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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Acasos da Comunicação.

 
 
 
 






 
O João pediu-me autorização para publicar uma fotografia que, por um acaso onomástico, foi tirada por outro João. É de acasos onomásticos, deliberados ou involuntários, que trata este blogue, fantástico, que agora descobri. Mensagens de publicidade amadora (ou profissionalmente amadora), avisos e escritos, sínteses do quotidiano, palavras que, estas sim, dizem mais do que mil imagens. As palavras estão lá para dizer o que se pretende («não entre», «não suba», «desça por aqui», «compro» ou «vendo») mas fazem-no de uma forma que ultrapassa a intenção e a pretensão de quem as escreve. De quem as escreve de forma directa e incisiva, assertiva e comunicativa, tendo graça infinita sem desejar tê-lo. Gente que escreve exactamente como pensa, livremente, e no exercício dessa liberdade total, quase anárquica, acaba por dizer mais, muito mais, do que aquilo do que quis pensar e, logo, escrever. As pessoas que escrevem isto são os maiores heróis da liberdade de expressão ou os grandes mártires da comunicação verbal, pois subvertem, com involuntária coragem, a tirania dos códigos e dos cânones linguísticos que nos impedem de escrever exactamente como pensamos. Desenganem-se os que julgam que isto é «Portugal no seu melhor», título de uma rubrica antiga da imprensa, pois o fenómeno do involuntário comunicacional é universal (mesmo que haja uns ditos que só nesta terra soalheira, ainda que endividada, poderiam ser produzidos). O blogue Acasos de Comunicação é fantástico pois mostra o poder das palavras, a sua capacidade mágica de se libertarem das intenções de quem as profere, indo muito mais além, até raiar o melhor dos humores, aquele que é involuntário e sans conscience de soi.  É isso que torna o resultado final tão maravilhoso. Repito, fascinado: o melhor humor é sempre não intencional.
 
 
António Araújo
 
 
 

 
P.S. - obrigado ao João Gama, obrigado à Sofia e ao João Tinoco, obrigado ao Jorge Lima, que ontem lançou ao mundo o seu livro do Dalai Lima e, na sessão de lançamento, recordou o dia em que, na cidade de Coimbra, deparou com um anúncio numas obras que dizia tão-só: «Proibida a Entrada a Pessoas Estranhas». De imediato, e para todo o sempre, o Jorge desejou ardentemente descobrir, talvez beijar, o génio que escrevera aquela frase extraordinária.  Quem fora ele, esse génio? Nunca se sabe. Se o melhor humor é o involuntário, o maior génio é sempre o mais anónimo.
 
 



quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Ignolância atlevida.

 
 
 
 




A Zon lançou recentemente uma campanha publicitária ao seu serviço Íris. Por toda a campanha aparecem uns senhores japoneses que, por se espantarem muito com os prodígios tecnológicos do serviço publicitado, deixam o consumidor descansado quanto à qualidade do mesmo. Para um europeu, ou pelo menos para um europeu ignorante, tudo o que é tecnologia de ponta vem do Japão ou de algum “tigre asiático” e, se um japonês se espanta com as maravilhas da legendagem do Íris Fibra é porque o Íris Fibra só pode ser genial. A receita é velha. Se uma dona-de-casa diz que o produto X é o super-herói da limpeza de fogões, é porque é. Quem melhor do que uma dona-de-casa para perceber de limpeza de fogões?
 
A publicidade lida portanto com estereótipos. Se é japonês garante tecnologia, se é dona-de-casa sabe de limpezas, se vive numa grande vivenda de subúrbio, tem uma mulher bonita e filhos loiros, tem de certeza um carro topo de gama cujo volante acaricia como provavelmente não acaricia a família. Lida também com receitas seguras e, se se tiver que fazer humor, nada como um estrangeiro com pronúncia, uma tirada machista ou uma piadola às sogras. Resulta sempre. Confesso que não sei nada sobre eficácia da publicidade e acho muito estranho que mecanismos tão básicos funcionem há décadas; mas aparentemente funcionam e com certeza nada mudará tão cedo.
 
