sábado, 3 de outubro de 2026
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
terça-feira, 1 de setembro de 2026
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
Numa procissão de botes baleeiros nas Lajes do Pico.
Desde
os finais da década de 1950 comecei a ouvir o José Gabriel Ávila falar com
entusiasmo e mostrar fotos da procissão dos baleeiros na festa da N. Senhora de
Lourdes nas suas Lajes do Pico. Nunca esperei foi, quase aos 80 anos,
participar numa.
O
amigo José Guilherme Ribeiro, nado e criado no Cais do Pico, ganhou bem cedo
amor a tudo quanto ao mar e à faina baleeira diz respeito. Hoje, está envolvido
no museu da Indústria Baleeira na sua terra natal, mas também no Whaling
Museum, em New Bedford, onde vive. Todavia nunca deixou de velejar e, por isso,
continua a fazê-lo na Nova Inglaterra e no Pico, quando vem de férias. Há anos,
levou-nos, à Leonor e a mim, a passear numa lancha baleeira entre o Cais
do Pico e a Baía das Canas, no norte da sua ilha. Desta vez, convidou-nos a
acompanhá-lo no barco baleeiro N. S. da Conceição que ia participar, com outros
barcos baleeiros, na procissão de N. S. de Lourdes, nas Lajes.
E
lá fomos.
Aqui
vão as primeiras fotos quando, com o mar ainda calminho como um lago, porque
abrigado pelo molhe do cais, nos preparávamos para a largada antes da chegada
da procissão que viria da igreja Matriz da vila.
Na
foto #1 está o nosso mestre e capitão. As outras são desses momentos
preparatórios, numa manhã de uma luminosidade esplendorosa. Infelizmente o
Pico, que dali é imponente, não estava completamente descoberto.
Não
se pode ter tudo.
Texto
e fotografias de Onésimo Teotónio de Almeida
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Os demónios da interioridade, as assimetrias que matam os sonhos dos homens.
Não há discurso político-partidário
que não proclame a predisposição para pôr termo às nossas interioridades, que
não são poucas, estão prantadas na raia, até mesmo nas regiões
ultraperiféricas, explicitam-se por fuga das gentes, falta de serviços, ausência
de industrialização, esquecimento dos planificadores ou mesmo dos investidores,
há interioridades nas Beiras, na zona transmontana, em vastidões como aquela
que vamos falar, pontos da serra algarvia, por ali se passa com um certo
desfastio, às vezes com curiosidade, são itinerários obrigatórios para alcançar
as paragens turísticas. No caso vertente do Barrocal Algarvio multiplicam-se os
estudos, adivinham-se as potencialidades, sonha-se com desenvolvimento,
espera-se pelo Encoberto. A Fundação Francisco Manuel dos Santos encomendou a
um jornalista de alto coturno, Rui Araújo, que andasse por esses montes
escalvados, o produto final que ele nos deu é uma reportagem assombrosa,
chama-se Um tesouro no deserto, Retratos da Fundação, 2025. O autor
começa por nos dizer ao que vem:
“A intenção é emprestar voz a esta
gente esquecida dos montes do Nordeste do Algarve. Escutar as suas memórias. Os
testemunhos. Os silêncios. Pintar nestas páginas a terra e as gentes.” Rui
Araújo é um andarilho com muitas provas dadas, sabe perguntar, sabe
contextualizar, ora vejam:
“DESERTO. Foi ontem! As placas indicam
Alcoutim, IC27 e Deserto. Opto por Deserto, o nome atrai-me. Deve ser um lugar
diferente. Dou com dois idosos sentados diante de uma casa sem janelas, o que
dá para imaginar o que a vida custa. Primeiro encontro. E, irremediavelmente,
as primeiras descrenças.
- Ah, tenho saudades, que a gente saía e
via gente por aí todos, o mesmo que a gente. E, agora, uma pessoa sai e não vê
ninguém… - diz-me dona Adelina.
A solidão imposta é sentida como um
calvário. Diz-se, diz-se. E é capaz de ser mesmo assim. Ela veste blusa e
avental azuis. Ele está de chapéu negro sobre os olhos e de camisa cor de burro
quando foge. Daqueles pares de olhos, apesar dos óculos graduados, irradia
tristeza, apenas tristeza.”
