Quinta-feira, 20 de Junho de 2013

Quarta-feira, 19 de Junho de 2013

Um mês no Luberon: extractos dum diário provençal (6).







Aguarela de Paul Hogarth





13-VIII                                                                                    
Aix revisitada

 

As cidades são como pessoas, isto é, ligamo-nos ou resistimos a elas como o fazemos com os outros viventes que nos rodeiam. Em ambos os casos, a estima ou desafecto que nos liga a elas perde-se ou aumenta seguindo a mesma química complexa dos sentimentos inter-humanos. Passámos quatro abençoados anos de Exílio aqui, nesta radiosa cidade-refúgio, onde a Guida Miriam como eu conseguimos fazer poucos amigos íntimos nesse período feliz de expatriação, ocupados cada um de nós com os seus afazeres essenciais e absorventes, ela coma educação dos nossos filhos, cujo número aumentou com o nascimento da Sibila em Aix, eu com o ensino na universidade e a escrita dos meus livros, esperando sempre o Regresso à Ítaca voluntariamente perdida para escaparmos à humilhação de viver debaixo da Ditadura de Salazar e, por fim, de Caetano. As constantes revisitas feitas nos anos seguintes a Aix, com a peregrinação ritual ao bairro das Tourelles, onde tínhamos alugado um apartamento donde víamos a emblemática montanha de Sainte-Victoire, aquela que Cézanne incessantemente pintou e repintou, foi a nossa maneira de reavermos uma época, apesar de tudo feliz, ali passada.

Foi nesses sossegado recanto periférico que vivemos esse quadriénio feliz, junto do pequenino rio Arc, o mesmo onde, muito tempo antes, Émile Zola e Paul Cézanne pescavam camarões quando por aqui viveram também. O nosso apartamento ficava num primeiro andar duma pequena vivenda, com vizinhos que nunca visitámos nem nos visitaram, já que o gaulês, mesmo do Midi, não é dado a acolher estrangeiros. Verdadeiramente falando, só tivemos dois amigos íntimos, Mme. Gravagne, professora primária dos nossos filhos na escola infantil a dois passos de nossa casa, e o seu marido, um simpático e culto professor de Latim num  liceu de Aix, contente por  descobrir em mim um admirador de Virgílio e Ovídio. Curiosamente, esta estima reforçou-se sobretudo quando, a seguir ao 25 de Abril de 1974, esta casal nos convidou para uma almoço destinado a celebrar a democracia portuguesa e, ao mesmo tempo, hélas!, a nossa partida definitiva em regresso a Portugal. No nosso bairro tínhamos ainda uma vizinha próxima que nos estimava muito por via do seu filho ser meu aluno na Faculdade de Letras de Aix, o estabanado e sempre jovial Marc Cleaver, cujos conhecimentos de língua portuguesa  levariam  a visitar o Brasil e  ali coleccionar, desde então, desastrosas ligações amorosas tão ardentes quanto breves, sempre com mulatas brasileiras que enchiam de desgosto a pobre Madame Cleaver, uma viúva delicada e muito infeliz.

Eram, em contrapartida, quase inexistentes as nossas relações com os outros colegas no medíocre departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Faculdade de Letras, chefiado por um francês das Landes, um barrigudo e pedante especialista de teatro dos Jesuítas em Latim, no século XVII, que dessa especialidade literária tão aberrante conseguiria a pirueta extraordinária de saltar para o ensino da língua portuguesa e a direcção do departamento. Estava ele casado com uma senhora católica e muito carola. Os demais professores do departamento também não valiam um figo, havendo ainda um brasileiro semianalfabeto que prosperaria, apesar da sua vacuidade intelectual, naquele acanhado mundo académico do Midi, espécie de Aldeia dos Macacos numa terra ensolarada. Nenhum deles deixou vestígios de assinalar nos estudos de que se diziam profissionais encartados. Contudo, para mim, pestiferado aos olhos das autoridades portuguesas, mesmo depois do refalsado aggiornamento político da Ditadura levada a cabo pela hipócrita cosmética de Marcelo Caetano – que crismava a Censura de Exame Prévio, a PIDE de DGS (Direcção-Geral de Segurança) e, sobretudo, persistia na criminosa guerra colonial em três frentes africanas –, [1] aquele lugarzito na Faculdade de Letras de Aix (o velho edifício universitário anterior ao nosso moderno prédio, ostentava pomposamente, incisa na fachada, a menção de ser “Aquarum Sextiarum Literarum Facultas”) garantia-me pelo menos um viático suficiente para esses anos de espera, mesmo que o grau de doutor pela Universidade de Estrasburgo não me tivesse dado ali a posição académica a que tinha direito. “Faça-se nacional, peça a nacionalidade francesa – e então lhe daremos o lugar de maître-assistant (professor auxiliar)!”, dizia-me com azedume o meu barrigudo director, conselho que, por fim, decidi seguir, preenchendo os papéis necessários para vir a adquirir a nacionalidade francesa nesse anos em que Portugal não passava dum país com três guerras coloniais e sem hipótese alguma de entrar na Comunidade Económica Europeia. Felizmente a lentidão do processo e, sobretudo, as minhas hesitações em abdicar da minha escarnecida e aviltada nacionalidade lusa, tornaram o meu processo de aquisição da cidadania francesa tão lento que o 25 de Abril chegou e, com ele, a solicitação foi deitada às urtigas. A nossa vida ensimesmada naqueles quatro anos aquenses-sextienses tinha aspectos que, olhados agora de longe no tempo, parecem bizarros, como o de não usarmos de telefone, já que este pouco ou nada serve para quem vive isolado numa ilha e não coabita com os outros ilhéus nem precisa de entrar em contacto com a pátria longínqua donde se exilou.

