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terça-feira, 15 de abril de 2025

António Cirurgião: memórias literárias, musicais e políticas.





António Cirurgião é, além de amigo, um colaborador regular e já antigo deste Malomil. Textos preciosos, preciosos. Agora, pelas Edições Vercial, de Braga, dois livros da sua autoria, ambos à venda na Amazon:   

 

Memórias Literárias e Musicais

https://www.amazon.com/dp/B0F2SNBR1R


Memórias Políticas

https://www.amazon.com/dp/B0F1Y8HJS4

 

                                Parabéns ao Autor – Boa Páscoa para todos.


 


quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Génese do meu livro O “olhar esfíngico” da Mensagem de Pessoa.

 


 

Foi nas férias de verão de 1984. Por norma, tal como tinha vindo a acontecer nos anos anteriores, deveria ter ido passar essas férias a Portugal, onde, como de costume, se encontravam à minha espera a família, os amigos, as bibliotecas, os arquivos, as livrarias, os alfarrabistas e as esplanadas. Porém, como no dia 14 de dezembro de 1983 fora surpreendido por um maciço ataque cardíaco de que tive de ser reanimado quatro vezes – duas na sala de emergência e duas na unidade de cuidados intensivos - e que me obrigara a passar mais de um mês hospitalizado no Saint Mary’s Hospital, em Waterbury, Connecticut, fui compelido a fazer outros planos. Dado que nesse verão de 84 ainda me encontrava em estado de convalescença, decidi ir passar as ditas férias a Gez, uma comuna francesa, na região administrativa de Auvémia-Ródono-Alpes, do Departamento de Aín, localizada no sopé dos Montes Jura, a cerca de dez quilómetros do Colo de la Faucille e a dezasseis quilómetros de Genebra, Suíça. E aí me instalei, no chamado “País de Gez”, no confortável chalé campestre, de vistas deslumbrantes sobre os Alpes Franceses, onde residia o meu antigo aluno e especial amigo Armand F. Pereira, alto funcionário do BIT (Bureau International du Travail), em Genebra, o qual me acolheu e tratou com uma hospitalidade fraterna.

E por quê em Gez, e não em Lisboa? Porque em Gez poderia continuar tranquilamente a minha longa convalescença, ao ritmo prescrito pelos médicos, ao passo que em Lisboa seria de tal maneira apaparicado pelos membros da família, que, em vez de repouso, ver-me-ia forçado a viver sob uma pressão contínua.

Como um dos remédios recomendados pelo meu cardiologista consistia em evitar acarretar coisas pesadas, além da roupa de vestir, reduzida ao mínimo, coloquei dentro de uma pequena bolsa de mão, ao lado do passaporte, do bilhete de avião e dos medicamentos, um exemplar de cinco obras de Fernando Pessoa, publicadas pela Ática: Poesias de Fernando Pessoa, Poemas de Alberto Caeiro, Odes de Ricardo Reis, Poesias de Álvaro de Campos e Mensagem por Fernando Pessoa.

Tendo, em mais de um semestre, incluído nos meus cursos sobre poesia portuguesa Mensagem de Fernando Pessoa, e tendo verificado, com óbvia frustração, que, por mais esforços que fizesse e mais voltas que desse à cachimónia, acabava sempre por concluir que os alunos e eu nunca conseguíamos penetrar no  âmago do misterioso e hermético poema, perguntei-me se não seria conveniente aproveitar esse verão de “viajante sem bagagem”, ou, melhor dito, de viajante sem biblioteca, para tentar, como aconselha Rabelais na introdução a Gargantua, cravar o dente famélico e guloso na medula substancial dessa obra de Pessoa. E foi assim que nessas férias de convalescença dos ataques cardíacos só existiu um livro para mim: Mensagem de Fernando Pessoa. E foi assim que me pus a ruminar sobre o significado desse poema épico de Pessoa, escrevendo notas no próprio livro ou num pequeno caderno que me acostumei a trazer comigo, durante as escassas horas do dia que não eram passadas a repousar, a dar longas caminhadas pelos campos, a apanhar caracóis que o meu amigo Armand e os seus visitantes adoravam e eu detestava; a dar passeios turísticos de barco pelo icónico Lago Genebra ou Lago Lemano, coleccionando palacetes de escritores famosos e “petits châteaux” encantadores, a espelhar-se, ufanos, nas águas límpidas e azuladas do lago; a passar tardes inteiras em Lausanne, a quarta maior cidade da Suíça, apreciando música de rua, produzida por jovens alunos dos conservatórios, vestidos à hippie, regalando os olhos na arquitectura antiga e moderna, e visitando a Catedral de Notre Dame, os museus e as casas onde viveram os poetas românticos Shelley e Lord Byron e o romancista Ernest Hemingway, e onde o poeta T. S. Elliot escreveu Waste Land  (“by the waters of Leman I sat down and wept”); a contemplar, fascinado, a majestade de Mont Blanc, sentado numa esplanada de Chamonix, saboreando uma chávena de café ou de chá; a visitar vilas feéricas nos Alpes Franceses, tais como Évian – les Bains e Annecy, a Veneza francesa, assim chamada por via dos seus mágicos canais.

Como também tinha levado comigo a minha Olivetti portátil, fiel companheira e confidente de todas as minhas viagens, até ao advento da computadora, quando regressei aos Estados Unidos já trazia comigo, escrito à máquina, um minúsculo e tímido esboço do que um dia viria o ser o meu livro sobre Mensagem de Pessoa.

Vieram depois novos cursos ministrados por mim sobre poesia portuguesa, de que constava Mensagem de Pessoa; vieram as consultas de dicionários de símbolos e de monografias sobre simbolismo; vieram leituras de livros sobre arte poética, emblemas e crítica literária; vieram leituras de obras sobre rosacrucianismo, hermetismo, mitologia e psiquiatria; vieram leituras das Trovas de Bandarra e da História do Futuro do Padre António Vieira e o diálogo de Pessoa com esses autores; vieram depois pesquisas sobre o inegável diálogo entre Mensagem de Pessoa e Os Lusíadas de Camões; vieram depois pesquisas sobre o insofismável diálogo entre Mensagem de Pessoa e a Bíblia; vieram depois conjecturas sobre o sentido patente ou o sentido latente de determinados vocábulos ou sintagmas de poesias de Mensagem; vieram, por fim, as infalíveis alterações, adições e subtracções.

