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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Recriações periódicas - 2

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São José Correia com Dominique Ingres

Paula Lobo Antunes, a Gioconda

Diogo Amaral como Van Gogh


João Lagarto, a.k.a Rembrandt



Paulo Pires, o Pessoa de Almada


Catarina Wallenstein de brinco de pérola



Joana Seixas como Frida Kahlo






Uns meses depois de o El País ter feito a reportagem de que falámos aqui, a revista Sábado apresenta agora uma produção do Estúdio Manobras d’Arte, com imagens do fotógrafo Carlos Ramos. Dir-se-ia que não fomos originais… Mas, de facto, neste mundo de recriações não é assunto que nos deva preocupar. A produção lusitana em nada ficou atrás da sua congénere castelhana. Isto anda tudo ligado, como diria o saudoso Eduardo Guerra Carneiro. A frase, aliás, não é da sua autoria, o que é uma prova suplementar de que isto anda mesmo tudo ligado.





domingo, 27 de maio de 2012

Recriações periódicas - 1

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Velázquez, El Díos Marte, por Quim Gutiérrez

Elisabeth Vigée Le Brun autoretratou-se. Aitana Sánchez-Gijón reinterpretou

La Condesa de Chinchón, de Goya, interpretada por María León

El Caballero de la Mano en el Pecho, de El Greco, pela mão de Juan Diego Botto

Retrato da Rainha Maria Tudor, de Antonio Moro, na encarnação de Blanca Portillo 

Auto-retrato de Dürer, por Jan Cornet

Paco León e Caravaggio, Baco Doente

Leonor Watling como Dama do Arminho, de Leonardo

Francesc Colomer em Muchacho con Pipa, de Picasso


Julio Romero de Torres, La Chiquita Piconera, reinterpretado por Macarena Gómez





Temos insistido: Malomil adora recriações, manipulações e outras ilusões. Na cultura ocidental, tamanha é a degradação alcançada, nada é criado ex novo. Esfumam-se também as fronteiras entre cultura erudita e cultura popular.  E, claro, isto anda tudo ligado. Há uns meses, mais precisamente a 4 de Março, a revista semanal do El País publicou, com honras de capa, um projecto fotográfico de Manuel Outumuro em que actores espanhóis surgiam em quadros célebres. Atenção, o fotógrafo não se limitou a fazer um trabalho de Photoshop. Os cenários foram construídos para reproduzir exactamente os quadros, com vestes criadas com arte e minúcia por María Araujo. Não são fotografias que querem parecer quadros, mas quadros fotografados. Isto é light, sem dúvida. Mas mal, não faz. Se querem coisas doentias e horríveis, neste pachorrento domingo, mergulhem no universo de vómito e sangue do esquizofrénico Nebreda. Muito apreciado em França, mais do que na sua Espanha natal, o eterno automutilado Nebreda é uma viagem sem retorno. Isto, que publicamos hoje, não faz mal a ninguém. Bom domingo.    

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Retrato: Kurt Masur.


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Quem é Kurt Masur? Quem é o homem que levantou a voz e foi seguido por dezenas, por centenas de milhares de alemães de Leste? Um líder? Um político? Um oposicionista com anos de cadeia e de sofrimento acumulados?

Não. Kurt Masur é um maestro: “ - Sou em primeiro lugar e acima de tudo um maestro e um músico. Só sou um político contra a minha vontade.”

No entanto, em 1989 e 1990, em Leizpig e na RDA, as ovações que recebia sempre que se apresentava com a sua orquestra, mesmo antes do concerto começar, pareciam mais próprias de um comício do que de um concerto. Era a época em que a reunificação era apenas uma hipótese e Masur era o mais provável Vaclav Havel da RDA: o primeiro Presidente da República em democracia. Mais tarde, em 1993, o seu nome também foi seriamente considerado para Presidente da Alemanha.

Como é que este homem, que começou por ser membro da Juventude Hitleriana e que, de seguida, conviveu, aparentemente de modo pacífico, com o poder comunista na RDA, despertou? E que sortilégio fez com que tivesse um papel decisivo na crise terminal da RDA?

Ao contrário de muitos alemães do Leste, Kurt Masur resolveu ficar na sua terra. Tornou-se um maestro com grande notoriedade. Convenceu o camarada Honecker a investir a única sala de espectáculos de música clássica construída na RDA. Convidou Honecker, e os demais dignitários do regime, para a inauguração da sua Gewandhaus. E, após a queda de Honnecker, escreveu-lhe uma carta a agradecer o que este tinha feito pela sua orquestra e pela sua cidade.



