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segunda-feira, 29 de junho de 2015

O meu herói Eusébio.

 
 
Fonte: http://tertuliabenfiquista.blogs.sapo.pt/1224138.html
 
Como calculam, tendo nascido em 1973 não tive a sorte de ver Eusébio jogar num estádio. Mas, tal como eu, muitos portugueses que nunca viram o «Pantera Negra» receberam a notícia da sua morte com profunda tristeza. As reacções à sua morte ultrapassaram fronteiras e vieram de todos os lados. A imprensa britânica foi particularmente enfática lembrando sempre aquele que foi o melhor jogador do Campeonato de 1966. Entre nós a morte de Eusébio foi seguida de um raro momento de convergência entre todos os clubes e adeptos. A explicação é óbvia: Eusébio foi um dos melhores jogadores do mundo e de sempre. Esta convergência também abrangeu a Assembleia da República que decidiu transladar os restos mortais de Eusébio para o Panteão Nacional.
Eusébio foi um craque num tempo em que o futebol não tinha ainda atingido o estatuto de «fenómeno» mundial. Assim Eusébio foi um pioneiro tal como outros grandes jogadores como Alfredo Di Stéfano ou Ferenc Puskás. E aqui estamos perante uma encruzilhada fundamental: como manter viva a memória de grandes jogadores pré-holofotes? Hoje em dia acompanhamos os jogos e a vida dos jogadores de forma instantânea e temos a sorte de poder ver todos os jogos a nível de clube e selecção na televisão. Sabemos tudo sobre um jogador cuja vida é constantemente «vigiada». Sabemos até demais. E assim como transmitir a um miúdo que todos os dias «acompanha» Messi e Cristiano o que foram estes grandes jogadores?

Fonte: http://www.dw.com/overlay_media/eus%C3%A9bio-o-primeiro-rei-africano-do-futebol/g-17343296
 
 
Para além do papel crucial das federações nacionais e dos clubes destes craques eu diria que o papel fundamental cabe a todos os que gostam de futebol. Por exemplo, eu diria que não se consegue explicar o que é a identidade do Real Madrid sem se ver Di Stéfano. E como transmitir aos mais novos o que foi o calibre de Eusébio? Há muitos momentos que poderíamos destacar mas penso que a escolha acabaria por recair sobre aquele jogo entre Portugal e a Coreia do Norte. Porque foi mais do que um jogo, foi um hino à luta, à resistência e ao não baixar os braços. Eusébio foi um super-herói.
 
 
Fonte: http://www.dw.com/overlay_media/eus%C3%A9bio-o-primeiro-rei-africano-do-futebol/g-17343296
 
Bem sei que categorizar Eusébio como um herói ou um «artista» não é totalmente consensual. Quando morreu tivemos quem destacasse a sua «pouca cultura». Confesso que não tenho paciência para o argumento pseudointelectual que se resume a «mas é só um jogador de futebol» e à clivagem entre o que é «intelectual» (e é claro «superior») e o desporto como meramente «físico» e é claro muito «simples».
        Eu argumentaria que «ler» o futebol assim é redutor e superficial. Ver hoje em dia, por exemplo, uma final da Liga dos Campeões com toda a preparação física, mental e sobretudo táctica é impressionante e inesquecível.
 
 

Eusébio, tal como outros craques, elevou o futebol a um estado de perfeição e os seus jogos e golos são verdadeiras obras de arte ou como diria Camões «obras valerosas». E assim se foi «da lei da Morte libertando» e ultrapassou fronteiras. Deixou de ser nosso e tornou-se um português do mundo.

Lembro-me quando perguntei ao meu avô o porquê da sua admiração do Eusébio. A sua resposta foi imediata: «Eusébio só nos deu alegrias mesmo quando chorou e nós chorámos com ele. E em tempos difíceis e sombrios fez-me sorrir. É um dos meus heróis.»

E foi assim que a «minha» descoberta do Eusébio começou.


Raquel Vaz-Pinto
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

terça-feira, 21 de abril de 2015

Tradição, história e campeões.







 
 
Fonte: http://www.sansiro.net/?page_id=186

 
 
Esta crónica é dedicada ao meu marido Duarte.
 
