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domingo, 29 de julho de 2018

Artemisia: auto-retrato.

 
 
 
 
        Com engenho proverbial, a Joana Vasconcelos (não confundir com a escultora, sff) falou aqui, há uns anos, de Artemisia, de Artemisia Gentileschi, a fascinante. Agora, a National Gallery acaba de adquirir um auto-retrato de Artemisia, melhor dizendo Auto-retrato como Santa Catarina de Alexandria, 1615-1617. Notícia aqui, da melhor fonte.
 
 
 
  

sábado, 20 de junho de 2015

O Parlamento de Ceaucescu.

 
 



Antiga sala do Comité Central
 









 
 
aqui se falou de Anca Petrescu, a autora deste brinquedo arquitectónico. E também, mais sombriamente, das Crianças de Ceaucescu. A Joana Vasconcelos escreveu um texto hilariante, sobre Elena e os polímeros.
E agora o Nuno Sampaio, que esteve em Bucareste, de lá trouxe estas faustosas fotografias do Parlamento da Roménia. Obrigado, Nuno, um abraço!
 
 
 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Ciência Ceaucescu.

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A Joana Vasconcelos já falou aqui das aptidões científicas de Elena e seus polímeros. Agora, o Jorge Buescu mostra-nos que as publicações da Senhora de Ceausescu continuam disponíveis online, na muito selecta e  exigente Web of Knowledge, o repositório daquilo que de melhor se faz na Ciência. Não duvidamos que Elena estava – e está, como se vê –  entre os grandes cientistas do mundo. O mundo, esse, coitado, é que é um lugar estranho, nada mais. 
 


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Elena e os polímeros.


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Foi um destacado membro do Partido Comunista da Roménia – integrou o Comité Municipal de Bucareste (1968), o Comité Central (1972), o Comité Executivo (1973) e o respectivo Gabinete Permanente (1977) e presidiu à Comissão de Quadros do Partido e do Estado (1980). Foi também, enquanto vice-primeiro-ministro, a segunda figura na hierarquia do Estado romeno (1980−1989). E se é inquestionável que a sua ascensão a estes e a outros cargos decorreu essencialmente do facto de ser casada com o homem que por mais de três décadas dominou a Roménia, não o é menos que ao exercê-los revelou excepcional desenvoltura e invulgares atributos, concretizados em inúmeros feitos, dos quais uma ínfima parte bastaria para lhe garantir, de pleno direito (e dispensando a marital intercessão) um lugar neste sombrio recanto do nosso cemitério.

Sucede, porém, que não é por conta dessas negras e conhecidas proezas que trago aqui hoje Elena, mas de outras, que ainda hoje me causam fascínio. Um absurdo, enviesado e inexplicável fascínio diante do que de grotesco, quase patético, tem o poder exercido de forma desmedida e desconectada da realidade.  

A queda do regime romeno, em 1989, tornou bem patente o abissal contraste entre a sua mirífica imagem, veiculada pela propaganda, e a sinistra realidade das várias atrocidades por si concebidas, ordenadas e cometidas. Um aspecto houve, contudo, que na torrente de dados sobre a vida de Elena me intrigou especialmente: o seu impecável e extenso curriculum académico e científico, o qual incluía um PhD em química de polímeros – com uma tese considerada, à época, um major breakthrough na área – cerca de 11 livros, 90 artigos em revistas científicas, romenas e estrangeiras, e mais de 30 patentes de invenção registadas em seu nome. Achievements próprios de uma vida dedicada ao estudo e à investigação, no resguardo de laboratórios, bibliotecas e gabinetes – e claramente inconciliáveis com uma tão intensa actividade pública como era a sua, entre os lugares políticos que acumulava e a omnipresença, ao lado do marido, enquanto “mãe da nação romena”. A explicação para tão improvável sobreposição de percursos surgiria pouco depois, através de sucessivas revelações que eu segui, num ávido e mórbido crescendo de horror e deleite.

