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quinta-feira, 14 de maio de 2020

Julie Machado veio à luta...


Julie Machado



A Luísa é prima e muito, muito amiga, e até colabora de vez em quando no Malomil. Mas isto é só disclaimer e declaração de interesses, porque quero falar é da Luísa Costa Gomes, uma das melhores escritoras portuguesas da actualidade.

Não é essa, temos pena, a opinião de Julie Machado, que se apresenta no Observador como «luso-americana, vive em Lisboa com o marido e quatro filhos. Tem um mestrado em Teologia».

Julie Machado questiona uma peça da Luísa chamada «Vanessa Vai à Luta» e tem todo o direito de questionar o que quiser. E também tem todo o direito de questionar a «qualidade literária e cultural» dessa peça, que, na sua opinião, «poderiam ser melhores» (sic).

O que Julie Machado não pode, ou antes não deve, é questionar a qualidade literária de uma obra e, coitadita, escrever colocando vírgulas entre o sujeito e o  predicado de uma frase: «eu que escolho por livre opção, ficar em casa (…)».

E não pode, ai isso não podes, Julie, tu isso não podes mesmo, escrever: «devia de fazer um tiroteio aos seus clientes».

Deixemos o «fazer um tiroteio» de lado, adiante. O problema, claro, é o devia de. O devia de, ouvido na rua, é sempre coisa que causa um estertorzinho auricular e um arrepio gélido na espinha, na espinha da alma. Então lido, plamor de Deus, que clamor indecoroso, que frémito impudico! Devia de fazer, Julie? Devia de?

A Srª. Julie Machado devia de fazer um curso básico de língua portuguesa antes de se pôr a opinar sobre a qualidade literária (!) do que os outros escrevem, já que, bem ou mal, escrevem sem erros grosseiros ou calinadas de palmatória. E o Observador, como é óbvio, devia ter vergonha de publicar textos assim, mas enfim.  



António Araújo





















segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Alegrias (da Luisinha)



 
 