A conversa mete muito desalento, quase que
se ouvem os espetros, há memórias dos tempos com trabalho, a apanha da amêndoa
e do figo. O jornalista volta ao local, veio de moto, contempla um furjal, nome
que alguns algarvios dão aso terrenos vedados por árvores de sequeiro. Ainda na
década de 1990 as terras eram todas cultivadas, havia trigo, aveia, centeio,
azinheiras e muito mais. Agora as ruelas estão desertas. O jornalista segue
para Balurco de Baixo, mete conversa com Francisco José Cavaco Gonçalves, foi
lavrador e trabalhou na Câmara de Alcoutim, a população é de velhos, mesmo os
estrangeiros que por ali habitam. É tudo uma questão dos censos, em cerca de
sessenta anos há quase dez vezes menos pessoas a trabalhar no campo e nem a
pesca escapou à desgraça. Em Alcoutim já só resta um pescador. Nova localidade,
o nome é Soudes, conversa com Agostinho Mestre Pereira, conta a sua vida, até a
vida sentimental lhe foi madrasta. Mas não se esquece de dizer que antigamente
se vivia pior. Pobre é uma palavra recorrente, não foram esquecidas as
lembranças da vida frugal, “os brinquedos que eu tive eram uma roda de cortiça
redonda metida numa câmara-de-ar e correndo atrás daquilo.”
Estamos agora no Torneiro. “Ao cabo de uma
eternidade, aparece diante da moradia branca uma idosa que me mede de alto a
baixo. Digo-lhe, só para me dar ares de erudito, que estou a escrever um livro
sobre a memória dos montes do Algarve. Dona Maria Dias Gomes Afonso manda-me
entrar com um sorriso largo e bonacheirão.” Vai recordar a sua infância, lembra
as festas, a vida difícil, comia-se o que a gente colhia, agora nada se semeia
e não há pessoas, diz que é uma mulher feliz.
Rui Araújo preparou-se a sério para esta
digressão. Estamos agora na Bemposta, invoca-se a documentação atinente, temos
mais conversa, desta vez com o senhor Domingos, nova expressão do desalento.
“Se este monte tinha trinta e tal pessoas e hoje só há um. E vocês vão a esses
montes que há por aí, passa igual. Em todo o concelho. As pessoas que viviam
nesta serra todas viviam do campo. Estes campos que a gente vê aí cheios de
mato não se via um pé de mato nem erva daninha (…) E quando eu abalar daqui isto
é capaz de acabar. As pessoas todas abalaram daqui. Toda a minha família. Nós
éramos dez. só temos já cinco. Já morreram outros cinco. Éramos só dois machos.
Um morreu na Guiné, em 1967.”
É reportagem radioscópica e radiográfica,
vai-se por Ourique, depois Pereiro, Tremelgo de Cima, na Serra do Caldeirão,
mais adiante pinhal, à frente Marim, passa-se para Silgado, que é o primeiro
nome do planalto do Pereirão, inflete-se para Pescueza, convém aqui uma
detença. Estamos na província de Cáceres, é uma vila rústica do século XV que
tem uma particularidade de os velhos não estarem em lares, vivem nas casas onde
ergueram telhados, mas não se façam juízos muito coloridos, pode correr o risco
de desaparecer se não for invertida a dinâmica populacional. O jornalista foi
ver o projeto onde se pretende quebrar a solidão e dar a gente na idade maior
um astro de dignidade.
E temos agora o regresso a Alcoutim,
lembra-se o contrabando e os contrabandistas, de lá para cá levava-se o café. A
conversa de Rui Araújo com Paulo Paulino, o Presidente da Autarquia é de ler
com maior atenção: “Somos o concelho do país com menor densidade populacional.
O tamanho médio da propriedade é muito pequeno. Não existe dimensão para que as
explorações sejam autossuficientes.” Solução que propõe: o emparcelamento.
Refere ao entrevistador que há potencial na região, logo o rio Guadiana, faltam
marinas onde pudessem chegar veleiros, ao potencial turístico, as florestas e a
área pastoril.
Se se começou no Deserto estamos agora no
Tesouro, em fim de viagem, serra do Caldeirão, uma conversa luminosa com a
professora Babi, octogenária, a não perder. De modo que tem todo o sentido a
despedida que Rui Araújo nos faz: “Parti à procura do Deserto e descobri um
inestimável Tesouro nos confins de Portugal. É das pessoas de carne e osso que
gosto. O resto é paisagem. Só paisagem.”
Uma belíssima incursão por um desses dolorosos recantos das nossas interioridades.
Mário Beja Santos
quinta-feira, 23 de abril de 2026
São Cristóvão pela Europa (353).
Continuando
na província de Salamanca, agora na sua parte Sul, Beleña é um pequeno
município situado em planalto. Sendo plano, atinge altitudes entre 800 e 900
metros.
Uma
estátua de São Cristóvão foi criada por um artista local usando betão e cimento
branco. Localiza-se junto à estrada com a intenção de proteger os condutores
que passam.
A
igreja, muito simples, é dedicada também ao nosso Santo. No interior, uma
imagem que mal se consegue descortinar na fotografia.
Nesta
região passava a Via da Prata, caminho que ia de Astorga até Mérida. Segundo a
tradição por aqui andaram Viriato, Sertório, até Aníbal Barca, o general Cartaginês.
