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terça-feira, 10 de março de 2020

Pas à pas.

 
 
 
 
A Teresa vive há um montão de anos, mais do que a conta, na Polónia-Polanda. Faz parte da mobília dos expats de Varsóvia, e até gosta. Foi lá, creio, que conheceu os pais da Teodora Cousens e, claro, a própria da Tedoroa Cousens, uma menina meio inglesa, meio polaca, que com 10 anos desenhou o Philippe Petit a caminhar navegar entre as Torres Gémeas. É claro que o Malomil não podia ficar indiferente a tudo isto e daí ter andado semanas a suplicar à Teresa que me deixasse publicar o desenho da little Teodora, que está lá em cima. Lá em cima como o Petit.
 


 
 
Post scriptum: a Teresa Teresinha escreveu-me logo a rectificar que não são as Torres Gémeas de Nova Iorque, são a Torre Eiffel e o Palac Kulturi i Nauki de Varsóvia e eu lembrei-me logo do dia em que eu e ela andámos ali horas por tudo quanto era canto e recanto do Palac Palac Kulturi i Nauki, a abrir todas as portas e a tentar ir a todos os sítios para ver, para ver, os dois a cuscar as vísceras daquela maravilha horrenda.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

O século dos prodígios.





         O meu amigo Onésimo Teotónio de Almeida lembrou-se de colocar na capa do seu último livro o rinoceronte de Dürer, o que logo me trouxe à memória um outro livro lido há pouco, o igualmente fantástico El Rinoceronte y el Megatério. Un ensayo de morfologia histórica, de Juan Pimentel. A história do rinoceronte do Papa, que naufragou e morreu antes de aportar a Itália, é conhecida de todos, como conhecido de todos é o histórico combate que D. Manuel organizou em Lisboa entre dois inimigos históricos, o rinoceronte e o elefante. Todos sabem, de igual sorte, que a Torre de Belém tem um rinoceronte à proa, já delido pelo tempo. E todos também sabem que em 1515 Dürer fez a gravura ao bicho, e que essa gravura foi um best-seller na Europa de seu tempo. Ide ao Museu Britânico, lá a tendes.



O rinoceronte da Torre de Belém

 
         Aqui há uns anos, andando em Cracóvia, deparei com um rinoceronte em pleno centro histórico que por lá chamam Stare Miasto. Um, não. Dois rinocerontes, a mais o inimigo elefante, na frontaria de uma casa na Rua Grodzka. Depois, reparando melhor, notei que havia outro, ademais não idêntico, na mesma casa, mas agora na fachada que dá para a Rua Poselska. A coisa adensa-se pois não longe dali está o Museu de História Natural, que alberga um rinoceronte antiquíssimo, mas esse não entra na história.  Pelo que pude perceber (mal), a casa que faz esquina entre o 38 da Rua Grodzka e o 19 da Rua Poselska chama-se Kamienica Pod Elefanty e refere a Wikipedia que remonta ao século XV. Gostava de saber mais polaco para saber a história da casa, mas não sei, nem o livro de Juan Pimentel fala sequer de Cracóvia. Como é evidente, os rinocerontes e o elefante da fachada não podem estar lá desde o século XV. Talvez século XVI ou XVII. Em todo o caso, lá estão, como em Nuremberga está – via há muitos anos – a gravura de Dürer na casa-museu deste génio.

 

Cracóvia. O elefante ladeado por dois rinocerontes.
 

O elefante.


 

Os dois rinocerontes.
Repare-se como são diferentes, a ponto de se dizer que um é um rinoceronte de Sumatra.

 
 

 
         O que eu não sabia de todo – e foi o livro de Juan Pimentel que mo ensinou – é que a representação mais antiga de um rionoceronte no Novo Mundo está na Colômbia. Em Tunja, província de Boyacá, na casa-museu do escritor Juan de Vargas, que chegou ao país em 1564. O tecto foi pintado em 1590, à maneira maneirista, e a figuração do rinoceronte que lá está é tirada, sem sombra de dúvida, da gravura de Dürer – ou das muitas cópias feitas por outros e até edições piratas que se fizeram na altura. Outra coisa que Juan Pimentel não diz, mas que fui descobrindo e sobre a qual não tenho certezas nenhumas, é que em Tunja há um outro rinoceronte. Talvez até mais antigo do que o da casa de Juan de Vargas, ainda não pude apurar (se alguém tiver o livro de Mejía Los Rioncerontes de Colombia é favor de emprestar). É a Casa de Gonzalo Suárez Rendón, também Casa del Fundador, pois em 1539 Rendón foi o fundador da província de ,Boyacá daí o nome.  A casa foi erguida entre 1540 e 1570, sendo portanto mais antiga ou pelo menos contemporânea da casa de Juan de Vargas. E também tem tectos pintados. E também num desses tectos está um rinoceronte, mais tosco, menos Dürer.


