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sábado, 14 de março de 2020
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
O problema do plinto em acrílico.
No
ramo do humor negro, I-Nova, a
publicação semestral da Servilusa, é a melhor revista nacional. Disponível em
velórios, funerais, trasladações e outros actos lutuosos, I-Nova traz-nos o quotidiano dos trabalhadores da empresa (como
Hugo Sales, praticante de crossfit,
no sector funerário desde 1998) e grandes exéquias de maior aparato. No nº
23 da revista, a reportagem «Making of Eusébio no Panteão Nacional».
Vamos a factos: 2 técnicos de cerimónia, 3 técnicos assistentes, 4 operacionais
de exumação, 6 operacionais de trasladação, 2 operacionais de armar e desarmar
o material. Em nossa humilde opinião, «operacional de armar e desarmar o
material» não soa assim lá muito profissional; proporíamos, por exemplo,
«operacional de montagem de material», mas é só uma sugestão que aqui fica ao
cuidado da Servilusa, que é muito e eterno. Para a trasladação de Eusébio foram
ainda utilizadas 2 urnas (uma em madeira e outra em zinco) e 4 essas (uma de
madeira, para o cemitério do Lumiar; uma de acrílico, para o Seminário da Luz,
sempre preterido nestas questões; duas douradas para o interior e para o
exterior do Panteão Nacional).
Com
tanto técnico e tão bom material, os resultados ficaram à vista, armada e desarmada.
Como diz o
texto da Servilusa, que passamos a citar:
«A perfeição pode não existir, mas estes
profissionais asseguram que a equipa não tem outra meta. Além dos inúmeros
ensaios no terreno, a Servilusa introduziu outras inovações neste serviço. Quem
assistiu à cerimónia no Panteão Nacional poderá recordar-se do plinto em
acrílico quer serviu para colocar as condecorações de Eusébio. Uma estrutura
inovadora que permite colocar a tradicional almofada, mas com mais
estabilidade. Da mesma forma – já não é uma novidade –, a bandeira nacional
voltou a ter chumbos nas pontas para não voar. E os leões dourados, à
semelhança do funeral, tiveram de ser retirados das essas.
Milhões de pessoas viram
a cerimónia da concessão de honras de Panteão Nacional a Eusébio. Algumas terão
percebido que, ao contrário do que foi dito pelas televisões, quem transportou
sempre a urna até ao Parque Eduardo VII não foi a GNR, mas sim os profissionais
da Servilusa. Esses momentos ficarão gravados na história, mas também no
progresso da empresa. Depois de desligar as câmaras, os microfones e os flashes, a equipa volta à sala de reuniões para o debriefing. O propósito? Fazer ainda melhor próximo serviço».
É
também esse o nosso desejo. Um bom serviço, Servilusa. E muitos parabéns pelo plinto em acrílico. Como bem dizem, foi uma «estrutura inovadora» que, sem dúvida, conferiu maior estabilidade à tradicional almofada. Mais ainda: ao contrário das insídias propaladas pela imprensa televisionada, não, não foi a malandragem da GNR que transportou a urna de Eusébio até ao Parque Edurado VII. Foram os diligentes, competentes e muito profissionais senhores exumadores da Servilusa. Essa é a verdade histórica. É essa a verdade verdadinha, que tem de prevalecer contra todas as formas de desinformação e intoxicação da opinião pública.
segunda-feira, 18 de abril de 2016
Evocação de Eusébio.
Manchester, Connecticut, USA, 5
de Janeiro de 2014
Faleceu hoje, pelas três e meia da manhã, hora de
Portugal, com 74 anos de idade, o maior futebolista português de todos os
tempos e um dos maiores futebolistas do mundo: Eusébio da Silva Ferreira,
conhecido simplesmente como Eusébio, e carinhosamente alcunhado de Pantera
Negra.
A razão de evocar neste meu Diário a memória do Eusébio
deve-se ao facto de ter confraternizado com ele numa inesquecível passagem de
ano. A data precisa desse acontecimento, tão vivo na minha memória, confesso
que a não lembro. Sei unicamente que foi nos anos noventa, quando me encontrava
a passar as férias de Natal em Portugal, meu país de origem, no meu condomínio
do Estoril.
Era a festa de Fim do Ano e eu, aborrecido de estar em
casa sozinho, decidi ir abrandar a onda de melancolia que me invadira ao Casino
do Estoril, a cinco minutos a pé do meu condomínio.