Elena nasceu em 1919, no sul da Roménia, numa família modesta que, ainda assim, a conseguiu manter a estudar até aos catorze anos, altura em que decidiu abandonar a escola – com negativas a tudo, excepto a costura – e rumar a Bucareste. Aí trabalhou como assistente de um laboratório clandestino que produzia pastilhas para emagrecer e como operária têxtil. Nos anos cinquenta, já casada com Nicolae Ceausescu, inscreveu-se num curso nocturno de química, num instituto dedicado à instrução de adultos, a cujas aulas raramente comparecia e do qual foi expulsa por ter sido apanhada a copiar num exame. Inexiste qualquer prova de que tenha prosseguido os seus estudos ou completado uma licenciatura. E, no entanto, escassos anos depois, em 1960, doutorou-se summa cum laude, com uma monografia intitulada Stereospecific Polymerization of Isoprene on the Stabilization of Synthetic Rubbers and Copolymerization. Seguiram-se a nomeação para a presidência do ICECHIM, o principal laboratório de investigação química da Roménia (1965), a condecoração com a Ordem do Mérito Científico de 1ª Classe (1966), a Presidência do Conselho Nacional da Ciência e Tecnologia, criado para si (1970), o ingresso na Academia Romena das Ciências (1974), a Presidência do Conselho Nacional da Cultura e Educação (1975). Tudo isto em estreito – e inequívoco – paralelo com a firme e imparável ascensão do seu marido no interior do Partido Comunista e à frente dos destinos da Roménia.

A mesma ganância que fez Imelda Marcos juntar uma obscena colecção de 3000 pares de sapatos terá, numa bem mais retorcida versão, levado Elena Ceausescu a acumular títulos e distinções e a construir um impressionante curriculum, recorrendo, para tanto, aos mais ínvios e tortuosos métodos. Se Evita quis ser lembrada pela sua generosidade e bondade para com os descamisados, Elena de tudo fez para criar e consolidar uma imagem de inteligência, competência e sabedoria que estava longe de possuir.

Sabe-se hoje que se contava entre os seus planos receber um Nobel. Que as viagens oficiais do casal Ceausescu eram precedidas de nada discretas diligências junto das principais universidades do país em causa, no sentido de lhe serem atribuídos – espontaneamente, claro – doutoramentos honoris causa. E que chegaram a frustrar-se ou a estar em risco algumas dessas viagens ante a recusa, peremptória, de várias universidades, irredutíveis apesar das pressões diplomáticas e políticas “ao mais alto nível”*. Já então no Ocidente se questionava abertamente a autoria dos trabalhos de Elena – que a incansável máquina de propaganda do regime romeno se encarregava de distribuir, traduzidos, pelas bibliotecas científicas de referência. As suspeitas radicavam em raras, mas esclarecedoras, prestações públicas em que aquela exibira uma confrangedora ineptitude em matérias em que seria perita e nas denúncias que, clandestinas, chegavam da comunidade científica romena.

Só com o fim da era Ceausescu a verdade emergiu. Acerca da extorsão a que haviam sido submetidos inúmeros cientistas, desapropriados, sob ameaça de represálias, dos resultados de anos de paciente e dedicada investigação, os quais eram publicados e, sendo o caso, patenteados por Elena, em seu nome e proveito. Mas também quanto à falta de capacidades intelectuais e de qualificações básicas desta para poder sequer aspirar a tal carreira. São especialmente ilustrativas as circunstâncias em que obteve o seu doutoramento: a recusa inicial da sua tese pelo respeitado Prof. Simionescu (que por isso foi afastado da universidade e cujos trabalhos foram tornados inacessíveis, como se o seu autor jamais houvesse existido), a sua aceitação por um académico menor (que com tal feito se lançou numa fulgurante carreira) e, last but not the least, a prova, que não decorreu na data e local marcados e de forma pública, tendo sido antecipada e realizada à porta fechada. Elena não chegou a comparecer, tendo enviado, através de agentes de Securitate, a sua defesa gravada em cassette, não fosse ter de responder a alguma questão do júri…

Durante mais de trinta anos, Elena fez-se passar por grande académica e investigadora, na mira do prestígio que julgava daí lhe advir. Fê-lo à custa da coacção e da exploração exercidas sobre cientistas capazes mas indefesos, os quais foram injustamente privados do reconhecimento e dos frutos económicos do seu trabalho e remetidos a um anonimato forçado, a troco de paz e sossego. Conta-se que no julgamento sumário que antecedeu a sua execução, no Natal de 1989, um dos oficiais se lhe dirigiu repetidamente usando a alcunha por que era conhecida nos meios científicos -codoi”, a forma peculiar e por demais reveladora da sua ignorância, como se referia ao dióxido de carbono (CO2). A visão disso e do que se seguiu poderá até ter sido uma catarse para muitos. O mal feito, esse é mais difícil de reparar: a autoria de muitos trabalhos e patentes subsiste inalterada e é possível que decorram muitos anos até ser reposta a verdade. Ou que isso nunca venha a acontecer, full scale. Porque muitos daqueles que foram despojados morreram já e muitos outros partirão sem ter a satisfação de ver o seu trabalho e o seu mérito reconhecidos.
 
