sábado, 3 de dezembro de 2016

Lisboa, 1904.

 
 
Yann Martel (n.1963)
 
 
aqui se falou – mal – do livro As Altas Montanhas de Portugal, do escritor Yann Martel (n. 1963), celebrizado mundialmente pelo romance A Vida de Pi, adaptado ao cinema. Em As Altas Montanhas de Portugal, traduzido por Isabel Nunes e Helena Sobral e publicado pela Editorial Presença, a acção decorre no nosso país e, por isso, seria injusto não apresentá-lo nesta série «Estrangeiros em Portugal». Os leitores julgarão.
 
Joshua Benoliel
Praça do Comércio, 1912
 
 
 
Oh, as altas colinas da Lapa! O automóvel – a tossir, a crepitar, a chocalhar, a retumbar, a sacudir-se, aos saltos, a soltar baforadas, a gemer e a rugir – arremessa-se pela Rua do Pau de Bandeira abaixo, o empedrado a fazer-se notado com uma chocalhada incessante e explosiva, e depois atira-se violentamente para a esquerda e parece despenhar-se de uma fraga tal é o grau de inclinação da Rua do Prior. As entranhas de Tomás parecem estar a ser espremidas através de um funil. O automóvel chega ao fim da rua e endireita-se, o que o atira para o chão da cabina. A máquina ainda mal estabilizou, tendo ele recuperado o assento, senão a compostura, antes de dar um salto e subir a última parte da Rua do Prior e entrar na Rua da Santa Trindade, que, por sua vez, desce a pique. O automóvel começa a dançar alegremente sobre as mandíbulas metálicas dos carris do eléctrico, fazendo-o deslizar de um lado para o outro do assento, ora esbarrando no tio, que não parece reparar, ora praticamente caindo do automóvel na outra ponta. Das varandas que passam rapidamente, vê pessoas que os olham com uma expressão carregada.
O tio vira à direita na Rua de São João da Mata com uma convicção feroz. Aceleram rua abaixo. O sol cega-o, mas o tio parece não ser afectado. O automóvel lança-se pela Rua de Santos-o-Velho e mergulha na curva da Calçada de Santos. Ao chegar ao Largo de Santos, olha saudosamente e com brevidade os trauseuntes que se comprazem com actividades lentas no seu agradável jardim. O tio contorna-o até que, com uma brusca viragem à direita, lança o automóvel para a larga Rua Vinte e Quatro de Julho. O marulhar das ondas do Tejo, de cortar a respiração, expande-se para a direita numa explosão de luz, mas Tomás não tem tempo de apreciar a vista, enquanto se projectam através da densidade urbana de Lisboa numa mancha indistinta de vento e ruído. Rodam com tanta velocidade em volta da agitada rotunda da Praça do Duque da Terceira que o veículo é projectado qual pedra de uma funda pela Rua do Arsenal. A azáfama da Praça do Comércio não constitui qualquer impedimento, apenas um desafio divertido. Tomás avista indistintamente a estátua do rei D. José I, no meio da praça. Oh, se ao menos o secretário de Estado do rei, o marquês de Pombal, soubesse os horrores a que seriam sujeitas as suas ruas, talvez não as tivesse reconstruído.

 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O problema do plinto em acrílico.

 
 
 






