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domingo, 19 de julho de 2020

Canalhas.









O Chega quer fazer um referendo à pena de morte (e fez um «referendo interno» sobre a pena de morte). Um referendo à pena de morte é obviamente inconstitucional e, como tal, nunca será permitido. Mas nada disso interessa ao Chega ou a André Ventura, nem a pena de morte, nem a morte nem a vida. O que interessa é fazer barulho, que falem do Chega. Ai sim? Então vamos fazer barulho: faz agora 33 anos que foi filmado Fourteen Days in May, cinéma vérité sobre o assassinato legal de Edward Earl Johnson, cuja culpabilidade veio depois a ser seriamente questionada. Vejam os minutos finais da execução de Earl Johnson. Vejam e meditem se é humano ou moral um partido andar a fazer jogadas politiqueiras com coisas destas. Numa palavra: canalhas.









terça-feira, 20 de agosto de 2019

Aquele Verão.

 
 
 
 
 



A imagem mais célebre foi editada, não corresponde inteiramente ao original. Ainda assim, ambas as fotografias (ambas as duas fotografias) são poderosas e arrepiantes. E a história de Ruth Snyder é também poderosa e arrepiante, como poderosa – e arrepiante – é a narrativa da sua execução, em Sing Sing, e como poderoso – e arrepiante, claro – é o legado que este caso célebre, mais noticiado do que o naufrágio do Titanic, deixou na cultura ocidental, de Clark Gable aos Guns N’ Roses’, passando por Billy Wilder, Raymond Chandler, D. W. Griffith, O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes e muito, muito mais. Para informações complementares, Aquele Verão, de Bill Bryson, um grande livro – mais um – de um enorme autor.
 
 

 
 
 

 
 






 

terça-feira, 2 de abril de 2019

Uma diferença de fundo.



Russell Bucklew


Russell Bucklew está no corredor da morte de uma penitenciária do Missouri. Sofre de uma doença rara, que faz com que o uso de uma injecção letal irá ser tremendamente doloroso. Os tumores que tem na cabeça e no pescoço irão rebentar, causando-lhe uma horrível agonia durante vários minutos. O Supreme Court considerou há pouco, por uma margem tangencial de 5-4 votos dos juízes, que Russell Bucklew não tem direito a uma morte indolor. Não venham dizer, por favor, que Russell Buclew é um assassino, e que a sua vítima não teve direito a uma morte indolor. É que se há uma diferença entre nós e Russell Bucklew – a diferença que nos permite condená-lo pelos crimes que fez –, essa diferença é precisamente esta: Russell Bucklew foi indiferente ao sofrimento das suas vítimas; nós, não.
 
 
 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

A multidão ululante.

 

 
Na década de 1920, um jovem polícia inglês colocado em Burma matou um elefante. O dono do elefante ficou furioso e o chefe da esquadra disse que aquele jovem envergonhava a educação que recebera em Eton. O jovem chamava-se Eric Arthur Blair e, mal regressou a Inglaterra de licença, abandonou a polícia para abraçar a carreira das letras com o pseudónimo de George Orwell.
Ainda hoje os seus biógrafos não se entendem sobre se Orwell terá mesmo morto um elefante ou se é pura fantasia literária o que contou em “Shooting an Elephant”, em que o protagonista não quer matar um elefante tresmalhado no bazar mas acaba por fazê-lo devido à pressão da multidão ululante.
 
Topsy
 
 
 
Muito provavelmente, foi também a multidão ululante que levou à morte de Topsy, uma elefanta executada por electrocussão em Nova Iorque, dia 4 de Janeiro de 1903. Topsy nasceu na Ásia e foi contrabandeada às secretas para a América, onde fez carreira no circo Forepaugh, cujo dono anunciou, falsamente, ser ela o primeiro elefante indiano a nascer nos Estados Unidos. A história foi desmascarada pela concorrência e, com o passar dos anos, Topsy tornou-se conhecida nos meios circenses pelo seu temperamento rebelde e péssimo feitio. Em 1902 matou um homem. Especula-se ainda hoje sobre o que se terá passado, mas as fontes mais credíveis dizem que o homem procurava a todo o custo ser contratado pelo circo Forepaugh e, numa manhã de 1902, entrou bêbado na zona dos animais e pôs-se a arreliar os elefantes. Atirou-lhes areia para os olhos e, não contente, queimou com um cigarro a ponta da tromba da elefanta Topsy, uma parte muito sensível do corpo dos proboscídeos. Tão sensível que Topsy lhe deu com a tromba em cima, e matou-o. A multidão, é óbvio, começou a ulular. E, como sempre, a imprensa ajudou à festa, noticiando que a alimária já tinha um cadastro de doze homicídios, uma mentira completa. Passados uns tempos, a elefanta foi vendida aos empresários que construíam o Luna Park de Coney Island. Uma série de incidentes com o tratador, outro bêbado violento, fez com que os donos do parque anunciassem que a iriam matar – e em público. A execução da elefanta à vista de todos era, pasme-se, um chamariz publicitário do novo parque de atracções. Pensaram até em enforcar o bicho, mas, após demoradas negociações, foram dissuadidos desse intento pela Sociedade Americana para Prevenção da Crueldade sobre os Animais. Topsy livrou-se da forca, mas, anos depois, em 1916, uma elefanta chamada Mary foi mesmo morta assim. Cinco toneladas de elefante penduradas numa grua enorme, na cidadezinha de Erwin, no Tennessee, perante uma multidão de duas mil e quinhentas pessoas, muitas das quais crianças.
 
