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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Diz-me quem é o teu inimigo, dir-te-ei quem és.


 
 
 
 Escrito nas vésperas do período mais negro do século XX, O Conceito do Político, de Carl Schmitt, foi testemunha profética de um mundo polarizado que, à época, ainda estava por chegar.
 
O Conceito do Político, de Carl Schmitt (1888-1985), publicado, originariamente, em 1927 sob a forma de artigo na revista Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik, e, mais tarde, em 1932, em formato de livro, nasceu intimamente ligado ao seu autor e ao papel deste como inimigo jurado da República de Weimar e, depois, como filiado n.º 298 860 do Partido Nazi, ao qual aderiu em 1932, juntamente com Martin Heidegger. A fama – ou a infâmia – de que esta obra gozou nas primeiras décadas a seguir à sua publicação é quase indissociável destes eventos.
Contudo, desde que o Carl Schmitt caiu em desgraça no seio do Partido Nazi, a partir de 1936 – e, principalmente, desde que, afastado da vida académica e em virtude da recusa a submeter-se aos processos de desnazificação, se exilou na sua cidade natal na Vestefália, à qual se passou a referir como a sua San Casciano, numa óbvia referência ao lugar onde Maquiavel sofreu o seu exílio forçado de 1512 a 1520 –, a história deste livro mudou. O mundo da República de Weimar em que o livro nasceu e os horrores da Segunda Guerra Mundial que se lhe seguiram, dava agora lugar a um mundo novo, o da divisão da Alemanha, da construção do Muro de Berlim, da Guerra Fria, da ameaça nuclear, do terrorismo moderno. Todos estes eventos deram uma nova vida à obra de Carl Schmitt publicada entre as duas grandes guerras e, principalmente, a este livro que ressurgiu como uma visão profética de um mundo polarizado, mas, também, de um mundo em que a política é cada vez mais neutralizada pela economia e pelos mercados, tornando-o um dos vestígios mais fidedignos deste século de amizades e inimizades extremadas, o que justifica em grande parte a circunstância da sua obra se ter tornado, nas últimas décadas do século XX e no conturbado início do século XXI, com o 11 de Setembro e a guerra ao terrorismo, uma obra de referência do pensamento político para autores tão diversos como Leo Strauss, Jacques Derrida, Julien Freud, Giorgio Agamben, Antonio Negri ou Slavoj Žižek.
E por falar em inimigo, este é, aliás, um dos conceitos fundamentais não só desta obra, mas de todo o seu pensamento político. Contudo, falar sobre o inimigo em Carl Schmitt é uma tarefa espinhosa. Enquanto conceito político, este termo é construído no seu pensamento a partir de uma das mais emblemáticas e discutidas afirmações de toda a sua obra. Diz o autor, num dos primeiros parágrafos do capítulo segundo desta obra, que “a diferenciação especificamente política, à qual se podem reconduzir todas as acções e motivos políticos, é a distinção de amigo e inimigo”. Com esta afirmação, o autor inaugurou caminho de um dos corolários da sua teoria política: a distinção/oposição entre amigo e inimigo (Freund-Feind), que atravessará grande parte da sua obra e regressará em força, anos mais tarde, na sua Teoria do Guerrilheiro (1962).
A distinção entre amigo e inimigo é, de facto, indissociável da situação política e social da Alemanha durante período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, nomeadamente durante o período da República de Weimar. Schmitt desconfiava profundamente da organização democrática da comunidade e dos resultados mais imediatos, considerando que esta implicava uma indesejável amálgama entre os interesses do Estado e os interesses da sociedade. Segundo o jurista alemão, “esbatia-se”, assim, a fronteira entre estas duas realidades. Neste contexto, Schmitt questiona-se sobre a essência do político. A esta pergunta, contudo, a sua obra não procura fornecer verdadeiramente uma resposta directa. Ao invés, o autor parte para a distinção entre amigo e inimigo. Schmitt adopta, assim, três ideias fundamentais que se inserem numa certa tradição do pensamento político ocidental, na qual escolhe Hobbes como o elemento de comunicação privilegiado: o pessimismo antropológico; a segurança como principal função do político; e o princípio da protecção/obediência.
 