O
Castelo medieval de São Vicente, também chamado Castelo do Paraíso, do final do
Século XIII, avulta na paisagem. Foi edificado certamente sobre fortificações
anteriores
A
Igreja de Nossa Senhora da Assunção é uma igreja construída em granito no
Século XIII na transição do românico para o gótico. Possui um fresco
representando São Cristóvão um pouco deteriorado.
Zamora
é uma cidade importante na História de Portugal, em especial nos seus
primórdios.
D.
Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, foi Senhora de Astorga e Zamora a partir de
1111. Passou aliás a usar o título de rainha desde essa altura.
Provavelmente
em 1125, fez recentemente 900 anos, o jovem Infante D. Afonso Henriques
investiu-se como cavaleiro. Dizem os Anais de D. Afonso, rei dos portugueses,
transcritos por José Mattoso na sua biografia de D. Afonso Henriques:
Era
de 1163 (ou seja 1125). O ínclito Infante D. Afonso, filho
do Conde D. Henrique e da rainha D. Teresa, neto de D. Afonso, tendo cerca de
14 anos de idade (teria 16), estando na Sé de Zamora, no dia Santo de
Pentecostes, tomou de cima do altar as armas militares e vestiu-se e cingiu-se
a si próprio diante do altar, como é costume fazerem os reis. Vestiu-se com a
armadura como o Gigante, pois era grande de corpo, e cingindo-se a si próprio
com as armas para as batalhas, tornou-se nos seus actos, como um leão e como a
cria do leão que ruge na caça.
Foi
um primeiro momento de afirmação real de D. Afonso Henriques, três anos antes
da batalha de São Mamede. Aconteceu em Zamora porque estava em território de
sua mãe. Evidentemente que há que ter em conta que os Anais, escritos em 1185,
são um panegírico do nosso primeiro rei.
Em
4 e 5 de Outubro de 1143, o Cardeal Guido de Vico (natural de Pisa, cardeal
desde 1130, participante em na eleição de pelo menos três papas) encontrou-se
em Zamora com Afonso VII de Castela e Leão e Afonso Henriques. Foi a chamada
Conferência de Zamora.
Nessa
conferência, de que não existem registos escritos, D. Afonso Henriques
estabelece uma relação directa com a Igreja de Roma, ao mesmo tempo que vê
Afonso VII reconhecê-lo como rei e afirmar-se como Imperador, dignidade
superior à de Rei.
É
indiscutivelmente um momento fundador da nacionalidade portuguesa.
A
construção da Catedral de Zamora, tal como a conhecemos hoje, iniciou-se por
volta de 1139, o que significa que a mencionada investidura de D. Afonso
Henriques como cavaleiro ocorreu provavelmente na sua anterior configuração.
No seu interior, uma magnífica pintura mural de São Cristóvão, da autoria de Blas de Oña, pintor documentado entre 1531 e 1543.
Fotografias de 3 e 4 de Abril de 2026
domingo, 8 de março de 2026
São Cristóvão pela Europa (350).
Terminadas
as digressões pelo Centro da Europa, voltemos ao nosso querido Portugal. E ao
Norte.
Em
Gondomar, a Igreja Paroquial é dedicada a São Cosme e São Damião, os dois
santos gémeos e médicos. A igreja é barroca, construída na primeira metade do
Século XVIII. A torre sineira permite uma passagem.
Numa
remodelação infeliz no início do Século XX desapareceram paredes inteiras de
azulejaria. Subsiste um belo painel representando São Cristóvão.
Segundo
o historiador Penteado Neiva, que teve a gentileza de me acompanhar na visita
(juntamente com os Presidentes da Câmara e da Assembleia Municipais), esta deve
ser a mesma capela da Senhora da Portela fundada em 1553 pelo proprietário da
quinta da Portela, o abade de Santa Leocádia de Geraz do Lima.
Ao
longo dos anos, discutiu-se a manutenção do edifício, a falta de recursos para
a realizar, a conveniência de a deslocar para outro lugar. Mas sempre resistiu.
Está na posse da mesma família desde 1887.
No interior, uma imagem de São Cristóvão de madeira policromada de autor desconhecido e do Século XIX. Tem duas características diferenciadoras. Em primeiro lugar, a sua dimensão de 68 centímetros não corresponde ao padrão gigantesco habitual. Por outro lado, o Menino Jesus assenta no braço direito do Santo e não no ombro.
No
concelho de Vizela situa-se o santuário de São Bento das Pêras, local de
peregrinação e de belas vistas.
No
interior da Igreja principal, já do Século XX, uma imagem do nosso Santo.
Fotografias
de 31 de Janeiro de 2026,
segunda-feira, 23 de junho de 2025
São Cristóvão pela Europa (310).
Por
diversas vezes, tenho chegado à conclusão que esgotei o tratamento dos São
Cristóvãos de Portugal. Mas rapidamente constato que a conclusão afinal não
tinha fundamento.
