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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Quando o areal de Monte Gordo é história regional com tracejado universal.

 





          Os Filhos de Monte Gordo, por José Carlos Barros, edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2025, é uma monografia de um território e daas suas gentes, iremos acompanhar a sua transformação de povoado piscatório em estância balnear, demarcar-se-ão zonas de habitação, veremos evoluir a zona central destinada a turistas de várias posses, e os pescadores empurrados para uma periferia de casas de adobe e cabanas de colmo – enfim, uma marginalização económica e social que não se confinou a toda a orla algarvia, foi sentença que modelou o Portugal assimétrico em que vivemos.

          É uma monografia de leitura absorvente, uma escrita quase encantatória, um bom desenho histórico da região e momentos há em que o escritor não esconde o seu talento ao sabor da descrição de valor manográfico, assim:

          “Fernando Leonardo sabe o que é pescar nesses tempos de miséria em que as crianças fugiam da escola para esperarem os barcos e comerem os restos do que os pescadores cozinhavam no mar, uma sopa, um guisado, o peixe acabado de escamar. Cozinhavam num tacho de alumínio, num fogareiro à popa do barco, onde não chegava água, aí se guardava também o pão, o sal, o azeite. As lanchas eram de vela latina, pescava-se das cinco da manhã às três da tarde. Não é como agora, dois homens é o suficiente, às vezes um, nesse tempo eram companhas de cinco ou seis homens, quatro ou cinco no mínimo, quatro aos remos, um ao leme, tudo à força dos braços, sem avisos meteorológicos, sem GPS nem sombras, sem guinchos de alar, vinha um temporal e perdiam-se as redes, em havendo nortada não se rompiam avante, içava-se a vela, metia-se um ou dois riços e ia-se bordejando, bordo de mar, bordo de terra, a direito, ia-se à Praia Verde ou Cacela, bordo da terra para lá, bordo de mar para cá, tudo à força de braços, eram outros tempos.”

          Estamos no preciso local que é palco monográfico, antes de haver o Hotel Vasco da Gama, já houvera balbucio de vilegiaturas, a Ourela e o Sertão, tempos de famílias numerosas, aquela aldeia de pescadores sem história antes e depois do terramoto, em que o senhor Marquês de Pombal sonhou com uma povoação que não teve futuro, assim chegamos à confluência entre a pesca e os bens de mar. Iremos saber quem a partir dos finais do século XIX ali vem para as práticas balneares, aparece casario, ali perto em Vila Real de Santo António, há pesca industrial e fábricas de conservas de peixe, a paisagem urbana vai mudando. O autor lembra-nos os efeitos da crise de 1929, devastadores na economia do Algarve, crise de pesca e das conservas, situação crítica da exportação de amêndoa e figo, o desemprego atingiu níveis assustadores, há fome nos lares operários e de pescadores. E dá-nos também o retrato do desenvolvimento do extremo Sotavento.

          E assim chegamos à vocação turística de Monte Gordo, às grandes mudanças da década de 1960, os jovens sonham em fugir ao destino dos bisavós, dos avós, do pai. Em 1956 contruíra-se o parque de campismo, em 1960 o Hotel Vasco da Gama e o Hotel dos Navegadores no ano seguinte, seguem-se outros empreendimentos. Temos aqui mais um texto em que o escritor desafia o investigador:

          “Franzino, temeroso do mar, sem vocação para a pesca, seduzido por este mundo de turistas que chegam e partem, por uma espécie de música de fundo que se ouve em permanência e que chega de espaços indefinidos, pela luz dos lóbis entrevistos à distância por detrás de vidros amplos, João desafia um primo e rumam ao Hotel dos Navegadores, ele com doze anos acabados de fazer, o primo ainda mais novo, parecem adultos a desafiar o destino, a assobiar ao futuro. Conheciam as regras: não se dirigiram à receção, e aí ninguém do Sertão teria serventia, foram diretos às traseiras, à porta de serviço, João à frente do primo, corajoso e trinca-espinhas, criança a mexer nas cartas de rumos, a dirigir-se ao porteiro de turno, a perguntar se não havia trabalho.”

          Mergulhamos depois do Sertão, aqui a vida mexe, multiplicam-se as edificações clandestinas, Monte Gordo tem duas modestas pensões e parque de campismo, isto nas décadas de 1940 e 1950, depois vem a grande viragem e José Carlos Barros faz um enquadramento histórico desta região, um rincão do Sotavento que vem desde a Idade Média, que tem um ponto alto na Restauração, segue-se um período de declínio, tudo nos é explicado em linguagem luminosa, esclarecedora, tão esclarecedora que se percebe à légua a história das pilhagens das nossas águas os nossos irmãos espanhóis.

          É inevitável, tem de se abordar a indústria conserveira e o seu operariado, e depois o relato histórico volta a ser sobrepujado pelo gosto da boa literatura, veja-se um exemplo:

          “As xávegas, ou a arte da Barca, fizeram a fortuna de Monte Gordo na segunda metade do século XVIII, havia então mais de 3 mil homens diretamente envolvidos na pesca com xávegas, e foram responsáveis pelo aumento populacional do aglomerado ao longo do século XIX. O seu declínio, no entanto, começaria ainda nas décadas de 1880 e 1890, com a concorrência de artes mais modernas e produtivas, como os cercos americanos e os galeões a vapor e, mais tarde, as traineiras. Ainda que se tivessem mantido ao longo do tempo, e em determinados períodos com algum significado, na década de 1960 já só ocasionalmente faziam os seus lanços.” E, mais adiante: “A partir de finais da década de 1960, com o turismo a valorizar o pescado, com a motorização e a mecanização das embarcações a possibilitarem um maior raio de ação, maior regularidade das saídas e companhas menos numerosas, os marítimos de Monte Gordo regressam aos tresmalhos.”

          Sim, tudo mudou, o turismo reina impante, o Sertão acabou e há uma simbólica da devoção que marca o termo desta magnífica monografia, tem a ver com a imagem de Nossa Senhora das Dores, estava prantada numa Igreja que sofreu calamidades, quando se procedeu à reconstrução a imagem foi trasladada para Vila de Santo António. Afinal, o património imaterial pesa que se farta, os pescadores que nasceram e viveram no Sertão não serão conhecidos por um particular apego à frequência da Igreja. Contudo:

          “É ver a devoção com que, uma vez por ano, todos os anos, fazendo o próprio rol dos homens a quem é concedida a honra maior de levar o andor, seguem em procissão, todos marítimos, tudo gente do mar, o mais velho ao comando, com a vara das ordens, metálica, a orientar as pausas, os recomeços, o baixar, o erguer de novo, o virar ao mar, aos barcos de buzinas ruidosas, enfeitados com bandeirinhas e papéis crepe, é ver a devoção e o dramatismo triunfal com que se aproximam de novo da Igreja, no regresso, mais de vinte homens com as suas varas de apoio, a passada ensaiada ao ritmo da filarmónica, os movimentos em forma de pendulo a fazerem oscilar o andor, a Santa virada de costas para a entrada do templo, o adro cheio dos fiéis, dos peregrinos, e então a bênção, um lençol de lágrimas, três vivas à Senhora das Dores.” São assim os filhos de Monte Gordo.

          Se um bom romance é uma história bem contada, que dizer da virtuosidade de uma monografia que nos cativa do princípio ao fim? 


                                                                                      Mário Beja Santos



quinta-feira, 5 de março de 2026

Autópsia da formação e dos tormentos de guerra de um oficial dos Comandos, em Angola.