No seu trajecto, contudo, algo o tornou muito forte. Tão forte que suportou a opressão. Tão forte que o tornou de tal modo destemido que não mais tinha medo: “Nenhum medo e medo de ninguém: nem da CIA americana, nem do KGB soviético. É um sentimento maravilhoso.”
 

Aos 16 anos

1946

Aos 27 anos

1957

Muito novo, combateu sem desfalecimento na defesa até ao último homem de uma ponte na retirada alemã da Holanda, acabando por ser aprisionado pelos Aliados.

Jovem músico prometedor, é convocado pelo comité central do SED para uma sessão na qual, na presença de homens da cultura, Walter Ulbricht arenga sobre o dever de todos os artistas de servir o realismo socialista. Quando lhe solicitam uma resposta, afirma: “Depois do que disse, o diálogo não é mais possível.” Entra no índex. De 1964 a 1967, não tinha orquestra nem lhe foi permitido trabalhar no ocidente. Passou dificuldades, vendeu o carro para sobreviver. Mas não desistiu. Convidado para dirigir o “Lohengrin” em Veneza, aceitou, mesmo estando-lhe vedada a saída do país. Contactou o Ministro da Cultura e disse-lhe que, se fosse necessário, faria a viagem mesmo sem autorização e que, se algo lhe sucedesse na fronteira, a culpa seria do Governo. No dia seguinte tinha a autorização para sair. E voltou.






Em 1972, sofreu um acidente de viação onde morreram os dois ocupantes da outra viatura. Dentro do carro em chamas, debaixo de si, agonizante, a sua mulher. A filha, de cinco anos, diz-lhe: “Papá, a minha boneca está tão suja!” Tentado a desistir, salvaram-no a filha, os músicos da Gewandhausorchester e Bach. “Dentro de seis semanas – disseram-lhe – temos um espectáculo com a Missa em B menor de Bach.” No final do concerto chorou como uma criança.

Kurt Masur afirma que nessa noite, como em muitas outras ocasiões, a Stasi está vigilante e regista as suas palavras. Pouco importa: “Eu era suficientemente famoso para me poder permitir dizer a verdade. Eles sabiam que havia qualquer coisa em Masur que não se ajustava. Além do mais, eu era cristão...”

A fama permitia-lhe levar a sua orquestra até ao Ocidente. Por vezes, um dos músicos não regressava. Kurt Masur recorda a melhor desculpa, dada por um seu colega da Filarmónica de Leninegrado, quando tal acontecia e recebia um telefonema do responsável pela cultura do partido: “Camarada Mravinsky, então o que se passa? De cada vez que sai um dos seus músicos abandona-o!” E ele respondia, fulminante: “Não me estão a abandonar a mim. Estão a abandoná-lo a si!”

Masur afirma que, a princípio, não queria ser ele a ler o apelo de 9 de Outubro na rádio. Afinal, era apenas um músico. Um músico para a elite que gosta de música clássica. Mas todos insistiram com ele, apesar das suas reticências: “Não acreditava que as minhas acções tivessem qualquer efeito sobre o curso dos acontecimentos.”

As pessoas confiaram no seu maestro. A Gewandhausorchester, afinal, era a orquestra do povo. A mais antiga, em toda a Alemanha, fundada e paga pelos orgulhosos cidadãos de uma grande urbe, duzentos anos antes. Era a sua orquestra. Ouviam-na na ópera da cidade e na mesma igreja onde Johann-Sebastian Bach também fora Kapellmeister. Também tocara em jardins infantis, em concertos escolares, em concertos para operários. Kurt Masur tinha 62 anos. Dirigia a orquestra desde 1970. Todos os habitantes de Leipzig conheciam o seu maestro e confiavam na sua integridade.


 
Por isso, como já aqui contámos, entre um teólogo respeitado, Peter Zimmermann, um artista de cabaré admirado, Berd-Lutz Lange, e três dirigentes locais do SED, não admira que tivesse sido o maestro do povo o possuidor da voz mais respeitada. Um homem bom, um homem justo elevou a voz. Veio depois para a rua, para a frente da manifestação. E a revolução pacífica venceu. Depois, Kurt Masur voltou a ser apenas um maestro.


Um grande maestro que disse, mais tarde: “Não há qualquer razão para ir para a política, porque acredito que já não posso mudar mais nada.” Talvez não mas, em tempo, em circunstâncias extraordinárias, fez mais do que aquilo que seria exigível a qualquer um de nós. Esses são os heróis.


José Luís Moura Jacinto