Como vivi dois anos da minha vida na cidade de Reno, no
Estado da Nevada, na qualidade de professor de Espanhol, Francês e Latim da
Universidade da Nevada, onde tive ocasião de ver, ao vivo, os melhores
cantores, comediantes, pianistas, bailarinas, orquestras ligeiras, bandas,
conjuntos de jazz e espectáculos de variedades de toda a cor e feitio, nunca
mais tive o mínimo interesse em assistir a espectáculos dessa natureza em
qualquer casino deste mundo ou do outro. E, sendo assim, entrado no Casino do
Estoril, dirigi-me imediatamente para a sala de jogos e sentei-me a uma mesa de
black jack em que as apostas eram as
mais baixas possíveis, pois o meu capital era o de um mero professor
universitário e o meu interesse era puramente distrair-me durante as horas
dessa noite de Fim de Ano, a custo mínimo, sabendo como sabia, por experiência
própria, vivida e sofrida, que a casa ganha quase sempre, aprendizagem feita
nos casinos de Reno.
Pouco tempo tinha passado quando vejo sentar-se a essa
mesa de back jack dos jogadores
pobres o Eusébio. A vender alegria e bom humor, de copo na mão, começou por
cumprimentar efusivamente o dealer e
todos os jogadores. Sabendo eu que, quando lhe faltaram as pernas e as energias
para continuar a representar as cores do Benfica e da Selecção Portuguesa, ele
tinha passado vários anos a jogar em equipas de futebol americanas, fiz questão
de me apresentar a ele em termos formais, por nunca o ter visto senão na
televisão, dado não ser do meu feitio assistir pessoalmente a eventos
desportivos. E ciente, como não podia deixar de ser, do que ele era e
representava no mundo do futebol, sempre que um estrangeiro se sentava à nossa
mesa de jogo ou por ela passava para contemplar o espectáculo – e vários foram
os que o fizeram pela noite fora –, eu apresssava-me a apresentar-lhes o
Eusébio como o melhor futebolista português de todos os tempos e um dos
melhores do mundo, e o Eusébio, com a simplicidade de uma criança e com um
sorriso contagiante, apertava fortemente e feliz a mão a todos esses novos
admiradores.
Como praticamente aconteceu com todos os que optámos por
celebrar a passagem de ano sentados a uma mesa de black jack, também o Eusébio perdia mais que ganhava. Jamais
poderei esquecer que, com a sua boa disposição nata e com o seu estatuto de
vedeta e celebridade, a que justamente tinha todo o direito, sempre que perdia
duas ou três vezes seguidas, o que sucedia com mais frequência que a desejável,
tomava a liberdade de brincar com o dealer,
chamando-lhe os nomes mais coloridos, condimentados com uma grande gargalhada,
de que todos nos fazíamos eco.
E foi nessa atmosfera de festa e de sã alegria que o
lendário Eusébio nos proporcionou, com o seu óptimo feitio e com o seu genuíno
bom humor, que eu tive a dita de celebrar a festa de Fim de Ano, sentado a uma
mesa de black jack, no Casino do Estoril, num Ano do Senhor
que lamento não poder precisar.
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Fotografia de Amadeu Ferrari
|
Eusébio amigo, neste momento em que evoco, com saudades,
a tua memória nas páginas do meu Diário
e te desejo o eterno repouso no seio do Senhor, atrevo-me a rogar-te que não te
esqueças de ensinar aos anjos e aos santos da Corte do Céu os rendilhados
primorosos, incomparáveis e mágicos do teu futebol e os teus chutos fulminantes
e de os contaminares com o teu sorriso espontâneo e contagiante e com as tuas
gargalhadas de eterna criança.
António Cirurgião
segunda-feira, 6 de julho de 2015
Um futebolista no Panteão Nacional.
Eusébio da Silva Ferreira
(Moçambique, 1942 – Lisboa, 2014), jogador de futebol no Sport Lisboa e Benfica
desde 1960 a
1976, foi 64 vezes internacional, tendo uma estátua sua diante do Estádio da
Luz, em Lisboa. Ganhou
a Bota de Ouro pela sua actuação no campeonato do mundo de futebol (1966). Era
conhecido pela sua velocidade, técnica e poderoso remate do pé direito. A sua
autobiografia, redigida pelo jornalista Fernando F. Garcia, foi publicada em
1967 em português e traduzida em inglês com o título de My Name is Eusébio (Londres, Routledge & K.Paul, 1967),
ajudando o regime salazarista a servir-se do álibi de que esse jogador negro
seria a prova da nossa alegada ausência de racismo colonialista. Alcunhado de
“Pantera Negra”, na sua morte foi decretado luto nacional por três dias.