 
 
Na semana em que teve lugar a primeira mão dos quartos-de-final da Liga dos Campões dei por mim a pensar nos grandes ausentes. Os colossos que nem para a Liga Europa se qualificaram: Manchester United e Milan. Destes dois gigantes do futebol europeu e mundial é a equipa de Manchester que parece mais lançada no regresso às competições europeias. Depois de alguns meses complicados Louis van Gaal conseguiu mudar a atitude dos seus jogadores após uma época desastrosa e está finalmente a transformá-los à sua imagem. O treinador holandês dispensa apresentações e é um dos generais do futebol. Apesar da derrota com o Chelsea no passado sábado o Man United está claramente uma equipa diferente como se viu no derby da cidade. Frente aos Citizens a equipa liderada por Wayne Rooney foi uma justíssima vencedora.
 
Fonte: http://www.goal.com/en-us/news/7179/galleries/2015/04/12/10706322/live-gallery-the-manchester-derby-as-it-happened/ander-herrera-louis-van-gaal-manchester-united-manchester/56
 
Para além de uma excelente exibição colectiva gostaria de destacar Marouane Fellaini com quem finalmente os adeptos parecem ter feito as pazes e, em especial, Ander Herrera cuja maturidade e entrega incondicional me impressiona muito. Van Gaal sempre foi um treinador com ideias muito claras e para quem o «nome» ou o «pedigree» não é o factor determinante nas suas escolhas de jogadores. E essa característica é importante numa equipa que precisa de se renovar e pensar no futuro.
Caminho diferente tem percorrido a equipa italiana do Milan. O derby com os seus arqui-rivais este fim-de-semana foi disso um bom exemplo apesar de casa cheia, ou seja, quase 80 000 espectadores. Se é certo que as duas equipas jogaram com vontade de ganhar senti a falta dos grandes, grandes jogadores. Não deixa de ser curioso que um dos craques do passado glorioso e imperial do futebol italiano, Roberto Mancini (e aquela Sampdoria de 1990-91!) seja o treinador do Inter. A diferença entre as duas equipas de Milão e a Juventus é … enorme. Basta olharmos para a classificação: a Juventus lidera com quinze pontos de avanço em relação à Lazio e à Roma e o Milan e o Inter surgem em nono e décimo lugar. E mesmo em relação às equipas romanas há um longo caminho a percorrer para os clubes de Milão.
Como foi possível chegar aqui? Lembro-me tão bem das grandes equipas de Milão e da sua rivalidade e imensa qualidade. Já aqui falei muito daquela equipa perfeita de Arrigo Sacchi que foi campeã europeia duas vezes seguidas. Para além de jogadores fabulosos o seu trio de estrangeiros, ou melhor dizendo holandeses, era fora de série.

 
 
E ao trio holandês o Inter respondia com o … trio alemão.
 
 
Fonte: https://europafootball.wordpress.com/2011/03/27/derby-della-madonnina-a-historia/
 
 
 

A enorme rivalidade entre os dois clubes de Milão está relacionada com a sua origem. O Milan é o mais antigo tendo sido fundado em 1899 com o nome de Milan Cricket & Football Club. Formalmente, as suas origens inglesas passaram a «italianas» na década de quarenta quando adoptou o nome de Associazione Calcio Milan. Ainda assim ficou Milan. O Internazionale Milano Football Club, mais conhecido como Inter, foi fundado em 1908 por «dissidentes» do Milan. A razão da discórdia entre os dois grupos é aliás muito actual e explica a importância da palavra «internacional»: os dissidentes queriam abrir as portas a estrangeiros e não ter apenas jogadores italianos.
Para nós portugueses é impensável que dois rivais de uma cidade partilhem o mesmo estádio mas é isso que acontece com as equipas de Milão. O estádio de San Siro foi financiado pelo Presidente do Milan, Piero Pirelli, e inaugurado em 1926. Em 1935 seria vendido à Câmara de Milão em 1935 e passaria a ser também casa do Inter em meados dos anos quarenta. Outro exemplo de cooperação está relacionado com o nome do estádio. Em 1980 passou a ter o nome de Giuseppe Meazza, o grande «artista» italiano, duas vezes campeão do mundo em 1934 e 1938, e herói do Inter (embora também tenha jogado pelo Milan duas épocas). Ainda assim os ultras do Inter quando jogam em casa referem-se ao estádio como Giuseppe Meazza e no caso do Milan … é o San Siro.
Voltando ao Milan de hoje a grande pergunta que se coloca é a seguinte: qual é a sua estratégia? Sem dúvida que desde os anos gloriosos de Sacchi tivemos o Milan de Capello ou de Ancelotti (ou o Inter de Mancini ou de Mourinho) mas o que mais impressiona hoje em dia é o desnorte de um grande clube. A esta falta de rumo (ou também por causa dela?) juntam-se as notícias de que o Milan poderá ser vendido por Berlusconi a um investidor tailandês, Bee Thaechaubol. Se assim for segue o caminho trilhado pelo seu arqui-rival em 2013. Neste ano um grupo liderado pelo empresário indonésio Erick Thohir comprou 70% do Inter de Milão.
Será o novo dono capaz de inverter o rumo desastroso do Milan? Há muito que as opções de Berlusconi e do seu braço-direito, Adriano Galliani, são questionadas e em particular as transferências e as contratações. Há muitos exemplos mas diria que o «turning-point» foi a opção de mandar embora Andrea Pirlo. Os detalhes desta decisão são … de uma frieza extraordinária. Pirlo conta na sua autobiografia como se sentiu ao fim de tantos anos de dedicação e amor à camisola. Como bem sabemos ficou a ganhar a minha Juve e Andrea Pirlo tem sido crucial na conquista de três campeonatos consecutivos (e um quarto a caminho).

