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domingo, 12 de abril de 2026

Diogo Ramada Curto, um amigo.

 


 

Durante anos, anos a fio, quem entrasse na sala de leitura da Biblioteca Nacional encontraria sempre, todos os dias – e sempre no mesmo lugar –, uma figura corpulenta e maciça, debruçada sobre um mar de livros. Foi isso, o estudo sério e uma formidável capacidade de trabalho, associados a uma espantosa curiosidade intelectual, que permitiu que Diogo Ramada Curto se tornasse um dos historiadores mais completos da sua geração, cujo leque de interesses ia do livro antigo à arte contemporânea, passando pela história política, social e cultural de todas as épocas e de vários lugares: Europa, Brasil, África.

Diogo Ramada Curto foi um dos últimos grandes eruditos, um homem dos livros e dos papéis, autor de muitas dezenas de livros e artigos científicos marcantes, mas também um intelectual público capaz de intervenções contundentes, sobretudo independentes.

Espírito livre e desalinhado de tribos e de côteries, tinha uma enorme exigência intelectual, sobretudo para consigo mesmo, e cultivava algumas devoções, com Vitorino Magalhães Godinho à cabeça, e outras tantas embirrações, cujos nomes me abstenho de enunciar nesta hora. Criticou sem piedade, às vezes com excesso no verbo, as misérias do nosso meio intelectual e académico e pensou o país sem ficar aprisionado nele, pois, além de uma cultura humanística vastíssima, possuía uma visão cosmopolita e aberta da realidade, já que teve uma carreira marcada por prolongadas estadias em Florença, em Paris ou na Universidade de Brown.

Na Universidade Nova de Lisboa, foi professor de gerações sobre gerações e muitos lhe devem muito nas suas carreiras académicas.

Por fim, mas não por último, revelou um dinamismo extraordinário na direcção da Biblioteca Nacional de Portugal, patente, entre outros feitos, nas dezenas de obras que lançou no seu breve mandato, muitas delas já concluídas, outras ainda em curso – e que para sempre ficarão como seu legado e testemunho. Destaca-se, neste plano, a conversão da Biblioteca em espaço de trabalho para estudantes universitários, na belíssima Sala Azul, que doravante bem mereceria ostentar o seu nome.

Quanto a mim, apenas uma gota de água num oceano imenso de amigos de todas as idades, classes e quadrantes, feitos no Colégio Militar e no râguebi, nas noites do Bairro Alto, nos corredores das universidades, nos jantarinhos da Lisboa-elite, recordarei para sempre as conversas maledicentes e bem-humoradas dos sábados de manhã, na esplanada do Clara Clara, após uma jornada de caça bibliófila, ou os cafés e os almoços às mesas daBN, servidos pelo senhor Paulo ou pela São, e na companhia do João Pedro George, que hoje estão destroçados. Como nós todos.       

 

                                                                                    António Araújo


quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Paris, 2025.



                                                                                                             Fotografia de António Araújo

 

Paris, 2025.


                                                                                                            Fotografia de António Araújo

Paris, 2025.

 

                                            Fotografia de António Araújo

Paris, 2025.

 

                                                                                                           Fotografia de António Araújo


Paris, 2025.

 

                                                                                                             Fotografia de António Araújo


Paris, 2025.

 

                                                                                                            Fotografia de António Araújo

Paris, 2025.

 



                                                                     Fotografia de António Araújo





Paris, 2025.

 


                                                                                                            Fotografia de António Araújo

Paris, 2025.

 

                                                                    Fotografia de António Araújo


quinta-feira, 24 de julho de 2025

Portugal Diplomático.





Um grupo fantástico de antigos alunos – o Bruno Oliveira, a Margarida Melo e o grande Dario Vargas – lançou no ano passado uma revista não menos fantástica, o Portugal Diplomático. Gratuita e online, actualidade da diplomacia e das relações internacionais. Já vai na 15ª edição, e agradece – e merece – a sua visita.

 

                                                                                    António Araújo 



sexta-feira, 11 de julho de 2025

Apresentação de Pedro Machete – Pessoa, Académico, Juiz.

 


 

  

Senhor Presidente do Tribunal Constitucional,

Senhora Ministra da Administração Interna,

Senhores Conselheiros,

Senhores Professores, 

Familiares e Amigos de Pedro Machete,

Senhoras e Senhores,

Muito bom dia a todos.

 

 

 

 

          Permitam-me, antes de mais, que explique ou tente explicar as razões da minha presença neste acto de lançamento do livro de amigos do Pedro Machete, o qual ocorre num espaço e num tempo carregados de simbolismo.

 

O espaço, a Universidade Católica, onde o Pedro fez todo o seu brilhante percurso académico –licenciatura, mestrado e doutoramento – e o tempo, o dia em que o Pedro faria, e faz, 60 anos – connosco.

 

          A minha presença nesta cerimónia, para mim muito honrosa e obviamente imerecida, carece de explicação, como disse. Não tenho credenciais académicas para discutir ou sequer apresentar muitos dos textos publicados neste livro, os meus interesses estão hoje situados em regiões muito diversas do Direito, ainda que por vezes em ligação com ele, e, importa dizê-lo, conheci o Pedro há muitos, muitos anos – pelas minhas contas, em 1984, sensivelmente –, mas nunca mantive com ele relações de especial proximidade ou intimidade.

 

          Em face disto, permitam-me que justifique a minha presença com base num acordo que fiz com os organizadores desta obra, em particular com o Miguel Nogueira de Brito, esse sim um grande e velho amigo do Pedro: sondado para escrever um texto para este livro, e não tendo capacidades para redigir um artigo jurídico à altura dos que figuram nesta obra, entendi que seria despropositado publicar algo sobre os temas que agora me interessam, sobretudo no domínio da História, tal seria o desfasamento em relação ao sentido geral deste livro.

 

É que, sendo o Pedro um homem de harmonias, que gostava de música clássica e que, segundo aqui nos é contado, chegou a cantar no Coro Bach da Igreja Evangélica Alemã de Lisboa, tendo toda a vida do Pedro decorrido sob o signo da harmonia, da harmonia da razão, entendi, e não me arrependo, que não faria sentido estragar essa harmonia com um texto dissonante e decerto estranho e anómalo neste conjunto de trabalhos.

 

          Por outro lado, e como disse, apesar de me considerar amigo do Pedro Machete, e de acreditar que esse sentimento era recíproco, um justificado pudor e respeito – e a personalidade do Pedro impunha respeito, amigável respeito, mesmo aos seus próximos – levaram-me a não querer, digamos, pôr-me «em bicos de pés» e prestar um testemunho pessoal como aqueles que o Pedro Ravara e o Johannes Laitenberger aqui apresentam, em dois textos extraordinários cuja leitura muito me comoveu (não fui, aliás, o único a ficar comovido por estes textos).

 

          Aceitei, pois, o «negócio» que o Miguel me propôs, que foi o de trocar a escrita de um texto pela apresentação pública da obra. E da apresentação da obra porque, de todos os presentes, penso ser eu o que, pela negativa, reúne mais características para o fazer: a garantia que, desde logo, não iria fazer um comentário jurídico a cada um dos textos ou ao seu conjunto; e a garantia de que não iria entrar em confidências íntimas ou pessoais sobre um amigo que jamais me as fez.

 

          Isto dito, o que ocorreu quando fui convocado para este acto, e quando soube que ele iria ter lugar, muito justamente, na Universidade Católica, o que me ocorreu, dizia, foi lembrar-me que conheci o Pedro Machete precisamente por causa da Universidade Católica, há mais de quarenta anos.

 

          Provavelmente, já o teria encontrado numa ou noutra ocasião, através, como sempre, do Miguel Nogueira de Brito, um discreto construtor e fazedor de pontes e cumplicidades. Mas foi na preparação da candidatura ao então chamado «ano zero» da Católica, em 1983, creio, quando frequentámos um curso de preparação na residência do n.º 300 do Campo Grande, que conheci e me aproximei do Pedro.

 

          Na altura, penso que por razões de logística familiar estival, a família Nogueira de Brito ainda estava de férias em São Martinho ou em Ponte de Lima, e o Miguel passou uma temporada em casa da família Machete, na Avenida do Brasil, ambos em preparação para a entrada no «ano zero» da Católica.

 

          Penso que não cometerei uma inconfidência se contar o que o Miguel, meu amigo desde os 4, 5 anos de idade, me descreveu sobre o que era partilhar uma jornada de trabalho com o Pedro.