O que era escusado era juntar o abuso de estereótipos com a ignorância (é verdade que andam frequentemente juntos). A coisa só pode dar asneira e, no caso da Zon, já deu. Não contentes com o estereótipo da tecnologia, os responsáveis pela campanha resolveram que era giríssimo juntar outro: o da troca do “r” pelo “l”. E assim temos uns cartazes fantásticos com um senhor japonês que nos diz “Aplovado” ou “Impledível”. Acontece que, levados certamente pelo humor genial que produziam, os autores da coisa não se deram conta de que quem troca “r” por “l” são os chineses e não os japoneses. Os japoneses, a fazerem, é exactamente o contrário. Evidentemente, a agência de publicidade não teve intenção de ofender ninguém. O designer que, numa exposição que vi há anos na Alemanha, desenhou um mapa dos descobrimentos no qual todas as rotas de todos os navegadores partiam de Madrid, também não teve e no entanto deu-me vontade de vandalizar a coisa.
 
Tomemos um exemplo tirado das legendas do próprio anuncio de televisão da Zon. O nome do produto, Íris, aprece nelas escrito como イリス(i ri su) no alfabeto katakana utilizado no Japão para os termos de origem não japonesa. Temos portanto um caractere para a sílaba “ri” que se lê mesmo “ri” e não “li”. Mais ainda, o que não existe mesmo é o som “l”. Para dar um exemplo, o nome Luís em japonês escrever-se-á qualquer coisa como ルイス (ru i su). As legendas foram encomendadas certamente a um falante de japonês e quem idealizou a campanha provavelmente não sabe ler katakana, mas bastava quem concebeu os cartazes ter ouvido os personagens do anúncio a falar para perceber que se ouvem vários “r” por entre as inúmeras palavras que certamente a maioria de nós não entende. Tinha-se evitado a asneira.
 
Nada disto deve incomodar muito os espíritos dos responsáveis pela campanha, tanto na agência como na Zon. Nem os dos transeuntes que vêm um japonês num cartaz a falar com pronúncia de chinês, como se fosse tudo a mesma coisa. Não é grave. É só bastante boçal e parvo.


Pode ver o anúncio televisivo aqui: http://www.youtube.com/watch?v=QPXZcfSFjDM
 
 
 
João Tinoco


Nota: Já agora, não será possível trocar o "impledível" por "impeldível"? Mantém-se a gracinha mas poupam-nos ao menos o disparate ortográfico.


 

domingo, 18 de novembro de 2012

A manipulação da raiva.









É em quadros como o nosso, de raiva crescente gerada pela situação de crise em que nos encontramos, que é mais fácil manipular a opinião de quem sofre ou vê o vizinho sofrer. É muito saudável um sentimento de revolta, interior ou exteriorizado, contra quem achamos que nos faz mal; mas já não será nada saudável que essa revolta seja manipulada ao ponto de a nossa consciência passar a servir os interesses de outro ou de algum grupo com o qual nunca nos identificaríamos. Mesmo que por vezes haja uma identificação formal de quem sofre com a opinião ou acção que é expressa por quem manipula, a convivência com este último dificilmente trará bons frutos.
 


 
Vem isto a propósito das reacções à carga policial sobre os manifestantes que se encontravam à porta da Assembleia da República na passada quarta-feira, ao fim de um dia de Greve Geral marcada pela CGTP. Não vale a pena voltar a referir o facto de a central sindical não ter participado nos distúrbios e se ter mesmo retirado do local antes de estes acontecerem. Mas vale a pena deixar uma pergunta que se prende com o escrito no parágrafo acima: porque é que o PCP ou a CGTP não protestaram até agora contra a carga policial, com a intensidade com que o fizeram sectores mais próximos do Bloco de Esquerda ou uma grande corrente de opinião que opera principalmente em blogues e redes sociais? Porque não partilham o mesmo espaço com gente com que não se identificam e que, estou certo, pensam que contribui para destruir os próprios objectivos da sua luta. E no entanto, é evidente que à superfície dir-se-ia estarem do mesmo lado. Na luta contra o desemprego, contra o aumento dos impostos, contra a degradação do Estado Social, etc., etc.





 
Mas os métodos dos grupos de agitadores infiltrados são diferentes. Os próprios objectivos pelos quais dizem lutar são um logro. Para esta gente, a desordem, o caos, a violência, são o método para alcançar um objectivo bem diferente do dos promotores da Greve Geral: a destruição do sistema, ou seja, a destruição da Democracia europeia como a conhecemos. No caso das manifestações de rua, qualquer incauto que, levado pela excitação ou emoção do momento acabe por se misturar com os agitadores, passa a ser um inocente útil, um potencial soldado na sua guerra privada. A ideia agora muito difundida de que os atiradores de pedras eram meia-dúzia e o resto era gente pacífica, se pode ter algum eco de verdade na sua formulação crua, é no entanto enganadora. Não é possível contabilizar, numa situação como a que se passou em frente à Assembleia da República, quem é que está disposto a seguir os agitadores ou não está. A História está cheia de inocentes pacíficos que seguiram acriticamente organizadores violentos. Basta puxar um minuto pela memória e não faltarão casos. Pensar por isso que uma dúzia de agentes poderia dirigir-se à multidão e prender cirurgicamente meia-dúzia de agitadores é, para dizer o mínimo, uma ideia ingénua.







