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quinta-feira, 20 de novembro de 2025

A operação Mar Verde, à luz das mais recentes investigações.



         

          Como observa o investigador José Matos, a Operação Mar Verde, desencadeada em novembro de 1970 por um contingente das Forças Armadas Portuguesas e um agrupamento de oposicionistas do regime de Sékou Touré, foi das mais ousadas levadas a cabo durante toda a guerra colonial. Resta dizer que trouxe terríveis consequências para o Governo de Marcello Caetano, marcou o isolamento diplomático português ao seu nível mais baixo. Há significativa literatura sobre esta operação, inclusivamente José Matos e o investigador Mário Matos e Lemos já se tinham debruçado sobre o assunto. As limitações para investigar são muitas, mas foi possível juntar mais documentação e trazer novas informações a público. A obra intitula-se Ataque Secreto, Operação Mar Verde em Conacri, Guerra e Paz 2025.

As peripécias da operação são por demais conhecidas. Uma força naval portuguesa, em 22 de novembro de 1970, cercou a capital da República da Guiné. De acordo com o plano operacional elaborado por Alpoim Calvão, usou-se a escuridão da noite e desembarcaram vários grupos de tropas especiais em pontos estratégicos da cidade.

Calvão propusera esta operação inicialmente com objetivos mais modestos, foram crescendo depois os objetivos. E da libertação dos prisioneiros portugueses e do afundamento das embarcações do PAIGC, passou a sonhar-se com um golpe de Estado que derrubasse Sékou Touré, de modo que o novo Governo, amigável com o Estado Novo, levasse ao afastamento do PAIGC naquele país, que lhe dava um apoio fundamental. A operação contou com o apoio total de Spínola, Caetano aprovou-a, ministros do seu Governo mostraram radical oposição. José Matos levanta interrogações de peso que hoje nos fazem pensar no que houve de leviano e temerário, faltou uma verdadeira medição dos prós e contras: seria praticamente impossível não associar Portugal ao golpe, até porque havia a possibilidade de capturar Amílcar Cabral (dividem-se os investigadores se não se pretendia acima de tudo a sua liquidação física) o que deixaria Spínola com um problema em mãos; questiona se o aureolado comandante-chefe ficaria mesmo numa situação vantajosa para negociar com o líder dos nacionalistas uma saída pacífica para a guerra de guerrilhas, ou a guerrilha continuaria a lutar; o que seria se houvesse a perda de apoio na Guiné Conacri com a mudança de regime e a captura (ou morte?) de Amílcar, esta mudança levaria a guerrilha a desistir da luta?; e por quanto tempo seria possível manter um Governo desta oposição a Sékou Touré, um Governo do Front de Libération Nationale de la Guinée sem uma intervenção externa ou contra as forças do PAIGC e de Cuba que estavam no país?

São questões cruciais e a historiografia existente passa-lhe ao lado. Inequivocamente, Spínola perdera a ilusão de quebrar a espinha ao PAIGC, depois dos dramáticos acontecimentos de abril passado, com o massacre de uma equipa de negociadores no chão Manjaco. Perdera-se qualquer paridade no armamento, o PAIGC tinha um conjunto significativo de bases territoriais e com controlo administrativo, escolas e hospitais, o projeto de Armazéns do Povo estava em marcha. O Governador e comandante-chefe deste maio de 1968, imprimiu uma nova estratégia, recebeu fundos chorudos, constituiu a sua própria equipa, estabeleceu um plano de abandono de destacamentos, anunciou uma política dominada “Por uma Guiné melhor”, nesse mesmo ano de 1970 apareceram Congressos do Povo destinados a conquistar o apoio das comunidades tribais. Sempre que se desloca a Lisboa e participa nas reuniões do Conselho Superior de Defesa Nacional, fala categoricamente no agravamento da situação, pede mais meios humanos e materiais. Logo na exposição que faz ao Conselho em 8 de novembro de 1968, ficou escrito em ata que “O senhor Governador da Guiné voltou a salientar que é imperativamente necessário evitar que o inimigo atinja a fase de implantação militar em todo o território da Guiné, sob pena de a nossa soberania ficar irremediavelmente perdida”.

Não deixa de ser curiosa a comparação da correspondência de Schulz e de Spínola a pedir meios aéreos mais suscetíveis de fazer recuar a presença dos grupos do PAIGC dentro do território, só em abril de 1974 é que as negociações para a aquisição de aviões Mirage pareciam bem encaminhadas. Acresce que o PAIGC já podia contar com a ajuda cubana e apoio humanitário da Suécia. A presença do PAIGC na República da Guiné era por demais evidente. É então que descobre que havia um movimento de dissidentes da Guiné-Conacri dispostos a derrubar Sékou Touré, foi assim que nasceu a convergência com Alpoim Calvão, este idealizara somente a libertação dos prisioneiros portugueses e o afundamento dos meios navais inimigos.

José Matos faz-nos uma resenha dos antecedentes da Mar Verde, da evolução dos objetivos para a operação, cedo se começou a verificar que a oposição a Sékou Touré tinha imensas fragilidades; os grupos hostis foram sendo recolhidos em vários países e comprou-se armamento soviético sigilosamente na Bulgária; irá comprovar-se que o envolvimento da PIDE não garantiu informações rigorosas quanto à situação e localização de entidades e objetivos; também se esclarece  neste historial do José Matos que havia contactos com os opositores de Sékou Touré desde 1966, os oposicionistas durante muito tempo limitavam-se a pedir uma contribuição financeira e fornecimento de material bélico.

Estamos agora em plena invasão de Conacri, descrevem-se os meios em prémios, as dúvidas suscitadas logo na ilha de Soga, Spínola discursa aos comandos africanos antes da partida e desencadeia-se o assalto, conhecemos já os contornos essenciais de tudo quanto se passou, os meios aéreos da República da Guiné não estavam em Conacri, não encontraram o ditador, Cabral estava ausente de Conacri, falhou a ocupação da emissora, o tenente Januário dos comandos africanos desertou com vinte homens, houve afundamento de meios navais, libertaram-se os prisioneiros portugueses, sofremos baixas ainda que modestas. Ficou comprovado que os meios militares da República da Guiné estavam numa completa desorganização.

Segue-se a tempestade internacional: a condenação na ONU, a URSS oferece os seus préstimos navais, o que irá inquietar a NATO. Em definitivo, Spínola fica convencido da inviabilidade de uma solução militar e irá argumentar nesses termos na reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional que se realizou em 7 de maio de 1971, consta na documentação:

“Devemos excluir, de uma vez para sempre, a veleidade de ganharmos militarmente a guerra que enfrentamos, a qual só poderia ser ganha no campo das armas face a uma viragem imprevisível na presente conjuntura mundial. O problema só poderá resolver-se no campo político e quero crer que tal solução ainda se apresenta viável.”

O resto da história já a sabemos: desentendimento entre Marcelo Caetano e Spínola; caminha-se para a exaustão dos meios; o PAIGC recebe mísseis e armamento que lhe permite operar em termos de guerra convencional; a legislação de Sá Viana Rebelo incendeia os ânimos, aos poucos irá constituir-se o Movimentos dos Capitães. Tudo culmina no 25 de abril.

