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quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Chega... de demagogia.


 
 
Na secção «Reflexões e Análises» do site do Chega vi uma «reflexão» do vice-presidente desse partido, José Dias, com o pelouro da Segurança e da Justiça, em que Dias diz, a dado passo, que as Forças de Segurança têm a «maior taxa de suicídio profissional nacional»
 Ainda não tenho a certeza se isso é verdade, mas, a crer no trabalho de Miguel Rodrigues, autor do livro Os Polícias Não Choram e chefe da PSP, a taxa de suicídio nas Forças de Segurança é, de facto, muito superior à da população em geral, quase o dobro . Mas, e sem pôr em causa essa conclusão nem menorizar esse flagelo, de modo algum, os quadros avançados por este chefe da PSP mostram uma coisa curiosa: reparem como o número de suicídios na PSP e na GNR caiu a pique em 2016 e 2017.
 
 

 

 
Em 2016, a taxa de suicídio nas Forças de Segurança foi igual à da população em geral.

Em 2017, essa taxa foi das mais baixas dos últimos dezassete anos.
Vejam o quadro, por favor, ou os dois quadros, melhor dizendo. Quadros do livro Os Polícias Não Choram, do chefe da PSP Miguel Rodrigues.
Motivos para preocupação? Sem dúvida. Mas o que diz o vice-presidente do Chega! só conta uma parte da verdade e é, como sempre, tendencioso, manipulador, alarmista. O número de suicídios nas Forças de Segurança não só diminuiu significativamente como é dos mais baixos em quase duas décadas. Porque não referiu isto o vice de Ventura? Chega… de demagogia.
 
 

domingo, 5 de maio de 2019

A morte no mundo.

 
 
 
 
Que cada um possa morrer a sua própria morte, dizia Torga. Certíssimo, mas nisto da morte há uns mais que outros. E há uns, sobretudo nós, os do Sul, que ainda dizem e julgam que são os ricos países nórdicos que têm as maiores taxas de suicídio. Puro engano. Ao ver este índice de 2019 , verificamos que a Lituânia e a Rússia ocupam os dois lugares cimeiros no número de suicidas por 100 mil habitantes, Em 5º, a Bielorrúsia, em 8º a Ucrânia, havendo uma grande representação de países da Europa de leste, ex-comunista. Entre os países da Europa ocidental, destaca-se a Bélgica (11ª posição) e Portugal surge mal, ex-aequo com a Islândia, em 33º lugar, com mais suicídios do que a Alemanha, o Luxemburgo, a Dinamarca, a Eslováquia, a Holanda, a Bulgária, a Irlanda, a Roménia. Angola está no fundo da tabela, no 131º lugar, Moçambique e, 127º, a Grécia em 126º. Onde há menos suicídio no mundo? Caraíbas. Praticamente inexistente em Granada, Barbados e Antigua e Barbuda. E, pasme-se, certos países flagelados têm baixíssimas taxas de suicídio: a Síria está na 172º posição, com 1,9 suicídios por 100k. Mas também o Afeganistão e o Iraque não estão mal. Mal está Portugal: 33º lugar dos países mais suicidários. Espanha, aqui ao lado, está muito melhor, em 77º lugar, e Itália ainda melhor, em 82º lugar, desmentindo ideias de «fraternidades latinas». Já agora, o Brasil, tão martirizado por tanta coisa, num honroso 106º lugar, a par da Albânia e da Guiné.
 

 

domingo, 19 de agosto de 2018

Vidas singulares: Unity Mitford.

 
 




        O mais espantoso nestas fotografias são as criancinhas. Quem seria elas, de aparência popular, a observar uma senhora transportada em maca e manta? Unity Mitford chegava a Inglaterra, vinda da Suíça, de onde viera, por sua volta, remetida da Alemanha, onde se tentara suicidar. Uma das célebres manas Mitford, das menos célebres das manas mais ainda assim potente, Unity foi baptizada com o nome Unity Valkyrie Freeman-Mitford, depois de nascer em 1914, ano de início de guerra. O ano de nascimento e o nome Valquíria (dado por seu avô, um devoto de Wagner) faziam prever o pior, profecia que se cumpriu. Falta dizer que os pais afirmavam que Unity fora concebida numa povoação do Ontário chamada Swastika… Pertencente à altíssima aristocracia inglesa, de uma linhagem que remontava ao século XI, Unity, como muitos aristocratas britânicos, com Eduardo VIII à cabeça, deslustrou seus pergaminhos com uma fatal atracção por Hitler e pelo nazismo. Todos lemos Os Despojos do Dia, ou vimos o filme, pelo que o facto não carece mais demonstração. Das irmãs Mitford, só uma escapou a essa sina hitleriana, e até se tomou de simpatias socialistas. Diana, a mais famosa, casaria com Oswald Mosley, líder do partido nazi britânico. Quanto a esta, a Unity, sempre foi tida por apoucada, poucochinha, o que parece ser confirmado por ter tentado o suicídio ao saber que a Inglaterra declarara guerra à Alemanha. Daí a foto da maca e manta, supra mostrada. Até dar um tiro na cabeça, em 1939, com uma pistola Walther de pequeno calibre, Unity foi amiga muito próxima de Hitler, dizendo-se até teve um filho do Führer, o que é aleivoso boato.
 