E agora, passeando uma vez mais pelas ruas da sempre airosa Aix, sinto com uma recalcada tristeza que já nada me prende a ela, que talvez nunca mais aqui volte a subir o Cours Mirabeau, debaixo da sombra dos seus plátanos, a esta terra onde outrora passei quatro anos de Espera e Desespero e até consegui ser feliz, na medida em que até no Exílio a alma busca consolações que lhe façam esquecer as suas tribulações mais secretas e insuperáveis, confiante embora na vinda do Encoberto no final da expatriação tão longa e. apesar de tudo, útil.
 

 
João Medina





[1] Eu agravava, nesses anos de expatriação francesa, a minha desafeição pela nossa Ditadura lusa colaborando na Seara Nova e no Diário de Lisboa, publicando neste último com uma crónica semanal que vinha já dos tempos de Estrasburgo, em 1968, “A Torre de Babel”.

Um dia, uma fotografia.

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Gustav Husak e Leonid Breznev

Terça-feira, 18 de Junho de 2013

Um mês no Luberon: extractos dum diário provençal (5).









     12-VIII

        Resposta a Pascal

 

Estive de novo, na passada noite, uma hora à espera, desde as 22h, das estrelas cadentes, embora a colheita fosse magra, porquanto só me foi dado ver uma única estrela a tombar em diagonal pelo céu, deixando um efémero sulco de luz azulada, logo extinto. E olhando o céu tranquilo desta noite fresca estival, não pude deixar de pensar no terror que inspirava a Pascal, cientista e cristão, o “silêncio dos espaços infinitos” (le silence éternel des espaces infinis m’effraie): esta frase impressionou-me desde a primeira vez que a li, quando andava na Faculdade de Letras e me entusiasmei pelos Pensées – nenhum dos meus professores do curso de Filosofia o mencionara uma única vez! –, um livro patético cujos radicalismo filosófico e teologia negativa não deixavam de ter similitudes com a minha atitude de descrente não-cristão perante as questões essenciais do infinito do cosmo, da inevitabilidade da morte, da miséria do homem, da ideia de Deus e da permanente angústia humana.

Fi-lo meu, esse livro de gritos e clamores de alma amargurada e espírito incapaz de se amoldar às aporias do pensamento, ainda que o Adonai dele não fosse o meu e, sobretudo, porque para mim não tinha qualquer significado aquilo que para o jansenista era causa de uma interminável dor, o facto de Jesus estar em agonia até ao fim do mundo (“Jésus sera en agonie jusqu´à la fin du monde”),como ele escrevia. Embora o Deus dele fosse também, como o consignava enfaticamente na sua confissão secretamente pregada no forro dum casaco seu, o mesmo de Abraão, Jacob e Isaac, é evidente que o judeu crucificado no Gólgota não o podia aceitar eu como divino. Já mais enigmático e até cruelmente masoquista me parecia que um cristão tão convicto, embora atormentado por tantas dúvidas e incertezas metafísicas, se apavorasse com a mudez do movimento das esferas celestes no vasto espaço sideral, ele que tinha uma sólida formação científica e que, talvez por essa razão, devesse aceitar que uma harmonia cósmica universal mantivesse prodigioso maquinismo sem qualquer som, a não ser – o que ele não podia conhecer – o estampido colossal do Big Banginicial. Noutra passagem das Pensées, Pascal mostrava-se capaz de ter de Deus uma ideia incómoda, expressa nesta frase: “Par ceux qui sont dans le déplaisir de se voir sans foi, on voit que Dieu ne les éclaire pas: mais les autres, on voit qu´il y a un Dieu qui les aveugle.” Pascal era este crente que Deus cegava.

Voltando ao silêncio eterno dos espaços infinitos, pergunto-me porque é que Pascal não tinha confiança suficiente na sua divindade para esperar que essa ausência de ruídos não passasse duma curta duração temporal, já que, mesmo durando séculos demasiado longos para a nossa pequenez vital de bichos da terra tão pequenos, esse silêncio nunca seria eterno, e daria decerto lugar a uma palavra divina, clamorosa palavra redentora que resgatasse esse vazio de sons, mesmo que este durasse centúrias, já que cada século é apenas uma milionésima fracção de segundo na mente divina, ainda que essa espera fosse excessiva aos olhos mortais das nossas tão curtas passagens pela terra e para os nossos mesquinhos destinos, afinal tão efémeros como o das borboletas se comparados com a duração do tempo que uma só estrela da nossa galáxia, por exemplo o sol, ainda terá de arder na solidão celeste antes de se apagar de todo. Um espírito de certo moído pascaliano como o inglês Blake imaginava um medonho tigre a arder nas florestas da noite de tal modo que nenhum olhar ou mão seria capaz de dominar a sua temível simetria. E o filho do Deus cósmico dos cristãos ou dos astrónomos, mesmo em agonia até ao final dos tempos, não teria essa mão direita espantosa capaz de conter, controlar, fechando entre os seus dedos colossais todos os círculos que os astros e estrelas cadentes desenham nas suas revoluções pelos espaços antes de se abismarem, provavelmente também sem ruído, no vazio universal, sempre silenciosamente?

O Tigre de Blake talvez fosse um Deus cego e enlouquecido perdido na selva dum cosmo sem divindade, feito de matéria negra, embora o olhar de Deus fosse capaz de o domar com um só gesto paralisante, aniquilando todo o furor selvagem do seu incêndio astral. Já os mudos corpos estelares de Pascal, girando pelo espaço como manadas de leões alucinados, parecem correr para lado nenhum, a não ser para um despenhadeiro onde se abismem todas as feras de pedra que percorrem o espaço sideral. Pascal diz que “o homem, que é um nada em relação ao infinito e um todo em relação ao nada”, é incapaz tanto de ver o nada donde foi tirado como em relação ao infinito em que foi mergulhado, ficando no “desespero eterno de não conhecer nem o seu princípio nem o seu fim”. Por outro lado, observa Pascal que o “finito se aniquila em presença do infinito e se torna puro nada”.