José Matos dá-nos novamente prova das suas capacidades de rigor e assegura-nos uma leitura bastante emotiva.


                                                                                    Mário Beja Santos 

 



quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Angola, 1961, começou a defesa do Império: Documentação e análise de um rigor dificilmente atingível por um só investigador.




O historiador Valentim Alexandre dá-nos conta neste seu trabalho de arromba o propósito da obra: “Sendo totalmente autónomo, este livro inscreve-se num projeto mais vasto, que visa fazer o estudo da última fase do colonialismo português. Noutro volume, intitulado Contra o Vento, seguimos a evolução do Império, após a Segunda Guerra Mundial, até 1960 – um período caracterizado pelo movimento de descolonização que, com incidência primeiro na Ásia e depois em África, levou à desagregação dos sistemas coloniais europeus. A exceção foi Portugal, que tomou nesta fase um rumo divergente, resistindo aos ‘ventos de mudança’. O livro depois publicado – Os Desastres da Guerra – Portugal e as Revoltas em Angola (1961 – janeiro a abril) – tem como centro a análise das três convulsões que, em começos de 1961, em zonas geográficas diferentes, abalaram o domínio colonial em Angola – a revolta da Baixa de Cassange, de janeiro a março; o assalto às prisões de Luanda, em fevereiro; e a insurreição no norte do território, a partir de 15 de março – assim como das suas repercussões em Angola e na metrópole. O presente volume retoma o fio dessa meada em que, a 13 de abril, o Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, vencido o golpe de Estado conhecido por Abrilada, assumiu a pasta da Defesa, fazendo-se desde então a mobilização do contingente geral do Exército para combater a insurreição angolana.”

Nesse dia 13 de abril, Salazar dera início à remodelação governamental, num breve discurso anuncia que se irá avançar para Angola, rapidamente e em força. A opinião pública ignora que houve uma tentativa de golpe de Estado, quem promovia alterar o curso dos acontecimentos era um movimento encabeçado pelo próprio ministro da Defesa, Botelho Moniz, escrevera-se a Salazar uma carta, falava-se em situação angustiosa e em breve insustentável das Forças Armadas, havia que restituir ao país as liberdades essenciais, entre outros argumentos. O ditador não desconhece que há sinais de ebulição nas colónias africanas, a Guiné está cercada de países independentes, o Congo deixou de ser belga, há crise na Federação das Rodésias e da Niassalândia, os efetivos militares portugueses são mínimos, mas outras colónias conhecem surtos nacionalistas e há pressões para a sua anexação no Estado da Índia. Adriano Moreira é o novo ministro do Ultramar, é nesse período dramático que ele se dirige a Angola, percorre as zonas em turbilhão, discursa, anuncia reformas, publica diplomas, não são medidas de fundo, e o ministro sabe perfeitamente que não pode contar com grandes aberturas por parte de Salazar, a rutura virá no ano seguinte.

Reocupa-se em termos militares o norte de Angola, os primeiros batalhões e outros contingentes são deslocados para os locais onde houvera massacres, e onde os próprios angolanos tinham fugido face às atrocidades da UPA, que, demonstradamente, não trazia preparação para lutar em termos de guerrilha. A questão angolana é analisada na ONU, o regime de Salazar descobre que nem os Estados Unidos estão do seu lado e há velhos aliados que se abstêm nas votações, a favor só se manifestam a África do Sul e a Espanha. A propaganda portuguesa exibe os massacres e monta um discurso que ganhará perenidade: os terroristas vem de fora, são apoiados pelos comunistas, Portugal passou a estar na vanguarda da defesa do Ocidente. E, contudo, os velhos aliados continuam a fazer bons negócios e a dar ajudas a Portugal.

Valentim Alexandre disseca a essências das reformas, procura-se acabar com o trabalho forçado e com as monoculturas de entidades estrangeiras. Cedo se percebe que era necessário revogar o Estatuto do Indigenato, para ter um mínimo de credibilidade a nível internacional. Discute-se a integração económica do espaço português, o autor disseca o relacionamento da UPA com o MPLA (este ainda tinha um papel extremamente tímido na alvorada da luta armada e a UPA beneficiava de um melhor tratamento internacional, da Argélia aos Estados Unidos). É-nos também dado um mapeamento das forças partidárias envolvidas no conflito angolano e quais a suas linhas de clivagem. Regressamos Às fragilidades do Império português, no caso da Guiné, o PAIGC já está a preparar quadros, um movimento de manjacos ataca em S. Domingos, Susana e Varela e depois umas emboscadas (pratica atos de vandalismo e depois sai do teatro de guerra.

Tudo se adensa na cena internacional, o regime tem cada vez mais dificuldade de argumentação tanto junto da NATO como em Nova Iorque. Na cena interna, como observa o autor, “O PCP era a única força de oposição que tinha uma perspetiva anticolonial definida desde 1955, na sequência da crise de Goa. Nos anos seguintes, o PCP seguiu com grande atenção a questão colonial, a que dava um largo espaço no jornal Avante!, onde se denunciava a repressão exercida nas colónias. O PCP manteve a mesma linha, no essencial, em começos de 1961, após as rebeliões em Angola.” Anteriormente o autor dera-nos conta como o conceito imperial vincara o republicanismo e a oposição liberal ao Estado Novo aparecia ou a calar ou a consentir a defesa do Ultramar português, como se vira no ato eleitoral que ocorrera em 1961.

A síntese da obra neste volume de mais de quinhentas páginas dá-nos uma grande angular da natureza da resposta do regime, do tal quadro que condicionava a política colonial portuguesa e a dos anos de 1870, naquilo que mais tarde se irá chamar o Terceiro Império, a saga africana, um lastro histórico que Valentim Alexandre aprecia numa escrita luminosa, abrindo caminho para o que se segue, a questão da reforma do regime colonial português, o ditador é fortemente centralizador e há os defensores da gradual autonomia, isto é, as relações políticas entre as diversas parcelas do Império. “Adiada em 1961, pela premência que a insurreição no norte de Angola criava, a questão eclodirá no ano seguinte, num debate tumultuoso, que culminará em outubro numa célebre reunião plenária do Conselho Ultramarino. No campo das relações económicas deu-se um passo importante na via de criação do ‘espaço económico português’ tendente a estabelecer a livre circulação de mercadorias de origem nacional entre os vários territórios.”

É impressionante o trabalho deste historiador que lançou mãos a algo que só é imaginável nas mãos de uma farta equipa – parece que estamos a acompanhar mês a mês, com o pano de fundo da maré anticolonial (1945-1960), as vicissitudes do fim do Império, com uma ordem de trabalhos e um rigor inatacáveis.

De leitura obrigatória.


                                                                                               Mário Beja Santos




sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Os Últimos do Estado Novo, por José Pedro Castanheira.

