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sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Todos Charlie?



 

No julgamento da matança no Charlie Hebdo, alguns sobreviventes do jornal iconoclasta denunciaram o «estalinismo mental» de algumas personalidades e publicações, como o Le Monde Diplomatique, responsáveis, segundo eles, por uma criminosa complacência para com o terrorismo de inspiração islâmica. E agora, somos todos Charlie?  





sábado, 18 de janeiro de 2020

A porta do Oriente (15).

 
Em Tyr, o campo arqueológico de Al Medina corresponde à antiga cidade romana.
Uma via romana ladeada por colunas de mármore impõe-se na paisagem.
 
 
 

 
 
Uma rara arena rectangular provavelmente usada para espectáculos aquáticos:
 
 

 
As termas:
 
 
 

 
 
E sendo Tyr uma região de influência xiita não deixa de celebrar os seus heróis:
 


Fotos de 9 de Novembro de 2019
 
José Liberato
 
 
 
 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A porta do Oriente (4).


 
 
 
 
A revolução de 2019 teve como motivo próximo uma decisão do governo libanês de impor uma taxa sobre as comunicações por Whatsapp. Sem que se compreenda como seria possível executar tal medida, o que é certo é que o Governo está desesperado para encontrar novas fontes de receita num sistema em que a fiscalidade é extremamente deficiente.
As manifestações de protesto contra a medida, convocadas através das redes sociais a partir de 17 de Outubro, tiveram um êxito completamente inesperado, mesmo para os seus promotores. Pela primeira vez, realizaram-se no país manifestações não confessionais. Pela primeira vez houve manifestações em cidades como Tripoli considerada como um reduto dos jihadistas.
A questão dos fogos florestais e da forma incompetente como o Governo lidou com o assunto também contribuiu para alimentar a contestação
Rapidamente grupos de jovens tomaram conta de zonas contíguas ao Parlamento, organizaram acampamentos onde debatem horas sem fim.
Sem leaders e sem conexão com os partidos políticos existentes, o movimento parece convergir na ideia-chave de luta contra a corrupção. Pretende um governo de tecnocratas e uma nova Constituição que aponte o fim do Confessionalismo e o fim do voto só para os maiores de 21 anos.
Muitos intelectuais libaneses acreditam piamente na ingenuidade e independência do movimento revolucionário.
Já conseguiu a demissão do Governo e também provocar o debate sobre a composição do novo.
 


 
Ruas de Beirute cortadas ao trânsito
 


 
Os grafitti
 


 
Em Beirute, a  Praça dos Mártires (onde os otomanos enforcaram vários patriotas libaneses no início do século XX) e os acampamentos dos manifestantes.
 


 
 
A Praça dos Mártires, vendo-se o Monumento símbolo da Revolução (um punho cerrado). O monumento feito em madeira foi entretanto incendiado por desconhecidos.
 
Fotografias de 8 de Novembro de 2019
 
José Liberato
 
 
 
 

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Vidas singulares: Khaled Al-Assad (1934-2015).

 



Perdoem-nos a brutalidade da imagem abaixo, mas é a vida. Ou melhor, a morte. Decapitado. Khaled al-Assad nasceu em Palmira em 1934. Arqueólogo, foi chefe de antiguidades da cidade durante mais de quarenta anos até se reformar em 2003. Trabalhou em vários projectos de salvaguarda do património, ora com a Unesco, ora com a União Europeia. Escreveu mais de vinte livros sobre Palmira e a Rota da Seda. Era fluente em aramaico, especialista em história antiga galardoado pela França, pela Polónia, pela Tunísia. Em 2015, foi preso pelo Estado Islâmico, mantido em cativeiro durante mais de um mês. Exigiram-lhe que revelasse onde se encontravam os tesouros de Palmira. Recusou-se a falar. Já antes, preferira ficar na sua cidade, defendendo a sua memória, mesmo quando ela estava prestes a sucumbir à barbárie do ISIS. Exibiram a sua cabeça cortada, de óculos postos. Foi decapitado na sua terra natal; aos 81 anos.  
 
 
 
 
 

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

O #MeToo da Pérsia.