 





          Num tempo em que a literatura da guerra colonial se foca em memórias, em quadros de expiação de filhos de antigos combatentes que visitam os locais por onde andaram os pais, não deixa de surpreender O Elogio da Dureza, volume I de uma trilogia intitulada A Vida Aventureira de um Homem de Letras, por Rui de Azevedo Teixeira, Guerra e Paz Editores, 2024. Não vale a pena iludir a chamada ficção da literatura de guerra, romance, novela, conto, tem sempre fumos autobiográficos. O autor é doutor em letras, tem obra de académico e de ensaísta e procura neste seu primeiro volume da trilogia descrever a preparação de um alferes dos Comandos, expõe com crueza um drama familiar, era dado como perfilhado, sentia a ferida da discriminação, ainda por cima a relação com o padrasto era quase nula; fala-nos da sua mocidade e das muitas leituras, com relevo para Camões, Hemingway, Simenon, à testa de muitos outros nomes. Andou por Coimbra, frequentava certamente um curso de Filologia Germânica, citações a jeito de tais línguas aparecerão no romance. Impelido pelo fascínio da força, encaminhou-se para a guerra, vai descrever como nunca ninguém descreveu a preparação de um Comando, entremeia também como páginas de um diário que ele apresenta como diário incerto.

          Sobrepõe-se os tempos no romance, antes de conhecermos o que foi a sua preparação para a guerra, vemo-lo de regresso, um tanto à deriva, é convidado a entrar no PREC, o alvo são os esquerdistas e os comunistas. E entramos brutalmente no universo infernal da preparação, feito em Angola, no Centro de Instrução de Comandos. O teste da sede, o arranque do curso estava dado – brutalidade com o máximo de disciplina, formandos quase enlouquecidos a beber a própria urina, as humilhações, as eliminações de quem não suportava a dureza de tais provas, os crosses e as marchas forçadas, as flexões, numa barra fixa, até à exaustão, os tratamentos degradantes, a leitura em voz alta do correio enviado aos formandos, aquilo que hoje podemos chamar de violação de correspondência.

           E virá um momento de dúvida neste jovem que se ofereceu para os Comandos, ele vai passar uns dias a Luanda e segue-se um episódio marcante assim descrito:

          “De um golpe, numa única lição prática, percebeu a essência do colonialismo. Uma parte dessa essência.

Paulo descia e o homem preto subia. Ambos pelo mesmo passeio estreito. O preto tinha cerca de cinquenta anos, cabelo grisalho, fato coçado. Um ar sério, digno, de pequeno funcionário. Três ou quatro metros antes de se cruzarem, o homem olhou para Paulo, baixou os olhos, encurvou as costas e, automaticamente desceu do passeio para Paulo poder passar à vontade. Baralhou-se a cabeça ao cadete. Caiu-lhe muito mal que um homem preto de meia-idade se tivesse curvado, diminuindo-se perante um jovem branco, perante si. Pela idade, podia ser seu pai. Nenhum dos textos que tinha lido sobre o colonialismo teve em Paulo o mesmo impacto que esta cena muda numa rua de Luanda.”

Vamos conhecer a vida daquele grupo de cadetes, os sofrimentos a que eles serão sujeitos nas últimas semanas da sua formação, segue-se o juramento dos Comandos. Voltamos ao PREC e passamos para a guerra do Leste de Angola, Paulo está no Luso, seguem-se operações, caso da Empurra Tudo, na zona do Luma Cassai, no lusco-fusco o grupo da tropa especial entra num acampamento, vamos ter o horror da guerra, uma faca de mato na barriga de um velho, girando lá dentro como o corno de um touro numa corrida, não faltam tiros de misericórdia para os guerrilheiros agonizantes. Entre operações, Paulo refastela-se, companhias femininas não lhe faltam, e depois temos as operações, os mortos e os feridos, não faltam interrogatórios com sofrimento descomunal. Há também as perdas de camaradas. E depois Paulo é afastado do Leste, vem preparar novas gentes, vai guardar grandes saudades das Terras do Fim do Mundo.

Neste entremeado do durante-antes-depois, Paulo já está a acabar o seu bacharelado, vemo-lo agora no centro de instrução dos Comandos, faz um curso de milhas e armadilhas, é convidado para participar na operação pantufada, no Mayombe, deixa-nos uma bela descrição:

“Sob intensa chuva e trovoada agressiva, os Comandos entraram ao fim da manhã na opulência vegetal de Mayombe. Os estouros metálicos dos trovões davam-se mesmo por cima das copas das árvores majestosas, o que tornava os comandos momentaneamente surdos. A espessa massa vegetal, de cheiro intenso e meio adocicado, e o sobe e desce dos morros da floresta tornavam a progressão muito mais difícil do que avançar pelas planuras do Leste. Mayombe, o verde vibrante e ubíquo. Verde no chão, verde a meia altura e, no alto, um céu de folhas verdes. Só o acinzentado das árvores muito direitas, altas e elegantes escapava ao verde.”

    E assim chegamos ao 25 de abril. Paulo é professor em Vila Figueira, cria amizades, gosta da estúrdia com um aristocrata real. Vai depois ensinar na ilha da Madeira, está a acabar a licenciatura, conhece Iza Maria Possolo d’Ornellas, haverá um casamento, ele dirá ser “sublime, sólido, sagrado”. A expiação em que vivera como filho de pai incógnito e perfilhado pelo padrasto irá ser cabalmente esclarecida por Iza, afinal Paulo era filho do padrasto, ele não esconde a sua revolta, aqueles pais nunca tiveram em conta o sofrimento do filho, decidiu nunca mais voltar a falar com os pais. Assim termina o volume primeiro desta aventura de um homem de letras. António Cândido Franco diz tratar-se de “Curioso e comovente percurso do lobo solitário, personagem viva e única que evolui diante do leitor de forma memorável… Um milagre que transforma a dureza em pureza.” Esperamos vir a seguir as outras obras da trilogia. 


                                                                                                        Mário Beja Santos  

 




segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Geração Z ou os riscos de uma infância baseada no telemóvel.

 


 

          Pela sua indiscutível oportunidade, pela evidência com que se mostra neste livro as consequências da mudança de uma infância baseada em brincar para uma infância baseada no telemóvel, e quais os danos que tal mudança já está a provocar à saúde mental e ao desenvolvimento social, a leitura de A Geração Ansiosa, por Jonathan Haidt, Publicações Dom Quixote, 2024, é mais do que necessária, e não só para pais e educadores.

          Este reputado psicólogo norte-americano socorre-se de uma comunicação fluída para nos falar de três questões fundamentais: o declínio da infância baseada em brincar; o surgimento da infância baseada no telefone; e qual a ação coletiva que se impõe para que se difunda uma infância mais saudável. Recorda-nos que os membros da Geração Z são hoje cobaias para uma forma radicalmente nova de crescimento, longe das interações da vida real que ocorrem nas pequenas comunidades em que os seres humanos evoluíram ao longo da história; ao fenómeno sociocultural em que vive a Geração Z que designa por A Grande Reconfiguração da Infância, onde avultam as tecnologias que moldam os dias e as mentes das crianças bem como as bem intencionadas e desastrosas medidas se tomam para proteger excessivamente as crianças e restringir a sua autonomia no mundo real; porque as crianças precisam de uma grande porção de jogo livre e, ao invés, os adultos consideram que os filhos não devem sair sem vigilância, preferem-nos em casa a jogar e nos chats. Para um mais claro entendimento do leitor, define interações sociais por quatro características: são corpóreas, no sentido em que usamos os nossos corpos para comunicar; são sincrónicas, isto é, ocorrem ao mesmo tempo e seguem pistas subtis quanto aos tempos e à interação; implicam principalmente a interação de um-para-um ou de um-para-vários, havendo apenas uma interação em cada momento; ocorrem no seio de comunidades com elevados padrões de inclusão e exclusão e por isso as pessoas estão fortemente motivadas a investir nas relações e a solucionar os conflitos quando estes surgem.