 



 


 

O jornalista José Pedro Castanheira, com uma notável carreira profissional, explica de forma meridiana na apresentação deste seu livro a essência de Os Últimos do Estado Novo, Tinha da China, 2023:

“Já reformado, a organizar o meu arquivo, verifiquei, com algum espanto, que tivera oportunidade de conhecer e fazer um trabalho jornalístico com e sobre alguns dos principais derrotados do 25 de Abril – o último diretor da Censura, o último presidente do Partido Único, o último responsável pelo campo de concentração do Tarrafal, os membros do último Governo da ditadura, o último secretário particular de Marcello Caetano, o seu último porta-voz. Paralelamente, tivera o ensejo de fazer reportagens em torno de episódios e acontecimentos marcantes, precisamente por terem sido os últimos do género a ocorrer durante a ditadura: o último deportado, os últimos presos políticos, a última entrevista concedida por Oliveira Salazar. E pensei que faria sentido reunir todos estes trabalhos e publicá-los em livro.” E faz comentários sobre a natureza de entrevistas e entrevistados, ficam algumas pontas de mistério, seguramente não haverá resposta para o conteúdo da documentação que Alexandre Carvalho Neto, secretário pessoal de Marcello Caetano, destruiu na residência de S. Bento, no cumprimento das instruções dadas pelo deposto presidente do Conselho de Ministros. E o leitor que se prepare para uma viagem que tem pouco de nostálgica, permite um sem número de clarificações e, impressão minha, da própria sensibilidade manifestada pelos entrevistados, há mais reconciliação que ressabiamento pelo fim do regime ditatorial.

Eduardo Vieira Fontes, diretor do “campo de trabalho” do Tarrafal, abre as hostilidades, um cabo-verdiano que nunca quis a nacionalidade cabo-verdiana, que guarda recordações amenas de Amílcar Cabral e do seu trabalho em Angola, que considera ter agido com elevado sentido do dever no Tarrafal, reaberto em 1961, a PIDE criticava muitos dos seus procedimentos para com os presos, durante a entrevista mostra testemunhos de detidos, francamente favoráveis para a maneira como conduzia a vida no campo. “Nunca mais voltou a Cabo Verde, mas vinha quase todos os anos a Portugal. Faleceu nos EUA, em East Providence, em 9 de novembro de 2021, escassos meses após a morte da mulher. Tinha 99 anos.”

Não menos interessante é a reportagem sobre os últimos presos políticos, tudo se passou em abril de 1974, ficamos a saber quem e porquê foi detido. O mesmo se dirá do último Governo da ditadura, há para ali aspetos curiosos de escolhas de ministros e secretários de Estado, e há o depois do 25 de Abril. Pedro Feytor Pinto, que teve uma intervenção direta nos acontecimentos do 25 de Abril dá-nos as suas impressões sobre aspetos da governação de Marcello Caetano, o seu relacionamento com os liberais, os bastidores da oposição ao Governo dentro do regime, o que se passou depois da queda da ditadura. Não deixa de causar estranheza certas afirmações de Alexandre Carvalho Neto, foi secretário particular de Marcello Caetano e antes ocupara um cargo semelhante junto de Spínola na Guiné, não só diz inverdades como destrata quem não se pode defender, isto quanto à Guiné. Que antes de Spínola havia a iminência de uma derrota militar, que Schulz foi destituído e que ainda regressou a Bissau para empacotar os serviços de prata do Palácio de Bolama. Acontece que a guerra não estava perdida nessa época (1968), que Schulz não foi demitido, cumprira quatro anos na governação e como comandante-chefe e interrogo-me como era possível um governador trazer pratas de um palácio que estava em ruínas, fora abandonado em 1941, impensável deixar ali pratas, enfim, tricas com uma pontinha de maledicência, resta saber para quê. E ficamos a saber que ajudou Marcello Caetano a instalar-se no Rio de Janeiro.

O leitor jamais ficará dececionado com este repositório de entrevistas onde iremos ver discorrer Elmano Alves, o presidente da última comissão executiva da Ação Nacional Popular, Mário Bento Soares, o último diretor da Censura, o autor entrevistará o jornalista francês Roland Faure que entrevistou Salazar quando este já não era o homem todo-poderoso e vivia debilitado em S. Bento, a Censura cortou a entrevista, para o regime marcelista era totalmente inaceitável que os nostálgicos ouvissem Salazar dizer coisas como: “Conheço bem Marcello Caetano. Foi várias vezes meu ministro e aprecio-o. Ele gosta do poder: não para retirar quaisquer benefícios pessoais ou para a família; é muito honesto. Mas gosta do poder pelo poder. Para ter a impressão exaltante de deixar a sua marca nos acontecimentos. É inteligente e tem autoridade, mas está errado em não querer trabalhar connosco no Governo. Porque, como sabe, ele não faz parte do Governo.”

O leitor será confrontado com o relacionamento de Salazar com o major Silva Pais, o último diretor da PIDE, as matérias que tratavam, as informações que a PIDE fazia chegar a Salazar não só sobre acontecimentos internos como internacionais, fica perfeitamente claro que o ditador soube do assassinato do general Humberto Delgado com todos os pormenores, dando depois em discurso uma versão totalmente descabelada, atribuindo a tensões entre oposicionistas, atribuindo à oposição o crime. Iremos ler os acontecimentos da deportação de Mário Soares em S. Tomé e Príncipe. E o livro termina com uma reportagem de acontecimentos muito pouco conhecidos e praticamente não tratados pela historiografia, os sindicatos corporativos, afetos por natureza ao regime, mas que estavam em ebulição e mesmo em rutura com o então subsecretário das Corporações não só dado o agravamento do custo de vida, como os penosos horários de trabalho e salários bloqueados. Iremos viajar ao último plenário destes sindicatos, haverá reuniões com Salazar e uma reunião desse plenário no Coliseu dos Recreios. É nesse plenário que os dirigentes sindicais divulgarão o teor de uma mensagem entregue a Salazar a que o ditador fez 23 cortes e alterações no texto que lhe entregaram. O ditador será sócio honorário de 300 sindicatos. E diz-se no último plenário dos sindicatos corporativos por que a máquina corporativa sofrerá alterações de fundo com o fim da Segundo Guerra Mundial e com a agitação política trazida pelo Movimento de Unidade Democrática. Gota a gota, elementos de oposição irão infiltrando-se nos sindicatos, a aliança com a governação irá desaparecer.

Esta coletânea de entrevistas é uma preciosidade, ajuda a compreender mentalidades dominantes do salazarismo e do marcelismo e como a ditadura não ofereceu resistência a quem vinha trazer as liberdades, o desejo de viver em democracia e pôr fim à inconsequente guerra colonial.


                                                                                    Mário Beja Santos





quarta-feira, 3 de maio de 2023

A contagem decrescente do Estado Novo, de fevereiro a abril de 1974.