No ramo do humor negro, I-Nova, a publicação semestral da Servilusa, é a melhor revista nacional. Disponível em velórios, funerais, trasladações e outros actos lutuosos, I-Nova traz-nos o quotidiano dos trabalhadores da empresa (como Hugo Sales, praticante de crossfit, no sector funerário desde 1998) e grandes exéquias de maior aparato. No nº 23 da revista, a reportagem «Making of Eusébio no Panteão Nacional». Vamos a factos: 2 técnicos de cerimónia, 3 técnicos assistentes, 4 operacionais de exumação, 6 operacionais de trasladação, 2 operacionais de armar e desarmar o material. Em nossa humilde opinião, «operacional de armar e desarmar o material» não soa assim lá muito profissional; proporíamos, por exemplo, «operacional de montagem de material», mas é só uma sugestão que aqui fica ao cuidado da Servilusa, que é muito e eterno. Para a trasladação de Eusébio foram ainda utilizadas 2 urnas (uma em madeira e outra em zinco) e 4 essas (uma de madeira, para o cemitério do Lumiar; uma de acrílico, para o Seminário da Luz, sempre preterido nestas questões; duas douradas para o interior e para o exterior do Panteão Nacional).
Com tanto técnico e tão bom material, os resultados ficaram à vista, armada e desarmada.
Como diz o texto da Servilusa, que passamos a citar:
«A perfeição pode não existir, mas estes profissionais asseguram que a equipa não tem outra meta. Além dos inúmeros ensaios no terreno, a Servilusa introduziu outras inovações neste serviço. Quem assistiu à cerimónia no Panteão Nacional poderá recordar-se do plinto em acrílico quer serviu para colocar as condecorações de Eusébio. Uma estrutura inovadora que permite colocar a tradicional almofada, mas com mais estabilidade. Da mesma forma – já não é uma novidade –, a bandeira nacional voltou a ter chumbos nas pontas para não voar. E os leões dourados, à semelhança do funeral, tiveram de ser retirados das essas.
Milhões de pessoas viram a cerimónia da concessão de honras de Panteão Nacional a Eusébio. Algumas terão percebido que, ao contrário do que foi dito pelas televisões, quem transportou sempre a urna até ao Parque Eduardo VII não foi a GNR, mas sim os profissionais da Servilusa. Esses momentos ficarão gravados na história, mas também no progresso da empresa. Depois de desligar as câmaras, os microfones e os flashes, a equipa volta à sala de reuniões para o debriefing. O propósito? Fazer ainda melhor próximo serviço».  
 
É também esse o nosso desejo. Um bom serviço, Servilusa. E muitos parabéns pelo plinto em acrílico. Como bem dizem, foi uma «estrutura inovadora» que, sem dúvida, conferiu maior estabilidade à tradicional almofada. Mais ainda: ao contrário das insídias propaladas pela imprensa televisionada, não, não foi a malandragem da GNR que transportou a urna de Eusébio até ao Parque Edurado VII. Foram os diligentes, competentes e muito profissionais senhores exumadores da Servilusa. Essa é a verdade histórica. É essa a verdade verdadinha, que tem de prevalecer contra todas as formas de desinformação e intoxicação da opinião pública.   
 
 
 
 

Exército Azul de Nossa Senhora de Fátima.

 
 


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Portugal, 1866.

 
 
Hans Christian Andersen (1805-1875) 
 
 
 
            A vinda de Hans Christian Andersen (1805-1875) a Portugal, em 1866, é sobejamente conhecida (ver esta notícia, por exemplo). O «diário» dessa visita já foi, inclusivamente, publicado em Portugal, pelo Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, com tradução e notas de Silva Duarte (sendo mais tarde reeditado numa excepcional colecção de livros do jornal O Independente). Mas, como creio, esse livro está esgotado, justifica-se a transcrição desta breve passagem:  
 

Sintra, 1866

 
 