 
Alegrias
 
Oh meu caro amigo! Nem mo pergunte! O Natal oferece-me alegrias, uma, várias, inumeráveis. Primeira, hoje não fui atropelada por um jeep! Quer maior motivo de júbilo? E foi por um triz. No estacionamento do hipermercado, um casal de jovens, na adrenalina de comprar presentes, de comprar os presentes! Já eu saía com o meu saque, e passava obscuramente contemplando na lista o que me faltava ainda saquear e o jeep rasou a ponta da minha saia, alucinado. Não me viu. O rapaz não me viu, a mulher não me viu, iam fixos nos presentes do Natal, deviam andar às voltas no estacionamento do hipermercado há horas à procura de lugar. Sei que a partir de certa idade as mulheres se tornam invisíveis, mas a invisibilidade das pessoas no Natal é geral, é um fenómeno de massas, calha a todos. A pessoa para ser vista tem de ficar quieta e fazer de objecto. Fazer de iPhone, justamente. Não sei como, amanhem-se, arranjem maneira. As pessoas existem umas para as outras na natureza de obstáculos ao objectivo proposto que é sacar o máximo no mínimo de tempo possível. Ia a passar descansado um casal com um bebé no carrinho e tive de os avisar: “Cuidado, é Natal! Tenham atenção à criança, hoje ninguém está a salvo!”. Eles sorriram, coitadinhos. Sabemos o destino destas prendas. Pelo menos, suspeitamo-lo, quando inserimos o multibanco para as pagarmos. Ele vai deitar fora, não vai usar, tem dez iguais a este, mas é um pro forma e nós vivemos sem tudo, menos sem pro formas. Um amigo de antanho contava com pormenores sádicos o Natal em casa dele, e esse ficou-me na memória como o Natal por antonomásia: começava tudo bem, calmo, com naturalidade, à medida que o álcool e o açúcar faziam ses ravages no sangue, vinham as embirrações, as insinuações, as acusações, os ajustes de contas e antes que as pessoas deixassem de se falar umas às outras, anunciava-se que tinha chegado o Menino Jesus e distribuía-se as prendas. Reza a lenda que havia sempre uma certa quantidade (maior, menor, quem é que está a contar?) que acabava por ser ou expelida pela janela (um décimo andar das avenidas novas equivalente a um oitavo nas avenidas velhas) ou, mais tarde, em discussões privadas cujo alcance se estendia por muitas décadas, atiradas ao lixo e espezinhadas com as espinhas do bacalhau. E isto dá-lhe alegria?, perguntarão, mas a senhora é de um cinismo sem igual! Eu não quero ouvir nem mais uma palavra! Quem é que pôs esta senhora aqui? Ouvi-la faz-me mal, fica tudo negativo e negro. E eu já tenho dificuldades com o Natal, porque o meu pai…Não, não, acalme-se. Dá-me alegria porque tem a sua graça, depois ainda porque tem alguma realidade – não digo universal, mas o suficiente para generalizar alguma coisa – mas dá-me alegria sobretudo porque a minha não entra nessa categoria de famílias. A minha família é simples, discreta e quanto a festividades é qb. Não tem a Mística do Natal em Família, nem deixa de ter. O que me leva ao seu motivo, caro: estejam vivos, por favor. Em rigor, e lamento desdizer Lili Caneças, estar vivo não é o contrário de estar morto. Aristotelicamente, o contrário de estar vivo é não estar vivo. Ora, há muitas maneiras de não estar vivo não se estando realmente morto; o ente tem gradações a granel, digamos que estar vivo num campo de concentração de refugiados na Grécia debaixo de neve e embrulhado num plástico não será o mesmo que estar ao borralho em amena cavaqueira com o cunhado mais chegado na consoada algures na periferia de Macedo de Cavaleiros. E quem diz Macedo de Cavaleiros diz outra coisa qualquer. Aqui poderia elencar todas as desgraças do mundo, mas para quê? Não as conhecemos já? Não as elencam à razão de duas ou três por ano o Papa Francisco e o nosso Presidente nas suas alocuções? Isso também me causa alegria. Que as elenquem. Ficam elencadas. Então este ano é o quê? O que é que está a dar? A fome no mundo, pá, dá-me galo. Então vamos pela fome no mundo. Os migrantes afogados? A morosidade da justiça, a celeridade da injustiça? Vamos pela morosidade. Mas, dir-me-ão os que não querem ver o seu Natal a resvalar para a negatividade, que a fé tudo visita e tudo salva e que a família lá na lama da Grécia é feliz desde que esteja junta e se conta por felicíssima em simplesmente estar viva. Seu hossana é meu hossana, mê irmão. Lá está, mais uma alegria para mim. É como lhe digo, é só eu querer, e tudo são alegrias.
 
Luísa Costa Gomes
 
 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Guerra & Paz



 


A mãe no sopé da escada, deixando-se cair no degrau, chorando estupefacta sem esconder a cara, o pai ouvindo pela segunda vez a notícia. Chamadas da Metrópole a meio do dia eram quase sempre nefandas. Na altura ainda não se usava o telefone para não se dizer nada. Em Luanda estava finalmente fresco, chovera, a terra vermelha cheirava. Foi em Maio, poucos dias antes de ele fazer setenta e dois anos. Pois a esse dia não queria eu voltar.



Foi um destes portugueses construtores de impérios, apostados numa ideia de embelezamento das grandes obras, engenheiro civil, especialista nos portos de Macau e do Norte de Angola. Teve a linguagem truculenta e cheia da gente de Coimbra, ainda para mais filho primeiro de poeta satírico e repentista. Foi da geração que fez a Primeira Guerra, esteve no desastre de La Lys, como alferes, nas transmissões. Esteve em Macau a construir o porto, em Angola como Governador de Luanda, e muito mais que não sei dele. Mas quando eu nasci já trabalhava no palacete do Fomento, no Príncipe Real.  