 





 

Os meses finais do chamado regime de Marcello Caetano foram dominados por acontecimentos imprevistos, uns, outros uma tentativa desesperada para comprar armas sofisticadas na quimera de que era possível manter uma guerra em três frentes, num quadro de solidão internacional, e num país sem dinheiro e com graves carências de oficiais. O ensaio Rumo à Revolução, de José Matos e Zélia Oliveira, Guerra e Paz Editores, 2023, alicerçado numa grande consulta de documentos e arquivos nacionais e estrangeiros, revela o que de fundamental aconteceu nos meses que precederam à queda da ditadura num só dia. Trata-se de uma narrativa que irá seguramente enfurecer aqueles que insistem que a guerra colonial tinha sustentabilidade, os recursos não faltavam, para eles a hecatombe foi a falta de vontade em combater, e por tal “crime” se desmoronou o Império. Num país em que ainda impera o culto do sebastianismo, tais nostálgicos não serão desarmados pela verdade dos factos, bem evidentes neste primoroso ensaio.

No essencial, vamos ver aqui abordados: o que de decisivo representou a publicação do livro de Spínola; a busca de armas, sobretudo contando com a gratidão dos EUA pela cedência das Lajes após a guerra dos 6 dias, que trouxe consequências nefastas também para a economia portuguesa; as alterações que se tinham registado em Moçambique, o eterno problema da Guiné, a movimentação dos capitães; as consequências da demissão de Costa Gomes e de Spínola; e, como depois da abortada revolta nas Caldas, um golpe fulminante fez baquear um regime que durara décadas e que parecia não ter fim.

Estamos em 15 de fevereiro de 1974, Marcello Caetano preside, sem saber, à última reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional. O general Costa Gomes informa os presentes de que tinha sido assinado um contrato para a aquisição de uma bateria de mísseis antiaéreos e de que se procurava rapidamente adquirir armas anticarro para enfrentar as viaturas blindadas que se dizia estarem na posse do PAIGC. O chefe do Governo referiu as grandes dificuldades em comprar armas nos mercados internacionais, era o que se estava a passar com os mísseis antiaéreos franceses Crotale. Costa Gomes retoma a palavra para salientar a degradação da situação interna em Moçambique, nesta frente militar faltavam helicópteros e caças, o secretário-de-Estado da Aeronáutica referiu igualmente as dificuldades da sua aquisição e, mais adiante, chamou a atenção para a necessidade para prosseguir com o reequipamento da Força Aérea, pendiam graves ameaças na Guiné e Angola. Dias depois, Caetano irá ler o livro de Spínola, compreendeu que era agora inevitável o golpe de Estado. Os autores espraiam-se sobre o pensamento daquele que irá ser o presidente da Junta de Salvação Nacional, uma quase comédia de enganos de quem autorizou a publicação do livro. Caetano chama os dois generais enquanto os capitães conspiram, temos aqui uma súmula dos acontecimentos que vão espoletar o descontentamento corporativo com a legislação do ministro Sá Viana Rebelo numa tentativa de suprir a escassez de oficiais. Caetano está demissionário, Thomaz não aceita, começa um período da fuga para a frente, desde o seu discurso na Assembleia Nacional até à remodelação ministerial.

É bem interessante a exposição que os autores fazem sobre a esperança em que os EUA fornecessem armas capazes de contrabalançar equipamento superior de guerrilha, Kissinger, que viera a Lisboa agradecer em 17 de setembro de 1973 o auxílio prestado pelo Governo de Caetano, deixará claro de que o Congresso nunca permitiria a cedência às claras daquele armamento, dava como contrapartida o fornecimento e instalação de uma central nuclear, bolsas de estudo, fornecimento de cereais e colaboração técnica e financeira na prospeção de energia geotérmica nos Açores. E avivam-se as dificuldades em Moçambique e na Guiné, a África do Sul compromete-se a fazer um empréstimo de seis milhões de contos, o que daria para cobrir grande parte das necessidades portuguesas no campo do armamento, isto enquanto o PAIGC fez a sua declaração unilateral de independência com o imediato reconhecimento de muitas dezenas de países.

É o momento azado de se fazer a descrição do nascimento do MFA, isto enquanto Caetano discursa na Assembleia Nacional, começaram as transferências compulsivas de militares, inequivocamente críticos do Governo, este é remodelado, introduzindo-se uma nova orgânica, Luz Cunha substitui Costa Gomes, segue-se a precipitação da chamada revolta das Caldas, o Governo parece aliviado e anuncia que há normalidade em todo o território. Escreveu-se no Avante! que “o Governo e o regime não cairão por si próprios nem tão pouco por ação de umas dezenas de oficiais do exército, mesmo que corajosos e patriotas. A sublevação no 16 de março mostra-o mais uma vez”. Não deixa de ser curioso o que se passa na noite de 24 de abril de 1974 durante um jantar em Bona como elementos do Partido Social Democrata Alemão em que o ministro das Finanças disse a Mário Soares que a ditadura portuguesa estava para durar, Mário Soares não conseguiu convencer o seu interlocutor que o fim do regime português estava para breve.

O cônsul português em Milão recebe instruções para ir a Londres, num quadro de total secretismo para falar com o representante da guerrilha do PAIGC, propunha-se denunciar uma possível independência para a colónia portuguesa, reunião inconclusiva, fica prevista uma outra para meses depois, dá-se o 25 de Abril. A 28 de março, Caetano profere a sua “conversa em família”, deixa claro que se mantém intransigente, a guerra prosseguirá.

A súmula dos acontecimentos do golpe de 25 de Abril, pelo seu rigor e frescura narrativa, revela-se um dos mais belos textos sobre a organização do golpe, num contexto que alguns ainda acreditavam ser de completa normalidade: 23 de abril reúne pela última vez o Conselho de Ministros, Caetano é a máscara do cansaço físico e psicológico, há jantares e encontros entre os homens do Estado na noite de 24, temos o desenrolar dessa noite, tudo culminará com a tomada da PIDE/DGS, no amanhecer de 26, isto enquanto Spínola dá a primeira conferência de imprensa na Pontinha:

“Ao contrário do que seria de esperar, os arquivos da polícia política que continham milhões de fichas foram encontrados aparentemente intactos. Nas mesas de alguns agentes encontraram algumas revistas Playboy e Penthouse. No gabinete de Silva Pais permaneciam três quadros fixos na parede com as imagens de Américo Thomaz, Marcello Caetano e Salazar. São dadas ordens para os retirar e Silva Pais prontifica-se para tal, mas o de Salazar era mais difícil por estar mais alto. Diz-se que alguém foi então buscar um escadote e o retrato de Salazar também foi removido. O fim do regime estava consumado.”

Uma narrativa de grande fôlego a não perder.

  

                                                                                Mário Beja Santos





sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Salazar global.


 





Apresentação de O Estado Novo de Salazar

– Uma terceira via autoritária na era do fascismo

 

 

 

          Começo por saudar o coordenador, António Costa Pinto, amigo de muitos anos, e todos os colaboradores deste livro, dizendo-lhes, antes de mais, e com toda a franqueza, que estais perante um erro de casting, e por uma razão muito simples: tendo investigado há uns anos alguns aspectos do salazarismo, não faço investigação há algum tempo nesta área (em bom rigor, em área nenhuma), ou seja, distraí-me, deixei passar este e muitos outros comboios, e há dias, quando comecei a folhear este livro, apercebi-me da complexidade, da diversidade e da profusão de estudos que actualmente existem sobre o Estado Novo, fruto do dinamismo que este campo alcançou, do trabalho das novas gerações de investigadores, cuja precariedade não afectou a qualidade, do nível de internacionalização que aqui se atingiu, existindo muita investigação de estrangeiros ou obras colectivas co-organizadas por estrangeiros.