Chegou o dia em que me senti impelido a falar desse meu projecto de crítica literária à minha colega Marie Naudin, professora de Francês na minha universidade e leitora assídua e entusiasta de literatura portuguesa. Após uma rápida leitura do esboço do meu futuro livro, a única observação que ela me fez teve a ver com a ausência quase total, nos meus comentários provisórios às respectivas poesias de Mensagem, de uma breve referência biográfica aos figurantes históricos, tais como reis, rainhas, vice-reis, duques, infantes, navegadores e conquistadores. Que para um leitor que, como ela, ignorava praticamente toda a história de Portugal, essa breve referência biográfica seria de suma importância, não só para uma melhor compreensão dessa poesia em particular, mas também da obra, no seu conjunto. 

O meu estudo de uma análise crítica de Mensagem continuou a crescer e a tomar forma de gente e na minha segunda estadia como professor visitante na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, no curso de verão de 1987 decidi dar um seminário a alunos de pós-graduação exclusivamente sobre Mensagem de Pessoa. Devo, porém, confessar que, para minha desilusão, as achegas esperadas não foram famosas, para não dizer que foram praticamente inexistentes, mas o meu empenho em levar a cabo e aperfeiçoar o projecto literário foi tal que, na conclusão do seminário, o livro começava a aproximar-se da sua versão final.

Chegado a esse ponto, ainda longe de pensar numa hipotética publicação, comecei a sentir-me suficientemente à vontade para participar com excerptos desse estudo em congressos literários. De entre esses congressos, apraz-me destacar dois: Iberia & Mediterranean, organizado por Zultán Rózsa e Íldikó Puskás, em Budapeste e Debrecen, na Hungria, entre 26 e 29 de agosto de 1989, e IV Congresso Internacional de Estudos Pessoanos, organizado por Almir de Campos Bruneti em Tulane University, New Orleans, Louisiana, entre 17 e 19 de novembro de 1988. Intitulei a conferência proferida em Budapeste, “O ‘Mar Português’ da Mensagem de Fernando Pessoa”, publicada nas pp. 245-259 do volume das actas, e a proferida em New Orleans, “Os profetas do Quinto Império da Mensagem”, publicada nas páginas 63-83 do volume das actas.

António Quadros, que, tal como eu, participou com uma comunicação no IV Congresso Internacional de Estudos Pessoanos, em New Orleans, terá ficado tão bem impressionado, modéstia à parte, com a minha comunicação que, ao saber que se tratava do excerpto de um livro acabado, me pediu que lhe desse a honra de publicá-lo nas Edições do ICALP, na secção dirigida por ele, chamada Identidade: Cultura Portuguesa. E nessa mesma ocasião António Quadros, de uma gentileza exemplar, insistiu também comigo para que escrevesse uma obra para a secção da Biblioteca Breve, criada e dirigida pelo Eng. Beja Madeira, que, aliás, era o Director das Edições do ICALP.

E foi assim que nasceu o meu livro, intitulado A Sextina em Portugal nos Séculos XVI e XVII, publicado em 1992, com uma tiragem de 4000 exemplares. E foi assim que, no ano do Senhor de 1990, saiu à luz, com uma tiragem de 3000 exemplares, o meu livro intitulado O “Olhar Esfíngico” da Mensagem de Pessoa.

 

Manchester, Connecticut, USA

11 de dezembro de 2024

António Cirurgião

 

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

A década prodigiosa.

 



        É um livro volumoso, de mais de 600 páginas, porque, no fundo, no fundo, constitui um três em um: (1) memórias de juventude, contadas com contenção e reserva (por exemplo, quanto à sexualidade); (2) retrato de uma década, com abundância de factos e números; (3) almanaque revivalista, cozinhado com os ingredientes certos para o paladar dos mais nostálgicos. E a primeira coisa a dizer é que o autor soube conjugar e entrelaçar muitíssimo bem estes três planos, o que, convenhamos, não era tarefa fácil.

          Há o risco de este livro ser tomado, ou ser tomado apenas, como uma colectânea de referências pretéritas (a situações, a bens de consumo) para alimentar o mercado da nostalgia, quando a intenção do autor, segundo creio, foi muito mais vasta do que isso (daí nem citar sequer as Cadernetas de Cromos de Nuno Markl).

Como há o risco de julgar que o autor pretendeu teorizar sobre uma década que qualifica de «prodigiosa», o que também não julgo ter sido o seu propósito (daí não ter mencionado uma brincadeira que escrevi em forma de livro, Da Direita à Esquerda. Cultura e sociedade em Portugal dos anos 80 à actualidade).

Três notas apenas:

- este é um retrato da primeira geração que viveu a chegada em força da sociedade de consumo a Portugal (as memórias de outros tempos falavam de bailaricos e festas da aldeia, esta prende-se muito mais, e não por acaso, com aquilo que gastávamos, comíamos, usávamos);

- em segundo lugar, este é um retrato da primeira década de democracia plena, ou quase (o Conselho da Revolução só foi extinto em 1982), sendo curioso observar como a democratização e o consumismo correram a par, lado a lado, em convívio íntimo – e explicam em larga medida as vitórias eleitorais de Cavaco;

- em terceiro lugar, por fim mas não por último, este livro revela, com copiosos exemplos, o ritmo alucinante como, em poucos anos de meados da década de 80, se alteraram radicalmente os nossos hábitos culturais e de consumo. Em três, quatro anos, passámos dos ténis Sanjo à Adidas, o que teve profundíssimas implicações sociais e culturais, mas também políticas, ou essencialmente políticas. De semelhante, só a queda do Muro em Berlim. E, de facto, o que em Portugal ocorreu nos anos 80 foi também a queda de um muro ou, se quisermos, o derrubar das últimas pedras de uma ditadura tingida de preto e branco. O juízo do autor relativamente à «década prodigiosa» será talvez complacente ou benévolo em excesso, exagerado até, e, claro, naturalmente ditado pelas circunstâncias próprias das suas origens, condição social e dos lugares onde cresceu. Mas que foi assim como ele conta, ai isso foi.

 

                                                                          António Araújo        


quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Como me fiz um homem inteiro, feito de todos os homens e que vale por todos eles.