 
 
Um dos símbolos do Milan (e um dos meus ídolos) Paolo Maldini pôs há muito o dedo na ferida em declarações a um jornal italiano, La Repubblica, em 2012: «eu posso destruir este mito de que sou um membro da família do Milan (…) não me querem lá.» É bem conhecida a oposição de Galliani a um dos poucos homens que lhe pode fazer sombra já que, apesar da saída de Maldini não ter sido bem recebida pelos Ultras do Milan, há poucos heróis como Paolo.

 


Este é um jogador que se estreou na equipa principal em 1985 aos 16 anos e abandonou os relvados em 2009. Tal como o seu pai Cesare (e talvez um dia o seu filho Christian) pertence ao Olimpo do Milan. Paolo Maldini nunca conheceu outro clube e foi campeão europeu cinco vezes, sim cinco vezes: 1989, 1990, 1994, 2003 e 2007. E foi o seu capitão desde 1997 quando outro imortal e ídolo, Franco Baresi, deixou o futebol activo. E até os adeptos do Inter no último derby prestaram homenagem a Paolo Maldini.
É justamente Paolo Maldini que Bee Thaechaubol quer para director desportivo. Seria ouro sobre azul para um homem que sabe melhor do que ninguém o que é o coração rossoneri e a necessidade de pensar nas gerações mais novas incutindo-lhes o amor pela camisola. Como disse recentemente numa entrevista à Gazetta TV: «falta atenção aos verdadeiros valores do Milan». Mais ainda, «uma das fontes de força para um clube como o Milan é a tradição.»


Fonte: http://www.gazzetta.it/Foto-Gallery/Calcio/Serie-A/Milan/20-01-2015/tutto-maldini-esordio-5-champions-100554326167.shtml
 
 
Quando Paolo Maldini se retirou do futebol foram proferidos muitos elogios. Para mim, as palavras mais certeiras e comoventes foram as do capitão do Barcelona Carles Puyol que lhe escreveu uma carta em 2009. Carles Puyol foi capaz de captar a essência deste colosso do futebol mundial: um exemplo de atleta que se foi adaptando ao passar do tempo sem nunca perder a qualidade e que defendia sempre de forma «limpa» e em antecipação. Maldini nunca precisou de agressividade para ser o patrão da defesa, do Milan e da squadra azzurra. Puyol disse-o de forma clara: «O futebol não será o mesmo sem Maldini». Pois não. O Milan que o diga.
 
Raquel Vaz-Pinto
 
 
 
 

terça-feira, 24 de março de 2015

O Olimpo do futebol europeu.

 
 
Esta crónica é dedicada à minha aluna Olga Serbyn,
adepta do Dínamo de Kiev.


 
Fonte: http://fhi360.net/br/noticias/Barcelona-bate-Real-Madrid-e-se-isola-ainda-mais-na-liderana-do-Espanhol-20150322-0014.HTML
 