 
 
 
        Saiu agora uma biografia da moça, da autoria de David Lichtfield, que conta coisas frescas: era dada à prática sado-masoquista da auto-asfixia erótica, jogo a que se entregou com Janos Almásy, irmão mais velho de Lászlo Almásy (o protagonista de O Paciente Inglês). E participava em orgias muito promíscuas com a tropa de assalto das SS, contando o indiscreto Lichtfield que chegava a levar à meia-dúzia de soldados para o seu apartamento em Munique, onde era atada a uma cama rodeada de bandeiras nazis e se mantinha assim, toda nuinha, só com uma braçadeira nazi no braço; a tropa avançava sobre a inglesa vendada enquanto se ouviam acordes de Horst Wessel Lied, cena digna da Cavani e do seu porteiro nocturno, como bem nota um artigo recente do El País sobre esta matéria da Bretanha, tontamente titulado «La valquiria que cabalgaba com los SS». Hitler sabia dessas orgias, mas, sendo uma pessoa razoável e tolerante, tolerava razoavelmente bem os desmandos da sua admiradora indefectível que, entre outros negros hábitos, adorava trajar de negro. Em 1939, deu um tiro na cabeça, mas falhou. Regressou ao país natal, de maca e manta, onde nunca foi julgada por traição, porventura devido ao brilho do apelido. Morreu de uma meningite, em 1948, em consequência da bala que se alojou no seu cérebro fraquinho e turvo de espírito. Pouco mais há a contar. Em todo o caso, uma vida singular.
 
 

 

sábado, 9 de dezembro de 2017

Fotografia de 11 de Setembro.

 



FOTOGRAFIA DE 11 DE SETEMBRO
 
 
Atiraram-se dos andares em chamas.
um, dois, ainda alguns,
mais acima, mais abaixo.
 
A fotografia deteve-os na vida
e agora preserva-os
sobre a terra rumo à terra.
 
Cada um ainda na íntegra,
com rosto individual
e sangue bem guardado.
 
Ainda há tempo
para os cabelos esvoaçarem
e do bolso caírem
chaves e alguns trocos.
 
Ainda estão ao alcance do ar,
no âmbito dos lugares
que acabaram de se abrir.
 
Só duas coisas posso por eles fazer:
descrever estre voo
e não acrescentar a última frase.
 
Wisława Szymborska
 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

«o pior de tudo».

 
 
Fotografia de Francesca Woodman

 
 
Talvez não seja de muito bom gosto contar esta história. Mas, como se diz numa extraordinária obra da literatura portuguesa, O Diabinho da Mão Furada, «estão os gostos hoje de tão mau gosto que se inclinam mais ao que dana do que ao que aproveita.»
A história vem contada num livro de que não se falou muito, Vou-me embora. Cartas de suicidas, terrível antologia organizada por Udo Grashoff e publicada entre nós em 2006, com tradução de Maria Manuel Tinoco e chancela Quetzal.
 
Não posso continuar a viver assim.
Não há remédio. Nunca mais me hei-de recompor.
A morte é a única saída.
Já não posso ver nenhum homem, fico perturbada, agoniada.
Ninguém me deve lamentar, porque afinal eu é que sou a culpada de todo o problema.
Só tenho pena dos meus pais. Não mereciam que a filha seguisse este caminho. Gosto muito dos meus pais.
Talvez seja possível que eles não venham a saber de nada.
Talvez seja possível dizerem-lhe que eu tive um acidente mortal de automóvel ou qualquer coisa assim. Gostava que não soubessem de maneira nenhuma que me matei. A minha mãe não aguentaria, tem os nervos muito fracos.
 