 


 

Antes de se tornar no Papa do existencialismo, em grande romancista e dramaturgo, teatrólogo brilhante, ativista de grandes causas, Jean-Paul Sartre foi criança, teve uma infância marcante, viveu num ambiente familiar tratado com desvelo e atribui àquela atmosfera de livros o gosto em tornar as palavras que leu na sua própria escrita. As Palavras, romance autobiográfico dado à estampa poucos meses antes de lhe ser atribuído o Prémio Nobel da Literatura, é esse estupendo exercício.

Escavando a memória, libertando recordações, vai dar-nos essencialmente o que foi a sua infância no meio dos livros, no recato do meio familiar e como a leitura lhe definiu o modo de escrever, na pessoa em que se transformou. Dirá mesmo que “comecei a minha vida como provavelmente a irei terminar: no meio dos livros”. E adianta: “No escritório do meu avô, havia-os por toda a parte; era proibido limpar-lhes o pó, exceto uma vez por ano. Ainda não sabia ler e já reverenciava essas pedras erigidas; direitas ou inclinadas, robustas como tijolos nas estantes da biblioteca ou nobremente espaçadas em áleas de menires, sentia que a prosperidade da família dependia delas. Tocava-lhes às escondidas para honrar as minhas mãos com a sua poeira, mas não sabia bem o que fazer delas e todos os dias assistia a cerimónias cujo sentido me escapava: o meu avô – normalmente tão desajeitado que a minha mãe lhe abotoava as luvas – manuseava esses objetos culturais com uma destreza de oficiante. Vi-o mil vezes levantar com um ar ausente, dar a volta à mesa, atravessar a divisão em duas passadas, pegar num volume sem hesitar, sem se dar tempo de o escolher, folheá-lo ao voltar para a poltrona, com um movimento combinado do polegar e do indicador.”

Muito se fala da Alsácia Lorena, o avô domina fluentemente o alemão e o francês. A biblioteca é volumosa, a vida social era fluente, como Sartre observa: “Frequentávamos pessoas ponderadas que falavam alto e com clareza, baseavam as suas certezas em princípios sãos, na sageza das nações, e não desdenhavam distinguir-se do comum apenas por um certo maneirismo da alma, ao qual eu estava perfeitamente habituado. As visitas despediam-se, eu ficava sozinho, evadia-me desse cemitério banal, ia juntar-me à vida, à loucura dos livros. Bastava-me abrir um para nele redescobrir esse pensamento inumano, inquieto, cujas pompas e trevas ultrapassavam o meu entendimento, que saltava de ideia em ideia, cem vezes por página, e eu deixava-o seguir, atordoado, perdido.”

Para gozar na plenitude As Palavras, de Jean-Paul Sartre, Livros do Brasil, 2024, é preciso aceitar este passeio na memória até uma biblioteca do início do século XX, dela extrair a formação de uma mentalidade, a descoberta de que foi nesta infusão de leituras que nasceu o prazer da escrita. O menino Sartre é puxado pela mãe e pelo avô, da leitura que hoje se designa por infato-juvenil, um autêntico mundo de aventuras, a estudar em casa é depois inscrito no liceu onde se descobre que era demasiado avançado para a sua idade. Vai olhando à volta os adultos da sua família, confessa que e o seu corpo formavam um estranho casal, é educado no catolicismo até que a fé, um dia, se esvaiu. Teve as suas doenças e foi mimado nas suas convalescenças. Deus o angustia, e Dele passa a descrer: “Se Deus me livrasse das aflições, eu teria sido uma obra-prima assinada; seguro da minha parte no concerto universal, teria aguardado pacientemente que Ele me revelasse os seus desígnios e a minha necessidade. Eu pressentia a religião, aguardava-a, era o remédio. Se me a tivessem recusado, eu próprio a teria inventado. Que não ma recusassem: educado na fé católica, apreendi que o Todo-Poderoso me criara para a Sua glória: era mais do que aquilo que eu ousaria sonhar.”

Educado nesta atmosfera de gente cumpridora dos preceitos culturais burgueses, vai-nos deixando registos esplendentes desta sociedade antes da Primeira Guerra Mundial. O teatro, por exemplo:

“Os burgueses do século passado nunca se esqueceram do seu primeiro serão no teatro e os seus escritores encarregaram-se de nos relatar as circunstâncias. Quando o pano subiu, as crianças julgaram-se na corte. Os ouros e as púrpuras, as luzes, as pinturas, a ênfase e os artifícios punham algo de sagrado até no crime; no palco, viram ressuscitar a nobreza que os seus avós haviam assassinado. Nos entreatos, a estratificação das galerias oferecia-lhes a imagem da sociedade; foram-lhes mostrados, nos camarotes, ombros nus e nobres vivos.“

Aprendeu a ler, sente-se um beneficiário do amor familiar, é nisto que, surdamente, o vai minando a epopeia da escrita. A segunda parte de As Palavras é em si própria a génese da sua aventura na escrita, ele vai descrevendo as sinuosidades em todas estas tentativas dos seus queridos juvenis, a mãe orgulhosa com estes primeiros escritos, o avô mais cético. Em retrospetiva, faz a sua confissão:

“Há alguns anos, fizeram-me notar as personagens das minhas peças e dos meus romances tomam as suas decisões bruscamente e em crise, que basta um instante, por exemplo, para que o Orestes das Moscas conclua a sua conversão. Sem dúvida: é que os faço à minha imagem; provavelmente, não tal como sou, mas tal como quis ser (…) À falta de me amar, fugi para a frente; resultado: amo-me ainda menos, essa inexorável progressão desqualifica-me incessantemente aos meus olhos; ontem, agi mal, visto que era ontem, e hoje pressinto o julgamento severo que farei incidir sobre mim amanhã.”

E dá-nos uma despedida que é a sua assumida condição humana posta em palavras:

“Durante muito tempo, considerei a pena como uma espada, agora conheço a nossa impotência. Não importa: faço, farei livros; é preciso que o faça; servem para alguma coisa, apesar de tudo. A cultura não salva nada nem ninguém, não justifica. Mas é um produto do homem: este projeta-se nela, reconhece-se nela; apenas esse espelho crítico lhe oferece a sua imagem (…) Lancei-me por inteiro à obra para me salvar por inteiro. Se arrumo a impossível Salvação no armazém, que resta? Um homem inteiro, feito de todos os homens que vale por todos eles, e por quem valem todos os outros.”

Um monumento autobiográfico no topo da grandeza da escrita. 


                                                                            Mário Beja Santos

 


sexta-feira, 26 de abril de 2024

Os novos inquisidores e exorcistas do Portugal pós-abrilista.