 
Que transição, ao entrar em Portugal, vindo de Espanha! Era como sair da Idade Média para entrar no presente. Via à minha volta casas acolhedoras caiadas de branco, matas cercadas por sebes, campos cultivados e nas grandes estações podia-se sempre tomar qualquer refresco. Aqui haviam chegado também, como uma brisa, as comodidades dos tempos modernos da Inglaterra, ou do restante mundo civilizado. De uma beleza pitoresca, com lindas casas brancas no meio da verdura, luzia ao alto, na nossa frente, a primeira cidade portuguesa, Elvas.
         Fez-se noite escura e chuvosa. Perto da meia-noite passámos por Abrantes e pouco depois chegávamos à vila do Entroncamento, onde o comboio vindo da fronteira tem ligação com a linha principal entre Lisboa e Coimbra. Na estação encontrámos um hotel verdadeiramente luxuoso e moderno. Pelo menos, assim me pareceu, pois na viagem desde Madrid havia perdido o hábito de todas as comodidades. O Rei de Portugal, no regresso da sua viagem a Espanha, aí havia pernoitado. Tinha uma grande e bonita sala de jantar e servia boa comida e bebidas frescas. Até chá e vinho do Porto se podia tomar. Estávamos, pois, no meio da civilização.
         Depois de uma excelente ceia, o meu companheiro e eu arranjámos lugares para dormir, o melhor que pudemos. Toda a carruagem estava à nossa disposição e durante a viagem não fomos incomodados pela entrada de mais nenhum outro passageiro. Lá fora caía a chuva mas em breve deixámos de a ouvir, mergulhando em profundo sono. De madrugada estávamos nas proximidades de Lisboa. O rio Tejo alargava-se, formando como que um grande lago. Seguíamos ao longo das suas margens, o céu aclarou e o sol ia romper.
         Cerca das quatro horas chegámos a Lisboa, onde o meu prestimoso companheiro de viagem me arranjou uma carruagem e pediu ao cocheiro que me conduzisse ao Hotel Durand, na praça perto da Rua das Flores, precisamente em frente dos escritórios da casa Torlades O’Neill, àquela hora cedo de mais para bater à porta.
         As ruas estavam ainda completamente desertas. No hotel toda a gente dormia, e quando, depois de muito martelar a aldrava, consegui falar com um criado, este informou-me que todos os quartos estavam ocupados, mas que na sala de estar poderia, entretanto, repousar numa cadeira. Não me agradou tal coisa, como também não me agradou ter sabido que ninguém havia na casa e nos escritórios de O’Neill na cidade. Estava a residir a meia milha de Lisboa, na «Quinta do Pinheiro». Era domingo e não viria com certeza à cidade, informaram-me ainda.  
         Tive, pois, mesmo fatigado como estava, de procurar o mais depressa uma carruagem que lá me levasse. Arranjada esta, seguimos por praças e ruelas com casas de aspecto pobre, para fora de portas, entre muros em ruínas, pela estrada de Sintra. O grande aqueduto sobre o vale de Alcântara e os muitos pomares frondosos prestavam beleza aos arredores, Camponeses e camponesas montados em burros, carros chiando sob o peso das cargas, mendigos pedindo em altos gritos à borda da estrada, davam-lhe animação.
         Por fim, virámos de uma estrada entre muros estreitos para um caminho íngreme e difícil, conduzindo a uma casa de campo de aspecto antigo e isolada, numa das elevações mais altas. Era «Pinheiro», «Pinitraeet», como se poderá traduzir em dinamarquês.

 

 

Antes da Uber.

 
 
 
 
 
 
 

 
The New York Times, de 17 Junho de 1932




quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A Rainha e o Comandante.


 