          Falando do declínio na saúde mental, este é manifestado por um aumento acentuado nos padrões de ansiedade e depressão, processo que começou no início da década de 2010 e que afeta as raparigas de forma mais acentuada. Os smartphones combinados com proteção excessiva dificultam o acesso das crianças e adolescentes às experiências sociais corpóreas de que mais precisam. Continuando o seu raciocínio quanto às origens da crise de saúde mental na década de 2010, destaca o crescente receio e superproteção parental que se terá instalado na década de 1990. A combinação entre o smartphone e a superproteção acabaram por dificultar o acesso das crianças e adolescentes às experiências sociais corpóreas. Seguidamente, o autor expõe as investigações que mostram que uma infância entrada no telefone perturba o desenvolvimento de múltiplas formas, e destaca quatro danos fundamentais: privação de sono, privação social, fragmentação da atenção e dependência. Igualmente o autor releva a dificuldade em fazer a transição da adolescência para a vida adulta. E conclui este ponto dizendo que a vida centrada no telefone afeta a todos – crianças, adolescentes e adultos. E faz propostas para práticas que nos podem ajudar a todos a viver melhor.

          E assim chegamos ao que se pode e deve fazer agora. Dá conselhos baseados em dados e investigações científicas, sobre o que as empresas tecnológicas, Governos, escolas e pais podem fazer para resolver uma série de problemas de ação coletiva – porque só uma ação coletiva e coordenada permite tomar ações que são melhores para todos a longo prazo. Como ele afirma, a Geração Z tem todas as qualidades necessárias para impulsionar uma mudança positiva. A primeira destas qualidades é não estar em negação, a maioria dos jovens mostra-se recetiva a novas formas de interação. A segunda qualidade será o desejo dessa geração em colaborar num mundo mais justo e solidário, desejo que se pode tornar realidade quando os jovens se organizarem e inovarem, encontrando novas soluções.

          Este psicólogo propõe quatro reformas que podem criar as bases para uma infância mais saudável na Era digital, e que são:

1-    Nada de smartphones antes do secundário. Os pais devem adiar o acesso permanente das crianças à internet, dando-lhes apenas telemóveis básicos (com aplicações limitadas e sem browser de internet), até ao 9º ano de escolaridade.

2-    Nada de redes sociais antes dos 16 anos. Deixem as crianças atravessar o período mais vulnerável do seu desenvolvimento cerebral antes de os ligar a uma fonte de comparação social e de influenciadores escolhidos algoritmicamente.

3-    Escolas livres de telefones. Em todas as escolas, desde a primária ao secundário, os alunos deveriam guardar os seus telefones, smartphones e quaisquer outros aparelhos pessoais que possam enviar e receber mensagem de texto, em cacifos ou estojos fechados durante todo o período letivo. É o único meio de lhes libertar a atenção para os outros e para os seus professores.

4-    Mais brincadeiras sem supervisão e mais independência durante a infância. É assim que as crianças desenvolvem competências sociais, superam a ansiedade e se tornam jovens adultos autónomos de forma natural.

E também nos adverte que os adultos da Geração X (1965-1980) e de gerações anteriores não experimentaram o mesmo aumento dos transtornos relacionados com depressão e ansiedade no período após 2010, mas muitos destas gerações acabam por sentir o desgaste, a dispersão e o esgotamento provocado pelas novas tecnologias e as suas incessantes interrupções e distrações, e conjetura que à medida que a inteligência artificial generativa permite a produção de fotografias, vídeos e reportagens noticiosas super-realistas, é provável que a vida online se venha a tornar bastante mais confusa. Impõe-se reagir e retomarmos o controlo das nossas mentes.

Tirando algumas apreciações que possam constituir particularidades específicas norte-americanas, este livro de Jonathan Haidt, é mais do que pertinente para nós, temos aqui ferramentas para dar novo caminho à Grande Reconfiguração da Infância. É por isso que classifico este livro como de leitura obrigatória.

 

                                                                                            Mário Beja Santos

 

domingo, 18 de janeiro de 2026

Na literatura de entretenimento há por vezes obras admiráveis, domina-as uma certa intemporalidade.

 


 

Na chamada literatura de entretenimento, há obras que ganham foros de popularidade, ultrapassando o chamado ciclo efémero mesmo os best-sellers têm por natureza uma vida curta. Um livro como O Código da Vinci, de Dan Brown, está agora completamente esquecido, enquanto um romance como Rebecca, de Daphne du Maurier, ainda hoje atrai muitos leitores. Numa outra perspetiva, há romances que cabem no formato da literatura de entretenimento e possuem em si uma energia literária que assegura sucessivas edições, década após década, é o caso da literatura de crime e mistério de George Simenon, ainda hoje um dos escritores franceses do século XX mais lidos em todo o mundo.

Jeffrey Archer, como escreve na badana do seu romance Uma Questão de Honra, Bertrand Editora, 2024, tem 300 milhões de exemplares vendidos em 114 países e é publicado em 47 línguas, o mesmo é dizer que é um dos maiores autores de best-sellers do planeta. Qual o magnetismo deste livro? Obviamente que tudo vai arrancar com um problema de cariz mundial, em 1966, o líder soviético informa os seus pares do Kremlin de que o ícone São Jorge e o Dragão, que fora propriedade do Czar, era uma falsificação. A Segurança do Estado recebe ordens para descobrir onde está o original, este encerra um segredo de uma desmedida importância, trata-se de um documento estratégico, mexe com a ordem mundial. Vai ser desencadeada uma caça ao tesouro. E como um bom livro é sempre uma história bem contada, estamos agora na leitura de um testamento, ficamos a saber que um antigo coronel das forças britânicas caído em desgraça deixa nesse testamento uma carta misteriosa ao seu filho. Abre-se a caixa de Pandora.

Caçador e fugitivo vão estar no turbilhão dos acontecimentos. Adam Scott, capitão e filho do dito coronel, vê a sua vida virada do avesso, a sua amada brutalmente assassinada e ele passa ao estatuto de fugitivo, os caçadores são o KGB e a CIA e até será vigiado pelos seus compatriotas britânicos. A intenção de todos é silenciá-lo, o documento dentro do ícone original é uma verdadeira bomba atómica.

Voltando ao passado, ficamos a saber que o coronel acompanhava os presos nazis julgados em Nuremberga. O Marechal Goering, que ele vigiava permanentemente, recebera secretamente uma ampola de cianeto de potássio e suicidara-se, mas tinha deixado uma carta ao cuidado do coronel, este fora exautorado pelas suas autoridades pelo suicídio de uma das figuras proeminentes do III Reich. Aquela carta é o busílis da história.

