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sexta-feira, 17 de julho de 2020
terça-feira, 10 de março de 2020
Pas à pas.
A
Teresa vive há um montão de anos, mais do que a conta, na Polónia-Polanda. Faz
parte da mobília dos expats de Varsóvia, e até gosta. Foi lá, creio, que conheceu
os pais da Teodora Cousens e, claro, a própria da Tedoroa Cousens, uma menina meio inglesa, meio
polaca, que com 10 anos desenhou o Philippe Petit a caminhar navegar entre as
Torres Gémeas. É claro que o Malomil não podia ficar indiferente a tudo isto e
daí ter andado semanas a suplicar à Teresa que me deixasse publicar o desenho
da little Teodora, que está lá em cima. Lá em cima como o Petit.
Post scriptum: a
Teresa Teresinha escreveu-me logo a rectificar que não são as Torres Gémeas de
Nova Iorque, são a Torre Eiffel e o Palac Kulturi i Nauki de Varsóvia e eu
lembrei-me logo do dia em que eu e ela andámos ali horas por tudo quanto era canto e
recanto do Palac Palac Kulturi i Nauki, a abrir todas as portas e a tentar ir a
todos os sítios para ver, para ver, os dois a cuscar as vísceras daquela maravilha horrenda.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2018
O século dos prodígios.
Aqui há uns anos, andando em Cracóvia,
deparei com um rinoceronte em pleno centro histórico que por lá chamam Stare
Miasto. Um, não. Dois rinocerontes, a mais o inimigo elefante, na frontaria de
uma casa na Rua Grodzka. Depois, reparando melhor, notei que havia outro,
ademais não idêntico, na mesma casa, mas agora na fachada que dá para a Rua
Poselska. A coisa adensa-se pois não longe dali está o Museu de História
Natural, que alberga um rinoceronte antiquíssimo, mas esse não entra na
história. Pelo que pude perceber (mal), a
casa que faz esquina entre o 38 da Rua Grodzka e o 19 da Rua Poselska chama-se Kamienica Pod Elefanty e refere a Wikipedia que remonta ao
século XV. Gostava de saber mais polaco para saber a história da casa, mas não
sei, nem o livro de Juan Pimentel fala sequer de Cracóvia. Como é evidente, os rinocerontes e o elefante da fachada não podem estar
lá desde o século XV. Talvez século XVI ou XVII. Em todo o caso, lá estão,
como em Nuremberga está – via há muitos anos – a gravura de Dürer na casa-museu
deste génio.
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Cracóvia. O elefante ladeado por dois rinocerontes.
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O elefante.
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Os dois rinocerontes.
Repare-se como são diferentes, a ponto de se dizer que um é um rinoceronte de Sumatra.
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O que eu não sabia de todo – e foi o livro de Juan Pimentel
que mo ensinou – é que a representação mais antiga de um rionoceronte no Novo
Mundo está na Colômbia. Em Tunja, província de Boyacá, na casa-museu do escritor Juan de Vargas, que chegou ao país em 1564. O tecto foi pintado em 1590,
à maneira maneirista, e a figuração do rinoceronte que lá está é tirada, sem
sombra de dúvida, da gravura de Dürer – ou das muitas cópias feitas por outros e
até edições piratas que se fizeram na altura. Outra coisa que Juan Pimentel não
diz, mas que fui descobrindo e sobre a qual não tenho certezas nenhumas, é que
em Tunja há um outro rinoceronte. Talvez até mais antigo do que o da casa de
Juan de Vargas, ainda não pude apurar (se alguém tiver o livro de Mejía Los Rioncerontes de Colombia é favor de
emprestar). É a Casa de Gonzalo Suárez Rendón, também Casa del Fundador, pois em
1539 Rendón foi o fundador da província de ,Boyacá daí o nome. A casa foi erguida entre 1540 e 1570, sendo
portanto mais antiga ou pelo menos contemporânea da casa de Juan de Vargas. E
também tem tectos pintados. E também num desses tectos está um rinoceronte,
mais tosco, menos Dürer.
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Tunja, Colômbia. Casa de Juan de Vargas
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Elefantes
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Tunja, Colômbia. Casa del Fundador.