 
No outro dia, no carro para a escola, na rádio, a notícia dos vinte e cinco anos da morte de Freddy Mercury. Estava nevoeiro e frio, como quando cheguei à escola, segunda-feira, há vinte e cinco anos, também com catorze, tinha morrido o Freddy Mercury, na véspera. Com  SIDA. Semanas antes tinha sido Magic Johnson a anunciar que tinha sida. De um dia para o outro, tinham todos SIDA. Não havia internet. Como é que se sabiam as coisas? Como é que se sabia que Freddy tinha morrido? Ou o que queria dizer sida? Os meios de comunicação davam notícias, as pessoas recebiam-nas, acreditavam, e transmitiam-nas umas às outras. Lembro-me de ter ouvido na rádio? Onde? E se não tivesse ouvido, teria ele ficado vivo uns dias mais? Meses, anos? (Um aparte: os Queen eram parte substancial do meu dia, do quarto, da alma).
Não sabiam quem era. Disse-lhes o que sabia, do que fui lendo, alguns poucos factos que retive, um pai austero empregado das alfândegas em Zanzibar (mas podia não ser das alfândegas, podia não ser austero), a compra de uma guitarra em segunda mão em Londres, ténis em Ibiza, o início dos Queen, a recusa inicial dos sintetizadores, os complexos com a aparência física, o sucesso. Não lhes contei aquela que era a minha recordação mais forte de todos os livros e revistas que li, alguns com a idade delas: festas em que anões transportavam na cabeça bandejas de prata com cocaína. Esse facto, que tinha lido num livro mal escrito, orgulhava-me de sabê-lo e achava que poucos o saberiam. Hoje, no Google, há centenas de milhares de referências.
Mas tal como Freddy Mercury tinha morrido, e era verdade, também a vocalista das 4 Non Blondes morreu várias vezes e, vi agora, continua viva com uma carreira de sucesso na produção musical. Como é que se sabia que ela não tinha morrido, se as pessoas diziam que ela tinha morrido?
A confirmação de factos podia ser feita recorrendo a um recorte de jornal, normalmente um instinto de preservação que raramente servia a sua função (onde estavam os recortes, quais, por que ordem, os cantos amarelados a enrolarem, a tinta a esvair-se, porque é que eu recortei isto?). No fundo, toda a confirmação era oral. É impressionante como, até há quinze, vinte anos a cultura era predominantemente oral e paroquial (perguntas em família, em amigos), sim, claro, a prensa de Gutenberg, os livros, as enciclopédias, tudo certo, mas as pessoas não andavam com a enciclopédia luso-brasileira no autocarro, nem tinham a biblioteca de Alexandria na sala. Eu tinha a certeza que uma coisa tinha acontecido porque me lembrava e ou alguém me dizia.
Hoje não é assim. Quando na rádio as minhas filhas ouviram dos vinte e cinco anos da sua morte, podem saber tudo o que quiserem sobre o Freddy Mercury, até enquanto eu lhes conto, na velha tradição oral, quem foi, como morreu, o que fez. Quando explico uma coisa aos meus alunos, ou relato um facto, sei que uma parte está a verificar o que digo no computador ou no telefone. Por um lado, dependemos menos das nossas memórias (que efeitos vai ter no médio prazo?), mas existe aí fora toda a nossa memória, sem lugar ao esquecimento, nem do que está porque foi, nem do que está mas não foi.
Uma cultura que se baseia na possibilidade constante da confirmação de factos, de reputação, é uma sociedade que será menos materialista: sentindo que pode sempre ter tudo, não precisa nunca de ter nada. Começou com a música, os filmes, livros, passará para os automóveis em breve. Mas no conhecimento, no consumo de notícias, a coisa tem o lado negro da notícia falsa, a tal da pós-verdade, que redundará numa escolha entre verdades, se calhar na existência de duas verdades, simultâneas, opostas, ambas com os seus processos de criação, divulgação e confirmação (hoje) permanente.
Em 1984, os Queen lançam, I Want to Break Free, uma música de John Deacon, o discreto baixista, que tinha escrito uma música de revolta e de libertação pessoal (nos Queen também conviviam duas verdades, Freddy excessivo, e John tímido, casado ainda hoje com a mesma mulher, seis filhos). No vídeo de I Want to Break Free, que ficou famoso, os membros da banda, vestidos de mulher numa casa parodiavam a telenovela Coronation Street. Mas a música transformou-se imediatamente num hino da resistência às ditaduras por todo o mundo, da África do Sul à América Latina. Por isso, quando Freddy Mercury subiu ao palco do Rock in Rio em 1985 vestido de mulher para cantar a música, foi assobiado e apedrejado por quem achou isso uma ofensa ao hino de libertação política. A mesma música, duas verdades. E os cubanos, continuarão a ter de cantar I Want to Break Free? Depende de quem lermos hoje. João Taborda da Gama
 
João Taborda da Gama
 
(originalmente publicado no Diário de Notícias; republicado no Malomil graças à generosidade do autor: um abraço, João!)
 