Tunja, Colômbia. Casa de Juan de Vargas


Elefantes



Tunja, Colômbia. Casa del Fundador.
 
Elefante.




Rinoceronte.

 
         Fica a promessa de que mais pesquisas. Por ora, a partilha do assombro: um rinoceronte que veio da Índia, passou por Lisboa, foi metido num navio, fez escala em Marselha onde foi apreciado pelo rei da França, naufragou e morreu afogado já à vista da costa de Itália, para onde ia a caminho de Roma, obviamente a ver o Papa. Rinoceronte que está na Torre de Belém, idem em Nuremberga na casa de Dürer, artista que o retratou em gravura best-seller. Daí rumou à Polónia, Cidade Velha de Cracóvia, mas também à distante Colômbia, onde figura em pelo menos duas casas da cidade de Tunja, província de Boyacá. Se isto não é universalismo e globalização, se isto não foi mesmo um século dos prodígios, dizei então vós, de vossa justiça.
 






 

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Os assassinos da memória.

 
 

 
 







Que Hitler não era polaco, isso é uma coisa que já todos sabíamos. Era austríaco, já agora. E que foram os alemães quem construiu Auschwitz e tudo o mais – alguém duvidava? O problema é que este movimento e este site estão associados a um descarado revisionismo, como se polacos, ucranianos, franceses, espanhóis ou portugueses – não todos, mas muitos – não tivessem colaborado com os nazis. Na imediata sequência desta reescrita da História, anunciada em outdoors e com grande fragor e estrondo, o negacionismo, o anti-semitismo, o assassinato da memória. Lamentável. Por cá, neste cantinho ora gentrificado, nem temos bem consciência do que vai por essa Europa fora. Leitura recomendada: O Mundo de Ontem, de Stefan Zweig.
 
 
 
 

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Vidas singulares: Herman Shine.

 
 
 
 
 




Morreu há dias, com 95 anos, um homem que, pela cruel lei das probabilidades, deveria estar morto há várias décadas. Nasceu em Berlim, em 1922, de seu nome Mendel Scheingesicht. Morreu na Califórnia chamando-se Herman Shine. De permeio, o mais relevante que fez na vida foi ter escapado com vida ao horror de Auschwitz. Não foi um pequeno feito: mais de um milhão de pessoas morreram em Auschwitz. Herman Shine não só sobreviveu como conseguiu escapar do campo, fugir dali através da coragem admirável de quem o ajudou, uma história incrível aqui contada. Acredita-se quando disse um dia que devia a sua vida a uma dúzia de milagres, a uma sucessão de acasos felizes que lhe permitiu sobreviver – e morrer em paz, sorridente, aos 95 anos.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Fotografia de 11 de Setembro.

 



FOTOGRAFIA DE 11 DE SETEMBRO
 
 
Atiraram-se dos andares em chamas.
um, dois, ainda alguns,
mais acima, mais abaixo.
 
A fotografia deteve-os na vida
e agora preserva-os
sobre a terra rumo à terra.
 
Cada um ainda na íntegra,
com rosto individual
e sangue bem guardado.
 
Ainda há tempo
para os cabelos esvoaçarem
e do bolso caírem
chaves e alguns trocos.
 
Ainda estão ao alcance do ar,
no âmbito dos lugares
que acabaram de se abrir.
 
Só duas coisas posso por eles fazer:
descrever estre voo
e não acrescentar a última frase.
 
Wisława Szymborska
 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Obrigado, Elena.



Elena Piatok
 
 
 
Há dias falei aqui de uma série infantil polaca. E não é que a minha GRANDE AMIGA Elena Piatok a descobriu e mandou? Aqui está, o episódio 13. Obrigado, Elena, muito obrigado.
 