 
 
Por outro lado, esta distinção descreve tanto a função como a essência do político. No primeiro aspecto, ela insere-se numa linha de continuidade com uma tradição do pensamento ocidental que assume como principal preocupação da entidade política a segurança. Contudo, quanto à essência do político, Schmitt quebrou profundamente com as correntes do pensamento político que o precederam; é que para o autor, a distinção entre amigo e inimigo não é aquilo que a política faz, mas sim aquilo que a política é. O político, nesta perspectiva, tanto contém a possibilidade de paz, como a possibilidade real de guerra; daí que Schmitt afirme, de forma particularmente radical e quebrando com a tradição hobbesiana, que se sobre a terra não houvesse mais que neutralidade, não só teria terminado a guerra, mas também a neutralidade em si mesma, de igual forma que desapareceria qualquer política, incluindo a de evitar a luta, se deixasse de existir uma luta em geral.
Esta distinção evoca, também, a relação de identidade ou de conflito que subjaz às formas de agrupamento ou de oposição entre os homens. No domínio político, estas caracterizam-se por corresponderem ao grau máximo de intensidade possível de união ou de separação. Qual a origem deste grau máximo de intensidade? A resposta reside na possibilidade real de que as relações de identidade ou de conflito subjacentes aos conceitos de amigo e de inimigo se consubstanciem numa guerra. Os conceitos de amigo, inimigo e luta adquirem o seu sentido real precisamente por fazerem referência à possibilidade real de matar fisicamente, e, por isso mesmo, a guerra não é mais do que a realização extrema da inimizade.
Finalmente disponível aos leitores portugueses, esta tradução do texto de 1932, que segue de perto a estrutura das edições norte-americana e espanhola, é completada pela notável introdução e pelas indispensáveis notas do tradutor, Alexandre Franco de Sá, um especialista reputado na obra de Schmitt, tornando mais acessível um dos textos mais polémicos e mais comentados da teoria política do século XX.
 
David Teles Pereira
 
(publicado originalmente no jornal i, republicado no Malomil com permissão do autor: obrigado, David, um abraço!)


terça-feira, 5 de maio de 2015

Estatutos da Associação Portugal-URSS.

 
 
 
 
 
 
Artigo 5º − A Associação não tem carácter partidário, estando aberta a todos os que adiram aos seus objectivos de intercâmbio, cooperação e amizade entre o povo Português e os povos da União Soviética.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

De profundis.

 
 
Colagem de Eugenia Loli
 
 
 
«É engraçado, eu beijo os meus amigos, que não são muitos, mas beijamo-nos sempre. Mas nunca tive um amigo homossexual que me beijasse.»
(António Lobo Antunes, entrevista à Visão, Novembro de 2014).


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Carta de Séneca a Lucílio.





Fotografia de Garry Winogrand





Refugia-te em ti próprio quanto puderes; dá-te com aqueles que te possam tornar melhor, convive com aqueles que tu possas tornar melhores. Há que usar de reciprocidade: enquanto se ensina aprende-se também. Por vão desejo de tornares conhecido o teu talento não deves misturar-te com o público a ponto de desejares fazer leituras ou participar em debates. Aconselhar-te-ia a fazê-lo se tivesses mercadoria adequada a esta gente; mas entre ela não há quem pudesse entender-te. É possível que casualmente apareça um ou outro cuja formação e educação te devas encarregar até o elevares ao teu nível. «Mas então, em proveito de quem estudei eu?» Não tenhas receio: se tiveres estudado em teu proveito não terás perdido tempo.
 
 
 
 




sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Carta de Séneca a Lucílio.

 
 
 
{Carta IX}
 
Para que me esforço para obter um amigo? Para que eu tenha por quem eu possa morrer, para que eu tenha a quem seguir no exílio, à morte de quem eu me oponha e impeça. Isso que tu descreves, do que se aproxima em vista do que é vantajoso, do que se espera que haja algo a ganhar, é comércio, não amizade. Não duvides que o amor possui algo similar à amizade: que se possa dizer aquele afecto [ser] uma amizade enlouquecida. Acaso alguém ama por causa do lucro? Acaso alguém ama por causa da ambição ou da glória? O próprio amor, por si mesmo indiferente a todas as outras coisas, inflama os espíritos para o desejo da Beleza não sem esperança de ternura mútua. E então? A causa do que é digno forma aliança com um afecto torpe?
«Não se trata», dizes tu, «agora [de discutir] isto, se a amizade deve ser buscada em razão de si mesma». Pelo contrário, nada é mais necessário. Com efeito, se deve ser procurada em razão dela mesma, só pode atingi-la quem se basta. «De que modo então a atinge?» Do mesmo modo que atinge a coisa mais bela, não [sendo] atraído pelo lucro nem atemorizado pela inconstância da fortuna. Trai a majestade da amizade quem a procura em vista da circunstância favorável.
 


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Simplesmente Maria.

 
 
 




«Para Maria, a vitória tinha sido arrancada no último momento das mandíbulas da derrota.»
 
(Maria João Rodrigues, A Europa Ainda é Possível. Aventuras Políticas no Século XXI, Lisboa, Editorial Presença, 2013, p. 70)
 

domingo, 7 de julho de 2013

As irmãs Brown.

