Acordei e como de costume liguei a RTP 1 para ouvir as
notícias.
Nunca tinha sentido a necessidade de publicitar a
indignação. Faço-o desta vez porque o assunto não me dizendo, directamente,
respeito toca-me de muito perto. E explico-me para que não haja dúvida sobre o
que me move: se precisar de um conserto na canalização, ligo para um
canalizador que antes de realizar qualquer operação técnica assegura-se que a
deslocação e o tempo despendidos lhe serão pagos (ainda que me garanta que o
orçamento da reparação será gratuito). Mas, se me convidarem para realizar uma
conferência, como historiadora, ninguém paga coisa nenhuma, nem passa pela
cabeça de ninguém perguntar se houve despesas e disponibilizar-se para o
pagamento das mesmas, nem que fosse simbólico. Os exemplos podiam
multiplicar-se.
Este tratamento que eu julgava estranho parece estar
afinal a vulgarizar-se.
Uma das reportagens transmitidas esta manhã (26-02-2014)
no dito programa noticioso exaltava os recursos engenhosos da Cornucópia na sua
última produção teatral: em aflição, perante os cortes orçamentais (e
recorde-se, esta companhia gozava de um subsídio anual bem generoso para uma
estrutura fixa diminuta) a solução adoptada foi a da contratação de amadores
sem vencimento. Em troco recebem, muito contentes, os benefícios da
oportunidade, do saber e da experiência do director Luís Miguel Cintra. E
porventura a esperança de alguém, talvez em Hollywood ou em Carnaxide, os
descobrir! Muito engenhoso.
Não está em causa o muito que Luís Miguel Cintra tem para
ensinar, nem a qualidade dos espectáculos levados à cena por esta companhia
teatral (sobretudo dos textos escolhidos).
A perplexidade reside no elogio feito pela RTP, ecoando o
director Luís Miguel Cintra, de se produzir um espectáculo em que os «actores»
não são pagos. Pois! Luís Miguel Cintra não contrata profissionais que não pode
pagar, mas é de elogiar porque contrata amadores que, coitados, se sentem
recompensados por trabalhar sem vencimento? O director da Cornucópia não tem
imaginação para conceber um espectáculo que ponha verdadeiramente a nu as
deficiências dos apoios culturais? (Pondo o actor a contracenar com cadeiras,
com a sua própria voz gravada, com fantasmas no vazio?) Resignamo-nos a viver
num país em que o trabalho exercido profissionalmente – de uma companhia
subsidiada por todos nós e com bilhetes cobrados ao público – não é pago?
Eu sei. No final do ano há relatórios para entregar com
demonstrações de produtividade; o subsídio depende desses relatórios. Mas
demonstrar realizações à custa do trabalho não pago e com desprezo por todos os
profissionais do ofício que lutam com o desemprego, a insegurança e as más
condições de trabalho?
E a RTP subscreve, acrítica e elogiosamente, o feito?
Algo vai mal neste reino de Portugal.
Rita Garnel