 

          O estudo do Estado Novo mudou, e mudou muito, sem dúvida para melhor no que ao alargamento de horizontes respeita, e é de elementar justiça afirmar, hoje e aqui, que o principal artífice desta mudança se chama António Costa Pinto.

 

          Trata-se do culminar de uma trajectória por ele iniciada há anos – não diria há muitos e muitos anos, pois o António ainda é jovem – e começada logo nos trabalhos do seu doutoramento em Florença, em 1992. Logo aí, seja no ensaio sobre os «camisas azuis» de Rolão Preto, seja no livro de enquadramento sobre o salazarismo e o fascismo europeu, se notava o propósito de situar o estudo do regime de Salazar num contexto mais vasto, com vista a romper o círculo vicioso em que caíra a discussão paroquial sobre se o regime do Estado Novo fora ou não um fascismo.

 

          Compreender o Estado Novo no ambiente internacional da época, o tempo dos fascismos do entre-guerras, não significa perdoar-lhe os defeitos ou negar-lhe a natureza de ditadura. Eis um caso clássico em que tout compreendre não é tout pardonner, longe disso. Simplesmente, e na peugada daqueles que, em obras notáveis, tinham desbravado os primeiros caminhos para um estudo histórico do salazarismo, de Manuel Lucena a Braga da Cruz, passando por Fernando Rosas ou Fátima Patriarca, importava dar um passo adiante, sem necessariamente ir contra o que já se havia avançado; e esse passo adiante, até por força de ter sido dado por António Costa Pinto numa instituição estrangeira e internacional, passava necessariamente por um esforço comparativo.

 

          António Costa Pinto foi, assim, o primeiro historiador que se debruçou sobre o Estado Novo a partir de fora, duplamente a partir de fora: fazendo-o inserido numa rede internacional de colegas que historiavam os autoritarismos e fazendo-o com o benefício da distância em relação às controvérsias domésticas que radicavam, na maioria das vezes, em apriorismos ideológicos de parte a parte, como, de resto, ainda hoje em dia sucede, aliás.

 

          Para alguns, mais provincianos, tratou-se de um excesso de estrangeiramento, mas o decurso do tempo mostraria que era este o caminho certo, o caminho da internacionalização, que acabaria por se converter no paradigma das ciências sociais portuguesas, porventura excessivamente em certos casos, diria eu.

 

          Este cosmopolitismo deu a António Costa Pinto outra vantagem, tremenda e muito invejada: deu-lhe uma visão distanciada, distendida e complacente em face das misérias do nosso quotidiano académico (que, no entanto, continua a acompanhar com a ávida curiosidade de uma porteira), uma tolerância face às falhas alheias e próprias, uma joie de vivre e um espírito de convivialidade, de amizade, de diálogo aberto e moderação que fazem dele um caso singular da nossa academia.

 

          A preocupação em situar os temas e os problemas em contextos mais vastos, a par dos contactos internacionais que a sua transbordante simpatia foi forjando por esse mundo fora, levaram António Costa Pinto, naturalmente, para os estudos comparatísticos, que desenvolveu não apenas na História, mas noutro dos seus domínios de interesse, a ciência política, de que é exemplo o Oxford Handbook of Portuguese Politics, que coordenou com Pedro Magalhães e Jorge Fernandes e que em breve será publicado entre nós.   

 

E agora, nos seus trabalhos mais recentes, começa a trilhar até caminhos jurídicos, ligados ao constitucionalismo comparado ou àquilo a que pomposamente se chama o interconstitucionalismo.

 

          Ou seja, António Costa Pinto foi o primeiro e o pioneiro no estudo comparado do salazarismo, sendo este livro o culminar desse percurso de três décadas. Mas há, naturalmente, uma evolução notável: enquanto no passado estudou a circulação dos modelos de fora para dentro, ou seja, aquilo que o salazarismo terá recebido do fascismo europeu e dos demais autoritarismos, agora dá-se um passo mais ousado, muitíssimo mais ousado (e até arriscado), que é analisar o salazarismo de dentro para fora, como artigo ou modelo de exportação para outras paragens.   

 

          Como disse, é um passo arriscado e diria até polémico, o que não deixa de surpreender, pois sendo António Costa Pinto tão consensual, tão português suave, acaba por produzir obras que escandalizam. E se no passado escandalizou por, sem quaisquer negacionismos, chamar a atenção para a necessidade de estudarmos o salazarismo na sua época e no ambiente geocultural europeu, agora vai muito mais longe e eleva o Estado Novo a arquétipo e paradigma de autoritarismos da Europa e da América Latina.

 

          Para aqueles que cultivam um tipo de História «militante» que não se destina tanto a estudar o passado, mas a denegri-lo, isto parecerá uma heresia, pois à primeira vista é, digamos, um «ponto a favor» de Salazar, dizendo-se que o seu regime, apesar de provinciano e tacanho, foi apreciado e saudado pelo mundo fora, foi «modelar» no estrangeiro.

 

          Quando pensava na proposta de António Costa Pinto e dos demais autores deste livro, sopesando os seus méritos e os seus problemas, lembrei-me de uma frase de uma escritora britânica recentemente falecida, Hilary Mantel, que teve, se quisermos, uma daquelas intuições femininas de pitonisa, surgidas do nada, situadas fora dos seus campos de trabalho e de escrita, e que também encontramos em mulheres como uma Agustina Bessa Luís ou uma Clarice Lispector, por ex.

 

Dizia Hilary Mantel: «os factos não são a verdade, ainda que façam parte dela. E a História não é o passado – mas sim o método que desenvolvemos para organizarmos a nossa ignorância do passado. É o registo das coisas de que existe registo», da mesma maneira que uma certidão de nascimento não é um nascimento, que um mapa não é uma viagem, que um guião não é um filme.

 

          Ou seja, e sem cairmos num relativismo pós-moderno em que tudo é precário e instável, tudo se dissolve no ar, importa, na verdade, percebermos de uma vez por todas que é tão grande, tão colossal, a nossa ignorância do passado, é tão vasto aquilo que não sabemos e nunca viremos a saber (as conversas telefónicas de Salazar com os seus ministros, as trocas de olhares e o body language nas audiências em São Bento, os bilhetes e os papéis que foram destruídos, o que verdadeiramente sabiam e pensavam os vários actores desse drama pretérito), é tão grande este nosso desconhecimento, dizia, que, na verdade, a História não é uma disciplina de conhecimento, mas de organização de ignorância. E o dia de ontem ou a semana passada não são «História» não por causa de ainda serem demasiado próximos de nós, a eterna questão da «distância», mas por sabermos demasiado como foram o dia de ontem ou a semana passada. Mais do que distância, a História exige ignorância. Caso contrário, será memória, não História.