 

O Pedro acordava, começava a estudar, estudava a manhã inteira, almoçava, almoçava abundantemente – e para o Miguel dizer isso, era, de facto, muito abundantemente… –, voltava a estudar a tarde inteira, hora a hora, horas a fio, sem falhas nem sobressaltos, sem pausas excessivas, sem conversas laterais. Estamos a falar de alguém que teria então uns 16 anos, e por aqui já se vê muito do que foi o Pedro ao longo da sua existência: uma maturidade muito precoce e uma férrea dedicação ao trabalho (e permitam-me outra inconfidência, mas que todos sabem: o que animava o Pedro nos seus últimos tempos de vida, além da fé e da proximidade dos familiares e amigos, o que o animava, dizia, era o trabalho, o estudo, a escrita – que manteve praticamente até morrer, o que não pode deixar de nos regozijar a todos. Poderemos e deveremos lamentar a partida precoce e prematura do Pedro Machete, a sua vita brevis, mas devemos pensar que, praticamente até ao fim, manteve intactas as excepcionais capacidades que lhe permitiam fazer algo que lhe trazia um enorme conforto intelectual e espiritual).        

  

          Além do trabalho em si mesmo, as descrições que o Miguel me fazia, algo abismado, do que eram os dias passados na residência da família Machete, evidenciam outra das grandes qualidades do Pedro, uma imensa e esmagadora capacidade de concentração.

 

          No plano intelectual e académico, mas também no plano pessoal, existencial, o Pedro destacou-se sempre – e, reparem, desde muito novo – por uma concentração absoluta, sem desvios nem atalhos, naquilo que para ele era o essencial: o trabalho, a família, a fé religiosa.

 

          O Pedro Machete nunca foi alguém que se evidenciasse pela retórica flamejante, por foguetórios de improviso, pelas «tiradas» verbais retumbantes, muito ao gosto latino, pela oratória de circunstância, pelos rasgos imprevistos.  O brilho que indiscutivelmente teve era de ouro verdadeiro, não de imitação ou de empréstimo; era profundo, estruturado, pensado, reflectido; em suma, era de uma extrema exigência para consigo mesmo e de uma implacável honestidade intelectual e, sobretudo, moral.      

 

          Se quiséssemos fazer uma «nuvem de palavras» para descrever o nosso Amigo, creio que todos concordarão nas seguintes:

 

- maturidade – desde muito novo, o Pedro foi uma pessoa excepcionalmente madura, pautado por uma ética da responsabilidade que o distinguia mesmo entre os seus pares e amigos;  

 

- coerência – o Pedro teve um percurso de vida de uma linearidade e de uma transparência absolutas, luminosas: licenciatura, mestrado, doutoramento, professor de Direito, passagem pela advocacia, juiz do Tribunal Constitucional e do Supremo Tribunal Administrativo. Não houve aqui desvios no caminho, nem acidentes de percurso. E, ao longo das diversas etapas que percorreu, nunca abandonou ou alienou os princípios com que foi educado. Nunca teve a avidez do dinheiro nem a tentação do poder. Com as suas qualidades, com o seu saber e com a sua entrega ao trabalho, com a sua rede de sociabilidades, o Pedro poderia ter sido um advogado de sucesso ou enveredado por uma carreira política (nesta, contudo, já não creio que tivesse tido tanto sucesso, dada a forma tão firme, por vezes inflexível, como se batia pelas suas convicções). Além desse percurso cristalino, admiravelmente coerente, o Pedro Machete sempre manteve o essencial da sua crença nas virtudes da social-democracia, da economia de mercado, de um Estado Social interventivo, da justiça social – um texto neste livro, de Gonçalo Almeida Ribeiro, ilustra bem até que ponto o Pedro tinha preocupações sociais muito claras e fundadas, mas, como sempre, prosseguia-as sem alarde, sem dar nas vistas.   

 

          Muitas outras palavras se poderiam acrescentar – a racionalidade, a solidez, a confiança, o rigor, a discrição, a honestidade.

 

Falarei apenas de mais uma: a lealdade. O Pedro era de uma lealdade absoluta nos seus compromissos. Todos os que se encontram nesta sala poderão testemunhá-lo: os colegas da universidade, os seus pares no Tribunal Constitucional. Uma vez dada a palavra, assumido um compromisso, o Pedro não voltava atrás nem tergiversava, não se adaptava às circunstâncias e aos auditórios. Era, em suma, das pessoas mais fiáveis e mais confiáveis que conheci na vida.  

 

E agora, pela negativa, no Pedro não encontrávamos a tirada fácil, a piada de salão, o improviso, o facilitismo, o deixa andar, o dolce fare niente, o adiamento, a ousadia e a audácia impensadas, a eloquência de circunstância.

 

 O mais espantoso é que a sua personalidade era una, se quisermos era um bloco maciço, inteiriço, compacto, mas não se impunha pela arrogância ou pela sobranceria, aliás não se impunha de todo nem a ninguém. O Pedro era como era sem fazer alarde disso, sem impor e sem nos impor a sua indiscutível grandeza intelectual e humana. E, como disse, as características que singularizavam o Pedro – a maturidade, a confiança, o rigor – atravessavam e projectavam-se sobre todos os planos da sua existência: o familiar e pessoal, o académico e profissional, o religioso e moral.

 

Ao contrário do que sucede a alguns, ou muitos, o Pedro não era rigoroso numa esfera e facilitista na outra, não mudava de registo consoante os lugares, as situações ou solicitações. Porque, no fundo, tudo o que era e fazia brotava da mesma e única personalidade e o Pedro, que tinha uma consciência aguda e muito nítida do que para ele era essencial, não fazia concessões a ninguém, nem sequer a ele próprio. 

 

No belíssimo texto com que abre este livro, o Pedro Ravara conta-nos um passeio em São Martinho, nos já muito idos de 1981, e descreve que, às tantas, o Pedro Machete e o Miguel Nogueira de Brito se envolveram numa discussão sobre a República de Platão.

 

O Pedro Machete, que nasceu e cresceu num meio de elite – de elite intelectual – e que sempre pertenceu à escassa elite intelectual do seu país, correspondeu certamente ao ideal platónico de um rei-filósofo virtuoso, que até ao fim manteve as convicções, os princípios e os valores que herdara dos seus pais e que cultivou pela vida fora: a crença na família, a fé em Deus, vivida criticamente, e a adesão à social-democracia fundadora do Partido Popular Democrático.

 

Num certo sentido, porém, o seu espaço e o seu tempo já desapareceram.

 

Quanto ao espaço, o Pedro não pertencia, digamos, ao universo mental do que se convenciona chamar «Portugal», sempre teve como referência uma realidade-outra, claramente não latina, mas também, note-se, não totalmente germânica.

 

Quanto ao tempo, o tempo de Pedro Machete era, nos seus alvores, o da burguesia meritocrática do Estado Novo, que começou a afastar-se do regime ainda antes do 25 de Abril e, por isso, pôde fornecer os quadros, os melhores quadros, do pessoal político da área democrática do pós-revolução. Foi nesse tempo que o Pedro foi formado, e o texto do Johannes mostra-nos, por exemplo, como acompanhou já com o maior interesse, por exemplo, a revisão constitucional de 1982.

 

Por razões familiares, o Pedro cresceu num meio em que a política foi vivida como muita intensidade, a intensidade do PREC, é certo, mas também ou sobretudo a intensidade da construção da democracia, de Sá Carneiro e da AD, da primeira revisão constitucional, dos alvores do Bloco Central, da adesão à Europa.

 

O Pedro acompanhou tudo isso de perto – e ao mais alto nível –, o que contribuiu certamente para a sua formação política, mas também para o seu amadurecimento precoce, digamos, na observação da vida e dos outros. É aliás sintomático que, tendo vivido a política de tão perto e tão intensamente desde muito novo, o Pedro nunca se tenha tentado seduzir por ela, talvez porque tenha pressentido que ela é, ou poderia ser, fonte de muitas desilusões, ou, o que é mais provável, porque não tenha querido desviar-se do rumo que traçou para si próprio: ser professor de Direito e jurisconsulto.  

