segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Regresso ao rinoceronte.

 
 
 


Eu tinha resistido durante anos a falar daqui de rinocerontes indianos e da gravura de Dürer, mas a capa do livro O Século dos Prodígios, de Onésimo Teotónio de Almeida, escolhida pelo Francisco José Viegas (um abraço a ambos), fez abrir a caixa de Pandora. Depois, outro grande amigo e colaborador assíduo do Malomil, José Liberato (outro abraço), trouxe notícias do prédio de Cracóvia onde vi as placas ornamentais com um elefante e dois rinocerontes. O edifício tem o seu nome devido ao facto de no século XVII ter lá existido uma farmácia denominada «Elefante de Ouro», de que foi proprietário um italiano, Bonifacy Cantelli. Foi alvo de várias remodelações e, em 1850, de um grande incêndio, mas a decoração exterior – o elefante e os dois rinocerontes – conservasse até aos nossos dias, como é fácil constatar ao viajante que passe pela Cidade Velha de Cracóvia.

E, já que falamos de rinocerontes, é um lugar-comum aludir ao que existe na Torre de Belém, que merece destaque por ser a primeira representação escultória de um rinoceronte feita na Europa (cf. Paulo Pereira, Torre de Belém, Scala Publishers, 2005, pág. 33). Menos falado é outro rinoceronte, feito pouco depois no Mosteiro de Alcobaça. A gárgula com o rinoceronte encontra-se no canto Norte-Poente do Sobreclaustro do Silêncio, edificado por ordem de D. Manuel no início do século XVI.
 
 
 

Mosteiro de Alcobaça, Sobreclaustro do Silêncio, século XVI 
 
 
Causa espanto que esta escultura não seja mencionada na obra de referência de T. H. Clarke sobre os rinocerontes na arte ocidental (cf. The Rhinoceros from Dürer to Stubbs, 1515-1799, Sothebys, 1986). Como causa espanto e é muito intrigante outro facto: o rinoceronte entro no estuário do Tejo, trazido na nau Nossa Senhora da Ajuda, em 20 e Maio de 1515. Valentim Fernandes (Morávia, c. 1450-Lisboa, 1518 ou 1519), também conhecido como Valentim Fernandes Alemão ou Valentim Fernandes da Morávia, impressor e tradutor germânico residente em Lisboa, terá enviado a Dürer uma descrição do animal. Foi a partir dessa descrição e de um desenho enviado de Lisboa para Nuremberga, de um remetente desconhecido, que Dürer fez a sua gravura celebérrima, em que o rinoceronte parece estar envolto numa armadura ou couraça bélica, de resto muito parecida com outro desenho que Dürer fez pela mesma altura, c. 1515/16, de uma viseira de um capacete de prata destinado ao Imperador Maximiliano I. O desenho está hoje no Museu Albertina, em Viena, e as semelhanças com o dorso do rinoceronte são flagrantes.
 








 
Dürer, Viseira de capacete, c. 1515/1516
 
 
Giovanni Giavomo Penni, Forma e natura e costumi de lo Rinocerothe, Roma, 1515
 
 
 
O desenho de Dürer não foi, porém, a primeira representação de um rinoceronte indiano na Europa. A primazia cabe ao médico e humanista florentino Giovanni Giacomo Penni, que escreveu um poema de louvor ao animal, em vinte e um versos de ottava rima, publicado em Roma em 13 de Julho de 1515. É um facto deveras intrigante. O rinoceronte chegou a Lisboa em 20 de Maio e a 13 de Julho já Penni tinha recebido a notícia da sua chegada, provavelmente com uma descrição do animal, como já tinha escrito o poema e publicado um livro, Forma e natura e costumi de lo Rinocerothe. Parece ser demasiado rápido mesmo para os padrões do nosso tempo, quanto mais para os daquela época. Diz-se que terá sido informado por carta de um dos muitos mercadores de Florença que então residiam em Lisboa, mas em qualquer caso tudo parece ter-se processado com demasiada rapidez. Segundo T. H. Clarke, isso só atesta o interesse sensacional que a revelação do rinoceronte teve na Europa dos alvores do século XVI. Em qualquer caso, estranha-se. Mas não se duvida.
 

 

 
       Como não se duvida que, ao contrário do que por vezes se diz, a representação de Dürer é particularmente fidedigna. Alguns estranharam o segundo corno existente no dorso, dizendo ser mais uma fantasia belicista do gravador alemão. Mas, quem ler esta minuciosa descrição, concluirá que, de facto, os rinocerontes indianos têm uma protuberância no dorso, por vezes imperceptível. Mas que lá está, está. E Albrecht Dürer captou-a, com olhar de lince. Voltaremos ao tema, que é inesgotável.
 
 
 

 
 

















 


 

sábado, 8 de dezembro de 2018

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

O século dos prodígios.