 

           Vem esta conversa a propósito do presente livro de António Costa Pinto & friends porque, como qualquer livro de História, como qualquer bom livro de História, ele parte da ignorância e, a partir dela, formula uma hipótese. Uma grande escritora russa, Maria Stepanova, autora de um livro deslumbrante há pouco publicado entre nós, Memória da Memória, fala justamente da memória e da História como uma “operação de salvamento”, de resgate, muito na linha daquilo que atrás falei sobre a ignorância do passado. E este livro coordenado por António Costa Pinto, como qualquer bom livro de História, é uma operação de resgate, que extrai do esquecimento dados e informações que de todo ignorávamos, desde logo sobre a vastidão e a profundidade com que o salazarismo foi estudado, ou pelo menos citado, dos dois lados do Atlântico. À excepção de França, pouco se sabia disso e, por isso, este livro é já uma aposta ganha, no que toca ao avanço de conhecimento que traz e partilha. Mas o livro vai mais longe e, a partir desse conhecimento novo, formula uma hipótese, tem uma «tese».   

 

Uma hipótese que deve também ter presente o seguinte: para a reconstrução do passado, importam tanto os factos como o discurso que se fez sobre os factos. Ou seja, se quisermos, os discursos são, ou foram, tão constitutivos da realidade quanto os próprios factos, ainda que, obviamente, em níveis e com incidências diferentes.

 

          No fundo, o «programa» deste livro é um programa de Begriffgeschichte em torno da circulação da ideia de corporativismo, a partir do qual é possível fazer algumas reflexões que, porventura, poderão servir para aprofundamentos futuros:

 

          1 – A primeira tem que ver com a diferença entre factos e discursos, ou seja, mesmo assumindo que os discursos, as ideias, são tão constitutivas da realidade como os factos, são elas mesmas «factos», quando se estuda a circulação de uma ideia e se afirma, ademais, o seu valor modelar ou paradigmático, importa não ver apenas se essa ideia circulou e foi ventilada, citada em escritos de intelectuais ou manifestos políticos; interessa saber se tal ideia ou conceito moldou efectivamente a construção e a prática jurídica de um Estado, impregnou a sua vivência social, dominou o seu panorama intelectual. Que uma ideia circulou, é comprovado por ser citada, falada, discutida etc (e até, se fosse possível, seria interessante fazer uma métrica disso, como nas revistas científicas de agora). Coisa diferente é essa ideia ter valor modelar ou paradigmático, efectiva concretização prática, o que implica ver a influência real e o perfil e o peso das personalidades que a veicularam (os «salazaristas» estrangeiros eram pessoas influentes nos seus países ou intelectuais marginais?), os textos legais, a prática política. Neste livro dá-se esse passo, indo-se da teoria à prática, mas ele deve ser aprofundado em investigações posteriores, até através de um cruzamento com saberes jurídicos que António Costa Pinto, leitor de Mirkine-Guetzevitch, bem conhece

 

          2 – Por outro lado, se usamos este método comparativo, importaria fazer uma «comparação das comparações», isto é, não analisar apenas se o corporativismo salazarista é falado e citado, mas cotejar com a frequência e a influência com que outros também são citados, desde logo o fascismo, mas também outras experiência autoritárias. É que uma coisa é isolarmos o corporativismo salazarista e registarmos o número de ocorrências e citações, outra é colocá-lo ao lado de outros possíveis modelos ou fontes de influência, porventura tão falados ou citados como ele. E há também, como o livro em parte mostra, diversas formas e intensidades de alusão ao salazarismo, ou seja, uma coisa é referi-lo como uma curiosidade interessante, outra é assumi-lo verdadeiramente como modelo ou figurino.

 

          3 – Em terceiro lugar, confesso que a expressão «terceira via» pode merecer reservas, até pela confusão com outras e bem recentes tentativas de third way feitas pelo blairismo. E, mais ainda, porque «terceira via» é demasiado multiforme, como aliás se nota neste livro, pois tanto pode ser uma via intermédia ou um tertio genus entre socialismo e liberalismo, como entre fascismo e comunismo, como entre fascismo e nazismo. Por exemplo, na página 10 deste livro tanto se aponta para uma terceira via entre fascismo e comunismo, como entre democracia  liberal e fascismo, ou seja, é possível e até provável que o corporativismo procure um meio caminho no meio de uma floresta ou galáxia de ideologias, mas devemos ter presente que nuns contextos e numas geografias o corporativismo salazarista foi, como cá, uma terceira via entre liberalismo e socialismo, enquanto noutros terá sido ou poderá ter sido entre liberalismo e comunismo e, noutros ainda, entre liberalismo e fascismo. Ou seja, há contextos em que a «ameaça» do comunismo pode ter sido mais intensa, noutros a mais intensa terá sido o fascismo ou o nazismo (como na Europa ocupada), pelo que se o corporativismo se situa à distância ou à equidistância de dois pólos, interessa saber quais foram.   

 

          4 – Uma outra questão que interessaria analisar é a seguinte: falar com admiração não significa assumir como modelo. Tentando explicar: nos anos 30, o salazarismo foi, do ponto de vista interno, português, uma fórmula de sucesso, pois conseguiu responder às duas maiores ansiedades do tempo – as contas públicas e a paz social -, ou seja, fizera uma «revolução na paz», equilibrando o défice sem greves nem sobressaltos. Se esse sucesso se fez sentir em termos domésticos, garantindo a Salazar o lugar de «mago» ou «ditador das finanças» e um apoio generalizado da população, é mais do que óbvio e natural que o êxito também seria admirado lá fora. Ou seja, este livro não vem descobrir o óbvio, vem apenas atestar a vastidão e a profundidade da admiração que existiu pelo salazarismo e que, aliás, não terminou nos anos 30 (no pós-guerra e no contexto de Guerra Fria, existir uma dictablanda um pequeno país da Europa, sem riscos de comunismo, era uma bênção para personalidades como Eisenhower, o que favoreceu a nossa imediata adesão à NATO. Também Pio XII foi, mesmo no pós-guerra, um admirador de Salazar). Nos anos 30, e como o seu nome é citado no livro, basta lembrar o marechal Pilsudski, quando disse, a propósito dos revoltosos que foram deportados para a Madeira: «abençoado país que tem a sua Sibéria na ilha da Madeira». Quer dizer, e penso que este ponto não é devidamente salientado no livro, num contexto de uma Europa em convulsão, a tranquilidade portuguesa era motivo de admiração. No fundo, aquilo que servira para a propaganda do regime na frente doméstica também o ajudou na frente externa, ainda que, e o ponto é curioso, não tenha existido um especial esforço propagandístico no exterior, isto é, Salazar parece não ter tido grande interesse em exportar o seu figurino.