Depois do 25 de Abril, a
urna com os restos mortais de Eusébio receberia a excessiva e anómala homenagem
de ser levada numa charrete puxada a cavalos, do cemitério do Lumiar, onde
jaziam desde 2014, para o Panteão Nacional, em 3-VII-2015, após um extenso
desfile fúnebre, passando pelo parque Eduardo VII e pela Assembleia da
República, em cerimónia de grande pompa, trasladação acompanhada por forças da
PSP e da GNR. [1]
O decreto instituindo a
finalidade da panteonização fora definido pela Lei nº 28/2000, onde se lia que
esse acto se destinava “a homenagear e a perpetuar a memória dos cidadãos
portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao país, no exercício de
altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura
portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa de
valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da
liberdade.” Em nenhuma destas linhas do diploma se pode incluir o caso em
apreço, já que um jogador de futebol, mesmo venerado pelas turbas dos seus
admiradores, não cabe nestes excelsos parâmetros que definem a relação entre o
Poder político e a Glória nacional, o apreço de um país e a acção de um dado
indivíduo, neste caso um simples jogador de futebol, mesmo que muito idolatrado
nesse campo, pelo que Eusébio não chegou de modo algum às alturas que o tornassem
digno de ser levado para o Panteão.
O facto de a sua panteonização
ter sido aprovada por unanimidade dos legisladores só prova que um acto de reconhecimento
público e consagração cívica desta importância pode ser decidido de modo
unânime por uma multidão de cegos voluntários, incapazes de compreenderem que o
famoso jogador nascido em Moçambique nada tem a ver com a gloriosa dimensão de
outras figuras, culturais ou políticas, acolhidas ou túmulos ou cenotáfios no
templo católico de Santa Engrácia, em l.isboa, tornado desde 1966 templo da
memória nacional, ou, a partir dos
finais século XIX, no Mosteiro dos
Jerónimos, em Belém, em redor dos seus grandes homens representativos que essa
mesma grei reconhecia e acarinhava como os seus majores, vultos como Camões (panteonizado em 1880), Garrett, Herculano, João de Deus, Arriaga,
Sidónio Pais, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque e,
depois do 25-IV-1974, Humberto Delgado, Amália, Aquilino e Sophia de Mello
Breyner. [2] O
referido diploma de 2000 não parece ter sido tomado a sério pelos deputados
então eleitos que o aprovaram, muitos dos quais seriam os mesmos que o tinham
redigido década e meia antes, o que parece indicar que quem legisla sobre as
funções da Memória parece sofrer de uma imperdoável amnésia.
Esta panteonização de um
futebolista, além de ser redutora das demais formas de desporto entre nós praticadas
− porque esquecer os ciclistas, os atletas, os jogadores de hóquei em patins ou
os(as) maratonistas? − comprova ainda
que, no amnésico Portugal pós-Abril, a noção de lídima Memória nacional tem
mais a ver com o aberrante e sem dúvida excessivo destaque psicológico e
mediático que o mundo do futebol ocupa na nossa sociedade e no nosso imaginário
do que com legítimas noções de verdadeira Glória que nos merecem os nossos
Maiores. Num país acéfalo onde a imprensa desportiva diária, consagrada ao omnipotente
jogo da bola, é tão (ou mais) importante que a demais imprensa de informação
política ou económica, já sem falar de uma televisão que abre os telejornais dando
primazia ao noticiário do futebol sobre a demais informação mediática, tanto
nacional como mundial, se compreende que a deplorável transferência dos restos
mortais de um futebolista para o Panteão se faça sem atender aos grandes vultos culturais de escritores,
artistas das mais diversas artes (cinema, teatro, cinema, artes plásticas),
vultos científicos, políticos ou militares, etc. Em vão se procuraria entre os já
panteonizados os corpos de Egas Moniz, Miguel Torga, António Silva, Manoel de
Oliveira, António Sérgio, Mouzinho da Silveira e tantos outros, já que, em vez
deles, está desde há dias o cadáver intruso de um futebolista.
João Medina
[2]
Veja-se, no vol VIII da História de
Portugal (Ediclube, 1993, pp.283-311),
o nosso texto “O Poder e a
Glória: o Panteão português desde o Liberalismo aos nossos dias”.
segunda-feira, 29 de junho de 2015
O meu herói Eusébio.