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Elefante.
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Rinoceronte.
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Fica a promessa de que mais pesquisas. Por ora, a partilha
do assombro: um rinoceronte que veio da Índia, passou por Lisboa, foi metido
num navio, fez escala em Marselha onde foi apreciado pelo rei da França,
naufragou e morreu afogado já à vista da costa de Itália, para onde ia a
caminho de Roma, obviamente a ver o Papa. Rinoceronte que está na Torre de
Belém, idem em Nuremberga na casa de Dürer, artista que o retratou em gravura best-seller. Daí rumou à Polónia, Cidade
Velha de Cracóvia, mas também à distante Colômbia, onde figura em pelo menos
duas casas da cidade de Tunja, província de Boyacá. Se isto não é universalismo
e globalização, se isto não foi mesmo um século dos prodígios, dizei então vós, de vossa justiça.
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quinta-feira, 11 de outubro de 2018
Os assassinos da memória.
Que
Hitler não era polaco, isso é uma coisa que já todos sabíamos. Era austríaco,
já agora. E que foram os alemães quem construiu Auschwitz e tudo o mais –
alguém duvidava? O problema é que este movimento e este site estão associados a um descarado revisionismo, como se polacos,
ucranianos, franceses, espanhóis ou portugueses – não todos, mas muitos – não
tivessem colaborado com os nazis. Na imediata sequência desta reescrita da
História, anunciada em outdoors e com grande fragor e estrondo, o negacionismo,
o anti-semitismo, o assassinato da memória. Lamentável. Por cá, neste cantinho ora gentrificado,
nem temos bem consciência do que vai por essa Europa fora. Leitura recomendada:
O Mundo de Ontem, de Stefan Zweig.
quinta-feira, 16 de agosto de 2018
Vidas singulares: Herman Shine.
Morreu
há dias, com 95 anos, um homem que, pela cruel lei das probabilidades, deveria estar
morto há várias décadas. Nasceu em Berlim, em 1922, de seu nome Mendel
Scheingesicht. Morreu na Califórnia chamando-se Herman Shine. De permeio, o
mais relevante que fez na vida foi ter escapado com vida ao horror de
Auschwitz. Não foi um pequeno feito: mais de um milhão de pessoas morreram em Auschwitz.
Herman Shine não só sobreviveu como conseguiu escapar do campo, fugir dali
através da coragem admirável de quem o ajudou, uma história incrível aqui contada. Acredita-se quando disse um dia que devia a sua vida a uma dúzia de
milagres, a uma sucessão de acasos felizes que lhe permitiu sobreviver – e morrer
em paz, sorridente, aos 95 anos.
sábado, 9 de dezembro de 2017
Fotografia de 11 de Setembro.
FOTOGRAFIA DE 11 DE
SETEMBRO
Atiraram-se dos andares
em chamas.
um, dois, ainda alguns,
mais acima, mais
abaixo.
A fotografia deteve-os
na vida
e agora preserva-os
sobre a terra rumo à
terra.
Cada um ainda na
íntegra,
com rosto individual
e sangue bem guardado.
Ainda há tempo
para os cabelos
esvoaçarem
e do bolso caírem
chaves e alguns trocos.
Ainda estão ao alcance
do ar,
no âmbito dos lugares
que acabaram de se
abrir.
Só duas coisas posso
por eles fazer:
descrever estre voo
e não acrescentar a
última frase.
Wisława Szymborska
quarta-feira, 6 de setembro de 2017
Obrigado, Elena.
sexta-feira, 1 de setembro de 2017
O relógio da História.
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Yevgeny Khaldei, Erguer da Bandeira no Reichstag
2 de Maio de 1945
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Nem vale a pena dizer, mas já agora digo,
que esta é uma das mais famosas fotografias do século XX. Tem vários nomes,
como «Erguer da Bandeira no Reichstag» e foi captada em 2 de Maio de 1945,
quando as tropas soviéticas assinalaram ao mundo a conquista da capital do
Reich. Já agora, uma espreitadela aqui, que vale muito a pena. E aqui, também curiosíssimo.