Vou com ele e com a minha mãe passear ao Chiado. Descemos à rua do Carmo, é nas sapatarias da Primeiro de Dezembro que me oferece mais uns pares de sandalitas. Tenho-as de todas as cores, fechadas nas caixas, nunca terei pés para tanto sapato. Na loja gozo o privilégio, ao invés da gata borralheira, e tudo me serve nesse tempo. Está um dia de Primavera clássica, com seu coro de promessas, ainda reservado, embora nós nos adiantemos na leveza dos vestidos e no gelo das limonadas. Dá-me prendas, mas é ele que faz anos no dia seguinte. Até ao fim, vejo-o sempre carregado de prendas para me dar. E acabamos na pastelaria Suíça, porque nada se faz na Baixa sem imenso chantilly.


Lembro e celebro os serões silenciosos no escritório do avô. O meu lugar cativo no sofá de couro e a prancheta para desenhar. Levanto a cabeça e vejo-o a trabalhar no álbum, com a pinça, passando as folhas de papel de seda. Os selos mais bonitos, com pássaros de Angola, são ideia sua. Acabou a festa, retirámo-nos os dois para o escritório, eu para o cadeirão, ele para os selos.


Inaugurou-se hoje, ao fim de vinte anos de trabalhos, o Cristo Rei de Almada. “O mostrengo que está no fim do mar”, como lhe chamava em casa. Foi um domingo, 17 de Maio de 1959. O Cardeal Cerejeira fez discurso inflamado sobre o milagre da paz. Uma revoada de seis mil pombos, uma chuva de pétalas de rosa marcaram o carácter celestial do evento. De um avião lançou-se sobre o povo uma chuva de sacrifícios. Ao longo do ano as crianças do país fizeram renúncias, coleccionaram privações. Os mealheiros acabaram nacionalmente depositados nos presépios das paróquias, a 28 de Dezembro, que consta do martirológio como o Dia dos Santos Inocentes. Instigados pelas mestras, os meninos das escolas escreveram em pedacinhos de papel os sacrifícios que tinham feito por amor ao Cristo Rei. E agora era isso que chovia. Era o milagre da paz. Ou apenas o princípio dele.

 
Luísa Costa Gomes






 



segunda-feira, 16 de setembro de 2013

pergunto-me








 
pergunto-me

(e é uma pergunta retórica)

 

Se os homens sempre foram broncos, se agora são broncos mas têm mais visibilidade e chegam mais longe na crueldade só porque têm a tecnologia para o fazer? Este programa é obsceno e degradante, mas as famílias vêem-no e revêem-no, com delícia, para as crianças aprenderem o que é uma “brincadeira” e o que se entende por “entretenimento”… Hoje só há duas instâncias verdadeiramente pedagógicas: uma é a televisão, a outra é a vida e estão cada vez mais parecidas, infelizmente. Quando me insurjo contra esta degradação, de quem concorre por dinheiro e necessidade de exposição pública (duas razões que parecem justificar tudo), o que me espanta é que se espantem genuinamente com a minha reacção. Os concorrentes são pessoas maiores, e embora seja doloroso para elas (e não será doloroso para os apresentadores fazerem figura de alegres carrascos?) hão-de eventualmente ganhar dinheiro. Todos hão-de ganhar dinheiro. E a televisão de entretenimento é mesmo assim: prostituição justificada e generalizada. Enfim, é mesmo intrigante tudo isto. Temos de ser duros, parece ser a mensagem dominante. Matar em nós o que ainda fala pela dignidade. Ser maus. A cantar.