 

* Foi o caso de Oxford, Cambridge e da major league das universidades americanas. Mas não já das Universidades de Atenas, de Lima, de Buenos Aires, de Nice, de Quito, Teerão, de Amman, de Manila, do Central London Polythechnic (actual University of Westminster) que lhe atribuíram doutoramentos honoris causa e, bem assim, da Royal Society of Chemistry e da Illinois Academy of Sciences, que a admitiram como membro.
 
 
Joana Vasconcelos
 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Artemisia Gentileschi (1593-c.1656).




A cena era de uma brutalidade incomum. Uma mulher, ajudada por outra, degolava um homem que se debatia, ainda. O sangue escorria, escuro, a contrastar com a brancura do lençol da cama onde o homem fora surpreendido. Não era este, contudo, o contraste que mais chocava, mas o da absoluta serenidade do rosto da mulher que manejava o punhal com a violência do acto que, impassível, executava.
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Lembro-me de achar o quadro perturbador. E de, já a dar meia-volta, espreitar a tabuleta, só para ver quem teria pintado aquilo. Um nome de mulher: Artemisia Gentileschi. A data, 1613. Espantoso. Mas rapidamente, confesso, me distraí, perante a perspectiva de entrar, daí a minutos, no curioso e irresistivelmente outrageous Gabinetto Segreto, um dos motivos que me levara, nessa tarde, ao Museo di Capodimonte, em Nápoles.
Voltei a cruzar-me com o quadro, anos depois. Não já num museu, mas num livro. No surpreendente Vinte Anos e Um Dia, de Jorge Semprún, cuja protagonista, Mercedes, desenvolve uma estranhíssima obsessão com esta Giuditta che decapita Oloferne. A memória daquela tarde e as alusões do livro ao contexto em que teria sido pintado dispararam a minha curiosidade. Procurei. E foi extraordinário tudo o que encontrei.
Artemisia, nascida em 1593, era filha de Orazio Gentileschi, pintor tuscano radicado em Roma. Cedo revelou um excepcional talento e um estilo próprio, bem demarcado do do seu pai, seu primeiro mestre, e fortemente influenciado por Caravaggio, cujo trabalho pôde ainda acompanhar de perto. Tinha 17 anos quando completou o seu primeiro quadro, Susanna e i Vecchioni, em 1610.
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O início da idade adulta de Artemisia ficou marcado por eventos que se reflectiram fortemente na sua vida e obra. Recusada como discípula nas principais academias de arte, por ser mulher, o seu pai confiou a sua formação a um colega, Agostino Tassi. Este, após um longo período de assédio, violou Artemisia, a qual terá, não obstante, acedido num subsequente relacionamento, na expectativa, criada por Tassi, de um reparador casamento. Quando se tornou claro que este não tencionava cumprir tal promessa, Orazio Gentileschi apresentou queixa. Seguiram-se novas e tremendas provações para Artemisia. O julgamento (cujas transcrições chegaram até nós) evidenciou graves antecedentes de Tassi, nesta e noutras matérias (fora julgado e punido pela mesma acusação, relativamente à cunhada, menor, e por ter mandado matar a mulher, com quem casara após idêntico episódio). Porém, e porque a relevância criminal da sua conduta dependia apenas da prova da virgindade de Artemisia à data em que fora atacada, esta viu-se forçada a refutar acusações de devassidão, a submeter-se a exames vexatórios e a ser interrogada sob tortura. Condenado Tassi e restaurada a reputação de Artemisia pelo casamento prontamente ajustado com Pietro Antonio Stiattiesi, também pintor, esta partiu para Florença, em finais de 1612.
E terá sido justamente nesta altura que pintou o impressionante Giuditta che decapita Oloferne. O qual, neste contexto, ganha todo um novo sentido, essencialmente catártico e libertador. Artemisia haveria de voltar ao tema, mais tarde, num quadro idêntico (datado de 1620) e em vários outros retratando distintas cenas do mesmo episódio. 