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| Fonte: http://tertuliabenfiquista.blogs.sapo.pt/1224138.html |
Como calculam, tendo nascido em 1973 não tive a sorte de
ver Eusébio jogar num estádio. Mas, tal como eu, muitos portugueses que nunca viram o «Pantera Negra» receberam a notícia
da sua morte com profunda tristeza. As reacções à sua morte ultrapassaram
fronteiras e vieram de todos os lados. A imprensa britânica foi particularmente enfática lembrando sempre aquele que foi o melhor jogador do Campeonato de 1966. Entre nós a morte de
Eusébio foi seguida de um raro momento de convergência entre todos os clubes e adeptos.
A explicação é óbvia: Eusébio foi um dos melhores jogadores do mundo e de
sempre. Esta convergência também abrangeu a Assembleia da República que decidiu
transladar os restos mortais de Eusébio para o Panteão Nacional.
Eusébio foi um craque num tempo em que o futebol não
tinha ainda atingido o estatuto de «fenómeno» mundial. Assim Eusébio foi um
pioneiro tal como outros grandes jogadores como Alfredo Di Stéfano ou Ferenc
Puskás. E aqui estamos perante uma encruzilhada fundamental: como manter viva a
memória de grandes jogadores pré-holofotes? Hoje em dia acompanhamos os jogos e
a vida dos jogadores de forma instantânea e temos a sorte de poder ver todos os
jogos a nível de clube e selecção na televisão. Sabemos tudo sobre um jogador
cuja vida é constantemente «vigiada». Sabemos até demais. E assim como
transmitir a um miúdo que todos os dias «acompanha» Messi e Cristiano o que foram
estes grandes jogadores?
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| Fonte: http://www.dw.com/overlay_media/eus%C3%A9bio-o-primeiro-rei-africano-do-futebol/g-17343296 |
Para além do papel crucial das federações nacionais e dos
clubes destes craques eu diria que o papel fundamental cabe a todos os que
gostam de futebol. Por exemplo, eu diria que não se consegue explicar o que é a
identidade do Real Madrid sem se ver Di Stéfano. E como transmitir aos mais
novos o que foi o calibre de Eusébio? Há muitos momentos que poderíamos destacar mas penso que a escolha acabaria por recair sobre
aquele jogo entre Portugal e a Coreia do Norte. Porque foi mais do
que um jogo, foi um hino à luta, à resistência e ao não baixar os braços. Eusébio
foi um super-herói.
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Fonte: http://www.dw.com/overlay_media/eus%C3%A9bio-o-primeiro-rei-africano-do-futebol/g-17343296
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Bem sei que categorizar Eusébio como um herói ou um
«artista» não é totalmente consensual. Quando morreu tivemos quem
destacasse a sua «pouca cultura». Confesso que não tenho paciência para o
argumento pseudointelectual que se resume a «mas é só um jogador de futebol» e
à clivagem entre o que é «intelectual» (e é claro «superior») e o desporto como
meramente «físico» e é claro muito «simples».
Eu argumentaria que «ler» o futebol assim é redutor e
superficial. Ver hoje em dia, por exemplo, uma final da Liga dos Campeões com
toda a preparação física, mental e sobretudo táctica é impressionante e
inesquecível.
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Eusébio, tal como outros craques, elevou o futebol a um estado de perfeição e os seus jogos e golos são verdadeiras obras de arte ou como diria Camões «obras valerosas». E assim se foi «da lei da Morte libertando» e ultrapassou fronteiras. Deixou de ser nosso e tornou-se um português do mundo.
Lembro-me quando perguntei ao meu avô o porquê da sua admiração do Eusébio. A sua resposta foi imediata: «Eusébio só nos deu alegrias mesmo quando chorou e nós chorámos com ele. E em tempos difíceis e sombrios fez-me sorrir. É um dos meus heróis.»
E foi assim que a «minha» descoberta do Eusébio começou.
Raquel Vaz-Pinto
quarta-feira, 22 de abril de 2015
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Sob o signo de Eusébio.
Pouco
ou nada entendo de futebol. Penso que isto não me diminui nem me favorece. Tudo
o que se conhece e se sabe é enriquecimento. Mas poucas devem ser as pessoas com
capacidade e tempo suficiente para atender todas as solicitações que a vida
moderna lhes oferece. Enfim, pertenço àqueles que não veem desafios de futebol,
nem nos estádios nem na televisão, aliás coisa que não possuo. Apesar disso
voltei duma viagem ao estrangeiro com a sensação de a ter feito sob o signo de
Eusébio.