Estas palavras foram escritas por Júlia C., estudante de química, 22 anos, pouco antes de se atirar de um décimo primeiro andar de um edifício. 2 de Junho de 1974, República Democrática Alemã.  
Dois dias antes, ela e uma amiga fizeram uma festa no lar de estudantes com dois colegas soviéticos, também alunos universitários. No final da noite, Júlia C. foi violada por um deles.
Naquela época, como se diz no livro organizado por Udo Grashoff, «a violação de uma alemã por um estudante soviético era, na RDA, mais do que uma tragédia privada; era uma tragédia política. A menor das críticas ao país “Grande Irmão”, a União Soviética, era uma “calúnia”». Por isso, sobre Júlia C. foram exercidas inúmeras pressões para que não denunciasse o violador. As organizações que supostamente a deviam apoiar, desde os serviços sociais às autoridades universitárias, tudo fizeram para que ficasse calada.
No dia 2 de Junho – o dia do suicídio – os dois estudantes voltaram para a Rússia. Foi praticamente no mesmo minuto em que entravam no comboio, de regresso a casa, que Júlia C. se lançou do alto de um edifício. Nesse mesmo dia, a polícia agendara uma reconstituição da cena do crime. Talvez fosse isso o que mais perturbasse Júlia C.
Júlia C. dissera à sua amiga que ter de reviver os momentos da violação era, para ela, «o pior de tudo».
 
 
 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Mishima.

 
 
 
 
 
Nos 45 anos da morte de Mishima, um livro e, sobre Mishima e esse livro, um artigo no El País, aqui.



terça-feira, 1 de dezembro de 2015





impulso!

100 discos de jazz para cativar os leigos e vencer os cépticos !

 

# 77 - ALBERT AYLER


Fotografia de Jacques Bisceglia
 

 

 
Ninguém sabe o que se terá passado entre a noite em que Albert Ayler atirou o saxofone contra a televisão e desarvorou de casa, e o momento, vinte dias depois, em que foi reconhecido no cadáver pescado nas águas do East River de Nova Iorque. O relatório da autópsia conclui em morte por afogamento, mas como é deste estofo que são rendilhadas as lendas, de Novembro de 1970 até hoje persiste a especulação e a intriga. Que o seu corpo acusava 19 facadas, segredam uns, ou que tinha um buraco de bala na nuca, asseveram outros, ambos hesitando se foi a polícia ou o FBI, urdindo contra o que chamavam de “radicalismo negro”. Que, na verdade, o encontraram amarrado ao lastro de uma jukebox, e os culpados tanto podiam ser os Black Panthers, porque Ayler se desviara da paixão revolucionária, como a Mafia, porque se recusara a tocar música ligeira. Que estava deprimido, não só com o esgotamento nervoso do seu irmão Donald, mas também porque a mãe o culpava, por tê-lo atraído para os demónios do jazz. “Drogas”, alvitrou Gary Peacock numa entrevista em 1998.
Como de costume a explicação mais prosaica arrisca ser a mais provável – Albert Ayler suicidou-se. Chegado aos 34 anos, após a consagração em 1964 com “Spiritual Unity”, que o descomprometia com a tradição do jazz de forma ainda mais completa do que os paladinos do free, a inflexão de Ayler rumo a uma música simples e primitiva, além de não o ter popularizado, alienou os seus admiradores e levou a etiqueta Impulse! a cancelar-lhe o contrato. Ter-se-á atirado borda fora do ferry para a Estátua da Liberdade, lastimou em 1983 Mary Parks, que fora namorada, talvez musa, poeta e cantora em várias obras de Albert Ayler.
Esta morte ignóbil, e mistificada pelo véu da controvérsia e da incompreensão, corresponde em absoluto à vida musical de Ayler. Pode-se mesmo considera-lo a grande figura trágica do jazz, género musical que sempre teve tanto de dramático como escasseou notoriamente em tragédia, no sentido que ela tem de predestinação, onde o herói na própria tentativa de escapar à morte se aproxima dela, e em que as acções e os feitos prenunciam essa fatalidade.
Em meia-hora, “Spiritual Unity”, com um trio de saxofone tenor sem piano – isto já é um manifesto – depõe o que ainda restava de escalas, compassos, acordes e pautas, num jazz que se queria “free” destas coibições. Tempo suficiente para Albert Ayler cometer uma revolta sem quartel e de 180º. Num flanco repudiava as esgotadas derivações do bebop, abdicando da progressão harmónica, que era a sua matriz. Noutra trincheira, contraditava os mandarins da música contemporânea de índole europeia, que do alto do seu ascendente, como é típico das vanguardas, aquiesciam um ouvido esmolar e complacente ao jazz. O poeta Philip Larkin, jazzófilo convicto, que embora saudoso do swing era capaz de ouvir e perscrutar o que não gostava, apesar de lhe atribuir uma originalidade gótica, comparou a acústica de Albert Ayler à de um violoncelo raspado por uma galocha húmida; e mesmo ao ponderado crítico Gary Giddins ela lembra-lhe guinchos de almas penadas.
 