Mary


 
O caso de Topsy esteve esquecido durante décadas e só é lembrado porque existe um filmezinho de breves segundos feito pelos estúdios de Thomas Edison (as acusações de que o célebre inventor foi o mentor da cena não têm fundamento, ao que parece). O que o filme não mostra é a multidão, que até pagou bilhete para assistir àquilo, em teatro de crueldade. O recinto encheu por completo, muitos treparam as vedações, outros presenciaram o ruim espectáculo do cimo de prédios vizinhos. E outros tantos, muitos mais, viram o filme de Edison nas salas de cinema. Um filme de 74 segundos que mostra um elefante acorrentado e drogado (por misericórdia, deram-lhe antes cenouras envenenadas com cianureto de potássio) a tombar entre nuvens de fumo, derrubado por uma corrente alternada de 6.600 volts.
 
 
 
 
 
Nos nossos dias, claro, prestam-se infindas homenagens à elefanta Topsy. Fez-se uma instalação artística em jeito de memorial, patente no museu de Coney Island, e até um poeta duas vezes galardoado com o Pulitzer lhe dedicou pungentes estrofes nas páginas lustrosas da revista New Yorker. A multidão indigna-se agora com a barbárie dos seus antepassados. Esquece-se, todavia, que, como se conta no livro Elephants on Acid, de Axel Boese, há bem poucos anos – em 1962, para sermos exactos – uns cientistas do Oklahoma tiveram a infeliz ideia de administrar a bonita dose de 297 miligramas de LSD ao elefante Tusko, numa experiência destinada a avaliar os efeitos daquele alucinogénio, que se julgava poder curar o alcoolismo e a esquizofrenia. Se um ser humano ingerir 25 microgramas de LSD – menos do que o peso de um grão de areia – passa um dia inteiro a flutuar nas nuvens; pois bem, a Tusko, um paquiderme de catorze aninhos, injectaram uma dose três mil vezes mais potente, a maior alguma vez ministrada a um ser vivo. Evidentemente, Tusko morreu. Morreu asfixiado, por paragem muscular, ao fim de uma dolorosa agonia, lenta de oitenta minutos. E, à semelhança do ocorrido com a elefanta Topsy, também fizeram um filme, até hoje guardado a sete chaves. Após a tragédia, um dos cientistas veio defender-se com grande lata, dizendo que Tusko poderia vir a ser assassino e que a sua experiência tivera muito valor para a ciência, ao demonstrar que o LSD até mata elefantes. Isso não impediu que, vinte anos depois, em 1982 um cientista da Califórnia voltasse a dar LSD a um casal de elefantes, salvos a custo ao fim de 24 horas de alucinação.      
A multidão que hoje ulula, e bem, contra a electrocussão de Topsy, por vezes esquece-se que a morte de seres humanos ainda é legal na maioria dos Estados norte-americanos – 31 autorizam-na, contra 19 que a aboliram. Desde que foi reinstaurada em 1976, a pena de morte foi aplicada a mais de 7.800 pessoas, das quais 1.479 foram executadas. E, numa estatística ainda mais arrepiante, nos tempos mais recentes – de 1973 até hoje –, 161 condenados acabaram por ser ilibados, em média ao fim de onze anos de lancinante espera no corredor da morte. Quanto a racismo, basta dizer que na Louisiana, por exemplo, a probabilidade de condenação à morte é 97% mais elevada se a vítima for de raça branca do que se for de raça negra. Dos executados por homicídios inter-raciais, houve 288 negros (sendo a vítima de raça branca) e apenas 20 brancos (sendo a vítima de raça negra). 288 versus 20, leram bem. A pena de morte não dissuade o crime, servindo apenas para satisfazer os piores instintos das multidões ululantes. Um estudo do FBI, feito há dois anos, demonstrou que os Estados sulistas, onde ocorrem mais de 80% das execuções, são os que continuam a registar as mais altas taxas de criminalidade; décadas e décadas de pena de morte não tiveram o mínimo efeito na prevenção do crime. Nos Estados do nordeste, pelo contrário, com apenas 1% das execuções, é onde existe menos criminalidade. Não admira, pois, que no mais completo inquérito feito aos maiores criminologistas dos EUA, 88% tenham dito que a pena de morte não tem qualquer efeito visível na prevenção do homicídio.
Lágrimas para a elefanta Topsy? Sem dúvida. Mas não esqueçamos os bichos humanos, que também são gente. Enquanto lê estas linhas, 3.000 pessoas aguardam vez nas prisões dos EUA, o único país do Ocidente com pena de morte. Até parece mentira, mas não é. Palavra de honra que não é.
 