Os
meus amigos são muitas vezes culpados. Foi o caso agora de dois São Cristóvãos
do Minho que me foram apontados pelo Vítor e pela Fátima, a quem muito
agradeço.
O
primeiro situa-se em Esposende na bela Igreja da Misericórdia. A sua construção
é de 1579 e o estilo maneirista é predominante,
Outro
São Cristóvão encontra-se no Museu Pio XII em Braga na parte consagrada à obra
do pintor Henrique Medina (1901-1988), grande retratista português.
O
quadro da sua autoria retrata por sua vez uma imagem do nosso Santo.
José Liberato
sexta-feira, 30 de maio de 2025
A desdita dos comandos africanos da Guiné na labiríntica historiografia pós-colonial.
Para
me licenciar em História, aprendi que esta é a ciência do Homem no tempo, tempo
que tem um antes, um durante e um depois, o investigador compulsa a
documentação, pode socorrer-se de depoimentos escritos ou orais, em caso algum
pode encobrir provas ou manejá-las de modo que a sua narrativa esteja em plena
concordância com as acusações que comportam os recados que aparentam corresponder
à clara certidão da verdade.
Os
fuzilamentos dos comandos guineenses que combateram do lado português continuam
a ser matéria fraturante, pasto de trabalhos que no fundo pretendem demonstrar
como a nossa descolonização foi caótica, praticou injustiças, deixou um
estendal de misérias. Sofia da Palma Rodrigues doutorou-se sobre este tema,
ouviu velhos antigos combatentes, responsabiliza as autoridades portuguesas que
acompanharam o prescrito pelo Acordo de Argel, e as subsequentes de desleixo
criminoso, abandonaram, afinal, à mercê dos rancores do PAIGC homens que tinham
sido valorosos a combater pela soberania portuguesa. É uma crítica acintosa, um
uso atrabiliário da bibliografia e de diferentes fontes documentais, assim se
escreve Por ti, Portugal, eu juro! A história dos comandos africanos
da Guiné, por Sofia da Palma Rodrigues, Edições Tinta-da-China, 2024.
De
acordo com o que se escreveu nos volumes dedicados à Guiné na Resenha
Histórico-Militar das Campanhas de África, publicados pelo Estado-Maior do
Exército, em 1969, o governador e comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné,
António de Spínola, concebeu uma força especial de comandos e fuzileiros, que
deu origem a três companhias de comandos e duas de fuzileiros, as primeiras
vieram a agrupar-se no chamado Batalhão dos Comandos Africanos. Fez-se uma
seleção por recrutamento voluntário de gente que veio dos pelotões de caçadores
nativos, das forças das milícias, sobretudo. Está comprovado que as autoridades
do PAIGC, o presidente Luís Cabral e os políticos do seu círculo, foram
inteiramente responsáveis pelos crimes perpetrados após a independência, perseguindo,
prendendo, torturando e fuzilando elementos dessas forças especiais, tanto dos
comandos como dos fuzileiros, e mentindo descaradamente, forjando intentonas ou
dizendo nada saber sobre estes fuzilamentos. Nos diferentes livros que
escreveu, nas entrevistas que deu, Luís Cabral negou sempre conhecimento dessas
matanças. Só que os seus colaboradores têm vindo a escrever que as coisas não
se passaram assim. Veja-se o que disse Manecas Santos num livro também
publicado em 2024 intitulado Uma biografia da luta, Rosa de Porcelana
Editora, página 113:
“Pouco
tempo após a independência, talvez por volta de 1976, Luís Cabral foi passar
férias à Suécia. No regresso, fez uma paragem em Lisboa. Tinha boas relações
com Ramalho Eanes que o convidou para um jantar. Durante a conversa, Eanes
falou-lhe de um conjunto de militares, antigos efetivos do exército colonial,
que ainda estavam detidos na Guiné. Fez-lhe um pedido: que fossem devolvidos a
Portugal, mediante a sua garantia pessoal de que não se envolveriam em qualquer
intriga posterior contra o PAIGC ou o Estado da Guiné-Bissau.
Luís
concordou. Assim que chegou a Bissau, convocou o chefe do Estado-Maior das
Forças Armadas, Umaru Djaló; Nino Vieira ministro do Interior; e António
Alcântara Buscardini, chefe dos Serviços de Segurança do Estado. Informou-os
sobre o acordo feito com Eanes e solicitou que providenciassem os documentos de
viagem necessários para o regresso a Portugal dos militares em questão.
Foi
então que Buscardini, com toda a desfaçatez, informou o presidente que os
soldados que tinha prometido devolver já tinham sido executados. Ou seja,
Buscardini tinha tomado individualmente uma decisão que punha em causa a
palavra do chefe de Estado perante um homólogo; e tinha cometido uma violência
contra os prisioneiros que teria sido impensável para o PAIGC, mesmo durante as
hostilidades da luta armada.”