Olhando de novo a noite imensa que me rodeia, no meio desta placidez do estio provençal, a partir desta casa onde passo estes instantes breves deste estio de MMXII, não me consigo interrogar com a amargura filosófica e o temor existencial de Pascal, sobretudo porque a amenidade da noite me torna inacreditável o aparente o medonho “silêncio eterno dos espaços infinitos”.Troçando uma vez deste célebre pensamento pascaliano, Paul Valéry, com toda a ironia de racionalista na transição dos séculos XIX para XX, contrapunha-lhe o seu rigoroso contrário lógico, replicando: “Os ruídos intermitentes dos pequenos recantos tranquilizam-me”. E creio que é isto que me sossega e me impede de levar a sério a abissal temor de Pascal ao ver os astros rolarem em silêncio pelos espaços sem fim. Tivesse Pascal olhado, daqui, neste terraço virado para a esta noite provençal, as estrelas cadentes que silenciosamente se extinguem como pirilampos e talvez emendasse o seu pendor temeroso para imaginar que o silêncio do firmamento era eterno e nenhuma palavra lhe pudesse pôr fim. Olho de novo este benigno céu da minha querida Provença e não consigo sentir-me atingido pelo inconsútil silêncio que Pascal imaginava sem termo, e vejo astros que alguns já se devem ter apagado há muito mas cuja luminosidade ainda nos chega, com as suas excessivas galáxias tão distantes e porventura inúteis, autêntica orgia criativa de matéria dispersa por um espaço sem fim, no meio duma maquinaria prodigiosamente complexa. Penso neste vasto universo desde o Big Bang até ao momento presente, muito distante do futuro e possível rasgão final, e, à luz dum candeeiro, vou lavrando estas linhas, com uma caneta de ponta de feltro num caderno de folhas lisas, e pergunto-me sobre o que teria levado o cristão e cientista Pascal a atemorizar-se com o silêncio destes astros perdidos no dossel cósmico.

O simples silêncio dos astros que percorrem cegamente este firmamento, movidos por uma tremenda e cruel necessidade que os varre como esferas soltas, a ausência possível de qualquer vida inteligente nesses astros vagabundos e calados, perdidos, parece-me mais angustiante do que a dificuldade de Pascal. Porquê este vazio de finalidade duma criação tão prodigiosamente complexa quanto inútil? Ou a relação incompreensível de Adonai com a sua obra astronómica aparentemente destituída de razão ou finalidade? Já o mero silêncio desses corpos rolando alucinantemente velozes por um espaço imenso num turbilhão harmonioso, inexplicável num abismo sem sentido, me parece uma questão secundária. Esse silêncio do vasto cosmo seria igual ao silêncio do Criador que engendrou toda esta prodigiosa maquinaria de força, matéria, lógica, harmonia cega ou coesão intrínseca do sistema sideral em perpétuo movimento? Será esse silêncio o mesmo que Adonai manifestou ao calar-se quando o crime de Auschwitz ocorreu? Como, por fim, conciliar essa mudez feroz e intolerável com a total ausência de palavras inscritas pelo Criador nos corpos siderais ou nas pradarias sem limites onde esses astros vogam e se vão desagregando e extinguindo?

A verdade é que a passagem nas Pensées de Pascal sobre o silêncio eterno dos espaços infinitos não me permite ir muito longe nestas conjecturas explicativas, pelo que a única objecção que de facto lhe faço é que, nesta noite passada a olhar o céu estrelado nos arredores de Bonnieux, numa casa campestre perdida nas faldas do Luberon, não consigo entender o que realmente atemorizava o crente e cientista chamado Pascal, a não ser, talvez, que seria esse silêncio de Deus que mais o angustiava e embaraçava. O mais curioso desta minhas recorrentes leituras dos Pensamentos de Pascal está no facto, em nada paradoxal, de um não crente como eu sentir tanta afinidade pela démarche intelectual da sua escrita e raciocínio, sem que isso implique qualquer proximidade da minha falta de fé com a fé cristã que ele sempre confessou. Acrescento um derradeiro pensamento pascaliano me parece mais interessante: “Se há um Deus, ele é infinitamente incompreensível, porquanto não tendo nem partes nem limites, ele não tem qualquer relação connosco. Somos portanto incapazes de conhecer o que ele é, nem se ele é. Sendo assim, quem ousará tentar resolver essa questão? Não seremos nós, que não temos nenhuma relação com ele.” A partir desta interrogação prévia, parte Pascal para a sua famosa aposta, a hipótese de um jogo que lha parecia, a este inventor da primeira máquina de calcular, uma solução prática para a questão do nosso impossível relacionamento com Deus ou crença na sua existência. Mas deixo então de o seguir, talvez por falta de qualquer apetência pelo raciocínio matemático ou cálculo de probabilidades – e miro de novo este tranquilo céu de verão provençal, infinitamente longe, inacessível e silencioso, mas sem que isso me atemorize.
 
 
João Medina


Um dia, uma fotografia.

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Dizzie Gillespie

Segunda-feira, 17 de Junho de 2013

Um mês no Luberon: extractos dum diário provençal (4).