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Os anos de Florença foram de trabalho e de reconhecimento para Artemisia. Teve como patrono Cosimo II di Medici. Conquistou o respeito dos seus pares, tendo sido admitida (nenhuma mulher o fora antes) na Accademia delle Arti del Disegno, em 1616. Bem mais sombrio era o panorama no plano pessoal: a morte prematura de quatro dos cinco filhos nascidos do casamento com Stiattiesi e uma relação tormentosa com este, que preferia o jogo ao trabalho. Cerca de 1621, Artemisia deixou Florença, opção ditada pela morte do seu patrono e pela crescente pressão dos inúmeros credores do marido, que por lá terá ficado. Após vários anos entre Roma, Veneza e Génova, Artemisia fixou-se em Nápoles, em 1830, com as suas duas filhas (a que tivera com Stattiesi e uma outra, natural, entretanto nascida). Aqui viveu novo período de intenso trabalho e de consagração, traduzida em encomendas para pintar, não apenas quadros, mas também retábulos, painéis e interiores de igrejas e de residências. Viajou para Inglaterra, onde permaneceu entre 1638 e 1642 na corte de Carlos I (tendo decorado um dos tectos da Queen’s House, em Greenwich). Pouco se sabe dos seus últimos anos, não havendo sequer certeza quanto à data da sua morte (algures entre 1652 e 1656). Seguiu-se um longo período de obscuridade, durante o qual muitas das suas criações foram erradamente atribuídas a seu pai ou a outros pintores da época. Só recentemente, já em finais do séc. XX, diversas investigações e estudos trouxeram de novo para a luz as suas espantosas vida e obra.  
A preponderância que na obra de Artemisia assumem episódios que evocam a violência, explícita ou sugerida, sobre a mulher (Judite e Holofernes, Susana e os Velhos, Sisera e Jael, Corsica e o Sátiro), bem como as figuras femininas fortes, desafiadoras ou em situações-limite (Cleópatra, Judite, Ester, Bathsheba, Lucrécia, Maria Madalena), muitas delas com traços fisionómicos de auto-retrato, fizeram com que durante muito tempo a sua obra fosse encarada e interpretada quase exclusivamente como expressão das sequelas das suas tribulações passadas. Nesta linha, certas análises, de claro pendor feminista, fazem de Artemisia um ícone da female resistance to masculine dominance. Investigações mais recentes tendem, contudo, a atenuar tal abordagem, por ser excessiva e, sobretudo, redutora. E a considerar que a opção de retratar strong and struggling women e, em especial, a perspectiva essencialmente feminina que dos seus quadros se desprende, reflectiriam antes o gosto e a sensibilidade pessoais da própria Artemisia e a sua intensa personalidade – que a terá levado, em mais de uma ocasião, a recusar modificar a sua interpretação do tema para se conformar com o gosto do cliente. Admite-se mesmo que – com excepção da primeira Giuditta che decapita Oloferne – os seus subsequentes retornos ao tema representariam um aproveitamento consciente da fama associada ao julgamento para impor um estilo próprio, de sexually-charged, female-dominant art. Qualquer que seja a tese que se perfilhe, Artemisia foi inquestionavelmente uma sobrevivente, que se não deixou destruir pela violência que lhe foi infligida e uma lutadora que, com esforço e persistência, conseguiu ver o seu talento reconhecido e conquistar um estatuto de paridade com os melhores pintores da sua época, recusando o papel menor (em temas, géneros e obras) que às raríssimas mulheres pintoras era então reservado. E é isto que, junto com a beleza e força da sua pintura, faz dela uma figura extraordinária.


Artemisia Gentileschi, Auto-retrato, 1630


Joana Vasconcelos

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Mrs. Silence Dogood.


