sábado, 20 de outubro de 2018

Vidas singulares: Cristina Trivulzio Belgiojoso (1808-1871).

 
 
 
 
Num livro saído há pouco, esbarrei com o nome dela – e com o quadro em que está pintada. O livro chama-se The Unfinished Palazzo e Cristina é convocada por ser modelo para a dona do palácio inacabado, Luisa Casati, já aqui falada. Cristina Trivulzio Belgiojoso pertenceu a uma família ilustríssima, cujas origens remontam ao ano 1000. Um descendente montou um site (http://www.cristinabelgiojoso.it/wp/) onde é possível saber tudo, absolutamente tudo, desta vida singular, a existência de uma mulher que nasceu em Milão, em 1808, com o nome: Maria Cristina Beatrice Teresa Barbara Leopolda Clotilde Melchiora Camilla Giulia Margherita Laura Trivulzio.  Criança introvertida, educada no amor às artes, casou aos 16 anos com um libertino, a quem tolerou as constantes aventuras; o casamento manteve-se – no papel. Falta dizer o essencial: Cristina era herdeira da maior fortuna de Itália, que colocou ao serviço da causa da independência face ao domínio austríaco. Por causa disso, teve de se exilar em Paris, onde montou salon para as luminárias da época, Balzac, Alfred de Musset, Tocqueville, Victor Hugo, Heine. Foi lá que se desenrolou o épico duelo entre Liszt e Thalberg, visando determinar quem era o maior pianista. Após a refrega, Cristina sentenciou, salomónica: «Thalberg é o maior pianista, mas só há um Liszt». Regressada à Itália revolucionária, envolveu-se pessoal e financeiramente na luta pelo seu país, tendo novamente de exilar-se com assaz conforto, em viagem pela Síria, Líbano e Palestina. Viu a situação terrível das mulheres nesses países, escreveu sobre isso como já antes escrevera sobre a causa italiana. Ficou conhecida pelos seus textos em prol dos direitos das mulheres. Enquanto isso, foi mãe de uma menina, ignorando-se quem terá sido o pai biológico da criança natural, legitimada apenas depois do marido morrer. Passou os últimos dias nas margens do Lago Como, na companhia da filha e do genro, um marquês, da sua governanta inglesa e de um criado turco, um antigo escravo. As biografias canónicas mencionam os seus vários livros mas, por pudor ou prudência, não contam que Cristina ficou célebre pelos seus vários amantes, a menos que tudo isso não passe de um boato aviltante com que as más-línguas tentaram incinerar o bom nome de uma mulher livre e livre pensadora. Mas, mentira ou não, dizia-se que Cristina tinha a paixão do ocultismo e do tenebroso, que chegou a embalsamar o coração de um amante falecido e a guardar no guarda-fato o cadáver de outro namorado. Se não é vero, é bem achado.
 
 
 
 
 

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

São Cristóvão pela Europa (69)

 
 

Museu Mayer Van den Bergh, Antuérpia, 3 de Agosto de 2017

 
Mary Higgins Clark é uma autora de romances de suspense e mistério de grande sucesso. Nasceu em 1927 nos Estados Unidos.
Em 1995, publicou o livro Silent Night, cujo título evoca a célebre canção de Natal austríaca.
 
Todo o enredo do livro gira à volta de uma medalha de São Cristóvão. A medalha pertencera a um militar da II Guerra Mundial, a quem teria salvo a vida. Estava mesmo danificada no local em que uma bala tinha feito ricochete.
Na véspera de Natal, um rapaz de sete anos, Brian, neto do militar, vê-se envolvido nas maiores aventuras para salvar a medalha e assim poder entregá-la ao pai que sofre de uma doença grave.
Não que todos acreditem no poder salvífico da medalha.
Diz a mãe da criança: Cristóvão não era senão um mito. Nem sequer é já considerado um santo. As únicas pessoas que ele ajudou  foram os vendedores de medalhas. Antigamente toda a gente as colava no tablier dos carros.
E Jerry que rapta Brian: São Cristóvão! Não ponho os pés numa igreja há lustros mas mesmo eu sei que o despediram há uns anos. E quando eu penso em todas essas histórias que a avó nos contava, como ele levava o Cristo em cima dos ombros através de um rio ou não sei que mais...
Só Brian acredita que a medalha o salvará, a si próprio e ao pai. E imagina-se nos ombros do santo.
No momento crucial do romance, Brian utiliza a medalha como arma de arremesso ao atingir o raptor num olho. Quando no final um polícia o resgata ele pergunta-lhe se é o São Cristóvão.
E o romance termina com o inevitável happy end. Brian e o irmão põem a medalha de São Cristóvão no pescoço do pai e dizem em coro: Feliz Natal, papá.
 
José Liberato
 

 

Apontamento de arquitectura nazi.