Vincent Van Gogh





11-VIII
Estrelas cadentes

 

Passámos todos a noite de ontem, até às 23 h, à espera da anunciada chuva de estrelas cadentes. Lá estávamos os cinco, nós e a Sibila, a minha neta Matilde e o Mário, aguardando as primeiras fugitivas siderais, ouvindo na rádio o concerto de piano transmitido de Roque d’Antheron, aqui perto aliás, os olhos cravados no vasto firmamento onde o pastor dos astros ia espalhando os seus flocos cintilantes. E lá as vimos, finalmente, já fatigados os primeiras estrelas cadentes do dossel por cima de nós, cada um formulando um desejo secreto, sem o revelar aos demais. E cumprido este ritual das noites de Agosto na Provença, recolhemo-nos aos nossos quartos, para saborear o sono que as passeatas desse dia pelas terras próximas tornavam urgente. Que desejo secreto formulei eu ao ver cair a minha primeira estrela? Não, nem a este diário o confesso…

 

 

O prazer de viver sem televisão

 

 

Há uma semana que, percorrido o calvário de ir de automóvel desde o Monte Estoril ao Luberon, via Valhadolide, Jaca e Castres, chegámos a este encantador recanto provençal onde já vivemos, como se toda a nossa vida aqui se tivesse passado, retomando assim um hábito que os labirintos dos nossos anos por algum tempo interromperam. E embora estejamos aqui tão só por um mês estival, sinto de algum modo que voltei a estaraqui, numa espécie de ilha atemporal onde, de quando em quando, por uma suprema astúcia, consigo reencontrar ritualmente. Esta relativa ausência dos constrangimentos mecânicos do tempo é reforçada pela quebra de hábitos tirânico a que ninguém escapa, o de passar horas diante dum televisor que nos invade o dia-a-dia com o seu tropel incessante de factos ocorridos pelo mundo fora e outros “divertimentos”, em sentido pascaliano, que nos afastam de umas quantas preocupações essenciais. Calada a lucerna mágica, o dia torna-se mais largo, as horas passam menos depressa, e, neste caso, nem temos de desligar o aparelho que nos persegue e atormenta sob o pretexto de nos informar de uma sangrenta guerra civil no Médio Oriente, um o naufrágio dum luxuoso barco de cruzeiro ou ainda a morte duma famosa estrela de cinema, tudo trivialidades que podíamos ignorar vantajosamente se, como nos sucede nestas férias, a casa alugada não tiver televisão…Em compensação, retomo um velho hábito dos longos anos de vida em França, o de ouvir os diversos canais da excelente radiodifusão pública, a France Inter, a France Culture ou a France Musique, o que nos permite escutar, sobretudo depois do jantar, os concertos de piano no festival de música na vizinha Roque d’Antheron. Assim, feitas as contas do deve e haver de fazer dieta televisional, considero como uma bênção esta disciplina radiofónica, estasancta simplicitas que durante tantos anos foi um dos alimentos mais fortes para resistir aos anos de solidões de Estrasburgo e Aix.
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Camus revisitado

 

Nos anos anteriores passados na Provença, habituei-me a fazer uma paragem obrigatória numa terra que agora fica a dois passos, a aldeiazinha de Lourmarin– onde está enterrado Albert Camus, que aqui chegara a comprar uma casa onde tencionava viver, e que havia de falecer num acidente de automóvel na viagem da Provença a Paris, em 4 de Janeiro de 1960, em Villeblevin. Agora, a dois passos daqui, Lourmarin tornou-se cruzamento obrigatório nas nossas passeatas entre o Luberon e o pays aixois. Quanto à campa do grande escritor no cemitério de Lourmarin, só a visitei uma vez, pelo convencional costume de ir ver onde ficaram inumados os restos mortais de alguém que admiramos e amamos, como era o caso deste franco-argelino que li nos primeiros anos de Faculdade, em Lisboa, mais interessado nos seus livros do que nos secos códigos que me enchiam de tédio. Devorei-o com aquela inesquecível comoção de descobrir obras que nunca mais deixei de ler e reler, obedecendo à reflexão de Jorge Luís Borges de que só uma coisa há melhor do que ler, que é reler. E reli constantemente A Queda, As Bodas, O Mito de Sísifo, A Peste,O Exílio e o Reino,O Homem Revoltado, os ensaios e crónicas jornalísticas, até os seus textos jovens do Alger-Repúblicain(os Textes Libertaires), sem falar nas reflexões sobre questões de actualidade política e estética, os três volumes de Actuelles, cada vez mais lucidamente justas e acertadas à medida que os anos passavam. Foi este Camus hedonista, libertário, anticolonialista, inimigo do marxismo e de todos os totalitarismos e, acima de tudo, prodigioso escritor, de que fiquei leitor recorrentemente grato pela sua lição de humanismo heterodoxo, prosa austeramente singela e despida de artifícios ou sobrecargas eruditas, lucidez crítica de homem do Mediterrâneo, emblema da pensée du Midi. Há obras literárias que, uma vez lidas, se integram de modo definitivo e decisivo no património mais íntimo da nosso psiquismo – no meu caso, recordo A Bela do Senhor de Albert Cohen, A Condição Humana de Malraux, A Metamorfose de Kafka, A Educação Sentimental de Flaubert, Os Maias de Eça, Os Possessos de Dostoievski, O Coração é um Caçador Solitário de Carson McCullers, O Leopardo de Lampedusa, A Vida e Destino de Grossman… –, passando esses textos a ser alimentação para o resto da nossa vida espiritual, apenas exigindo que, de quando em quando, os voltemos a ler, para neles descobrirmos algo que a vida ainda não nos tinha feito confirmar a sua validade pedagógica ou os seus dons proféticos. E, nesta perspectiva, Camus é sem dúvida um daqueles mestres de que nunca me dispensei de reler as lições que a sua obra tinha para me dar.

Ao mesmo tempo que relia as obras de Camus, outros livros de autores na moda, como Sartre, iam ficando esquecidos nas estantes da minha biblioteca, sem os voltar a ler uma única vez. Os livros, como as pessoas, envelhecem, ainda que de maneira diferente, já que algumas guardam um renovado viço e uma mocidade perpétua, enquanto outras decaem de modo confrangedor e triste, quase nos envergonhando de as termos admirado. Hoje, pensando em alguns escritores da minha adolescência e começo da maturidade, como Simone de Beauvoir e o referido Sartre e todo o demais rebanho existencialista – excepctuado Kierkegaard, autor perene –, sinto como que uma certa vergonha de os ter seguido com tanta devoção nos verdes anos. Já Camus, quando o releio, tanto na maturidade como na velhice, volto a experimentar a mesma emoção comovida que senti ao ler pela primeira vez as suas páginas verdadeiras e lúcidas na tradição dos grandes moralistas franceses, com aquela elegante e seca vibração dramática que fazia das suas páginas um deslumbramento intelectual e uma invulgar aprendizagem de vida. Raramente um autor nos invade o espírito e a imaginação com impressões tão fortes como as que me deram as leituras de obras de Camus como A Peste, A Queda ou O Exílio e o Reino–por exemplo, a descrição das primeiras semanas de flagelo em Oran, as considerações sobre a desconhecida que se afogou no Sena ou os angustiados monólogos no cenário dos canais de Amesterdão, ou ainda acerca das palavras“solidário”e “solitário”.