Ribatejo, 1967.

 
 

Cécile Aubry (1928-2010)
 
 
 
 
Cecile Aubry, pseudónimo literário de Anne-José Bénard (1928-2010) é uma personalidade mais interessante do que os seus romances infanto-juvenis podem fazer crer. Escritora, cenógrafa, realizadora de cinema e actriz, foi a autora da celebérrima série televisiva Bela e Sebastião, que muitos de nós ainda recordam. Teve uma carreira promissora no cinema, onde contracenou com Orson Welles e Tyrone Power, mas largou as fitas quando se casou, na mesquita de Paris, com o filho do pachá de Marraquexe, o qual se tornaria realizador e actor. Aubry ganharia fama através das séries televisivas baseadas nas suas obras, com Poly e Bela e Sebastião. Mostrou grande interesse por Portugal, na altura um destino exótico, tendo sido cenógrafa de Poly au Portugal, série de 1965, em sete episódios. Como escritora, escreveu um romance homónimo, mas o trecho que aqui vamos reproduzir, de Poly no Ribatejo, parece  não ser dessa obra, mas antes, como se indica na ficha técnica, de Au Secours Poly! (1967), com ilustrações de Christiane Dufour. Foi traduzido entre nós por Maria Amélia Bárcia e editado pela Empresa Nacional de Publicidade, que já havia publicado, na mesma colecção Poly em Portugal. Pueril, infantil, o que quiserem, mas o que interessa é a visão idílica do país, ou de uma sua região, que dela tinha uma popular autora francesa. Daí este trecho:
 
 

 
 
 
 