 António Araújo
(publicado originalmente no Diário de Notícias)




 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Shame Fonda.

 

 
 
Agora que tanto se fala de direito a memória, talvez seja de recordar as palavras – as palavras horríveis – de Jane Fonda em Hanói, que visitou em 1972. Vi-as há pouco, na extraordinária série da Netflix «A Guerra do Vietnam». «Hanói Jane», como foi chamada, já tentou justificar-se (de uma forma bastante arrogante, aliás), mas dizer que os prisioneiros americanos eram «criminosos» e deviam ser «executados»? Shame Fonda.
 
 
 

domingo, 19 de novembro de 2017

Milada na tela.

 
 






Há muito, muito tempo, era Malomil ainda uma criança, falei sobre e traduzi (aqui e aqui) as cartas de prisão de Milada Hóraková, mártir do comunismo, uma heroína do século XX que em Portugal permanece inexplicavelmente esquecida.
Directamete de Praga, a Manuela Franco, sempre amiga e generosa, enviou-me a notícia deste filme, recentíssimo, sobre o processo hediondo que levou Milada à morte. Esperemos que a película seja exibida em Portugal. Por favor, não apaguem a memória.
 





domingo, 3 de maio de 2015

As cartas de Libertas.

 
 
 
Libertas Schulze-Boysen (1913-1942)
 
 
         Nas primeiras semanas de Setembro de 1942, Libertas Schultze-Boysen, uma jovem de 29 anos, aguardava ansiosamente a chegada do seu marido, funcionário do Ministério da Aviação em Berlim. Durante algum tempo, ela e o seu marido juntaram-se a um grupo de opositores ao nazismo, formando a famosa «Orquestra Vermelha» (Rote Kapelle), que transmitiu informações secretas aos soviéticos. Essas informações davam conta de que Hitler se preparava para invadir a União Soviética e, se Estaline as tivesse levado a sério, poderiam ter poupado milhões de vidas humanas.
         Uma semana depois da prisão do seu marido, a Gestapo veio buscar Libertas a casa. Levaram-na para a sede da polícia política do III Reich, o edifício que antes tinha sido a Escola de Artes e Ofícios de Berlim, de que o pai de Libertas, um dos mais conhecidos costureiros berlinenses, era reitor. Ao entrar no nº 8 da Prinz Albertstrasse, Libertas deu uma gargalhada, rindo-se dessa ironia da História. Não esteve muito tempo presa. Em 19 de Dezembro de 1942, um tribunal marcial condenou-a à morte. Três dias depois, seria guilhotinada.
         Na prisão, escreveu algumas cartas à sua mãe, que se encontram reunidas num livro extraordinário, Dying We Live. Letters written by prisoners in Germany on the eve of execution, organizado por Hellmut Gollwitzrer, Käyje Kuhn e Reinhold Schneider. Com base na edição inglesa, traduzimos as duas cartas que escreveu à mãe no dia da sua morte. Porque hoje é o Dia da Mãe.
         Na primeira carta, Libertas pedia à mãe que o seu corpo fosse enterrado no campo, num lugar belo, iluminado pelo sol. Nem essa dádiva lhe concederam. Como refere Heather Pringle aqui, um artigo publicado por Sabine Hildebrandt na revista Clinical Anatomy, em 2013, identificou o cadáver de Libertas como um dos corpos que foram entregues como «material de estudo» a Hermann Stieve, director do departamento de anatomia da Universidade de Berlim (aqui).
         Os médicos anatomistas alemães, como refere Heather Pringle, que aqui seguimos de perto, sempre se debateram com falta de cadáveres para as suas aulas ou investigações. Com a subida ao poder dos nazis, o problema foi resolvido: entre 1933 e 1945, os tribunais do Reich condenaram à morte 16.000 civis alemães. Os cadáveres de 174 mulheres, pelo menos, foram transportados para os gabinetes de dissecação de Hermann Stieve. Entre eles, o de Libertas. E, no mínimo, cerca de dez institutos de investigação da Alemanha receberam 3228 corpos de presos políticos condenados à morte. Após a guerra, muitos anatomistas reconheceram que, a partir de certa altura, deixaram de perguntar de onde vinham os corpos, deixaram de se questionar sobre o horror que os cercava – e de que, ao contrário de Libertas, foram cúmplices e beneficiários. Como disseram recentemente dois anatomistas de Viena, numa entrevista, «se ninguém se preocupava como aquilo, porque é que teríamos de ser nós a preocupar-nos?»
         Podendo acomodar-se ao nazismo e fazer valer as suas origens aristocráticas (era neta do príncipe de Eulenburg e tia-avó da actual princesa do Lichenstein), Libertas preocupou-se. Acabou condenada à morte, e executada na guilhotina. Estas são as duas cartas que, no dia em que foi executada, escreveu à sua mãe. 
 