Domingo foi dia do clássico: Barcelona vs. Real Madrid. E, uma vez mais, o espectáculo não desiludiu. Desde logo pelo ambiente do estádio, a extraordinária moldura humana e «coreografia» de 98 000 adeptos. O jogo foi vibrante tendo o Real uma melhor primeira parte e o Barcelona a sua «vingança» na segunda. Para quem possa ter dúvidas sobre a popularidade do confronto entre estas duas equipas os números são inequívocos: audiência televisiva de 400 milhões de pessoas. Para além dos ingredientes históricos e culturais e da rivalidade entre Leo Messi e Cristiano Ronaldo este era um jogo que podia dar aos catalães quatro pontos de avanço no campeonato espanhol. E assim foi.
Mas este clássico é também importante para percebermos a qualidade e o domínio das equipas espanholas no futebol europeu. Thierry Henry colocou este jogo ao nível das finais do Campeonato do Mundo e da Liga dos Campeões. E ainda na «ressaca» da derrota do Manchester City face aos catalães para a Liga dos Campeões Gary Neville fazia a comparação entre el clásico e outro no mesmo domingo: Liverpool vs. Manchester United. E concluía que embora o clássico inglês teria certamente muito espectáculo (dentro e fora das bancadas) ficaria muito longe da qualidade técnica e táctica das equipas espanholas.
 
Fonte: http://www.telegraph.co.uk/sport/football/competitions/premier-league/11485907/Gary-Neville-We-must-arrest-this-decline-in-our-game-and-stop-the-super-agents-taking-our-top-clubs-for-mugs.HTML
 
 
Entre os muitos problemas apontados por Neville neste excelente artigo há um que é destacado: o fosso entre o «custo» dos jogadores e treinadores e o «retorno» a nível europeu. Sem dúvida que a Premier League continua a ser a «liga milionária» e o último contrato televisivo confirmou isso mesmo (cerca de 5 biliões de libras por três épocas a partir de 2016-2017!) mas será o campeonato onde se pratica o melhor futebol a nível europeu? Esta discussão tem como pano de fundo os recentes oitavos-de-final da Liga dos Campeões e da Liga Europa nos quais todas as equipas inglesas foram eliminadas. Pelo contrário as três equipas espanholas passaram à fase seguinte da Liga dos Campeões (embora os merengues e os colchoneros tenham apanhado um susto).
Na Liga dos Campões o Chelsea e o Arsenal não foram superiores às equipas francesas do PSG e do Mónaco e os Citizens foram derrotados pelos Culés. Foram vitórias diferentes e a mais evidente foi esta última. Em ambos os jogos o Manchester City nunca conseguiu verdadeiramente discutir o resultado. E a partida em Camp Nou foi um «show de bola» dos jogadores da equipa catalã. Messi teve um jogo que nos fez questionar se ele não é um extraterrestre. Pep Guardiola nas bancadas não conseguia conter o espanto e o seu enorme orgulho.
 
 
Fonte: http://www.independent.co.uk/sport/football/european/thierry-henry-psg-deserved-to-win-in-paris-and-they-deserved-to-win-at-stamford-bridge-too-veratti-bossed-the-midfield-10102198.html
 
O duelo mais emocionante foi entre as equipas das capitais francesa e inglesa. No segundo jogo o Chelsea tinha claramente a vantagem do golo fora e tudo pareceu ainda mais encaminhado com a expulsão da estrela da companhia, Zlatan Ibrahimovic, à meia-hora de jogo. Mas foi a jogar com dez que o PSG foi capaz de dar a volta. Foi um jogo que teve tudo: momentos de quase batalha campal; nervos à flor da pele; uma péssima arbitragem de Björn Kuipers (uma de muitas); um erro infantil de Thiago Silva que dá um penalty; um grande golo de David Luiz contra a sua ex-equipa; e a redenção final de Thiago Silva com o segundo golo. Foi impressionante ver o meio-campo do PSG e em particular Marco Verratti muito bem acompanhado por Blaise Matuidi e Thiago Motta. Foi unânime entre os comentadores que Verratti liderou a equipa. Mas o que fez a diferença foi o inconformismo dos franceses face à complacência do Chelsea que não soube liderar o jogo.
 
 
 
Fonte: http://www.standard.co.uk/sport/football/arsenal-boss-arsene-wenger-admits-he-is-hurting-after-monaco-defeat-10074802.HTML
 