Foi
na última semana de Julho que passámos a fronteira da França para a Alemanha. O
funcionário, ao revistar os nossos passaportes, exclamou:
−
Portugueses? Bravo! Eusébio! Eusébio!
Olhámo-lo
com estranheza. Não compreendíamos tal manifestação. Vendo-nos assim,
estupefactos, tornou-se ainda mais barulhento, quase tanto como os turistas
alemães que viajam em magotes compactos por este mundo fora:
−
«Messieurs! Señores! Verstehen Sie nicht? Eusebiio!»
E
ilustrou a palavra com o gesto de um pontapé no ar.
Ah,
o Eusébio! Pois claro, claro! Oferecemos-lhe um sorriso: quem não conhecia
Eusébio?
Numa
pequena estalagem de Estugarda, onde entrámos à hora do jantar, perguntámos à
dona se não nos podia arranjar alguma coisa para comer. Estava a ver, na
televisão, o desafio entre Portugal e a Rússia. Apontou, sorrindo, para o
Eusébio e despachou-nos, rapidamente, com a desculpa de que pouca coisa tinha
na despensa – na melhor das hipóteses, umas fatiazinhas de chouriço e pão – e
que, se descêssemos a rua e atravessássemos a avenida, encontraríamos um bom
restaurante. Era óbvio que não se queria privar do espectáculo.
A rua e a avenida estavam despovoadas.
Coisa estranha na cidade de Estugarda, àquela hora. Provavelmente, a população
encontrava-se absorvida pelo desafio. O bom restaurante era uma cervejaria.
Também ali se estava a ver o jogo; e nós, enquanto comíamos, víamos também. O
locutor salientava alguns nomes com nítido carinho. Entre eles o de Eusébio. E
os fregueses da cervejaria repetiam, com o mesmo carinho:
– Eusébio, Eusébio…
Depois, numa outra cidade da Alemanha.
Assistíamos a uma comemoração particular, num hotel de primeira. Havia mais de
cem convidados, entre os quais representantes do governo, de vários organismos
oficiais, de corporações, etc. Felicitaram-nos pela nossa bela equipa de
futebol e, sobretudo, pelo Eusébio. Um velho conhecido – aliás bastante racista
no que respeita aos negros, o que nos levava muitas vezes a ardentes discussões
– confessou que sentia uma verdadeira ternura por «esse moço, esse Eusébio».
E, no fim do banquete, mal tinham
acabado os brindes, numeroso grupo correu para a sala onde havia um aparelho de
televisão a fim de assistir ao desafio Portugal-Inglaterra.
Na Áustria, no hall do nosso hotel, travei conversa com um engenheiro checo.
–
Portugal? – cismou – Mas eu sei alguma coisa de Portugal!
– Talvez tenha lido um livro, um
artigo? Ou visto um filme? – ajudei.
Não, não tinha. Meti, então, um pouco
hesitante:
– Eusébio?
– Isso! – exclamou. – Eusébio, que
grande artista! O rei do futebol. Uma maravilha!
Na pacata Suíça, onde bem se pressente
que os trabalhadores estrangeiros – e entre os portugueses – não são lá
grandemente estimados, vi muito suíço desconsolado com a vitória final da
Inglaterra. Também ninguém queria que os alemães tivessem ficado em primeiro
lugar, não; quem devia ter ganho era a simpática equipa portuguesa, com aquele
grande virtuoso do jogo, o Eusébio. Que pena!
Em Zurique, um motorista de táxi
perguntou-me se eu alguma vez vira Eusébio. Disse-lhe que sim, ainda há pouco,
na televisão, em Estugarda.
– Mas nunca o viu em Portugal? – perguntou.
– Não, não tenho televisão em casa.
Insistiu:
– O que queria saber é se já o viu em
carne e osso.
Tive de o desiludir: não, nunca o vira
em carne e osso e, para me justificar, expliquei-lhe que vivia no Porto e ele
em Lisboa.
– Mesmo assim… – retorquiu com certa
estranheza.
Podia reproduzir mais conversas no
género, mas o espaço concedido a um artigo deste teor não mo permite. Devo só
confessar que, por várias vezes, me senti deslocada neste mundo por não saber
falar com desenvoltura e entusiasmo sobre futebol e sobre Eusébio.
Mea
culpa.
Ilse Losa
In:
Diário Popular, de 6 de Outubro de
1966
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
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