Quando nasceu o Francisco da Diana e
do Gonçalo, publiquei aqui uma história pequenina.
Entretanto, apareceu a destinatária do álbum de bebé, que me
falou. Gostosamente lhe devolvi aquilo que lhe pertencia e que esteve perdido durante
anos. Comprei-o ao acaso na Feira da Ladra. Como este. Agora nasceu outro Francisco. Por isso e por ele aqui vai mais outra história pequenina. Devolve-se a
quem provar pertencer-lhe. Até lá, e sempre, para a Raquel, para o Pedro e para o Francisco.
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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
terça-feira, 14 de maio de 2013
Medida por Medida.
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Enganos
do governo: autoridade e substituição
em Medida
por Medida de William Shakespeare
I
Medida
por Medida é habitualmente descrita como uma
peça-problema de Shakespeare. Podemos dizer que Medida por Medida problematiza um fenómeno político-jurídico: a
substituição do governo e da lei. O ponto de partida desta peça é uma típica delegação
provisória do poder. Um governante, o Duque de Viena, prepara-se discretamente
para sair da cidade em missão diplomática e precisa de escolher um substituto
que assuma o governo durante a sua ausência. Na linguagem de hoje, diríamos que
o impedimento do Duque obriga à nomeação de um interino. Viena não pode ficar sem governo para aplicar a lei aos
cidadãos. Torna-se por isso indispensável designar um governante transitório
que cuide da execução das leis, impedindo a cidade de cair na desordem e
licenciosidade.
Ao contrário das nossas sociedades
políticas que definem no plano do Direito quem é que pode assumir a condição de
interino e através de que formas, neste caso a escolha compete integralmente ao
Duque. É o Duque quem escolhe o seu próprio interino. Porém, ao contrário de
nós que também não confundimos o titular do cargo e do seu substituto – o
interino é sempre e só um interino, exercendo competências limitadas de
substituição –, o Duque de Viena não ignora que a cidade passará a ser
governada por outro. Mesmo que transitoriamente, o poder do
Duque ficará entregue nas mãos de outro e será exercido por outro.
No primeiro diálogo com Éscalo, logo na
abertura da peça, o Duque de Viena torna claros os termos de um dilema, que
pode ser caracterizado pela contradição que sempre existe entre a teoria e a
prática do poder. Ao perguntar a Éscalo se ele aceita a escolha de Ângelo, o
Duque não quer saber se este fará boa figura,
nem se procederá com zelo e competência. A sua preocupação é que Ângelo possa
fazer bem a figura do Duque, encarnando assim “o seu próprio poder”:
–
Parece-vos que ele fará bem a minha figura?
Digo-vos
que com especial cuidado
O
elegemos para velar a nossa ausência,
Usar
o nosso terror, vestir o nosso amor,
E
dispor no seu mando de todas as artes
Do
nosso próprio poder.
Visto desta perspectiva, Ângelo é um fiel
reprodutor da vontade do Duque, de quem recebeu o cargo para ser “inteiro” como
ele, para usar do “nosso terror” e do “nosso amor”, para aplicar a “pena de
morte” e o “perdão em Viena”. Ou seja, para se servir de todas as prerrogativas
que associamos ao governo do Estado: punir, castigar, perdoar, proteger. Por
isso, a medida de Ângelo só poderia ser a mesma medida do Duque. Eis neste
aspecto a consumação da substituição legal entre os dois.
Mas esta insistência do Duque nas
“artes” que vêm com o governo já nos revela aquilo que mais o preocupa. Ângelo,
o substituto, não recebeu um governo que pudesse proclamar como seu mas um
governo alheio. O Duque cedeu o governo a Ângelo. Para aquilo que mais importa,
é Ângelo que agora passa, de facto, a exercer
o governo. A entrega a um delegado temporário está carregada de significado
político e jurídico. Ângelo, não o Duque, assumirá a partir daí, visível e publicamente,
as responsabilidades desse governo. Pedir-lhe-ão contas a ele. E será ele o responsável
por aplicar as leis e por distribuir justiça ou injustiça em Viena, pois não
encontramos aqui qualquer separação moderna entre o poder executivo e o poder judicial:
o governante é ao mesmo tempo o mais alto magistrado da cidade. Há um só poder, como há um só rosto do poder. O poder de punir, de
reprimir, de julgar. Este poder, na sua visibilidade e na sua presença, existe
para ser exercido com todos os custos e sacrifícios inevitáveis. Terá o
delegado Ângelo melhores condições do que o Duque para “no seu mando dispor de todas as artes do poder”? Terá o Duque
escolhido Ângelo para este realizar aquilo de que o Duque não é capaz: o
exercício e a decisão difícil do governo?
