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sábado, 7 de março de 2020

Parasitas, patatas fritas.





Li há dias uma crítica estupenda a Parasitas, nas páginas do TLS, em que se dizia, e muito, que o filme é um filme sobre a confiança – e a perda dela. De facto, pensado nessa perspectiva, Parasitas retrata o modo como uma família conquista a confiança da outra e se apodera dela, sugando-lhe o sangue. E sobre os dispositivos geradores dessa confiança, por parte de uma elite naturalmente desconfiada e, no caso da protagonista feminina, a dondoca temerosa e frágil, muito dependente de «referências» avalizadoras de «qualidade»: diplomas universitários, nomes pomposos (arte terapia), conhecimentos pessoais. O seu marido é também refém dos preconceitos geradores da confiança e da perda de confiança, ardilosamente manipulados pela família parasita (mas, afinal, quem são os verdadeiros parasitas, os pobres ou os ricos?). Daí a importância que confere a um cartão de visita de uma empresa de recrutamento e colocação de pessoal que inverte os termos da selecção: não é o cliente que exige referências à empresa, é esta que reclama do cliente que lhe dê tudo, incluindo contas bancárias. Depois, a «comunidade de segredo», para usar um conceito avançado por Sissela Bok num livro fulgurante, Secrets. A família pobre cria uma comunidade de segredo, pois disso se alimenta, até ao momento em que essa comunidade é intersectada pela presença de outros famintos, em concorrência feroz – e a luta intraclassista surge aqui como tão ou mais violenta do que o conflito interclassista. E, claro, o modo como o ponto básico dessa luta se centra na destruição da confiança junto da entidade patronal: a governanta é despedida não por estar doente mas por ter atraiçoado a confiança dos seus patrões.
          O filme é, ele próprio, um produto de consumo, cuja confiança, aos olhos do espectador potencial, surge agora certificada pelos Óscares e, mais do que isso, pelo êxito de bilheteira, propalado de boca em boca (ou de boca a orelha). Outros produtos têm outros expedientes, como a antiguidade da marca ou o apoio de consumidores-chave., seja o actor de Hollywood ou a Casa Real britânica (by appointement…). O que é curioso, curiosíssimo, é que Parasitas tem dado sucesso planetário a uma marca de batatas fritas da Galiza, agora certificada pela sua presença numa mansão de luxo de um filme do Extremo Oriente. As batatas Bonilla a la Vista chegaram à Coreia do Sul em Abril de 2016, e desde então têm feito furor. (aqui, por exemplo, ou aqui) Vende-se em latas de 500 gramas, a casa Bonilla foi fundada em 1932. Batatas fritas a 170 graus, em azeite virgem, em cubas de banho maria. Não provei ainda, mas lá iremos.
 

 
 
 
 
     








 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Como é possível?





Como me disse quem mandou isto: «quem é o imbecil que se lembra de uma coisa destas?» Não sei, mas sei que há quem faça enfeites de Natal com a imagem de Auschwitz. À venda na Amazon!?!?! Como é possível?
 
 
 
 

sábado, 29 de junho de 2019

O horror, o horror.












Li há pouco o extraordinário Veneza, de Jan Morris, mas há outros em português sobre a Sereníssima. Marca d'água, de Brodsky, enquanto esperamos que um editor mais corajoso nos dê os livros de Roger Crowley, Paul Morand ou John Ruskin, todos sobre a portentosa cidade, o prodígio dos prodígios. Até lá, imagens de horror flutuante. O horror, o conradiano horror. Como será possível?, perguntamos. Mas é, como vemos, mesmo que não queiramos ver. Monstros à solta no Grande Canal.
 
 
 

sábado, 2 de março de 2019

Elefantes (brancos).



 
 
         Se os centros comerciais são depressivos, os centros comerciais abandonados são… uma tristeza. Mas há quem goste. Há quem goste, por exemplo, de centros comerciais quase, quase prestes a serem abandonados, com uma ou outra loja aberta, tristonha e sozinha. Há quem goste de ir almoçar ao comatoso Olaias Clube, em nostálgica imersão na década de 80. Há quem goste de lugares despojados de pessoas e de vida – como o assaz engenhoso Gastão de Brito e Silva, do Ruin’Arte (um abraço!) ou do mui talentoso André Ramalho, do fantástico-fantasmagórico Abandonados. O André foi ao Centro Comercial Sol, em Leiria, e trouxe de lá estas desoladoras e deliciosas imagens. A Catarina Pires, há dias, trouxe o Babilónia da Amadora até às páginas do Diário de Notícias. E na América, então, resmas de malls de olhos semicerrados, agonizantes (aqui). E não digam que isto não tem a ver com elefantes (brancos), porque tem. E muito.



























quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Na morte de Lagerfeld.

