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quarta-feira, 16 de abril de 2014

The more loving one.

 
 
 
Fotografia de D'Arc





Looking up at the stars, I know quite well
That, for all they care, I can go to hell,
But on earth indifference is the least
We have to dread from man or beast.
 
How should we like it were stars to burn
With a passion for us we could not return?
If equal affection cannot be,
Let the more loving one be me.
 
Admirer as I think I am
Of stars that do not give a damn,
I cannot, now I see them, say
I missed one terribly all day.
 
Were all stars to disappear or die,
I should learn to look at an empty sky
And feel its total dark sublime,
Though this might take me a little time.
 
 
W. H. Auden
 
 
 
 

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Um poeta ao volante.








 
 
Não o tratemos com condescendência ou paternalismo. António Sequeira Tente é um taxista de Lisboa, vindo das Beiras. Faz quadras sobre a sua terra natal e outras, melhores ainda, sobre a capital. Quadras ao gosto popular. Nasceu em Folgosinho, concelho de Gouveia, a 5 de Julho de 1943.

         Não sobrevalorizemos a sua poesia ou os seus méritos literários. Como poeta, António Sequeira Tente não vale mais, nem menos, por ser taxista.

         «Sou um profissional do volante há mais de quatro décadas e conduzo táxis há mais de três (…). Para tentar minorar os efeitos catastróficos que esta ingrata profissão provoca nos meus neurónios por ser tão stressante e desgastante, sempre tive a necessidade de criar algumas escapatórias. Ao volante nasceram os meus versos, e motivos de inspiração era coisa que nunca faltava. Nos dias de folga fazia atletismo, hoje já posto de parte (a idade não perdoa).» − escreve no prefácio a Memórias do Trovador.  

         Além de poeta, António Sequeira Tente é coleccionador daquilo a que chama «máquinas canoras». Possui uma vasta colecção de grafonolas, fonógrafos e gramofones. Dedica os tempos livres a restaurar as suas máquinas canoras.
 
 

 

         Aos livros que divulga, em edição de autor, chama «modestíssimas publicações». Quem o conhece fica desvanecido pela sua cortesia e pela sua simplicidade. É tão caloroso quanto despretensioso. Bom ou mau poeta, isso que aprecie quem sabe. Uma coisa, porém, tenho por certa: pessoas assim fazem bem ao mundo.

 
António Araújo   





 

sábado, 11 de janeiro de 2014

Escrito de memória.

 
 
Fotografia de D'Arc





Escrito de Memória
 
Formado em direito e solidão,
às escuras te busco enquanto a chuva brilha.
É verdade que olhas, é verdade que dizes.
Que todos temos medo e água pura.
 
A que deuses te devo, se te devo,
que espanto é este, se há razão pra ele?
Como te busco, então, se estás aqui,
ou, se não estás, por te quero tida?
Quais olhos e qual noite?
Aquela
em que estiveste por me dizeres o nome.
 
 
Pedro Tamen
 
 

sábado, 28 de dezembro de 2013

Baía de Camamu.

 
 
 
 



Fotografias de D'Arc





Amor

 

Vamos brincar, amor? vamos jogar peteca
Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo
Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação?
Vamos sofrer, amor? males da alma, perigos
Dores de má fama íntimas como as chagas de Cristo
Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto
Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos
Fingir que hoje é domingo, vamos ver
O afogado na praia, vamos correr atrás do batalhão?
Vamos, amor, tomar thé na Cavé com madame de Sevignée
Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar
Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar N. S. do Parto?
Vamos, amor? vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos
Vamos fazer neném dormir, botar ele no urinol
Vamos, amor?
Porque excessivamente grave é a Vida.
 
 
Vinícius de Moraes





terça-feira, 8 de outubro de 2013

from Rio with love




Daniel Blaufuks





A cidade é maravilhosa, assim dizem, e não tem como deixar de ser... A natureza é rainha. O povo-Homem destrói, constrói, corrói e mói e Ela, sempre soberana, volta a pôr tudo no lugar. Devem existir poucos sítios no mundo onde esta circularidade seja tão clara. O pessoal chega com a imagem na cabeça e com o coração virgem, porque não faz porra de ideia do que vai encontrar. Na lembrança de quem já cá esteve apenas uma imagem: poderosa. A cidade é poderosa.