 

          Além disso, a par da segurança e da paz social (no fundo, como nos dias de hoje, com os estrangeiros que gentrificam Lisboa), também haveria apreço técnico pelo Salazar-economista que pusera ordem nas finanças. E, assim, poderão não ter sido apenas razões ideológicas puras, mas antes a percepção destas duas realidades práticas – ordem nas ruas, contas em ordem – que levaram à admiração pelo regime português. Compreende-se: aos que se amedrontavam perante a violência dos camisas negras ou castanhas, mas também dos comunistas, o corporativismo salazarista era uma escapatória radiosa, luminosa, soalheira e pacata, ademais protectora da fé cristã e dos bons costumes, ou seja, tratou-se muito mais de uma atracção emocional, pragmática, do que uma adesão ideológica a um dado corpo de doutrinas, tanto mais que, no plano doutrinário, à parte umas proclamações retóricas sob o capital e o trabalho e do amparo evangélico da Quadragesimo Ano, o corporativismo não tinha grande elaboração ou profundidade para apresentar. Até por isso, e uma vez que estamos muito, como se disse, no território da história dos conceitos, importaria distinguir com mais finesse noções então convergentes, mas distintas, como corporativismo, reacionarismo, tradicionalismo, conservadorismo.

 

          E, sobretudo, importa separar claramente afirmação e louvor, por um lado, de adesão a um corpo ideológico e a um modelo político, por outro.

 

Um Eisenhower, por exemplo, poderia ficar sossegado com o Portugal de Salazar, mas não o assumiu como «modelo» para a América. Ou seja, é importante fazer a destrinça – que este livro faz, em boa parte, mas não completamente – entre referências laudatórias, expressões de admiração e até fascínio, por um lado, e, por outro lado, assimilação efectiva de uma doutrina e de uma concepção política.     

 

          5 – Sobre esta concepção política, e permitam-me este aparte, poderíamos talvez chegar a uma ideia paradoxal, que era a de julgar que Salazar, que tinha fama de grande realismo político, foi, ao cabo e ao resto, um grande pensador utópico, quase diria um socialista utópico, no sentido de que sonhava com uma utopia corporativa em que capital e trabalho deixassem de se digladiar. Uma utopia que falhou em toda a linha, como se tornou evidente nos anos 40 e 50, quando se fez um balanço nada entusiasmante dos falhanços do modelo, aquilo a que Fezas Vital chamou os «desvios do corporativismo português». Aliás, se atentarmos na discussão na génese da Constituição de 1933, os Integralistas afastam-se de Salazar justamente por esta questão, por ele não ter levado o corporativismo integral até às últimas consequências, nomeadamente quando não consagrou a representação orgânica na Assembleia Nacional e relegou a Câmara Corporativa para um lugar secundário (ao contrário do que ainda se diz, a Câmara Corporativa não era uma segunda câmara de um parlamento bicameral, era um órgão auxiliar de uma assembleia unicameral). 

 

          O corporativismo português falhou, pois isso estava escrito nas estrelas: é que, na teoria e no plano dos conceitos, o corporativismo pressupõe um elevado grau de autenticidade, o que implica que os seus diversos actores tenham autonomia. Ou seja, só há uma duradoura composição de interesses se os diferentes corpos da sociedade e da economia tenham uma independência e uma autonomia pouco compatíveis com a ideia de «corporativismo de Estado», uma contradictio in terminis, e menos ainda compatíveis com uma ditadura. Não é por acaso, que as actuais experiências neo-corporativas de concertação, em regime democrático, são bem mais duradouras e consistentes do que o corporativismo autoritário dos anos 30. Num certo sentido, para que o esquema corporativo possa funcionar exige-se liberdade. Caso contrário, tudo não passa de uma farsa, de um simulacro, coisa de que os diversos intervenientes rapidamente se apercebem. Veja-se, de resto, a ambiguidade de estatuto dos dois esteios do regime, a Igreja e as Forças Armadas: sacerdotes e militares pertenciam a corpos autónomos, com interesses próprios e capacidade de actuação autónoma, ou eram funcionários públicos idênticos aos demais?

 

          Talvez seja demasiado ousado dizê-lo, mas tudo leva a crer que Salazar nunca acreditou no corporativismo e nas suas virtudes. Desde logo, porque aquilo que o levava a descrer da democracia em Portugal era a impreparação dos povos latinos, o seu atraso, muito na linha de vários autores franceses, que enalteciam a qualidade, mas a singularidade irreplicável, da democracia anglo-saxónica. Isto é, se o povo português não estava preparado para a democracia, também não o estava para o corporativismo. E este, ademais, se se desenvolvesse e articulasse verdadeiramente iria ser um sério entrave à dominação que Salazar pretendia imprimir. Ou seja, é muito mais credível que, em lugar de uma utopia com que Salazar sonhou, o corporativismo foi um, mais um instrumento do seu poder, seja como chavão propagandístico, seja como meio de disciplina das forças sociais, dos corpos do Estado, do capital e do trabalho.

 

          Por isso, talvez este livro pudesse ter tido o título «o passado de uma ilusão», como o de Furet, pois tudo indicia que o corporativismo foi mais uma das muitas ficções em que o teatro de sombras do salazarismo foi fértil. E talvez isso explique o pouco empenho de Salazar em exportá-lo ou apresenta-lo ao mundo. E talvez isso leva à conclusão de que, á semelhança de muitos portugueses, em que se destacavam jovens ardentes como Marcello Caetano e Pedro Theotónio Pereira, os «intelectuais-políticos» católicos de vários países foram enganados pelo «manholas de Santa Comba». Ao contrário do que dizia Manoieluscu, outro dos enganados, o corporativismo português não era «autêntico» nem «sério». Porquê? Porque «pluralismo limitado» é coisa que não existe: a partir do momento em que se consente o pluralismo, este adquire uma dinâmica que não consente limitações.  

 

          O produto que compraram estava avariado, tinha um defeito congénito, de fabrico, a falta de liberdade política, económica e social, pelo que não estranha que, apesar de muito louvado por leigos e membros da Companhia de Jesus, o modelo salazarista nunca frutificou verdadeiramente em lugar algum.

 

          Daí a abissal distância entre a grandeza da promessa e a sua nula concretização, entre a teoria aclamada e a prática depois vivida, entre as ideias e os factos, os discursos e as realidades.

 

          Ainda assim, e enquanto artificio ideológico e encenação verbal, foi uma indiscutível trouvaille no áspero e conflituoso panorama doutrinal dos anos 30. Se não garantia a salvação dos povos, adiava a solução dos problemas, dissimulava as falhas, camuflava aspirações insatisfeitas de operários e de patrões, da pequena e da grande burguesia, dos corpos intermédios da sociedade e do Estado. Quem conseguisse passar a tormenta da luta épica entre fascismo e comunismo, poderia pensar depois como iria resolver o dilema, o insolúvel dilema, entre corporativismo social e ditadura política. Quase todos os que seguiram o «modelo» de Salazar acabaram por soçobrar. Ele, sobreviveu.     

 

          E é também a história dessa sobrevivência – ou, como agora se diz, dessa resiliência – que se adivinha e pressente em cada página deste livro, uma das obras mais importantes e desafiantes que nos últimos anos se têm publicado sobre o Estado Novo do dr. Salazar.

 

          Muito obrigado. 