Karl Lagerfeld e Jacques de Bascher de Beaumarchais
 

Cair em Beleza
 
 
O facto de ter sido elogiado e aconselhado por Victoria Beckham não tira, creio eu, qualquer mérito a este livro, The Beautiful Fall. Fashion, Genius and Glorious Excess in 1970s Paris, da jornalista de moda Alicia Drake. Este é, ao que sabemos, o único livro de não-ficção da autora, que colabora regularmente com publicações como o International Herald Tribune, a Travel and Leisure e a British Vogue. Fruto de um ciclópico trabalho de investigação e pesquisa, assente em muitas dezenas de entrevistas, The Beautiful Fall é uma obra tão ou mais sedutora e fascinante do que as personagens que retrata.
Poderia resumir-se em breves palavras, classificando-a como uma biografia paralela de Yves Saint-Laurent e de Karl Lagerfeld, na qual o primeiro surge como um Mozart prodigioso e o segundo aparece como Salieri, um criador com talento mas que teve o infortúnio de ombrear com um génio. Não por acaso, na sequência da publicação da obra, Lagerfeld declarou que iria processar a autora por intromissão na sua vida privada. Não sabemos se o fez, e com que resultados, pois o livro continua à venda e, na verdade, as vidas públicas e privadas de Lagerfeld e de Saint-Laurent são devassadas nos mais ínfimos detalhes, por vezes escabrosos. Não se trata, porém, de um exercício de voyeurismo gratuito, antes de uma imersão em profundidade na trajectória fulgurante dos dois criadores de moda, para a compreensão da qual era impossível não atender a aspectos íntimos, pessoalíssimos, deles e das tribos que em seu redor se formaram. As angústias de Yves Saint-Laurent com a sua homossexualidade, surgidas desde a juventude na Argélia e que o acompanharam até ao final da vida, os seus fantasmas recorrentes e depressões cíclicas, os seus frequentes internamentos hospitalares ou em clínicas de repouso são elementos essenciais para entender o percurso do génio atormentado. De igual modo, a pose estudadíssima de Karl Lagerfeld, os seus amantes, o culto obsessivo do corpo, o seu fascínio pela alta aristocracia, o modo como maquilhou as suas origens sociais (dizendo, por exemplo, que o pai era sueco, quando na realidade sempre foi alemão) são traços fundamentais para percebermos a rivalidade implacável que, aos poucos, foi crescendo entre os dois ditadores da moda.
 
 
 