 

 

      

 

           Dentro do contexto do meu encontro no Palácio Foz com o Secretário dos Serviços de Informação, Pedro Feytor Pinto, algumas semanas após o 25 de Abril, não posso deixar de referir um episódio grotesco, ocorrido nessa tarde no belíssimo átrio do dito Palácio, episódio de que, por mero e feliz acaso, fui testemunha ocular e auricular, enquanto aguardava o momento do encontro.

          Sob as lentes sôfregas e atentas das câmaras de um canal francês de televisão, reuniram-se nessa tarde de primavera festiva umas duas ou três dúzias de pseudoartistas - pintores, escultores e outros espécimes das artes plásticas –, enquanto os autênticos artistas portugueses, alguns ex-exilados como eles, estavam nos seus ateliers a fazer obra honrada, honesta, patriótica e relevante para o novo Portugal.

          Depois de uma prolongada e acesa discussão, à guisa de planeamento e de ensaio geral, e depois de um longo e meditabundo intervalo, os pseudoartistas, abusiva e vaidosamente autoproclamados representantes do egrégio grémio das artes plásticas portuguesas, acercaram-se da estátua de Salazar, togado, erguida no meio do átrio, formaram um círculo, e, movendo-se lentamente, um pouco curvados, em torno da estátua, em ritmo de cortejo fúnebre e em forma de bailado de bruxas goyescas, começaram a representar uma espécie de coro falado, de que recordo perfeitamente o estribilho, ou, melhor dito, a antífona, por ter sido repetido ad nauseam, em modo de salmodia, sem a ressonância etérea e mística, claro está, que a verdadeira salmodia, entoada em música gregoriana ou canto-chão, imprime na alma dos cantores e dos ouvintes e os faz levitar: “a arte fascista / faz mal à vista”; “a arte fascista / faz mal à vista”; “a arte fascista / faz mal à vista.”

          Depois dessa representação lúgubre e funérea, que se prolongou por cerca de uma hora, sob os comentários picarescos e sarcásticos de um número razoável de funcionários públicos que trabalhavam no Palácio Foz e que, sorrateiramente, espreitavam da varanda e das janelas, comentários, repito, em que sobressaíam, sussurradas sotto voce, por medo de represálias, frases como estas: - “ide trabalhar, seus mandriões; ide ganhar o pão, seus parasitas; ide cortar essas melenas e rapar essas barbaças; ide tomar banho e lavar essas fuças; deixai a estátua em paz, que não vos fez mal nenhum”.

          Claro que estes dichotes eram proferidos de maneira a que os pseudoartistas e “os autoproclamados representantes do egrégio grémio das artes plásticas portuguesas” os não ouvissem. Ninguém queria ser apodado de fascista e de salazarista nem arriscar-se à perda do emprego, por meio de um saneamento sumário, como estava de moda no Portugal pós-abrilista. Mas desnecessário é dizer que nos rostos daqueles honestos e modestos funcionários públicos, desde os contínuos às senhoras da limpeza, se lia o desejo de levantar bem alto a voz do bom senso para fazer saber àquela cambada de energúmenos, encapuçados à maneira dos irmãos das confrarias que participam nas procissões do Senhor dos Passos ou nas procissões da Semana Santa de Sevilha, que se ocupasse em actividades mais construtivas e mais consentâneas com os nobres objectivos proclamados e habilidosamente propagandeados nos múltiplos manifestos programáticos da Revolução dos Cravos.

          Como ia dizendo, depois de uma longa lengalenga soturna e macabra, repetida mil vezes, ad nauseam, para benefício da televisão francesa, os pseudoartistas, “autoproclamados representantes do egrégio grémio das artes plásticas portuguesas”, guedelhudos e barbudos, desdobram cerimoniosamente um enorme pano roxo e cobrem com ele a estátua togada de Salazar, fazendo com ela o que se costuma fazer com os crucifixos e com as estátuas dos santos das igrejas católicas, entre a quinta semana da Quaresma e o Sábado de Aleluia.            

          Terminada essa cerimónia grotesca e fúnebre, os pseudoartistas plásticos do novo Portugal abandonaram o átrio do Palácio Foz, no meio de gargalhadas de mau gosto, com o coração contente e a consciência tranquila por, segundo eles, novos inquisidores e iconoclastas, haverem praticado um acto altamente meritório e patriótico. Tinham profanado e dessacralizado a pacífica estátua de um homem morto; eram heróis revolucionários; felicitavam-se uns aos outros por haverem tido a coragem de praticar um portentoso feito de dimensões épicas – como diria um dos exorcistas, guedelhudo, barbudo e de dentes nicotinados, em mau Francês, à Mário Soares, para francês ver ... e ouvir, pois, volto a frisar, a lúgubre cerimónia, de cariz iconoclástico e exorcista, foi profissionalmente filmada por uma equipa de televisão francesa.

 

Manchester, CT

22 de Abril de 2024

António Cirurgião

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Porventura o testemunho mais eloquente sobre a guerra colonial e o depois.

 


Porventura o testemunho mais eloquente sobre a guerra colonial e o depois,

Palma de ouro para a literatura nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril

 

 

Carlos de Matos Gomes, escritor que usa o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz, autor do mais importante romance da literatura da guerra colonial, inverte as regras do jogo, nada de equidistâncias, vem-nos confidenciar o que naquela guerra colonial onde ele percorreu Angola, Moçambique e Guiné perdera todo e qualquer sentido, daí ter participado, desde a primeira hora, na formação do núcleo do MFA na Guiné, aquele que, na manhã do dia 26 de abril, com a representatividade de todos os ramos das Forças Armadas, depôs o então comandante-chefe, o primeiro sinal que foi dado no território para abertura de conversações com os insurgentes que já tinham declarado unilateralmente a independência; desvela a sua intimidade, interroga-se sobre as causas que o tinham conformado, aos 24 anos, no posto de capitão comandante de uma companhia de tropas especiais, a fazer aquela guerra, onde se sentia literalmente o intruso, e onde descobrira, que o colonialismo estava vivo e bem operante; combate ao lado de rodesianos, descobrirá depois do 25 de Abril que há um acordo secreto entre o Estado Novo e as forças do Apartheid…