 
Luísa Costa Gomes
 






E não te digam ou nos digam, Luísa, que quem entra nisto são adultos livres, que deram o seu consentimento para sofrer em público. Choques eléctricos ou picadas de escorpiões para uma plateia de milhões. Milhões que não se incomodam nem sequer se interrogam. Não nos digam que isto é só um, mais um, programa de televisão, que a televisão é assim mesmo, nada que se deva levar muito a sério. Ou ainda, argumento clássico, que quem não gostar muda de canal, ninguém é obrigado a ver o que não quer. Nada disso. As pessoas vêem o que lhes mostram – e formam-se, aprendem e comportam-se de acordo com o que lhes mostram. Certamente haverá coisas piores, pois existe gente imaginativa que é paga para inventar coisas sempre cada vez mais piores. Depois, quando chegam ao cúmulo do pior, exibem-no. Na televisão, em canal aberto e horário nobre. O que mais me desconcerta e intriga? Chamarem a isto "entretenimento".

 
António Araújo
 

Em nota final: só o falar nisto e escrever sobre isto é contribuir para dar mais realidade, mais peso e mais antena a um programa que é apenas outro degrau na escada para os infernos. A perversidade é esta: quanto mais se fala nisto, mais “eyeballs” o programa terá, ou seja, maior audiência. Não se medem as razões pelas quais as pessoas vêem os programas, apenas se os vêem ou não.
 
 
 




 

sábado, 26 de janeiro de 2013

Plonk & Replonk.

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A Luísa esteve na Suíça e de lá mandou um postal de Plonk & Replonk. Não contente com isso, trouxe-me La Face Cachée du Léman um dos livros deste colectivo de criadores e editores de La Chaux-de-Fonds, Neuchâtel. Como a vida no maciço do Jura deve maciçamente jurássica, os irmãos Hubert e Jacques Froideveaux divertem-se assim, com estes détournements delirantes de imagens e postais antigos. Os cenários são típicos do universo mental francófono, em versão fin de siècle: Suíça, França, Bélgica, os ambientes de Plonk & Replonk. Humor desconcertante, culto do nonsense, ironia que não dói. Será idiota e vazio para uns, inteligente e finíssimo para outros. Ama-se ou odeia-se, conforme os gostos. O mesmo se passa com Glen Baxter, não é, Luísa?
 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Contra as smart shops.

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Passo a caminho do Teatro do Bairro e à esquerda vejo a Magic Mushroom! Discreta, mas concorrida. Um que entra apressado vem já a tirar a carteira do bolso. Que será isto? pergunto-me. Não me digam que vendem cogumelos alucinogénicos às escâncaras no Bairro Alto! Sei que sempre estivemos muito à frente em termos civilizacionais e de expansão (de tudo, agora também da mente!), mas não posso crer que não haja legislação sobre isto, que se enfie psicotrópicos pela goela abaixo assim à maluca, sem rei nem roque! De porta aberta prá rua! Estarei a alucinar?
Depois começam a aparecer as reportagens sobre as smart shops, sítios onde se vende tudo legal, giro, bem empacotado, uppers, downers, fertilizantes, para meter para a veia, para snifar, para comer, para beber… e começam a dar entrada nas urgências dos hospitais adolescentes e gente que já tinha idade para ter juízo com ataques de pânico, crises psicóticas… os psiquiatras da Estefânia e a gente ligada às toxicodependências estão perplexos. Primeiro a culpada era a mefedrona. Mas para cada substância declarada nociva e proibida, centenas saltam dos laboratórios… E toda a gente distribui às claras, toda a gente experimenta… É barato mas é um grande, grande negócio. O que acontece é que como não se sabe o que realmente contêm estas drogas, quando a trip dá para o torto, os neurolépticos que se costumam usar no tratamento das crises psicóticas pura e simplesmente não funcionam.
Então aqui vai uma ideia: porque não começar um movimento de cidadãos para, ao menos, fechar as smart shops,  já que contra o tráfico das drogas parece termos há muito desistido absolutamente de lutar?
Este rapaz sabe disto: aqui.


Luísa Costa Gomes
António Araújo

quinta-feira, 26 de abril de 2012

A nossa democracia.