E estas leituras foram repetidas tanto nos tempos de universidade, da greve estudantil contra o regime salazarista, da curta passagem pela recruta militar em Mafra, mais tarde nos anos da expatriação francesa e, depois, no Portugal libertado, assim como ia perdendo, a pouco e pouco, uma a uma, as minhas ilusões estéticas e enganos ideológicos, mas sem que a bússola camusiana deixasse de ser retomada e consultada em cada fase crucial da minha existência. E creio que a ligação essencial e maior a uma obra literária ou plástica reside precisamente nesta necessidade pessoal de a revermos periodicamente, para a actualizarmos, para torná-la cada vez mais presente. Em suma, através desta ligação permanente com os seus livros, Camus, o humanista exigente e lúcido, tornou-se um daqueles mestres que formou deveras o meu psiquismo e a minha mundivisão. E agora, que por algumas semanas resido a poucos quilómetros da sua campa, onde se tornam sombra do pó os seus restos, não o volto a procurar no cemitério de Lourmarin, porque o verdadeiro Camus, vivo e imortal, esse está inteiro nas páginas que escreveu.
 
João Medina


Um mês no Luberon: extractos dum diário provençal (3).





 

Aix-en-Provence

 


9-VII
Aix revisitada


 


 

The past is never dead. In fact, it's not even past.

William Faulkner

 

 


Já não sei quantas vezes voltei a Aix desde que, em Junho de 1974, na companhia da Guida Miriam, conduzindo uma carrinha Renault carregada de livros e alguns móveis mais leves, me fiz à estrada para regressar a Portugal após a chegada recente de D. Sebastião. E cada visita que lhe faço, mesmo num passado Verão numa vivenda alugada em Puy Sainte-Réparade, ela me fornece uma sensação diferente, oscilante entre a decepção e a melancolia, a saudade e o alheamento progressivo resultante do passar dos anos. Agora, regressando uma vez mais à cidade mítica que foi a da minha residência nos derradeiros quatro anos de exílio francês, sinto que ela se afasta de mim e que pertence cada vez mais a um passado que passou, mesmo que este, como se sabe, nunca tenha passado, a não ser quando todo o nosso ser se dissolver no puro nada final donde viemos, deixando de haver o indivíduo em cuja lembrança estiveram cerebralmente guardada algum tempo as coisas idas, a menos que alguma memória perdure ainda dessas lembranças em escritos nos quais poisem outros olhos, ainda vivos, o que dará a esses rabiscos e sinais deixados em páginas brancas sílabas sobreviventes do que foi a nossa vivência, a experiência duma vida efémera como todas, prolongando nas mentes dos nossos eventuais leitores o prazer e a plenitude do que sentimos, a menos que, dessas páginas escritas se salve sobretudo a angústia da espera, o desespero de a vida ser sempre lenta e a esperança violenta, como o dizia Apollinaire, debruçado sobre o Sena na Ponte Mirabeau. a ver passar por baixo “dos eternos olhares a onda tão lassa”…

Antes de mais, aqui estou no Cours Mirabeau, com os novos plátanos que substituíram aqueles que há poucos anos atrás vi definhados, a secarem, o que esgarçou a abóbada de folhagem que torna esta curta avenida um dos locais mais agradáveis de Aix, com as suas fontes a meio da rua e os visitantes que deambulam com a lentidão de quem saboreia uma dádiva rara da vida, o estarem aqui, neste local mítico. A gente continua a ser a mesma, cosmopolita e indolente, satisfeita por se fazer fotografar no meio deste prazer feito de sombras, belas lojas, esplanadas de cafés célebres – como o Café des Deux Garçons, que eu conhecia dum filme de Chabrol, visto pouco tempo antes de vir viver para aqui, em 1970, recém-doutorado em Estrasburgo, agora na capital do “bon roi René”, na terra de Cézanne, para ensinar na universidade da Provença –, belos palacetes de fachadas com cariátides ou frisos decorativos. Depois, a dois passos do seu termo, tomando a estreita passagem Agard, o mercado em frente do tribunal, nos sábados de manhã, onde se vendem livros – foi aqui que comprei quase todos os exemplares que tenho da Biblioteca da Pléiade a preços menos exorbitantes do que nas livrarias –, saquinhos de alfazema, panos típicos provençais e frutas. Mas Aix desenvolveu-se bastante desde que tornei a Portugal graças ao 25 de Abril, já que há agora edifícios modernos impressionantes como a Cité du Livre e toda uma série de bairros novos e amplos que se estendem para a periferia a partir do exterior do velho burgo primitivo. Para me situar na Aix onde vivi os anos derradeiros de expatriação, tenho de voltar à encantadora praceta dos Quatro Golfinhos, o meu recanto mais acarinhado durante o tempo que aqui passei, sentando-me de quando em quando no rebordo da fonte desenhada no séc. XVII por Claude Cambot, ouvindo jorrar das bocas dos quatro cetáceos barrocos os fios tranquilos de água, com a sensação de que estava ali, de certo modo, o umbigo do universo ou, pelo menos, o meu meridiano de exilado à espera que em Portugal a Força das Coisas acabasse com a Ditadura e me permitisse retomar o meu destino de pobre lusíada desgarrado, encalhado, aguardando que a maré da História me fosse soltar daquele rochedo amável a que estava atado. Agora, nesta visita a Aix que talvez seja a derradeira, venho saudar em jeito de despedida os meus simpáticos golfinhos de há tantos anos atrás, alheios ao meu destino singular, empenhados tão só em encherem um tanque que nunca estará repleto de água, emblema mesmo dessa tarefa de Tântalo.