 
 
Love Cry
1967 (2011)
Impulse! / Verve – 5334699
Albert Ayler (saxofone tenor e alto, voz), Donald Ayler (trompete), Alan Silva (contrabaixo), Milford Graves (bateria), Call Cobbs (harpsicórdio)
[A Impulse! tem editado “Love Cry” em conjunto com “The Last Album”. Pelo preço de um, fica-se com dois.]
 
O que para estes foi um nadir, outros entenderam como um apogeu, equiparando Ayler a Cecil Taylor, Ornette Coleman e Archie Shepp. Mas “Spiritual Unity” é muito do seu tempo. Escutado 50 anos depois, o disco reúne condições para ser sobretudo o símbolo de uma época, das suas contradições, pulsões, empolamentos e ambiguidades, do que para prevalecer como um clássico, o qual, por natureza, é intemporal.
“Love Cry”, editado em 1967, foi bastante menos celebrado pelos críticos coevos e pelos adeptos geracionais, que esperavam encontrar Albert Ayler num quadrante musical e foram topá-lo noutro. A decepção tem diversas causas: a música do saxofonista era agora menos explosiva e mais (muito!) repetitiva, e este decréscimo de ferocidade parece expô-lo como um instrumentista de técnica rudimentar. É um equívoco habitual: a rudeza é aceitável se vier envolvida nas labaredas do arrebatamento, senão dir-se-á dela que é falha de sofisticação. Todavia Albert Ayler oferece as suas ideias com maior sinceridade, coerência e, até, clareza em “Love Cry”. Despejado o jazz das concepções musicais, ou a “tralha conceptual” segundo os rebeldes; despido das camadas harmónicas que a tradição nele foi envernizando; revolvidas as suas pedras melódicas basilares – sobra o quê? Sobra aquilo que Ayler quis retomar desde a fonte original as raízes fundas e compridas, como as do eucalipto, da música negra americana, no que tinham de primevo, primário, bruto e mesmo telúrico: os blues do delta do Mississippi, a soul da pobreza urbana e o gospel espiritual, palavra que Ayler estimava acima de todas.
Este propósito de “Love Cry”, que na essência é incompleto, ficou deveras inacabado com a interrupção da vida de Albert Ayler – foi o destino.
 
 
José Navarro de Andrade
 

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Novo Secretario Universal Commercial Portuguez.

 
 
 
 



«A morte de Joaquim Lourenço foi um suicídio em forma de renúncia à vida, prolongado nas cedências, demorado no tempo, sofrido entre o que desejou ser e as recusas que recebeu, entre os limites do mundo definido do seu nascimento e o espaço infinito das suas probabilidades de escolha.»
(Leonor Xavier, Botafogo, 1989, p. 169).





segunda-feira, 19 de maio de 2014

Hip-Hope.

 
 
 
 