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John Savio

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Provou-se mais uma vez que a democracia é prática e é saudável. Mas agora as pessoas que votam têm de compreender que só podem votar em quem devem votar ou a democracia deixa de funcionar. É um sistema assim. Alguém que, por maldade ou estupidez, vote em quem não deva votar, está a arranjar um monte de complicações a quem quer que a democracia funcione de forma prática e saudável. Para a democracia funcionar bem é essencial que os votantes votem em quem devem e não em quem querem votar. Há tratados, há acordos, há políticas, há gente a trabalhar em projectos, há quem já tenha sido pago e ainda não tenha entregue o relatório! Alterar isto é pôr em risco a democracia. É deitar a perder o que ficou estabelecido e o proceder do que está em processo. Uma democracia saudável é aquela em que nada muda e em que o Presidente da França é sempre o mesmo Presidente da França! Porque ao retirar da equação o mesmo Presidente da França (ou outro mesmo Presidente qualquer) e inserindo na equação uma variável indeterminada, ou seja, vade retro, “outro” Presidente da França, como é que a democracia vai funcionar? É um sistema político extraordinariamente prático, mas os votantes têm de compreender que nada pode mudar nunca. É muito parecido com não-democracia, mas assim é que é saudável. É apenas um processo que tem de ser mesmo assim, ou não funciona. Portanto, cuidado.

Luísa Costa Gomes

quinta-feira, 22 de março de 2012

No silêncio das galáxias.

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O progenitor de um adolescente encontra-se mais cedo ou mais tarde neste lance lancinante: sabe que tem de estabelecer regras e estipular limites, mas não sabe muito bem quais, nem como, nem até quando. Sabe que tem de apoiar sem abandonar. Sabe que as regras que estabelecer terão de encorajar a autonomia e a responsabilização. Sabe que lhe exigem que controle o incontrolável. A perplexidade é ainda agravada por um estranho fenómeno geral: quem não tem adolescentes tem sempre, em compensação, imensos conselhos a dar. A educação, principalmente a dos filhos de outrem, é tarefa que se faz com uma perna às costas. São princípios universais, revirares de olhos e encolheres de ombros. Mas para quem se encontra no tal lance, a coisa fia mais fino. Partindo do princípio de que "educar" adolescentes se baseia em princípios contraditórios, isto é, o princípio do "controlo através do estabelecimento de regras" e o princípio da "autonomia", o melhor é aplicar sempre a regra do controle até não se poder mais e então aplicar a regra da autonomia; ou seja, aplica-se a regra da autonomia quando não se consegue aplicar a outra, em virtude da resistência, corpulência ou embirrância do adolescente. Em segundo lugar, e na impossibilidade de aplicar o controlo, o melhor é estabelecer limites que não possam humanamente ser ultrapassados: em vez de exigir ao adolescente que esteja em casa à meia-noite, põe-se-lhe os euros na mão e diz-se-lhe com autoridade :"Agora não te atrevas a aparecer-me em casa antes das oito da manhã, estás a ouvir? E vens bêbedo ou não entras!". Para se ter a certeza de que a regra resulta mesmo, pode-se ir ainda um pouco mais longe e estabelecer que "nunca podes estar mais de uma semana sem dormir". À quinta rave, quando o adolescente desorbitado se prepara para sair de casa de mochila às costas, o pai tirano (ou a mãe megera) barrando-lhe a porta, grita: "Daqui não passas! Estás há cento e sessenta e oito horas sem dormir! Enquanto viveres em minha casa, fazes como eu quero: dormes pelo menos uma vez por semana". O adolescente não obedece, adormece. Sente-se, obviamente, e agudamente, a falta de uma instância de autoridade exterior absoluta; quando eles são pequeninos, a Polícia ainda funciona, por exemplo na questão da segurança rodoviária ("não te podes pendurar da janela do carro porque a Polícia não deixa!"), mas a Polícia, para os adolescentes, é até uma perspectiva excitante. Para não se ficar mal visto aos olhos do adolescente e continuar a ser um progenitor fixe e curtido, dá jeito invocar alguém ou alguma coisa. Claro quesempre Nossa Senhora, mas não sei se pega. "Vou ao concerto e volto depois de amanhã!", diz a menina de 14 anos. "Não podes!", "Não posso, porquê?". "Porque Nossa Senhora não deixa". Vamos experimentar o mesmo, mas agora com a Polícia Marítima. "Vou ao concerto e volto depois de amanhã!". "Não podes!". "Não posso, porquê?". "Porque a... Polícia Marítima não deixa...?".
            Parto sempre do princípio de que estes adolescentes são rapazes, porque o mesmo cacho de problemas com raparigas é algo de tão sofisticado que a minha mente simplesmente não abarca. Encontrei na estante, cheio de , coitado, um livro de um casal de psicólogos que criou cinco filhos (os psicólogos são pedra angular de toda esta equação). dentro traz uns exercícios práticos para lidar com o "problema". O primeiro exercício (que, aliás, não precisa de seguimento) consiste em aprender a relaxar os músculos. Quando o menino for malcriado, chegar tarde, desligar o telemóvel, e fizer tantas, tantas outras curiosas e engraçadas descobertas de coisas que nos põem fora de nós, ansiosos ou culpabilizados, dizem estes psicólogos que o progenitor deve sentar-se no sofá e começar a relaxar os músculos dos dedos dos pés, das pernas e por acima até chegar ao cerne do sistema nervoso central. Alcançado este objectivo superior, o progenitor deve imaginar, com o olho da sua mente, antes do mais, os vizinhos que têm os mesmos problemas, depois os outros bairros em que pais exasperados relaxam em sofás idênticos, e cada vez mais latamente, imaginar a cidade em que vive, a região, o país, e ir assim afastando-se, subindo às alturas serenas, em que planetas rolam desde sempre, e indiferentes, no silêncio das galáxias. E assim adormecem. Se não, parece que o Valium também é uma opção.