É uma dobadoira de confidências de um combatente valoroso, condecorado com duas cruzes de guerra, que nos vai envolver com o mundo da sua infância, como chegará à academia militar, os sonhos que guarda. A Guiné é crucial, para ela se ofereceu voluntariamente, acabará como autoridade no Batalhão dos Comandos Africanos, assiste a uma etapa superior da africanização da guerra, considera que Spínola foi até onde a sua natureza lhe permitiu, um general destemido que descobriu que não havia nenhuma solução militar para um conflito onde os nacionalistas tinham um pé firme no território, eram beligerantes e ao nível do combate no terreno possuíam melhor armamento, isto até 1973, aí as coisas mudaram de figura. Matos Gomes acompanha de 1972 a 1974 a trepidação do conflito, recorda os acontecimentos subsequentes ao assassínio de Amílcar Cabral e ao conjunto de operações de maio de 1973, haverá um quartel totalmente cercado no Norte da Guiné, Guidage, pôs-se em movimento uma operação de nome Ametista Real para aliviar a pressão, que teve sucesso. “O Batalhão de Comandos Africanos sofreu 10 mortos, 22 feridos graves e 3 desaparecidos. Entre os feridos, o capitão Folques, que conseguimos trazer. E provocou 67 mortos, entre os quais, segundo refere uma informação obtida da República do Senegal, uma médica e um cirurgião cubanos e quatro mauritanos.”

E há outros dados significativos: “Durante o mês de maio de 1973, as forças portuguesas sofreram 63 mortos, 269 feridos e um prisioneiro; o PAIGC realizou 166 ataques, ocupou uma base militar, sede de um comando operacional, Guileje, efetuou 36 emboscadas, 12 ataques contra aeronaves e um contra embarcações, implantando 105 minas, das quais 66 foram acionadas por militares portugueses.” O descontentamento militar está em fermentação. Costa Gomes e Spínola acordam em junho em trocar espaço por tempo, ninguém tem ilusões de que tudo se vai agravar, é preciso encolher o dispositivo militar. “A situação aconselhava ao retraimento do dispositivo militar português, que deveria ficar com todas as unidades aquém da linha geral rio Cacheu-Farim-Fajonquito-Paunca-Nova Lamego- Aldeia Formosa-Catió, para evitar o aniquilamento das guarnições de fronteira. Esta solução de último recurso tem sido apresentada como prova de que, no seu regresso a Lisboa, Costa Gomes considerou a situação da Guiné como controlável e o território defensável; no entanto, ela é a clara admissão de que as forças portuguesas abdicavam da posse de boa parte do território da Guiné e das suas populações para se concentrarem no reduto central. A soberania portuguesa seria assim apenas formal, militar e politicamente indefensável. O Governo português sujeitava as Forças Armadas a uma situação humilhante e o país a uma situação de vexame internacional.”

Dá-nos a sua versão do nascimento do MFA, descreve a Guiné nos primeiros meses de 1974, o que foi o 26 de abril em Bissau e em toda a Guiné, o memorialista desembarca em Lisboa em junho de 1974, tem o PREC à sua espera, tudo contado com algumas pitadas de humor, a relação forte que estabeleceu com Jaime Neves, o encaminhamento para o 25 de novembro, não é dúbio nem se mostra atarantado, aderiu à esquerda revolucionária, não guarda mágoas nem pôs em salmoura quaisquer traumas, desfia as suas considerações sobre o processo político, dizendo-se solista da sua própria orquestra. É chamado ao Conselho Superior de Disciplina do Exército, entra como réu, sai absolvido. “Existia um MFA ao qual eu já não pertencia, um país que seguia o seu novo rumo e eu via-me no rasto da espuma que ele deixava.” Deixa gravado que acreditou no poder popular e que numa hora de descaminho que ele se afastou.

A firmeza das suas ideias compagina-se com a firmeza de como escreve, não descura a aprendizagem do dever e da solidariedade. “A história da minha geração fez-se ao redor da fogueira da guerra. O dilema da minha geração incluía sempre a minha decisão sobre a guerra. A guerra surgia como um fenómeno que atingiu Portugal porque ocorrera uma tempestade no mundo. Como as invasões francesas, ou a peste bubónica. Portugal defendeu-se da intempérie. Neste caso, Salazar não conseguiu preservar Portugal das turbulências históricas, como conseguira na Segunda Guerra Mundial, e a sua costela de camponês levou-o a defender à sacholada o que entendia ser a sua propriedade. Esta era ainda, nos anos 90, a narrativa sobre a guerra. A dificuldade em a desmontar era tanta que essa guerra nem tinha designação, além da antiga “Guerra do Ultramar – um conceito, o do Ultramar, que tanto fora utilizado pelos liberais como pelo Estado Novo, que a partir de 1951 alterara a designação de colónias para províncias ultramarinas”.

É caloroso na amizade e despede-se de nós com um parágrafo esplendente:

“Num tempo de obediências e corrupções, num tempo de sombras e homens sombrios, num tempo de funcionários, de gente que não dá ponto sem nó, que nunca faz o que deve sem perguntar o que ganha com isso, eles, os meus, pertencem a uma casta de seres humanos que nos servem de matriz. Sementes raras, que por vezes dão frutos ásperos, mas apaixonantes.”

Tenho dúvidas que possa surgir um testemunho mais vigoroso sobre o arco histórico e o dilema de uma geração, a que também pertenço.


                                                                                           Mário Beja Santos









 


sexta-feira, 21 de abril de 2023

A minha celebração do 25 de Abril.

 




    Falar em pormenor da minha participação no processo revolucionário português desencadeado pelo golpe de estado de 25 de Abril de 1974 é difícil, em virtude da gravidade e melindrosa sensibilidade da matéria, em virtude da complexidade e da extensão dessa participação, e, sobretudo, em virtude da escassez de documentação pertinente (sim: tive comigo essa documentação, mas, por cautela e a conselho de coconspiradores, que  se diziam superiormente informados, fui praticamente impelido a destruí-la, o que hoje sinceramente lamento). Em vista disso, tocar-se-á apenas naqueles aspectos que, em meu modesto entender, parecem revestir maior relevância, para além de estarem mais profunda e indelevelmente gravados na memória.

          E, sem mais preâmbulos, vamos ao relato.