 
         Dizem os jornais de há dias que a Direcção-Geral de Saúde elaborou, pela primeira vez, um plano de prevenção de suicídios. Ao que parece, o número subiu recente e vertiginosamente. A DGS fala de uma «necessidade premente» de criar um «plano de prevenção», que é coisa que regra geral nunca dá em nada. Segundo os dados mais recentes, em 2011 houve 1.012 suicídios em Portugal. Culpa da crise, talvez. Mas, bem ou mal, há quem se dê ao trabalho inverso da nossa DGS: ensinar técnicas que facilitam o suicídio. A intenção não é necessariamente maléfica: já que alguém quer pôr termo à vida, que o faça da melhor maneira. Que cada um tenha o direito a morrer a sua própria morte, já dizia Torga, bardo telúrico. Todos se recordam quando foi publicado em França Suicídio. Modo de Usar, de Claude Guillon e Yves Le Bonniec. O livro suscitou uma polémica danada, creio que até foi proibido na sequência de uma vaga suicida que por lá passou. Entre nós, foi dado à estampa em 1990 pela Antígona, sem suscitar alaridos nem indignações. Ainda bem. Mas, para quem não quiser gastar os 5 euros que o livro hoje custa, mais portes de envio da Wook, e como a vida está pela hora da morte, há sempre o instrutivo Lost All Hope, um site pateta  que nos ensina a matar-nos, que é coisa que, além de dar uma trabalheira danada, não é assim muito asseada, e quem cá fica é que tem de limpar. Escusa portanto o Sr. Durkheim de falar em «suicídio altruísta» pois todo o suicídio é egoísta, pelo menos nisso: quem cá fica é que as paga. O Lost All Hope recomenda bibliografia e tudo mas, como é bimbo, não cita o livro de Claude Guillon e Yves Le Bonniec. Nem cita sequer os grandes clássicos, com David Hume à cabeça (aqui). Não recomendo nadinha o Lost All Hope, até porque o incitamento ao suicídio é crime punido por lei penal. À cautela, o Lost All Hope tem também um manual de prevenção, com delírios fantásticos como «a regra dos três dias». Que reza assim: se estás a pensar suicidar-te hoje, não te precipites; esperas até quarta, quinta-feira e, nessa altura, se a intenção autodestrutiva se mantiver muito forte, então vai em frente. Para os potenciais suicidas, haveria outra regra mais prática e produtiva: em vez de se matarem de vez, porque não traduzem Offences against one's self ? É um clássico dos clássicos, um texto extraordinário de Jeremy Bentham que, ao fim de séculos, ainda não foi traduzido entre nós, e que até interessa para a discussão sobre homossexualidade, etc. Traduzi-lo é uma boa alternativa. O facto de este ensaio de Bentham, segundo creio, não estar por cá traduzido levará certamente Vasco Pulido Valente a fustigar a ignorância dos «indígenas»; ou o digníssimo Unamuno a lamentar Portugal e o seu pueblo de suicidas. Nada disto interessa. Vamos lá traduzir o texto de Bentham, dando-se alvíssaras a quem o fizer, com garantia de publicação aqui no Malomil. E, já que estamos em domínios de negros humores, convém recordar, no remate final, que a múmia de Jeremy Bentham, por vontade deste, está preservada na Universidade de Londres. Ao que parece, primeiro restauraram o corpo e só depois a cabeça, que mereceu tratamento à parte. Em certas ocasiões, colocam-no a ele, Bentham, ou a ela, a sua múmia, à mesa das reuniões académicas, sendo qualificado como um membro «present but not voting». A morte é um lugar estranho.


A múmia de Bentham, muito quietinha


 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O mundo é um lugar estranho.




Los Angeles, 11 de Abril de 2014.
Freeway 105 cortada: suicídio iminente

O grupo junta-se para uma selfie galhofeira

O grupo, com o suicida ao fundo, na rede de arame




Por razões que não vêm ao caso, tropecei no outro dia com a expressão «iconomania», cunhada no longínquo ano de 1956 por Günther Anders, como nos diz Hans Belting no grandioso livro A verdadeira imagem.
         Anders escreveu antes desta vaga avassaladora dos tumblr, do Instagram e das selfies. A notícia tem alguns dias, mas mantém actualidade. No passado mês de Abril, um potencial suicida ameaçou lançar-se para a 105 Freeway, em Los Angeles. A estrada foi encerrada durante mais de três horas, enquanto decorriam as negociações dissuasoras. Para matar o tempo, houve quem se lembrasse de tirar uma foto galhofeira, uma selfie canibalesca. Retrato de grupo com suicida ao fundo, poderia ser o título. A iconomania levada ao extremo da desumanidade. O suicida desistiu do seu intento, acabou detido. O grupo ficou com uma recordação da morte iminente. Se o homem se atirasse, ainda teria mais graça e piada! Que giro. Já houve também quem tirasse uma selfie logo após ter tido um desastre de avião. Escrever o quê, mais? O mundo é um lugar estranho.






quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Baby Suicida - 2.

 
 
 
 

 
 
 
Estávamos ontem a falar de um tema importantíssimo: a capa do álbum Gilt, da banda Machines of Loving Grace.
Há quem diga que existem parecenças entre a imagem de Robert C. Wiles, The Most Beautiful Suicide, de 1947, e uma fotografia de Enrique Metinides. Há também quem diga que Katy Perry se inspirou na imagem de Wiles para a feitura do seu último álbum. Falámos disto ontem.
 

