sábado, 27 de maio de 2017

Sebastián Bruno: duelos y quebrantos.


 
 




























aqui tinha falado do recentíssimo livro Aventuras Ibéricas – Recorridos, reflexiones e irreverencias, do hispanista Ian Gibson, que agora me chegou às mãos – e aos olhos – vindo directamente de Madrid, graças à generosidade do António Bordalo. Obrigado, António! Sem poder comparar-se ao escrito por Jan Morris, por exemplo, Aventuras Ibéricas é um livro curioso e merecedor de leitura, escrito por um natural da Irlanda mas castelhano de coração, que a dada altura nos fala das suas conversas com Saramago, quando ambos sonhavam com uma República Federal Ibérica com capital… em Lisboa. Pelo meio, histórias deliciosas e ditos suculentos, como aquele que um dia García Lorca contou, em que um dos interlocutores exclamou, para rematar um diálogo: «Cómo voy a trabajar, si soy de Cádiz?».
         Tudo isto serve de intróito à apresentação das extraordinárias fotografias de Sebastián Bruno, em particular a sua série Duelos y Quebrantos, dedicada a Castilla-la-Mancha, que Bruno calcorreou entre 2013 e 2016. O seu ensaio fotográfico saiu recentemente nas páginas da revista semanal do El País, e encontra-se aqui uma breve descrição do mesmo. As fotografias, essas, estão presentes aí em cima, para desfrute dos estimados leitores do Malomil.
 
António Araújo
 
 

Portugal Local é Sensacional.

 
 
 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Apresentação de «Eichmann em Jerusalém».

 
 
 