Na imagem, soldados do Exército
Vermelho, um sargento geórgio, Meliton Varlamis dez Kantaria
(bem, vamos abreviar para Meliton Kantaria), para sempre heroicizado como o
homem que ergueu a bandeira no topo do Reichstag. Até há estátuas do intrépido
combatente, que morreu em 1993. O outro é um russo, Mikhail Yegorov (mais
precisamente, Mikhail Alekseevich Yegorov,
multiplamente condecorado como Herói da União Soviética, Ordem de Lenine, Ordem
da Bandeira Vermelha, Ordem da Guerra Patriótica (2ª classe, adultos), Ordem da
Estrela Vermelha, Ordem da Glória (3ª classe, do antigamente), Medalha
«Combatente da Guerra Patriótica» (1ª classe), Medalha do Jubileu por Serviços
Militares por Ocasião do 100º Aniversário do Nascimento de Vladimir Ilich
Lenine, Medalha pela Vitória Sobre a Alemanha na Grande Guerra Patriótica de
1941-1945, Medalha do Jubileu pelo 20º Aniversário da Vitória na Grande Guerra
Patriótica de 1941-1945, Medalha do Jubileu pelo 30º Aniversário da Vitória na Grande
Guerra Patriótica de 1941-1945, Medalha pela Captura de Berlim, Medalha do
Jubileu pelos 50 Anos das Forças Armadas da URSS. Como se vê, na União
Soviética, um país igualitário, havia muita medalha para distinguir uns mais
iguais do que outros (e perdoem o cliché orwelliano). Com tanta medalha,
carregadinho delas, Yegorov morreu em 1975. Já Kantaria, também muito medalhado, foi viver para a Abecásia, mas teve de se mudar para Moscovo, onde morreu, pois as tropas russas entraram à força bruta pela Abecásia adentro, arrasando, entre muita coisa, a casinha do herói da URSS. Ironias da História...
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Estátua de Meliton Kantaria, em Jvari, na Geórgia
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A casa do herói Meliton Kantaria, em Ochamchire, Abecásia, destruída pelos ocupantes... russos (!)
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A tonta da Wikipedia nuns lados diz que
eram dois soldados a erguer a bandeira, noutros lados fala em três combatentes,
noutro ainda refere que foram quatro os meninos de chumbo que escalaram a
cúpula do Reichstag, que estava toda partidinha aos bocados, ou
quase que. Para contar a história, é indiferente o número dos militares,
adiante; quem quiser saber mais, é mergulhar aqui.
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Khaldei, a fotografar os julgamentos de Nuremberga
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O fotógrafo é Yevgeny Khaldei (calma:
Yevgeny Anan’evich Khaldei), de ascendência judaica, que mais tarde seria
repórter da TASS. Como é óbvio, recebeu também um camião de medalhas e condecorações
patrióticas, que nos escusamos de enumerar, até porque são muitas. Como muitas
foram as manipulações fotográficas que Khaldei fez ao longo da carreira, sem
quaisquer problemas de consciência, até porque – importa dizê-lo – na época
essas coisas não eram vistas com os olhos dos nossos tempos, mais éticos e
exigentes quanto à autenticidade da realidade fotografada. Khaldei fez carreira
em grande, sendo autor de retratos oficiais de Estaline, Gorbachev, Yelstine,
entre outras alimárias possantes.
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Isto está aqui para quem se interessa muito por filatelia do Azerbaijão
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A
história da fotografia está contada há muito (até há selos do Azerbaijão com a
imagem, imagine-se!) e não adianta esmiuçá-la: hábil na arte do décor e dos
adereços, Khaldei levou consigo uma bandeira king size, feita por um tio, que
se entusiasmara com outra foto icónica, a dos americanos a levantar a Stars and
Stripes em Iwo Jima, captada por Joe Rosenthal.
Pois se os americanos tinham feito uma imagem gloriosa e retumbante, que até
deu um filme do Clint Eastwood, os soviéticos queriam à viva força mostrar a sua
raça vermelha – e daí a fotografia da bandeira no Reichstag. Esta competição
imagética era o prenúncio da Guerra Fria, a prova provada de que o conflito
tépido entre EUA e URSS começou muito antes de resolverem aquela grande
embrulhada com os nazis.
