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domingo, 12 de agosto de 2018

Chez Ceaucescu.


 






 
 
aqui falámos, há um par de anos, da formidável Anca Petrescu, arquitecta do não menos formidável Palácio do Parlamento de Bucareste, horrendo edifício que desfigura a capital romena, mas, à faute de mieux, é um dos lugares mais visitados dessa terra.  Também falámos de coisas mais sérias, terríveis, as crianças de Ceaucescu. E, pela pena da Joana Vasconcelos, Elena cientista.
Foi aberto ao público, há uns dois anos, o Palácio de Primavera do casal Ceaucescu, um prodígio de mau gosto de que o Le Monde, numa belíssima série sobre os jardins dos ditadores, falou ontem mesmo. Há uma notícia desenvolvida aqui sobre a casa-museu do ditador da Roménia, onde este e a sua Elena viveram 25 anos de conforto e luxo, que contrastava gritantemente com a miséria imerecida do povo romeno. Ali dentro há carpetes, como uma oferecida pelo Xá da Pérsia, avaliadas em 300 mil euros. E o estilo Luís XV (versão marreta) não está lá por acaso: a extraordinária Elena considerava-se uma rainha, ou gostava de pensar que o era. O marido, de seu lado, deliciava-se na sua sala privada de cinema a ver westerns americanos e a saudosa série policial Kojak. Já a filhinha Zoia tinha um apartamento copiado dos aposentos de Maria Antonieta em Versalhes. Demencial.
Acredite-se ou não, numa sondagem de 2014, realizada na Roménia, a maioria dos inquiridos considerou que Ceaucescu tinha tido um papel positivo na governação do país (já agora, esta notícia aqui do Malomil, de 2012). Valha-nos Santo Drácula.   
 
 
 

sábado, 28 de abril de 2018

Eppur si muove.

 









 
Estamos na Roménia comunista, ano 1987. Não foi assim há tanto tempo, goodbye Ceaucescu. Na cidade de Alba Iulia, 08:35 da manhã, numa quarta-feira vulgar, dia 27 de Maio. Quiseram construir o Boulevard Transilvânia, está certíssimo. O problema é que no lugar do boulevard estava lá, qual empecilho betonado, um bloco de apartamentos de 100 metros por comprido e 7.600 toneladas de peso. Que fazer?, perguntou Lenine. Pois muda-se o bloco betoneiro, respondeu Ceaucescu. Assim se quis, assim se fez. Em seis horinhas de esforço, mudou-se a peça. As oitenta famílias residentes nem tiveram que retirar os haveres de seus lares, e saíram à rua com a roupa que tinham no corpo para assistir ao deslizamento do condomínio. O prédio lá foi de carrinho, sem mortos nem feridos. Ceaucescu levou a cabo um grandioso plano de remodelação urbana em toda a Roménia. Este método Lego saía mais barato de que deitar abaixo e construir de novo. Desta vez correu bem. Outras, não.
 

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Arroz com feijão.

 
 
 
 
 
 

         Gilda, caraças, mais um ano e não me convidaste para a tua feijoada fashion vendetta ! E ouve cá, mulher: aquilo do Kristine Kosta é mesmo koisa de nascença ou só nome artístico? beijinho

 

sábado, 20 de junho de 2015

O Parlamento de Ceaucescu.

 
 



Antiga sala do Comité Central
 









 
 
aqui se falou de Anca Petrescu, a autora deste brinquedo arquitectónico. E também, mais sombriamente, das Crianças de Ceaucescu. A Joana Vasconcelos escreveu um texto hilariante, sobre Elena e os polímeros.
E agora o Nuno Sampaio, que esteve em Bucareste, de lá trouxe estas faustosas fotografias do Parlamento da Roménia. Obrigado, Nuno, um abraço!
 
 
 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

As crianças de Ceaucescu.

 
 
 
 




















































Há já alguns anos, o Paulo e o António ofereceram-me um livro romeno para crianças, dos tempos de Ceaucescu. Maravilhosamente ilustrado, é um livrinho que pretende dar às crianças da Roménia vários conselhos de higiene e saúde: ursos e coelhos a levantarem-se cedo da cama, a fazerem ginástica no bosque, a lavarem o rosto e o corpo, escovando os dentes de manhã e à noite.
 

O livro foi publicado no ano anterior a Ceaucescu chegar ao poder, pela Editora Médica de Bucareste. Mas, segundo sei, teve ampla difusão entre as crianças dos tempos em que Nicolae e Elena governavam a Roménia como uma coutada privada, uma terra onde a raposa era o caçador, para usar o título de um famoso livro de Herta Muller.


Logo em 1966, Ceaucescu iniciou a sua demencial política de natalidade, que visava aumentar a população de 23 milhões para 30 milhões de romenos em 2000. Em 34 anos, a Roménia deveria ter um superávite de 7 milhões de pessoas. “Um feto é propriedade de toda a sociedade”, proclamava Ceaucescu, como se refere aqui, com base num texto da Newsweek. 