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1975
 
1976
 
1977
 
1978
 
1979
 

1980
1981



1982
 
1983
 
1984
 
1985
 
1986
 
1987
 
1988
 
1989
 
1990
 
1991
 
1992
 
1993
 
1994
 
1995
 
1996
 
1997
 
1998
 
1999
 
2000
 
2001
 
2002
 
2003
 
2004
 
2005
 
2006
 
2007
 
2008
 
2009
 
2010
 


Já contei aqui história daquele casal alemão que, no início do século XX, se fotografava todos os anos, pelo Natal, enviando depois a imagem aos amigos, como presente próprio da quadra. E, desde então, no Malomil já apareceram muitas histórias como esta: desde 1975, as irmãs Brown tiraram uma fotografia juntas. Fizeram-no todos os anos, entre 1975 e 2010. Para que se percebesse melhor o efeito da passagem do tempo, colocaram-se sempre na mesma ordem. Assim vemos mais nitidamente a sucessão das modas, no vestir e no pentear, e a erosão dos anos, nas rugas dos rostos. 36 anos passaram. É uma vida. Ou, melhor, quatro vidas: Heather, Mimi, Bebe e Laurie. De resto, não sei o que a vida lhes fez e o que fizeram na vida. As irmãs Brown.
 
António Araújo

 
 
 


sábado, 1 de junho de 2013

Göttingen.

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Barbara (1930-1997)





O nosso querido António está em Göttingen. Göttingen, António?!! E o Paulo, num gesto bonito, mandou-me logo a balada da Barbara e a pequena história que aqui se conta:





 

         Em 1962, em Ludwigsburg, Charles de Gaulle pronunciou um dos mais célebres discursos do século XX: uma alocução à juventude alemã, feita na sua língua. O discurso do general foi, dizem os livros, um dos mais importantes gestos no processo de reconciliação franco-alemã após a 2ª Guerra.

         Pouco depois, era gravada a música Göttingen, na voz  de  Barbara. A cantora nascera em Paris, em 1930, com o nome de Monique Serf. Na infância, foi abusada sexualmente pelo pai. Judia, teve de fugir dos nazis. Vidas difíceis. Monique tornou-se cantora anos depois. No pós-guerra, regressou a Paris, teve lições de canto e piano no Conservatoire. Gravou várias músicas, êxitos na época hoje quase esquecidos, entre as quais Göttingen. Apesar de ter sido perseguida pelos alemães, Barbara decidiu, numa daquelas estranhas decisões que só a cada um respeitam, deslocar-se ao coração da Alemanha. Apaixonou-se por Göttingen, que lhe retribuiu inaugurando a Barbarastrasse e concedendo-lhe a medalha de ouro da cidade.

         Um dia, quando Barbara cantava, na audiência encontrava-se um jovem estudante de doutoramento, Gerhard Schröder. Anos mais tarde, o futuro chanceler utilizaria a letra da balada num discurso que assinalou, também ele, a amizade franco-alemã.
 
 
 



 
 
         Em 1997, quando Barbara morreu, 250 mil pessoas compareceram ao funeral. Aqui, há quem se interrogue se a sua música fez mais pela reconciliação entre dois povos do que o histórico discurso do general. É uma contabilidade impossível, até escusada e tonta. Aqui ficam a canção e o discurso. Quem quiser que escolha.  

 

quarta-feira, 13 de março de 2013

O mundo é um lugar estranho.

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Shomei Tomatsu
Naha, 1969

 
 
É tanta a solidão no Japão que até criaram empresas de aluguer de amigos. Sim, isso mesmo: rent-a-friend. Quem me deu esta história, publicada aqui, foi um grande amigo, o João, que tanto e tanto já deu ao Malomil. Parabéns ao António Ramalho, outro grande amigo, pelo seu aniversário. Por um acaso do destino, estão ambos na América, o João e o António. Um atlântico de saudades.
 
 
António Araújo 


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O dever de traição.





 
 

Frederico Guilherme III (1770-1840)
 



 

No final do ano de 1812, o rei Frederico Guilherme, da Prússia, foi interrompido, noite dentro, pelo Chanceler Karl von Hardenberg, portador de notícias sensacionais sobre a frente de batalha. Teria havido um recontro?

«− Não, Majestade! Ocorreu algo de muito mais extraordinário: o general Yorck negociou com o general russo Diebitsch um tratado, pelo qual o exército prussiano abandona a aliança com a França e permanecerá neutral por dois meses!»

Em Fevereiro de 1812, quando Napoleão se preparava para invadir a Rússia, Frederico Guilherme assinara um pacto de aliança com o imperador francês. Agora, contra a vontade do seu soberano, contra as leis da guerra, contra todas as obrigações internacionais do Estado, um general tomara a decisão fatal. Traíra.