     Animal político, português da diáspora, sempre com a imagem da velha Pátria entranhada na mente e no coração, há muito que me acostumara a despertar ao som do noticiário transmitido pela rádio, especificamente pela emissora de Hartford da NPR (National Public Radio). E foi ao “som do noticiário transmitido pela rádio”, no meu “sempre velho e sempre novo” Grundig, o primeiro objecto de algum valor e muita estimação que comprei nos Estados Unidos, juntamente com a Enciclopédia Britânica, em Inglês, que, na manhã de 25 de Abril de 1974, despertei, no meu apartamento de Storrs, no Estado de Connecticut. E o que ouvi pôs-me em delírio. Um grupo de jovens capitães, dizia o locutor, sem derramar uma gota de sangue, derrubara o governo ditatorial de Marcello Caetano (e de Salazar, naturalmente), com quarenta e oito vagarosos, penosos e pesados anos de duração, e prometera solenemente implantar um regime democrático em Portugal.

          Ouvida a auspiciosa notícia, sentei-me ao piano e toquei A Portuguesa, com a maior emoção. Em seguida, peguei do telefone e chamei o Dr. Adriano Seabra Veiga, meu amigo, meu médico e Cônsul Honorário de Portugal, em Waterbury, estado de Connecticut, e, ébrios de orgulho, celebrámos com lágrimas de alegria a libertação de Portugal. Nas aulas desse dia, a primeira coisa que eu dizia aos meus alunos é que Portugal, o país que me dera o berço, era finalmente uma nação livre. E nos corredores e nos escritórios dizia a mesma coisa aos meus colegas.

          No dia seguinte, sabendo da atenção e da assiduidade com que eu sempre tinha acompanhado a política portuguesa, desde que fora contratado para professor de Espanhol e de Português, na Universidade de Connecticut, em Setembro de 1969, fui convidado pelos dois principais jornais da capital do Estado de Connecticut - The Hartford Times e The Hartford Courant - para lhes dar entrevistas sobre a chamada "Revolução dos Cravos", em Portugal, entrevistas em que manifestei o meu júbilo inenarrável por um acontecimento que eu tão ardentemente desejara e por que tanto tempo ansiosamente esperara e suspirara.

          Dizer que foi com o maior entusiasmo e intensidade que passei a viver a revolução portuguesa é desnecessário. Todos os dias assistia aos noticiários internacionais da televisão e todos os dias lia The New York Times e comprava com a maior regularidade os jornais portugueses que chegavam pela TAP aos Estados Unidos no próprio dia em que eram publicados, dada a diferença de cinco horas entre Portugal e a costa leste dos Estados Unidos, onde eu vivia e continuo a viver. E, embora não tivesse planos para me deslocar nesse Verão a Portugal, a primeira coisa que fiz foi telefonar a uma agência de viagens e marcar passagem de avião para o dia a seguir à conclusão dos exames finais do segundo semestre na minha universidade.

          Os exames acabaram, as provas foram corrigidas, as notas foram dadas e eu tomei o primeiro avião da TAP a caminho de Lisboa, onde aterrei no dia 22 de Maio de 1974 e donde regressei aos Estados Unidos no dia 5 de Julho.

          Chegado ao aeroporto da Portela, a primeira coisa que fiz foi procurar um cravo vermelho. E como, para surpresa e desilusão minha, não havia cravos à venda no aeroporto, ao contrário do que as notícias que me chegavam diariamente pela imprensa, pela rádio e pela televisão, me tinham induzido a crer, dirigi-me a um soldado fardado e pedi-lhe que fizesse o favor de me presentear com o cravo que ele tinha espetado na ponta da baioneta. E o soldado deu-me o cravo, com um sorriso nos lábios, gesto que eu agradeci e retribuí com idêntico sorriso.

          De cravo vermelho na lapela do casaco, saí do aeroporto e tomei um táxi. Quando o motorista me perguntou pelo destino, eu disse-lhe que se dirigisse ao Marquês de Pombal e que daí me levasse até ao fim da Avenida da Liberdade. Uma vez lá chegados, o motorista perguntou-me onde queria que me deixasse, ao que eu respondi que subisse a Avenida da Liberdade e que depois me levasse ao Campo Grande.

          Ao acabar de proferir estas palavras, o motorista de táxi, meio perplexo, olhou para mim de uma forma estranha e perguntou-me se eu tinha muito dinheiro para desperdiçar. Respondi-lhe que não e expliquei-lhe a razão por que tinha descido e subido a Avenida da Liberdade. Tinha esperado durante tantos anos pela libertação de Portugal, que queria celebrá-la simbolicamente, apenas chegado ao meu país de origem, país que trazia sempre gravado na mente e no coração, mesmo que tivesse optado pela aquisição da nacionalidade americana, acontecida no primeiro de Maio de 1967, por conveniências cívicas e profissionais.

          Após haver passado uns momentos com minha irmã, filha da caridade, no seu convento, Casa Central de São Vicente de Paula, na Avenida Craveiro Lopes, tomei um táxi para o Sabugo, uma pequena aldeia entre Belas e Pero Pinheiro, do concelho de Sintra, onde vivia um irmão meu, com a esposa, os três filhos e a minha mãe. A todos encontrei em casa, com excepção de meu irmão, que se encontrava preso no Forte-Prisão de Caxias, desde o dia 26 de Abril.

          Não constituiu para mim grande surpresa o ver que a apreensão de minha mãe e de minha cunhada pela sorte de meu irmão não era tão grande como seria de esperar, noutras circunstâncias. É que elas, da mesma maneira que eu e o povo português, em geral, tinham sido levadas a crer, a julgar pela habilidosa e manhosa propaganda de que diariamente se faziam eco os meios de comunicação social, ferreamente manipulados pelos mandarins do novo regime, que se tratava de uma espécie de estado de asilo político para altos funcionários públicos, legionários, ministros, secretários e subsecretários de estado, altas patentes militares e grandes empresários, até ao momento, que surgiria num futuro muito próximo, dizia-se falsa e falaciosamente à boca cheia, através de uma comunicação social controlada e censurada, em que se evaporasse definitivamente uma certa fúria popular contra esses e outros servidores do velho regime político.

          Tratava-se no fundo, como me tinha sido dito pelos novos donos do poder, e como voltaria a ser-me frequentemente repetido, no futuro, de proteger esses cidadãos contra possíveis represálias por parte de meia dúzia de fanáticos e de energúmenos, maldosamente atiçados em surdina por elementos do PCP (Partido Comunista Português) e de outros partidos políticos radicais de esquerda e por muitos representantes marxistas do MFA (Movimento das Forças Armadas).