Valerá a pena amar uma terra, mesmo que esta, no fundo, como entidade humana colectiva, como comunidade de seres no tempo e no espaço, nunca se dê minimamente conta do modo como a amamos? A pergunta pode parecer ociosa ou mesmo grotesca. Todavia, ela tem a sua razão de ser, até porque as terras onde o acaso nos fez viver algum tempo da nossa limitada permanência nelas não sabem ou não podem responder ao carinho pessoal que lhes dedicamos, a menos que o responsável por esse sentimento a assinale de modo tão público, por um livro ou uma obra de pintura, que passa doravante a ser objecto de alguma retribuição pelos seus agentes culturais, Nada disto me preocupa realmente, isto é, nunca cuidei de ser estimado como resposta a uma devoção minha que pudesse manifestar por alguma terra onde passei algum tempo da minha vida, já que, no fundo, está na lógica do amor nunca pedir realmente que nos retribuam o nosso desvelo pelos objectos ou seres ou cidades da nossa ternura. O facto de me sentir um entusiasta da Provença e, em especial, desta maravilhosa cidade de Cézanne, não me leva a solicitar qualquer retribuição, pois o facto relevante é que essa cidade ocupou no foro mais íntimo da nossa memória, do nosso psiquismo ou da nossa saudade um papel importante, pois ali saboreei um exílio de algum modo doirado, depois dos três anos gastos na gélida e xenófoba Estrasburgo, três anos metido na sala 4 da Biblioteca Universidade, na Place de la République, a preparar a minha tese de doutoramento.

Aqui, ao contrário, cheguei a fazer alguns amigos e tive o tempo, oscilando entre o desespero e a esperança, de ansiar por um qualquer Messias ou D. Sebastião que me viesse libertar por uma revolução, uma golpe militar ou ainda qualquer outra forma de convulsão política que pusesse fim à longeva ditadura que durou de 1926 a 1974, e que eu, um dia, ao chegar atrasado a um colóquio do departamento de estudos luso-brasileiros, na Faculdade de Letras de Aix-en-Provence, deparei com expressões de espanto e apreensão nos rostos dos colegas e alunos que me olhavam com especial atenção: só num intervalo alguém me veio comunicou a notícia essencial que até ali m escapara, nesse 25 de Abril do ano de 1974, em Portugal, e que tornaria aquela data inesquecível no rol dos dias apagados que passam. Hesitante entre a certeza de que uma revolução feita pelas forças armadas só poderia ter um sentido positivo e libertador e o receio de que, ao invés, um quartelazo viesse a agravar a situação ditatorial de um país há treze anos desencaminhado numa sinistra guerra colonial em três frentes africanas, a verdade é que uma convicta certeza de que a dialéctica histórica nos forçava a escolher o caminho da Liberdade, aquele que me permitiria, dali a pouco mais de um mês, retomar a carreira que ambicionava no meu país, não naquela pátria emprestada e indiferente aos meus tormentos de expatriado.

 


João Medina



 

 

 

Um dia, uma fotografia.

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Martin Luther King

Domingo, 16 de Junho de 2013

Um mês no Luberon: extractos dum diário provençal (2).






Provença, desenho de Valéry Müller







8-VIII

As irmãs Berekova na Provença

 

Nesta tardes mais cálidas em que ficamos no interior da casa à espera que o sol abrande o seu ardor, oiço obsessivamente o trio para piano nº 2 em si bemol maior, op.100 de Schubert, assim como o Notturno op.188. Há nestas peças, como em tantas outras do sublime vienense, uma repetição obsessiva de notas e frases que me fascina e atrai como se estivesse a ouvir insistentemente as mesmas palavras dum Lied preferido, como A Tília, com a sua negra melancolia de inverno martelada num piano, mas sem palavras, reduzida ao puro mistério da música pura, sem sílabas saídas da boca humana a embaraçarem o seu manar repetido nas teclas dum piano e dois instrumentos de arco e cordas. E admiro a arte das executantes, as três manas Berekova, Elvira ao violino, Alfia ao violoncelo e Eleonor ao piano No seu concerto mais longo, a técnica repetitiva de Schubert atinge três cumes de emoção musical, com uma ou outra sugestão da referida Viagem de Inverno, com trémulos ao piano que anunciam um sombrio desenvolvimento que explode, por fim, em duas medidas fortissimo, em cadência au pas, reforçando a tonalidade dolorosa destes dois trios, o que dá a sensação de que, no fundo, estas duas peças formam uma obra única, de algum modo anunciadoras da música minimal repetitiva dum Philip Glass.

Ouvir as irmãs Berekova nesta tarde de calor provençal, nesta vivenda perdida no meio de ciprestes, vinhedos e bosques, dá-lhes ainda por cima uma força dolorosa ainda maior, como se a arte schubertiana se fosse condensando nuns tantos acordes que se vão repetindo com melancolia extrema, tão verdadeira e tão penetrante como se só esta música fosse capaz de me dar a verdadeira dimensão desta mágica Provença, tão cheia de plenitude natural. Ocorre-me que a magia suprema da música consiste precisamente neste condão de ampliar a realidade, dando-lhe uma dimensão ainda maior àquilo que ela já é, como se sem musicalidade nada fosse total ou verdadeiro. E quando o CD chega ao fim e os sons do trio Schubert se evaporam nesta tarde tão quente, fico a pensar que, no fundo, o terrível facto de termos de morrer está na certeza de que não podermos ouvir mais Schubert, nunca, nunca mais. E que sentido pode ter um vida post-mortem se dela estarão eternamente ausentes a audição dos trios de Schubert?