O camarada Romanov é o agente que iniciou a caçada, foi escolhido pela Segurança do Estado para descobrir o paradeiro do ícone do Czar, põe a trabalhar uma equipa de investigadores, descobre-se que uma pretensa cópia fora oferecida a um Grão-Duque alemão, as investigações chegam a Goering, daqui chega-se ao coronel Scott, isto enquanto Adam procura um tradutor alemão, para saber do conteúdo da carta, vai batendo a várias portas. Há uma encomenda guardada num banco em Zurique, nesta altura o leitor já está completamente capturado, poderá ser uma história da carochinha, mas uma boa perseguição e uma estrutura narrativa bem condimentada entre o que faz o perseguidor e como o perseguido se vai desenvencilhando numa apertada teia, cresce o frémito da leitura com o aparecimento de determinadas figuras, como um competente financeiro soviético que a seu tempo preparará uma tremenda armadilha a Romanov.

Este chega ao banco suíço por onde andara Adam Scott, vem à procura de património seu, que poderá fazer dele um milionário. Estamos perante um elemento novo, Adam Scott, que tem a patente de capitão, é candidato a um lugar no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Romanov revela-se um assassino implacável, mata a sua colaboradora que o acompanhara na missão à Suíça, de regresso a Moscovo teve de explicar que a dita colaboradora desapareceu inesperadamente, a visita ao Banco de Zurique revelara um outro ícone que não o pretendido. A Segurança do Estado tem desconfiança do comportamento do Romanov, agora tem outro agente na sua peugada.

O leitor está mais absorvido do que nunca, Adam Scott é já um fugitivo, surge mais um elemento na história Emmanuel Rosenbaum, um velho também portador de um segredo, viremos a saber que se trata de uma caracterização de Romanov, estamos agora em Genebra. A maratona contra o tempo é sufocante, os britânicos vêm a saber que o ícone São Jorge e o Dragão fora deixado ao pai de Scott por Goering. Em Genebra espalham-se agentes no terreno, russos e suíços, Adam para fugir à vigilância dos seus perseguidores disfarça-se de elemento de uma orquestra filarmónica que anda em digressão pela Europa, chegou a altura de introduzir o elemento amoroso, trata-se de Heidi, esta aceita ajudá-lo, ele entra no autocarro que leva os músicos para outra cidade.

Como o leitor pode imaginar tudo irá acabar bem para Adam Scott, o seu perseguidor Romanov irá ter um fim trágico, o documento do ícone jamais abalará as relações entre os EUA e a União Soviética. Então, porquê o título Uma Questão de Honra? Quando finalmente Adam Scott compreende o que tem na sua posse, fica ainda mais determinado a proteger o documento que possui um segredo avassalador, a sua fuga desesperada pela verdade vai mais além do que é uma questão de vida ou de morte, é uma questão de honra, aquele segredo acabará por reabilitar o nome do seu pai, e aquele ícone que levara à morte de gente foi vendido por 14 mil libras em leilão.

E não digo mais, este thriller de um grande contador de histórias merece a melhor atenção do leitor que queira acompanhar uma caçada ao tesouro em 1966, em plena guerra fria, porque aquele envelope deixado em testamento podia pôr em marcha uma cadeia de acontecimentos, suscetível de alterar o equilíbrio entre as duas superpotências.

Lê-se com agrado, pode-se não acreditar na história bem contada, diga-se em abono da verdade que ela já foi tratada por outros romancistas, mas é um entretenimento desopilante de primeiríssima classe. 


                                                                Mário Beja Santos

 


quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Radiografia do país tal qual hoje o vivemos: Ensaios incisivos, todos a dar que pensar.

 



 

Para comemorar os 15 anos da coleção Ensaios da Fundação reúnem-se textos de dezassete autores sobre temas da atualidade nacional. A obra chama-se Livros leves. Opinião de peso. Fundação Francisco Manuel dos Santos. No prefácio, o diretor de publicações António Araújo faz uma breve viagem pelas bibliotecas de difusão de conhecimento que fazem parte da história da cultura portuguesa dos séculos XIX e XX, até chegarmos a estes ensaios que somam 152 títulos, dois milhões de livros nas mãos dos portugueses.

Abre as hostilidades José Manuel Sobral falando da identidade nacional, discorre sobre as muitas metamorfoses por que vivemos concluindo “No mundo cada vez mais globalizado, e onde as migrações assumiram um carácter massivo, a identificação oficial continua a ser feita em termos nacionais, de que decorrem processos de inclusão ou exclusão em termos de direitos de cidadania, o que mostra a sua importância decisiva para os destinos individuais. E se a inserção dos Estados nacionais em organizações internacionais ou mesmo supranacionais, como, no caso português, a União Europeia, lhes retirou soberania, não parece ter afetado a preeminência dada pela população à pertença nacional.”

Tiago Fernandes responde pelo ensaio O regime democrático em Portugal (1974-2025). Mostra as suas reservas aos que agitam que está próxima uma crise demográfica em Portugal, lembrando que o sistema democrático conta com partidos liberais-democráticos robustos capazes de competir com a direita radical. “Embora enfraquecidos, o centro-direita e o centro-esquerda tradicionais não desapareceram, como em muitas outras democracias contemporâneas. E persiste a natureza interclassista do PS e do PSD. Embora o voto nos partidos de direita continue associado a maiores níveis de rendimento e prática religiosa, as bases sociais e apoio dos principais partidos portugueses são ainda socialmente diversas e plurais. Um último recurso para resistir a uma eventual crise democrática e derrotar a extrema-direita, caso esta chegue ao poder máximo do Estado, é a sociedade civil portuguesa, cujas raízes remontam à revolução de 1974-1975. Em Portugal, os símbolos, as canções e os temas expressos em eventos de protesto refletem uma forte memória do momento fundador da democracia, o 25 de abril.”

Luciano Amaral vem abordar a economia portuguesa no século XXI. Dirá que o grande problema social português, ao fim de 50 anos de democracia, é fundamentalmente económico. “O grande escolho no caminho do maior crescimento continua a ser o baixo nível de produtividade da economia. Não é fácil perceber como resolvê-lo. Já se tentou muito, especialmente com as reformas estruturais propostas pela Troika. Mas o impacto no crescimento foi limitado. Talvez porque o principal problema da economia portuguesa se mantém: a baixa intensidade de capital (isto é, a baixa relação entre os instrumentos de produção existentes, como máquinas, infraestruturas ou veículos de transporte e a mão-de-obra) e a fraca produtividade desse mesmo capital.” E convém não esquecer que estamos a enfrentar novas e grandes incertezas e se regressou em força ao protecionismo da economia mundial.

Nuno Garoupa é autor de um dos mais polémicos textos deste livro, sobre O Inconseguimento crónico da Justiça portuguesa. Não esquecendo que os ganhos conjunturais não ocultam a persistência de problemas estruturais e o agravamento de bloqueios, é profundamente crítico com os governos PS e PSD/CDS, diz terem uma visão míope da justiça. “Continuam a apresentar medidas avulsas para descongestionamento ou simplificação processual, como se o problema fosse de gestão corrente e não de bloqueio institucional. Após 30 anos de reformas pontuais, o que se impõe é uma mudança de paradigma. É necessário um programa coerente, sustentado numa visão estratégica de 20 anos, capaz de reestruturar o sistema judicial de forma integrada. Tal mudança exige mecanismos estáveis e institucionais para planear, debater, propor e avaliar reformas estruturais. A proposta de criação de uma comissão permanente e independente para a reforma da justiça permanece ignorada. Curiosamente, a AD recuperou essa proposta no seu programa eleitoral de 2024, mas abandonou-a assim que chegou ao poder. Esta recorrente ausência de continuidade revela um padrão de governação que privilegia promessas eleitorais vazia em detrimento de compromissos institucionais duradouros.” E elenca as diferentes dimensões que vemos abarcadas por uma reforma paradigmática.

