Há já alguns
anos, o Paulo e o António ofereceram-me um livro romeno para crianças, dos
tempos de Ceaucescu. Maravilhosamente ilustrado, é um livrinho que pretende dar
às crianças da Roménia vários conselhos de higiene e saúde: ursos e coelhos a
levantarem-se cedo da cama, a fazerem ginástica no bosque, a lavarem o rosto e
o corpo, escovando os dentes de manhã e à noite.
O livro foi publicado no ano anterior a
Ceaucescu chegar ao poder, pela Editora Médica de Bucareste. Mas, segundo sei,
teve ampla difusão entre as crianças dos tempos em que Nicolae e Elena governavam a
Roménia como uma coutada privada, uma terra onde a raposa
era o caçador, para usar o título de um famoso livro de Herta Muller.
Logo em
1966, Ceaucescu iniciou a sua demencial política de natalidade, que visava
aumentar a população de 23 milhões para 30 milhões de romenos em 2000. Em 34
anos, a Roménia deveria ter um superávite de 7 milhões de pessoas. “Um feto é
propriedade de toda a sociedade”, proclamava Ceaucescu, como se refere aqui, com base num texto da Newsweek.
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Os métodos contraceptivos e a educação
sexual foram banidos, os livros sobre sexualidade eram classificados como
segredos de Estado. A taxa de natalidade duplicou ao início, mas a falta de
condições sanitárias fez disparar a mortalidade infantil. 83 mortes por cada
1000 nascimentos, em contraste com a taxa 10/1000 que é a média nos países
ocidentais. Uma em cada dez crianças nascia com falta de peso. As crianças que
nasciam com peso inferior a 1.500 gramas eram consideradas inviáveis,
sendo-lhes negado tratamento médico (o que não deixa de ser singular e terrivelmente
paradoxal num país que queria aumentar a natalidade). As mulheres com idade
inferior a 45 anos eram trimestralmente examinadas por médicos, quase sempre na
presença de funcionários governamentais, que os romenos apelidavam de “polícias
da menstruação”. As mulheres que não tivessem filhos, mesmo que tal se devesse
a uma incapacidade física ou biológica para os gerar, tinham de pagar uma taxa,
correspondente a 10% do seu salário mensal. Isto, repita-se, mesmo que fossem
inférteis.
Na Roménia de Ceaucescu, a vida sexual das mulheres era objecto de
inquéritos de resposta obrigatória. Como observou Hannah Arendt, o
totalitarismo começa quando se esbatem as fronteiras entre o público e o
privado.
O aborto na Roménia era
permitido em condições muito restritivas e a prática do aborto clandestino
grassava entre as romenas, fazendo muitas e muitas vítimas. Calcula-se que
cerca de 9000 mulheres hajam morrido por abortos clandestinos, entre 1965 e
1989. Todos se lembram do filme Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias, de Cristian Mungiu, que em 2007 ganhou a
Palma de Ouro do Festival de Cannes.
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A desastrosa
política de natalidade, aliada à extrema pobreza das condições de vida, acabou
por levar milhares de crianças para os orfanatos. Não vou falar disso aqui,
daria matéria para várias páginas. Há um livro de Joan Simkins, que aborda o
tema, contando as tentativas de resgate das crianças dos orfanatos romenos. Não
o li, mas o título é Ceaucescu’s Children.
Com um título parecido, surgiu há uns anos um livro chamado Children of Ceaucescu, com fotografias
de Kent Klich e um ensaio de Herta Müller, de quem falei acima. Kent Klich
nasceu na Suécia em 1952, estudou psicologia na Universidade de Gotemburgo.
Depois de se formar, começou a lidar com adolescentes problemáticos. Em 1983,
conheceu Beth R., toxicodependente e prostituta, como a Christiane F. de um
livro que marcou e marca gerações inteiras. Em 1989, publicou o livro de
fotografias The Book of Beth e, desde
então, tem explorado mundos que não gostamos de ver – mas que temos o
imperativo moral de saber que existem. Nos anos noventa, as crianças de rua da
Cidade do México. Também nos anos noventa, começou a fotografar as crianças de
Ceaucescu. Kent Klich é actualmente fotógrafo da Magnum e a sua obra pode ser
vista aqui. De Herta Müller, galardoada com o Nobel da Literatura em 2009, não é necessário falar.
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Do que
devemos falar, isso sim, é das crianças de Ceaucescu. Poucas pessoas conhecem
um dos seus legados mais horríveis: a Roménia tem – ou tinha, até há poucos
anos – a mais elevada taxa de crianças infectadas com SIDA. A taxa mais elevada
do mundo. No final dos anos oitenta e
nos inícios dos anos noventa do século XX, os hospitais públicos e os orfanatos
foram abastecidos com um “composto” destinado a crianças malnutridas ou
anémicas, que existiam aos milhares. Esse “composto” tinha, entre o mais,
plasma que não fora analisado – e que mais tarde se soube que estava infectado
pelo HIV. Milhares de crianças morreram. Actualmente, sobrevivem cerca de
10.000. Dez mil. Hoje serão menos, e já terão deixado de ser crianças.
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Sei
que este “post” (ou “posta”) é duro e difícil de ver, mas não podemos virar a cara ao mundo. Sei que posso ser acusado de
demagogia ou manipulação de sentimentos. Até Kent Klich e Herta Müller podem
ser acusados do mesmo delito. Talvez haja uma agravante contra mim: ter
colocado imagens de um livro infantil, com conselhos de higiene, ao lado de
fotografias devastadoras de crianças com SIDA, sobrevivendo em orfanatos. Mas
um livro e outro merecem ser reunidos, pois marcam o início e o fim de uma era.
O sonho higienista e saudável, que merece ser louvado, acabou por redundar num
pesadelo horrível, captado a preto e branco. Entre os conselhos médicos do livro infantil
e a realidade fotografada por Klich existe de permeio um regime e uma pessoa,
Nicolae Ceaucescu. Já morreu é certo, em condições que não dignificam ninguém,
sobretudo quem o julgou e fuzilou. Já morreu é certo – mas não o devemos
esquecer, nem o que significou o seu regime. Aliás, estas crianças – algumas
das quais também já mortas, por certo – são mais reais do que os ursinhos e os
coelhinhos da propaganda médica. A melhor forma de as respeitar é lembrarmo-nos
que existem, ou existiram. Por muito que nos custe olhá-las quando olham para
nós.
António Araújo