 
Naquela manhã, mal nascera o dia, Carlitos, armado com uma escova, dirigia-se para a cavalariça da quinta, na firme intenção de esfregar o pelo, já reluzente, do seu lindo cavalinho Poly.
Poly, que ele devia à amabilidade de Pascal. Ao findarem as férias do ano anterior Pascal tinha visitado o Ribatejo antes de deixar Portugal. O Ribatejo – todos o sabemos – é uma das mais belas regiões do nosso país. Ali, à beira do Tejo, se criam os toiros para as toiradas. Esses bandos de toiros chamam-se – como também sabem – «manadas» e os seus guardas são os «campinos», esses maravilhosos cavaleiros. Noite e dia, armados com os seus longos pampilhos que se assemelham a lanças, rendem-se para manterem a ordem entre os altivos animais, por vezes combativos. Os campinos vivem com suas famílias em vastas herdades isoladas que são verdadeiras aldeias.
Tinha sido numa dessas herdades, talvez a mais bonita, que Pascal e Poly haviam passado perto de uma semana. E assim haviam travado conhecimento com o pequeno Carlitos. Muito moreno, Carlitos era, com os seus dez anos, o mais hábil dos jovens cavaleiros. Seu pai, o Zé Ernesto – chefe dos campinos – orgulhava-se disso. Quanto a Pascal, a sua admiração e a sua amizade por Carlitos foram tais que lhe propôs deixar-lhe Poly até ao Verão seguinte. O cavalinho seria muito mais feliz galopando com Carlitos, do que se ficasse fechado na herdade de Tourelles, muitas vezes fechado na estrebaria. Porque pascal ia entrar num colégio como aluno interno.
Carlitos aceitou satisfeito a proposta. Agora, Poly e ele tinham-se tornado companheiros inseparáveis. Era por isso que, naquela manhã, o rapazito se dirigia alegremente para o estábulo do pónei.
Nesse momento já o pai se encontrava a cavalo, pronto para ir ter com a manada. Carlitos gritou:
 − Pai, posso ir consigo?
− Com certeza – respondeu o pai. – Sela o teu pónei e despacha-te, Vem ter comigo ao pasto, porque não posso esperar por vocês.
         (…)
         Zé Ernesto fez sinal ao filho. Ambos partiram então a trote e foram ter com Afonso, no flanco da manada. Carlitos juntou-se aos campinos que, com o pampilho, incitavam os animais atrasados. Zé Ernesto franziu a testa. Com voz severa, ordenou:
         − Põe-te atrás de nós, Carlitos.
         Um tanto vexado, Carlitos teve no entanto que obedecer. Pôs-se a ver os homens trabalhando sob as ordens de seu pai. Separavam o rebanho em dois grupos: os toiros que ficariam em liberdade na manada e os que seriam escolhidos para a corrida. Os campinos tentavam agrupar-se em volta desses, que seriam uns dez. Tinham de encerrar os dez animais num círculo cada vez mais apertado, até que fosse possível obrigá-los a entrar, um a um, numa espécie de corredor ladeado de altas barreiras que conduzia a um cercado.
         Bruscamente, Carlitos estendeu o braço para um dos touros:
         − O melhor de todos é aquele! – gritou.
         Afonso teve um assobio de admiração.
         − Estás a ver, Zé, o teu filho tem olho! Não há dúvida que o Negro é dos mais fortes e dos mais corajosos.
         Zé Ernesto teve um sorriso de orgulho, mas não quis mostrá-lo ao Carlitos.
         − Agora vai dar um passeio – disse para o filho. – Por hoje já viste bastante.
         (…)
         Poly conduziu Carlitos ao longo dum caminho escavado, com muita sombra. Depois cortou a direito pelo pasto e trotou para o parque de uma casa muito bonita que o pequeno avistava por entre as árvores. Nunca tinha entrado nesse parque, nem na casa toda branca. Zé Ernesto proibia-o formalmente, a todas as crianças da quinta. Era a «casa dos patrões», a bela vivenda de D. Vasco.
 
 
 
 

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Na morte de Fidel (poema).














Na morte de Fidel



É urgente um verso vermelho
que suspenda a animação deste desastre
pensado para durar depois do inverno


É urgente um verso vermelho
com todas as cores do arco iris
e o vento natural do universo


É urgente um verso vermelho
que ponha de novo em movimento os comboios da imaginação
azeite puro em manivelas de razão quente
o peso da história de novo levíssimo
a rodar sobre perguntas livres e ruínas vivas
a paisagem mudar primeiro lentamente
enquanto vão entrando vozes ainda submersas
e corpos mal refeitos da desfiguração da guerra e do comércio
das crateras e promoções


É urgente um verso vermelho
que desate os nós da memória e do medo
e resgate os rios da rebeldia
a palavra cristalina inabalável
inconfundível com as mordaças sonoras
à venda nos supermercados da ordem


É urgente um verso vermelho
para anunciar barco polifónico da dignidade
pronto a navegar
os rios libertos das barragens calcinadas
dos sistemas de irrigação industrial da alma


É urgente um verso vermelho
uma luz manual portátil que vá connosco
sem esperar a que virá no fundo do túnel se vier
porque a cegueira da viagem é sempre mais perigosa
que a da chegada
talvez só entrega
talvez só paragem


É urgente um verso vermelho
que trace um território inacessível
aos vendedores de mobílias espirituais
e turismo de acomodação


É urgente um verso vermelho
vinho de bom ano para acompanhar
sonhos sãos e saborosos
preparados em brasas de raiva e a brisa da alegria


É urgente um verso vermelho
sem solenidades nem códigos especiais
para devolver as cores ao mundo
e as deixar combinar com a criatividade própria dos vendavais







Boaventura de Sousa Santos, aqui



 




 

Roupa de marca.