          Após o almoço, minha mãe, minha cunhada, meus sobrinhos e eu dirigimo-nos ao Forte-Prisão de Caxias, para ver se conseguíamos visitar o meu irmão. Que não era possível: que nesse dia não havia visitas; que os prisioneiros estavam de quarentena - foi-nos dito por um militar fardado, barbudo, guedelhudo e de metralhadora em punho, postado desleixada e preguiçosamente ao lado de um tanque carrancudo e ameaçador, a uns bons metros do portão do Forte-Prisão.

          Mediante tal resposta, comecei por dizer que tinha chegado dos Estados Unidos, na manhã desse mesmo dia, com uma única finalidade: a de visitar meu irmão na prisão. E como o militar ainda continuasse a dizer-me que não era possível efectuar visitas nesse dia, tirei do bolso dois recortes de jornal, publicados na cidade de Hartford, capital do Estado de Connecticut, nos Estados Unidos, com entrevistas minhas, dadas no segundo dia a seguir à revolução, no dia 26 de Abril, portanto, como foi referido anteriormente.

          Quando verificaram que nessas entrevistas eu celebrava em termos superlativamente encomiásticos a "Revolução dos Cravos" (o título de uma das entrevistas era assim: "The most beautiful coup d'état of the century"), os zelosos e fanáticos guardiães dos carcereiros e dos encarcerados do Forte-Prisão de Caxias, apearam-se momentaneamente do pedestal em que se tinham alcandorado, retiraram todas as objecções e, a título de excepção, permitiram-me, assim como a toda a minha família, uma rápida visita a meu irmão.

          Depois de termos passado por entre grades e soldados barbudos e guedelhudos, armados de iradas metralhadoras, chegámos a uma sala onde nos mandaram esperar. Passados momentos, acompanhado de dois soldados, também fortemente armados, chegou meu irmão. Separavam-nos espessas e ameaçadoras grades de ferro e grossos vidros, à prova de bala, e tornava-se impossível abraçarmo-nos. Mutuamente fizemos o gesto do abraço fraterno. E eu, ingenuamente, e na melhor boa fé, dei-lhe a entender, por gestos, que lhe queria oferecer o cravo que levara comigo, mas que não sabia como poderia dar-lho. Lembrei-me então que poderia pedir a um soldado que tivesse a bondade de lho entregar por mim. Fiz esse pedido e o soldado entrou no recinto em que se encontrava meu irmão e entregou-lhe o cravo. E a visita terminou, decorridos escassos e fugitivos minutos.

          Essa visita foi o doloroso prelúdio de outras visitas, durante o resto dessa minha estadia em Portugal e durante outras futuras estadias, por ocasião das férias de Natal e de verão, visitas que viriam a mudar de destino, que não de finalidade, à medida que meu irmão andou, como outros prisioneiros políticos portugueses, de Pilatos para Caifás, quer dizer, de prisão para prisão, passando do Forte-Prisão de Caxias para a Penitenciária de Lisboa, da Penitenciária de Lisboa para o Forte-Prisão de Peniche, do Forte-Prisão de Peniche para o Estabelecimento Prisional de Monsanto, e do Estabelecimento Prisional de Monsanto finalmente para a liberdade, depois de um julgamento perfuntório, com louvores do juiz, uns vinte e oito meses mais tarde, após o encarceramento. Encarceramento puramente discricionário, facto de que eu - e todos os que tivessem olhos para ver - viria a ter provas irrefutáveis, à medida que o tempo passava.

          Foi por ser testemunha ocular desse procedimento, por parte dos vários governos que se foram formando e caindo, que eu comecei a repensar a Revolução de Abril e que fui concluindo, pouco a pouco, com demasiada lentidão, infelizmente, devido à minha proverbial ingenuidade, que não era essa a revolução com que eu poderia continuar a identificar-me, com o entusiasmo e o fervor com que me identificara com ela nos primeiros tempos. Si parva licet componere magnis (Se é lícito comparar as coisas pequenas com as coisas grandes), também eu diria, amargurado e triste, com Ortega y Gasset, perante o malogro que foi a Segunda República Espanhola (1931-1939), por cujo advento ele valente e denodadamente pugnara: “no es esto, no es esto.”

          Tinha eu regressado aos Estados Unidos e meu irmão continuava na prisão, à espera de uma acusação formal que nunca chegava, porque afinal não existia causa-crime para se poder fazer essa acusação.

           Um belo dia, por fins de Novembro de 1974, resolvi escrever uma carta ao Presidente da República Portuguesa, já então o General Costa Gomes, pedindo-lhe que mandasse proceder ao julgamento de meu irmão, se achava que ele tinha cometido algum crime, ou então que o mandasse pôr em liberdade. Era assim que se agia nos países civilizados e genuinamente democráticos - dizia eu nessa carta. E era assim que estava exarado na Carta das Nações Unidas, de que Portugal galhardamente se orgulhava de ser um dos países signatários, a partir de 1955.

          O tempo passava e de Lisboa não chegava qualquer resposta à minha carta. E foi assim que, tendo sido convidado pelo Embaixador de Portugal às Nações Unidas, Professor Veiga Simão, e pelo Cônsul Honorário de Portugal, em Waterbury, a representar a comunidade luso-americana do meu Estado, Connecticut, por ocasião do discurso do Presidente de Portugal, General Costa Gomes, nas Nações Unidas e da recepção dada por ele à comunidade portuguesa nos Estados Unidos, no Hotel Astoria de Nova Iorque, levei comigo uma cópia dessa carta e, no momento em que o cumprimentei, fiz questão de lha mostrar, de lhe dizer por alto do que se tratava e depositá-la nas mãos de um dos seus assessores. Só passados uns três meses é que recebi uma resposta a essa carta, do punho de um tal Capitão Geada. Resposta muito vaga, pelo que se referia à sorte de meu irmão, prisioneiro político, mas muito concreta pelo que se referia ao meu empenho pelo triunfo da revolução portuguesa, como constava dos recortes de entrevistas dadas por mim a prestigiosos jornais dos Estados Unidos, recortes que eu tinha enviado, em anexo à cópia da carta que escrevera ao Presidente da República Portuguesa, General Costa Gomes.

 

                                                                                           António Cirurgião

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Viveu o máximo dos horrores do Holocausto, convida-nos à reconciliação com a vida, sempre com alegria.