Luísa Costa Gomes

domingo, 15 de janeiro de 2012

António Mexia e a alteração do paradigma civilizacional.

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Com a imensa visão estratégica do espírito superior que é o seu, António Mexia trabalha – e praticamente sozinho! – para a alteração deste nosso paradigma civilizacional baseado no consumo desenfreado e na bacoca sofisticação tecnológica. Os outros gestores públicos e privados ainda não compreenderam o imenso alcance do gesto de António Mexia. É que se os preços da energia eléctrica se tornarem incomportáveis ao homem comum, ao comum lar de família, adeus ó Edison! É de volta ao caldeiro, aos prazeres simples da lareira que fumega, do braseiro que intoxica, é o regresso às energias primitivas, duras, de homem, que não são cá esta mariquice de carregar no botão! Ou arejas, ou morres! Estas sim, são energias saudáveis de carregar às costas, que é preciso cortar, e alombar, e acender, e espevitar, e enfim, reduzidas a cinzas, espalhá-las ao vento! Todas as primitivas tradições se perdiam sem o milagre de António Mexia. A gente nas serras, feita nababa, a armar ao europeu, acendia a sófaze e sentava-se de perna traçada a ver o plasma e a escorropichar os netexpressos do anúncio. A gente das aldeias, a que restava, esquecia os ofícios de antanho, o honesto lenhador, o feliz carvoeiro, ex-artistas da energia, e fazia bicha no intermarché a comprar alimentos plastificados que lhe custava a ela anos de vida e aos contribuintes o incerto rendimento que é lançado e consumido nas labaredas dos inúteis cuidados de saúde. Agora a mesma gente ajoelha junto ao fogo e bota água no caldo de urtigas, e a cena é comovente, quase aquiliniana. Está-se muito melhor assim. Isto já nós conhecemos, faz parte do nosso imaginário. É especificamente português. E nós sentimos gratidão por António Mexia, que na sua generosidade abstracta (ele tem aquecimento central, não conhece a intensidade emocional antiga das lareiras e dos caldeiros) conseguiu prever que o nosso desenvolvimento era insustentável, que o planeta não aguentava a depredação dos portugueses. Os portugueses são muito abusadores. Onde podem depredar, depredam. Onde podem devastar, devastam. Considerando a nossa tradição de séculos de pobreza, de falta de recursos, de largas proles, de limitações, de religiosidade primitiva, de superstição, de ignorância, de conformismo, ele compreendeu que Portugal, para regressar à sua autêntica natureza não pode, muito simplesmente, ter electricidade. Pobreza é fashion.
         O porta-voz dos hippies da Serra de Monchique (que após duelo com punhal contra os porta-vozes dos hippies da Serra da Lousã e da Serra do Gerês aceitou ser porta-voz das Três Serras) foi o primeiro a saudar o Grande Educador, António Mexia, dono do monopólio de Estado tornado monopólio privado (e todas as brincadeiras com a troca dos R por L são de mau gosto neste contexto). “Nós cá nas Serras já não usamos a electricidade há um ror de anos”, disse Manfred Gutter. “Quando temos frio, largamos um tigre da Malcata às canelas dos putos e corremos todos atrás deles”.