 

O dia estava nublado-carregado. Uma névoa espessa trazia o horizonte bem para perto e para baixo. Do aeroporto até Copacabana as circulares todas entupidas e o taxímetro contando... Em redor, tudo cinzento. Armazéns abandonados, favelas, construção caótica, emaranhado de viadutos, gigantescos muros de contentores: a selva urbana. E por detrás da neblina, espreitando de vez quando, a silhueta do Pão de Açúcar, a hirta figura do Redentor, e a selva: a selva poderosa.

 

Subimos ao 9º andar. Flat meio-espelunca. Janelas largas em frente a mais 50 janelas de mais 50 apartamentos, com mais de 50 vidas para efabular. Velhinha sozinha e seu caniche de pantufas; mocinha jovem que recebe cavalheiros barrigudos de shorts; cinquentona enxuta, peito de silicone enfiado num vestidinho de lycra do Flamengo.

 

Jet lag bate forte, corpo pede descanso, mas no 9º andar com janelas de alumínio o ruído é insuportável: gente gritando, música alta, televisões berrando, ônibus, buzinas, carros, motos... um marulho indistinto de carburadores. Dentro de casa tudo é pegajoso, lá fora o frenesi cinzento de Copacabana. Quero dormir e não posso... Cidade maravilhosa...

 

Não tem volta, o remédio é sair de casa e mergulhar no bulício: procurar um boteco, pedir uma Antártica, um pratinho de quibi e relaxar. E aí vem a gentileza do empregado te pegar no jet lag e transformá-lo em rendição. E aí começa logo a falar mais doce e cantado e chiado, porque você já é carioca no momento em que deixa de se preocupar.... No dia seguinte, apesar da noite buliçosa, a gente já acorda mais tranquilo. O dia continua cinzento, chove e faz calor: seguimos para o Jardim Botânico. Uma espécie de horta encaixada na selva, debaixo da tempestade iminente. E ali é um concentrado de exotismo: o jasmim é jasmim vermelho e cheira a jasmim com maracujá; as jaqueiras têm 30 metros e jacas do tamanho de melancias; micos passeiam-se entre ramos de árvores de cujo tronco brotam, indomáveis, flores cor-de-rosa de cheiro inebriante. 

 

E ao final da tarde, perto do Largo do Machado, procurámos roda de samba... A Sílvia nos guiou por ruelas e ruelinhas até ao largo do Salvador. Tudo escuro (desligaram a iluminação pública do largo), mas do meio do breu sobressaem umas luzinhas... e ao fundo uma batida. São sete ou oito músicos sentados em banquinhos de plástico, quatro ou cinco pessoas assistindo, e uma senhora setentona, cintilando de lantejoulas, dançando no meio: já é uma roda de samba. Pouco a pouco as pessoas vão chegando. Carioca não chega, vai chegando. Passado uma hora já está festa montada: muito músico, muita gente dançando, muita cervejinha rodando, tudo no breu (que a luz nunca chegou a acender) e tudo legal. Entretanto foi chegando pessoal, amigo do amigo do amigo: encaminha-se um grupo de dez pessoas para o Luigi pra comer pizza. Segundo alguém me sussurrou ao ouvido, jantamos com três músicos famosos: não faço ideia quem são. Mas  conversa flui fácil, em português dos dois hemisférios, acompanhada de umas batidas de garfo na mesa. No final convidam-nos para ir a um espectáculo no próximo final de semana, no Centro Cultural do Banco do Brasil.
 

Regressamos a casa cedo... jet lag é impiedoso. 
 

O coração vem cheio de doçura e alegria. A gente se sente derreter e não é só do calor. É uma espécie de ratificação solene: a cidade é maravilhosa, indizível porquê, mas é, e tudo vai dar certo.
 
 
D'Arc


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Alvorecer.