 




 

O mínimo que se pode dizer dos apelos que um dos maiores psicoterapeutas do seu tempo aqui nos deixa é que não há vivência de pleno sofrimento onde não se possa vislumbrar o milagre do sentido. Como escreve o bispo auxiliar de Braga no prefácio, “Reconciliar-se com a vida significa buscar o sentido, particularmente na vivência da tríade trágica, da condição humana: culpa, sofrimento e morte. Frankl contrapõe uma tríade salvadora de valores: trabalho/ação, experiência/relação, atitude/oblação”. É uma leitura a que não nos podemos furtar, este Dizer Sim à Vida Apesar de Tudo, por Viktor E. Frankl, Editora Pergaminho, 2021.

Frankl foi o introdutor da logoterapia, o que quer dizer que o impulso primário de qualquer um de nós assenta na vontade de sentido. Como observa ainda o prefaciador da obra: “Este sentido não se inventa, mas descobre-se: numa obra, num amor, numa tarefa a realizar. No fundo, cada um tem de perguntar: o que é que a vida quer de mim? Em última instância, viver significa assumir a responsabilidade de encontrar a resposta correta para os problemas que a vida coloca e cumprir as tarefas que ela continuamente aponta a cada pessoa.”

Note-se que este renomado cientista irá escrever estes textos no regresso da sua vida pelo inferno dos campos de concentração, regressado a Viena de Áustria aguardavam-no as mais temidas notícias, perdera a família no Holocausto. Superou o desespero, a anomia, o fatalismo. Chega a dissecar as razões que levam ao suicídio, casos de perturbação, de descrença no sentido de continuar a viver, e responde que a vida é de certo modo um dever, uma grande e única obrigação, uma alegria que tem de surgir espontaneamente, a felicidade é o resultado do cumprimento daquilo que se chama dever, e que ele ao longo de todos os seus trabalhos procurou definir. E explana: “Não é apenas através dos nossos atos que podemos atribuir sentido à vida. Na medida em que respondemos com a consciência da responsabilidade às questões colocadas por ela, podemos satisfazer os desafios da existência não apenas como atuantes, mas também como pessoas capazes de amar, isto é, entregando-se através do amor ao belo, à grandeza, à bondade.” E, mais adiante: “Damos sentido à vida através de ações, mas também através do amor – e, finalmente, através do sofrimento. Pois é a forma como uma pessoa lida com a limitação das suas possibilidades de vida, enquanto elas afetam o seu agir e a sua capacidade de amar, a forma como se comporta com esta limitação. É na forma como lidamos nas dificuldades que se vê quem somos, e é também isso que nos torna capazes de viver uma vida plena de sentido.”

Frankl surpreende-nos pelo vigor e a sinceridade desta exposição onde são recorrentes as palavras dever, busca de sentido, o valor da vida, a ultrapassagem do sofrimento. É uma narrativa pejada de exemplos e situações, não esquece os campos de concentração e é sempre insistente sobre a realização de sentido, esta, como ele escreve, é possível em três direções principais: a pessoa humana é capaz de atribuir sentido à sua existência, em primeiro lugar, fazendo algo, agindo, criando, concretizando uma obra; em segundo lugar, experienciando algo, a natureza, a arte, amando pessoas; e, em terceiro lugar, atribuindo sentido à vida. No decurso do tempo, continua ele, a pessoa tem de estar preparada para alterar sempre a direção de realização deste sentido, ter em conta exigências momentâneas. Não se esquece de dar exemplos sobre o sofrimento que a doença pode provocar, mas continua a sobreviver o sentido, pode por vezes representar um ganho, e dá testemunhos do que viu no campo de concentração, pessoas que integravam a morte com sentido no todo da vida.

Discorre longamente sobre a eutanásia, condena a possibilidade de o médico tirar a vida, entenda-se o contexto em que Frankl fez tais observações críticas, os nazis condenavam à morte gente com malformações, doentes mentais, doentes incuráveis, entre outros; e, como é de todos sabido, havia médicos nesses campos de concentração a fazer as experiências mais abomináveis, matando as suas cobaias. No nosso tempo, a questão da eutanásia ganhou outra dimensão, é a liberdade que é concedida a quem, por evidência científica, se reconhecer não haver tratamento curável, e decidir livremente morrer. No entanto, lê-se com profundo respeito tudo quanto ele desabona à eutanásia como ela era percecionada há 70 anos. O seu último ensaio, intitulado Experiência da Cruz é marcadamente autobiográfico, ele fala dos sonhos dos prisioneiros, como eles refletiam a essência de sofrimentos e é nestes termos que ele vai abordar a alegria de assumir a responsabilidade: “Há algo na responsabilidade que é insondável: quanto mais tempo e mais profundamente a encaramos, mais consciência tomamos dela até que por fim somos invadidos por uma espécie de vertigem; se nos aprofundarmos na essência da responsabilidade humana, então arrepiamo-nos: há algo de terrível. É terrível saber que: em cada momento sou responsável pelo próximo; que cada decisão, a mais pequena como a maior, é uma decisão para sempre; que em cada momento realizo uma possibilidade, a possibilidade de um momento, ou perco-a.”

O posfácio da obra é assinado pelo genro de Frankl, o professor Franz Vesely. Lembra-nos como Frankl, saído do campo de concentração escrevia em setembro de 1945 a amigos: ”No campo de concentração pensávamos que já se tinha atingido o ponto mais baixo da vida. Nada nos resta agora a não ser talvez chorar um pouco e folhear um pouco o Livro dos Salmos.

É possível que se riam de mim, talvez fiquem zangados comigo. Se não tivesse esta filosofia de vida positiva firme como uma rocha – em que é que me teria tornado nestas semanas ou já naqueles meses que passei num campo de concentração? Mas eu vejo as coisas numa dimensão mais vasta. Eu reconheço cada vez mais que a vida tem um sentido de forma tão infinita, ao ponto de querer que tem de haver um sentido também no sofrimento e até no fracasso.”

No verão de 1946, aquele cientista que tinha perdido a família e que só por uma nesga do acaso sobreviveu, lançou-se a fazer conferências, deixou bem claro que nos campos de concentração pôde observar que, mesmo naquela situação-limite da mais dura privação e da mais profunda degradação, tudo o que ele apreendera e descrevera sistematicamente no seu trabalho como conselheiro juvenil e psiquiatra mantinha a sua validade. Os prisioneiros que ainda puderam reconhecer ou pelo menos esperar um qualquer sentido da vida foram os que mais encontraram a força para continuar a viver ou mesmo para sobreviver.

De leitura obrigatória.



                                                                                                        Mário Beja Santos