É em quadros como o nosso, de raiva
crescente gerada pela situação de crise em que nos encontramos, que é mais
fácil manipular a opinião de quem sofre ou vê o vizinho sofrer. É muito
saudável um sentimento de revolta, interior ou exteriorizado, contra quem
achamos que nos faz mal; mas já não será nada saudável que essa revolta seja
manipulada ao ponto de a nossa consciência passar a servir os interesses de
outro ou de algum grupo com o qual nunca nos identificaríamos. Mesmo que por vezes
haja uma identificação formal de quem sofre com a opinião ou acção que é
expressa por quem manipula, a convivência com este último dificilmente trará
bons frutos.
Vem isto a propósito das reacções à
carga policial sobre os manifestantes que se encontravam à porta da Assembleia
da República na passada quarta-feira, ao fim de um dia de Greve Geral marcada
pela CGTP. Não vale a pena voltar a referir o facto de a central sindical não
ter participado nos distúrbios e se ter mesmo retirado do local antes de estes
acontecerem. Mas vale a pena deixar uma pergunta que se prende com o escrito no
parágrafo acima: porque é que o PCP ou a CGTP não protestaram até agora contra a
carga policial, com a intensidade com que o fizeram sectores mais próximos do
Bloco de Esquerda ou uma grande corrente de opinião que opera principalmente em
blogues e redes sociais? Porque não partilham o mesmo espaço com gente com que
não se identificam e que, estou certo, pensam que contribui para destruir os
próprios objectivos da sua luta. E no entanto, é evidente que à superfície
dir-se-ia estarem do mesmo lado. Na luta contra o desemprego, contra o aumento
dos impostos, contra a degradação do Estado Social, etc., etc.
Mas os métodos dos grupos de
agitadores infiltrados são diferentes. Os próprios objectivos pelos quais dizem
lutar são um logro. Para esta gente, a desordem, o caos, a violência, são o
método para alcançar um objectivo bem diferente do dos promotores da Greve
Geral: a destruição do sistema, ou seja, a destruição da Democracia europeia
como a conhecemos. No caso das manifestações de rua, qualquer incauto que,
levado pela excitação ou emoção do momento acabe por se misturar com os
agitadores, passa a ser um inocente útil, um potencial soldado na sua guerra
privada. A ideia agora muito difundida de que os atiradores de pedras eram
meia-dúzia e o resto era gente pacífica, se pode ter algum eco de verdade na
sua formulação crua, é no entanto enganadora. Não é possível contabilizar, numa
situação como a que se passou em frente à Assembleia da República, quem é que está disposto a seguir
os agitadores ou não está. A História está cheia de inocentes pacíficos que
seguiram acriticamente organizadores violentos. Basta puxar um minuto pela
memória e não faltarão casos. Pensar por isso que uma dúzia de agentes poderia
dirigir-se à multidão e prender cirurgicamente meia-dúzia de agitadores é, para
dizer o mínimo, uma ideia ingénua.
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Referi atrás o caso das manifestações
de rua, mas há também o caso das redes sociais. E aqui a manipulação da opinião
é das coisas simultaneamente mais eficazes e mais perversas a que se pode
assistir. De novo, somos o inocente útil de cada vez que partilhamos sem pensar
duas vezes tudo o que nos colocam à frente desde que aparente ir ao encontro da
nossa indignação. A facilidade de fazer um simples “clic” com o rato é o
suficiente para nos tornarmos acríticos e totalmente inconscientes das
consequências da nossa acção. Paradoxalmente, numa época em que os meios de
comunicação nunca estiveram tão disponíveis para qualquer cidadão poder dizer o
que lhe vai na alma, aliviamos a raiva que sentimos partilhando qualquer coisa
aparentemente heróica mesmo que saída da cabeça de um idiota. Qualquer um com
uma conta de Facebook poderá verificar do que estou a falar.