         O meu amigo Onésimo Teotónio de Almeida lembrou-se de colocar na capa do seu último livro o rinoceronte de Dürer, o que logo me trouxe à memória um outro livro lido há pouco, o igualmente fantástico El Rinoceronte y el Megatério. Un ensayo de morfologia histórica, de Juan Pimentel. A história do rinoceronte do Papa, que naufragou e morreu antes de aportar a Itália, é conhecida de todos, como conhecido de todos é o histórico combate que D. Manuel organizou em Lisboa entre dois inimigos históricos, o rinoceronte e o elefante. Todos sabem, de igual sorte, que a Torre de Belém tem um rinoceronte à proa, já delido pelo tempo. E todos também sabem que em 1515 Dürer fez a gravura ao bicho, e que essa gravura foi um best-seller na Europa de seu tempo. Ide ao Museu Britânico, lá a tendes.



O rinoceronte da Torre de Belém

 
         Aqui há uns anos, andando em Cracóvia, deparei com um rinoceronte em pleno centro histórico que por lá chamam Stare Miasto. Um, não. Dois rinocerontes, a mais o inimigo elefante, na frontaria de uma casa na Rua Grodzka. Depois, reparando melhor, notei que havia outro, ademais não idêntico, na mesma casa, mas agora na fachada que dá para a Rua Poselska. A coisa adensa-se pois não longe dali está o Museu de História Natural, que alberga um rinoceronte antiquíssimo, mas esse não entra na história.  Pelo que pude perceber (mal), a casa que faz esquina entre o 38 da Rua Grodzka e o 19 da Rua Poselska chama-se Kamienica Pod Elefanty e refere a Wikipedia que remonta ao século XV. Gostava de saber mais polaco para saber a história da casa, mas não sei, nem o livro de Juan Pimentel fala sequer de Cracóvia. Como é evidente, os rinocerontes e o elefante da fachada não podem estar lá desde o século XV. Talvez século XVI ou XVII. Em todo o caso, lá estão, como em Nuremberga está – via há muitos anos – a gravura de Dürer na casa-museu deste génio.

 

Cracóvia. O elefante ladeado por dois rinocerontes.
 

O elefante.


 

Os dois rinocerontes.
Repare-se como são diferentes, a ponto de se dizer que um é um rinoceronte de Sumatra.

 
 

 
         O que eu não sabia de todo – e foi o livro de Juan Pimentel que mo ensinou – é que a representação mais antiga de um rionoceronte no Novo Mundo está na Colômbia. Em Tunja, província de Boyacá, na casa-museu do escritor Juan de Vargas, que chegou ao país em 1564. O tecto foi pintado em 1590, à maneira maneirista, e a figuração do rinoceronte que lá está é tirada, sem sombra de dúvida, da gravura de Dürer – ou das muitas cópias feitas por outros e até edições piratas que se fizeram na altura. Outra coisa que Juan Pimentel não diz, mas que fui descobrindo e sobre a qual não tenho certezas nenhumas, é que em Tunja há um outro rinoceronte. Talvez até mais antigo do que o da casa de Juan de Vargas, ainda não pude apurar (se alguém tiver o livro de Mejía Los Rioncerontes de Colombia é favor de emprestar). É a Casa de Gonzalo Suárez Rendón, também Casa del Fundador, pois em 1539 Rendón foi o fundador da província de ,Boyacá daí o nome.  A casa foi erguida entre 1540 e 1570, sendo portanto mais antiga ou pelo menos contemporânea da casa de Juan de Vargas. E também tem tectos pintados. E também num desses tectos está um rinoceronte, mais tosco, menos Dürer.


Tunja, Colômbia. Casa de Juan de Vargas


Elefantes



Tunja, Colômbia. Casa del Fundador.
 
Elefante.




Rinoceronte.

 
         Fica a promessa de que mais pesquisas. Por ora, a partilha do assombro: um rinoceronte que veio da Índia, passou por Lisboa, foi metido num navio, fez escala em Marselha onde foi apreciado pelo rei da França, naufragou e morreu afogado já à vista da costa de Itália, para onde ia a caminho de Roma, obviamente a ver o Papa. Rinoceronte que está na Torre de Belém, idem em Nuremberga na casa de Dürer, artista que o retratou em gravura best-seller. Daí rumou à Polónia, Cidade Velha de Cracóvia, mas também à distante Colômbia, onde figura em pelo menos duas casas da cidade de Tunja, província de Boyacá. Se isto não é universalismo e globalização, se isto não foi mesmo um século dos prodígios, dizei então vós, de vossa justiça.
 






 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Presunção de Indecência.




PRESUNÇÃO DE INDECÊNCIA


Todos os políticos são considerados indecentes até prova em contrário.


Ricardo Álvaro

Shame Fonda.

 

 
 
Agora que tanto se fala de direito a memória, talvez seja de recordar as palavras – as palavras horríveis – de Jane Fonda em Hanói, que visitou em 1972. Vi-as há pouco, na extraordinária série da Netflix «A Guerra do Vietnam». «Hanói Jane», como foi chamada, já tentou justificar-se (de uma forma bastante arrogante, aliás), mas dizer que os prisioneiros americanos eram «criminosos» e deviam ser «executados»? Shame Fonda.