 
E a grande surpresa veio do Mónaco. Leonardo Jardim teve que reinventar uma equipa sem os seus dois craques: James e Falcão. Tem todo o mérito e a sua táctica para vencer o Arsenal foi brilhante. A equipa londrina perdeu claramente a eliminatória em casa porque pensava que ia ser fácil. Há muito tempo que eu não via um jogo em que o domínio táctico de uma equipa fosse tão avassalador. Ou como disse Leonardo Jardim: «o Arsenal não mostrou o respeito que nós merecíamos». A eliminação dos Gunners é mais uma acha para a fogueira de quem pensa que o ciclo de Arsene Wenger chegou ao fim. Parece-me mais do que evidente que é preciso um novo líder e uma estratégia. Mas Wenger não concorda.
E para reforçar a ausência de equipas inglesas nas competições europeias o Everton na Liga Europa foi a Kiev perder por cinco bolas a duas com um golaço de Antunes. Aliás se olharmos para as oito equipas da Liga dos Campeões apenas uma não é latina: o Bayern de Munique. E a Juventus volta a estar entre as oito melhores equipas europeias com um Tévez que atravessa um excelente momento de forma. Mas os argumentos italianos vão muito mais longe e foi toda a equipa que não deu ao Dortmund qualquer hipótese. Allegri está de parabéns pois foi capaz de relançar La Vecchia Signora.
O sorteio para os quartos-de-final ditou alguns jogos especialmente interessantes como é o caso do derby madrileno ou a reedição da fase de grupos entre o PSG e o Barça. Na Liga Europa destacaria o Wolfsburg-Nápoles que junta duas das melhores equipas em prova. Aliás o Wolfsburg tem feito um excelente campeonato como demonstra o seu segundo lugar e é um prazer ver jogar o nosso Vieirinha, o suíço Rodríguez e o belga De Bruyne.
 
 
 
Fonte: http://www.bbc.com/news/world-europe-30436752
 
 
Mas as minhas últimas palavras vão para o Shakhtar Donetsk. Sem dúvida que a derrota por 7-0 em casa do colosso bávaro foi muito dura mas ainda assim vale a pena olharmos para esta equipa ucraniana. Se é certo que o fosso de qualidade entre as duas equipas é inegável também é verdade que este é um clube que joga literalmente longe de casa, ou seja, a cerca de mil e duzentos quilómetros em Lviv. E relembro-me que quando jogou «em casa» o campeão ucraniano obrigou o Bayern a um empate e a um jogo que foi tudo menos fácil.
E, como podemos ver, o seu estádio, tal como o território oriental da Ucrânia, não têm sido poupados pela guerra. O futebol não é alheio ao que se passa no mundo mesmo quando os europeus fazem de conta que a guerra na Ucrânia Oriental não existe.
Volto daqui a quinze dias.
 
Raquel Vaz-Pinto
 
 
 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Identidade e tentações das arábias.


 
 
aqui
 
 
 
O clube mais rico do mundo, o Real Madrid, assinou em Setembro do ano passado um contrato milionário com o Banco Nacional de Abu Dhabi. O Presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, considerou esta parceria de três anos uma «aliança estratégica» para o clube espanhol. Assim, os cartões de crédito do principal banco dos Emiratos Árabes Unidos funcionam também como cartões de sócio do clube madrileno. Com o argumento de que assim será possível conquistar mais adeptos nesta região do mundo e tornar o clube ainda mais universal a Direcção deixou cair a Cruz Cristã do seu emblema.
Esta decisão tem dado azo a uma séria discussão sobre os limites do «dinheiro» e a identidade de um clube. Esta questão é obviamente um sinal dos tempos e da globalização do fenómeno futebol e do enorme dinheiro envolvido em todas as suas dimensões. Para os grandes clubes há decisões relacionadas com marketing e receitas de publicidade que levantam questões sérias sobre o ethos fundador. Lembro-me da discussão no Barcelona sobre se deveriam ou não ter patrocinadores na camisola dos jogadores. O Barça aguentou até 2006 tendo o Presidente da altura, Joan Laporta, afirmado de forma solene que «pela primeira vez nos 107 anos da nossa história a nossa equipa de futebol irá ter um emblema na camisola».
É por vezes difícil explicar a essência de um clube e a razão pela qual nos tornamos adeptos. O sucesso é, sem dúvida, um excelente motivo e há equipas vencedoras que pela qualidade de futebol «agarram» novos adeptos. O mesmo se pode dizer de um jogador que nos conquista pela sua entrega ou pela pura genialidade. Para outros são tradições familiares que passam de geração em geração. Eu lembro-me tão bem de ir «à bola» com o meu avô. E ainda temos razões de cariz mais histórico, social ou político. Há casos em que um clube representa uma região ou está mais associado ao poder. Também encontramos rivalidades entre clubes cujas origens eram mais «humildes» e mais «endinheirados» como o Milan vs. Inter. Para além de herdarmos a essência de um clube também assumimos as suas rivalidades. Não se pode ser sócio do Barcelona e do Real Madrid ou da Lazio e da Roma ou do Manchester United e do Liverpool.
Todos os grandes clubes têm um «mito fundador» e uma «personalidade» vincada que foram construindo ao longo do século XX. Por vezes, esta construção não foi fácil e teve momentos muito complicados como, por exemplo, os desastres aéreos que vitimaram a extraordinária equipa do Torino – Il Grande Torino – em 1949 e a do Manchester United em 1958.
 