A ambiguidade de Medida por Medida enquanto teatro sobre a substituição do poder decorre
destas perguntas. Pode alguém que vinha exercendo o governo de pleno direito furtar-se
a exercê-lo através de um acto forjado de substituição?
II
O diálogo inicial com Éscalo,
compreendemo-lo agora, era essencialmente retórico. O dilema do Duque não consistia
em assegurar que Ângelo cumpriria bem na sua ausência. Pois ficamos a saber que
a saída do Duque foi uma encenação. O Duque afinal não saiu, permaneceu em
Viena e disfarçou-se de frade para poder acompanhar a acção do substituto Ângelo.
O Duque quer testar menos Ângelo do que o povo. Trata-se de outro efeito
resultante da substituição política e jurídica. A transferência do governo para
o delegado não passa de uma hábil estratégia política do Duque, que pretende
afastar-se dos “holofotes” para escapar momentaneamente às consequências do
governo.
Ao fim de vários anos de domínio, Viena está
afundada na libertinagem e na indisciplina. As leis não são respeitadas. Os
costumes estão dissolutos. Mais do que nunca, Viena precisa de governo. Para alterar
este estado de coisas, será preciso uma força tal que restitua o sentido da lei
e da obediência, que proíba e sancione a “lascívia”, como fará mais tarde Ângelo
quando condena Cláudio.
Chegados aqui, é difícil evitar um
paralelo entre esta Viena em decomposição, cujas leis duras e severas se
deparam com uma realidade licenciosa, e os nossos estados democráticos que
também possuem leis duras e severas e também descobriram o desregramento.
Temos
decretos duros e leis apertadas,
Bons
freios e bridões em pilecas rebeldes,
Que
nestes anos deixámos fugir da mão.
“Que nestes anos deixámos fugir da mão”.
O Duque está, pois, cada vez mais afastado do povo, cada vez mais isolado nas
vestes formais do seu poder com que não parece confortável. Mas, sobretudo, os
“bons freios” perderam-se. A busca de um disfarce e a transferência do poder
para Ângelo denunciam o fracasso de uma governação impopular:
Amo
o povo,
Mas
não gosto de me exibir diante deles.
Sabe
que amei sempre a vida retirada,
E
tive em fraca conta estar em assembleias.
O Duque confessa-se. Incapaz de
governar, de pôr ordem na cidade, de fazer cumprir decretos e leis, e agora escondido,
quais são os caminhos que lhe restam? Poderia demitir-se, renunciar ao seu
cargo, para usarmos a nossa linguagem democrática, mas estaria aí uma confissão
imperdoável de derrota. Ou poderia endurecer o seu poder com uma nova e mais
implacável presença, mas passaria a ser visto como um abominável tirano
perdendo todo o respeito e afecto que ainda sobrasse do povo.
A verdade, contudo, é que o Duque opta por
uma terceira estratégia, recorrendo a um delegado com reputação de “austero”
para impor leis mais duras a um povo que tem vivido às “largas”. Ângelo,
voltamos ao nosso paralelo com o presente, será o equivalente às delegações de
funcionários internacionais (do FMI, da Comissão Europeia) que na Europa deste
tempo obrigam os governos de estados endividados a ser “austeros” e impor “leis
mais duras”? A psicologia autoritária de Ângelo é o trunfo de que o fraco Duque
necessita para restaurar a ordem e a licença
em Viena, para fazer a justiça rigorosa e a austeridade, sem as quais o poder pode soçobrar. É o Duque, de
resto, que expressamente o admite:
Já
que foi erro meu dar largas ao povo,
Era
grande tirania açoitá-los e moê-los
[…]
Foi por isso, meu padre,
Que
entreguei a Ângelo este cargo.