Este livro tem-nos perseguido, a mim e ao Miguel Nogueira de Brito, desde que há muitos anos, em conjunto com o Joaquim Pedro Cardoso da Costa, sugerimos ao João Paulo Azevedo Mendes que o publicasse na sua editora Tenacitas, com um prefácio que gostaríamos de ter actualizado para esta edição, mas que, por falta nossa, não pôde ser escrito.
Depois da sua edição original em português, surgiram obras muito importantes sobre o Holocausto mas também – e sobretudo – sobre o próprio livro de Hannah Arendt, com destaque para o de Deborah Lipstadt, The Eichmann Trial (2011). Aliás, recentemente esteve em exibição entre nós – primeiro, no Festival Judaica e depois no circuito comercial – um filme, Denial, de Mick Jackson, sobre outro livro de Deborah Lipstadt, History on Trial, e a controvérsia judicial que a opôs ao historiador revisionista britânico David Irving.
Aliás, noutra edição da Judaica – e, como sempre, graças ao trabalho extraordinário de Elena Piatók – já tinha estreado um filme de 2012 sobre Hannah Arendt, chamado precisamente Hannah Arendt, de Margarethe von Trotta.
Havendo também dezenas de livros e filmes sobre a captura e o julgamento de Eichmann, inclusivamente por parte de quem não o conseguiu caçar, como Simon Wiesenthal (Eu persegui Eichmann, é o título, algo melancólico e derrotista, do seu livro), pouco se poderá dizer de muito novo, como esta reedição tanto merece – e pela qual me permito felicitar a Isabel Castro Silva, da Ítaca Editora.
Por isso, e como creio que a abordagem filosófica e jurídica a este livro tem sido muito explorada – e o Miguel fá-la-á com muito mais competência do que eu – gostaria de falar um pouco, muito pouco, de Eichmann em Jerusalém numa perspectiva historiográfica. No fundo, saber qual o contributo que deu para a historiografia do Holocausto ou, talvez melhor, como é que este livro se insere e antecipa a muitos dos debates da historiografia do Holocausto que só veriam a luz muitos anos ou décadas depois.
Importa notar, desde já, que Eichmann em Jerusalém não é um trabalho de História, nem tinha essa pretensão. O livro, como sabem, partiu de uma reportagem em cinco artigos para a New Yorker, saídos em Fevereiro e Maio de 1963, e do ponto de vista histórico Hannah Arendt baseou-se muito no livro monumental de Raoul Hilberg, The Destruction of European Jews, de mais de 1200 páginas, uma obra de referência, seminal, que, curiosamente, foi na época rejeitada por cinco editores – e, aliás, continua por publicar em Portugal… O que é irónico é que Hannah Arendt, que mais tarde louvaria enormemente o livro de Hilberg, dizendo ser «a primeira descrição clara da incrivelmente complexa máquina de destruição» do nazismo, dera um parecer negativo para a publicação daquela obra pela Princeton University Press, o que obrigou Hilberg a publicá-lo em 1961 numa editora de muito menor projecção de Chicago, a Quadrangle Books.
Intencionalistas vs. funcionalistas
Falando agora do livro de Arendt e da historiografia do Holocausto, não podemos cair no anacronismo e cometer uma injustiça àquela obra, atendendo, como disse, ao caudal enorme de publicações que saíram posteriormente e aos debates acesos que se travaram, e ainda travam, entre, por exemplo, as teses intencionalistas e as teses funcionalistas sobre o Holocausto – para uma primeira aproximação a este debate, recomendo muito a síntese de Michael Marrus, The Holocaust in History, que descreve bem a divisão entre os que, desde os julgamentos de Nuremberga, Frankfurt de 1963-1965 ou de Eichmann, consideram que o Holocausto se deveu a uma intenção e a um plano programado com grande detalhe (os intencionalistas, portanto) e os que, pelo contrário, e sem quaisquer intuitos negacionistas, revisionistas ou desculpatórios, entendem que o Holocausto resultou não tanto de uma intenção pré-programada ao milímetro mas de uma dinâmica conjuntural que acabou por levar à Solução Final. Porventura, o nome mais conhecido desta corrente é Christopher Browning. De certo modo, Hannah Arendt prenuncia as teses funcionalistas ao não abordar o anti-semitismo pessoal de Eichmann – ou, se quisermos, ao menosprezar o seu papel, chamando-lhe clown/«palhaço» – e, acima e tudo, ao descrever minuciosamente o processo que, pouco a pouco, levou ao abandono de projectos alternativos, como o «Plano Madagáscar», e impôs a «Solução Final» na Conferência de Wannsee.
É claro que também se pode dizer que Arendt não era uma funcionalista mas uma intencionalista, pois perscruta as motivações de Eichmann e procurará situá-las ou analisá-las, em articulação com as suas reflexões subsequentes sobre a faculdade do juízo em Immanuel Kant. Por isso, talvez seja mais prudente não a «arrumar» numa das duas correntes as quais, de resto, só viriam a emergir com nitidez décadas depois da saída do livro de Arendt. Em qualquer caso, há trechos desse livro que aderem muito proximamente às teses funcionalistas, nomeadamente por, acompanhando o seu mestre e amigo Karl Jaspers, Hannah Arendt se afastar completa e militantemente da ideia do «demonismo» intrínseco de Adolf Hitler. O ponto tem sido sublinhado por muitos autores, dos quais me ocorre citar Enzo Traverso em O Passado, Modos de Usar.
Note-se, para mais, que esse «demonismo» e essa focalização excessiva em torno do «mal radical» de Hitler são, ou podem ser, um expediente desculpatório do povo alemão no seu todo, daqueles a quem Daniel Goldhagen chamou – porventura, com exagero – os «carrascos voluntários» do Führer.
 
 
 