Luísa Costa Gomes

domingo, 18 de dezembro de 2011

Passear.

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Costa da Caparica. Fotografia de Luísa Costa Gomes. 

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Isto são mais uns anos e acabo a babar-me sobre as memórias de minha infância. Já tenho de fazer um esforço para que ela não me apareça toda irisada d´oiro sobre azul e a cheirar exclusivamente a pinheiros bravos. Mas tenho - e isto é objectivo - de lamentar os meninos de hoje, os urbanos e os provincianos que não podem, por razões civilizacionais, andar tão à solta por montes e vales como eu andei. Que não podem escoucear com os amigos ao ar livre sem horário e sem propósito, explorar os bosques, subir às árvores, caçar as cobras e fazer toda a casta de asneiras inocentes, sem a vigilância de um programador. Ou não fazer nada, nada senão brincar. Afligem-me estes meninos cheios de afazeres, que correm da natação para o ballet, e dali para o karaté, a capoeira, a culinária, a pecuária e tantas tantas coisas extra e cuja vida é um acumular de obrigações curriculares a horas certas. Os adultos, portentos de engenho e imaginação, procuram ansiosamente maneiras de manterem as crianças ocupadas e naturalmente, acabam por encontrá-las. Ou seja, aquilo que devia ser uma bela solução - o tempo livre - transforma-se num problema. Que farão estes meninos quando ninguém lhes organizar as horas do dia, lhes disser o que fazer com a preciosa tarde livre?
Os cínicos dirão: o mesmo que os outros todos, crianças, adultos e anciãos - sentam-se a ver televisão para sempre. E é bem verdade. Porque o tempo livre não só tem de ser engenhosamente preenchido, como tem de ser preenchido em ambientes controlados, isto é, fundamentalmente dentro de casa, ou de outras casas, como ginásios ou piscinas cobertas, centros comerciais e de diversão telhada. Porque o ambiente exterior inspira cuidados, e temores, ressuma perigos, desde a péssima qualidade do ar à ameaça multifacetada que a espécie humana representa para si própria quando na posse de automóveis e outras armas mortíferas. A rua, que devia ser o lugar da liberdade, passou a estar carregada destes perigos, quer fantasiados, quer reais, com a dificuldade acrescida de ser cada vez mais improvável conseguir distinguir com rectidão a fantasia da realidade.
         Um dia destes, quando um amigo me disse que tinha «ido a uma livraria», não percebi logo o que queria dizer. “Fui à livraria tal procurar não sei o quê e a menina disse-me (...)”. Menina, pensei? Mas qual menina? Na internet não há meninas a atender, são meninas de carregar no botão. Depois é que me ocorreu que ele estava a dizer que tinha de facto ido, de ir com pernas, a uma livraria de carne e osso, com pessoas a atender e livros nas estantes. Achei extraordinário achar extraordinário. De facto, para um número crescente de pessoas, (obviamente este “número crescente” é especulativamente crescente), “ir” significa ir mandar vir pela internet.  Sair de casa é que nunca.
E pergunta-se: mas se é tudo tão simples, se tudo na vida quotidiana tende a ser ou foi já simplificado e empacotado, das compras no supermercado ao pagamento das contas, para onde é que foi o tempo? Que é dele? Que é do tempo livre? Este é um dos grandes mistérios da cismática. Estamos a investigar o desaparecimento do tempo livre. Em minha remota adolescência, entre o final de um ano lectivo e o começo de outro, principalmente naquela transição do final do secundário para a universidade, era bem possível chegar a ter cinco meses de férias. É impossível descrever a importância pedagógica desta catrefada de meses de férias. Aprendia-se a viver, aprendia-se a ler, aprendia-se a organizar o tempo, aprendia-se a ter o tempo completamente livre. Olhava-se para o horizonte, de mão em pála sobre a fronte, e viam-se dias livres, quentes dias livres até ao infinito. É uma aprendizagem que implica esforço e disciplina. Lembro-me de passar muitas tardes sentada numa esplanada a praticar a difícil - e hoje tão menosprezada - arte do ócio. A olhar para o ar, enquanto o trabalho de maturação se ia fazendo de motu proprio. Deixar trabalhar o tempo. E enquanto ele trabalhava, nós passeávamos, sem hora certa - e, sobretudo, sem temor.