António Araújo

 








sexta-feira, 7 de outubro de 2022

O Estado Novo em que os intelectuais não eram espancados, mas altamente vigiados, silenciados.

 






Brandos Costumes… O Estado Novo, a PIDE e os intelectuais, com coordenação de Luís Reis Torgal, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2022, é um livro que resulta de um projeto de investigação que pretende desvelar o comportamento da polícia política e da censura do Estado Novo face a intelectuais que não eram nada amáveis com o regime forjado por Salazar. O coordenador fala-nos na introdução dos brandos costumes dentro do pensamento único exigido pelo ditador, como funcionavam os órgãos repressivos desse regime, como vigiava a PIDE quem afrontava ou procurava desmitificar a ditadura, chamasse-se Aquilino Ribeiro ou Soeiro Pereira Gomes, Amílcar Cabral ou Agostinho Neto. Há a preocupação de lembrar o papel da Censura, ela definia os livros cuja circulação era proibida, uma lista farta, incluía obras revolucionárias, obras que abordavam o comunismo, livros de teoria política como os de Maurice Duverger ou Raymond Aron, a obra de Sartre ou Simone de Beauvoir, não faltavam os portugueses como José Vilhena, Natália Correia, Manuel Alegre, como também algumas obras de Jorge Amado. E todos aqueles que assinavam documentos de índole política apelando à libertação de presos ou à reposição das liberdades de expressão iriam ter uma vida menos fácil.

Tomás da Fonseca, que para muitos era o Tomás das Barbas, escritor anticlerical em a quem se deve talvez o libelo mais demolidor sobre as aparições de Fátima, era alvo das atenções da PIDE, teve muitos livros apreendidos, a polícia tratava-o como simpatizante do PCP, que em todos os seus interrogatórios Tomás da Fonseca negou, a despeito das ligações fraternas que manteve com comunistas e companheiros de estrada. O seu funeral foi alvo de relatório da polícia secreta, não se escondeu que chegou um cortejo automóvel com cerca de 100 viaturas ao cemitério de Mortágua onde o esperava uma multidão de 800 a 900 pessoas. Aquilino Ribeiro também não foi poupado, se bem que um dia Salazar lhe tenha tecido elogios, quando um jornalista francês que lhe pediu para conhecer a realidade nacional, o ditador respondeu: “Comece o seu inquérito por Aquilino. É um inimigo do regime. Dir-lhe-á mal de mim, mas não me importa: é um grande escritor.” Acontece que Aquilino era alvo de admiração de pessoas como Marcello Caetano, Santos Costa, António Ferro, Caeiro da Mata, Rafael Duque, incondicionais do salazarismo. O ensaio sobre Aquilino aborda o processo da rotura de Aquilino com o regime, a fúria com que foi recebido o romance Quando os Lobos Uivam, refere como Aquilino era indiciado por vários delitos, tais como: fazer perigar o bom nome de Portugal, bem como o crédito e o prestígio do Estado português no estrangeiro; fazer a apologia de crimes contra a segurança do Estado; injuriar e ofender o Presidente do Conselho e os demais ministros, etc., etc. Nem mesmo a sua indigitação para o Prémio Nobel da Literatura acalmou a vigilância da PIDE. Com Ferreira de Castro, talvez por ser ao tempo o escritor com mais traduções, a repressão era selecionada, a PIDE considerava-o “desafeto ao regime”, sabia-se das suas ligações aos intelectuais de oposição, mas salvaguardavam-se as distâncias, Ferreira de Castro era nome sonante na literatura internacional, temia-se o ridículo pondo no Índex qualquer uma das suas obras.

Situação execrável foi o processo de Andrée Crabbé Rocha na PIDE. O marido, Miguel Torga, sempre recusou enviar as obras à censura prévia, a polícia política sentiu-se afrontada, Torga conheceu a cadeia do Aljube, livros queimados, apreendidos, proibidos. Andrée Rocha foi demitida da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1947 e cinquenta anos depois partilhou no Expresso as suas memórias: “[…] nunca nas minhas aulas de literatura portuguesa e de literatura francesa falei em política. Talvez tivessem descoberto que eu era mulher de Miguel Torga. […] nada pude fazer em relação à decisão. Passados 2 anos, abriu um concurso para professor extraordinário em que era necessário apresentar um trabalho. Preparei um sobre o Cancioneiro Geral de Garcia Resende. No dia das provas recebi um ofício da reitoria a dizer que não as podia prestar. Solicitei durante 21 anos a realização da prova, e durante todo este tempo me foi recusado. Fui obrigada a dar lições particulares em Coimbra, para onde me mudei, e frequentei outro curso, que me permitiu dar aulas em colégios particulares. Mas em 1955, até esse diploma me tiraram”. Andrée Rocha era classificada na PIDE como mulher do comunista Torga, só pôde retomar funções universitárias na Faculdade de Letras de Lisboa em março de 1970.

O percurso de Soeiro Pereira Gomes foi a de um regente agrícola que foi viver para Alhandra e se tornou empregado de escritório na fábrica Cimento Tejo, cedo se comprometeu com o ideário comunista, movia-se pela vontade de proteger os humildes, como é explícito na sua obra maior Esteiros, a vida de crianças conduzidas ao duro trabalho naquela região ribatejana. A PIDE tinha-o sob vigilância, ele teve um papel de grande importância na greve dos operários daquela fábrica, Soeiro teve que fugir, vai conhecer a clandestinidade mais dura, é um intelectual comunista. Esteiros recebeu mesmo elogios de Marcello Caetano, é obra escrita em 1941, havia uma réstia de esperança na vitória dos Aliados e que esta comportaria a queda do regime de Salazar. Dado curioso, a obra foi lida e autorizada pelo tenente-coronel Salvação Barreto, diretor da Censura, muitos anos depois esta mesma Censura considerou que o livro deveria ter sido proibido quando apareceu, “mas agora deve ser ignorado”, pois que a proibição agora só serviria à sua propaganda no nosso meio”. O escritor, agitador e quadro de topo do PCP morreu muito novo, em 1949, conceituados escritores como Ferreira de Castro reconheciam o seu imenso talento.

O leitor encontrará ainda nesta obra trabalhos bem elucidativos sobre a vigilância da PIDE a Fernando Namora, Jorge de Sena, as obras teatrais, o trabalho dos informadores da polícia política, as péssimas relações de figuras da Igreja Católica com o Estado Novo a partir da década de 1960, a PIDE no encalço de Agostinho Neto e Amílcar Cabral. Luís Reis Torgal não deixa de referir na conclusão que não passou de um mito a ideia de intolerância branda, e se é certo que a ação policial da PIDE não é comparável com os sistemas racistas e antissemitas ou com as práticas da violência sem limites no estalinismo, o regime de Salazar quis-se intransigente, perseguindo ou asfixiando as ideias e práticas anarquistas e comunistas, mas também as simplesmente liberais, católico-progressistas ou até monárquicas; e a guerra colonial veio a justificar a permanência dessa repressão deixando bem claro que isso dos brandos costumes não passou de um mito.

A pedir leitura urgente. 



Mário Beja Santos