Machines of Loving Dance
Gilt
1995


 
 
Pois, no caso dos Machines of Loving Grace, a capa do álbum Gilt não se inspira: praticamente reproduz, ou no mínimo recria, a fotografia de Robert C. Wiles.
A fotografia de Wiles é esta:
 
 
Robert C. Wiles
Nova Iorque, 1 de Maio de 1947
 
 
 
          A história, narrada muito bem aqui, conta-se mais ou menos assim. Havia uma rapariga bonita, nascida em 20 de Setembro de 1923 em Berkeley, na Califórnia. Era a sexta dos sete filhos de Vincent e Helen McHale. Em 1930, a família McHale mudou-se para Washington, D.C., e, pouco depois, a mulher, Helen, saiu de casa. Divorciaram-se, o pai ficou com a custódia dos filhos e foram para Tuckahoe, no Estado de Nova Iorque. Foi aí que Evelyn («Ebby») estudou. Após terminar o liceu, juntou-se ao Women’s Army Corps, no Missouri. Mais tarde, viria para Nova Iorque, para casa do irmão e da cunhada, e arranjou emprego como guarda-livros de uma empresa. Conheceu, namorou e tornou-se noiva de Barry Rhodes, um antigo G.I. que estudava no Lafayette College, em Easton, na Pensilvânia. Tinham até casamento marcado, para Junho de 1947.
 
 
 

Evelyn McHale

 
 
 
 
Não se sabe bem o que se terá passado em 30 de Abril. Evelyn foi visitar o noivo à Pensilvânia, era o 24º anivrersário do rapaz, e, segundo este diria mais tarde, despediu-se com um beijo de felicidade, como qualquer rapariga que estivesse prestes a casar-se. Ou não. O certo é que Evelyn regressou a Nova Iorque a 1 de Maio, alugou um quarto no Governor Clinton Hotel e aí escreveu um bilhete suicidário.
 
O pai, Vincent McHale
 
O Governor Clinton Hotel
 
 
Depois, antes das 10 e 30 da manhã, comprou um bilhete para o miradouro situado no 86º andar do Empire State Building. Por volta das 10h40, John Morrisey, um polícia de giro que por ali andava, viu um lenço branco de senhora a esvoaçar lá de cima. Instantes depois, ouviu um barulho surdo e viu uma multidão a correr na Rua 34. Evelyn tinha saltado, caindo em cima de um automóvel das Nações Unidas, mais precisamente de uma limusina Cadillac ali estacionada.
Do outro lado da rua, um jovem estudante de fotografia, Robert C. Wiles, viu a multidão aglomerada em torno do Cadillac e tirou várias fotografias, cerca de quatro minutos depois do impacto fatal. Uma delas imortalizá-lo-ia. Aquela, ali em cima, que ocupou uma página inteira da edição de 12 de Maio de 1947 da Life Magazine. Acompanhada da legenda: «At the bottom of the Empire State Building the body of Evelyn McHale reposes calmly in grotesque bier, her falling body punched into the top of a car».        
 
 
 
 
 
 
 
         Reparem, de facto, na expressão serena da rapariga, que parece estar a dormir tranquilamente. Sem sangue, sem dor, uma placidez imensa. Faltam-lhe os sapatos, é certo, mas mantém a maquilhagem perfeita e as duas luvas. Uma das mãos segura um colar de pérolas. As feições de Evelyn, pelo menos assim vistas, parecem belas. A imagem transmite uma estranha sensação de glamour. O carro é um Cadillac, ainda que desfeito. Mas as curvas das sombras na fotografia quase dão a impressão de um leito, em que Evelyn adormeceu por um instante eterno, indiferente aos gritos da multidão em seu redor. A paleta de cinzentos, negros e brancos, associada ao granulado da imagem e à beleza de Evelyn, contribui para o impacto que esta fotografia teve. Tão grande que tornou o seu autor imortal – mas devorou-o. Explico-me: ao buscar mais imagens de Robert C. Wiles na Internet, só encontrei esta. A morte de Evelyn foi a suma sorte de um aspirante a fotógrafo, mas também a sua morte. É tal o poder desta imagem que, depois dela, Wiles nada mais fez que se visse (pelo menos, não encontrei).
         Entretanto, no cimo do Empire State, o detective Frank Murray encontrou o casaco de Evelyn, dobrado no parapeito do miradouro, e uma caixa de maquilhagem com várias fotografias de família. E também uma carteira de bolso preta, no interior da qual estava a nota derradeira:
“I don’t want anyone in or out of my family to see any part of me. Could you destroy my body by cremation? I beg of you and my family – don’t have any service for me or remembrance for me. My fiance asked me to marry him in June. I don’t think I would make a good wife for anybody. He is much better off without me. Tell my father, I have too many of my mother’s tendencies.”
A irmã identificou o cadáver e, cumprindo o seu último desejo, Evelyn foi cremada.
A fotografia, como se disse, apareceu como «Picture of the Week» na Life, cujo original pode ser visto aqui. Constaria também de várias edições da colecção The Best of Life.
 