No Hitler, no Holocaust
De certo modo relacionado com este debate é a avaliação feita do papel de Hitler, ou seja, a controvérsia dos historiadores em torno da afirmação No Hitler, no Holocaust. Baseia-se muito em aproximações típicas da história virtual ou contrafactual e, uma vez mais, não tem quaisquer intuitos desculpatórios ou negacionistas. Terá, quando muito, um efeito algo «normalizador», como bem acentua Gavriel Rosenfeld, num livro muito interessante, provocatoriamente intitulado Hi Hitler, e que analisa a «normalização» do passado nazi pela cultura de massas contemporânea.
Importa notar, no entanto, que por «normalização» Gavriel Rosenfeld não pretende dizer «negação» ou quaisquer outras formas de revisionismo, mas sim o desaparecimento da ideia de excepcionalidade, ou seja, a assunção do nazismo, neste caso, como um legado do passado igual a qualquer outro, a sua percepção como um acontecimento localizado no tempo – ainda que repetível, naturalmente, em contextos similares ou afins.
Note-se, a este propósito, comparações feitas, nos anos 1960 e seguintes, seja por membros do Likud, seja por Trabalhistas israelitas, de Gamal Abdel Nasser ou de Yasser Arafat a Adolf Hitler acabam por questionar a ideia da uniqueness do Holocausto, ideia que, apesar de estar hoje em declínio na historiografia da Solução Final, ainda tem muitos seguidores (v.g., Steven Katz, Saul Friedlander, Yehuda Bauer, Deborah Lipstadt, Daniel Goldhagen). Em Israel, no entanto, mesmo grupos ultra-ordtodoxos, como os Haredim, ao falarem de «políticas nazis» nos territórios palestinianos ocupados – no fundo, ao usarem a reductio ad Hitlerorum de que falava Leo Strauss e de que fala agora a «lei de Goodwin» – acabam, talvez involuntariamente, por alimentar a tendência para pôr em causa a singularidade da Shoah.
 
 
 
 
 
A uniqueness do Holocausto
Outro debate que o livro de Arendt de certo modo suscita é o da singularidade do Holocausto, a noção de uniqueness da Shoah. É um debate que tem grandes implicações políticas e que, de alguma forma, está actualmente encerrado, tendo sido derrotada a tese da «singularidade» do Holocausto pela ocorrência de tragédias ocorridas posteriormente, sobretudo tragédias com o perfil de genocídios, como as que tiveram lugar na ex-Jugoslávia ou no Ruanda. Como é evidente – e aqui, uma vez mais, temos de evitar o anacronismo e colocarmo-nos na perspectiva de Arendt, que escreveu as suas reportagens para a New Yorker em finais de 1962 –, a autora de Eichmann em Jerusalém não tinha a consciência desses massacres. Mas não só a ideia de «banalidade do mal» como o que dissera noutro livro, As Origens do Totalitarismo, permitem inferir, com alguma probabilidade, que Hannah Arendt não perfilhava a tese da «singularidade» do Holocausto. Talvez o ponto mais decisivo de todos na contestação à uniqueness do Holocausto, à «singularidade judaica», sejam as considerações que Hannah Arendt tece sobre o destino reservado aos polacos se acaso o Reich tivesse triunfado. Ou seja, considerar-se que os polacos, gentios cristãos, teriam um destino idêntico ou algo similar ao dos judeus era algo extremamente provocatório na altura em que saíram as reportagens da New Yorker. Atrevo-me mesmo a dizer que, na perspectiva sionista, essas considerações – que actualmente seriam perfeitamente perfilhadas, por exemplo, por um Daniel Bloxham, autor de The Final Solution: A Genocide, ou por um Timothy Snyder, na sua obra Bloodlands/Terra Sangrenta  – eram quase tão «graves» do que aquelas que Arendt tece a propósito dos conselhos judaicos.   
 
 
 