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Joe Rosenthal, Raising the Flag at Iwo Jima,
Fevereiro de 1945
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O
Reichstag era um edifício simbólico do nazismo e Estaline queria à viva força
que fosse tomado antes de 1 de Maio, para celebrar o triunfo sobre Hitler no
Dia do Trabalhador. As coisas complicaram-se, o marechal Zukhov informou
Moscovo, a 30 de Abril, que já havia conquistado o Reichstage mas, foi-se a
ver, e no 1º de Maio ainda não tinham tomado o simbólico prédio, que é grande.
A bandeirinha só seria afixada, como dissemos, no dia 2 de Maio.
Há
muitas histórias à volta da cena, a ponto de se dizer que quem colocou a bandeira
foi um ucraniano de dezoito anitos, Alexei Kovalyov, mas que a polícia política, a NKVD, o mandou
estar caladinho e dar os créditos a outros. Também havia um tal de Abdulkhakim Ismailov (1916-2010), do Daguestão, segundo referiu o fotógrafo. Para o caso, não importa. Foram ao
telhado do edifício, Khaldei tirou a fotografia, que a dia 13 de Maio, na Cova
da Iria, seria publicada na revista Ogonyok (ou Oronëk?)
Existem outras imagens da cena (ver acima), mas, como sempre sucede, só uma pôde ser eleita como «icónica» − e foi a de Khaldei, que trabalhou para isso.
Existem outras imagens da cena (ver acima), mas, como sempre sucede, só uma pôde ser eleita como «icónica» − e foi a de Khaldei, que trabalhou para isso.
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A imagem original (ampliada)
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O fumo artificialmente enegrecido, ao fundo
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Para
já, começou por juntar uns fuminhos, ou enegrecer os que lá existiam ao fundo da cena, para adensar a atmosfera
de guerra total e dar um apontamento épico à coisa. A imagem, com a bandeira da foice
e martelo, seria usada como símbolo do triunfo do comunismo sobre o nazismo, o
que é um facto histórico: quem libertou Berlim foram os soviéticos, à custa de
milhões de mortos. Sobre a Batalha de Berlim podemos ler o que conta Anthony
Beevor mas, para perceber a dimensão do erro geopolítico dos Aliados
ocidentais, ao deixarem o campo livre à URSS para conquistar a capital do
Reich, há umas passagens interessantes e muito informativos no calhamaço da
Anne Applebaum A Cortina de Ferro. O Fim da Europa de Leste (trad. portuguesa, Civilização Editora, 2013).
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A imagem original, com relógios nos dois pulsos
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A imagem manipulada e censurada, já sem o relógio no pulso direito
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Por muito que possa parecer uma heresia, deve dizer-se que, apesar do vermelho da bandeira e da foice/martelo, a imagem, bem vista e analisada, representa, sem dúvida, a vitória militar da União Soviética. Mas não pode, de modo algum, ser usada como símbolo do triunfo da ideologia comunista nem da doutrina e das promessas messiânicas que lhe estão associadas. Pelo contrário – e mesmo sem contar com as honrarias medalhísticas ou as sinistras intervenções da NKVD e outras conspiratas –, a imagem, por paradoxal que possa parecer, é, isso sim, uma vitória retumbante de alguns princípios do capitalismo e da economia de mercado. Discordam? Ora vamos lá ver: a fotografia foi manipulada e maquilhada para limpar da imagem o relógio que o soldado heróico trazia ao pulso direito. No original, um relógio em cada pulso, na imagem manipulada, apenas um relógio no pulso esquerdo. E não, não eram relógios fornecidos pelo Exército Vermelho. Eram relógios roubados na Alemanha, em Berlim, em Budapeste, na Polónia, em qualquer lugar por onde passassem as tropas de Estaline. Sobre essa questão relojoeira, vejamos o que diz Anne Applebaum, descrevendo o avanço dos soviéticos:
«Os
relógios de pulso pareciam ter um significado quase mítico para os soldados
russos que sempre que podiam se passeavam com meia dúzia deles no braço ao
mesmo tempo. Uma fotografia icónica de um soldado russo a hastear a bandeira
soviética no cimo do Reichstag de Berlim teve de ser retocada para remover os
relógios de pulso do braço do jovem herói [aqui, Applebaum baseia-se no livro
de Alexander Nakhimovsky e Alice Nakhimovsky, Witness to History. The Photographs of Yevgeny Khaldei, Nova
Iorque, 1997]. Em Budapeste, a obsessão com eles ficou como parte do folclore
local e pode ter contribuído para moldar a percepção local do Exército
Vermelho. Uns meses depois da guerra, um cinema de Budapeste mostrou um jornal
cinematográfico sobre a conferência de Ialta. Quando o Presidente Roosevelt
levantou o braço enquanto falava com Estaline vários membros da assistência
gritaram: “Cuidado com o relógio!” O mesmo foi verdade na Polónia, onde durante
muitos anos as crianças polacas “brincavam” aos soldados soviéticos gritando “Davai chasyi” – “Dá-me o teu relógio!”