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Fotografia de D'Arc

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«Estavam ali diante dos meus olhos: era terrível e ao mesmo tempo fascinante. Ao princípio pensei que ele a estava a matar, logo a seguir percebi que não, que talvez ambos estivessem a morrer, só depois qualquer apelo distante se fez carne em mim.» (Fábula, Eugénio de Andrade)



Paula Rego, Natividade, 2002



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Deviam ser umas três da tarde, ficara em casa para me concentrar num trabalho que tinha de entregar com urgência, mas há mais de uma hora que um qualquer desconforto não me largava o ouvido fundo. A princípio julguei que fossem efabulações auditivas, depois percebi que não, que havia efectivamente uma toada longínqua que, como uma vaga em cadência incerta, me ia entrando janela adentro. Pensei então que fosse uma gata com cio ou o ganir de cães distorcido pelo arco do vale. Convenci-me disso e tentei abstrair-me. Pus um CD a tocar e voltei a concentrar-me. Fiquei toda a tarde na varanda debruçado sobre o trabalho, mas de vez em quando lá vinha o rumor que quanto mais o dia avançava mais se sobrepunha à música que eu ia fazendo aumentar de volume. Ao cair da noite não havia mais como abafá-lo, numa regularidade imprecisa, mas que nunca ultrapassava os vinte, trinta minutos, lá vinha ele: cada vez mais próximo, arrastado, plangente. Só então percebi. Uma vizinha tinha-me dito que estava previsto para o dia de Natal, enterneci-me com a ideia: um menino Jesus. Poucos dias antes do Ano Novo encontrei-os na rua, há já algum tempo que não a via e fiquei perplexo: pareceu-me uma violência que aquele corpo frágil com pouco mais de metro e meio tivesse que suportar o globo mundo, confrangi-me por não a ter achado linda como sempre, e por ver-lhe os olhos exaustos de um tempo e de um peso insuportáveis. Limitei-me a fixá-la estupefacto, não me ocorreu nada de agradável para dizer. Doce e benévola, ela reconfortou-me: «É para breve». Embaraçado, tentei um dito espirituoso para aligeirar o momento e rematei: «Talvez venha com o ano». Nos dias seguintes estive mais alerta. Atento ao movimento das escadas, corria para espreitar no buraco da fechadura sempre que ouvia barulho no patamar. Mas do andar de cima apenas uns passos lentos sobre o soalho, por vezes, umas vozes espanholas num dia, um traquinar de crianças no outro. O ano veio e nada aconteceu. Até ontem à noite, quando um apelo distante se fez carne em mim levando-me finalmente a compreender de onde vinha o rumor da tarde. Ela estava ali, poucos palmos acima da minha cabeça, entregue ao rolar da maré vazante, marcando o ritmo das vagas com uma espécie de marulhar animal de fêmea agonizante. Os gemidos pareciam derramar-se sobre os meus ouvidos como água a ferver. De peito apertado, achei que sufocava, sem saber se de medo, excitação ou pasmo. Compassadamente, os clamores seguiram-se durante horas: graves, longos e ritmados como um cântico ritual. Por volta da meia-noite fui-me deitar já com aquele murmurar incorporado. «Quanto tempo pode durar um parto?», comecei a tentar lembrar-me da hora precisa em que tinha começado a ouvir o rumor e acabei por adormecer embalado nessa contabilidade. Dormi um sono inquieto, com a toada gutural a martelar-me a cabeça e o coração. Por volta das seis da manhã, as taquicardias começaram a instalar-se e deixaram de me dar posição na cama: acordei lentamente com aquela fugitiva ilusão que se tem na manhã seguinte à morte de alguém querido, de que tudo não passou de um sonho, que afinal nada aconteceu e que o dia que nos espera é o de sempre. Mas rapidamente um bramar agudo irrompeu quarto adentro para me anunciar que tudo se mantinha como há algumas horas atrás: enquanto eu dormira, no andar de cima conservara-se sempre acesa a vigília do alvorecer. Mas, entretanto, o rumor havia-se transformado em frémitos cada vez mais sequenciais e profundos. Eram oito da manhã: «passaram-se quase 18 horas, isto não pode durar muito mais», pensei. Levantei-me e fui até à varanda esperar por qualquer coisa que não sabia bem o que poderia ser. Fiquei ali a olhar o vale. Quieto, calado, tremendo a cada uivo que chegava. Escondido por detrás de uma massa cinzenta de nuvens, o sol projectava os seus raios sobre o rio produzindo uma explosão de luz semelhante a um espectro divino. Diante dos meus olhos o milagre quotidiano. Por cima de mim o silêncio. Subitamente o silêncio: o milagre da vida.