Esta
é a versão de Manecas Santos, acontece que Luís Cabral, por mais uma vez, falou
em tribunais e em tentativas de complô feitas pelos comandos, teria sido a
justiça a decidir o seu fuzilamento. Como se sabe, não há uma só prova de
qualquer envolvimento de comandos e fuzileiros em complôs e sabe-se que os
fuzilamentos se prolongaram até finais de 1977.
Esta
ilustre doutora diz abertamente ao que vem: “Este livro foca-se na recolha de
testemunhos que põem em causa as narrativas oficiais que tanto Portugal como a
Guiné-Bissau escolheram contar sobre si, e sobre os relatos de pessoas que
foram cuspidas para fora de ambos os projetos políticos.” Por outras palavras,
os historiadores, na plenitude andam a mentir. Por vezes diz coisas sem
qualquer fundamento, como dizer que o PAIGC dominava já mais de metade do
território quando Spínola se viu obrigado a apostar nos militares africanos e a
dar-lhe funções de maior importância no Exército. É facto que Spínola apostou
fortíssimo nestes comandos, eles foram utilizados para as operações mais
arrojadas, fizeram muitas vezes vacilar os guerrilheiros do PAIGC e as populações
por ele dominadas. Chegaram a ser cruciais em momentos em que se previa a
hecatombe, como no cerco a Guidaje, em que os comandos entraram no Senegal e
puseram o PAIGC em pânico, em Cumbamori.
Se
esta historiografia pós-colonial servisse para pôr esta situação em pratos
limpos, ouvir-se-iam aqueles que estiveram a pôr em execução o Acordo de Argel.
A senhora doutora nunca refere as conversações travadas pelo brigadeiro
graduado Carlos Fabião com os oficiais e sargentos dos comandos e dos
fuzileiros, Fabião já faleceu, mas deixou depoimento do que fez e como fez. Nem
uma palavra. O PAIGC aceitou incorporar todas as forças militares que combatiam
do lado português, não cumpriram. Naquele vendaval de acusações que a doutora
faz ao comportamento das autoridades portuguesas, não há nem uma palavra sobre
a atmosfera que se viveu em Portugal, particularmente a partir do 11 de março,
em que os spinolistas entraram em debandada. Era igualmente compreensível que
na análise da situação concreta que se vivia nas conversações entre as
autoridades portuguesas e as do PAIGC, estas apelassem à desmobilização das
forças especiais, temiam que com a saída dos portugueses se gerassem focos de
guerra civil. Valia a pena que a doutora tivesse procurado a documentação desta
época nos arquivos da Defesa Nacional e não se limitasse a dizer que Glória
Alves, o 2º comandante do Batalhão de Comandos afirmara que os guineenses
tinham retirado o seu nome da lista que fora proposta por Fabião para virem
para Portugal, fala também em Florindo Morais, mas diz que estes dois
responsáveis não eram capazes de garantir como o processo aconteceu e
recorre-se de interrogações: “Foram mesmo todos os que tinham o nome na lista a
desistir? Houve alguém a precipitar esta decisão? O que terá levado estes
militares a deixarem de querer ir para Portugal?” Será isto maneira de fazer
historiografia? Andou a fazer entrevistas aos comandos africanos e esta questão
não era importante?
Chegámos
por fim ao mau da festa, Almeida Santos, que escreveu e promulgou o Decreto-Lei
n.º 308-A/75, de 24 de junho, que previa que só conservariam a nacionalidade os
cidadãos portugueses nascidos em África que tivessem pais, avós ou bisavós com
linhagem europeia goesa. Nem uma palavra para a avalanche de retornados que
começavam a afluir, nenhum partido político ao tempo contestou a necessidade
desta legislação e, como é sabido, daí por diante, nenhum governo alterou a
essência deste princípio da nacionalidade. É facto que se devia ter a seu tempo
agido em nome do artigo 25º do anexo do Acordo de Argel, mas, como também é
sabido, é assunto face ao qual nenhuma governação quis tratar por via
diplomática pelas autoridades da República da Guiné-Bissau, a partir da
Resolução do Conselho de Ministros nº18/83 em que se definiu que o pagamento
das pensões seria transferido para o Estado da Guiné-Bissau, em troca Portugal
perdoaria uma dívida de juros vencida no valor de 200 milhões de escudos. O que
será que a senhora doutora queria, que cortássemos relações com a Guiné-Bissau
por não cumprir com o estipulado?
Fuzilamento
de comandos guineenses matéria fraturante? Sim, enquanto faltar historiografia
que busque com rigor o tratamento das fontes e trate com a devida prudência as
lacunas e omissões da História oral. Livro que não convence.
quarta-feira, 16 de abril de 2025
quinta-feira, 20 de março de 2025
São Cristóvão pela Europa (302).