Uma das ferramentas mais poderosas para
manipular a opinião alheia é a comparação de factos que, mesmo que formalmente
semelhantes, são na sua natureza totalmente diferentes. É o caso das
comparações que por aí pululam entre a carga da Polícia sobre os manifestantes
do dia 14 de Novembro e as cargas da Polícia ou GNR durante o tempo da
ditadura. Não há nada, mas mesmo nada, que seja comparável a não ser por
ignorância. As cargas no tempo da ditadura destinavam-se a dispersar gente que
cometia o crime de pensar pela própria cabeça, só pelo facto de se juntar. A
PIDE não esperava que lhe atirassem pedras para responder com bastonadas. Claro
que houve também muita pedrada na rua, mas o contexto de violência policial era
o da proibição de actividades ditas subversivas, à partida. Uma carga policial
nos dias de hoje é um último recurso usado em situações em que as consequências
de não a fazer são consideradas piores do que a carga em si. Comparar as cargas
de hoje com as do tempo da ditadura é até aviltante para quem deu o corpo às
bastonadas para que hoje possamos falar livremente.
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Outra ferramenta poderosa é a imagem,
geralmente enquadrada com alguma frase ou texto, com o objectivo de manipular
emocionalmente o leitor. Muitas vezes a fotografia de alguém com sangue na
cara, de preferência mulher ou criança, ou das lesões de algum manifestante,
servem o propósito. As legendas dirigem a leitura do potencial “partilhador” da
imagem, no sentido que lhe quer dar o manipulador. Quem a partilha aceita a
afirmação da legenda como boa, sem criticar a fonte ou questionar os objectivos
de quem a escreveu. A confusão é um dos objectivos de quem manipula e não há
confusão como a confusão entre o bem e o mal — chamemos-lhe assim por
comodidade. Num instante, um mar de imagens assegura que os vândalos eram muito
poucos, a Polícia estava morta por usar os cacetetes e o Governo quer calar a
voz do povo. Dos agitadores profissionais só se ouvirá falar em duas ou três
notícias na televisão e a Greve Geral, definitivamente, passa à História
submersa por acontecimentos que muito pouco têm a ver com a luta de quem quer
emprego ou não quer ver regalias diminuídas.
Vivemos tempos que correm o risco de
ser de viragem. A crescente rejeição da classe política, na qual a própria tem
grande parte se não a maior parte das culpas, favorece um clima de aceitação de
soluções que há anos seriam liminarmente rejeitadas. A forma descomplexada como
alguns comentadores políticos falam hoje das vantagens de uma solução de
governo “à italiana”, com um Primeiro-Ministro nomeado pelo Presidente da
República, seria um sacrilégio não há muito tempo. Não é normal aceitar
pacificamente que alguém para ser competente e honesto tenha que estar
“limpinho” de histórico partidário. Aceitar isso é aceitar uma imperfeição
fatal do sistema que se julgava ser o melhor. Mas há muito quem aceite e daqui
aos suspiros por um benfeitor que ponha ordem na casa é apenas um saltinho.
É por isso mais do que nunca
necessário concentrar esforços em guardar bem a Democracia enquanto a temos.
Aceitar que os grupos, de inspiração internacional, que provocam a Polícia e
fomentam a violência, sejam porta-vozes do nosso descontentamento é dar um
valente tiro no pé. A “democracia directa já”, a “substituição da classe
política”, e outras exigências muito difundidas pela Internet, constituem
balelas que nunca ninguém explicou o que são nem como funcionariam. Servem para
manipular em pouco tempo grandes quantidades de gente bem intencionada e
desgastar ainda mais o nosso já doente regime. Nunca foi tão importante
cultivar um espírito crítico como hoje e não nos limitarmos a repetir opiniões ready
made. Por agora pode ser apenas uma maneira de“chatear”; de aqui a uns
anos, pode ser uma peste da qual teremos dificuldade em nos livrar. A não ser
que queiramos ser governados por gente sem nome, com a cara tapada por máscaras
brancas, de pêra e bigode e sorriso imbecil.
João Tinoco