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Nasceu em Abril de 1722, já viúva e com três filhos. Deixou de existir seis meses depois, de forma abrupta e em estranhas circunstâncias, que envolveram uma grande zanga entre dois irmãos, causada pela muita audácia do mais novo e pela crescente insegurança do mais velho.  
Mrs. Silence Dogood ganhou notoriedade e uma legião de fiéis e entusiasmados leitores pelas suas cartas que, com cadência quinzenal, o The New-England Courant, de Boston, publicou entre 2 de Abril e 8 de Outubro de 1722. Ao todo catorze, todas metidas, durante a noite, debaixo da porta da redacção do jornal, em Queen Street.   
Nelas começou por se apresentar como — são suas, as palavras — “an Enemy to Vice, and a Friend to Vertue, one of extensive Charity and a great forgiver of private injuries, a hearty lover of the Clergy and all good Men and a mortal Enemy to arbitrary Government and unlimited Power”. Declarou-se ainda tão fervorosamente apegada aos “Rights and Liberties of my Country”, que o menor indício de restrição a estes “is apt to make my Blood boil exceedingly”. Last but not the least, assumiu uma “natural Inclination to observe and reprove the Faults of others, at which I have an excellent Faculty” que, avisou, não se coibiria de utilizar. Foi o que fez. E como.  
Nas suas cartas, Mrs. Dogood tratou temas variados e, não raro, controversos como a liberdade de expressão, o papel das mulheres (defendendo mais instrução e mais participação destas na vida pública), a hipocrisia religiosa e a corrupção dos governantes, a importância da poesia e dos elogios fúnebres (indicando mesmo os passos a seguir na construção destes), a igualdade de oportunidades no acesso ao ensino (sendo particularmente cáustica com Harvard College, que acusava de elitismo e de falta de qualidade e exigência, formando alunos somente arrogantes e preconceituosos) e, em geral, “the vices of the Town” (do excessivo consumo de álcool à vaidade no trajar, que levava muitos a endividarem-se e à adopção de modas ridículas). Sempre com frontalidade e desassombro, sensatez e ironia. Os seus comentários e opiniões sintonizavam plenamente com o tom critico e satírico dos Couranteers (também conhecidos como Hell-Fire Club), o grupo de colaboradores do The New-England Courant, um jornal independente do governo colonial (terá sido o primeiro, na América) que se destacou — não sem alguns contratempos – pelos ferozes e certeiros ataques que dirigia ao establishment político e religioso, dominado pela comunidade puritana.  
Inteligente e arguta, impiedosa observadora dos ways of the world e dotada de um corrosivo sentido de humor, Mrs. Silence Dogood causou quite an impression na Boston de então. Todos — a começar pelos próprios Couranteers — se interrogavam sobre quem seria tão misteriosa e fascinante figura.
Parte desta imensa curiosidade foi satisfeita pela própria Mrs. Silence Dogood que, com notável à vontade, contou ter nascido a bordo de um navio vindo de Inglaterra, ter ficado órfã ainda criança, ter a sua educação sido confiada a um sacerdote de uma pequena comunidade nos arredores da cidade, a “pious good natur’d young Man”. Revelou ainda detalhes do inesperado casamento com este seu tutor (causa de algum espanto e de bastante falatório), com o qual vivera “happily together in the Height of conjugal Love and mutual Endearments, for near Seven Years”.
E, sobretudo, alongou-se sobre a sua inconformada viuvez, já de alguns anos. Que a atingira na força da juventude (“when my Sun was in its meridian Altitude”) e que muito lhe desagradava (it is a State I never much admir’d), pelo que se anunciava desejosa de voltar a casar (“I could be easily persuaded to marry again”) — desde que o pretendente reunisse, claro, a “few good qualities”, a saber, ser “good-humour’d, sober and agreeable”. Esta confissão, aliada à revelação, também pela própria, de que era “courteous and affable, good humour’d (unless I am first provok’d,) and handsome, and sometimes witty”, levou vários arrebatados leitores do Courant a escrever para o jornal, declarando-se dispostos a casar com such lively and charming woman