E
escondido no meu nome ele cumprirá,
Sem
que vá a minha autoridade a essa luta
Ouvir
calúnias.
Este artifício do Duque não deixa de surpreender
pela sua extraordinária sinceridade e actualidade. Os políticos que conhecemos
nas nossas democracias desejam menos escapar ao estatuto do poder, de cuja aura
naturalmente precisam, do que às dificuldades de exercer o poder contra o povo. Sabem que o povo não
perdoa aos que perdem o seu respeito. O Duque encontra-se na mesmíssima posição
daqueles governantes democráticos que estão mais disponíveis para a indulgência,
para a permissividade, para distribuir favores e prebendas, como poderíamos
dizer nos nossos dias, do que para a face mais agressiva e drástica do poder.
Ângelo afigura-se por isso uma via perfeita para o Duque governar por
interposta pessoa, protegendo de qualquer maneira as vestes da sua autoridade –
“sem que vá a minha autoridade a essa luta ouvir calúnias”. Esta frase é
deveras importante. As ditas “calúnias” a que seria poupada a “autoridade” do
Duque são o julgamento do povo, que seria só dirigido contra o delegado:
E
o novo delegado do nosso Duque –
Seja
por falta ou por fogo da novidade,
Ou
por ser o corpo do Estado
Um
cavalo para o governante montar,
E
esse, acabado de sentar, para dizer
Quem
manda, dá-lhe logo a espora,
Seja
por estar a tirania no seu posto,
Ou
apenas a vaidade ter enchido o lugar.
III
Será então legítima esta estratégia com
que o Duque visa endossar provisoriamente o poder a fim de se poupar a si mesmo?
É curioso que, em O Príncipe, Maquiavel afirma que sim. Segundo conta o florentino, depois de
conquistar a Romagna Cesare Borgia deparou-se com um território dividido e
desgovernado que era necessário pacificar. Em 1501, Borgia nomeou o delegado
Remirro de Orco, conhecido pelo seu carácter enérgico e cruel, à semelhança do Ângelo
de Medida por Medida, e a quem
concedeu plenos poderes para impor a ordem. Como o delegado fosse bem-sucedido,
Borgia arranjou maneira de concentrar em Orco a responsabilidade por todos
esses actos violentos e cruéis, libertando a sua autoridade da revolta popular
que fatalmente se seguiria. Mas Borgia sabia que o ódio na cidade mais tarde ou
mais cedo acabaria por resvalar. O seu governo bem quis fugir às
responsabilidades pesadas do governo. Mas assim que teve oportunidade, exibiu a
cabeça de Orco na praça pública de Cesena a 26 de Dezembro de 1502, de modo de suavizar
e impressionar o povo. Acabou por conseguir.
Esta aproximação histórica, a que muitos
têm recorrido para explicar o teatro de Medida
por Medida, defende que o Duque
de Viena manifesta a mesma premeditação do príncipe maquiavélico. E, no
entanto, tal como nos mostra a intrincada teia de Medida por Medida, o plano inicial com que o Duque quis fugir do
governo e da censura dos homens falha inexoravelmente. A partir do momento em
que, disfarçado de frade, o Duque vai percebendo que Ângelo executa cegamente a
lei em Viena, a fuga do Duque revela-se frustrada. Na sua identidade de frade,
o Duque vai interferindo de múltiplas maneiras na aplicação da lei que condena
Cláudio. Ângelo mostra-se um fracasso como delegado; para o Duque, sair do
poder não é simplesmente possível. E é o Duque que é obrigado, no final desta
peça, ao próprio gesto a que tentou escapar: o exercício do governo. Para o
Duque de nada valeu esconder-se atrás do delegado, transferir para Ângelo a
solidão áspera da governação, evitar o embate com o povo. Essas são ambições irrealizáveis.