Confesso que o texto que mais me impressionou pela sua originalidade é o de Sofia Guedes Vaz intitulado Um alfabeto do ambiente. Pôs-se em viagem, foi percorrer a Estrada Nacional 2 em bicicleta. “Queria construir uma cartografia pessoal do território a partir da perspetiva desse meio de transporte, uma visão lenta, silenciosa, sensorial e próxima do chão. Queria reencontrar a sustentabilidade do país em mim, percorrer um atlas vivo da geografia portuguesa e transformar os 738 Km de Chaves a Faro num percurso de dúvidas e incertezas, mas acima de tudo esperança.” E construiu um alfabeto suscetível de inspirar alguém. A: Amor, dá esperança quando tudo parece falhar. B: Bicicleta, não só pela paz que dá naquele caminhar, mas também porque tem sido o grande responsável por uma revolução suave na mobilidade. C: e se o Consumo fosse um ato de cidadania, porque consumir é um ato político e ético, por inerência um ato de cidadania. D: Descarbonizemos, porque descarbonizar está ligado às florestas, somos um país florestal, no qual mais de 30% do território contém árvores. E: Ecosofia, uma filosofia pessoal vivida em harmonia ecológica. A autora caminha para a letra I: Incêndios e diz-nos que foi de Castro Daire até Viseu poucos dias depois de um grande incêndio. “Foi doloroso ver, sentir e cheirar as paisagens desoladoras e escuras, carbonizadas”, irá depois falar em lixeiras, em plásticos, nos oceanos, na qualidade do ar, nas energias renováveis, não esquecerá as utopias. E despede-se do leitor com amenidade e um olhar num futuro melhor: “T de Tempo, a liberdade de não olhar para o relógio. Tempo para o Outro, Tempo para nos reconectarmos com a comunidade. G de Gratidão, por tudo, pela natureza e por quem me apoiou ao longo desta aventura. E S de Silêncio, claro. Apesar de ter encontrado gente gira, as horas de silêncio foram as mais especiais. Silêncio é para sonharmos com um mundo melhor.” Passei ao crivo algumas citações de ensaios de grande qualidade que abrem pistas para refletirmos sobre o país que somos e como ele poderá vir a ser mais livre, mais justo e mais desenvolvido.

De leitura obrigatória. 


                                                                    Mário Beja Santos

 

domingo, 30 de novembro de 2025

Um tempo histórico turbilhonante numa investigação não menos fulgurante.

 


 

 

 

          Maria Inácia Rezola é uma historiadora com créditos firmados da história contemporânea portuguesa, foi Comissária Executiva das Comemorações dos 50 anos do 25 de abril. Esta obra, Revolução, A Construção da Democracia Portuguesa, Publicações Dom Quixote, novembro 2025, tem como ponto de partida um outro não menos excelente trabalho, datado de 2007, 25 de Abril – Mitos de uma Revolução.

          Na introdução, e não por acaso, alude aos eventos do 25 de novembro, uma memória em disputa, marca uma fratura dos partidos políticos da esquerda à direita, cada um lê de acordo com as suas conveniências, como ela detalhará adiante houve mais do que um 25 de novembro, no evento estiveram envolvidos apoiantes do “Grupo dos 9”, com interlocução perto do PS, a esquerda revolucionária, com atividade otelista (COPCON), dos SUV, da FUR, com presença esporádica do PCP, que terá saído das manobras do golpe a tempo e horas; poderá falar-se também dos spinolistas e da direita, em convergência com os grupos bombistas, associados ou não ao ELP e MDLP. Esta intervenção, conjugada ou desarticulada, entre spinolistas e bombistas, não aparece ainda devidamente estudada.

          A autora procura oferecer uma síntese atualidade da Revolução dos Cravos. “Recorre não apenas à produção já consolidada da historiografia, mas também a investigações e publicações que, nos últimos anos, enriqueceram o conhecimento sobre os contextos, os protagonistas e as dinâmicas do processo revolucionário e a história do nascimento da democracia portuguesa. Procura cruzar diferentes perspetivas – a história política e institucional, a história militar e a história social -, sublinhando o entrelaçamento entre decisões tomadas no interior das elites e a mobilização dos setores populares e movimentos sociais.” Uma investigação repartida em três módulos: a conspiração dos capitães e a passagem dos quartéis à revolução; a imersão na energia popular de um país frenético, convulsionado; a itinerância da revolução à constitucionalização da ordem democrática. Observam-se os conflitos políticos, sociais e ideológicos que marcaram o percurso entre abril de 1974 e julho de 1976.

          Ponto um, tudo começa com um caetanismo caído num impasse, a ilusão liberal desvanecera-se, caminhava-se para a exaustão dos meios e dos recursos nas frentes da guerra colonial, a juventude universitária agitava-se, faziam-se greves, havia novas organizações da extrema-esquerda, uma ala do catolicismo contestava a guerra colonial, desde maio de 1973 que o PAIGC anulara a supremacia aérea portuguesa e dava provas inequívocas de ser um movimento libertador quem tomava a iniciativa ofensiva; e as coisas estavam a  correr muito mal em Moçambique, a FRELIMO atuava perto da Beira, a crise petrolífera de 1973 fazia explodir os preços; as reivindicações corporativas dos oficiais do quadro permanente abriram um ciclo de reuniões e em breve os militares puseram o foco no derrube do regime. Tudo somado e multiplicado, pôs-se em marcha a Operação “Viragem Histórica”.

          Ponto segundo, a historiadora desenha ao detalhe o processo conspirativo, a importância do livro de Spínola na evolução dos acontecimentos, o estabelecimento de um programa por parte dos capitães, iremos ver os momentos-chave do dia 25 de abril, do golpe desponta um conjunto de órgãos de soberania, cedo começa o conflito entre Spínola e as fações do MFA, forma-se Governo, cai Governo, Spínola perde autoridade, a questão colonial está permanentemente no ar, Spínola joga na mobilização popular e perde, demite-se; há disputas no MFA, germina o processo revolucionário, segue-se o 11 de março, a revolução vira notoriamente à esquerda, é nesta atmosfera que se realizam as eleições de 25 de abril de 1975, a autora apresenta-nos as forças partidárias, o carácter das negociações prévias com o MFA, a rotura acelera-se depois dos resultados eleitorais, os conflitos entre militares ganham aceleração, o poder popular manifesta-se em ocupações, comissões dos moradores, radicalização e greves, reforma agrária, a esquerda revolucionária instala-se nos quartéis – não há equívocos quanto à dimensão da crise do Estado, é um país onde a guerra civil está à espreita.

          A autora recorda-nos que em agosto de 1975 a revolução parecia ter atingido o seu clímax, sucedia-se a crise política, a fragmentação do MFA a tensão social era iniludível. Em setembro, uma assembleia do MFA em Tancos, contesta abertamente Vasco Gonçalves, impõe-se o “Grupo dos 9” que tem à cabeça um ideólogo, Melo Antunes. Do verão escaldante passamos a um outono escaldante. E dá-se o 25 de novembro, é aqui que a autora questiona quantos golpes de 25 de novembro existiram; e em remate da derrota da extrema-esquerda militar reconhece-se o papel determinante do general Costa Gomes, da sua atuação firme e categórica, do posicionamento do “Grupo dos 9” após o desabamento de qualquer golpe revolucionário, travou-se a sanha revanchista da extrema-direita militar e política. Spínola pôs termo à sua rede bombista e conspirativa.