 
O livro abre com a luminosa aparição, no parisiense Café de Flore, em 1974, de uma personagem aparentemente menor nesta trama. Um jovem dândi de nome pomposo, Jacques de Bascher de Beaumarchais, à época aureolado pela fama de ter sido modelo do pintor britânico David Hockney. Oriundo da baixa aristocracia rural, também ele procedera a um cuidadoso lifting das suas origens familiares, compondo um nome sonante; um membro da família Beaumarchais chegou a ameaçar que o processava se continuasse a usar um apelido a que não tinha direito… Jacques era o toy boy de Karl Lagerfeld mas, a dada altura, torna-se secretamente amante de Saint-Laurent. Para os que insistem em encarar o tímido Yves como uma eterna criança devorada pelas suas neuroses, cândida e ingénua, é curioso ter em conta que YSL teve um gozo perverso em roubar ao rival o efebo de estimação. Noutra ocasião, bem expressiva da sua personalidade insegura mas egocêntrica, Saint-Laurent ficou furioso ao saber que o retrato que Andy Warhol lhe fizera não era um exclusivo, existindo outros costureiros pintados pelo artista nova-iorquino. Ameaçou retirar o quadro da parede da sua casa sumptuosa, ainda que nunca tenha cumprido a vingativa promessa. The Beautiful Fall traz também uma nova luz, mais densa e complexa, sobre a relação de décadas entre Yves Saint-Laurent e Pierre Bergé. Casado aos 86 anos com um famoso arquitecto paisagista americano, de 58 anos, Pierre Bergé foi companheiro de Saint-Laurent durante meio século e co-fundador da marca YSL. Convém ter presente que Saint-Laurent e Bergé foram dos primeiros casais gay publicamente assumidos em França; até então, mesmo costureiros famosos como Christian Dior ou Balenciaga tinham «amigos», não amantes. E, para os que julgam que tudo isto não passa de uma trivialidade, deve perceber-se que o pano de fundo de Beautiful Fall, aquilo que alimentava as loucuras e as festas, os jantares em restaurantes de luxo, as casas fabulosas em Marraquexe ou os castelos de província, era o dinheiro, muito dinheiro. A moda, um negócio de milhões à escala planetária, realidade que transparece em cada página do livro de Alicia Drake. Por exemplo, na operação de ataque ao mercado dos Estados Unidos, feita por Lagerfeld em colaboração com a marca Chloe, que envolveu festas em Los Angeles dadas por anfitriões como Jack Nicholson e Tatum e Ryan O’Neall mas, de igual modo, um planeamento comercial organizado ao milímetro.
Sempre se pensou que Pierre Bergé era o cérebro cartesiano responsável pelo sucesso da marca YSL. É verdade. Sem ele, sem a sua ambição desmedida e a sua tenacidade nos negócios, a YSL nunca existiria e o próprio Yves Saint-Laurent não teria conseguido afirmar-se no mundo da moda; era Bergé que ordenava a sua vida aos mais ínfimos e íntimos detalhes, que pagava as contas e tratava de tudo, que o internava nos hospitais sempre que o génio caía no abismo, que o resgatava sempre que corria mal uma saída nocturna em busca de carne jovem. Fumador inveterado, consumindo 40 cigarros por dia, viciado em barbitúricos e, mais tarde, em drogas leves e duras e no álcool, Saint-Laurent era pura e simplesmente incapaz de se governar a si próprio, quanto mais uma marca que facturava milhões e tinha centenas ou milhares de empregados. Muitos julgam que Bergé foi um manipulador, que se aproveitou do talento ímpar de Saint-Laurent. Beautiful Fall mostra que as coisas, como sempre sucede, são mais complexas do que pensamos. Bergé não era o macho dominante numa relação assimétrica; pelo contrário, Yves não só mantinha a sua liberdade como a levava aos extremos, a ponto de, anos depois, o seu companheiro de cinco décadas afirmar, numa entrevista, que não sabe se o costureiro verdadeiramente o amou ou se apenas necessitava dele para o apoiar na sua atribulada existência. No campo dos negócios terrenos, foi Bergé que, quando Yves saiu da Dior, na sequência de um colapso nervoso decorrente da sua incorporação militar, angariou junto de um milionário americano, estabelecido em Atlanta, os fundos necessários para abrir a casa Yves Saint-Laurent. Foi também ele que propalou muito dos mitos que rodeiam a figura do mestre, dizendo, por exemplo, que Yves Saint-Laurent inventou em 1966 o pronto-a-vestir, revolucionando o mundo da moda, facto escandalosamente falso porquanto já nos anos 1930, pelo menos, os costureiros de Paris faziam prêt-à-porter. Seria também Bergé quem concebeu o lançamento, em 1964, do primeiro perfume YSL, o «Y», produzido em parceria com Charles of the Ritz. Mais decisivamente ainda, foi Bergé, em larga medida, que teceu as redes que deram acesso à altíssima aristocracia francesa, com destaque para a princesa Marie-Hélène de Rotschild. Houve outras personalidades-chave na iniciação da dupla Yves-Pierre nos meandros das elites parisienses, como Clara Saint ou Loulou de la Falaise, e aos poucos os nomes sonantes foram-se sucedendo, de Rudolf Nureyev a Bianca e Mick Jagger, passando por Marianne Faithful, Catherine Deneuve, Helmut Berger, etc., etc.  
 Em tudo, como sempre, houve uma combinação milagrosa de talento e sorte. O talento, indiscutível: com apenas 18 anos, Yves ganhou uma exigente competição internacional de moda, cujos jurados eram nomes de peso (Hubert de Givenchy, Pierre Balmain, Christian Dior); Karl Lagerfeld, na altura um jovem de 22 anos vindo de Hamburgo, ficou um pouco abaixo… Não muito depois, em 1961, Yves era nomeado costureiro-chefe da mais prestigiada casa de moda francesa, a Dior, algo nunca visto. Enquanto isso, Lagerfeld recebia o menos importante cargo de assistente na também menos importante casa de Pierre Balmain… A par disso, o factor sorte, ainda que surgido sob vestes trágicas: aos 52 anos, Christian Dior morreu subitamente, tragédia que abriu as portas à criatividade selvagem do nouvel enfant triste, como a imprensa da época denominava o rapaz acanhado vindo da Argélia. 
Tudo quanto aqui se conta é apenas uma modestíssima amostra do que podeis encontrar no interior do livro de Alicia Drake. Há sedução e escândalos, sexo e suicídios, drogas e muita loucura, luxo e decadência. Uma obra actual, portanto.
E com isto já quase nos esquecíamos de uma personagem central, Jacques de Bascher de Beaumarchais: morreu de SIDA em 1989.
 
António Araújo 
 
(publicado originalmente no jornal ECO)
 
 






 
 
 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

O mundo é um lugar estranho.

 
 

 
 
Mão muito amiga deu-me a ler uma crónica do El País que falava d’Isto. Um banco para defecar melhor, tudo bem. Agora, tudo mal: no primeiro ano, as vendas correram assim-assim. Depois fizeram um vídeo idiota no Youtube, um unicórnio a defecar gelados. Milhões e milhões de visualizações. Em três meses, venderam-se 200.000 banquinhos Squatty Potty. O negócio subiu em flecha, a empresa vendeu o ano passado mais de um milhão de banquinhos, lucros de 30 milhões de euros. Empreendedorismo, tudo bem. Mas lembrar que tudo disparou graças a um vídeo idiota de um unicórnio a defecar gelados… é mesmo disto que as pessoas gostam? Em suma, o mundo é um lugar estranho.  
 

 
 
 

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O mundo é um lugar estranho.

 
Rei Mohamed VI de Marrocos e o seu relógio Patek Philipe com 1.075 diamantes,
avaliado em meio milhão de euros