           Devido à fotografia muita coisa se fez. Há uma página no Facebook, claro (https://www.facebook.com/EvelynFrancisMcHale), com alguma informação familiar, e até um blogue com dados bastante duvidosos (como é que sabem que Evelyn inspirou fundo antes de saltar?). O Flickr, evidentemente, exibe recriações da morte de Evelyn, todas dispensáveis, como esta:
 
 

 
A fotografia de Wiles seria colorida artificialmente, com um resultado final aceitável:
 

 
 Em 1963, Andy Warhol apropriou-se da imagem e fez dela a serigrafia Suicide (Fallen Body), integrada na sua série Morte e Desastres, que vai de 1962 a 1967.
 
 
Andy Warhol
Suicide (Fallen Body)
1963
 
 
 
A torrente de recriações da imagem nunca mais parou, e seria fastidioso estar a maçar-vos com elas. Atrai muitos cultores do macabro, do sobrenatural dark, gente assim, até no Brasil. Outros, como este marreco, ficam boquiabertos e começam a tecer considerações dispensáveis. Outros ainda fazem chalaça, mas não com Evelyn. Curiosamente, num site da esquerda revolucionária e anarquista chega a questionar-se se o namorado não seria austero e autoritário…
Além do vídeo que acima mostramos, místico e apalermado, temos também este, bastante afoleirado:
 
 
Ou ainda este, em registo fantasmagórico:
 
 
 
Namring Charles fez a letra de uma música, com o título «Where Are You Going Evelyn McHale?», mas não encontrei rastos sonoros, só mesmo o poema:
 

 
 
Os Red Sun Rising, sejam lá eles quem forem, têm uma música chamada Beautiful Suicide, mas é tanta a gritareira quem nem percebi se tinha a ver com este caso. Pelo nome «Beautiful Suicide» responde muita coisa no YouTube, no género anime negríssimo, que nada tem a ver com a moça morta. O mesmo não se dirá da música que os Parenthetical Girls compuseram em 2010, e que se chama «Evelyn McHale».  
 
 
         Nas letras, há um ensaio interessante de Max Page, publicado no NY Times em 2006, mais centrado no edifício do que no destino trágico da sleeping beauty . Temos também um conto brevíssimo – e de bradar aos céus – de Jason Sout, publicado em 2008.
         As artes plásticas continuam a entusiasmar-se com a imagem de Wiles. Em 2012, por exemplo, fizeram uma desgraça como esta, com os dizeres «Always love someone»
 

 
         Como se não bastasse, em Dezembro do ano passado foi publicado este trabalho a pastel, de Guy Denning:
 
 
Guy Denning
"the most beautiful suicide (Evelyn McHale)"
2013
 
 

 
         O artista inglês Christopher Trowbridge assinou esta tela. Apreciemo-la, porque já foi vendida:
 

 
         Doutro quilate, gostemos ou não, é a instalação de Matthew Day Jackson intitulada «Nude and Descended». Também do ano passado, coloca um cadáver ou esqueleto no tejadilho de um Lincoln Continental.
 
 
Matthew Day Jackson
Nude and Descended
2013
 
 
         Igualmente doutro quilate, gostemos ou não, é esta colagem californiana, mescla de Marylin e Evelyn:
 
 
 
 
 
         Do domínio puramente especulativo, raiando o mau gosto, é pedir 10 dólares por uma t-shirt com a fotografia deWiles:
 

    
       Mais delicado e respeitoso, ainda que desastroso na legenda «You had never looked so happy», é um desenho que encontrei aqui, numa coisa que não percebi bem o que era, mas é alemã.
 
 

Ou esta outra, igualmente a carvão, cuja nacionalidade desconheço:
 

 
 
Loucura total é existir uma necrópole fotográfica de carros no estilo Ponton, onde incluem este como uma reminiscência da queda de Evelyn McHale:
 

 
 
De tudo o que se tem produzido em torno e acerca de The Most Beautiful Suicide (nem sei quem deu este título à imagem) merece realçar Drawing Restraint 17 – Evelyn McHale, da autoria de Matthew Barney (aqui, por ex.).
 