 
 
 












 
 


Não, não são conselhos de moda & lifestyle nem é a próxima colecção Outono/Inverno de uma marca qualquer. São roupas, roupas vulgaríssimas. As roupas de vítimas de violação. Well, What Were You Wearing?, um projecto da fotógrafa norte-americana  Katherine Cambareri, que parte da noção, acertadíssima (basta recordar um famigerado acórdão do SupremoTribunal de Justiça sobre o «macho ibérico»), de que existe um preconceito ou estereótipo segundo o qual  muitas agressões sexuais são motivadas pelo facto de as vítimas usarem roupas provocantes e sensuais, irresistíveis para os predadores brutais. Como se lhes não assistisse o direito de se vestirem como quisessem... A questão é juridicamente complexa, mas só caso a caso poderemos aferir da existência, ou não, de «consentimento» para relações sexuais. Aqui, o que impressiona, nestas imagens de fundo escuro, é a «banalidade» das roupas das vítimas. Em alguns sites, chega-se a dizer que estas eram as roupas dos agressores, não das agredidas… Roupas de todos os dias, normalíssimas, nada apelativas ou especialmente sensuais (e, repete-se, mesmo que o fossem nada justificaria o crime, que fique bem claro). Para desenvolver este projecto, que continua a aceitar contributos, Katherine inspirou-se num livro sobre agressões sexuais nos campuses das universidades dos Estados Unidos. Segundo um estudo do Departamento de Justiça dos EUA, realizado em nove campus universitários, cerca de 21% das mulheres sofreram alguma espécie de agressão sexual ao longo da sua permanência na academia. Katherine contactou algumas vítimas – vítimas de violação – e pediu-lhes tão-só que mostrassem a roupa que usavam no momento em que foram brutalizadas. As imagens, só por si, nada dizem; são roupas banais, usadas e rasgadas. Quase tão banais, usadas e rasgadas como as mulheres que as vestiam. Num dia de sol ou chuva, algures perto de si.
 
 
 
 

 

Portugal Sensacional.

 
 
 
 

The New York Times, 31 de Janeiro de 1931


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Açores, 1836.

 
 
 
Charles Darwin (1809-1882)

 
A passagem de Charles Darwin pelos Açores em 1836, a bordo do Beagle, é bem conhecida e tem sido amplamente estudada, assim como a correspondência mantida com o cientista português Francisco de Arruda Furtado (1854-1887). O diário que Darwin escreveu no Beagle já foi publicado entre nós, existindo mesmo um livrinho, profusamente anotado, com o título Darwin nos Açores. Diário pessoal com comentários, organizado por José Nuno G. Pereira e Verónica Neves, igualmente autores da tradução que a seguir se transcreve, tendo sido selecionados apenas alguns trechos.
 