 

 

João Medina

 

 

 

 

Um dia, uma fotografia.

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Catherine Deneuve

Sábado, 15 de Junho de 2013

As pequenas estórias da Grande Guerra.






Foreign Office






Começou a contagem decrescente para o centenário da Grande Guerra. Nome prejudicado pelo conflito sucedâneo, mas que ainda assim prefiro, quanto não mais seja pelo facto de a 2ª Guerra não passar disso mesmo, de um sucedâneo.

Nesta fase apetece recordar algumas estórias exemplares do pré-guerra. Por outras palavras, há precisamente cem anos já se fazia muitas das asneiras que conduziriam à guerra. O que nos deixa sempre com aquela impressão subliminar (e im-provável) de que, se as coisas fossem um bocadinho muito pequenino diferentes, não teria havido a Grande Guerra (nem a 2ª, nem o bloco soviético, nem a Guerra Fria, nem bombas atómicas, enfim, o nosso mundo teria sido ligeiramente diferente, talvez nem tivesse havido Estado Novo). Esta ideia das pequeninas coisas que mudam tudo recorda-me o clinamem da doutrina atomista de Epicuro: o mínimo desvio das partículas que tudo torna possível. Uma teoria óptima para os autores da história virtual. Aqui, contudo, não estamos contra os factos, apenas queremos desenterrar alguns factos pequeninos.

Uma das grandes personagens do período pré-guerra foi o responsável do Foreign Office, Sir Edward Grey (Foreign Secretary de 1905 a 1916, o mais longo período em que a mesma pessoa desempenhou o cargo). Sucede que é mais interessante saber quem estava por trás dele. Nesse trabalho arqueológico, recupera-se a figura de Sir William Tyrrell, private secretary do ministro de 1907 a 1915. Considerado a eminência parda de Edward Grey, deve ter-se em conta que Tyrrell não era o seu Sir Humphrey: este era permanent under-secretary, enquanto Tyrrell era private secretary. No entanto, por razões muito curiosas, dispôs a partir de 1912 de uma tremenda influência, sobretudo na área das nomeações.
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Sir Charles Hardinge




Tyrrell devia o seu lugar a Sir Charles Hardinge, permanent under-secretary de 1906 a 1910. Este queria ser embaixador em Paris quando o diplomata aí colocado se aposentasse, mas desejava que homens da sua confiança ficassem nos cargos chave do Foreign Office (sobretudo os cargos de assistant under-secretary e de private secretary. Em 1907 conseguiu que Edward Grey designasse os seus candidatos: Louis Mallet e Tyrrell. Hardinge partiu do princípio de que Tyrrell o apoiaria nas suas pretensões, porque julgava que ele se sentia em dívida para consigo. Afinal, Hardinge evitara o aposentamento prematuro de Tyrrell quando este tivera um colapso nervoso que, aliás, o conduziria a uma longa dependência do álcool. Acontece que Tyrrell, apesar ou mesmo por causa disso, odiava Hardinge e estava disposto a tudo fazer para frustrar os seus planos.

Sir Charles foi então substituído por Sir Arthur Nicolson, ex-embaixador em S. Petersburgo, sendo nomeado vice-Rei da Índia até ao posto de Paris vagar. Ou assim pensava ser. O seu objectivo é que, a breve trecho, Mallet sucedesse a Nicolson, para mandar à distância no Foreign Office. Tyrrell bem o percebeu, e conseguiu convencer Grey a manter Nicolson num posto que este detestava. Nicolson detestava o caro. Crítico, opunha-se à política do governo inglês e não conseguia manter-se calado. Preferia mil vezes ser nomeado para outra embaixada, pelo que solicitou Viena e, mais tarde, Constantinopla (o Foreign Office continuava a preferir esta designação). Depois de fazer com que Grey resistisse a todos os pedidos de Nicolson, Tyrrell finalmente percebeu que não o ia conseguir manter no cargo mais tempo pelo que fez ver a Grey que Nicolson tinha capital de queixa e merecia a embaixada de Paris, assim conseguindo frustrar a expectativa de Hardinge para a embaixada mais importante da carreira diplomática de então. Entretanto, algo mudou: Tyrrell entrou em choque com a visão  de Nicolson sobre a política externa a seguir, pelo que mudou de ideias e intrigou para que este já não seguisse para Paris, sendo antes imediatamente aposentado.

Interessante é ter em conta o motivo das divergências: as relações anglo-russas. A guerra russo-japonesa e a revolução de 1905 afectaram de tal modo o prestígio do império czarista que o Foreign Office de Hardinge passara a entender que dali já não provinha nenhuma ameaça para os interesses imperiais britânicos. Restava uma única ameaça, a alemã. Eis o que explica o tratado anglo-russo de 1907.

O único dentro do Foreign Office a contestar o tratado fora um amigo de Tyrrell, o qual acusou Hardinge de ter vistas curtas: a Rússia, pela dimensão, pela população, pelas riquezas naturais estratégicas, e também pelo sistema autocrático e ambição do czar, podia a qualquer momento retomar a condição e, sobretudo, o comportamento de grande potência, tornando-se uma ameaça tão grande quanto a alemã. Aliada à Inglaterra, a Rússia poderia arrastá-la para um conflito criado pela Rússia para defender os seus interesses, tanto mais que esta se sentiria protegida pela Royal Navy (o grande problema estratégico dos russos sempre fora o do acesso ao mar e do receio de, apesar da sua dimensão descomunal, serem sitiados por outra potência mundial).