Matthew Barney
Drawning Restraint 17 - Evelyn McHale
2011

 
 
  Pelo mundo da moda e publicidade, houve uma campanha de Neiman Marcus que colocou Drew Barrymore em cima de um automóvel, aparecendo logo quem dissesse que se tratava de uma alusão encriptada à imagem de Evelyn McHale. Parece exagero: se de todas as vezes que uma rapariga se deita num automóvel houvesse uma alusão ao suicídio de 1947, não haveria Salão Auto que resistisse, naquela alarvidade clássica e machista de colocarem mulheres seminuas ao lado ou por cima de veículos ligeiros.   



 
Terminemos com coisas sérias. Além do Codex 99, que reúne a melhor informação sobre o caso, o blogue de Anthony Luke, como sempre, dá notícias rigorosas e precisas. Corrige, por exemplo, a notícia do NY Times de 2 de Maio de 1947, que dava 20 anos de idade a Evelyn, quando, na verdade, tinha 23 anos.
 
The New York Times
2 de Maio de 1947
 
 
Outro blogue sério, o Iconic Photos, coloca a hipótese de o caso e a imagem serem referidos no filme Stranger Than Fiction, de 2006. Permito-me discordar, já que o diálogo desse filme fala de uma rapariga suicida, cujo corpo jazia envolto em sangue – o que não sucede aqui. Discordo ainda mais da alusão às telas de Tamara de Lempicka. O autor do Iconic Photos diz que a imagem lhe faz lembrar os quadros de Lempicka, que captou em cores vivas o glamour dos anos 30. Haverá semelhança na aparência de Evelyn, mas é epidérmica. A beleza, se assim se pode dizer, da fotografia de Wiles está na atmosfera suavemente cinzenta, na serenidade da suicida. Não é questão de desdenhar Lempicka, mas não parece existir qualquer semelhança na substância real das coisas.
Estamos quase a acabar o nosso périplo pela beleza trágica da imagem de Robert C. Wiles. Em 2011, a Christie’s leiloou Drawing Restraint 17– Evelyn McHale, da autoria de Matthew Barney, a que atrás fizemos referência. O artista doou a obra para ser vendida em leilão, creio que foi licitada por 7.000 libras, que reverteram a favor da Women for Women International. Não vou discutir se a peça valia o dinheiro e – que fique claro – nada disto tem a ver com a venda dos quadros de Miró. O trabalho de Matthew Barney é do melhor que se tem feito em torno da morte de Evelyn McHale. O resto são quase tudo recriações pop. Em todo o caso, Barney tem projectos cujo interesse e qualidade merecem as maiores reservas, como Drawing Restraint.
Sendo a abordagem mais erudita  – como no caso de Barney – ou mais popular – como em quase todos os outros casos –, procurei fazer um levantamento, aliás não exaustivo mas bastante ilustrativo, do que tem sido feito em torno do suicídio de Evelyn McHale. O propósito, uma vez mais, consistiu em mostrar a infinidade de pastiches, apropriações e recriações que a actual cultura de massas propicia e favorece Não se trata, sublinhe-se, de um atentado à memória de Evelyn, pois aí teríamos de incluir também, nessa linha despeitadora da sua pessoa, a fotografia de Robert Wiles.
VVVVVAo lançar-se, aos 23 anos, do alto do Empire State Building, Evelyn McHale não desejou uma morte privada, ainda que tivesse deixado escrito que queria ser cremada. Desejou também que nenhum membro da sua família visse o seu corpo – desejo que não pôde ser atendido porque a irmã teve de reconhecer o cadáver, e porque a imagem de Wiles encheu uma página inteira da Life Magazine. Mas, seguramente, Evelyn McHale, quando se matou aos 23 de idade, nunca imaginaria o impacto que o seu gesto teve. Não adivinhava que, por perto, estava um estudante de fotografia. Se não se tivesse matado, não teria hoje a fama que tem. Se tivesse casado e assentado, proliferando filhos e netos, jamais inspiraria a campanha promocional de um disco de Katy Perry. Nada disto ocorreria se Evelyn McHale, num dia 1º de Maio, não se tivesse lançado dos céus abaixo. Se fez bem, se fez mal, isso foi lá com ela e seus demónios íntimos. Em boa verdade, the rest is silence.
 
 
António Araújo