O fim inesperado e nunca explicado das suas cartas causou tal consternação nos seus inúmeros e dedicados seguidores que o director do Courant publicou um anúncio, a 3 de Dezembro de 1722 (“If any person or persons will give a true account of Mrs. Silence Dogood, whether dead or alive, married or unmarried, in town or countrey, that so, (if living) she may be spoke with, or letters convey’d to her, they shall have thanks for their pains”) o qual jamais obteve resposta. Porque, na realidade, tal não era possível.
Silence Dogood foi o primeiro dos muitos alter-egos que Benjamin Franklin criou e assumiu ao longo da sua vida (Poor Richard ou Richard Saunders, Henry Meanwell, Alice Addertongue, Timothy Turnstone, Martha Careful, Polly Baker, Busy Body, to name a few). O traço que (para além das experiências que levaram à invenção do pára-raios) mais me encantou quando pela primeira vez li a sua biografia, devia ter uns treze anos. Lembro-me de achar absolutamente irresistível a ideia de Franklin se desdobrar em personagens, com biografias próprias, para escrever e exprimir opiniões mais arrojadas ou controversas, lançar a discussão sobre certo tema ou simplesmente porque isso o divertia. E de me parecer, sobretudo, extraordinária a profusão de aliases femininos — mulheres dignas, articuladas e convincentes, num tempo em que raras teriam instrução ou conhecimentos que as habilitassem a exprimir opiniões susceptíveis de serem atendidas e consideradas.
Quando criou Mrs. Silence Dogood, Benjamin Franklin tinha dezasseis anos e ingressara, pouco tempo antes, como aprendz de tipógrafo no The New-England Courant, fundado, dirigido e impresso pelo seu irmão mais velho, James. Desejoso de se estrear na escrita, admirador da prosa crítica dos Couranteers, mas temendo não ser levado a sério, decidiu tentar a sua sorte, sob falsa identidade. Escolheu fazer-se passar por uma mulher e de meia-idade – o próprio o admitiu mais tarde -, para conferir mais credibilidade e mais contundência às observações que se propunha fazer. O apelido Dogood terá sido uma paródia a Cotton Mather, um reputado padre puritano, que expusera as suas ideias nuns muito divulgados Essays to do Good. Já o primeiro nome, Silence, tanto podia ser uma alusão a outro livro de Mather, Silentiarius: A Brief Essay on the Holy Silence and Godly Patience, that Sad Things are to be Entertained withal, como uma fortíssima sugestão de silêncio ao próprio Mather e a tudo aquilo que este representava de intolerância e de incoerência. O estilo das cartas, esse era claramente inspirado no Spectator, de Joseph Addison e Richard Steele, que o jovem Franklin muito admirava.  
A descoberta da autoria das cartas e da identidade de Mrs. Silence Dogood deixou James Franklin muito desagradado. O mais que provável ressentimento perante o êxito do irmão — traduzido nos generalizados apreço e admiração que aquelas haviam suscitado – e o temor de que este lhe fizesse sombra terão sido, porventura, agravados pelo facto de parte das cartas de Mrs. Dogood terem sido publicadas, por indicação do próprio Benjamin, no período de algumas semanas (entre Junho e Julho de 1722) em que James estivera preso (por causa de um editorial que especialmente enfurecera as autoridades) e lhe confiara a direcção do The New-England Courant. A tensão entre os dois irmãos, desencadeada por todos estes eventos e potenciada pela intransigência do mais velho ante a ambição do mais novo, culminou, meses depois, na decisão de Benjamin partir para Filadélfia, para tentar a sua sorte.
Quanto a Mrs. Silence Dogood, sabe-se apenas que terá ficado por Boston. Porque, infelizmente, não voltou a dar ares da sua graça. 