No Holocaust, no Israel
No contexto da época isso era polémico, porventura muito mais polémico do que hoje. Porquê? Aqui entronca outra questão, outra querela, absolutamente central; um debate historiográfico eivado de implicações políticas, que é a controvérsia em torno da ideia No Holocaust, no Israel, ou seja, o da importância ou centralidade do Holocausto para o nascimento do Estado de Israel e para a mobilização da memória da Shoah pelos líderes israelitas. A operação de captura e o julgamento de Adolf Eichmann foram um instrumento decisivo dessa estratégia, desenhada ao mais alto nível, directamente pelo primeiro-ministro Ben-Gurion em 1960. Por isso, as críticas de Arendt ao processo de Jerusalém, a defesa da ideia de que o criminoso nazi devia ter sido julgado por um tribunal internacional e não por um tribunal israelita, o sublinhar do papel dos conselhos judaicos na logística do extermínio, a noção de «banalidade» do condenado (cuja condenação à morte, note-se, Arendt apoiou), tudo isso constituía, digamos assim, uma «afronta» ao sionismo ou, talvez melhor, à geopolítica de memória que norteara a fundação do Estado de Israel. Compreende-se assim a indignação e o clamor que a reportagem da New Yorker causou, e que levou à ruptura até de relacionamentos pessoais com Hannah Arendt por amigos como Hans Jonas e Gershom Scholem e por parte de colegas seus nas universidades norte-americanas e – o mais doloroso de todos – com o seu amigo Kurt Blumenfeld, como aliás é mostrado no filme de Margarethe von Trotta, num dilacerante diálogo mantido em Jerusalém entre Arendt e Blumenfeld, uma personalidade que tanto a apoiara ao longo da vida. Ao lado de Arendt ficaram o seu marido e a sua grande amiga, Mary McCarthy.
 Hannah Arendt não se pronuncia sobre a ideia No Holocaust, no Israel, que é defendida desde o antigo presidente do Irão, Ahmadinejad, a grupos ultra-ortodoxos judaicos que rejeitam o sionismo, como o Neturei Karta. Vários historiadores, de esquerda e de direita, aderem a essa tese, como Gilbert Achcar ou Bernard Avishai, do mesmo modo que também historiadores de esquerda e de direita a contestam, desde o liberal de esquerda Tom Negev ao conservador Efraim Karsh – e só para citar autores israelitas.
No seio desta querela, ninguém questiona, julgo, a importância do processo de Eichmann para a afirmação do Estado de Israel e para a consolidação da legitimidade política da sua presença naquele espaço. Aliás, alguns historiadores – uma corrente minoritária, é certo – sustentam mesmo que se o Estado de Israel já estivesse criado antes de 1939 o Holocausto nunca teria ocorrido. Existe inclusivamente um ensaio ficcional do reputado historiador Walter Laqueur sobre uma utopia/ucronia, a Disraelia, um Estado criado no século XIX devido à acção concertada de Disraeli e da família Rothschild, cuja existência teria evitado a 2ª Guerra, o Holocausto e até o 11 de Setembro.
Seja como for, o que há na obra de Hannah Arendt é a percepção clara da instrumentalidade daquele julgamento para a afirmação internacional do Estado de Israel. Daí a desconfiança com que observa a sala de audiências e os seus actores, bem como o processo que a fazia estar ali. É nesse sentido, e apenas ao nível dessa percepção, que se pode dizer que o tema No Holocaust, no Israel surge nas entrelinhas de Eichmann em Jerusalém.
 
 
O papel dos conselhos judaicos
No livro de Arendt, a questão mais «grave», por assim dizer, relacionava-se com as referências feitas ao papel dos conselhos judaicos – e isso tem sido abundantemente dito por todos os que se debruçam sobre Eichmann em Jerusalém. Não interessa tanto fazer o escrutínio das teses de Hannah Arendt – que, de certo modo, foram impugnadas em definitivo por Deborah Lipstadt – mas perceber o seu alcance no contexto histórico em que foram apresentadas, ou seja, nos alvores dos anos sessenta. Como salienta Gavriel Rosenfeld, a tese de Hannah Arendt não era, ela própria, absolutamente «neutra» do ponto de vista político. Sobretudo no pós-guerra, Arendt afastou-se do rumo que o movimento sionista tomara. «A sua visão especulativa sobre um passado melhor reflectia a sua desafeição com o presente», diz Rosenfeld. Qual é o «passado melhor» que Hannah Arendt, ainda que implicitamente, concebe de forma contrafactual ou hipotética? É o de sustentar que, se não tivesse havido uma colaboração activa de judeus, dos conselhos judaicos, o número de vítimas teria sido muito menor. Ora, isso não só era à época absolutamente escandaloso como ainda hoje leva muitos a considerar, com exagero, que Arendt, no dim de contas, «culpou as vítimas». Mais ainda, do mesmo modo que «culpou» as vítimas acabava, de certa forma, por relativizar os crimes dos nazis, diluindo-os numa noção de «banalidade». Trata-se de uma visão bastante redutora do que Arendt escreveu, sem prejuízo de termos de reconhecer que ela quis deliberadamente ser provocatória e polémica nos artigos da New Yorker. Considerar que o fez por ingenuidade é um insulto à sua inteligência. O que talvez se possa dizer é que Arendt não estava à espera de uma reacção tão violenta por parte dos seus críticos, mas que não pretendeu escrever um texto analítico e asséptico, disso não podemos duvidar.     
 