Referi atrás o caso das manifestações de rua, mas há também o caso das redes sociais. E aqui a manipulação da opinião é das coisas simultaneamente mais eficazes e mais perversas a que se pode assistir. De novo, somos o inocente útil de cada vez que partilhamos sem pensar duas vezes tudo o que nos colocam à frente desde que aparente ir ao encontro da nossa indignação. A facilidade de fazer um simples “clic” com o rato é o suficiente para nos tornarmos acríticos e totalmente inconscientes das consequências da nossa acção. Paradoxalmente, numa época em que os meios de comunicação nunca estiveram tão disponíveis para qualquer cidadão poder dizer o que lhe vai na alma, aliviamos a raiva que sentimos partilhando qualquer coisa aparentemente heróica mesmo que saída da cabeça de um idiota. Qualquer um com uma conta de Facebook poderá verificar do que estou a falar.




 
Uma das ferramentas mais poderosas para manipular a opinião alheia é a comparação de factos que, mesmo que formalmente semelhantes, são na sua natureza totalmente diferentes. É o caso das comparações que por aí pululam entre a carga da Polícia sobre os manifestantes do dia 14 de Novembro e as cargas da Polícia ou GNR durante o tempo da ditadura. Não há nada, mas mesmo nada, que seja comparável a não ser por ignorância. As cargas no tempo da ditadura destinavam-se a dispersar gente que cometia o crime de pensar pela própria cabeça, só pelo facto de se juntar. A PIDE não esperava que lhe atirassem pedras para responder com bastonadas. Claro que houve também muita pedrada na rua, mas o contexto de violência policial era o da proibição de actividades ditas subversivas, à partida. Uma carga policial nos dias de hoje é um último recurso usado em situações em que as consequências de não a fazer são consideradas piores do que a carga em si. Comparar as cargas de hoje com as do tempo da ditadura é até aviltante para quem deu o corpo às bastonadas para que hoje possamos falar livremente.




Outra ferramenta poderosa é a imagem, geralmente enquadrada com alguma frase ou texto, com o objectivo de manipular emocionalmente o leitor. Muitas vezes a fotografia de alguém com sangue na cara, de preferência mulher ou criança, ou das lesões de algum manifestante, servem o propósito. As legendas dirigem a leitura do potencial “partilhador” da imagem, no sentido que lhe quer dar o manipulador. Quem a partilha aceita a afirmação da legenda como boa, sem criticar a fonte ou questionar os objectivos de quem a escreveu. A confusão é um dos objectivos de quem manipula e não há confusão como a confusão entre o bem e o mal — chamemos-lhe assim por comodidade. Num instante, um mar de imagens assegura que os vândalos eram muito poucos, a Polícia estava morta por usar os cacetetes e o Governo quer calar a voz do povo. Dos agitadores profissionais só se ouvirá falar em duas ou três notícias na televisão e a Greve Geral, definitivamente, passa à História submersa por acontecimentos que muito pouco têm a ver com a luta de quem quer emprego ou não quer ver regalias diminuídas.

 

 


Vivemos tempos que correm o risco de ser de viragem. A crescente rejeição da classe política, na qual a própria tem grande parte se não a maior parte das culpas, favorece um clima de aceitação de soluções que há anos seriam liminarmente rejeitadas. A forma descomplexada como alguns comentadores políticos falam hoje das vantagens de uma solução de governo “à italiana”, com um Primeiro-Ministro nomeado pelo Presidente da República, seria um sacrilégio não há muito tempo. Não é normal aceitar pacificamente que alguém para ser competente e honesto tenha que estar “limpinho” de histórico partidário. Aceitar isso é aceitar uma imperfeição fatal do sistema que se julgava ser o melhor. Mas há muito quem aceite e daqui aos suspiros por um benfeitor que ponha ordem na casa é apenas um saltinho. 