António

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O relógio da História.

 
 
Yevgeny Khaldei, Erguer da Bandeira no Reichstag
2 de Maio de 1945


         Nem vale a pena dizer, mas já agora digo, que esta é uma das mais famosas fotografias do século XX. Tem vários nomes, como «Erguer da Bandeira no Reichstag» e foi captada em 2 de Maio de 1945, quando as tropas soviéticas assinalaram ao mundo a conquista da capital do Reich. Já agora, uma espreitadela aqui, que vale muito a pena. E aqui, também curiosíssimo.

 
 
 
 

 


 
         Na imagem, soldados do Exército Vermelho, um sargento geórgio, Meliton Varlamis dez Kantaria (bem, vamos abreviar para Meliton Kantaria), para sempre heroicizado como o homem que ergueu a bandeira no topo do Reichstag. Até há estátuas do intrépido combatente, que morreu em 1993. O outro é um russo, Mikhail Yegorov (mais precisamente, Mikhail Alekseevich Yegorov, multiplamente condecorado como Herói da União Soviética, Ordem de Lenine, Ordem da Bandeira Vermelha, Ordem da Guerra Patriótica (2ª classe, adultos), Ordem da Estrela Vermelha, Ordem da Glória (3ª classe, do antigamente), Medalha «Combatente da Guerra Patriótica» (1ª classe), Medalha do Jubileu por Serviços Militares por Ocasião do 100º Aniversário do Nascimento de Vladimir Ilich Lenine, Medalha pela Vitória Sobre a Alemanha na Grande Guerra Patriótica de 1941-1945, Medalha do Jubileu pelo 20º Aniversário da Vitória na Grande Guerra Patriótica de 1941-1945, Medalha do Jubileu pelo 30º Aniversário da Vitória na Grande Guerra Patriótica de 1941-1945, Medalha pela Captura de Berlim, Medalha do Jubileu pelos 50 Anos das Forças Armadas da URSS. Como se vê, na União Soviética, um país igualitário, havia muita medalha para distinguir uns mais iguais do que outros (e perdoem o cliché orwelliano). Com tanta medalha, carregadinho delas, Yegorov morreu em 1975. Já Kantaria, também muito medalhado, foi viver para a Abecásia, mas teve de se mudar para Moscovo, onde morreu, pois as tropas russas entraram à força bruta pela Abecásia adentro, arrasando, entre muita coisa, a casinha do herói da URSS. Ironias da História...
 
Estátua de Meliton Kantaria, em Jvari, na Geórgia
 
A casa do herói Meliton Kantaria, em Ochamchire, Abecásia, destruída pelos ocupantes... russos (!)

 
         A tonta da Wikipedia nuns lados diz que eram dois soldados a erguer a bandeira, noutros lados fala em três combatentes, noutro ainda refere que foram quatro os meninos de chumbo que escalaram a cúpula do Reichstag,   que estava toda partidinha aos bocados, ou quase que. Para contar a história, é indiferente o número dos militares, adiante; quem quiser saber mais, é mergulhar aqui.
 

Khaldei, a fotografar os julgamentos de Nuremberga
 
O fotógrafo é Yevgeny Khaldei (calma: Yevgeny Anan’evich Khaldei), de ascendência judaica, que mais tarde seria repórter da TASS. Como é óbvio, recebeu também um camião de medalhas e condecorações patrióticas, que nos escusamos de enumerar, até porque são muitas. Como muitas foram as manipulações fotográficas que Khaldei fez ao longo da carreira, sem quaisquer problemas de consciência, até porque – importa dizê-lo – na época essas coisas não eram vistas com os olhos dos nossos tempos, mais éticos e exigentes quanto à autenticidade da realidade fotografada. Khaldei fez carreira em grande, sendo autor de retratos oficiais de Estaline, Gorbachev, Yelstine, entre outras alimárias possantes.
 