Luísa Costa Gomes

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Cristo em casa de Manuel Assunção e família.

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- Eis-me. E eis os estores...



Para onde vai um, vão todos, é o lema de Manuel Assunção e família. No caso vertente, não vão a lado nenhum, porque o homem dos estores tinha dito que vinha na quarta, não quinta, ou melhor sexta feira, e Manuel Assunção e Senhora acordam todos os dias pelo dealbar da aurora com a luz cinzenta e têm a manhã estragada. Paciência, lêem mais a Bíblia. Fazem leitura temática, catando nas Escrituras todas as passagens sobre o amor divino, todos os versículos sobre o fogo do Inferno, e as onze da manhã encontram Manuel Assunção e Senhora, ao despique, em sabatina, examinando reciprocamente os conhecimentos. Mas, com o passar do tempo, têm-lhe dado cada vez mais forte no Apocalipse.
É que se o homem não vem naquele dia, nunca mais, depois do Natal. Pára tudo no Natal. À senhora de Manuel Assunção oferecem os colegas, todos os benditos anos, na troca de prendas da festa de Natal, a mesma caixinha de Ferrero Rocher, que ela dá à Madalena, que diz : “Ah, é verdade, vocês são Testemunhas de Jeová, não celebram o Natal!”.
O homem dos estores viera há quinze dias e deixara tudo na mesma. Ficara parado a meio do quarto, com uma espécie de indignação, mista de desânimo, a olhar para as ripas encravadas em diagonal. Diagnosticou, desdramatizou. “Isto quase nem vale a pena a deslocação!”. “Mas é que nos faz imensa diferença!”, disse a senhora de Manuel Assunção. “Pois virei na quarta-feira!”, disse o homem dos estores.
E era sexta, hora de almoço, e a Sarinha lia a passagem dedicada ao Segundo Advento, tocaram à campainha, a família imobilizou-se. Seria ele? Poderiam essa noite dormir sem a ameaça da precoce madrugada? A Sarinha foi devagar (era mesmo assim, lenta) abrir a porta.  Manuel e Senhora sorriram, por cima de cavalas e batatas. “Aqui estou!”, disse o homem. E assim foi.
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Luísa Costa Gomes
(in Setembro e outros contos)