 
A «normalização» do Holocausto
Porventura – e não querendo maçar muito mais quem me ouve –, o contributo mais decisivo, do ponto de vista historiográfico, de Hannah Arendt constituiu numa antecipação polémica de um processo de «normalização» que, não o esqueçamos, não nasceu apenas com aquilo a que já se chamou o «boom da memória» de finais dos anos 1990 e inícios do novo milénio. Tomada no sentido que lhe confere Gavriel Rosenfeld, a «normalização», insiste-se, não implica a negação mas sim o tratamento de um facto como pertencente ao domínio do passado, de um pretérito imperfeito mas de um pretérito. Não se relativiza essa imperfeição – e daí as questões do mal banal, do mal radical, etc. – procede-se, isso sim, à sua historicização. Uma historicização que não abdica da formulação de juízos morais e até de julgamentos (e até mesmo de julgamentos «jurídicos» ou «judiciais»), não sendo por acaso que este processo de «normalização» correu e corre em paralelo com a difusão da ideia de justiça universal e o movimento memorialista vivido desde Espanha à América Latina, passando, em quadros pós-coloniais, por África, pelos Estados Unidos ou a Austrália (num certo sentido, e – repito – sem ter feito um trabalho com pretensões historiográficas, Hannah Arendt antecipou muito do que agora se discute. Assim, por exemplo, a sua defesa de que Eichmnann deveria ser julgado por um tribunal internacional por crimes contra a humanidade e não, como quis Ben-Gurion, por um tribunal judaico por crimes contra os judeus, avança um movimento que, como dissemos, só veria a luz décadas depois, nos alvores dos anos 1990).  
Aliás, a par do Holocausto, outras noções e realidades, como a que consagra a 2ª Guerra como a finest our dos britânicos, a qual, devido a Winston Churchill e outros, alimentou o imaginário da Grã-Bretanha desde finais dos anos 40 até meados dos anos 70, tem vindo a ser impugnada de vários lados e a ser objecto de uma historicização em que se recordam que também entre os alemães houve vítimas, e muitas. Lembre-se, por exemplo, a evocação dos bombardeamentos dos Aliados feita por Sebald em História Natural da Destruição ou alguns livros e testemunhos de Günter Grass, com destaque para A Passo de Caranguejo.
Em jeito de balanço
O facto de ter sido precursora – e vítima do seu pioneirismo – não a resgata de equívocos que cometeu. Desde logo, a opção por um registo polemizante e provocatório, muito marcado pelas suas inquietações pessoais em torno do que era «ser judeu». Depois, a interpretação abusiva e apressada, mesmo atendendo ao que se sabia na época, sobre o papel dos conselhos judaicos. Assim, quando afirma, a dado passo do seu livro, que, sem a colaboração dos conselhos judaicos, o número de vítimas teria sido metade do que aquele que se verificou, dizendo, ao mesmo tempo, que esse número se situou entre 4,5 ou 6 milhões, Hannah Arendt não entrou apenas no território da história contrafactual ou virtual, o que seria legítimo; mas, indo mais além, embrenhou-se nos meandros da pura especulação ou do palpite – o que é abusivo. Como alguns lhe lembraram, os Einsatzgruppen mataram milhões a Leste, especialmente na Ucrânia, e aí não existiam os Judenräte, ou seja, os conselhos judaicos…
Nada disto significa desvalorizar a importância desta obra, que é uma obra histórica mas não de História. Mas é uma obra teve – e tem – mesmo do ponto de vista historiográfico, um grande interesse. Como sublinha Gavriel Rosenfeld, depois de Eichmann em Jerusalém a historiografia tem-se concentrado em estudar as origens políticas do regime nazi, a sua estrutura administrativa, as suas afinidades ideológicas com o nazismo, mas há um certo desvanecimento da busca das origens do Holocausto (não confundir com as origens do nazismo).
Em suma, do ponto de vista conceptual, analítico, filosófico e até historiográfico, Eichmann em Jerusalém, sobretudo se for lido em articulação com outros textos da autora (por exemplo, os que publicou na revista Aufabau sobre Theresienstadt ou sobretudo com As Origens do Totalitarismo), permanece uma obra de inestimável valor e inquestionável actualidade.
Daí devermos saudar a publicação deste livro, em boa hora levada a cabo por Isabel Castro Silva e pela Ítaca Editora.     
     