Mas em que condições? A Prússia era uma aliada pouco convicta de Napoleão. As forças francesas, batidas, recuavam em debandada da Rússia. Foram então dadas, pelos franceses, ordens ao exército prussiano para cobrir a sua retirada, o que o colocaria numa posição de sacrifício.
 
...



Ludwig Yorck von Wartenburg


 


O general Ludwig Yorck von Wartenburg informou o Rei: «Estou firmemente convencido de que a continuação da marcha tornaria irremediável a derrota do nosso exército, com a perda de toda a artilharia, tal como aconteceu na retirada do exército francês. Creio que, como fiel súbdito, tenho o dever de olhar ao Vosso interesse, e não mais ao do Vosso aliado ...».

E prosseguia, antecipando o que sucederia: «O acordo que celebrei não cria quaisquer obrigações para Vossa Majestade, mas preserva o exército para a velha aliança, ou para uma nova...»

Acrescentava, ainda: «Este acordo impede que Vossa Majestade fique à mercê de um aliado de cujas mãos apenas receberia, como dádiva, a preservação ou a restauração do Vosso reino.»

Por fim, concluía, com a verdadeira razão: «Estou disposto a sacrificar a minha vida, convicto como estou de que não cometi nenhum ato contrário ao meu dever como súbdito leal e como verdadeiro Prussiano. Espero em Deus que tudo seja para a salvação do País.»

Não obstante, Frederico Guilherme reagiu com fúria. Parece que as suas palavras, quando soube do sucedido, teriam sido estas: «Isso é suficiente para me causar um apoplexia!» Era a sua honra que estava em causa. Nenhum súbdito podia, por seu livre alvitre, pôr em causa a palavra do soberano sem se tornar no mais vil dos traidores. Nenhum soldado podia desobedecer às ordens do seu chefe sem se colocar em situação de insubordinação. E, no entanto ...

A verdade é que as forças russas eram comandadas pelo general Príncipe Ludwig von Wittgenstein e pelo general Diebitsch, dois prussianos. E que um dos plenipotenciários russos que negociaram com Yorck era nada menos que o tenente-coronel Clausewitz, o qual resignara à sua posição no exército prussiano em protesto contra a aliança francesa. Enquanto os seus dois irmãos continuaram a servir o exército de Frederico Guilherme, Clausewitz ofereceu os seus serviços ao Czar.

Estes prussianos, ao serviço de Alexandre I para combater Napoleão, estavam muito preocupados com o futuro da Prússia. Sabiam que era inevitável que esta mudasse de campo. Era essencial, para que continuasse a ser uma potência europeia, preservar o exército prussiano e, por isso, antecipar a defecção. Por isso, apelaram ao sentimento patriótico de Yorck von Wartenburg. Este resistiu até ao fim.

É interessante apreciar o relato do modo como o general Yorck finalmente cedeu. Recebeu ordens do Marechal francês Macdonald para romper as linhas russas e juntar-se aos restos da "Grande Armée" em Piktupöhnen. No mesmo momento, Clausewitz instava-o, em nome de Diebitsch, a desobedecer para evitar a derrota face às forças superiores que se aproximavam. Ora, Yorck não tinha a certeza da superioridade dos russos. Tudo dependia da junção do exército do general Príncipe Wittgenstein com o exército do general Diebitsch. Em conjunto, aniquilariam o exército prussiano.

Yorck questionou Clausewitz: «− Clausewitz, você é um prussiano. É mesmo verdade que as tropas de Wittgenstein atingirão o rio Niemen no dia 31 de dezembro? Pode dar-me a sua palavra de honra?» E Clausewitz deu a sua palavra de oficial prussiano. Yorck tomou de imediato a decisão: «Diga ao general Diebitsch que me encontrarei com ele amanhã de manhã em Poscherun e que decidi abandonar os franceses e a sua causa.»
 
 
Claus von Clausewitz
 
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Nesse momento, os presentes na sala, todos prussianos, uns ao serviço da Rússia, outros ao serviço da Pátria, abraçaram o general Yorck, dando conta de que os demais oficiais prussianos ao seu serviço acolheriam com profunda alegria o fim da aliança francesa. No dia seguinte, antes de se encontrar com Diebitsch, Yorck arengou às suas tropas exultantes: «Meus senhores, o exército francês foi aniquilado pela mão vingadora do Céu. Chegou o momento de recuperar a nossa independência.»

Em todo este registo transparece uma superação da mentalidade medieval das fidelidades pessoais em favor de um sentimento de pertença a uma comunidade e a um povo que encontra o seu sentido moderno na Pátria ou no Estado. Emerge, de um modo cada vez mais consciente, um valor novo: o súbdito fiel sente-se desobrigado quando a decisão do soberano põe em causa a comunidade. Pode, então, assumir um comportamento, anteriormente considerado desonroso, doravante avaliado como patriótico e digno de ser imitado.