É
tempo de voltar ao nosso querido rectângulo. Visitei em Janeiro três freguesias
todas no Norte de Portugal e tendo como orago São Cristóvão.
Comecei
pela freguesia de Candemil na parte Sudeste do concelho de Amarante, junto ao
concelho de Baião. A paróquia já é mencionada no Século VI, sendo chamada de
Sancto Christophori de Candemir a partir de 1152, ou seja, antes da Lenda
Dourada de Voragine que estabelece a história de São Cristóvão!
A
igreja sofreu imensas alterações, as últimas das quais no Século XIX, sendo que
todas as imagens foram roubadas no início do século seguinte.
No
interior, uma imagem no altar-mor e outra na sacristia.
Totalmente
remodelada no Século XVIII, a igreja Paroquial de Mondim de Basto, é hoje uma
típica igreja de estilo barroco. De gótico, apenas a porta lateral. O tecto
ostenta, no caixotão central, a imagem de São Cristóvão.
Finalmente,
e também em Trás-os-Montes, a Igreja Paroquial de Parada de Cunhos no concelho
de Vila Real é também barroca. Tem imagens de São Cristóvão num nicho da
fachada, no tecto como na igreja de Mondim de Basto e no altar-mor.
Fotografias
de 17 de Janeiro de 2015
José Liberato
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025
O Amor é Cego: os bonecos de Estremoz.
É
facto que todo o amor é cego, e sempre o foi. Em Vila Viçosa há um miradouro
chamado Varandinha dos Namorados, para que os amantes possam contemplar as
vistas e abandonar por momentos a cegueira que os traz mergulhados nas trevas
do sentimento. Mas é Estremoz que essa cegueira se torna mais evidente, no
culminar de uma longa história que remonta ao Câmbrico, e que envolve vários
heróis, um dos quais, talvez o maior de todos, foi professor na escola
industrial da cidade.
***
Ao contrário do que sucede com as
argilas de Flor da Rosa ou de Nisa, provenientes de solos graníticos, ou com as
de Évora, Redondo e Viana, de um tom castanho-negro, vindas de dioritos ou de
xistos silúricos, as argilas de Arronches, Campo Maior, Elvas, Portalegre, Vila
Viçosa ou Estremoz têm origem na decomposição de xistos pré-câmbricos e
câmbricos.
Daí
surgiram os barros vermelhos estremocenses com que se fariam os púcaros
celebérrimos, falados por nomes famosos das letras – Gil Vicente, Camões,
Quevedo, Lope de Vega – e louvados por homens poderosos, como o cardeal
Venturini ou Filipe II, o qual, na correspondência que manteve com as filhas,
teve ensejo de escrever: “Al Calabrés
[o seu secretário particular] he embiado a Estremoz á hacer púcaros como
los que tenía ay las flores”, ou “El Calabrès ha vuelto já de Estremoz,
aunque el dexa haciendose alli los púcaros.” Em Espanha, tornaram-se
lendários os púcaros de Estremoz, que conseguiam manter a água sempre fresca,
adicionando-lhe um sabor agradável, e que, sobretudo, tinham extraordinários
poderes cosméticos e terapêuticos, fosse no embranquecimento da pele das senhoras,
fosse no morigerar das dores da menstruação. Ao tempo da União Ibérica, a alta
aristocracia espanhola e portuguesa aderiu em força à moda – ou ao vício – da
bucarofagia: cavalheiros e senhoras, sobretudo estas, bebiam águas dos púcaros
e a seguir trincavam e comiam o barro, fosse o de Estremoz, fosse o de outras
paragens, até distantes, como Tonalá, no México.
Na
sua Relation du voyage d’Espagne, de 1691, a duquesa de Monteleón,
Madame d’Aulnoy, afirma que “viu comer, ouviu gabar e provou com repugnância”
aquela argila miraculosa, cujas virtudes medicinais eram exaltadas pelo
grão-duque da Toscânia, Cosme III de Médicis, ou por Duarte Nunes de Leão.
Dizem os especialistas que um púcaro de Estremoz – ou, melhor, que se presume
ser de Estremoz – surge num dos quadros mais famosos do mundo, As Meninas
de
Velázquez, em
cima da bandeja de prata que dona Maria Agustina Sarmiento oferece à Infanta
Margarita ,
a figura central da tela. Seja ou não verdade, é um facto que os púcaros
estremocenses aparecem, por vezes em lugar de destaque, nas obras de outros
pintores notáveis, como Grão Vasco ou Josefa de Óbidos.