 

Como referi, o tempo de Pedro Machete – como o nosso – já desapareceu em muitas das suas dimensões. A nossa incompreensão perante muito do que hoje está ocorrendo, o comportamento irracional dos eleitores, o facto de estes fazerem escolhas que gritantemente ferem os seus interesses, as mil explicações que ensaiamos para tal desconcerto – seja o peso das redes sociais, seja o declínio das classes médias, sejam os defeitos do «sistema», seja o solipsismo das elites ou a sua indiferença perante os deserdados de um Estado social em crise –, todas essas explicações radicam, no fundo, no nosso desfasamento em relação ao tempo em que vivemos, ou pelo menos a significativas parcelas dele.

 

Dir-se-á que ainda somos demasiado novos para sermos assaltados por sentimentos como esses, mais próprios da senectude e da idade maior, que na reprovação moral do presente, na perplexidade e no nojo ético que ele nos provoca, vai implicada uma indisfarçável nostalgia de uma ordem pretérita que, bem vistas as coisas, era mais imaginada do que real.

 

Na verdade, e se quisermos, não fomos nós que envelhecemos, foi o tempo que acelerou, e acelerou a uma velocidade tal que tornou velhas mesmo pessoas jovens e muito inteligentes, como o Gonçalo Almeida Ribeiro. Velhas no sentido de terem perdido as coordenadas de racionalidade e as grelhas com que analisavam o mundo, e que tinham uma lógica clara – se eu estudar, vou ter uma profissão bem remunerada e uma vida confortável; ou, se um partido ou um líder mentirem serão punidos pelos eleitores; ou deve acreditar-se na ciência e nos consensos científicos; ou, ainda, o reconhecimento público de A ou de B é um correlato e uma consequência do seu mérito e, por isso, a sua presença na esfera pública é uma garantia da credibilidade e da fiabilidade das suas opiniões.   

 

Foram estas as coordenadas com que Pedro construiu a sua vida, a sua carreira, e se posicionou no mundo: o valor do trabalho, a crença na democracia, o culto da verdade, da verdade política e da verdade científica, a convicção de que, numa sociedade justa, o mérito é premiado, a noção de que a informação é transmitida de cima para baixo, não de baixo para cima, e que as fontes de informação escrutinam os seus conteúdos através de diversos mecanismos públicos: na academia, através da revisão pelos pares; no jornalismo, através do espírito crítico de leitores também eles esclarecidos e informados.

 

Tudo isso, em larga medida, pertence ao passado. Daí que tenhamos grandes dificuldades em compreender o presente, ou uma sua parcela significativa, e, mais ainda, tenhamos grande dificuldade em discernir no presente como será o futuro. Resta-nos, pois, e tão-somente, acreditarmos e confiarmos no tempo, recordando aquele velho provérbio cigano que diz: «depois de amanhã, o amanhã será ontem.»

 

Compreende-se, assim, que o Pedro muitas vezes observasse a realidade com um olhar irónico, até mordaz, e que não tivesse contemplações para com a mediocridade e para com o facilitismo ou para a vertigem do mediatismo.  

 

Mantendo um elevado criticismo em relação ao evoluir do seu país – ou, se quisermos, ao evoluir do tempo no seu país e no mundo –, o Pedro teve, contudo, o bom senso de não cair em duas atitudes muito óbvias, muito clássicas e muito fáceis: a primeira seria a de cair numa espécie de ennui e desalento em relação à pátria; a segunda seria a de olhar com nostalgia para um passado que, convenhamos, verdadeiramente nunca existiu, e no qual o Pedro sempre teve a clarividência de não figurar como seu lugar de refúgio.

 

Até nisto, como vêem, ele foi exemplar. Ou, em poucas palavras, nesta sua passagem pelo mundo, mais efémera do que desejaríamos, mas ainda assim suficientemente longa e activa para deixar uma marca indelével em todos quantos o conheceram, nessa passagem pelo mundo, dizia, o Pedro Machete tornou-nos a todos um pouco melhores ou, pelo menos, um pouco menos maus.  

 

Hoje não teremos o Pedro-físico, e por isso o recordamos com saudades, mas temo-lo no que ele teve de essencial, o seu legado exemplar como ser humano, como académico e como cidadão.

 

Dirão que é fraco lenitivo para nos compensar pela sua perda, ainda que devamos perguntar-nos até que ponto o que lamentamos na morte do Pedro Machete não seja também, em larga medida, um pouco da nossa morte.

 

É inevitável falar disto, mesmo nesta ocasião, desde logo para exaltarmos a beleza, a beleza suave, de um grupo de amigos, sob a égide do Miguel Nogueira de Brito, do Rui Medeiros, do Gonçalo Almeida Ribeiro e do José António Teles Pereira ter-se-reunido para escrever um livro que, segundo se diz no proémio, não é um in memoriam, mas um liber amicorum. Um livro escrito na certeza de que, se o mesmo fosse feito para qualquer um de nós, o Pedro estaria na primeira linha para prestar o seu depoimento. Aliás, o primeiro dos testemunhos ou depoimentos deste livro é feito pelo próprio Pedro. Este é o seu depoimento, o seu testemunho de vida, um livro em que o Pedro está presente em cada linha, falando connosco através das palavras dos seus amigos. Assim, mais do que o livro dos amigos do Pedro Machete, este é, ou será, o livro do Pedro Machete e dos seus amigos.

 

A sua morte tão prematura, tão adversa à ordem natural das coisas, confrontou-nos todos, como é evidente – e de forma brutal –, com a nossa própria finitude, com a possibilidade de ocorrência de um imprevisto inexplicável que altera tão radicalmente aquilo que temos por natural e expectável e, sobretudo, aquilo que temos por justo. Ocorre-me à lembrança uma frase de Guicciardini, contemporâneo de Maquiavel, «é um facto notório que todos vamos morrer. E, no entanto, vivemos como se fôssemos viver para sempre», convicção que uma morte tão precoce como a do Pedro naturalmente abalou – e, por isso, tanto nos abalou.  

 

Contudo, e mesmo sendo é óbvio que tudo isto foi uma inversão das nossas expectativas, das expectativas quanto aquilo que é, ou deveria ser, o curso normal da vida e das coisas, deveremos ter presente que o Pedro, pese ter morrido novo, cumpriu e viu serem cumpridas as expectativas que tinha para a sua existência: o cumprimento do legado moral dos seus pais, ambos vivos; a presença da Margarida, companheira até ao fim; três filhas que cumprem e superam as expectativas de qualquer pai, mesmo de um pai exigente como o Pedro era; irmãos e cunhados, sobrinhos, dois genros e um neto, Pedro como ele.

 

No plano académico, fez um brilhantíssimo mestrado, a que assisti, e um não menos brilhante doutoramento, a que também assisti, com a Joana muito ansiosa, amoravelmente ansiosa, ante o resultado da prova, que só para ela poderia ter algum mistério... O Pedro deixou escritos marcantes, importando dizê-lo que alguns deles foram logo os relatórios que elaborou no mestrado, ainda hoje estudados e citados, a prova mais concludente da sua esmagadora densidade intelectual. Por fim, mas não por último, foi juiz e vice-presidente do Tribunal Constitucional por mérito absoluto, sem favores políticos ou sem pertencer a tribos ou côteries de espécie alguma e teve ainda a ventura de realizar o velho sonho de ser juiz do Supremo Tribunal Administrativo, após uma cerimónia em que muitos dos presentes compareceram. Além da família, lembro-me do Miguel, o velho amigo sempre presente, do Pedro Mendes Pinto e do Joaquim Pedro Cardoso da Costa, que nunca perde uma ocasião para estar com os outros e para lhes mostrar que há esperança na humanidade.

 

No Tribunal Constitucional, o Pedro Machete deixou a sua marca, a sua inolvidável marca, e não falo dos acórdãos que relatou ou das declarações de voto que subscreveu, aqui analisados por muitos dos seus pares: Maria Lúcia Amaral, João Caupers, Maria José Rangel de Mesquita, José João Abrantes, Gonçalo de Almeida Ribeiro, José António Teles Pereira, Cláudio Monteiro.  

 

A marca do Pedro no Tribunal, e peço que compreendam que não fale tanto da que deixou na Universidade Católica, que conheço pior, a marca que o Pedro Machete deixou no Tribunal Constitucional evidencia-se nisto, numa coisa tão singela: o índice deste livro. É assombroso e comovente ver que, ao lado dos académicos distintos que foram seus mestres ou colegas, e ao lado de dois dos seus grandes amigos, o Pedro Ravara e o Joahnnes Laitenberger – e reparem, o amigo de São Martinho e o amigo da Escola Alemã –, surjam tantos juízes ou ex-juízes do Palácio Ratton, alguns dos quais não hesitam sequer em contar um ou outro episódio de cariz mais pessoal, como sucede com o texto do Presidente João Caupers.