Tyrrell, pelo seu lado, entendia que o tratado só tinha sentido se a Rússia continuasse impotente, ou seja, incapaz de adotar um comportamento agressivo e mesmo de ter pretensões de tomar a ofensiva. Ora, em 1912, o grupo de Tyrrell no Foreign Office conclui que a Rússia já estava a querer retomar o estatuto de grande potência. Encontravam um sinal decisivo no comportamento russo durante as guerras balcânicas, hoje esquecidas, mas que acenderam o barril de pólvora sempre latente na área e que explodiria em 1914. Considerando que a Rússia e a Alemanha eram demasiado hostis entre si para se aliarem contra a Inglaterra, Tyrrell entendeu que o melhor caminho a seguir era o da equidistância, o que, nas circunstâncias, significava para os ingleses evitar uma política anti-alemã e distanciar-se da Rússia. É óbvio para nós hoje que, se esse entendimento tivesse sido seguido, as fragilidades russas teriam feito com que esta fosse muito menos afirmativa na sua política pan-eslava e que, em consequência, muito provavelmente a Grande Guerra não teria eclodido.
 
 
Sir Arthur Nicholson
 

Sucede que o permanent under-secretary, Sir Arthur Nicolson, discordava, como se disse, frontalmente de Tyrrell. Por isso, este concluiu que Nicolson era demasiado pró-russo para ser embaixador em Paris (recorde-se que, no dominó das alianças, a Rússia sabia que se entrasse em guerra a França também entraria, pelo que se sentia muito mais segura para optar pelo conflito, mesmo que se tratasse acima de tudo de servir interesses seus e não da França, nem da Inglaterra claro está). Tyrrell manobrou então para convencer Grey a já não nomear Nicolson para Paris, sendo antes aposentado. Para o efeito, bastaria manter o titular de Paris, Sir Francis Bertie, no cargo até ao final de 1914. Se tal sucedesse, além de Hardinge continuar a aboborar na Índia, Nicolson teria de se reformar porque atingia os 65 anos em Setembro de 1914 e, pormenor delicioso, como permanent under-secretary seria abrangido pelas regras do funcionalismo público – reforma obrigatória aos 65 anos –, e não pelas regras dos diplomatas, os quis se podiam manter em funções até aos 70.
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1914



O grão de areia na engrenagem construída por Tyrrell era que Nicolson continuava como permanent under-secretary e promoveu um brilhante Eyre Crowe, que defendia uma política resolutamente anti-alemã. Crowe, a estrela nascente do Foreign Office, defendeu a posição de Nicolson contra Tyrrell: a Rússia estava mais forte, mas muito menos que a Alemanha, esta era a verdadeira ameaça, pelo que o tratado anglo-russo tinha de ser mantido como uma pedra angular da política externa inglesa.

No verão fatídico de 1914, depois do ultimato austríaco, Tyrrell, fez tudo para impedir que a Inglaterra fosse para guerra secundando a Rússia. Em 1 de gosto foi ele que convenceu Grey a ter um encontro com o embaixador alemão que contribuiu para que o Kaiser concluísse que a Inglaterra não declararia guerra à Alemanha (o que, ironicamente, pode ter levado Wilhelm II a crer que apenas teria de bater a Rússia e a França, entrando mais confiante no conflito). A proposta de Tyrrell que Grey apresentou, registe-se, era absurda: garantia a neutralidade inglesa, não só no caso de guerra germano-russa, mas também no caso de guerra franco-alemã, aqui no caso de as forças germânicas não entrarem em território francês.

Em 1915 Tyrrell teve um colapso, devido à enorme tensão gerada ao longo dos anos pelas suas manigâncias, mas seguramente detonada pela morte do filho mais novo na frente francesa. Ficou três meses sem poder trabalhar e entregou-se mais pronunciadamente à bebida. Grey defendeu-o inicialmente. No entanto, quando o embaixador francês, conhecedor em alguma medida, aliás como os alemães, das intrigas de Tyrrell e querendo comprometê-lo, veio a público revelar o segredo de estado – o alcoolismo de Tyrrell –, Grey viu-se finalmente forçado a substituí-lo. Ouviu-se então um prolongado suspiro de alívio no Foreign Office. Eram as vítimas das tramas de Tyrrell: muito diplomatas, além dos mais importantes referidos, se podiam contar nesse rol.
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O mais espantoso é que, em Agosto de 1916, quando Tyrrell tinha recuperado a compostura, o próprio Hardinge convidou Tyrrell para seu assistente pessoal: este tinha conseguido manter secretas as suas manigâncias em relação ao mentor que, ignorante, continuava a ver nele um fiel seguidor. Na verdade, Tyrrell tinha uma qualidade enorme para um artista do género: não se comprometia, não deixava rasto, sobretudo, nada deixava por escrito. Conta-se, a propósito, que Francisco Franco a certa altura nomeou um governador para as Canárias, o qual, fiel e obrigado, pediu uma última audiência antes de se deslocar na qual suplicou ao ditador que o aconselhasse quanto ao modo de proceder. E este debitou as regras que teriam guiado toda a sua carreira política: “Oír todo, hablar poco, escribir nada!”.

Tyrrell, o homem que, pelo menos de setembro de 1913 a Julho de 1914, ou seja, na fase crucial, dispôs da maior influência junto do Foreign Secretary e que poderia mesmo ter contribuído para evitar a guerra, foi prejudicado pela sua natureza conspirativa. A que se devia tamanha influência? À superfície, Tyrrell era pessoa de uma amabilidade extrema. Alguém que tinha todas as razões para o detestar, Nicolson, dele disse: “by pliant and adaptable gaiety conquered so many hearts.” No entanto, fora outro o factor determinante: a fragilidade anímica de Sir Edward Grey. Viúvo, solitário, Grey sentia a necessidade emocional de ter alguém, um verdadeiro amigo, com quem trabalhar quotidiana e proximamente. Ora, ninguém mais amigável na aparência do que Tyrrell. Além do mais, ninguém mais disponível: o seu casamento fora um fracasso, pelo que a sua mulher o deixara sozinho em Londres, fixando-se com os filhos no country inglês. A todos os títulos, Tyrrell parecia o amigo ideal de que Grey tanto carecia.

Assim se tecem as estórias dos homens que se entretecem com a história do mundo.

 
José Luís Moura Jacinto