_-_(MeisterDrucke-35749).jpg)
Diego Velázquez, As Meninas, 1656
Em
documentos oficiais, os barros de Estremoz surgem citados pela primeira vez em
1258, no reinado de D. Afonso III, que fundou o castelo e deu foral à terra,
então apenas vila; e as primeiras referências ao figurado de Estremoz constam
de um escrito de Frei Agostinho de Santa Maria, de 1718, e do Aquilégio
Medicinal, de 1726, da autoria de Francisco da Fonseca Henriques, médico de
D. João V, havendo também um acta da vereação da cidade, datada de 10 de
Novembro de 1770, na qual se fala já das boniqueiras da terra. Antes
disso – e podemos até contemplá-lo no museu municipal da cidade –, há um
fragmento minúsculo de um Menino Jesus, datado do século XVII, que foi
descoberto há bem pouco, no ano de 2006, por escavações empreendidas por Marco
Liberato e por Helena Santos.
Há
quem sustente, a este propósito, que o figurado estremocense pode ter surgido
aquando da edificação do Convento de Mafra, que trouxe ao país diversos
artistas estrangeiros, mormente italianos. Estes conviveram de perto com os
seus colegas portugueses, uma plêiade de barristas notáveis que tomou o nome de
“Escola de Mafra”, formada sob os auspícios dos grandes criadores de presépios
lisboetas, como Machado de Castro e os seus colaboradores, António Ferreira,
José Joaquim Leitão, José de Almeida, etc. Concluído o convento mafrense,
alguns destes artistas ter-se-ão dispersado pelo país. Em Estremoz, há notícia
de um deles, conhecido por “Alfacinha”, que fez escola e deixou continuadoras
nas pessoas de Ti Gertrudes Rosa Marques e de Mariana Estopa.
Em
finais do século XVIII, começaram os problemas, à cabeça dos quais uma crónica
falta de lenha, essencial para alumiar os fornos, escassez que se manteve pelo
século XIX dentro. Para agravar as coisas, em 1800 a extracção de barros teve
um tal aumento de preços que os oleiros e mestres da Fábrica de Faiança se
queixaram, sem sucesso, à Junta Real do Comércio, Agricultura, Fábricas e
Navegação. Depois, a instabilidade trazida pelas guerras napoleónicas e, a
seguir, pelas guerras liberais levou à decadência da arte do figurado, que
estava praticamente extinta nos alvores do século XX.
Foi salva por um herói, José Maria de Sá Lemos, escultor e discípulo de Teixeira Lopes, que entrou em cena em 1932, ao assumir as funções de professor e director da Escola Industrial António Gonçalves. Esteve em Estremoz até 1945 e aí exerceu funções como vereador da Cultura, além de ter concebido para a cidade o Monumento aos Mortos da Grande Guerra e a singular Fonte do Sátiro. O seu principal legado, contudo, foi ter resgatado de uma morte quase certa aquilo que a UNESCO hoje consagra como Património Material da Humanidade. Para o efeito, foi necessária muita persuasão e paciência junto de Ti Ana das Peles, a qual, não sendo bonecreira de ofício, na mocidade vira algumas artistas a trabalharem nas suas oficinas. Todas elas estavam mortas há muitos anos, pelo que – e esta é outra maravilha numa história tão fértil delas – o ressuscitar de uma arte morta foi, essencialmente, um trabalho de memória e reminiscência. Em jovem, Ti Ana das Peles fizera apenas algumas figuras mais simples, as de assobio; todas as outras que depois produziu resultaram deste comovente e prodigioso esforço de lembrança.

José Maria de Sá Lemos e Ti Ana das Peles
Por essa altura, o jornal Brados dos Alentejo bradava, indignado, que já não exista manufactura do barro em Estremoz, mas, logo que foram devolvidos à vida, os bonecos estremocenses fascinaram intelectuais e etnógrafos e, pela mão de Luís Chaves, do SNI, fizeram as delícias propagandísticas do Estado Novo, que os levou a diversos e importantes certames, como a Quinzena de Arte Popular Portuguesa, em Genebra, 1935; a Exposição de Arte Popular Portuguesa, Lisboa, 1936; a Exposição de Paris, de 1937; e por fim, mas não por último, a Exposição do Mundo Português, em 1940.
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| Exposição de Arte Popular Portuguesa, 1936 |
Tirada
em 1936, na Exposição de Arte Popular Portuguesa, uma fotografia mostra-nos
um Salazar sorridente, contemplando uma vitrine com os bonecos saídos das mãos
de Ti Ana das Peles, mulher que certamente nunca imaginou que as suas memórias
de meninice despertariam um dia a atenção desvelada de um chefe de governo
português, ademais todo-poderoso. Anos depois, em 1962, os bonecos apareceram
em lugar cimeiro na exposição “Barristas do Alentejo”, patente no Palácio D.