 

Esta obra tem isso de tão singular, que só alguém como o Pedro poderia mobilizar: a junção singela de um grupo de amigos, uma reunião sem alardes, sem floreados, exactamente como o Pedro gostaria que fosse. Não é, e isso é esclarecido logo no início, um clássico livro de homenagem, com textos de muita gente que, mais do que homenagear o homenageado, quer tantas vezes homenagear-se a ela própria. É um livro de amigos, que, por acaso, ou não por acaso, também mantêm entre si, na esmagadora maioria dos casos, laços de amizade. Ou seja, não é apenas um livro dos amigos do Pedro Machete, é também um livro de pessoas que, em muitos, muitos casos, são amigas ou muito próximas, seja porque tiveram percursos comuns, seja porque partilham afinidades electivas, seja enfim porque sim, e isso basta. O facto de os amigos do Pedro Machete serem também amigos uns dos outros não será decerto uma coincidência – e o facto de terem querido celebrar a sua memória não pode deixar de ser visto como prova do seu carácter e de um certo modo de ver o mundo.   

 

Haverá outras esferas aqui não presentes, nomeadamente a familiar e a religiosa, mas, até por isso, porque elas respeitam a um núcleo mais pessoal e íntimo, que o Pedro sempre fez questão de preservar, compreende-s0e que sejam reservadas para outros lugares.  O livro, aliás, é muito o retrato dos seus organizadores, quer na forma discreta e despretensiosa com que se apresenta, quer na opção, que é muito típica destes nossos amigos, de falarem através do silêncio.

 

Ao invés de um prefácio evocativo, sentimental, o livro abre com três parágrafos brevíssimos, que dizem tudo. A evocação está pressuposta nos textos que seguem, a dor da perda nem sequer necessita ser explicitada, tudo é, enfim, do domínio da reserva, da contenção, exactamente como o Pedro gostaria que fosse.

 

Pedindo desculpas por o tempo que vos estou a tomar, não resisto, quase a concluir, a mencionar um breve e extraordinário ensaio há pouco publicado por Maria João Mayer Branco, intitulado Expectatio e dedicado a uma imagem escultórica belíssima, a Virgem da Expectação, atribuída a Mestre Pero e hoje patente no Museu Nacional de Arte Antiga.

 

Poderá parecer estranho, e talvez o seja, falar da expectação de Maria a propósito de um amigo falecido jovem, na força da idade, que em seu redor ainda congregava tantas e tão merecidas esperanças e expectações.

 

Mas talvez por essa via se possa chegar ao ponto que eu queria alcançar, o fio invisível que une o Pedro-avô e o Pedro-neto.

 

O livro de Maria João Mayer Branco começa com uma frase cortante, porventura terrível, de Jorge de Sena, «não foi para morrer que nós nascemos.»

 

Mas, depois, lá pelo meio, cita uma frase de Hannah Arendt que, partindo da mesmíssima ideia de Sena, dá-lhe um outro significado, completamente distinto. Escreveu Hannah Arendt, na Vida do Espírito, «embora devam morrer, os homens não nascem para morrer, mas para começar.»

 

É curiosíssimo que duas pessoas que muito provavelmente nunca se conheceram, mas que escreveram mais ou menos em simultâneo, tenham partido de uma mesma ideia – não foi para morrer que nós nascemos –, mas acabem por dar-lhe uma tonalidade tão diferente. No caso de Sena, a desesperança absoluta; no de Hannah Arendt, o inciso luminoso, radioso, de que toda a vida tem um fim, decerto, mas que antes de o ter tem um começo.

 

Na vida do Pedro houve vários começos e recomeços, e muitos princípios concretizados – o doutoramento, o Tribunal Constitucional, o Supremo Tribunal Administrativo. Nenhum, porém, foi tão grande como o das suas filhas e o do seu neto.

 

É que, como escreveu também Hannah Arendt, «o milagre que salva o mundo é o facto do nascimento e a possibilidade do nascimento, pois só eles, só o poder de começar, permitem “fé e esperança” nos assuntos humanos.»

 

E acrescenta Hannah Arendt, judia, que várias vezes se proclamou agnóstica: «Esta fé e esta esperança no mundo talvez nunca tenham sido expressas de modo tão sucinto e glorioso como nas breves palavras com as quais os Evangelhos anunciaram a "boa nova": Nasceu uma criança entre nós

 

Ou seja, e em suma, no Pedro-neto celebramos um novo começo, que o Pedro-avô ainda viu começado.

 

E a propósito, ou despropósito, de esperanças e expectações, dos começos que toda a vida encerra, gostaria de recordar-vos, a terminar, o sermão que o Padre António Vieira dedicou ao culto da Senhora do Ó.

 

Não irei maçar-vos com as subtilezas argumentativas do Padre António Vieira, nem com o poder refulgente da sua oratória barroca, que o livro de Maria João Mayer Branco tão bem explica.

 

Retenhamos apenas uma frase de Vieira, que diz: «a presença, para ser presença, há-de ter alguma coisa de ausência.»

 

Com este livro, os amigos de Pedro Machete tornaram presente o ausente, um ausente que continua e continuará presente – enquanto nós formos e o quisermos.

 

Muito obrigado.   

           

                                                    António Araújo




quinta-feira, 5 de junho de 2025

Apresentação de Se Eu Quisesse, Enlouquecia, de João Pedro George.

  



Apresentação de Se Eu Quisesse, Enlouquecia,

de João Pedro George

 

 

          Muito boa tarde a todos,

 

Estou certo de que os presentes nesta sala se interrogam o que estou eu aqui a fazer, a apresentar esta biografia de Herberto Helder, uma vez que não tenho credenciais nenhumas, absolutamente nenhumas, para o efeito: não sou especialista em história literária nem crítica literária, não leio literatura com a assiduidade que desejava, poesia menos ainda, e, por tudo isso, confesso, eu próprio tenho exactamente a mesma dúvida que agora vos percorre o espírito.  

         

          Para tentar vencer esta “síndrome do impostor” (o João Pedro George explicou-me há dias o que era a “síndrome do impostor”) e para ultrapassar esta sensação de ser um óbvio “erro de casting”, encontrei duas explicações para a minha presença neste evento, que coloco à vossa consideração:

 

          - a primeira e mais óbvia é, digamos, uma explicação egoísta: o autor deste livro deve-me 27 euros que lhe emprestei há mais de três semanas e, por isso, venho aqui na vã tentativa de, no final da sessão, reaver o meu dinheiro;

 

          - a segunda razão é altruísta, solidária para com o autor, e tem que ver com o facto de os dois convidados premium, digamos assim, terem simpática e sensatamente declinado o convite para aqui estarem presentes.


Sem os identificar, o que seria deselegante, direi apenas que um se chamava Araújo e o outro António, pelo que, tendo falhado o Araújo I e o António II, teve de sair do banco este António Araújo, Nem sequer o António Araújo candidato à câmara municipal do Porto, mas um António Araújo de segunda escolha, que sou eu.

 

          Permitam-me, já agora, que vos descreva como surgiu o convite para estar aqui presente.

 

Estávamos os dois na Feira da Ladra, perto de um local chamado «Ladeira dos Estudantes», e o autor desta obra, de rajada:

 

          - disse-me, muito simpaticamente, e com a diplomacia que o caracteriza, que os dois primeiros convidados não tinham aceitado, pelo que teria de avançar eu, pois não havia mais ninguém para apresentar o livro;

 

          - no segundo seguinte, pediu-me que lhe cedesse a minha casa por umas horas, pois a casa tem um jardim e ele precisava de um espaço para dar uma entrevista sobre este livro;

 

          - e, logo a seguir, pediu-me emprestados 30 euros, dos quais, como eu já disse, pagou até agora a quantia de 3 euros.

 

          Isto dito, porque isto tem de ser dito, falemos então sobre este livro.

 

          Esta é, desde logo, uma obra muito singular e muito curiosa, que tem 895 páginas, em letra miúda e compacta, e que termina com as seguintes e solenes palavras: “detesto abusar do tempo e da paciência dos leitores” 

 

          Para os que julguem que o autor se excedeu no número de caracteres, devo lembrar, ou antes informar, que a versão original do livro tinha praticamente o dobro, umas 1.700 páginas ou 2.000 páginas, e que eu e o Zé Lima tivemos de a ler não uma, mas duas vezes, após o que foi devidamente aparada e reduzida pelo Rui Couceiro, que fez aqui um trabalho extraordinário como editor.