Para a Sónia.


D'Arc

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A Graça é um Bairro.

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Fotografias de D'Arc




APPEAL

To residents of this district that is so beautiful and grace, for the sake of our health and hygiene in public, do not throw trash in this place that serves as a constant passage for access for the elderly, disabled and children who have difficulty accessing and pacing baby carriers and wheelchairs.
Please be human, not wild, for the sake of our health, our children and all of planet earth. There are a few metters from here on the street Damasceno Monteiro, near the gate of the GNR, 3 containers of CML thanking our garbage NOT HERE!!!!!!
Be circumspect and hygienic, we are in the XXI century.
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APELO

Aos Munícipes deste Bairro tão lindo que é a Graça, para bem da nossa saúde e higiene na Via publica, não deitem lixo neste local que serve de passagem constante para acesso de idosos, deficientes e crianças que têm dificuldades de acesso de passagem.
Por favor sejam Humanos, não selvagens, para bem da nossa saúde, dos nosso filhos e de todo o planeta Terra.
Há aqui a uns escassos metros, na Rua Damasceno Monteiro, junto ao portão da G.N.R., 3 contentores da C.M.L. que agradecem o nosso lixo, não na via pública.
Sejam prudentes e higiénicos, estamos no século XXI.

domingo, 28 de outubro de 2012

O céu que nos protege.

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Fotografias de António Araújo

 
 

A dream within a dream
 

Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow
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You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand
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How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep
- while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?
 
 
Edgar Allan Poe
 
 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Nocturno da Graça.

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Nocturno da Graça

Há um rumor de bosque no pequeno jardim
Um rumor de bosque no canto dos cedros
Sob o íman azul da lua cheia
O rio cheio de escamas brilha.
Negra cheia de luzes brilha a cidade alheia.

Brilha a cidade dos anúncios luminosos
Com espiritismo bares cinemas
Com torvas janelas e seus torvos gozos
Brilha a cidade alheia.

Com seus bairros de becos e de escadas
De candeeiros tristes e nostálgicas
Mulheres lavando a loiça em frente das janelas
Ruas densas de gritos abafados
Castanholas de passos pelas esquinas
Viragens chiadas dos carros
Vulto atrás das cortinas
Cíclopes alucinados.

De igreja em igreja batem a hora os sinos
E uma paz de convento ali perdura
Como se a antiga cidade se erguesse das ruínas
Com a sua noite trémula de velas
Cheia de aventurança e de sossego.

Mas a cidade alheia brilha
Numa noite insone
De luzes florescentes
Numa noite cega surda presa
Onde soluça uma queixa cortada.

Sozinha estou contra a cidade alheia.
Comigo
Sobre o cais sobre o bordel e sobre a rua
Límpido e aceso
O silêncio dos astros continua.

Sophia de Mello Breyner




Este Nocturno é a fala do luarão que há tantos meses tento fotografar.

Mas como? Não tinha como. Como se fotografa a cidade alheia que brilha? As luzes em traço abstracto de obturador aberto já não cintilam, arrastam-se. A lente é insensível ao alheamento. E a cidade? Como se fotografa uma cidade que se nutre de segredos inconfessáveis e que deve a sua beleza a indizíveis toques de mão, campainhas e sinos?

Custa reconhecermo-nos na nossa impossibilidade de fixar o sublime, mesmo quando o temos a passar, como uma brisa, por entre os dedos e os cabelos. É terrível o confronto com a simples humanidade, incapaz de fotografar a cidade alheia que cintila. E, no entanto, somos nós próprios a cidade cintilante. Há horas atrás, tivemo-la a nossos pés: e ao tempo alheio, e às colinas de luz difusa e doce. Aceitar o infotografável e ousar sê-lo, talvez isso baste. O luarão de Sapadores continuará sempre, serenamente.


D'Arc