Veja-se como o registo contemporâneo do ajudante de Yorck, o major Thile, assinala que as palavras então proferidas pelo general amotinado foram recebidas com júbilo pelos oficiais prussianos, «como se tivessem de súbito regressado de um país estrangeiro à sua amada pátria; era como se as suas vozes se libertassem por poderem finalmente usar a língua do seu país.»

Entusiasmado com a reação dos oficiais, Yorck terminou assim: «Vamos, então, ajudados pela Providência, acabar de libertar a nossa Pátria!»
 
 
 
Convenção de Tauroggen, 1812.
Várias interpretações:
 
 








O acordo, celebrado em 30 de Dezembro de 1812, ficou conhecido para a História como a Convenção de Tauroggen. De seguida, o major Thile foi enviado por Yorck para explicar os acontecimentos a Frederico Guilherme. Thile encerrou o seu relato com as seguintes palavras: «Se o general merece ser punido, todos os oficiais o merecem ser. Ele pediu-nos que o não seguíssemos se não partilhássemos as suas convicções. Mas nenhum de nós o fez, pois as suas convicções são as nossas e nós estamos preparados para partilhar a punição, se Vossa Majestade punir o general pelo que ele fez, como um nobre e devotado patriota!»

«− As suas considerações são impertinentes, major − retorquiu o Rei − Retire-se.»

Frederico Guilherme não podia perder a face. De imediato, ignorou Yorck. Mas, em 28 de Fevereiro de 1813, mudou de lado. Completam-se agora duzentos anos sobre o Tratado de Kalisch, que firmou a aliança entre a Rússia e a Prússia e que foi seguido pela declaração de guerra à França em 16 de março do mesmo ano. Na campanha de 1813, Yorck comandaria um corpo de exército prussiano integrado nas forças russas e prussianas dirigidas pelo general von Wittgenstein. Seria este o principal conjunto de exércitos que avançaria até Paris no ano seguinte. Em 1815, com os russos distantes e os ingleses de Wellington na linha da frente, seriam os prussianos a decidir em Waterloo. O momento culminante da batalha que marcou o século XIX foi aquele em que, ouvindo chegar um exército, Napoleão se questionou: «− Será Grouchy?». Mas era von Blücher. E o seu destino ficou traçado.
 
Todo o relato da Convenção de Tauroggen, no entanto, foi muito editado por aqueles que quiseram justificar a ação de Yorck e, sobretudo, a atitude de Frederico Guilherme, em particular na obra do historiador Johann Gustav Droysen (Das Leben des Feldmarschalls graffen Yorck von Wartenburg, Leipzig, 1913). Na verdade, não havia razões militares para admitir que a posição de Yorck fosse insustentável. As forças russas que se lhe opunham eram fracas, pelo que nada indiciava que lhe estivesse a ser exigido pelo aliado um sacrifício inútil. Por outro lado, Frederico Guilherme e, sobretudo, o seu Chanceler seguiam, desde 1795, uma política exterior que parecia hesitante para quem a olhasse de fora mas que, de facto, era muito pragmática. A Prússia pouco tinha a ganhar com uma mera mudança de lado se isso levasse, como pretendia o Czar, à perda dos seus territórios polacos. Havia que dar tempo ao tempo, a fim de valorizar o seu contributo para qualquer dos lados. Depois, restaria escolher a melhor oferta.

A atitude do general Yorck impediu a prossecução dessa política e precipitou os acontecimentos. Ainda hoje se interpreta a conduta de Frederico Guilherme, nomeadamente quando sujeitou Yorck a uma acusação no tribunal militar que o podia sujeitar à pena capital, como correspondendo a uma encenação para enganar aquele que formalmente ainda era seu aliado. Na realidade, o Rei estava furioso por a sua política ter sido posta em causa. Quando Droysen, em 1913, sublinha-se, descreve um Rei contrariado, não pelo entendimento de Yorck com os russos, mas apenas por ter sido desautorizado publicamente, está muito longe da verdade e apenas pretendia firmar na memória histórica dos alemães a ideia da identidade entre a monarquia prussiana e o seu povo. Aliás, até 28 de Fevereiro de 1813 a negociação de Hardenberg com os russos foi muito dura e, ainda em Março, Frederico Guilherme recebeu uma proposta de Napoleão que, caso tivesse sido apresentada antes de Kalisch, poderia ter reforçado a aliança francesa ou, mais seguramente, garantiria ao menos a neutralidade prussiana. E a história teria sido muito diferente.