 

          Não é difícil perceber que estamos perante o trabalho de um obsessivo ou, o que é curioso, o trabalho de um obsessivo sobre outro obsessivo, já que Herberto Helder também o era, como também era hipocondríaco, à semelhança deste seu biógrafo.

 

Há, aliás, muitas outras afinidades electivas entre o biógrafo e o biografado, que me vou abster de explorar.

 

Mas há também óbvias e gritantes diferenças: o livro mostra que Herberto Helder era uma pessoa que cuidava muito da aparência, que tinha um grande cuidado em estar sempre impecável, bem vestido, limpo e bem apresentado (aliás, nas raras vezes que o vi, no Largo Trindade Coelho, ou perto das Escadinhas do Duque, essa é a grande recordação que retenho dele). Essa é uma diferença com o seu biógrafo, mas adiante…

 

          Este é, como disse, o trabalho de um obsessivo, sendo essa, se quisermos, a principal característica deste livro e, aliás, de todas as boas biografias. Não vou maçar-vos com o que diz Ruy Castro em A Vida por Escrito ou com o que diz Lira Neto em A Arte da Biografia sobre as regras de uma boa biografia, mas a primeira e mais óbvia de todas, é saber tudo, absolutamente tudo, sobre a personalidade biografada.

 

E, nesse aspecto, João Pedro George é um caso único, totalmente imbatível, justamente porque é um obsessivo, alguém que dedicou oito anos da sua vida a levantar todas as informações possíveis sobre o cidadão Herberto Helder de Oliveira.

          

          Ou seja, podemos questionar se devemos considerar ou não esta biografia como «definitiva», mas, a menos que surjam informações em baús vindos de Sirius ou Marte, esta biografia é inultrapassável quanto à profundidade e à amplitude da investigação.

 

Podemos gostar, não gostar deste livro – lembrei-me, aliás, de que na União Soviética dos anos 30 foi aprovada uma lei que incriminava deitar livros e papéis fora pela retrete abaixo, tantos eram os intelectuais que, nos tempos do estalinismo, procuravam desfazer-se de leituras comprometedoras.

 

Ora, nós vivemos num país livre, poderemos não gostar deste livro, poderemos deitá-lo pela retrete abaixo, mas nunca poderemos negar, por um lado, o trabalho, o imenso e sério trabalho que este livro implicou; e, por outro lado, o facto de o seu autor ter procurado revolver tudo sobre o seu biografado, só deixando de fora aquilo que ou não pôde encontrar ou que não lhe quiseram contar, o que foi deveras pena, pois esta foi uma oportunidade irrepetível para prestar testemunho sobre a memória de um dos maiores poetas que a língua portuguesa produziu.    

 

          Para os que queiram ser críticos – e num país de invejas haverá sempre os que querem ser críticos –, pode dizer-se muita coisa, mas o que nunca se poderá dizer é que esta biografia tem lacunas ou omissões, espaços vazios ou em branco. Poderá, sim, e pelo contrário, afirmar-se que peca por excesso, que nos traz dados e factos sobre Herberto Helder que não precisávamos de saber…

 

Simplesmente, dizer que há uma superabundância de informação é o maior elogio que se pode fazer a uma biografia.

 

Como disse, não sou especialista nestas matérias, mas nos muitos anos que já levo como leitor nunca vi alguém dizer que o James Boswell escreveu páginas a mais sobre Samuel Johnson, que Johan Peter Ekermann se excedeu ao anotar tudo o que Goethe lhe dizia ou que Robert P. Caro não deveria ter escrito uma biografia de 1.300 páginas sobre Robert Moses ou, até hoje, quatro esmagadores volumes sobre a presidência de Lyndon Johnson, que ao todo somam muitos milhares de páginas, aguardando-se um quinto volume.     



(já agora, a talhe de foice, e para percebermos quão obsessivos são os grandes biógrafos, lembre-se que Robert P. Caro tem e só usa 14 máquinas de escrever Smith Corona antigas, que já não se fabricam; que só usa fitas de máquina de algodão, não de nylon, e que aquelas estão descontinuadas, pelo que teve de encomendar 1.700 fitas, especialmente feitas para ele; que só escreve com lápis vermelhos Berol 314; que tem um livro-razão onde anota quantas palavras escreveu por dia, tentando uma média de 1000 palavras e que, uma vez, se isolou para escrever, refugiado numa floresta, num barracão de cimento de 12 metros quadrados…)

 

          É este o perfil dos biógrafos-obsessivos. Um obsessivo como o João Pedro George faz sempre vítimas entre os mais próximos. A Marta e a Ema, que ali estão, são as vítimas imediatas, mas também os amigos, como o Diogo Ramada Curto, o Pedro Goulão, o Zé Lima, o Alexandre Rechestre ou eu, têm sido sujeitos às taras e manias do autor: já passámos o  ciclo Mota Pinto, em que todas as conversas de café iam ter ao antigo vice-primeiro-ministro do PSD, tivemos o ciclo Pessoa, tivemos o ciclo sobre expressões em calão, depois um miniciclo sobre os restos mortais de Eça e o Panteão Nacional e depois, finalmente, um longo ciclo Herberto Helder, que nos torna todos habilitados a dar cursos de mestrado ou doutoramento sobre o autor de Vocação Animal, um título que, como vêem, se aplica na perfeição ao seu biógrafo.

 

Às tantas, e estão aqui testemunhas, os mais próximos quase poderiam dizer, ou sentir, que, como se diz no título, se o João Pedro George quisesse nós enlouquecíamos.

 

          Pela parte que me toca, tive de acompanhar de perto, e só vou dar alguns exemplos:

 

          - as origens familiares na Madeira – uma vez, quando fomos ao Funchal falar num colóquio, tivemos de visitar a casa de infância de Herberto, as ruas, uma a uma, fomos ver a Lapinha do Caseiro, etc., etc.;

 

          - a genealogia – que teve de contar com a ajuda de uma pessoa minha amiga, José Nunes Liberato, a quem o João Pedro incomodou de morte com mil e um pormenores e questões familiares;

 

          - a passagem pela rádio – e o que o João Pedro me atormentou o juízo para convencer o dr. Jaime Gama a falar com ele;

 

          - a RTP – onde as vítimas foram os nossos amigos Ângela Camila e  António Faria;

 

          - o Instituto Português do Mar e da Atmsofera, pois Herberto trabalhara como meteorologista: os meses que andámos, sem muito sucesso, atrás dos arquivos do IPMA

 

          - a Fundação Gulbenkian, por causa das bibliotecas itinerantes, e as cartas para lá e para cá que tiveram de ser enviadas. Com resultados decepcionantes: na Gulbenkian só havia um papelito burocrático sobre a passagem de Herberto Helder pelas bibliotecas itinerantes;   

 

          - por fim, ainda que eu não tenha tido intervenção directa, o Arquivo Histórico-Militar. Falo disso, até porque o autor me pediu para falar, para contar que João Pedro George só pôde consultar e tirar os elementos que queria da ficha militar de Herberto Helder porque o militar de serviço, que pediu anonimato e não está aqui identificado, virou convenientemente as costas para ele fotografar a inócua ficha militar de Herberto Helder.

 

          Falo disto por causa de um problema grave, muito grave, que se arrisca a pôr em causa, muito seriamente, o trabalho de biógrafos e historiadores: a forma cega, estúpida e maximalista como o Regulamento Geral sobre Protecção de Dados (RGPD) tem vindo a ser aplicado, muitas vezes por burocratas que só pretendem demonstrar o seu pequeno poder.

 

          Para vos dar uma ideia, se eu pretender saber quando é que uma figura pública como Álvaro Cunhal se licenciou ou que notas teve, a Reitoria da Universidade de Lisboa não deixa.

 

Se eu quiser saber, até no âmbito de uma investigação jornalística, se um político está a mentir sobre as suas habilitações literárias (e, como sabem, já tivemos um caso desses…), os serviços académicos não permitem, pois consideram que isso são dados pessoais, inacessíveis aos comuns mortais.