Joana Vasconcelos


(originalmente publicado aqui)





terça-feira, 9 de outubro de 2012

A duquesa, o homem sem cabeça e o colar de pérolas.

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Protagonizou um longo e escandaloso divórcio, cujos lurid details causaram um frenesim mediático sem precedentes na Londres dos sixties e por um triz não fizeram cair o governo conservador de Harold Macmillan. 
Margaret enganou o marido. De forma reiterada e muito pouco discreta. Imprudente, anotava nos seus diários os affaires que ao longo de vários anos foi tendo. Pior, guardava entre os seus mais prezados recuerdos uma extraordinária colecção de fotos Polaroid. As imagens, captadas na sumptuosa casa de banho art deco do seu apartamento de Mayfair mostravam-na dresses in nothing but three strands of pearls, performing o que o juiz do divórcio qualificou como disgusting sexual activities num homem de quem pouco mais se vê que o torso. Outras havia de um homem sozinho, engaged em lewd practices, também ele shown from the neck down. Estas últimas fotos últimas exibiam ainda salacious comments, a si dirigidos, manuscritos em jeito de dedicatória.  
Tudo isto é extraordinário – mas não justifica, só por si, o meu fascínio por Margaret Campbell, the Duchess of Argyll e pela sua história. O qual tem uma outra e bem mais prosaica explicação. Pérolas. Um colar de pérolas. Um belíssimo e bem-comportado colar de pérolas de três voltas que, culpa de Margaret, passou a ser também símbolo de decadence and debauchery. E motivo de algum constrangimento para todas as mulheres – nas quais eu me incluo - que desde que o mundo é mundo gostam de pérolas e confiam na sua luminosa e límpida beleza para realçar encantos e para exprimir feminilidade e sedução.   
Ethel Margaret Whigham nasceu em 1912, filha única de um milionário escocês. Viveu e estudou em Nova Iorque, onde o seu pai tinha negócios. De regresso a Londres, e como era costume na época, foi apresentada em sociedade mal completou 18 anos. Foi mediato e duradouro o sucesso: a sua beleza e a sua fortuna fizeram dela a debutante of the year de 1930, a sua elegância e a sua exuberante personalidade tornaram-na figura central da social scene de então. Seguiram-se um sem número de pretendentes e de romances, o noivado, anunciado e logo desfeito, com um aristocrata inglês, o casamento com um jogador de golf americano, o divórcio deste e mais um sem número de pretendentes e de romances. Até que em 1951 casou com Ian Douglas Campbell, the 11th Duke of Argyll.  
Um match made in heaven para Margaret – ela própria o reconheceu mais tarde:  I had wealth, I had good looks. As a young woman I had been constantly photographed, written about, flattered, admired, included in the Ten Best-Dressed Women in the World list. I had become a duchess and mistress of an historic castle. Life was apparently roses all the way”. Só que Margaret não fora feita para a sombria pacatez das scottish highlands, pelo que depressa rumou a Londres, deixando marido e castelo para trás.
O escândalo rebentou em 1959 quando o Duke of Argyll propôs uma acção de divórcio contra Margaret. Como prova das suas acusações de adultério - concretizadas numa extensa e variada lista de 88 supostos amantes, a qual incluía dois ministros, vários actores de Hollywood e três membros da família real –, o marido queixoso apresentou em tribunal os diários de Margaret e as referidas fotos Polaroid, obtidos numa busca ao seu boudoir levada a cabo pela sua enteada.  
Foi tremendo o escândalo, explosivas as revelações e acusações de parte a parte e desmedida a curiosidade quanto àquele a quem o juiz se referia no processo como the Man Without a Head e que a imprensa da época crismou também como the Headless Lover. Dos vários candidatos apontados, dois havia que se perfilavam como altamente prováveis: Duncan Sandys, genro de Winston Churchill, e o actor Douglas Fairbanks Jr., ambos casados, to make matters worse.
Porque Duncan Sandys era também Minister of Defence e porque - poor timing indeed, o de Lord Argyll – o julgamento deste infamous divorce coincidiu com os depoimentos na House of Commons e a subsequente demissão de John Profumo, Secretary of State for the War, que se desgraçara também devido a sexual indiscretions, foi pedido ao magistrado que conduzira o inquérito a este último caso, que averiguasse quem era the Man Without a Head. O relatório final da investigação ilibou Duncan Sandys, mas foi em tudo o mais inconclusivo - ou seja, nada adiantou quanto à identidade do Headless Lover, que permaneceu por desvendar durante décadas.
Sabe-se hoje que o misterioso Headless Man não era um - mas dois. Justamente os dois de que mais insistentemente se falava: Douglas Fairbanks, “apanhado” à época por um exame grafológico (a sua caligrafia correspondia à das “dedicatórias” apostas nas lewd photos) e Duncan Sandys, subtilmente denunciado mais tarde pela própria Margaret que, pouco antes de morrer, confidenciou a um amigo que “the only Polaroid camera in the country at this time had been lent to the Ministry of Defence.
Quanto a Margaret, nunca houve a menor dúvida. Era ela, só podia ser ela. Porque era sua a casa de banho onde haviam sido tiradas as fotos. E por causa do colar. Que distintamente se via nas sexually explicit images e que era a sua signature jewel, indissociável da sua exquisitely elegant imagem que enchia as society pages e as gossip columns onde tinha lugar cativo. Nunca saberemos porque não o tirou on that occasion: the reason why is left entirely to our imagination. Igualmente não o fez, continuando a apresentar-se impeccable and defiant in three strands of pearls durante as audiências de julgamento e mesmo depois de a sentença que lhe pôs termo a ter publicamente exposto como a completely promiscuous woman, one who has ceased to be satisfied with normal sexual activities. Tinha estilo e tinha nerve, quite a nerve, há que reconhecer. Mas que bem podia ter deixado as pérolas fora disto, podia.


Joana Vasconcelos

(originalmente publicado aqui)