A revolução de 1979 foi uma salada russa, e não um monólito islamita. Além dos islamistas, outros grupos participaram no levantamento: comunistas, socialistas, nacionalistas laicos, etc. Encarnando a figura da intelectual laica, a juíza progressista Shirin Ebadi engrossou as fileiras que derrubaram o Xá. A desilusão, porém, não tardou. Ebabi julgava que o Irão caminharia para um regime constitucional inspirado em Mosaddegh, mas, na verdade, caminhou no sentido do totalitarismo. Tal como os outros mencheviques, Ebadi foi aniquilada pelos bolcheviques, os islamistas de Khomeini. E se o Xá reprimia apenas o processo político (modelo autoritário), Khomeini começou a reprimir toda a sociedade (modelo totalitário). As maiores vítimas deste totalitarismo foram as mulheres. Pelo simples facto de ser mulher, Ebadi perdeu o cargo de juíza.
Ao longo das suas memórias (O Despertar do Irão, Guerra & Paz), Ebadi utiliza muito a palavra “segregação”. Uma palavra apropriada, sem dúvida. O Irão transformou-se numa espécie de Apartheid com a misoginia no lugar do racismo. Qualquer demonstração de feminilidade passou a estar no centro da política. Até podemos dizer que esta teocracia foi construída sobre um grande pilar: impedir que as mulheres infectem os homens; a mulher é por inerência uma rameira que desorienta o homem, esse ser casto que é apanhado desprevenido pela peçonha da fêmea. Este totalitarismo de alcova gerou e ainda gera um ambiente tão sinistro e absurdo que por vezes chega a ser cómico. Ao longo da leitura de O Despertar do Irão ficamos muitas vezes com a impressão de estarmos perante uma série de humor nonsense. Por exemplo, as festas de anos das filhas de Ebadi tinham de ser realizadas durante a hora de ponta, pois desta forma o ruído dos carros abafava o som da aparelhagem. Se descobrisse a festa, a polícia dos costumes (komiteh) invadiria a casa. As festas eram proibidas, tal como o álcool e cassetes de música. Eram e julgo que continuam a ser.
A restante lista do nonsense é interminável: se for apanhada com maquilhagem, uma mulher pode ser presa; se mostrar o pulso, uma jovem pode ser humilhada em público; se mostrar o tornozelo, uma rapariga pode ser açoitada. Ser mulher é um pecado, logo qualquer centímetro do corpo feminino é pecaminoso, mesmo o tornozelo, que, como se sabe, é uma proeminência deveras excitante. Perante este retrocesso da condição feminina, Ebadi começou uma segunda vida enquanto advogada das causas difíceis: a defesa dos dissidentes e a defesa das mulheres. Tornou-se particularmente subversiva, porque nunca invocou leis e teorias de Direitos Humanos exteriores à tradição islâmica. Para criticar a teocracia, Ebadi usou sempre os códigos morais do Islão, provando com isso duas coisas: o radicalismo islamita não respeita o Islão, e não existe um abismo irreconciliável entre a fé islâmica e a decência constitucional.
Camelia Entekhabifard (jornalista exilada nos EUA) nasceu em 1973, isto é, tem a idade das filhas de Shirin Ebadi. Nas suas memórias (O Preço da Liberdade, Edições Asa), podemos ver que a demência surreal não anulou apenas a vida profissional de mulheres maduras como Ebadi. O rolo compressor do nonsense também chegou à vida das adolescentes. Por exemplo, Entekhabifard foi espancada por usar sandálias sem meias no pico do Verão. No sistema educativo, Entekhabifard presenciou a implementação da segregação através do fim das escolas mistas. Parece que as cartas de amor e os beijos fugidios são armas de destruição massiva. Entekhabifard viu rapazes a serem açoitados e raparigas a serem levadas a um hospital para que um médico confirmasse a sua virgindade. O seu crime? Estavam numa festa. Quando cresceu, Entekhabifard serviu uma vingança bem fria ao regime através do seu trabalho jornalístico que apontou baterias a esta patética sexualização da política: fez peças sobre a “revirginização de raparigas” e sobre a prostituição na cidade santa de Qom. Pagou caro esta coragem: ameaças de morte, prisão, tortura, exílio.
Devemos notar que a luta de Entekhabifard e Ebadi não tem como referência uma noção abstracta de Direitos Humanos ou de Direitos da Mulher. Pelo contrário, estas duas mulheres têm como referencial a memória familiar e a sociedade iraniana pré-79. Entekhabifard não esconde o respeito pelo legado do Xá e da Imperatriz Diba no que diz respeito à emancipação das mulheres. Ao invés de Entekhabifard, Ebadi deplora a velha dinastia, mas não nega que os Pahlavi dignificaram a condição feminina, um pouco à imagem do programa laico de Atatürk na Turquia. Antes de 1979, Teerão era uma grande metrópole com um leve ar cosmopolita. Nos anos 60 e 70, a liberdade e a libertinagem de Teerão não seriam as mesmas de Greenwich Village, mas a capital da Pérsia estava mais próxima do Ocidente do que de Riade ou Islamabad. Neste ambiente de abertura, Shirin Ebadi teve a possibilidade de entrar na magistratura, e a meninice de Entekhabifard foi semelhante à de qualquer jovem ocidental: bonecas Barbie, acesso a qualquer tipo de livros, festas, maquilhagem, música punk e a idolatria dos ícones pop americanos. Esta normalidade muito ocidental descrita por Ebadi e Entekhabifard foi interrompida pela revolução islamita. Nós, ocidentais, habituámo-nos a ver o Irão como um sinónimo de fanatismo religioso e de anti-ocidentalismo, mas na verdade o Irão é porventura o país muçulmano mais parecido com o Ocidente. Não por acaso, Marjane Satrapi escreveu esse grande romance gráfico chamado Persépolis (Edições Contraponto) para provar este ponto: a normalidade iraniana está mais próxima do cosmopolitismo do que do islamismo, até porque a Pérsia é anterior ao próprio Islão.
Persépolis é um romance sobre a família e sobre a pátria, sobre o carinho familiar e sobre a busca de uma redenção colectiva - para a família e para o país. Através das vinhetas da Satrapi-criança, vemos a luta contra o Xá e, logo depois, a desilusão perante o desenlace da revolução. Através das vinhetas da Satrapi-adolescente, vemos a resistência do espírito perante a opressão: as festas às escondidas, a compra de cassetes à socapa, o desafio aos professores, a avó que ensina a neta a colocar jasmim no sutiã, a fuga para a Áustria. Através das vinhetas da Satrapi-adulta, vemos uma sociedade cosmopolita a resistir às escondidas, isto é, vemos um país esquizofrénico onde as pessoas têm uma – falsa – persona pública e um – verdadeiro – alter ego privado. E é esta sufocante esquizofrenia que leva Satrapi ao exílio derradeiro em França. Mas, apesar deste sabor trágico, Persépolis não deixa o Irão (e o leitor) num beco sem saída. O livro é percorrido por um espírito de esperança e de orgulho em relação à pátria persa. Como todas as grandes escritoras, Satrapi não mostra isso de forma explícita, mas o patriotismo está lá, escondido nos pormenores. É como se Satrapi acreditasse que a Pérsia tem a redenção à sua espera. E, de facto, o regime de 1979, ao contrário da civilização persa, não pode durar para sempre. O seu fim até pode estar mais próximo do que se pensa. A geração que devia estar a consumar a revolução islamita, a geração de Satrapi, está a contestá-la. Aliás, Persépolis confirma uma das frases mais fortes de Shirin Ebadi: “a juventude iraniana permanece animadamente pró-americana”. O Irão ainda vai ser nosso amigo. Um país onde as avós enchem o sutiã com jasmim só pode ser nosso amigo.