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Os métodos contraceptivos e a educação sexual foram banidos, os livros sobre sexualidade eram classificados como segredos de Estado. A taxa de natalidade duplicou ao início, mas a falta de condições sanitárias fez disparar a mortalidade infantil. 83 mortes por cada 1000 nascimentos, em contraste com a taxa 10/1000 que é a média nos países ocidentais. Uma em cada dez crianças nascia com falta de peso. As crianças que nasciam com peso inferior a 1.500 gramas eram consideradas inviáveis, sendo-lhes negado tratamento médico (o que não deixa de ser singular e terrivelmente paradoxal num país que queria aumentar a natalidade). As mulheres com idade inferior a 45 anos eram trimestralmente examinadas por médicos, quase sempre na presença de funcionários governamentais, que os romenos apelidavam de “polícias da menstruação”. As mulheres que não tivessem filhos, mesmo que tal se devesse a uma incapacidade física ou biológica para os gerar, tinham de pagar uma taxa, correspondente a 10% do seu salário mensal. Isto, repita-se, mesmo que fossem inférteis.


Na Roménia de Ceaucescu, a  vida sexual das mulheres era objecto de inquéritos de resposta obrigatória. Como observou Hannah Arendt, o totalitarismo começa quando se esbatem as fronteiras entre o público e o privado.


 
O aborto na Roménia era permitido em condições muito restritivas e a prática do aborto clandestino grassava entre as romenas, fazendo muitas e muitas vítimas. Calcula-se que cerca de 9000 mulheres hajam morrido por abortos clandestinos, entre 1965 e 1989. Todos se lembram do filme Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias, de Cristian Mungiu, que em 2007 ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes.
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A desastrosa política de natalidade, aliada à extrema pobreza das condições de vida, acabou por levar milhares de crianças para os orfanatos. Não vou falar disso aqui, daria matéria para várias páginas. Há um livro de Joan Simkins, que aborda o tema, contando as tentativas de resgate das crianças dos orfanatos romenos. Não o li, mas o título é Ceaucescu’s Children. Com um título parecido, surgiu há uns anos um livro chamado Children of Ceaucescu, com fotografias de Kent Klich e um ensaio de Herta Müller, de quem falei acima. Kent Klich nasceu na Suécia em 1952, estudou psicologia na Universidade de Gotemburgo. Depois de se formar, começou a lidar com adolescentes problemáticos. Em 1983, conheceu Beth R., toxicodependente e prostituta, como a Christiane F. de um livro que marcou e marca gerações inteiras. Em 1989, publicou o livro de fotografias The Book of Beth e, desde então, tem explorado mundos que não gostamos de ver – mas que temos o imperativo moral de saber que existem. Nos anos noventa, as crianças de rua da Cidade do México. Também nos anos noventa, começou a fotografar as crianças de Ceaucescu. Kent Klich é actualmente fotógrafo da Magnum e a sua obra pode ser vista aqui. De Herta Müller, galardoada com o Nobel da Literatura em 2009, não é necessário falar.
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Do que devemos falar, isso sim, é das crianças de Ceaucescu. Poucas pessoas conhecem um dos seus legados mais horríveis: a Roménia tem – ou tinha, até há poucos anos – a mais elevada taxa de crianças infectadas com SIDA. A taxa mais elevada do mundo. No final dos anos oitenta e nos inícios dos anos noventa do século XX, os hospitais públicos e os orfanatos foram abastecidos com um “composto” destinado a crianças malnutridas ou anémicas, que existiam aos milhares. Esse “composto” tinha, entre o mais, plasma que não fora  analisado – e que mais tarde se soube que estava infectado pelo HIV. Milhares de crianças morreram. Actualmente, sobrevivem cerca de 10.000. Dez mil. Hoje serão menos, e já terão deixado de ser crianças.


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Sei que este “post” (ou “posta”) é duro e difícil de ver, mas não podemos virar a cara ao mundo. Sei que posso ser acusado de demagogia ou manipulação de sentimentos. Até Kent Klich e Herta Müller podem ser acusados do mesmo delito. Talvez haja uma agravante contra mim: ter colocado imagens de um livro infantil, com conselhos de higiene, ao lado de fotografias devastadoras de crianças com SIDA, sobrevivendo em orfanatos. Mas um livro e outro merecem ser reunidos, pois marcam o início e o fim de uma era. O sonho higienista e saudável, que merece ser louvado, acabou por redundar num pesadelo horrível, captado a preto e branco. Entre os conselhos médicos do livro infantil e a realidade fotografada por Klich existe de permeio um regime e uma pessoa, Nicolae Ceaucescu. Já morreu é certo, em condições que não dignificam ninguém, sobretudo quem o julgou e fuzilou. Já morreu é certo – mas não o devemos esquecer, nem o que significou o seu regime. Aliás, estas crianças – algumas das quais também já mortas, por certo – são mais reais do que os ursinhos e os coelhinhos da propaganda médica. A melhor forma de as respeitar é lembrarmo-nos que existem, ou existiram. Por muito que nos custe olhá-las quando olham para nós.
 
 

António Araújo