António Araújo
  
 
 P.S. – texto que serviu de base à apresentação, em conjunto com Miguel Nogueira de Brito, do livro Eichmann em Jerusalém, realizada na FNAC/Chiado no dia 19 de Maio de 2017. O facto de se tratar de um mero «auxiliar de memória» de uma intervenção oral explica o seu estilo algo coloquial e os defeitos e erros de escrita, que espero não sejam muitos nem muito graves.

 

 

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Os partidos políticos e os cogumelos.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A propósito deste «post», António Cirurgião enviou-nos, dos Estados Unidos, a seguinte nota memorialística:
 
A proliferação dos partidos políticos do Portugal pós-abrilista era tal que me fez lembrar a mim, nado e criado no campo, a vida dos cogumelos. Explico-me: sem grande exagero, quase se pode dizer que não havia dia em que não nascesse um novo partido, da mesma maneira que, na época dos cogumelos, não havia dia em que não brotassem do solo ou das árvores, mormente dos carvalhos e dos castanheiros, cogumelos novos, como eu pude pessoalmente verificar durante o tempo de eu menino.
          Como consta de outras entradas do meu Diário, o café que eu frequentava com mais assiduidade, logo a seguir ao 25 de Abril, era o Montecarlo, ao Saldanha. Creio que seria preciso usar os dedos das duas mãos para contar os partidos políticos que aí foram dados à luz. Quando menos se esperava, ao espraiar os olhos, no meio de um ruído ensurdecedoramente festivo, pelas mesas do café, dava com meia dúzia de indivíduos, normalmente do sexo masculino, a criar mais um partido político. Não me esqueço de uma vez ter ouvido dizer a alguém, sentado à minha mesa, que por essa data, meados de Julho de 1974, já havia uns 54 (cinquenta e quatro, como se diz nos documentos oficiais, notarizados) partidos políticos em Portugal. Isso para não falar dos manifestos. Pelo que se refere a estes, jamais poderei esquecer o que aconteceu uma vez, por essa altura, em plena Praça do Rossio, pelo meio da tarde de um céu azul e benigno, como costuma ser o céu de Lisboa. Estava eu a assistir, por curiosidade, a uma filmagem, para futura reportagem, feita por uma cadeia de televisão espanhola, quando, de repente, se aproxima do jornalista e “cameraman”, um indivíduo, espanhol como eles, e aparentemente da mesma equipa, a erguer, triunfante e galhofeiro, diante dos olhos deles um panfleto acabado de sair à luz do dia,  o que quer dizer, ainda a cheirar a tinta fresca. Prazenteiro e com ar de quem tinha descoberto uma mina de ouro, exclama:    
         − Mirad, chicos: ved lo que tengo en las manos: nada más nada menos que un manifiesto de las prostitutas portuguesas. El punto más importante es el que se refiere al precio especial destinado a los militares. Se dice aquí, en letra de prensa, que a partir de hoy los militares tendrán el cincuenta por cien de descuento cuando vayan a las casas de prostitutas.
         Perante notícia tão auspiciosa e tão picarescamente revolucionaria, o jornalista deu por terminada a entrevista que estava a fazer para se concentrar no manifesto das putas do Bairro Alto, não sem comentar, em tom brincalhão, que não estranhava que brevemente lhes fosse parar às mãos um “manifiesto de los maricones portugueses.”
                                                     
                                     António Cirurgião