O H.M.S. Beagle
 

De manhã estávamos ao largo da ponta Este da ilha Terceira, e ao início da tarde alcançámos a cidade de Angra.
A ilha é moderadamente elevada e possui um contorno arredondado, com colinas cónicas dispersas, de evidente origem vulcânica. A terra está bem cultivada e dividida em campos rectangulares separados por paredes de pedra, que se estendem da beira-mar até bem alto nas colinas centrais.
Há poucas ou nenhumas árvores, e nesta altura do ano a terra amarelada pelo restolho dá um aspecto queimado e desagradável a este cenário. Encontram-se pequenas povoações e casas caiadas isoladas dispersas por toda a parte.
À tarde alguns de nós foram a terra; achámos a pequena cidade muito cuidada, com perto de 10.000 habitantes, cerca de um quarto total da ilha.
Não existem lojas e são poucos os sinais de actividade, com excepção do intolerável ranger de um ocasional carro-de-bois.
As igrejas são muito respeitáveis e existiam antigamente muitos conventos, mas Dom Pedro destruiu vários; mandou arrasar três conventos de freiras e concedeu permissão às freiras para se casarem, o que, exceptuando algumas das mais velhas, foi aceite com agrado.
Angra foi inicialmente a capital de todo o Arquipélago, mas actualmente possui apenas uma divisão de ilhas sob seu governo, e a sua glória desapareceu.
A cidade é defendida por um forte castelo e uma linha de canhões que circunda a base do Monte Brasil: um vulcão extinto com flancos inclinados, com vista para a cidade.
(…)
No dia seguinte, o Cônsul cedeu-me gentilmente o seu cavalo e forneceu-me guias para nos deslocarmos a um local, no centro da ilha, que era descrito como uma cratera activa.
(…)
Gostei do passeio do dia, apesar de não ter visto muitas coisas que valham a pena: foi agradável conhecer um tão grande número de camponeses encantadores; não me lembro de ter estado perante um grupo de homens mais elegantes, com tantas expressões agradáveis e bem-humoradas.
Os homens e os rapazes estavam todos vestidos com casacos e calças simples, sem sapatos nem meias; as suas cabeças parcialmente cobertas por uma pequena carapuça de pano azul com duas orelhas e uma bordadura vermelha, que levantavam da forma mais cortês à passagem de cada estranho.
As suas roupas, apesar de muito esfarrapadas, estavam particularmente limpas, assim como as suas pessoas; foi-me dito que, em quase todas as casas de campo, um visitante dorme em lençóis brancos e janta com um guardanapo limpo.
Cada homem traz na sua mão um bordão de cerca de 6 pés de altura [2 metros]; colocando uma faca comprida em cada extremidade, podem transformá-lo numa arma formidável.
O seu aspecto rosado, olhos brilhantes e postura erecta, dava-lhes uma imagem de elegantes camponeses; quão diferentes dos portugueses do Brasil.
Grande parte dos que hoje conhecemos trabalha nas montanhas, recolhendo lenha.
Uma família inteira, do pai ao rapaz mais novo, pode ser vista carregando o seu molho à cabeça para vender na cidade. Os seus fardos eram muito pesados; este trabalho árduo e o aspecto esfarrapado das suas roupas sugeriam claramente pobreza. Contudo, disseram-me que não é pela necessidade de comida, mas de todos os luxos, um caso paralelo ao do Chile.
Por este motivo, apesar da terra não estar toda cultivada, muitos estão a emigrar para o Brasil, onde o contrato a que estão sujeitos difere pouco da escravatura.
É de lamentar que uma população tão encantadora deva sentir-se compelida a deixar uma terra de abundância, onde todo o tipo de alimento – carne, vegetais e fruta – é extremamente barato e muito abundante; mas o trabalhador apercebe-se que o seu trabalho é proporcionalmente pouco valorizado.
(…)
A ilha de São Miguel é consideravelmente maior e três vezes mais populosa, gozando de um sistema de trocas mais extenso que a Terceira.
A principal exportação é a fruta, para a qual chega anualmente uma frota de navios; apesar de várias centenas de navios estarem carregados com laranjas, em nenhuma das ilhas estas árvores aparecem em grandes números. Ninguém adivinharia que seria este o grande mercado [produtor] das inúmeras laranjas importadas por Inglaterra.
São Miguel tem muito o mesmo aspecto de campos abertos semi-verdes e retalhados de cultivos que a Terceira. A cidade é mais dispersa; as casas e igrejas, ali e ao longo dos campos, estão caiadas de branco, e à distância parecem arrumadas e bonitas.
A terra por detrás da cidade é menos elevada que na Terceira, mas mesmo assim eleva-se consideravelmente; é espessamente salpicada, ou mais exactamente, composta por pequenos montes mamiformes, cada qual um vulcão activo em tempos idos.
No espaço de uma hora, o barco regressou sem cartas; então colocámo-nos bem ao largo de terra, e rumámos, graças a Deus, directamente a Inglaterra.