 

          Muito antes do RGPD – ou da forma como está a ser aplicado – Silvestre Lacerda, então director da Torre do Tombo, pediu-me ajuda para criar umas guidelines sobre o expurgo do arquivo da PIDE, aquilo que poderia ir ou não à sala de leitura. Há coisas óbvias: vícios, alcoolismo, hábitos ou orientações sexuais, questões que uma polícia política usava para chantagear os oposicionistas. Mas, tirando esse núcleo mais restrito, tudo o mais podia – e, felizmente, continua a poder ser consultado na Torre do Tombo. Caso contrário, seria impossível fazer uma história da PIDE ou da resistência ao salazarismo.

 

          Pois bem – e era bom que os governantes e os decisores políticos estivessem atentos a isto – se adoptarmos um critério totalmente maximalista, à luz do qual nada pode ser consultado, é melhor a Contraponto desistir desta sua excelente colecção de biografias. Uma colecção que surgiu, lembro-me bem, porque se dizia que em Portugal não se cultivava o género biográfico e, quando se começou a cultivar, temos este entrave burocrático e acéfalo, que muito prejudica a cultura portuguesa.

 

          Como notam, estou a falar mais da fabricação da obra do que da obra propriamente dita, até porque seria impossível resumi-la ou apontar os seus pontos fortes ou fracos, tarefa que deixo aos críticos. Espero é que os críticos sejam honestos e não descubram os lapsos que este livro tem – já foram detectados dois, haverá certamente mais, não muitos mais – para porem em causa uma investigação de vários anos – e um trabalho de escrita que, a certa altura, posso testemunhá-lo, era de 10 a 12 horas diárias, sábados, domingos, feriados, até na passagem do Ano Novo.

 

          É aqui que bate o ponto. Não haverá muita gente disposta a percorrer o calvário que é redigir uma obra com esta dimensão e profundidade. Até porque, e é importante dizê-lo, isso implica um sacrifício material muito grande, enorme. Na badana do livro, João Pedro George diz que vive exclusivamente da escrita. Ao que me apetecia lembrar uma frase do Júlio César Machado, no século XIX: em Portugal a escrita pode ser um modo de vida desde que se tenha outro…

 

          Espero que não achem que estou a fazer o elogio do coitadinho meu amigo, um número que, de vez em quando, o João Pedro gosta de fazer, sobretudo quando pede dinheiro emprestado aos amigos para comprar livros que entram em casa sem a Marta saber…

 

          O que pretendo dizer é, tão-só, que não há muita gente com esta capacidade de trabalho e, sobretudo, com esta capacidade de sacrifício, de sacrifício material, financeiro, e também de sacrifício pessoal, levado por vezes às raias da loucura, com o medo e a angústia de enfrentar um gigante como Herberto – e, para mais, um gigante escondido numa caverna – e não ser capaz de chegar até ao fim, de ter de desistir em nome de projectos mais imediatos, mas mais remuneradores. Ao longo destes anos, foram muitas as solicitações que João Pedro George teve de declinar, algumas delas bem remuneradas, para conseguir escrever esta obra. Até por isso, arrisco-me a dizer que, se ela não é «definitiva», será certamente inultrapassável: por um lado, porque não haverá muito mais informações relevantes do que as que João Pedro George descobriu; por outro, porque não haverá muita gente capaz de dar oito anos de vida e de sacrifício – de sacrifício pessoal e material –a um projecto como este.

 

          Para mais, Herberto Helder foi, como todos sabem, uma personalidade elusiva, avessa à mundanidade, sobre a qual pouco ou nada se sabia. Provavelmente, Herberto Helder é mais difícil de todos os biografados.

 

Por isso, mesmo para quem não se interesse por Herberto Helder ou pela sua poesia, este livro pode ser lido como uma lição de escrita e de investigação, que me fez lembrar um livro do historiador Alain Corbin, Le monde retrouvé de Louis-François Pinagot.

 

Nesse livro, Corbin dispõe-se a estudar a vida de um homem absolutamente anónimo, sobre o qual só se sabe que nasceu em 1798 e morreu em 1876, e que era um fabricante de tamancos na França profunda. O que esse livro de Corbin tem de interessante não é a vida de Pinagot, mas irmos acompanhando como o autor ultrapassa e muitas vezes dissimula a sua ignorância sobre ele, falando das florestas da região, do ofício de tamanqueiro, etc. Aqui, neste livro de João Pedro George, também se nota isso, de vez em quando, mas de uma forma menos óbvia e mais espaçada, o modo como o autor tem de lidar com a falta de informação.

 

          Em face de tudo isto, creio que nem será necessário perder tempo com uma questão caricata, que se colocou aliás há alguns meses, com uma outra das polémicas escusadas em que João Pedro George se envolveu, que é a de saber se, perante um escritor, o que importa é a obra, sendo a vida ou a biografia secundárias ou irrelevantes.

 

É uma questão tão risível que nem vale a pena perder tempo com ela, já que, no limite, a biografia desapareceria como género literário, não haveria biografias de escritores, de pintores, não haveria sociologia da cultura ou sociologia da cultura, ficaríamos só com as «obras», como produtos de um espírito hegeliano, a pairar no etéreo, universais e intemporais, sendo indiferente, para as percebermos, sabermos se foram feitas na Idade Média ou no Renascimento, por um homem ou por uma mulher, por alguém com esta ou aquelas características.

 

Bastará perguntar: numa obra como a de Herberto, onde a sexualidade está tão presente, é irrelevante conhecermos as pulsões eróticas do poeta e o seu carácter de sedutor? Ouso lembrar, aliás, que uma biografia muito louvada de Fernando Pessoa, e ainda mais volumosa do que esta, discutia o tamanho do seu pénis, pelos vistos uma questão relevante para a compreensão da Mensagem. Perante isto, que ninguém se atreva a dizer que João Pedro George se aventurou por domínios íntimos, pois, posso garantir, aquela informação métrica não consta da presente biografia.    

 

          A este propósito, lembrei-me de uma afirmação feita, no início do século XX pela actriz Mercedes Blasco: «Quando alguém se apresenta a nossos olhos como artista, é a sua arte apenas que deve interessar-nos, e deixemos, por mesquinha, essa curiosidade doentia de querer devassar o que está mais além do artista»

 

          Ora, se tivéssemos seguido este conselho, não teríamos livros interessantíssimo como O Mundo Gay de António Boto, de Anna Klobucka.

 

Permito-me aliás recordar que este ano, além do centenário do Great Gatsby, é também o cententário de Ms Dalloway, de Virginia Woolf. Pois bem, ainda há um par de semanas o Times Literary Supplement tinha artigos sobre a provável inspiradora da figura de Ms. Dalloway, Vita-Sackville-West, como há livros sobre a rapariga que terá inspirado a Lolita de Nabokov ou a Alice do País das Maravilhas.

 

Sobre esta última, num livro que li há pouco, The Story of Alice. Lewis Carroll and the Secret History of Wonderland, de Robert Douglas-Fairhurst, fala-se de uma luva encontrada na década de 1950 debaixo do soalho da casa onde Lewis Carroll passou a infância. Era um hábito da época, deixar nas paredes das casas sapatinhos de crianças ou “cápsulas do tempo” e, neste caso da luva, há uma ligação com a obra de Carroll, que gostava de brincar com a palavra «glove», por ter dentro dela a palavra «love». Ou seja, enquanto nos países que mais cultivam o género biográfico se discutem coisas como luvas encontradas na casa de infância de escritores, por cá ainda estamos a debater se o que interessa é a «obra», não a biografia…

 

Para termos uma noção de grau de pormenor a que se chega, deste grau obsessivo de pormenor, poderia lembrar também um livro extraordinário que se dedica apenas e tão-só a estudar, com uma infinidade insana de detalhes, o episódio em que Van Gogh cortou a orelha: Van Gogh’s Ear. The True Story, de Bernardette Murphy. Recomendo muito.

 

Aliás, e se pensarmos bem, essa questão nem se coloca para quem, como é o caso de Herberto Helder, teve uma vida tão interessante, ou seja, para quem a vida foi também «obra», que fez da sua vida uma «obra», ou um prolongamento da obra literária, podendo a vida ser estudada como tal, uma vez que as fronteiras vida/obra são, naturalmente, imprecisas e muito ténues.

 



          Permitam-me aliás que lembre que saiu há dias nos Estados Unidos – em 6 de Maio, mais precisamente – um livro de um, grande biógrafo, Zachary Leader, que já assinou biografias de Saul Bellow ou Kingsley Amis, e que agora publicou um livro chamado Ellman’s Joyce. The biography of a masterpiece and its maker, que é a biografia de um biógrafo e a biografia de uma biografia.