 




É por isso mais do que nunca necessário concentrar esforços em guardar bem a Democracia enquanto a temos. Aceitar que os grupos, de inspiração internacional, que provocam a Polícia e fomentam a violência, sejam porta-vozes do nosso descontentamento é dar um valente tiro no pé. A “democracia directa já”, a “substituição da classe política”, e outras exigências muito difundidas pela Internet, constituem balelas que nunca ninguém explicou o que são nem como funcionariam. Servem para manipular em pouco tempo grandes quantidades de gente bem intencionada e desgastar ainda mais o nosso já doente regime. Nunca foi tão importante cultivar um espírito crítico como hoje e não nos limitarmos a repetir opiniões ready made. Por agora pode ser apenas uma maneira de“chatear”; de aqui a uns anos, pode ser uma peste da qual teremos dificuldade em nos livrar. A não ser que queiramos ser governados por gente sem nome, com a cara tapada por máscaras brancas, de pêra e bigode e sorriso imbecil.


 
 
 João Tinoco

quinta-feira, 15 de março de 2012

Timor na II Guerra.

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Se o título Timor na II Guerra Mundial situa temporalmente os acontecimentos de que fala este blogue, o subtítulo Contributos para uma memória portuguesa do conflito explica em grande parte a motivação para o colocar em linha. Não consigo deixar de ter a sensação de que a memória é uma coisa à qual nós, portugueses, somos naturalmente avessos quando a mesma não nos é simpática e o caso da ocupação de Timor, primeiro pelos Aliados em finais de 1941 e depois pelo Japão entre 1942 e 1945, é um desses casos.

A descoberta deste pedaço particular de memória nasceu de um fascínio de infância pela figura de um tio-avô, que nunca conheci, morto naquela ilha enquanto combatia a ocupação japonesa. A descoberta recente de que este fora, mais do que um resistente à invasão, um informador activo dos serviços secretos australianos, não só renovou o meu fascínio pela personagem como despertou um ainda maior interesse pelos acontecimentos da época. Daí ao recolher de toda a informação que conseguia encontrar sobre o assunto foi um passo. Depois, veio a natural vontade de começar a divulgar os resultados da recolha. Uma vez estabelecido o propósito de a dita divulgação ser o mais abrangente possível, a imagem como ferramenta de comunicação impunha-se como indispensável e a hipótese de um blogue surgiu como natural.

Acontece que imagens do período da II Grande Guerra em Timor, ou mesmo anteriores, é coisa que infelizmente rareia. Tirando as imagens que a equipa de reconhecimento da Secção de História Militar australiana fez entre o final 1945 e início de 1946, já após o fim da guerra, praticamente não há, penso, imagens publicadas que documentem o período da ocupação. O facto de a então colónia portuguesa estar desde há muito isolada, aliado à destruição dos centros urbanos do território e à desestruturação da sociedade provocada pela guerra, poderá ter contribuído decisivamente para este rarear de imagens. A procura de fotografias tornou-se portanto numa actividade paralela à da leitura e é assim que um dia, numa visita ao “e-Bay”, encontro uma das poucas imagens de que tenho conhecimento da sociedade europeia em Timor no período imediatamente antes da guerra. É uma foto de um almoço ou jantar, de homens impecavelmente vestidos de branco como seria costume nos “trópicos”, e na qual a figura central é um menino timorense descalço e fardado de grumete. Assim que ampliei a fotografia no ecrã do computador pareceu-me reconhecer dois dos comensais, ambos na mesma mesa: o Governador da colónia, Ferreira de Carvalho, e o deportado republicano Cal Brandão. Depois de confrontar a imagem com outras, continuo convencido das respectivas identidades. À mesma mesa, provavelmente num salão do Sporting ou do Benfica de Díli, estavam o representante do regime e um deportado político. Não será motivo para grande espanto se pensarmos que o número total de europeus na ilha deveria andar na época entre os quatrocentos e quinhentos e que aos deportados políticos era dado o direito a exercer a profissão.

Dei portanto um lugar de destaque à referida fotografia no blogue, com o pedido de colaboração dos leitores que, podendo, forneçam pistas para a identificação das restantes figuras na imagem. Estou em crer que, mesmo pelas ausências — as senhoras por exemplo — é uma fotografia fiel da sociedade europeia, em Díli, na época. Será também muito bem-vinda a colaboração de quem possa ter em casa outras imagens com importância para o estudo deste período em Timor. Algumas já chegaram, com muito interesse, com origem no corpo expedicionário que, em 1945 / 1946, esteve encarregue de ajudar no restabelecimento da soberania portuguesa no território. Uma versão do blogue em inglês está a ser preparada. Estou certo de que bons contributos poderiam vir de países como a Austrália ou o Japão e esta será uma forma de o abrir a um muito maior número de leitores.

João Tinoco