 
No processo de construção de uma identidade futebolística é também importante o papel desempenhado pelos seus jogadores e dirigentes. Ninguém tem dúvidas que Di Stéfano foi crucial na afirmação do Real Madrid bem como o Presidente que dá o nome ao estádio, Santiago Bernabéu, que exerceu a sua liderança de 1943 a 1978. De igual modo foi fundamental o papel de Vicente Calderón no rival Atlético durante duas décadas.
 
 

 
 
Hoje em dia, a realidade dos grandes clubes é bastante diferente e resulta da enorme popularidade do futebol e da sua força económica e financeira. Nesse sentido a parceria do Real Madrid ilustra uma tendência que se nota há já alguns anos, ou seja, o crescente investimento de países ou indivíduos cujas fortunas estão associadas ao petróleo e ao gás natural. No caso de países estes investimentos são, para além da evidente componente financeira, excelentes instrumentos de soft power. Já escrevi sobre o Qatar e a organização do Campeonato Mundial em 2022 que é o melhor exemplo de uma estratégia bem delineada. Para o sucesso qatari foi crucial o patrocínio do Barcelona através da sua companhia aérea ou a compra do Paris Saint-Germain pelo seu fundo soberano. Mais ainda, o Qatar parece estar mesmo na moda como podemos ver pela escolha de Doha como o local de realização da Supertaça italiana no passado 22 de Dezembro entre a Juventus e o Nápoles. A região do Golfo Pérsico oferece-nos outros exemplos para além do Qatar e do Real Madrid. Se atravessarmos o Canal da Mancha temos o Manchester City e o Arsenal e os respectivos estádios Etihad e Emirados. Tendo em conta os títulos destes dois clubes diria que o investimento do Sheikh Mansour de Abu Dhabi no clube de Manchester tem sido uma melhor aposta.
 
aqui
 
No entanto, o poder energético não se manifesta apenas em versão Golfo. Temos também que olhar para Leste e em particular para a Rússia e Azerbaijão. Em relação ao maior país do mundo o exemplo mais conhecido diria que é o de Roman Abramovich que comprou o Chelsea em 2003. E, sem dúvida, que o Chelsea de Abramovich é … outro clube. Há quem avance que Abramovich já investiu cerca de um bilião de libras. Tal como o PSG o Chelsea tem sido capaz de efectuar contratações milionárias. Do lado russo temos ainda que destacar a Gazprom que patrocina não só a equipa alemã Schalke 04 (um dos seus principais mercados) e os russos do Zenit de São Petersburgo, mas é também um dos patrocinadores oficiais da Liga dos Campeões da UEFA e, é claro, do Campeonato Mundial de 2018 da FIFA. E, por último, gostaria de destacar o patrocínio do Azerbaijão ao Atlético de Madrid, um investimento que tornou a «marca» azeri conhecida no mundo inteiro tendo em conta o excelente percurso da equipa de Simeone. Mais ainda se pensarmos que o primeiro ano e meio custou … «apenas» 12 milhões de euros.
 
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No Real Madrid a discussão continuará agora também sobre o nome a dar ao novo estádio. Tendo em conta o patrocínio da International Petroleum Investment Company (IPIC) da família real de Abu Dhabi, que comprou a CEPSA em 2011, principal financiadora do novo estádio, há várias hipóteses em cima da mesa. Florentino Pérez foi «apanhado» a dizer que «pomos IPIC Bernabéu ou o que eles quiserem… ou CEPSA Bernabéu». No entanto, um inquérito feito aos sócios revelou que cerca de 66% estão contra a alteração do nome do estádio.
Diria que a controvérsia vai continuar e é um sinal dos tempos. Há mesmo limites ao que um clube pode fazer aos seus símbolos? O que caracteriza a identidade de um clube? Os seus sucessos e/ou a sua história?
E há mesmo quem com ironia comece já a discutir o que fazer ao nome do melhor jogador do Real Madrid. Isto porque o seu primeiro nome é … Cristiano.
 
Raquel Vaz-Pinto