Sucede que os soberanos começavam a ter a sua tradicional liberdade de ação em matéria de política externa limitada pela opinião pública. E a opinião pública prussiana era visceralmente contra Napoleão. Yorck sentiu-o muito bem. Desde logo, os seus homens tomavam cada vez mais posição contra a aliança francesa e, nas fileiras, sucediam-se as deserções de soldados para o lado russo ou para as milícias (a história militar centro-europeia gosta de contar a lenda de que, contra Napoleão, só se levantaram guerrilheiros na Península Ibérica, o que está longe da verdade). Por isso, Yorck sabia bem qual era o sentimento popular e usou isso contra o Rei e o Chanceler.

Por outro lado, é bom ter em conta que Yorck foi um militar reformador. Depois das derrotas humilhantes de 1806, em Jena e Auerstädt, foi ele quem propôs uma nova doutrina tática que impediria a chacina das colunas germanicamente alinhadas encaminhando-se em terreno aberto para a fuzilaria francesa. E também foi ele que propôs a criação de um verdadeiro exército nacional prussiano, eliminando o sistema cantonal (que agrupava as unidades em função da origem regional) e o regime vigente de isenções de certos grupos privilegiados.

O general Yorck chegou então a sugerir que se armasse a população contra os franceses, algo a que Frederico Guilherme reagiu com repugnância e temor mas que, mais tarde, teria de aceitar transitória e o mais limitadamente possível. Note-se que a questão do exército nacional marcou todo o século XIX, sendo defendida pelos socialistas, em particular Jaurès, e encarada com muita reticência pelas autoridades estatais justamente por supor a entrega de armas ao povo o qual, depois, as poderia usar para fins revolucionários. Bem antes de Tauroggen, demonstra-se que Yorck, embora fosse politicamente conservador, era um general reformador, atento as novas condições sociais e políticas.

Assim, a vaga de nacionalismo alemão que teve origem em 1813 ficou a dever-se muito mais a Yorck von Wartenburg do que à decisão do rei prussiano. Afinal, foi então que tiveram início as «Guerras de Libertação» alemã (1813-1815), que inspiraram primeiro os liberais germânicos e, depois, os nacionalistas do Segundo Reich. Não é de somenos importância o facto de a bandeira alemã − preta, vermelha e dourada − ter sido adotada originalmente pela milícia Lützow que se formou em 1813 na Prússia, cujos efetivos chegaram a ser 12,5% das forças prussianas e que admitia cidadãos de todos os Estados alemães. O seu intuito explícito era constituir o embrião de um movimento de unificação alemã. Nestes Freikorps, os voluntários não juravam lealdade ao Rei da Prússia, mas à Pátria. Não admira que Frederico Guilherme tivesse minimizado quanto pôde o seu papel e, logo que o considerou politicamente possível, tivesse decidido a sua extinção.
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A historiografia marxista sublinha, como seria de esperar, este ponto. Isso é notado, facilmente, entre os historiadores da RDA (destaca-se, neste domínio, o contributo de Percy Stulz, o qual foi o primeiro a chamar a atenção para as pressões que Yorck sentiu da parte dos seus oficiais e, sobretudo, dos seus soldados). Mas, mais próximo dos acontecimentos, o próprio Engels dedicou a atenção a este ponto: «O maior acontecimento daqueles anos foi o facto de nos termos armado a nós mesmos, sem esperar pela permissão dos príncipes.»

O que Engels diz de seguida é que é mais interessante, por ser, malgré lui, revelador: «Até forçámos aqueles que estão no poder a liderar-nos.» Neste ponto, Engels reconhece, sem o querer admitir, que, naquele momento os soberanos souberam entender o povo e que, por isso, puderam lideraram o processo. Mas, simultaneamente, tiveram de fazer algumas cedências, abrindo o caminho a uma transformação que marcou o século XIX europeu e ainda hoje deixa soar o seu eco na Europa das Nações.

Se as «Guerras de Libertação» tivessem sido um processo histórico conduzido tão-somente pelos soberanos guiando os seus exércitos, à luz de uma leitura erudita dos interesses da dinastia, à imagem de Metternich, nunca teriam sido tão inspiradoras. Ora, o poeta da milícia Lützow, Theodor Körner, que incitava os voluntários com a sua poesia patriótica, aludiria a uma guerra, não das coroas mas do povo, não de profissionais mas de voluntários; por isso, fora uma cruzada, uma guerra santa, uma insurreição popular que estaria presente na mente dos revolucionários de 1848. ´
 
 
 
Maximilian von Montgelas (1759-1838)
 
 
 

Para ilustrar este ponto, veja-se um outro exemplo, o da Baviera. O seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, Maximilian von Montgelas, era então um afrancesado admirador do Consulado que, depois de ter conseguido transformar o Eleitorado em Reino, e de ter engrandecido o território com o beneplácito francês à custa dos vizinhos, negociava agora, simultaneamente, com Napoleão e com Metternich, tendo o apoio do Rei Maximiliano I. Por outras palavras, seguia a mesma política que Hardenberg protagonizava na Prússia: esperar para ver e ganhar o máximo possível. Pois foi, também aí, um militar que, inspirado no exemplo de Yorck von Wartenburg, interpretou o sentimento nacional anti-francês dos bávaros. O general Karl von Wrede forçou a mão do governo e conduziu as negociações com a Áustria que estabeleceram a aliança em 8 de outubro de 1813.