Manuel, em Évora. Nessa fase, já tinham entrado no acervo de alguns museus e
colecções privadas (v.g., a de Júlio Maria dos Reis Pereira) e merecido
a atenção de estudiosos que, tanto no passado como no presente (v.g.,
Azinhal Botelho, Luís Chaves, Solange Parvaux, Joaquim Vermelho, Rafael Salinas
Calado, Hernâni Matos, Hugo Guerreiro), projectaram e continuam a projectar a
obra de gerações sucessivas de artistas, alguns dos quais pertencentes à mesma
família, dinastias inteiras de bonecreiros.
***
O
tema da cegueira do amor é atribuído a Platão, que em As Leis escreveu
“aquele que ama é cego para o que ama”, e foi depois glosado por Shakespeare
num dos seus sonetos. Deu mote a vários provérbios e ditos populares e, na arte
do barro estremocense, é figurado como o boneco Amor Cego (ou
O Amor é Cego), que surge assinalado pela primeira vez em 1929, no
Inventário do Museu Municipal de Estremoz, mas que remonta certamente ao século
XIX. De acordo com os especialistas, denota influência brasileira, e até
porventura africana (na freguesia do Ameixial, nos arredores de Estremoz, há um
Monte dos Pretos e na cidade existe, como noutras localidades do país, a Rua
dos Malcozinhados, dois indícios da presença de escravos negros na região).
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| David Freitas, Primavera, anos 1960-70 |
À semelhança de figuras congéneres como as das Primaveras (Primaveras de Arco ou Primaveras de Plumas) ou as das Bailadeiras, os bonecos do Amor Cego surgem geralmente aos pares, em alegoria do amor profano ou, segundo outros estudiosos, como evocação metafórica da felicidade, do matrimónio, da caridade, da providência. As suas origens terão sido as personagens dos teatros ambulantes que percorriam o país de lés a lés ou as estampas de curiosidades que tiveram grande circulação no século XIX. Poderá ter havido também inspiração nos anjos tocheiros que adornam muitas das nossas igrejas, e há parecenças com certos Bonecos de Santo Aleixo ou até com os anjos da cimalha de presépios expostos em maquinetas com cenas da Natividade. Contudo, a alusão mais óbvia é profana e o seu avatar é Cupido, o qual, à semelhança dos bonecos do Amor Cego, tem as asas vermelhas, a cor da paixão e da luxúria. No figurado de Estremoz, contudo, o amor é representado por uma figura feminina, de coração na mão e de olhos vendados (aliás, nas obras de vários pintores, como Piero della Francesca, Botticelli, Ticiano, Lucas Cranach, etc., há vários cupidos vendados).
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| Piero della Francesca, Cupido Vendado, 1452 |
Como surgem geralmente aos pares, numa das figuras as plumas do toucado ou dos
capacetes inclinam-se da esquerda para a direita, e na outra tomam o sentido
inverso. Há variantes e cambiantes, recriações contemporâneas, mais livres e
ousadas, mas, em regra, a figura do Amor Cego tem uma saia rodada, de
cores vivas e garridas.
Em
face daquela mulher cega de amor, com os olhos vendados e o coração na mão,
somos tentados a lembrar um episódio sucedido em 1543, quando um familiar do
arcebispo de Lisboa acompanhou a Castela a noiva de Filipe II, Maria de
Portugal. De Estremoz, por onde passou, disse: “nesta villa há mtas moças
fermosas e em boa cantidade, porque se os graes e os púcaros sam famosos, mais
merecem as molheres.”
***
Uma história começada no Câmbrico, há coisa de 500 milhões de anos, e que ainda não terminou.
António Araújo
Bibliografia
consultada: Carolina Michäelis de Vasconcelos, Algumas Palavras a Respeito
de Púcaros de Portugal, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921; Joaquim
José Vermelho, Sobre a Cerâmica de Estremoz. Arquivos da memória,
organização de Hugo Guerreiro, Lisboa-Estremoz, Edições Colibri-Câmara
Municipal de Estremoz, 2005; Ana Maria Baptista Costa Mateus, Bonecos de
Estremoz, objectos de identidade patrimonial, dissertação apresentada à
Escola Superior de Design do IADE, Lisboa, 2008, policopiada, inédita; José
Fernandes Reis de Oliveira, Bonecos de Estremoz. Etnografia e Arte,
Lisboa, By the Book, 2015; Hernâni Matos, Bonecos de Estremoz, prefácio
de António Júlio Rebelo, fotografias de Luís Mariano Guimarães, Estremoz-Póvoa
de Varzim, Edições Afrontamento, 2018; Hugo Guerreiro, Figurado de Estremoz.
Produção. Património Imaterial da Humanidade, fotografias de Guilhermo
Carmelo, prefácio de José Daniel Pena, 2.ª edição, Porto, Edições Afrontamento,
2022.


















