Uma série infantil da televisão polaca, muito apreciada em fins dos anos 60,
incluía uma cena de guerra com soldados russos e polacos, acampados em
edifícios alemães abandonados, que tinham juntado uma vasta colecção de
relógios roubados».
Depois
de vasculhar o Youtube, encontrei uns episódio da belíssima série polaca, intitulada, como sabem, Cseterej pancerni i pies (sim, que isto
do Malomil dá muito trabalho). Mas não apanhei, por ora, as imagens das
brincadeiras com relógios roubados, constantes do episódio nº 13, transmitido
em 1969. Se algum leitor do Malomil que tenha interesse em séries infantis
polacas dos anos 1960 por acaso me facultar o episódio número 13 do Cseterej pancerni i pies, transmitido em 1969, em versão completa e de preferência
com boa definição, agradecia penhoradíssimo. Certamente haverá muitos leitores do
Malomil que estudam e acompanham de perto a filmografia infantil polaca da década de
1960, pelo que lhes deixamos este apelo, lancinante.
Uma coisa curiosa no avanço dos russos foi a seguinte: à medida que iam até à Polónia e à Alemanha, descobriram que, afinal, o que lhes tinha dito a propaganda soviética desde os bancos de escola era falso. Não, o Ocidente não era a miséria que julgavam. Pelo contrário, os camponeses polacos, mesmo após a devastação da guerra, tinham quintas, uma ou duas vacas, criação de galinhas e porcos, couves-galegas. O Kremlin ficou aterrado com os relatórios que os comissários políticos lhe enviavam da frente de combate. O Oeste era muito melhor do que a Rússia dos sovietes, com belas casas, avenidas majestosas – e relógios de pulso. Daí que Estaline tenha engendrado uma manobra canhestra de desinformação, dizendo que tudo aquilo que os soldaditos viam não passava de uma fachada, de uma encenação, ou do resultado da pilhagem que, anos a fio, tinha sido perpetrada à Mãe-Rússia. Os soldaditos não ligaram muito, pois estavam mais interessados em sacar relógios, quantos mais melhor. Esta obsessão relojoeira exprime (1) por um lado, o fascínio embasbacado pelos bens e produtos do Ocidente, que na Rússia não eram de acesso fácil; (2) por outro lado – e mais decisivamente –, o desejo ávido de posse, o sentimento de propriedade privada, de apropriação, o que, convenhamos, é típico do capitalismo e da economia de mercado, nos antípodas dos princípios socialistas soviéticos. Assim, apesar de ostentar a bandeira vermelha com a foice e o martelo, o que a fotografia revela, antes de expurgada pela censura, é um soldado com relógios no pulso, relógios de que se apropriou e fez seus, para levar para casa, para deixar aos filhos, juntamente com as medalhas e condecorações de guerra que lhe colocaram ao peito na Praça Vermelha. Um triunfo do comunismo sobre o nazismo, sem dúvida. Uma vitória do comunismo sobre o capitalismo, isso é mais problemático…
E agora, como acontece muito pelas bandas deste blogue, as habituais recriações e os muitos pastiches da célebre fotografia martelada de Eugénio Khaldei ou doutras da bandeira no Reichstag:
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