Metternich, diga-se, não tinha pressa nenhuma em encontrar aliados. A Áustria, depois da desgraça da "Grande Armée", também abandonara a aliança francesa, mas apenas para adotar uma posição de neutralidade. Havia duas coisas que horrorizavam Metternich: substituir a hegemonia francesa pela russa e permitir um grande movimento popular e nacionalista de unificação alemã (que só poderia ser revolucionário, como se ensaiou em 1848, ou prussiano, como Bismarck demonstraria). Um império multinacional como o austríaco não poderia subsistir face ao ímpeto dos sentimentos nacionalistas. O facto de ter sobrevivido até 1918 é uma homenagem à habilidade de Metternich e à contenção de Bismarck.

O essencial, para Metternich, era manter um sistema internacional assente no equilíbrio entre as diversas potências europeias. Nesse quadro, não interessava destruir a França. O mais prudente era esperar que a derrota da França se tornasse inevitável, mas com o maior desgaste possível para a Rússia. Esse seria o momento azado para a Áustria se comprometer. Por isso, quando em Kalisch se esperava a chegada de um enviado austríaco, ele nunca apareceu, para grande contrariedade de Frederico Guilherme que só pretendia celebrar o compromisso com a Rússia se este obrigasse também a Áustria. Esta só se comprometeria em agosto, após Napoleão ter rejeitado um entendimento que, garantindo a fraqueza da França, o manteria no poder. Quem tudo quer ...

Se a Áustria escapou à emergência dos nacionalismos por algum tempo, na Prússia, como na Baviera, os soberanos foram forçados a seguir a vontade do povo porque surgiu alguém que, no tempo certo e no modo certo, soube interpretar essa vontade e dar-lhe sentido político. De outro modo, a sua legitimidade e a sua autoridade esfumar-se-iam. Colocando-se à frente de um sentimento da opinião pública, as autoridades controlaram o movimento, dirigindo-o para um objetivo sensato. Por exemplo, depois de fevereiro, as milícias que tinham sido formadas na Prússia foram enquadradas juridicamente num decreto real e desempenharam apenas o papel que foi considerado politicamente seguro. Nenhuma insurreição contra forças ou interesses franceses foi encorajada.



Johan Gustav Droysen (1808-1884)



Na história oficial prussiana, depois alemã, prevaleceu uma fórmula que a traição patriótica do general Yorck e a hábil acomodação subsequente de Frederico Guilherme permitiram: Der König rief und alle, alle kamen (o Rei chamou e todos, todos o seguiram). Entre os campeões desta interpretação quem encontramos? O historiador Johann Gustav Droysen, como era de esperar. O mesmo que, no dealbar da Grande Guerra, assumia a função de defensor de uma versão moderada do nacionalismo germânico que unisse todos os alemães em torno do Kaiser. Para tal, a traição de Yorck tinha de ser vista como uma forma de defesa da monarquia por parte de alguém que se afirmava, acima de tudo, como «súbdito leal». A atitude de Frederico Guilherme, por seu turno, tinha de ser entendida como uma farsa para enganar Napoleão. A verdade é que não foi assim.

Por isso, os alemães nunca esqueceram Yorck von Wartenburg e o potencial emancipador do seu exemplo. Muitos anos depois, em 1943, com as forças alemãs envolvidas pelos russos em Estalinegrado, o nome de Yorck foi invocado, em surdina, numa conversa entre o general von Seydlitz e o general Paulus. Pensou-se que este poderia trair em nome da Alemanha para salvar seiscentos mil alemães cercados e famintos (no total, os alemães tiveram mais de oitocentas mil baixas). Não traiu. Apenas se veio a render quando as baixas já eram dramáticas e nada mais havia a fazer. Depois, até trocou de lado para salvar a vida, enquanto os seus homens eram dizimados pela dureza do cativeiro (em Estalinegrado foram capturados mais de cem mil soldados alemães, tendo sobrevivido apenas seis mil que só regressaram em 1955 à Alemanha). Não ficou na história como o exemplo de grandeza de Yorck von Wartenburg.

Esperou-se essa decisão do maior dos generais da Segunda Guerra, o marechal von Manstein, o único que tinha autoridade para conduzir os oficiais alemães a rebelarem-se contra Hitler. Mas von Manstein negou-se quando foi contactado por um representante de alguns militares da oposição: «− Os marechais alemães não se amotinam», afirmou então. Não quis que o seu nome ficasse manchado pela traição ou não estava preparado para pagar o preço de ter razão.