Henrique Raposo


 

 

Ensaio publicado em 2012 na revista do Expresso (no Actual, se a memória não me valha); o título original é “o Irão é nosso amigo”.

 

 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

domingo, 17 de setembro de 2017

Histórias de mulheres: 100 dias de solidão.

 
 





















Já falei aqui da exposição patente no IVAM, em Espanha, de artistas e criadoras dos países do Mediterrâneo. Entre elas, Nidaa Badwan, nascida em 1987 (santo Deus…), no Abu Dhabi. Esta artista palestiniana foi ameaçada pelo Hamas por não andar de hijab na rua. A resposta que deu foi de uma imensa coragem. Sozinha em casa. As imagens parecem – e são – voluptuosas, como se Nidaa estivesse sequestrada num serralho – que esteve. Foi ela que o decidiu, fechar-se em casa durante cem dias, cem dias de solidão. Na solidão de si mesma, como diria Elizabeth Cady Stanton, num texto que traduzi aqui, e de que a minha saudosa querida amiga Fátima Patriarca, outra mulher de coragem, tanto gostou. As imagens que vedes, senhores, são de uma coragem imensa, de uma ironia enorme. Ao retratar-se assim, toda erótica na sua casa, na sua casa de cores quentes envolventes, Nidaa Badwan está a praticar um gesto de protesto – protesto artístico e político –, arriscando a sua vida e a sua beleza para que eu possa escrever isto aqui, hoje, sem medos nem temores. Estas imagens de 2013 denunciam a opressão da liberdade no espaço público; ao fechar-se em casa – o único lugar em que era livre, sorridente e feliz – a artista palestiniana mostra urbi et orbi a crueldade do Hamas e dos seus partidários. Tão simples como isto. Tamanha simplicidade chega a ser dolorosa, num mundo que, insistimos, é um lugar estranho.