Com todas as suas ambiguidades e
indecisões, Medida por Medida possibilita,
pois, uma leitura anti-maquiavélica. Se o governo existe para ser exercido, não
é somente impossível fugir ao seu estatuto, à imagem do poder. É também inviável
fugir à responsabilidade que vem com
o exercício do governo. Correndo o risco de extremarmos a analogia com o
presente, pensemos nas nossas democracias, que, dir-se-á, passaram a ser
governadas nesta década por delegações de substitutos. Sabendo que o seu poder
é provisório, poderão estes reservar-se o direito de serem ríspidos e punitivos
contra uma sociedade acusada, certa ou erradamente, de viver como a Viena desta
peça. Os políticos eleitos destas democracias impopulares podem aspirar a
esconder-se por detrás dos novos delegados, na expectativa de serem
publicamente poupados ao severo julgamento popular.
Se o fizerem, mais tarde ou mais cedo irão
perceber o seu fútil engano e poderão talvez experimentar a mesma medida, o
mesmo destino do Duque de Viena.
Lisboa, 2012
Pedro Lomba
Pedro Lomba
segunda-feira, 9 de abril de 2012
O processo da verdade.
Abraveia, fotografia de António Albuquerque
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O processo de Jesus a que sempre regressamos na Páscoa condenou um homem por dizer a verdade. No Novo Testamento encontramos muitas manifestações desse dizer a verdade, dessa revelação da verdade, que aí e no pensamento cristão se confundem com a confiança que podem ter os que acreditam em Deus e os que aceitam pregar “francamente”, como diz São Paulo, em nome de Jesus. Quando se apresenta aos fariseus, Jesus afirma abertamente que é filho de Deus. Jesus assume que tem de usar um discurso directo, claro, desprovido de obscuridade ou figuras de estilo.
Este falar com franqueza, ou este falar livre (não é por acaso que os franceses dizem ‘franc parler’ e os ingleses ‘free speech’, discurso franco ou discurso livre) era uma prática a que os antigos gregos chamavam parrhesia. Na Grécia antiga o conceito de parrhesia significava literalmente "falar tudo" e, por arrastamento, "falar livremente", "falar ousadamente", o que em certos contextos era não só necessário como inescapável. Falar com parrhesia não consistia numa simples actividade verbal, não era apenas liberdade de expressão, porque aquele que discursava com parrhesia aceitava falar tudo, com abertura, aceitava falar a verdade para o bem comum, mesmo em situação de risco pessoal. Não omitia nada, não concedia nada, não tinha em vista convencer uma audiência mas expor uma verdade potencialmente inconveniente e destruidora. E, como não conhecia que consequências recairiam sobre si por dizer o que disse, os riscos podiam ser de morte.
No último curso que deu no Collège de France antes de morrer, Michel Foucault dedicou-se a estudar a parrhesia como conceito essencial da vida política para os gregos, relacionando-o com o papel da verdade e dos discursos sobre a verdade em democracia. Era um conceito ambivalente, difícil de deslindar. Foucault lembrava que já na Grécia a parrhesia era entendida tanto num sentido positivo (o que diz tudo para o bem comum) como negativo (o que diz qualquer coisa que lhe vem à cabeça, o que não se cala, o que não se restringe). Por isso, podíamos ver a democracia como o regime que permitia a parrhesia, mas também como o que facilitava o seu uso destemperado por quem tudo diz sem pensar no que diz.
Para regressarmos ao processo de Jesus Cristo, torna-se agora evidente que a sua condenação não partiu só de uma multidão ou, dizendo de outra maneira, de uma maioria democrática, ansiosa por punir uma voz que lhe parecia fraudulenta e ameaçadora. Foi, mais do que isso, a condenação de um acto de parrhesia, a recusa de um gesto corajoso de franqueza. Porque em democracia – e essa é uma das lições políticas do julgamento de Jesus – são sobretudo os que dizem falar com abertura, falar ousadamente, que mais expostos ficam a um voto de desconfiança e rejeição. Temos muitos exemplos disso sempre que alguém denuncia um escândalo, uma fraude, uma mentira colectiva – e a multidão reage inquieta, talvez por ter sido disturbada no seu sono injusto.