No entanto, em homenagem a uma tradição familiar e a valores mais altos, vários familiares de Wartenburg conspiraram contra Hitler, pagando por isso um preço bem elevado. Peter Yorck von Wartenburg, por exemplo, foi um dos poucos diplomatas alemães que tentaram derrubar o ditador. Foi executado, tal como um seu primo, jovem oficial da mesma geração de Stauffenberg, depois do atentado de 20 de Julho de 1944.

No seio da oposição, sobretudo militar, muito se discutiu o caso Yorck para justificar um ato que, em tempo de guerra, teria de ser considerado alta traição. O problema dos oficiais alemães é que todos eles tinham sido obrigados a fazer um juramento, não de fidelidade à Pátria, mas de fidelidade pessoal ao Führer. Um juramento que só a morte poderia quebrar.

Por isso, é interessante notar que nas reações dos dignitários alemães (anota-se, de passagem, que a palavra dignitário não é a mais apropriada tratando-se de quem se trata), radiodifundidas nas primeiras horas da madrugada de 21 de julho, Hitler, Doenitz e Goering, depois de se congratularem pela providencial (outra palavra, convenhamos, pouco adequada à circunstância, mas que foi de facto utilizada) sobrevivência do Führer, asseguraram nervosamente que a fidelidade das forças armadas não tinha sido abalada. Essa era a única prioridade: não enfrentar um novo general Yorck. Na verdade, se um número importante de oficiais prestigiados, como von Manstein ou Rommel, tivesse violado o juramento por o considerar contrário ao superior interesse da Alemanha e, por isso, inválido, todos os outros se sentiriam legitimados para o fazer.

Foram então fornecidas ordens estritas aos membros do partido, das SS e dos SD (serviços de segurança do NSDAP), para jamais ser formulada qualquer crítica dirigida aos militares. O atentado fora obra de um pequeno grupo criminoso de oficiais reacionários. Nada mais. Quando se aludisse a esse grupo, instruções foram dadas para associar sempre ao desprezo manifestado pelos seus membros um louvor ao comportamento irrepreensível do exército.

Em França, curiosamente, ocorreu em 1813 algo muito semelhante: o general Mallet, desempenhando o papel de Stauffenberg, tentou convencer os seus camaradas de que Napoleão teria morrido na Rússia. Muitos acreditaram e, naquele instante, pareceu possível instituir um governo republicano que derrubasse o ditador. Mas o governador militar de Paris não cedeu, exigindo provas do falecimento de Napoleão. Mallet viu-se forçado a matá-lo, mas não conseguiu de seguida que o golpe tivesse êxito. Em seis dias, Mallet e os seus cúmplices foram todos presos, julgados e executados (os nazis demoraram um pouco mais de tempo: o julgamento do marechal von Witzleben e de outros importantes implicados só teve lugar em 7 e 8 de Agosto).

Quando o almirante Jellicoe, na Grande Guerra, falhou o objetivo estratégico de destruir a armada alemã na batalha da Jutlândia, no único momento em que a Royal Fleet teve essa oportunidade, o almirante Fisher emitiu a célebre apreciação do seu camarada de armas: «Tem todas as qualidades de Nelson, menos uma: não sabe desobedecer.»

O marechal Montgomery, sempre que contava esta estória, não se esquecia de acrescentar: temos de saber como desobedecer, sendo certo que por vezes temos de desobedecer; mas, se desobedecermos, temos de ter razão.

Esta é a grande lição: temos de ter razão, isto é, temos de saber como e quando desobedecer e, além disso, ter alguma sorte com o curso dos acontecimentos. Yorck bem o sabia. No relato de Droysen − e, neste ponto, não temos razão para dele duvidar, sobretudo pelo modo dubitativo como o protagonista admite poder vir a ser perdoado −, as derradeiras palavras do general foram as seguintes: «Se tivermos êxito, talvez o Rei me perdoe pelo que fiz. Se fracassarmos, então eu perderei a minha cabeça. Nesse caso, peço aos meus amigos para cuidar da minha mulher e dos meus filhos.»

A sua traição aparente mais não foi do que um serviço à Pátria, um valor sempre mais alto do que o da fidelidade de um serviçal. Mas há um risco. Há sempre, ao desobedecer, o risco de se não ter razão. De não saber como e quando desobedecer. E de se não ter sorte.

Quem não quer correr riscos, limita-se a obedecer. E nunca deixará de ser um sequaz. Quem tem convicções, por seu turno, sabe trair. E decide correr o risco, se tiver carácter...




José Luís Moura Jacinto