 

          O biógrafo é Richard Ellmann, a biografia é a que ele dedicou a James Joyce: e o livro divide-se em duas partes, uma sobre a vida de Ellmann, a biografia do biógrafo, e outra é uma «biografia da biografia», sobre o trabalho que Elllman teve para escrever a sua extraordinária biografia de James Joyce, publicada em 1959.

 

          Possivelmente, daqui a uns anos teremos uma biografia de João Pedro George e uma biografia desta biografia, mas o que interessa notar é que quando alguns países já estão neste nível, fazerem biografias de biógrafos, por cá ainda discutimos se se deve separar a vida e a obra…

 

          É curioso notar que, numa recensão saída a semana passada no TLS sobre este livro de Zachary Leader, se mostra que os problemas e as técnicas com que Ellman lidou são exactamente os mesmos de João Pedro George:

 

          - uma atenção à vida e aos outros – Ellman era um académico muito social e sociável, tal como João Pedro George, o que lhe facilitou e muito o trabalho de entrevistas e o contacto com os entrevistados;

 

          - o fetichismo dos pormenores – um bom biógrafo tem de atender muito aos pormenores, pois são estes que dão colorido a uma narrativa biográfico. Por exemplo, neste livro, o processo de Herberto Helder contra um ar condicionado de um Minipreço, cujo barulho o atormentava;

 

          - a questão dos «dead spots», dos tempos mortos – um exemplo que se dá naquela recensão é, por mais que levantemos a vida de Joyce, há espaços em branco, tempos mortos, as horas e os dias que esteve á espera do canalizador. A biografia de Ellmann foi criticada por preencher alguns buracos com devaneios ficcionais ou quase. Aqui, João Pedro George corrigiu esse ponto, mesmo em relação à sua biografia de Fernando Pessoa. Ali, havia um ou outro devaneio, na descrição de uma cena num americano, por exemplo. Aqui não há nada disso, há muito pouco disso, talvez uma ou outra frase de ligação para iniciar um parágrafo ou um capítulo, mas não mais do que isso. Porquê? Porque o autor percebeu que aqui não podia entregar-se a essas fantasias e porque beneficiou muito do contacto de anos com a viúva de Herberto Helder, Olga Lima, cujas descrições – veja-se a da morte de Herberto – têm uma vivacidade e um colorido, uma proximidade que dispensa devaneios ficcionais.

 

Em suma, e para concluir a questão da vida vs. a obra, é óbvio que há um interesse cultural, histórico, sociológico, talvez também voyeurista, na biografia de um escritor. Um interesse que vai para além da mera hermenêutica da obra literária, mas que em muito auxilia essa hermenêutica. A questão da obra vs. o homem não faz nenhum sentido, sobretudo quanto estamos a falar de uma biografia – devo aliás informar que o livro era muito mais copioso a descrever e a analisar as obras de HH, mas porque se trata de uma biografia tudo isso acabou por ser devidamente reduzido e sanitarizado.   

 

          Isto conduz-nos a outra questão abstrusa, que é a de saber se HH apreciaria ser biografado ou se apreciaria esta biografia. Desde logo, e é óbvio, uma biografia não é um in memoriam, sendo também necessário dizer que esta não é uma biografia escandalosa, à semelhança das que Donald Spoto faz para as estrelas de Hollywood. Este não é um livro que ande à cata de pormenores sórdidos, até porque, se virmos bem, a vida de Herberto Helder não os tem.

 

O que haverá também a dizer sobre a relação entre Herberto e as biografias, e basta percorrem as estantes do Palácio Galveias, é que Herberto Helder lia biografias, inclusive a de Luiz Pacheco, escrita por João Pedro George, que Aníbal Fernandes lhe emprestava biografias (ver pág. 836 do livro), que Herberto, por exemplo, criticava os que analisavam a poesia de Rimbaud sem conhecerem detalhes da sua vida.

 

          Ou seja, é possível, até provável, que Herberto não tivesse apreciado ser biografado, e sobretudo ser biografado nestes termos, até porque, e se há coisa que esta biografia demonstra é essa, Herberto Helder, mais do que um «recluso» ou «invisível», era alguém que se preocupava – que se preocupava obsessivamente – em controlar a sua imagem e o modo de difusão da sua obra.

 

          No entanto, é impossível afirmar, pois é falso, que Herberto recusasse o género biográfico, sendo, pelo contrário, um leitor de biografias. 

 



          Não me apetece fazer grandes elogios a este livro de JPG, um autor que tem um livro chamado Não é Fácil Dizer Bem, mas acho que, com auxílio de pessoas próximas, como Olga Lima, Aníbal Fernandes, a filha Gisela, este livro acaba por prestar uma grande homenagem e um grande serviço à obra e à memória de Herberto Helder.

 

A homenagem é óbvia: uma dedicação insana de anos a estudar a vida de um sedutor, podendo dizer-se que João Pedro George, coitado, foi a última vítima das enormes artes de sedução de Herberto Helder.

 

E o serviço a Herberto também é ou deveria ser óbvio: Herberto Helder tinha e em parte ainda tem, até porque a cultivou, uma aura de xamã em seu torno, uma visão demiúrgica da sua poesia, algo que foi notado, entre outros, por António Guerreiro ou Diogo Vaz Pinto.

 

Ora, essa aura, por estar muito ligada a factos históricos muito concretos (a psicanálise, o spiritual awakening dos anos 60, a atracção por mitos e sabedorias ancestrais, por orientes e tradições míticas), essa aura, dizia, corre o risco – já está aliás a correr o risco – da erosão do tempo. E, com a passagem do tempo, o que era sacral, o que pretendia a projectar-se como sacral, torna-se caricato, porque preso aos modismos de uma época e porque fruto de uma pretensão, de uma intenção de sacralidade, digamos.      

          Neste sentido, ao dessacralizar a figura de Herberto Helder, ao torná-lo humano, porventura demasiado humano, esta biografia tem o efeito paradoxal de devolver a poesia de Herberto à sua integridade e à sua pureza. E aí, sim, poderemos doravante separar a vida e a obra, ler esta na sua plenitude, desfeito que estão o mistério em torno do seu autor.

 

Este livro é um exercício de de-mitificação e, pergunta-se, não será melhor para a poesia herbertiana deixar de estar sequestrada pelo magnetismo poderosíssimo da sua personalidade? Não será melhor, inclusive, para o próprio Herberto Helder, deixar de ser visto com a aura que em boa medida criou, mas que foi maioritariamente gerada e encenada pelos outros, sedentos de terem o seu quinhão nessa aura, de dizerem que tinham o privilégio de partilhar mesa com Herberto?

 

Ou seja, houve todo um trabalho de mitificação e de autoencenação de uma personalidade e de grupo, ou de uma tribo, que está datado e do qual importa libertar a poesia de Herberto, pois só assim se lhe garante perenidade.

 

          Sempre haverá, é certo, quem entenda que não precisávamos de saber tanto sobre Herberto Helder. E não me refiro aos aspectos amorosos ou sexuais, falo de pormenores como os cereais do pequeno-almoço ou afins. Simplesmente, tudo isso é próprio das grandes biografias, podendo eu, se quisesse, dar dezenas de exemplos de dezenas de biografias que utilizam esta mesma técnica para seduzir o leitor (sim, para além de um encontro de obsessivos, este livro é também um encontro de sedutores, de sedutores que usam ou usaram o verbo como a arma principal do seu arsenal erótico).

 

          Permitam-me recordar, aliás, um outro livro extraordinário, The Sinner and the Saint: Dostoevsky, a Crime and Its Punishment, de Kevin Birmin, que é, além, de uma biografia de Dostoievsky, uma biografia de Crime e Castigo. Conta-se aí, a dado passo, que Dostoievsky tomava óleo de castor para as hemorroidas… É um pormenor caricato e risível, concordo; mas será que isso diminui Dostoivesky aos nossos olhos, retira grandeza à sua obra? Ou, ao conhecermos o sofrimento que teve – e refiro-me às prisões e deportações – não poderemos compreendê-lo melhor?