 
Isto está aqui para quem se interessa muito por filatelia do Azerbaijão
 
A história da fotografia está contada há muito (até há selos do Azerbaijão com a imagem, imagine-se!) e não adianta esmiuçá-la: hábil na arte do décor e dos adereços, Khaldei levou consigo uma bandeira king size, feita por um tio, que se entusiasmara com outra foto icónica, a dos americanos a levantar a Stars and Stripes em Iwo Jima, captada por Joe Rosenthal. Pois se os americanos tinham feito uma imagem gloriosa e retumbante, que até deu um filme do Clint Eastwood, os soviéticos queriam à viva força mostrar a sua raça vermelha – e daí a fotografia da bandeira no Reichstag. Esta competição imagética era o prenúncio da Guerra Fria, a prova provada de que o conflito tépido entre EUA e URSS começou muito antes de resolverem aquela grande embrulhada com os nazis.
 
Joe Rosenthal, Raising the Flag at Iwo Jima,
Fevereiro de 1945
 
 
O Reichstag era um edifício simbólico do nazismo e Estaline queria à viva força que fosse tomado antes de 1 de Maio, para celebrar o triunfo sobre Hitler no Dia do Trabalhador. As coisas complicaram-se, o marechal Zukhov informou Moscovo, a 30 de Abril, que já havia conquistado o Reichstage mas, foi-se a ver, e no 1º de Maio ainda não tinham tomado o simbólico prédio, que é grande. A bandeirinha só seria afixada, como dissemos, no dia 2 de Maio.
Há muitas histórias à volta da cena, a ponto de se dizer que quem colocou a bandeira foi um ucraniano de dezoito anitos, Alexei Kovalyov, mas que a polícia política, a NKVD, o mandou estar caladinho e dar os créditos a outros. Também havia um tal de Abdulkhakim Ismailov (1916-2010), do Daguestão, segundo referiu o fotógrafo. Para o caso, não importa. Foram ao telhado do edifício, Khaldei tirou a fotografia, que a dia 13 de Maio, na Cova da Iria, seria publicada na revista Ogonyok (ou Oronëk?)











Existem outras imagens da cena (ver acima), mas, como sempre sucede, só uma pôde ser eleita como «icónica» − e foi a de Khaldei, que trabalhou para isso.
 
A imagem original (ampliada)
 
O fumo artificialmente enegrecido, ao fundo

 
 
Para já, começou por juntar uns fuminhos, ou enegrecer os que lá existiam ao fundo da cena, para adensar a atmosfera de guerra total e dar um apontamento épico à coisa. A imagem, com a bandeira da foice e martelo, seria usada como símbolo do triunfo do comunismo sobre o nazismo, o que é um facto histórico: quem libertou Berlim foram os soviéticos, à custa de milhões de mortos. Sobre a Batalha de Berlim podemos ler o que conta Anthony Beevor mas, para perceber a dimensão do erro geopolítico dos Aliados ocidentais, ao deixarem o campo livre à URSS para conquistar a capital do Reich, há umas passagens interessantes e muito informativos no calhamaço da Anne Applebaum A Cortina de Ferro. O Fim da Europa de Leste (trad. portuguesa, Civilização Editora, 2013).
 
A imagem original, com relógios nos dois pulsos
 
 
 
A imagem manipulada e censurada, já sem o relógio no pulso direito
  

 


