiro de 2024

São Cristóvão pela Europa (255).

 

 

 

A cidade de Laval é a capital do departamento de Mayenne na Região francesa do Pays de la Loire.

Nos seus arredores situa-se a extraordinária Capela de Pritz, cuja construção se iniciou no tempo de Carlos Magno e que conserva ainda paredes carolíngias.

A estátua de São Cristóvão assente sobre uma belíssima estela funerária do Século XIII, é do Século XV. É polícroma e de terracota.

O conjunto de estátuas também polícromas e em terracota que representa o Carregamento da Cruz é de fins do Século XVI

Um fresco do fim da Idade Média representa o nosso Santo. Um outro, mais apagado, deve também ser de São Cristóvão, mas não é certo.

 








 

Na cidade de Laval, na rue de la Trinité, rua que manteve as suas características medievais, uma das casas, do fim do Século XV, tem num pilar de madeira esculpida uma estátua de São Cristóvão.

 





E assim termina esta digressão por França de Outubro de 2023.

Fotografias de 28 de Outubro de 2023

 

 

José Liberato


sábado, 10 de fevereiro de 2024

Maluda.

 



Os nomes das ruas costumam durar décadas ou séculos, raramente são alterados. É o caso da longa Rua das Praças, no bairro da Lapa em Lisboa, que é cortada por sete ruas, passa pelo mítico Sr. Vinho cantado por Amália e acaba junto ao ISEG. A rua é estreita e ladeada por prédios, não há ali praça nenhuma, hoje, mas o nome mantém-se desde o século XVIII. 

É pena, porque lhe ficaria bem o nome Rua Maluda. A pintora Maluda (Maria de Lourdes Ribeiro) viveu nessa rua e teve aí o seu atelier. Mais importante: as janelas e azulejos dessa mesma rua inspiraram alguns dos quadros mais icónicos de Maluda, entre eles o que ilustra este texto, baseado na fachada do n.º 37 da Rua das Praças. Crê-se também que o lindíssimo azul-Tejo de tantas obras da pintora resultou de anos e anos a ver o rio pela janela de sua casa. 

Nascida e crescida, até aos 30 anos, na liberdade colonialista de Goa e Maputo e na liberdade europeia de Paris, Maluda viveu os seus restantes 35 anos vida em Lisboa (morreu faz hoje 25 anos). Tinha um estilo de vida boémio e era amiga de muitos outros artistas, entre os quais a já referida Amália. Era também homossexual, e o seu longo namoro com Ana Zanatti provocou um mini-escândalo na elite socioeconómica a que pertencia.  

Da sua obra sobressaem as janelas lisboetas, quase sempre fechadas, reflectindo mais o exterior do que mostrando o interior. O detalhe geométrico dos desenhos e o brilho nos azulejos são um deleite para quem ama Lisboa banhada pelo sol, para quem ama pintura e arquitectura, simetria e ordem, cores fortes e cheias. Mas Maluda fez muito mais: desenhou Lisboa vista de cima, com o Tejo ao fundo; desenhou quiosques lisboetas, faróis e janelas manuelinas em selos premiados internacionalmente; fez cartazes, tapeçarias, serigrafias. 

A Rua das Praças é a minha Rua Maluda, e não a Rua Maluda que existe, desde 2007, no bairro das Galinheiras da freguesia de Santa Clara, a mais exterior do concelho de Lisboa. Essa longa rua, tem graça, também é cortada por várias, neste caso seis, ruas transversais. As suas muitas janelas, sem azulejos em volta, são de bairro social. E é possível que dentro delas vivam algumas das pintoras do futuro. 

 

                                                                            Rui Passos Rocha

 

 



 


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Aqui se revela o maior feito revolucionário de Amílcar Cabral.

 



 

Publicado no ano do centenário do nascimento de Amílcar Cabral, temos finalmente uma biografia escrita por um investigador português que é simultaneamente um livro de história, de política e de direito, em torno de um líder revolucionário africano que criou o PAIGC, que deu voz aos movimentos nacionalistas africanos de língua portuguesa nos areópagos internacionais, admirado pelo seu pensamento original, pelos seus dotes diplomáticos e como estratega militar. O seu nome está associado à construção de duas nações, à renovação do pensamento revolucionário à escala mundial e ao determinante contributo que deu à queda da ditadura e à descolonização portuguesa: Amílcar Cabral e o Fim do Império, por António Duarte Silva, Temas e Debates, 2024.

Devo fazer uma declaração de interesse: o autor honra-me com a sua amizade desde longa data, fui sentindo, pelos anos fora, como esta escrita lhe ia pulsando da investigação, credora de um olhar completamente distinto de outras obras de cariz biográfico. Posso afirmar, sem a mínima hesitação, que se trata de uma investigação memorável, tem uma moldura biográfica tão distinta que põe esta obra ao nível dos ensaios biográficos que resistem aos caprichos do tempo. O autor tem um currículo firmado, de grande qualidade científica, que inevitavelmente o catapultou para este exercício que comporta uma conclusão que certamente assombrará muitos leitores: ao delinear um modelo praticamente idêntico numa colónia em guerra fazer uma consulta popular que culminaria numa declaração unilateral de independência, nunca Cabral imaginou que tal processo iria, a breve trecho, escancarar as portas à descolonização portuguesa. Como o próprio autor declara: “Concluo que a declaração unilateral de independência do Estado da Guiné-Bissau, em 24 de setembro de 1973, como ato e prova da soberania e da autodeterminação interna e externa, foi, pelo seu êxito e impacto no fim do colonialismo português e apesar de formalmente posterior ao seu assassinato, o maior feito revolucionário de Amílcar Cabral.”

É um longo itinerário discursivo onde cabem as primeiras reuniões dos movimentos unitários contra o colonialismo português, a reunião de Bissau em setembro de 1959, os primeiros opúsculos e memorandos, como o PAI/PAIGC se foi afirmando à escala internacional, a preparação da luta e os apoios à formação de quadros, os primeiros relacionamentos com a ONU, a consolidação do pensamento ideológico (a constituição da vanguarda, o papel da pequena burguesia e da massa camponesa); a convulsão no Sul da Guiné, a partir do segundo semestre de 1966, a Operação Tridente, o Congresso de Cassacá, o crescimento imparável da guerrilha, os assentamentos em território colonial, o apoio cubano, Schulz, Spínola; a formulação de Cabral de que a luta de libertação nacional é um processo cultural, libertador, um regresso à identidade; as preocupações de Cabral em estabelecer pontes para a organização de um quadro jurídico que levasse à aceitação internacional, uma gestação que preludia a decisão de tomar a iniciativa de fazer uma declaração unilateral de independência; o reconhecimento de Spínola de que não se podia ganhar militarmente a guerra e a proposta de medidas que os órgãos de soberania recusaram; a ofensiva político-diplomática culmina em 1972 com a visita da missão especial da ONU, em Abril, a eleição da Assembleia Nacional Popular, a última tentativa de Spínola de negociar um entendimento, recusa de Marcello Caetano; e chegamos ao assassinato do líder revolucionário e o autor observa: “O PAIGC ficou sem cabeça, pois não havia ninguém capaz de o substituir, especialmente na discussão de ideias, na definição de grandes objetivos e na diplomacia. Morto, Cabral deixava pronto o processo de independência da Guiné-Bissau, um programa mínimo conseguido, um programa maior para aplicar e uma unidade orgânica com Cabo Verde por concluir.”

O autor disseca os antecedentes de declarações unilaterais de independência e como Cabral foi preparando uma recetiva atmosfera internacional. Em 1972, obtém apoio soviético para deter uma arma que leve a guerra a um patamar mais elevado – os mísseis terra-ar, que farão destruições a partir de março de 1973, e deixaram as forças portuguesas em polvorosa. Numa reunião de chefias em 8 de junho com o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, tomou-se a decisão de retrair o dispositivo português, o objetivo era consolidar um reduto que pudesse garantir uma solução política. “Em reunião com Costa Gomes e os ministros da Defesa, do Ultramar e da Marinha, Marcello Caetano pôs a hipótese de preparação a retirada progressiva das tropas, para não prolongar um sacrifício inútil, designando um oficial-general para liquidar a nossa presença, ao que Costa Gomes terá retorquido ser possível a defesa militar enquanto não aparecesse a aviação.”

E temos o legado de Cabral: o II Congresso do PAIGC (julho de 1973), a cerimónia no Boé, em 24 de setembro, a proclamação da Constituição, a decisiva resolução 3061 da ONU, de 3 de novembro, a admissão da Organização da Unidade Africana, também em novembro; o acordo de Argel, a 26 de agosto de 1974; as iniciativas para a descolonização e independência de Cabo Verde, e a assunção da nova república; e o caminho para o desastre da unidade Guiné-Cabo Verde, a governação de Cabral, o golpe de Estado de 14 de novembro de 1980, a cisão partidária. “O Estado da Guiné-Bissau nasceu frágil e rapidamente entrou em colapso. Bissau tornou-se uma cidade-Estado e devorou a luta de libertação nacional. A revisão constitucional de 1980, destinada a consolidar a unidade Guiné-Cabo Verde, trouxe o fim do regime. No início da década de 1990, ambas as Repúblicas transitaram para a democracia representativa e pluralista. Em 1998, uma rebelião militar originou uma guerra civil e a Guiné-Bissau derivou para Estado-falhado. Sob a tutela das FARP, o PAIGC manteve-se no poder. Assumira-se sucessivamente como um partido político autónomo, binacional e clandestino, um movimento de libertação nacional, um Partido-Estado, a força dirigente da sociedade, um partido nacional, o partido único e um partido político democrático. Embora com sobreposição destas diferentes naturezas, estatutos e funções, ainda sobrevive; não passa de uma mescla, dotada de uma sigla antiquada, equívoca e desgastada. Em Cabo Verde foi substituído por um partido herdeiro e novo, o PAICV.

Com Amílcar Cabral, seu ideólogo e líder, o PAIGC ficará na história como o movimento de libertação nacional que alcançou a independência associada da Guiné-Bissau e de Cabo Verde que contribuiu decisivamente para o fim do império colonial português. Política, diplomática e juridicamente, o momento transcendente foi a declaração unilateral de independência da Guiné-Bissau, o maior feito revolucionário de Amílcar Cabral, fundado do PAI primordial e PAI das Repúblicas irmãs da Guiné-Bissau e Cabo Verde, pelas quais deu a vida.”

De leitura obrigatória, documento da maior exigência para a consolidação das relações luso-guineenses, devia ficar nas mãos de todos os investigadores de estudos africanos em Portugal e na Guiné-Bissau, e ser alvo de estudo continuo dos estabelecimentos escolares da Guiné-Bissau e Cabo Verde. Tenho sérias dúvidas que esta abordagem venha a ser ultrapassada nas próximas décadas. 


                                                            Mário Beja Santos