 

          Esta é uma obra de maturidade de João Pedro George, ainda que a maturidade talvez não seja das qualidades que mais lhe reconhecemos, mas que aqui fica exemplarmente mostrada no domínio perfeito da técnica da narrativa biográfica. É preciso lembrar que, além de Luiz Pacheco, marquesa de Paiva, Mota Pinto, Fernando Pessoa e Herberto Helder, João Pedro George foi autor-fantasma de muitas outras biografias, e de algumas traduções inconfessáveis, como as dos livros de Alicia Galeotti. Permita-me aliás que revele que João Pedro George foi autor de um livro biográfico de um médico da moda que foi para a televisão, para um programa da manhã, afirmar sorridente que, de todos os livros que tinha escrito, aquele fora o que lhe dera mais gozo escrever…

 

          O domínio da técnica biográfica de João Pedro George evidencia-se em vários momentos: antes da entrada na narrativa, por ordem cronológica, a escolha de um momento-choque para agarrar o leitor, numa linha cultivada, por ex., por Fernando Morais em Chatô, o Rei do Brasil.

 

          Depois, e na linha do que atrás falei sobre Alain Corbin, a falta de informações sobre a infância é iludida e escamoteada através da descrição do ambiente do nascimento: no caso de Mota Pinto, tínhamos páginas sobre Pombal, aqui – e são importantes – sobre o Funchal (recorde-se que José Pacheco Pereira usou uma técnica diferente, e legítima, para descrever a infância de Cunhal, não tendo dados sobre ela: disse que os livros de Cunhal eram autobiográficos e, por isso, usou-os para retratar a sua meninice). A seguir, e é muito comum, o biógrafo prende-se ao primeiro dado real que consegue encontrar: as certidões de nascimento e os boletins com as classificações escolares.

 

          Mais adiante, João Pedro George já pode contar com alguns testemunhos orais, um domínio em que é mestre, pois consegue retirar sempre muito dos seus entrevistados. Percebe-se que, sobretudo em questões sensíveis, João Pedro George tenha recorrido muito ao discurso directo e às transcrições de conversas gravadas, como elementar técnica de autodefesa. Mesmo que por vezes isso possa custar ao leitor, fica este com a garantia que tudo quanto é dito foi mesmo dito pelos entrevistados e, por vezes, esta biografia consegue mesmo que, sobre uma mesma questão, haja depoimentos cruzados, que ora se complementam, ora se contradizem entre si.

 

          Há também um domínio em que João Pedro George se tem aprimorado, à custa de ler dezenas e dezenas de biografias estrangeiras, que é o da recriação de ambientes, por vezes apenas com uma frase ou um parágrafo. Tenho muita pena que algumas dessas partes, como as que se referiam às tertúlias de Lisboa, tenham sido cortadas nesta versão – e até exorto a Contraponto, à semelhança do que fez com os diários de Salazar, que tive o gosto de apresentar na Torre do Tombo, faça uma edição integral, online.

 

          Um mito que aqui fica desfeito, como se necessário fosse, é o de Herberto Helder  recluso ou eremita. Herberto Helder era um ser muito social e sociável, tal qual o seu biógrafo, que passava as tardes na sua editora, depois no Solar dos Galegos, etc., e, já antes, em cafés como o Monte Carlo ou o Toni dos Bifes, e que conhecia todos os seus colegas de ofício.

 

Sei que é um lugar-comum, mas neste caso tem plena aplicação: este livro é também a biografia de uma geração de intelectuais e um retrato extraordinário do meio cultural, ou de alguns meios culturais, de Lisboa dos anos 50, mas sobretudo 60, 70 e, em parte, 80. Se haverá quem pense que Herberto Helder sai maltratado deste livro, direi que esse meio cultural e sobretudo algumas das suas figuras saem muito mais mal tratados do que Herberto Helder.

 

          Aliás, e se me permitem, e desculpem o tempo que vos estou a tomar, acho que devemos todos suplicar, implorar, para que esta biografia não seja apreciada à luz de uma lógica binária, selvagem e maniqueísta, do género: o livro diz bem ou diz mal de Herberto Helder?

 

Façam a justiça de não reduzir este livro a uma aproximação tão básica e tão simplista, tão próxima do comentário futebolístico ou político, pois, de facto, e creio que basta dizer isto, o livro é muito mais copioso nos elogios que faz à obra ou à poesia de Herberto do que nos reparos que, aqui e ali, faz a alguns traços da sua personalidade.

 

          A esse propósito, e se quisermos, o livro percorre se quisermos uma primeira etapa de Herberto Helder, aquela em que procura afirmar-se, mas está ainda numa fase de incessante procura, num arco temporal que começa na Madeira e passa por Coimbra ou pela Bélgica.

 

          É a fase em que Herberto Helder se aproxima dos caminhos da marginalidade e do abjeccionismo, o que me fez lembrar obviamente o que Bordieu escreve nas Regras da Arte sobre a condição do artista, em que a boémia lhe confere um estatuto de excepção, por um lado próximo das classes populares mas por outro próximo das classes mais elevadas, mas fez-me lembrar um livro que li há pouco, de Dominique Kalifa, sobre os bas fonds, onde ele conta que já na Belle époque havia um turismo dos bairros marginais e degradados, e até uma tournée des grands ducs em que os grão-duques, guiados pela polícia, visitavam as piores zonas de Paris.

 

Herberto Helder foi um pouco assim, conheceu também essa realidade sombria, dormiu em casas de banho públicas na Bélgica, mas sempre foi relativamente exterior a isso, teve a inteligência que tudo isso era, digamos, um pouco infantil e nunca quis configurar-se como um maldito e percebeu que a aposta na sua obra implicaria o que implicou, um percurso no sentido do emburguesamento, da estabilidade existencial, muito dada por Olga Lima, das rotinas infalíveis, mas, também por isso mesmo, Herberto intuiu que esse maior conformismo, digamos, se era essencial para aplacar as suas angústias existenciais, era fatal para a sua imagem como poeta.

 

Daí que a sua atitude, sobretudo a partir de certa fase, tenha sido intransigente na salvaguarda do que era, ou do que ele projectava ser, a integridade da sua obra, sem cedências de qualquer espécie à vulgaridade, ao mediatismo, ao comercialismo, à cultura de massas. A resposta que dá a Mega Ferreira, quando este e o convida a ir a um evento no CCB, é exemplar dessa atitude.

 

          E como essa atitude marcou uma infinidade de criadores, ou de aspirantes a criadores, ainda que muito poucos a tenham levado aos limites que Herberto levou, este livro é também muito importante não apenas como retrato biográfico de um poeta, mas como, se quisermos, o retrato de uma certa forma de estar na poesia, que não começou com Herberto, é certo, mas que sobretudo não terminou com ele.  Era o produto, se quisermos, daquilo a que Roberto Calasso chamou «a vaga Baudelaire», que também não começou nem terminou com ele.    

 

          Falando em terminar, é também tempo, mais do que tempo, para terminar pedindo duplamente desculpas: aos presentes, pelo tempo que vos tomei; ao autor por não ter estado à altura do livro que escreveu.

 

          Deixem-me só colocar uma última questão, que é a da diferença entre currículo e biografia. Hoje os escritores, quase todos, têm um grande CV, não têm biografia. Pensemos num Camões, num Camilo, num Aquilino, mas também em Herberto Helder, e comparemo-los com os das gerações mais novas. Não vou citar nomes, seria deselegante, mas, dos escritores actuais, de quem gostaríamos de ler uma biografia daqui a uns 20 ou 30 anos? Quem tem uma vida interessante e digna de ser biografada?

 

Isto sucede quando há festivais literários, bolsas de criação literária, residências literárias, em suma, há muito literário, mas pouca literatura. Talvez por que não haja vida para levar para dentro da literatura, sendo paradoxal que, com tanta escassez de vida, de vida interessante, seja agora que se cultiva um género a que chamam «autoficção».

 

Serão muitas as razões para este desvanecimento da vida dos escritores: profissionalização da escrita, maior formação académica, maior conforto existencial, quiçá algum comodismo e conformismo, mil solicitações de autopromoção em colóquios, mesas-redondas, festas literárias por todo o planeta, demoradas produções fotográficas para disseminar nas redes sociais, «postas» diárias no Instragam, e até, importa dizê-lo, excesso de eventos mundanos, como estes das apresentações de livros.  

 

Herberto pertenceu, muito provavelmente, à última geração de escritores que teve uma vida para lá da escrita, que, no fundo, não teve currículo, teve uma biografia. É dela que João Pedro George nos fala neste livro extraordinário, Se Eu Quisesse Enlouquecia.  

 

 

          Muito obrigado. 

 

          Lisboa, 3 de Junho de 2025

 

          António Araújo