Por muito que possa parecer uma heresia, deve dizer-se que, apesar do vermelho da bandeira e da foice/martelo, a imagem, bem vista e analisada, representa, sem dúvida, a vitória militar da União Soviética. Mas não pode, de modo algum, ser usada como símbolo do triunfo da ideologia comunista nem da doutrina e das promessas messiânicas que lhe estão associadas. Pelo contrário – e mesmo sem contar com as honrarias medalhísticas ou as sinistras intervenções da NKVD e outras conspiratas –, a imagem, por paradoxal que possa parecer, é, isso sim, uma vitória retumbante de alguns princípios do capitalismo e da economia de mercado. Discordam? Ora vamos lá ver: a fotografia foi manipulada e maquilhada para limpar da imagem o relógio que o soldado heróico trazia ao pulso direito. No original, um relógio em cada pulso, na imagem manipulada, apenas um relógio no pulso esquerdo. E não, não eram relógios fornecidos pelo Exército Vermelho. Eram relógios roubados na Alemanha, em Berlim, em Budapeste, na Polónia, em qualquer lugar por onde passassem as tropas de Estaline. Sobre essa questão relojoeira, vejamos o que diz Anne Applebaum, descrevendo o avanço dos soviéticos:
«Os relógios de pulso pareciam ter um significado quase mítico para os soldados russos que sempre que podiam se passeavam com meia dúzia deles no braço ao mesmo tempo. Uma fotografia icónica de um soldado russo a hastear a bandeira soviética no cimo do Reichstag de Berlim teve de ser retocada para remover os relógios de pulso do braço do jovem herói [aqui, Applebaum baseia-se no livro de Alexander Nakhimovsky e Alice Nakhimovsky, Witness to History. The Photographs of Yevgeny Khaldei, Nova Iorque, 1997]. Em Budapeste, a obsessão com eles ficou como parte do folclore local e pode ter contribuído para moldar a percepção local do Exército Vermelho. Uns meses depois da guerra, um cinema de Budapeste mostrou um jornal cinematográfico sobre a conferência de Ialta. Quando o Presidente Roosevelt levantou o braço enquanto falava com Estaline vários membros da assistência gritaram: “Cuidado com o relógio!” O mesmo foi verdade na Polónia, onde durante muitos anos as crianças polacas “brincavam” aos soldados soviéticos gritando “Davai chasyi” – “Dá-me o teu relógio!” Uma série infantil da televisão polaca, muito apreciada em fins dos anos 60, incluía uma cena de guerra com soldados russos e polacos, acampados em edifícios alemães abandonados, que tinham juntado uma vasta colecção de relógios roubados».
Depois de vasculhar o Youtube, encontrei uns episódio da belíssima série polaca, intitulada, como sabem, Cseterej pancerni i pies (sim, que isto do Malomil dá muito trabalho). Mas não apanhei, por ora, as imagens das brincadeiras com relógios roubados, constantes do episódio nº 13, transmitido em 1969. Se algum leitor do Malomil que tenha interesse em séries infantis polacas dos anos 1960 por acaso me facultar o episódio número 13 do Cseterej pancerni i pies, transmitido em 1969, em versão completa e de preferência com boa definição, agradecia penhoradíssimo. Certamente haverá muitos leitores do Malomil que estudam e acompanham de perto a filmografia infantil polaca da década de 1960, pelo que lhes deixamos este apelo, lancinante.
 

 
 
 

Uma coisa curiosa no avanço dos russos foi a seguinte: à medida que iam até à Polónia e à Alemanha, descobriram que, afinal, o que lhes tinha dito a propaganda soviética desde os bancos de escola era falso. Não, o Ocidente não era a miséria que julgavam. Pelo contrário, os camponeses polacos, mesmo após a devastação da guerra, tinham quintas, uma ou duas vacas, criação de galinhas e porcos, couves-galegas. O Kremlin ficou aterrado com os relatórios que os comissários políticos lhe enviavam da frente de combate. O Oeste era muito melhor do que a Rússia dos sovietes, com belas casas, avenidas majestosas – e relógios de pulso. Daí que Estaline tenha engendrado uma manobra canhestra de desinformação, dizendo que tudo aquilo que os soldaditos viam não passava de uma fachada, de uma encenação, ou do resultado da pilhagem que, anos a fio, tinha sido perpetrada à Mãe-Rússia. Os soldaditos não ligaram muito, pois estavam mais interessados em sacar relógios, quantos mais melhor. Esta obsessão relojoeira exprime (1) por um lado, o fascínio embasbacado pelos bens e produtos do Ocidente, que na Rússia não eram de acesso fácil; (2) por outro lado – e mais decisivamente –, o desejo ávido de posse, o sentimento de propriedade privada, de apropriação, o que, convenhamos, é típico do capitalismo e da economia de mercado, nos antípodas dos princípios socialistas soviéticos. Assim, apesar de ostentar a bandeira vermelha com a foice e o martelo, o que a fotografia revela, antes de expurgada pela censura, é um soldado com relógios no pulso, relógios de que se apropriou e fez seus, para levar para casa, para deixar aos filhos, juntamente com as medalhas e condecorações de guerra que lhe colocaram ao peito na Praça Vermelha. Um triunfo do comunismo sobre o nazismo, sem dúvida. Uma vitória do comunismo sobre o capitalismo, isso é mais problemático…

E agora, como acontece muito pelas bandas deste blogue, as habituais recriações e os muitos pastiches da célebre fotografia martelada de Eugénio Khaldei ou doutras da bandeira no Reichstag: