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quinta-feira, 22 de junho de 2023

Um dos capítulos mais negros da História de Portugal.

 





                                    Um dos capítulos mais negros da História de Portugal:

                                        A rede bombista que nos aterrorizou em 1975 e 1976

 


 

As Bombas Que Aterrorizaram Portugal, por Fernando Cavaleiro Ângelo, Casa das Letras, 2023, é uma obra de investigação de leitura indeclinável para quem pretenda mergulhar nos bastidores da rede bombista a que estiveram associados o ELP, o MDLP, partidos da direita radical, membros da Igreja Católica, antigos servidores da PIDE/DGS, antigos combatentes da guerra de África, militares como António de Spínola, Alpoim Calvão, entre muitos outros. Uma escrita fluente, muito segura, um profundo conhecimento do funcionamento dos serviços secretos, revelando documentação até hoje inédita, uma organização da investigação que permite abarcar a história das políticas de terror, implementada por grupos nacionalistas ou por serviços secretos, o autor tem uma inegável mestria no tratamento da sequência histórica desde o despontar da atividade terrorista que terá tido o seu marco em 11 de março de 1975, até ao seu declínio em finais de 1976. Temos aqui as figuras de proa, a enunciação dos grandes acontecimentos marcados pelo 25 de Abril, os golpes e contragolpes, a emergência do MFA revolucionário, a desagregação do tecido económico e social; intervêm fatores externos, com relevo para o conflito em Angola e o aceso da Guerra Fria, entram em cena a 5ª divisão do MFA e o seu funcionamento, Portugal torna-se campo laboratorial para serviços secretos estrangeiros; temos aqui o histórico do aparecimento e funcionalmente do ELP e do MDLP, organizações distintas, o que as irmana é o anti-comunismo profundo, o primeiro centra-se no regresso ao passado, o segundo é manifestamente orientado por um sonho federativo imperial com umas pinceladas de direita conservadora; iremos até à sede do MDLP, e depois à sua atividade de terror, temos aqui os nomes e a identificação dos crimes, depois o colapso da organização, o ELP durará ainda mais algum tempo.

Fernando Cavaleiro Ângelo é igualmente admirável no texto das conclusões e permito-me remeter o leitor para algumas considerações chave que ele tece, algumas delas duras como punhos:

“Passados que foram quase cinquenta anos desde a Revolução de Abril, e dos tempestuosos meses que se seguiram, ainda hoje impera o silêncio sobre os acontecimentos e os verdadeiros culpados dos atos de violência e terror que causaram mortes, feridos e avultados danos materiais em Portugal. Muitos responsáveis foram levados a tribunal, mas só poucos foram condenados a penas de prisão efetiva por terem cometido crimes de sangue, entre outras atrocidades. O envolvimento de militares, polícias e políticos nas redes de terrorismo da extrema-direita acabou por interferir, ou sonegar, as provas e matéria de facto que pudessem alicerçar uma acusão sólida contra os mandantes e executantes de tais crimes violentos.

No final, pode-se concluir que toda esta onda de caos e violência que durou desde o 11 de março de 1975 até quase finais de 1976 serviu três propósitos basilares: impedir a expansão e a tomada do poder pelos comunistas; manter uma política que retomasse o controlo sobre as antigas colónias africanas; e distrair as autoridades, para que o crescimentos dos negócios ilícitos prosperasse, em matéria de tráfico de armas, divisas, contrabando, entre outros.

As duas organizações que tiveram uma atividade mais ativa foram o MDLP e o ELP. Nas suas fileiras juntavam elementos da PIDE/DGS, legião portuguesa, antigos militares, guerrilheiros em desacordo com o plano de descolonização em Angola, mercenários de organizações de extrema-direita e individuos ligados à atividade criminosa. A Igreja Católica, os serviços secretos dos EUA, França, Alemanha e Espanha, e alguns banqueiros, industriais e empresários, também integraram, de forma bastante discreta, esta atividade.

Antes do 25 de novembro de 1975, o MDLP juntou o povo do Norte, com o apoio e cumplicidade da Igreja Católica. O elemento chave para a colaboração entre a Igreja e o movimentos era o cónego Melo, segundo testemunhou o comandante Alpoim Calvão. Referiu também que entre o Projeto Maria da Fonte e o MDLP a intermediação era assumida pelo engenheiro Jorge Jardim. Com todas estas parcerias, o movimento atingia um contigente entre as dez mil e as vinte mil pessoas.

As bombas explodiam em claras manobras de vingança por ódios e desavenças passadas e presentes, que começavam a despontar sob o falso argumento de conceitos ideológicos de índole política. O objetivo e a visão do MDLP perderam fundamento depois da reviravolta sócio-política imposta pelos acontecimentos do 25 de novembro de 1975. As manobras de financiamento deste movimento interagiam com diversas atividades ilícitas, o que impulsionou uma das pessoas mais influentes do MDLP a ameaçar divulgar toda a trama. Este pode ter sido o motivo do aparente assassinato de Joaquim Ferreira Torres. As suas revelações iriam, certamente, provocar uma hecatombe na ainda frágil caminhada que Portugal percorria desde a formação do primeiro governo constitucional. A viúva de Ferreira Torres acusou os membros do MDLP, nomeadamente o comandante Alpoim Calvão, o inspetor Júlio Regadas, Teixeira Gomes e Marques da Costa, de terem sido os responsáveis morais e materiais pelo assassinato do marido. O despacho de arquivamento deste processo, em 1995, reforçava a tese de negócios escuros do MDLP e das conspirações da rede bombista com membros do Conselho da Revolução, pelo menos até 25 de novembro de 1975.

De acordo com diversos relatos, o MDLP nunca recebeu qualquer apoio direto da CIA, os norte-americanos rapidamente se aperceberam de que a solução para a situação interna portuguesa passava por uma aliança com alguns oficiais moderados do Conselho da Revolução e do MFA, e com o partido mais votado nas eleições de 25 de abril de 1975. O esforço de Washington, em colaboração secreta com alguns países europeus e líderes partidários internacionais, foi convencer Spínola a baixar as armas para que as eleições de 25 de abril de 1976 decorressem com tranquilidade e de forma ordeira.

Nos finais de 1976, quer MDLP, quer o ELP, quer ainda o Projeto Maria da Fonte, podendo-se também incluir a rede bombista do Norte, tinham todos findado a atividade terrorista.”

E Portugal revelou-se um país de grandes costumes, sob a consigna da reconciliação, todos os militares implicados no golpe de 11 de março de 1975 foram reintegrados, indemnizados, beneficiaram de legislação especial e alguns foram promovidos a oficiais generais por escolha do Conselho da Revolução. Quem não pôde reclamar, ou reaver a sua situação anterior, eram aqueles que padeceram de forma intencional, ou colateralmente, perante os atos violentos dos guerreiros da apelidada luta armada, como observa o autor, que também questiona se vamos continuar a iludir-nos com a esponja que se julga limpar tudo depois de passados 50 anos.

Um dos grandes ensaios de investigação publicados em 2023, de leitura obrigatória.

 

Mário Beja Santos





quarta-feira, 3 de maio de 2023

A contagem decrescente do Estado Novo, de fevereiro a abril de 1974.

 





 

Os meses finais do chamado regime de Marcello Caetano foram dominados por acontecimentos imprevistos, uns, outros uma tentativa desesperada para comprar armas sofisticadas na quimera de que era possível manter uma guerra em três frentes, num quadro de solidão internacional, e num país sem dinheiro e com graves carências de oficiais. O ensaio Rumo à Revolução, de José Matos e Zélia Oliveira, Guerra e Paz Editores, 2023, alicerçado numa grande consulta de documentos e arquivos nacionais e estrangeiros, revela o que de fundamental aconteceu nos meses que precederam à queda da ditadura num só dia. Trata-se de uma narrativa que irá seguramente enfurecer aqueles que insistem que a guerra colonial tinha sustentabilidade, os recursos não faltavam, para eles a hecatombe foi a falta de vontade em combater, e por tal “crime” se desmoronou o Império. Num país em que ainda impera o culto do sebastianismo, tais nostálgicos não serão desarmados pela verdade dos factos, bem evidentes neste primoroso ensaio.

No essencial, vamos ver aqui abordados: o que de decisivo representou a publicação do livro de Spínola; a busca de armas, sobretudo contando com a gratidão dos EUA pela cedência das Lajes após a guerra dos 6 dias, que trouxe consequências nefastas também para a economia portuguesa; as alterações que se tinham registado em Moçambique, o eterno problema da Guiné, a movimentação dos capitães; as consequências da demissão de Costa Gomes e de Spínola; e, como depois da abortada revolta nas Caldas, um golpe fulminante fez baquear um regime que durara décadas e que parecia não ter fim.

Estamos em 15 de fevereiro de 1974, Marcello Caetano preside, sem saber, à última reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional. O general Costa Gomes informa os presentes de que tinha sido assinado um contrato para a aquisição de uma bateria de mísseis antiaéreos e de que se procurava rapidamente adquirir armas anticarro para enfrentar as viaturas blindadas que se dizia estarem na posse do PAIGC. O chefe do Governo referiu as grandes dificuldades em comprar armas nos mercados internacionais, era o que se estava a passar com os mísseis antiaéreos franceses Crotale. Costa Gomes retoma a palavra para salientar a degradação da situação interna em Moçambique, nesta frente militar faltavam helicópteros e caças, o secretário-de-Estado da Aeronáutica referiu igualmente as dificuldades da sua aquisição e, mais adiante, chamou a atenção para a necessidade para prosseguir com o reequipamento da Força Aérea, pendiam graves ameaças na Guiné e Angola. Dias depois, Caetano irá ler o livro de Spínola, compreendeu que era agora inevitável o golpe de Estado. Os autores espraiam-se sobre o pensamento daquele que irá ser o presidente da Junta de Salvação Nacional, uma quase comédia de enganos de quem autorizou a publicação do livro. Caetano chama os dois generais enquanto os capitães conspiram, temos aqui uma súmula dos acontecimentos que vão espoletar o descontentamento corporativo com a legislação do ministro Sá Viana Rebelo numa tentativa de suprir a escassez de oficiais. Caetano está demissionário, Thomaz não aceita, começa um período da fuga para a frente, desde o seu discurso na Assembleia Nacional até à remodelação ministerial.

É bem interessante a exposição que os autores fazem sobre a esperança em que os EUA fornecessem armas capazes de contrabalançar equipamento superior de guerrilha, Kissinger, que viera a Lisboa agradecer em 17 de setembro de 1973 o auxílio prestado pelo Governo de Caetano, deixará claro de que o Congresso nunca permitiria a cedência às claras daquele armamento, dava como contrapartida o fornecimento e instalação de uma central nuclear, bolsas de estudo, fornecimento de cereais e colaboração técnica e financeira na prospeção de energia geotérmica nos Açores. E avivam-se as dificuldades em Moçambique e na Guiné, a África do Sul compromete-se a fazer um empréstimo de seis milhões de contos, o que daria para cobrir grande parte das necessidades portuguesas no campo do armamento, isto enquanto o PAIGC fez a sua declaração unilateral de independência com o imediato reconhecimento de muitas dezenas de países.

É o momento azado de se fazer a descrição do nascimento do MFA, isto enquanto Caetano discursa na Assembleia Nacional, começaram as transferências compulsivas de militares, inequivocamente críticos do Governo, este é remodelado, introduzindo-se uma nova orgânica, Luz Cunha substitui Costa Gomes, segue-se a precipitação da chamada revolta das Caldas, o Governo parece aliviado e anuncia que há normalidade em todo o território. Escreveu-se no Avante! que “o Governo e o regime não cairão por si próprios nem tão pouco por ação de umas dezenas de oficiais do exército, mesmo que corajosos e patriotas. A sublevação no 16 de março mostra-o mais uma vez”. Não deixa de ser curioso o que se passa na noite de 24 de abril de 1974 durante um jantar em Bona como elementos do Partido Social Democrata Alemão em que o ministro das Finanças disse a Mário Soares que a ditadura portuguesa estava para durar, Mário Soares não conseguiu convencer o seu interlocutor que o fim do regime português estava para breve.

O cônsul português em Milão recebe instruções para ir a Londres, num quadro de total secretismo para falar com o representante da guerrilha do PAIGC, propunha-se denunciar uma possível independência para a colónia portuguesa, reunião inconclusiva, fica prevista uma outra para meses depois, dá-se o 25 de Abril. A 28 de março, Caetano profere a sua “conversa em família”, deixa claro que se mantém intransigente, a guerra prosseguirá.

A súmula dos acontecimentos do golpe de 25 de Abril, pelo seu rigor e frescura narrativa, revela-se um dos mais belos textos sobre a organização do golpe, num contexto que alguns ainda acreditavam ser de completa normalidade: 23 de abril reúne pela última vez o Conselho de Ministros, Caetano é a máscara do cansaço físico e psicológico, há jantares e encontros entre os homens do Estado na noite de 24, temos o desenrolar dessa noite, tudo culminará com a tomada da PIDE/DGS, no amanhecer de 26, isto enquanto Spínola dá a primeira conferência de imprensa na Pontinha:

“Ao contrário do que seria de esperar, os arquivos da polícia política que continham milhões de fichas foram encontrados aparentemente intactos. Nas mesas de alguns agentes encontraram algumas revistas Playboy e Penthouse. No gabinete de Silva Pais permaneciam três quadros fixos na parede com as imagens de Américo Thomaz, Marcello Caetano e Salazar. São dadas ordens para os retirar e Silva Pais prontifica-se para tal, mas o de Salazar era mais difícil por estar mais alto. Diz-se que alguém foi então buscar um escadote e o retrato de Salazar também foi removido. O fim do regime estava consumado.”

Uma narrativa de grande fôlego a não perder.

  

                                                                                Mário Beja Santos





sexta-feira, 21 de abril de 2023

A minha celebração do 25 de Abril.

 




    Falar em pormenor da minha participação no processo revolucionário português desencadeado pelo golpe de estado de 25 de Abril de 1974 é difícil, em virtude da gravidade e melindrosa sensibilidade da matéria, em virtude da complexidade e da extensão dessa participação, e, sobretudo, em virtude da escassez de documentação pertinente (sim: tive comigo essa documentação, mas, por cautela e a conselho de coconspiradores, que  se diziam superiormente informados, fui praticamente impelido a destruí-la, o que hoje sinceramente lamento). Em vista disso, tocar-se-á apenas naqueles aspectos que, em meu modesto entender, parecem revestir maior relevância, para além de estarem mais profunda e indelevelmente gravados na memória.

          E, sem mais preâmbulos, vamos ao relato.

     Animal político, português da diáspora, sempre com a imagem da velha Pátria entranhada na mente e no coração, há muito que me acostumara a despertar ao som do noticiário transmitido pela rádio, especificamente pela emissora de Hartford da NPR (National Public Radio). E foi ao “som do noticiário transmitido pela rádio”, no meu “sempre velho e sempre novo” Grundig, o primeiro objecto de algum valor e muita estimação que comprei nos Estados Unidos, juntamente com a Enciclopédia Britânica, em Inglês, que, na manhã de 25 de Abril de 1974, despertei, no meu apartamento de Storrs, no Estado de Connecticut. E o que ouvi pôs-me em delírio. Um grupo de jovens capitães, dizia o locutor, sem derramar uma gota de sangue, derrubara o governo ditatorial de Marcello Caetano (e de Salazar, naturalmente), com quarenta e oito vagarosos, penosos e pesados anos de duração, e prometera solenemente implantar um regime democrático em Portugal.

          Ouvida a auspiciosa notícia, sentei-me ao piano e toquei A Portuguesa, com a maior emoção. Em seguida, peguei do telefone e chamei o Dr. Adriano Seabra Veiga, meu amigo, meu médico e Cônsul Honorário de Portugal, em Waterbury, estado de Connecticut, e, ébrios de orgulho, celebrámos com lágrimas de alegria a libertação de Portugal. Nas aulas desse dia, a primeira coisa que eu dizia aos meus alunos é que Portugal, o país que me dera o berço, era finalmente uma nação livre. E nos corredores e nos escritórios dizia a mesma coisa aos meus colegas.

          No dia seguinte, sabendo da atenção e da assiduidade com que eu sempre tinha acompanhado a política portuguesa, desde que fora contratado para professor de Espanhol e de Português, na Universidade de Connecticut, em Setembro de 1969, fui convidado pelos dois principais jornais da capital do Estado de Connecticut - The Hartford Times e The Hartford Courant - para lhes dar entrevistas sobre a chamada "Revolução dos Cravos", em Portugal, entrevistas em que manifestei o meu júbilo inenarrável por um acontecimento que eu tão ardentemente desejara e por que tanto tempo ansiosamente esperara e suspirara.

          Dizer que foi com o maior entusiasmo e intensidade que passei a viver a revolução portuguesa é desnecessário. Todos os dias assistia aos noticiários internacionais da televisão e todos os dias lia The New York Times e comprava com a maior regularidade os jornais portugueses que chegavam pela TAP aos Estados Unidos no próprio dia em que eram publicados, dada a diferença de cinco horas entre Portugal e a costa leste dos Estados Unidos, onde eu vivia e continuo a viver. E, embora não tivesse planos para me deslocar nesse Verão a Portugal, a primeira coisa que fiz foi telefonar a uma agência de viagens e marcar passagem de avião para o dia a seguir à conclusão dos exames finais do segundo semestre na minha universidade.

          Os exames acabaram, as provas foram corrigidas, as notas foram dadas e eu tomei o primeiro avião da TAP a caminho de Lisboa, onde aterrei no dia 22 de Maio de 1974 e donde regressei aos Estados Unidos no dia 5 de Julho.

          Chegado ao aeroporto da Portela, a primeira coisa que fiz foi procurar um cravo vermelho. E como, para surpresa e desilusão minha, não havia cravos à venda no aeroporto, ao contrário do que as notícias que me chegavam diariamente pela imprensa, pela rádio e pela televisão, me tinham induzido a crer, dirigi-me a um soldado fardado e pedi-lhe que fizesse o favor de me presentear com o cravo que ele tinha espetado na ponta da baioneta. E o soldado deu-me o cravo, com um sorriso nos lábios, gesto que eu agradeci e retribuí com idêntico sorriso.

          De cravo vermelho na lapela do casaco, saí do aeroporto e tomei um táxi. Quando o motorista me perguntou pelo destino, eu disse-lhe que se dirigisse ao Marquês de Pombal e que daí me levasse até ao fim da Avenida da Liberdade. Uma vez lá chegados, o motorista perguntou-me onde queria que me deixasse, ao que eu respondi que subisse a Avenida da Liberdade e que depois me levasse ao Campo Grande.

          Ao acabar de proferir estas palavras, o motorista de táxi, meio perplexo, olhou para mim de uma forma estranha e perguntou-me se eu tinha muito dinheiro para desperdiçar. Respondi-lhe que não e expliquei-lhe a razão por que tinha descido e subido a Avenida da Liberdade. Tinha esperado durante tantos anos pela libertação de Portugal, que queria celebrá-la simbolicamente, apenas chegado ao meu país de origem, país que trazia sempre gravado na mente e no coração, mesmo que tivesse optado pela aquisição da nacionalidade americana, acontecida no primeiro de Maio de 1967, por conveniências cívicas e profissionais.

          Após haver passado uns momentos com minha irmã, filha da caridade, no seu convento, Casa Central de São Vicente de Paula, na Avenida Craveiro Lopes, tomei um táxi para o Sabugo, uma pequena aldeia entre Belas e Pero Pinheiro, do concelho de Sintra, onde vivia um irmão meu, com a esposa, os três filhos e a minha mãe. A todos encontrei em casa, com excepção de meu irmão, que se encontrava preso no Forte-Prisão de Caxias, desde o dia 26 de Abril.

          Não constituiu para mim grande surpresa o ver que a apreensão de minha mãe e de minha cunhada pela sorte de meu irmão não era tão grande como seria de esperar, noutras circunstâncias. É que elas, da mesma maneira que eu e o povo português, em geral, tinham sido levadas a crer, a julgar pela habilidosa e manhosa propaganda de que diariamente se faziam eco os meios de comunicação social, ferreamente manipulados pelos mandarins do novo regime, que se tratava de uma espécie de estado de asilo político para altos funcionários públicos, legionários, ministros, secretários e subsecretários de estado, altas patentes militares e grandes empresários, até ao momento, que surgiria num futuro muito próximo, dizia-se falsa e falaciosamente à boca cheia, através de uma comunicação social controlada e censurada, em que se evaporasse definitivamente uma certa fúria popular contra esses e outros servidores do velho regime político.

          Tratava-se no fundo, como me tinha sido dito pelos novos donos do poder, e como voltaria a ser-me frequentemente repetido, no futuro, de proteger esses cidadãos contra possíveis represálias por parte de meia dúzia de fanáticos e de energúmenos, maldosamente atiçados em surdina por elementos do PCP (Partido Comunista Português) e de outros partidos políticos radicais de esquerda e por muitos representantes marxistas do MFA (Movimento das Forças Armadas).

          Após o almoço, minha mãe, minha cunhada, meus sobrinhos e eu dirigimo-nos ao Forte-Prisão de Caxias, para ver se conseguíamos visitar o meu irmão. Que não era possível: que nesse dia não havia visitas; que os prisioneiros estavam de quarentena - foi-nos dito por um militar fardado, barbudo, guedelhudo e de metralhadora em punho, postado desleixada e preguiçosamente ao lado de um tanque carrancudo e ameaçador, a uns bons metros do portão do Forte-Prisão.

          Mediante tal resposta, comecei por dizer que tinha chegado dos Estados Unidos, na manhã desse mesmo dia, com uma única finalidade: a de visitar meu irmão na prisão. E como o militar ainda continuasse a dizer-me que não era possível efectuar visitas nesse dia, tirei do bolso dois recortes de jornal, publicados na cidade de Hartford, capital do Estado de Connecticut, nos Estados Unidos, com entrevistas minhas, dadas no segundo dia a seguir à revolução, no dia 26 de Abril, portanto, como foi referido anteriormente.

          Quando verificaram que nessas entrevistas eu celebrava em termos superlativamente encomiásticos a "Revolução dos Cravos" (o título de uma das entrevistas era assim: "The most beautiful coup d'état of the century"), os zelosos e fanáticos guardiães dos carcereiros e dos encarcerados do Forte-Prisão de Caxias, apearam-se momentaneamente do pedestal em que se tinham alcandorado, retiraram todas as objecções e, a título de excepção, permitiram-me, assim como a toda a minha família, uma rápida visita a meu irmão.

          Depois de termos passado por entre grades e soldados barbudos e guedelhudos, armados de iradas metralhadoras, chegámos a uma sala onde nos mandaram esperar. Passados momentos, acompanhado de dois soldados, também fortemente armados, chegou meu irmão. Separavam-nos espessas e ameaçadoras grades de ferro e grossos vidros, à prova de bala, e tornava-se impossível abraçarmo-nos. Mutuamente fizemos o gesto do abraço fraterno. E eu, ingenuamente, e na melhor boa fé, dei-lhe a entender, por gestos, que lhe queria oferecer o cravo que levara comigo, mas que não sabia como poderia dar-lho. Lembrei-me então que poderia pedir a um soldado que tivesse a bondade de lho entregar por mim. Fiz esse pedido e o soldado entrou no recinto em que se encontrava meu irmão e entregou-lhe o cravo. E a visita terminou, decorridos escassos e fugitivos minutos.

          Essa visita foi o doloroso prelúdio de outras visitas, durante o resto dessa minha estadia em Portugal e durante outras futuras estadias, por ocasião das férias de Natal e de verão, visitas que viriam a mudar de destino, que não de finalidade, à medida que meu irmão andou, como outros prisioneiros políticos portugueses, de Pilatos para Caifás, quer dizer, de prisão para prisão, passando do Forte-Prisão de Caxias para a Penitenciária de Lisboa, da Penitenciária de Lisboa para o Forte-Prisão de Peniche, do Forte-Prisão de Peniche para o Estabelecimento Prisional de Monsanto, e do Estabelecimento Prisional de Monsanto finalmente para a liberdade, depois de um julgamento perfuntório, com louvores do juiz, uns vinte e oito meses mais tarde, após o encarceramento. Encarceramento puramente discricionário, facto de que eu - e todos os que tivessem olhos para ver - viria a ter provas irrefutáveis, à medida que o tempo passava.

          Foi por ser testemunha ocular desse procedimento, por parte dos vários governos que se foram formando e caindo, que eu comecei a repensar a Revolução de Abril e que fui concluindo, pouco a pouco, com demasiada lentidão, infelizmente, devido à minha proverbial ingenuidade, que não era essa a revolução com que eu poderia continuar a identificar-me, com o entusiasmo e o fervor com que me identificara com ela nos primeiros tempos. Si parva licet componere magnis (Se é lícito comparar as coisas pequenas com as coisas grandes), também eu diria, amargurado e triste, com Ortega y Gasset, perante o malogro que foi a Segunda República Espanhola (1931-1939), por cujo advento ele valente e denodadamente pugnara: “no es esto, no es esto.”

          Tinha eu regressado aos Estados Unidos e meu irmão continuava na prisão, à espera de uma acusação formal que nunca chegava, porque afinal não existia causa-crime para se poder fazer essa acusação.

           Um belo dia, por fins de Novembro de 1974, resolvi escrever uma carta ao Presidente da República Portuguesa, já então o General Costa Gomes, pedindo-lhe que mandasse proceder ao julgamento de meu irmão, se achava que ele tinha cometido algum crime, ou então que o mandasse pôr em liberdade. Era assim que se agia nos países civilizados e genuinamente democráticos - dizia eu nessa carta. E era assim que estava exarado na Carta das Nações Unidas, de que Portugal galhardamente se orgulhava de ser um dos países signatários, a partir de 1955.

          O tempo passava e de Lisboa não chegava qualquer resposta à minha carta. E foi assim que, tendo sido convidado pelo Embaixador de Portugal às Nações Unidas, Professor Veiga Simão, e pelo Cônsul Honorário de Portugal, em Waterbury, a representar a comunidade luso-americana do meu Estado, Connecticut, por ocasião do discurso do Presidente de Portugal, General Costa Gomes, nas Nações Unidas e da recepção dada por ele à comunidade portuguesa nos Estados Unidos, no Hotel Astoria de Nova Iorque, levei comigo uma cópia dessa carta e, no momento em que o cumprimentei, fiz questão de lha mostrar, de lhe dizer por alto do que se tratava e depositá-la nas mãos de um dos seus assessores. Só passados uns três meses é que recebi uma resposta a essa carta, do punho de um tal Capitão Geada. Resposta muito vaga, pelo que se referia à sorte de meu irmão, prisioneiro político, mas muito concreta pelo que se referia ao meu empenho pelo triunfo da revolução portuguesa, como constava dos recortes de entrevistas dadas por mim a prestigiosos jornais dos Estados Unidos, recortes que eu tinha enviado, em anexo à cópia da carta que escrevera ao Presidente da República Portuguesa, General Costa Gomes.

 

                                                                                           António Cirurgião

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Salgueiro Maia, o símbolo da pureza inicial da Revolução dos Cravos

 




Salgueiro Maia: “Diz-me o teu nome e sais de Santarém/ trazendo a espada e a flor da liberdade”, Manuel Alegre



 

É uma obra de tocante homenagem, uma edição simultânea em duas línguas, Salgueiro Maia, das guerras em África à Revolução dos Cravos, por Moisés Cayetano Rosado, Edições Colibri, Associação 25 de Abril, Associação Salgueiro Maia, 2021. O retrato de uma figura que correu mundo, um homem em cima de uma Chaimite, cumpriu o seu dever, tornou-se incómodo pelo que representava, não queria pódio, coroa de louros, holofotes, transmitiu integralmente a imagem do militar que queria apenas cumprir o seu dever, restituindo a liberdade à nossa pátria.

Dirão que é mais uma biografia de Fernando José Salgueiro Maia, um olhar afetuoso sobre esse Capitão de Abril que quis regressar prontamente ao quartel e que tão precocemente partiu, abatido por uma doença incurável. O que nos prende, rememorando acontecimentos e datas que se constituem iconográficas para gente da minha idade é a admiração incontida do investigador andaluz que ajunta ao contexto histórico da descolonização as páginas mais impressivas dos treze anos de guerras coloniais, e, reconheça-se, tem sempre a maior utilidade para as novas gerações dispor de um guia de referência sobre a evolução desses teatros de operações, como se recrutava gente para a guerra, como os quadros do quadro permanente se iam apercebendo da ausência de soluções num quadro de exaustão de meios, em que era patente a elevada qualidade do armamento  dos guerrilheiros comparativamente com o utilizado pelas Forças Armadas Portuguesas.

Salgueiro Maia ingressa na Academia Militar com 20 anos de idade e dirá numa entrevista a Fernando Assis Pacheco que então acreditava no Portugal uno e indivisível, aceitava argumentação oficial e nas ambições das grandes potências. A sua comissão na Guiné foi decisiva e deixará um escrito que é hoje um documento de referência quanto à sua participação para pôr termo ao cerco de Guidage, acontecimentos ocorridos em maio de 1973, veja-se este trecho que saiu do seu punho e que consta das suas memórias Crónica dos feitos por Guidage:

“Debaixo de uma árvore estão estendidos cinco homens; o capim está todo pisado; alguns dos homens estão em cima de panos de tenda; no chão estão várias compressas brancas empastadas de vermelho; o chão parece o de um matadouro, há sangue coalhado por todo o lado, a maioria do sangue vem de um dos homens que já está cheio de moscas. Dirijo-me para ele, está com cor de cera, está praticamente nu, olha-me como que em prece, ninguém geme, o silêncio é total. Trago comigo o furriel-enfermeiro e um cabo-maqueiro. Mando-os avançar assim como as macas. Dirijo-me ao ferido mais grave, o ferimento provém-lhe da perna, tem em cima dela várias compressas empastadas de sangue; tiro as compressas e vejo que o homem não tem garrote. Pergunto estupefacto porque é que não lhe fizeram garrote. Alguém me respondeu que o enfermeiro está ferido. Começo a sentir raiva. Continuo a tirar as compressas, que foram postas a monte, sem sequer terem sido apertadas. O homem tem um estilhaço na zona da articulação do joelho. Vê-se a tíbia; toda a carne se encontra como que seca, envolvendo um buraco do tamanho de uma laranja”.

Pertence a uma plêiade de oficiais que não têm qualquer ilusão de que a guerra para os portugueses entrou num plano inclinado. O governo pretende recrutar a partir da camada de milicianos que fizeram a guerra uma nova fornada de capitães, os que passaram pela Academia Militar e já estiveram na guerra repontam, assinam documentos, fazem tremer os ministérios, de um quadro reivindicativo tudo se transfere para um movimento que conduza ao fim do regime, o autor dá-nos o apontamento desta situação até chegarmos à Operação Fim-Regime, Salgueiro Maia sai de Santarém com viaturas, antes falara com os seus subordinados, estes aderiram ao levantamento. Do Terreiro do Paço seguem para o Largo do Carmo, Salgueiro Maia fala com Marcelo Caetano, a seguir virá o general Spínola, que terá um comportamento pouco deferente com Salgueiro Maia. E temos a história bem conhecida de todo este período turbulento em que em dois momentos-chave, 11 de março e 25 de novembro, o capitão que metera Marcelo Caetano num blindado que depois o levará ao exílio, será posto em causa devido ao seu comportamento íntegro. As suas relações com Eanes passarão a meramente formais, e as chefias mais conservadoras nas Forças Armadas claramente o marginalizaram, entregam-lhe departamentos de rotina, foi colocado em serviços administrativos, destacado para os Açores, aqui apupado e ameaçado por gente da FLA – Frente de Libertação dos Açores. Em maio de 1979 volta a Santarém, mas para ficar à frente do presídio militar local ocupando um posto de um sargento ajudante, dois anos depois nomeado para Santa Margarida, com funções de instrutor. Em outubro de 1983 recebe a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, mas não se sentirá compensado do cortejo de humilhações que sofreu. Também por se sentir malquisto ou incómodo, dá asas a um seu sonho cultural, torna-se membro da Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos, entrega-se a inúmeras atividades, irá concluir um curso universitário em Ciências Antropológicas e Etnológicas (1980), jamais abandonará a sua equidistância face ao poder, mas não esconde o sabor amargo da sua discriminação, como se confessa numa entrevista a Fernando Assis Pacheco, em 1988: “deploro que tendo nós realizado um ato ímpar – pela primeira vez na História da Humanidade, uma força militar realiza uma ação de destruição de um poder sem se apropriar desse poder – isto que em todos os países é relevante, passa aqui pura e simplesmente despercebido, ou então, ao contrário, serve de base para sermos marginalizados, quando não tratados como traidores à Pátria”.

Adoece, é-lhe diagnosticado um cancro intestinal, vem a falecer a 4 de abril de 1992, pela capela da Academia Militar irão passar três antigos presidentes da República, o então presidente Mário Soares, membros do governo, dirigentes políticos. O autor é sempre afetuoso com Salgueiro Maia, não deixara de ir ao cemitério de Castelo de Vide, onde este herói do 25 de Abril está sepultado em campa rasa, dedica um poema a este ícone que esteve exatamente no dia e na hora em que se finou o Estado Novo no quartel da GNR no Largo do Carmo, poema que intitula os heróis marginalizados, e assim se despede: “A figura vai ganhando relevo com o tempo, à medida que sopra o vento, expulsa as folhas caídas e a rocha firme fica despida e limpa, os alicerces sobre os quais se levanta o país, um Portugal livre, dono do seu destino, enriquecido por uma revolução na qual a união do Povo com as suas Forças Armadas deram uma lição ao mundo”.


                                                                                                     
                                                                                               Mário Beja Santos






 

 


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O general Spínola e o copo de água quente.









         Durante as três semanas e tal que o General Spínola passou nos Estados Unidos, nos meses de Novembro e Dezembro de 1975, várias foram as vezes que comemos juntos em restaurantes. E como o Inglês dele era de uma pobreza franciscana, era eu o intérprete de serviço.

         Terminada a refeição, que nunca incluía aperitivo, raramente incluía sobremesa, e jamais incluía qualquer bebida alcoólica, pois eu era praticamente abstémio e o General Spínola, de uma frugalidade impressionante, foi a pessoa que mais cabalmente me fez lembrar a essência de uma educação espartana, ele voltava-se para mim e pedia-me que mandasse vir um copo de água quente. Eu chamava o empregado ou a empregada de mesa e pedia-lhe que trouxesse um copo de água quente.

         - Água quente? Para chá? - era a pergunta imediata.

         - Não. Para beber - esclarecia eu.

         E lá vinha o copo de água quente. O General apalpava e dizia que não era assim que queria a água. Queria-a quente. (É que por água quente, para beber, o empregado ou a empregada de mesa entendia água à temperatura normal.)

         Eu voltava a chamar o empregado de mesa e dizia que trouxesse um copo de água quente.

         E lá vinha novamente o empregado com o copo de água, mas ainda não ao gosto de Spínola, dado que, sem mais explicações, o empregado de mesa entendia água levemente tépida.

         Então eu esclarecia que imaginasse que trazia água para chá, mas já um pouco esfriada.  

         Com a paciência e o meio sorriso que se exige dos empregados de mesa americanos, lá vinha por fim um copo de água quente, ao gosto do General.

         E sabem o que sucedia? Os empregados de mesa, visivelmente intrigados e cheios de curiosidade, ao afastarem-se da mesa, olhavam sorrateiramente para trás, pelo rabinho do olho, a fim de ver o que o homem do monóculo e do pingalim fazia com o copo de água quente. Ao verificarem que ele bebia a água com a maior das naturalidades, afastavam-se a sorrir, disfarçadamente.

         Depois das primeiras duas ou três experiências, que também a mim me intrigavam e divertiam um pouco, interiormente, já se vê, eu fazia questão de explicar ao empregado, logo à partida, que trouxesse um copo de água bastante quente.

         Devo esclarecer que, ao observar e reflectir nesse hábito peculiar do General Spínola, me veio à lembrança o que meu pai costumava fazer com o vinho, sobretudo durante os longos, nevosos e cruéis meses de Inverno, na terra que os fados me deram por berço: Soutelinho da Raia, situada num planalto, em Trás-os-Montes, entre Chaves e Montalegre. Uns minutos antes das refeições, meu pai punha a caneca de vinho a aquecer junto da lareira, para bebê-lo morno, dizendo que dessa maneira se fazia melhor a digestão, que era, aliás, o que Spínola afirmava, quanto ao copo de água quente, bebido no final das refeições.

           Comentando uma vez, meses mais tarde, com Adriano Moreira, este hábito alimentar do General, ele, mais versado do que eu nas velhas tradições portuguesas de carácter culinário, nutritivo e dietético, veio a confirmar, quanto ao copo de vinho quente e de água quente, bebidos no fim das refeições, o que meu pai e o General Spínola diziam e faziam.  

                          António Cirurgião













segunda-feira, 27 de julho de 2020

Coração independente.







Pronto, terminei a leitura deste livro esmagador, um tour de força de muitas páginas. Que trabalho insano, que investigação imenasa, Deus meu!, coisa rara e pouco vista por nossas bandas laxistas. O livro talvez precisasse de ser um pouco editado, talvez, e o entusiasmo do biógrafo pela biografada também talvez pudesse ser um pouco moderado. Mas que são esses pecadilhos comparados com o muito e tanto, imenso e novo, que este livro nos traz? Há figuras que não saem nada bem da fita: José Jorge Letria, Mário Castrim, Carlos do Carmo… E como explicar o silêncio, no pós-25 de Abril, do partido e das dezenas e dezenas de pessoas que Amália ajudou em ditadura? Neste livro está lá tudo, falado, documentado. Está lá que Amália foi enxovalhada, denegrida, perseguida – e poucos ou nenhuns se levantaram em sua defesa. É triste, é fado, é o eterno fado do cavanço, do tempo da Grande Guerra. Agora, por ser centenário, muitos falam da inteligência da diva. Sem dúvida, está certo, mas Amália era também emocional, deveras passional, vê-se em cada linha desta obra de Miguel Carvalho (que, com este e com o seu anterior  Quando Portugal Ardeu, se arrisca a ser o maior repórter-cronista do 25 de Abril: é prosseguir, sem medo!). Mas o que deste livro ressalta é, acima de tudo, muito por cima de tudo, que Amália Rodrigues uma grandeza de carácter absolutamente extraordinária. Coração independente? Sim, o dela, só o dela.