          Ponto terceiro, chegou a hora da institucionalização da ordem democrática. A revisão do pacto MFA- Partidos e qual o papel das forças armadas na vida política tornou-se na questão dominante, o pacto foi revisto, a historiadora dá-nos conta das negociações e da multiplicidade de tomadas de decisão até se chegar a um Conselho de Revolução que obteve consenso partidário, chegou-se ao II Pacto MFA- Partidos, enquanto tudo isso se passava surgiu a tensão À volta do reconhecimento da República Popular de Angola. A Constituição é aprovada em 2 de abril de 1976, seguir-se-ão as primeiras eleições legislativas. Aqui se conta como se forjaram as primeiras eleições legislativas, seguem-se as eleições presidenciais. Estava encerrada a fase revolucionária, abria-se a porta à institucionalização da democracia portuguesa.

          Em jeito de conclusão, a autora recapitula os principais acontecimentos entre o 25 de abril e o 25 de novembro e dirá que o grande mérito do 25 de novembro foi o de ter criado as condições para assegurar um desfecho democrático da Revolução, a Constituição foi alvo de um compromisso delicado, mas que, na prática, consagrava a supremacia do poder civil sobre o militar. “O balanço da revolução não se esgota no período 1974-1976: prolonga-se nos usos políticos e culturais que moldaram a memória pública. O Portugal democrático construiu-se sobre a tensão entre estes dois marcos, 25 de abril e 25 de novembro, não como datas opostas, mas como momentos complementares. Permanece a herança maior: a conquista irreversível da liberdade e a institucionalização de uma democracia pluralista.”

          Ensaio de historiografia mais do que recomendado, dá-nos a compreensão de como se consolidou meio século de paz na vida portuguesa, como nunca tinha acontecido.

 

 

Mário Beja Santos

 


segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Um conhecido jornalista burguês elogia o comunismo, é sincero, mas não convence.

 

 



         

        Portugal dá um Presidente ao Conselho Europeu, tem permanentemente medalhados olímpicos, pensadores de relevo como António Damásio, mas é de uma pobreza franciscana quanto a pensamento político, não há na praça um teórico de que se possa fazer menção, sem desprimor para figuras como Francisco Louçã ou o saudoso Eduardo Lourenço. Como propostas de renovação de teoria política, estamos entre a nulidade e os comentadeiros.

É meritório, digo mesmo corajoso, um jornalista com avultado currículo, escrever um livro para elogiar as suas convicções, ainda por cima dizendo-se comunista de pedra e cal. Regresso ao primeiro parágrafo. O país progrediu muito com a democracia, mas é assustadoramente pobre não só em filosofia política, como na apresentação dos quadros ideológicos, por via partidária, estejam eles ou não relacionados com o trotskismo, o maoismo, as diferentes estirpes da esquerda revolucionária, o marxismo-leninismo tal como se praticou de 1917 a 1989 e os seus adjacentes atuais, a social-democracia (vestindo a roupagem do socialismo democrático ou do histórico trabalhismo norueguês ou sueco), as doutrinas conservadoras que têm o desplante de se apresentarem como sociais-democratas, o conservadorismo-liberal, o liberalismo de recente extração e a doutrinação populista que copia fielmente o que se exprime em vários continentes, com as consagradas cambiantes de racismo, xenofobia, discurso do ódio, algazarra comunicacional para camuflar os seus verdadeiros intentos.

          Porque sou Comunista, por Pedro Tadeu, Confissões de um jornalista burguês, Zigurate, 2025, traz curiosamente uma badana que é um chamariz sobre possíveis respostas que o autor, profundo crente do comunismo, pretende abordar: a humanidade precisa de religião? O culto da personalidade é um perigo? Nunca houve fascismo em Portugal? O wokismo é um absurdo? Um jornalista pode ser comunista? Os crimes do comunismo existiram? O 25 de novembro deve ser celebrado? O mundo é péssimo, mas não há alternativa? Ora com estes aliciantes não há leitor que não resista em embrenhar-se num manifesto ideológico que já cativou meio mundo e que hoje é manifestamente residual, passe o paraninfo que ele nos vai reservar nesta obra.

          O que Pedro Tadeu nos pretende dar não é a validação das teorias do marxismo-leninismo para o século XXI, diz mesmo que podia correr o risco de produzir uma vulgata de má qualidade. Coligiu uma série de textos que já tinha escrito, dispersos em artigos de opinião e publicados em jornais, bem como em palestras e intervenções públicas e propõe-se dar 26 respostas que vão desde a religião, passando pela Festa do Avante!, pelo antifascismo e pela recusa do despotismo norte-americano, exprimindo calorosamente a defesa acérrima ao Serviço Nacional de Saúde; e mais, os comunistas têm uma alternativa, iremos saber qual.

          Diz-se embaraçado pelo assunto da religião, não tem fé e não pode entender quaisquer manifestações de fé, fica caladinho. Revela que perdeu o pai aos 9 anos, nesse dia deixou de acreditar em Deus. Espero que alguém que já tenha lido o seu livro lhe tenha explicado o que é a fé, a esperança e a caridade, invocada perante as câmaras da televisão, pelos palestinianos massacrados em Gaza, os sudaneses assassinados, os cristãos aviltados e queimados no Iraque ou no Paquistão. Afinal não fica caladinho, dirá que a religião deve estar cada vez mais limitada às questões do transcendente e ser substituída pelo dever coletivo de regular corretamente a nossa vida, isto a despeito de elogiar o Papa Francisco e a suas encíclicas que não estão nada limitadas às questões do transcendente.

          Irá falar-nos das liberdades burguesas e dirá que a palavra liberdade, para os comunistas tem um sentido verdadeiramente libertador e não apenas o de uma falácia legitimadora do pensamento dominante das elites políticas e económicas. Ponto curioso, ao longo de todo o seu elogio revela um grande alheamento às transformações provocadas por aquela sociedade de consumo oriunda do pós-guerra em que houve Guerra Fria, os soviéticos a exaltar a satisfação das necessidades básicas e coletivas e o mundo ocidental, com o farol nos EUA, a exaltar a livre iniciativa, o crescimento e o bem-estar adveniente das panóplias do consumo. Goste-se ou não, mesmo nos regimes oligárquicos ou teocráticos os princípios da livre iniciativa, da criatividade e da liberdade de opinião, podem ser reprimidos, mas acabam sempre por se impor, veja-se as obras clandestinas do cinema ou da literatura.

          Voltamos à sociedade de consumo e aos sucessivos saltos tecnológicos. Em 1973, Daniel Bell publicou uma obra altamente polémica, O advento da sociedade pós-industrial, teorizava o fim do predomínio agrário e industrial e a ascensão imparável do terciário, com todas as suas consequências, uma delas a alteração das classes trabalhadoras e das suas necessidades. Como se viu, Daniel Bell foi mais do que um profeta na sua antevisão, é nesse mundo em que vivemos. Pedro Tadeu desvela-se a mostrar como funciona o PCP, como este é discriminado, e não só nos meios de comunicação social, falará do machismo, do feminismo, do wokismo, comentará as razões pelas quais os comunistas são contra as guerras, embora adiante que para um comunista a história humana é fundamentalmente resultado do confronto permanente das contradições e das lutas de classes sociais, observando que isso do consenso é credo dos donos do sistema, os consensos são congeminados pelas elites e nas costas dos trabalhadores.

          Para além de manifestar o seu orgulho de comunista, de vez em quando aborda a superioridade dos comunistas, mesmo com pezinhos de lã: “Os horizontes de um intelectual comunista, independentemente dos seus interesses pessoais, das suas capacidades, do seu talento, da sua erudição, das suas relações, são necessariamente largos e, atrevo-me a dizê-lo, quase sempre mais largos do que os dos intelectuais não-comunistas.”

          Iremos saber o que Pedro Tadeu tem a dizer sobre a luta de classes, a organização de greves, a exuberância sem rival da Festa do Avante!, a relutância que têm ao culto da personalidade, porque admiram a Revolução de Outubro, porque são antifascistas, celebram o 25 de abril e não celebram o 25 de novembro… até que finalmente os comunistas, que anseiam transformar o mundo, têm uma alternativa, e di-lo sem rebuço: “Criar uma sociedade onde os meios de produção não são, à partida, privados, mas um bem comum da população, e onde o poder que os governara é dominado ou controlado pela classe trabalhadora.” Porque será que esta alternativa não é referendada pela generalidade do eleitorado? Bem, o Pedro Tadeu não escreveu este livro para teorizar e esboçar a alternativa, é humilde e não se quer meter em cavalarias altas. Dá para perguntar o que nos pretende confessar este jornalista dito burguês.

 

                                                                        Mário Beja Santos


quinta-feira, 20 de novembro de 2025

A operação Mar Verde, à luz das mais recentes investigações.



         

          Como observa o investigador José Matos, a Operação Mar Verde, desencadeada em novembro de 1970 por um contingente das Forças Armadas Portuguesas e um agrupamento de oposicionistas do regime de Sékou Touré, foi das mais ousadas levadas a cabo durante toda a guerra colonial. Resta dizer que trouxe terríveis consequências para o Governo de Marcello Caetano, marcou o isolamento diplomático português ao seu nível mais baixo. Há significativa literatura sobre esta operação, inclusivamente José Matos e o investigador Mário Matos e Lemos já se tinham debruçado sobre o assunto. As limitações para investigar são muitas, mas foi possível juntar mais documentação e trazer novas informações a público. A obra intitula-se Ataque Secreto, Operação Mar Verde em Conacri, Guerra e Paz 2025.

As peripécias da operação são por demais conhecidas. Uma força naval portuguesa, em 22 de novembro de 1970, cercou a capital da República da Guiné. De acordo com o plano operacional elaborado por Alpoim Calvão, usou-se a escuridão da noite e desembarcaram vários grupos de tropas especiais em pontos estratégicos da cidade.

Calvão propusera esta operação inicialmente com objetivos mais modestos, foram crescendo depois os objetivos. E da libertação dos prisioneiros portugueses e do afundamento das embarcações do PAIGC, passou a sonhar-se com um golpe de Estado que derrubasse Sékou Touré, de modo que o novo Governo, amigável com o Estado Novo, levasse ao afastamento do PAIGC naquele país, que lhe dava um apoio fundamental. A operação contou com o apoio total de Spínola, Caetano aprovou-a, ministros do seu Governo mostraram radical oposição. José Matos levanta interrogações de peso que hoje nos fazem pensar no que houve de leviano e temerário, faltou uma verdadeira medição dos prós e contras: seria praticamente impossível não associar Portugal ao golpe, até porque havia a possibilidade de capturar Amílcar Cabral (dividem-se os investigadores se não se pretendia acima de tudo a sua liquidação física) o que deixaria Spínola com um problema em mãos; questiona se o aureolado comandante-chefe ficaria mesmo numa situação vantajosa para negociar com o líder dos nacionalistas uma saída pacífica para a guerra de guerrilhas, ou a guerrilha continuaria a lutar; o que seria se houvesse a perda de apoio na Guiné Conacri com a mudança de regime e a captura (ou morte?) de Amílcar, esta mudança levaria a guerrilha a desistir da luta?; e por quanto tempo seria possível manter um Governo desta oposição a Sékou Touré, um Governo do Front de Libération Nationale de la Guinée sem uma intervenção externa ou contra as forças do PAIGC e de Cuba que estavam no país?

São questões cruciais e a historiografia existente passa-lhe ao lado. Inequivocamente, Spínola perdera a ilusão de quebrar a espinha ao PAIGC, depois dos dramáticos acontecimentos de abril passado, com o massacre de uma equipa de negociadores no chão Manjaco. Perdera-se qualquer paridade no armamento, o PAIGC tinha um conjunto significativo de bases territoriais e com controlo administrativo, escolas e hospitais, o projeto de Armazéns do Povo estava em marcha. O Governador e comandante-chefe deste maio de 1968, imprimiu uma nova estratégia, recebeu fundos chorudos, constituiu a sua própria equipa, estabeleceu um plano de abandono de destacamentos, anunciou uma política dominada “Por uma Guiné melhor”, nesse mesmo ano de 1970 apareceram Congressos do Povo destinados a conquistar o apoio das comunidades tribais. Sempre que se desloca a Lisboa e participa nas reuniões do Conselho Superior de Defesa Nacional, fala categoricamente no agravamento da situação, pede mais meios humanos e materiais. Logo na exposição que faz ao Conselho em 8 de novembro de 1968, ficou escrito em ata que “O senhor Governador da Guiné voltou a salientar que é imperativamente necessário evitar que o inimigo atinja a fase de implantação militar em todo o território da Guiné, sob pena de a nossa soberania ficar irremediavelmente perdida”.

Não deixa de ser curiosa a comparação da correspondência de Schulz e de Spínola a pedir meios aéreos mais suscetíveis de fazer recuar a presença dos grupos do PAIGC dentro do território, só em abril de 1974 é que as negociações para a aquisição de aviões Mirage pareciam bem encaminhadas. Acresce que o PAIGC já podia contar com a ajuda cubana e apoio humanitário da Suécia. A presença do PAIGC na República da Guiné era por demais evidente. É então que descobre que havia um movimento de dissidentes da Guiné-Conacri dispostos a derrubar Sékou Touré, foi assim que nasceu a convergência com Alpoim Calvão, este idealizara somente a libertação dos prisioneiros portugueses e o afundamento dos meios navais inimigos.

José Matos faz-nos uma resenha dos antecedentes da Mar Verde, da evolução dos objetivos para a operação, cedo se começou a verificar que a oposição a Sékou Touré tinha imensas fragilidades; os grupos hostis foram sendo recolhidos em vários países e comprou-se armamento soviético sigilosamente na Bulgária; irá comprovar-se que o envolvimento da PIDE não garantiu informações rigorosas quanto à situação e localização de entidades e objetivos; também se esclarece  neste historial do José Matos que havia contactos com os opositores de Sékou Touré desde 1966, os oposicionistas durante muito tempo limitavam-se a pedir uma contribuição financeira e fornecimento de material bélico.

Estamos agora em plena invasão de Conacri, descrevem-se os meios em prémios, as dúvidas suscitadas logo na ilha de Soga, Spínola discursa aos comandos africanos antes da partida e desencadeia-se o assalto, conhecemos já os contornos essenciais de tudo quanto se passou, os meios aéreos da República da Guiné não estavam em Conacri, não encontraram o ditador, Cabral estava ausente de Conacri, falhou a ocupação da emissora, o tenente Januário dos comandos africanos desertou com vinte homens, houve afundamento de meios navais, libertaram-se os prisioneiros portugueses, sofremos baixas ainda que modestas. Ficou comprovado que os meios militares da República da Guiné estavam numa completa desorganização.

Segue-se a tempestade internacional: a condenação na ONU, a URSS oferece os seus préstimos navais, o que irá inquietar a NATO. Em definitivo, Spínola fica convencido da inviabilidade de uma solução militar e irá argumentar nesses termos na reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional que se realizou em 7 de maio de 1971, consta na documentação:

“Devemos excluir, de uma vez para sempre, a veleidade de ganharmos militarmente a guerra que enfrentamos, a qual só poderia ser ganha no campo das armas face a uma viragem imprevisível na presente conjuntura mundial. O problema só poderá resolver-se no campo político e quero crer que tal solução ainda se apresenta viável.”

O resto da história já a sabemos: desentendimento entre Marcelo Caetano e Spínola; caminha-se para a exaustão dos meios; o PAIGC recebe mísseis e armamento que lhe permite operar em termos de guerra convencional; a legislação de Sá Viana Rebelo incendeia os ânimos, aos poucos irá constituir-se o Movimentos dos Capitães. Tudo culmina no 25 de abril.

José Matos dá-nos novamente prova das suas capacidades de rigor e assegura-nos uma leitura bastante emotiva.


                                                                                    Mário Beja Santos 

 



terça-feira, 11 de novembro de 2025

Abstenção, a grande pedra no sapato da democracia participativa.

 


 

          A Fundação Francisco Manuel dos Santos desenvolve meritórias iniciativas para procurar dar a conhecer em equação o que é hoje ser português, que problemas trazemos connosco, quais as nossas marcações de identidade, como nos vemos na esfera do tempo; ah, como nos comportamos em cidadania e encaramos a democracia participativa. É nesta última temática que está em cima da mesa um osso duro de roer, dele se especula muito, há muitos porquês sobre a abstenção, nem a parte nem o todo apresentam resultados satisfatórios. Por isso a indagação é persistente, nem vale a pena falar dos riscos que representa o alheamento democrático. É assunto seríssimo, a Fundação acaba de tomar algumas iniciativas. Primeiro, um estudo. Vejamos o que ele diz.

           Consta no site da Fundação Francisco Manuel dos Santos o seguinte:

“Quem se abstêm em Portugal e porquê? O novo estudo da Fundação é a mais extensa análise já feita (até à data) sobre as causas e as consequências da abstenção eleitoral em Portugal, cobrindo todo o período democrático e os vários tipos de eleições. Os autores recomendam estimular o dever cívico nas escolas, logo a partir o 1º ciclo, e expandir o voto em mobilidade para aumentar a participação eleitoral, mas deixam de fora o voto obrigatório e o voto online.

Portugal registou um declínio significativo na participação eleitoral ao longo das últimas décadas. Mas qual é a dimensão da abstenção? O que leva tantos eleitores a decidir não votar e quais são as consequências de não escolherem os seus representantes? Há diferenças entre as posições políticas de quem vota e de quem se abstém? E que estratégias podemos implementar para estimular a participação eleitoral?

O estudo, da autoria de José Santana Pereira e João Cancela, responde a estas questões com base num inquérito a 2405 eleitores, 6 focus groups com abstencionistas/votantes intermitentes e três encontros com representantes políticos a nível local, nacional e europeu, oferecendo a mais extensa análise até à data sobre o fenómeno no nosso país.

Esta investigação revela que em eleições legislativas, presidenciais e europeias, a participação eleitoral é mais elevada nas zonas urbanas, enquanto nas autárquicas os eleitores das zonas rurais e híbridas tendem a votar mais.

Sabe-se também que a abstenção não é um comportamento aleatório nem uniforme. Os autores destacam que características sociodemográficas, como a idade, o nível de escolaridade e de rendimentos, fatores atitudinais, como o sentimento de dever cívico ou o interesse pela política, e barreiras práticas, como a distância do local de voto, influenciam a decisão de não votar.” O leitor pode ter acesso ao estudo completo em: file:///C:/Users/M%C3%A1rio%20Beja%20Santos/Downloads/Estudo%20completo%20(PDF).pdf

Em simultâneo com a publicação do estudo era editado o livro O tanto que grita este silêncio, Porque se abstêm os portugueses?, por Nelson Nunes, Fundação Francisco Manuel dos Santos, setembro 2025.

Vota-se para quê? O autor recorda que o país está dividido em dois: nos meios urbanos, é mais fácil de chegar às urnas, mas, para os milhares de pessoas que vivem em meios rurais, o caso muda de figura. É muito provável haver milhares de abstencionistas involuntários nestes contextos. Não há explicação para esses porquês da inércia e do alheamento, mas não sobra dúvida que a política não está a comunicar a ponto de mexer com todos, e não vale a pena passar desculpas para os casos de corrupção, criminalidade, falta de satisfação de necessidades básicas como a saúde, recrudescimento de violências, matérias-primas que os órgãos de comunicação social que primam pelo sensacionalismo exploram até à exaustão.

Sabe-se que há abstenção como forma de protesto, se querem explorar o lítio na nossa terra, nós não votamos. Há quem diga que os partidos são todos iguais, nenhum deles dá resposta à falta de empregos, às remunerações justas dos primeiros empregos, e por aí fora. Nelson Nunes foi ouvir pessoas, grande surpresa foi perceber que há abstencionistas politicamente esclarecidos, há quem se apresente como abstencionista temporário, há quem foi muito tempo imigrante e que se sinta injustiçado por pagar impostos em Portugal, há mesmo quem diga nunca ter sido estimulado para as diversas formas de participação cívica, há quem não esconda um certo desconforto por saber que ao não votar há quem esteja a fazer escolhas por si, há também aquele inquirido que saltita de trabalho em trabalho e de país em país e que não vota alegando que os problemas se resolvem com decisões que nem foram anunciadas nos programas eleitorais.

Há quem se sirva da abstenção como um grito de revolta. E há respostas que nos apanham de surpresa, como esta: “Considero que a política é muito mal paga. Um bom gestor, um bom líder, não vai para a política. Vai para uma boa empresa, que lhe pague muito bem. Por isso, só vai para a política quem não é muito bom.” É como se dissesse que não se vota neles porque são genericamente medíocres. Quando, subitamente, em março de 2024, a abstenção foi das mais baixas de sempre, houve quem desse a seguinte interpretação: “É a revolta a falar. As pessoas estão cansadas, fartas do mesmo. Eu decidi não ir, mas com a generalidade das pessoas aconteceu o contrário. Foram votar porque querem respostas.”

Os inquéritos de Nelson Nunes não nos dão milagres explicativos: descobre-se que há quem foi durante muito tempo abstencionista e que agora participa, há quem durante muito tempo foi atraído por ideias de esquerda, está cansado de promessas, procura agora valores diferentes no populismo, mas também há quem se manifeste cansado numa direita e centro-direita que só tem uma certa política social para não perder o barco. O autor também bateu à porta de especialistas em ciência política, as respostas também são complexas no meio académico. Dirá mesmo, em jeito de conclusão, que o modo como as pessoas votam está diretamente relacionado com o estado das suas vidas. E os abstencionistas são mais do que a representação tosca que vemos deles na comunicação social. Acresce que a abstenção também é uma forma de representação mediática, por outras palavras, diz ele, o que falta é pôr os abstencionistas na comunicação social: libertá-los de um certo sentimento de vergonha, ou vê-los e perceber que caminho construtivo se pode desenvolver a partir daí. Estes abstencionistas silenciosos têm todo o direito a ser ouvidos.

 

                                                                Mário Beja Santos