A parrhesia, o acto de dizer a verdade, pode ser perigoso para a sociedade no seu todo, tal como pode ser perigoso para o indivíduo na sua própria vida e integridade. Ninguém diria que viver em democracia é ‘viver perigosamente’, mas é isso exactamente que é. E quem nunca teve ou procurou o seu momento de parrhesia, falando tudo, aceitando todos os riscos de uma espécie de conversão?
Pedro Lomba
quinta-feira, 8 de março de 2012
Mais do que uma carta.
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Tarde de segunda. Em 1921. Franz Kafka escreve pela segunda vez no mesmo dia a Milena Jesenská. À noite, haveria ainda de escrever uma terceira vez. Talvez porque na véspera estivera com Milena em Viena, o tom da correspondência não deixa dúvidas sobre o entusiasmo de Kafka com o que era ainda um conhecimento recente. Kafka descreve como foi o seu penoso e atribulado regresso de comboio a Praga. Não há amargura nesta carta; só medo e esperança. “Todo o tempo querem afastar-me de ti, mas não o conseguirão nunca, Milena, não é verdade?”
O século XX trouxe o homem nervoso, assim como o XIX inventou o romântico. O homem que passou a depender cada vez mais do poder de outros; o homem que precisa de fazer face a férreas burocracias e organizações; o homem que, arrastado para um mundo que não domina, para um mundo que lhe impõe maior sofreguidão e destreza, não sabe literalmente o que fazer.
Com o visto austríaco expirado, Kafka é barrado na fronteira. O revisor apreende-lhe o passaporte. Vem ter com ele um polícia solícito. Kafka imagina que é Milena, benfeitora, querendo libertá-lo, agindo contra as forças contrárias. Sai do comboio. O polícia acompanha-o até aos serviços de fronteira. Encontra uma judia romena, outra infractora. O inspector chefe, mais o seu adjunto, são implacáveis. “Tem de regressar a Viena e fazê-lo visar pela polícia”. Kafka responde: “Isso é um desastre. Mesmo pagando todas as despesas”? “Tem de voltar”.
Conformado em regressar para visar o passaporte, Kafka espera pelo comboio das dez da noite que chegaria às duas e meia a Viena. A essa hora conseguirá alojamento, cogita? Em que estado se encontrará depois desta viagem, visto que terá de voltar para Praga logo a seguir no comboio das dezasseis? Não seria melhor pernoitar na fronteira viajando de manhã no das cinco e meia? E que dirá disto o seu chefe a quem precisa de telegrafar para a prorrogação da sua licença? Mas tem de ir, pensa, pois precisa do visto revalidado na segunda de manhã para voltar a Praga. Ainda assim, pergunta se o obterá de imediato ou se terá de esperar até terça.
Agora o adjunto, antes em silêncio, oferece-se para o ajudar. Se Kafka dormir na estação, ele deixa-o seguir de manhã para Praga, fazendo crer ao inspector que iria para Viena. Combinado com o adjunto, Kafka e a romena saem da estação em busca dum hotel. Mas os desvios não acabam. Ao saírem da estação, os dois avistam um comboio de carga em passagem. A romena quer cruzar a linha antecipando-se ao comboio, Kafka escolhe ficar para trás. Seria novo ataque das forças contrárias? Novamente Milena intercedendo por ele? Por não terem passado antes do comboio, conseguem ouvir o polícia: “Voltem depressa, o inspector deixa-os passar”.
Será possível, espanta-se Kafka, que já não sabe em que mais acreditar? Ainda há tempo para apanhar o comboio. Recolhe a bagagem, corre para a inspecção da fronteira, depois para a alfândega. Os azares não terminam, não podem terminar. O comboio para Praga está de partida. Não há muito tempo. Incapaz de correr com a mala, esbarra num rapaz carregador. Atropelado pela multidão, um polícia abre-lhe o caminho. Apercebendo-se que tinha perdido as chaves, um empregado encontra-as e entrega-lhas. Até entrar finalmente no comboio este Kafka, podia ser qualquer um de nós, o homem nervoso, acomoda-se, sossega, limpa o suor do rosto e fecha a carta com um último pedido: “Não me abandones nunca”.
Pedro Lomba
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