 
***
 
 
         Carta escrita no dia da sua morte
 
         22 de Dezembro de 1942
 
 
         Minha querida Mamã,
        
         Dado que estou já a viver um sonho do qual, afortunadamente, nunca terei de despertar para me confrontar com uma realidade horrível, é difícil exprimir-me através de palavras. Estás comigo no meu coração. Oh, se pudesse tomar-te em mim completamente, poupando-te ao sofrimento que já superei…
         Tudo surgiu repentina e inesperadamente, mas as horas anteriores ao julgamento, e mesmo as que vivo agora, são tão grandiosas que senti que nada poderá ser mais grandioso.
         «Ó graça, amadurecer num corpo jovem» − encontrarás este poema nas minhas coisas e então sentirás a sua absoluta verdade.
         A cada momento, sinto-me ascender em direcção ao céu…
         Quando sei que sorris, cheia de fé, tudo está bem. Deixei já de sofrer, e tudo me parece aprazível, sem uma réstia de terror… Todas as correntes da minha vida tormentosa confluíram, todos os meus desejos se realizaram: serei sempre jovem na memória de todos vós… E não terei de sofrer mais.
Permitiram-me que morresse como Cristo morreu – por toda a Humanidade.
         Permitiram-me que passasse por tudo o que os seres humanos são capazes de passar.
         E, uma vez que ninguém morre antes de cumprir a sua missão, devido ao conflito inscrito na minha natureza somente esta morte tornou possível que realizasse algo grandioso.
         Minha querida, continuaremos juntas. Encontrámo-nos uma à outra na Luz, e agora posso trazer-te em direcção ao alto, da mesma maneira que tu me puxaste para cima nas últimas semanas no convento.
         Amo o mundo, não carrego ódio algum, tenho comigo a Primavera eterna.
         Não lamentes que as coisas poderiam ter acontecido doutra maneira, não te queixes disto ou daquilo – o destino ordenou a minha morte. Eu própria a desejei…
         Como último desejo, pedi que a minha “substância” te fosse entregue. Se possível, enterra-a num lugar belo, num campo iluminado pelo sol.
         Agora, minha querida, a hora soa.
                  Em infinita proximidade e alegria,
                   Toda a força e toda a luz…
         A tua menina
 
***
 
 
 
         Segunda carta de despedida (*)
 
         Sim, minha Querida, minha forte e minha única Mamushka: aquilo que pude passar nestes dias foi tão belo e maravilhoso que as palavras dificilmente conseguem descrevê-lo…
         Agora conheço as últimas verdades da fé, e sei que és forte e feliz por teres consciência da nossa união eterna.
         O teu anjo a trespassar Maligno com a sua lança (que me mandaste no meu aniversário) encontra-se diante de mim. Se posso pedir-te alguma coisa, peço que fales de mim a toda a gente; a toda gente. A nossa morte tem de ser um farol para os outros.
         Em todos vós, na minha pequena irmã, no meu pequeno irmão, nas crianças – vocês são tão próximos –, em todos vós eu vivo; e digo-vos com toda a gravidade que marca esta hora:
         Encontrei o meu desígnio, a minha própria morte; jamais me poderia ter sido concedida graça maior do que esta. E não me tornem a vida difícil “desse lado” com lágrimas. Juntem-se à minha alegria.
 
Está tudo bem comigo.
A tua menina         
 
 
         (*) Escrita nas últimas horas da sua vida, quando Libertas não tinha a certeza se o tribunal iria enviar a primeira carta que escrevera. Através de canais clandestinos, esta segunda carta acabaria por chegar à sua mãe.
 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A testemunha.







 
A mulher na fotografia chama-se Michelle Lyons e vive no Texas. Segundo conta o Texas Monthly, nesta reportagem notável, começou a trabalhar em 2001 no Texas Department of Criminal Justice, mais precisamente na prisão de Huntsville, tendo várias tarefas, entre as quais testemunhar as execuções que aí se realizam. Ao longo dos anos, quer como antiga repórter, quer como funcionária estadual, presenciou 278 execuções. Ao início, Michelle anotava o que sentia num diário, mas deixou de o fazer. Durante os anos em que esteve em Huntsville, Michelle só falhou três execuções: uma, no dia do seu casamento; outra, quando se encontrava de licença de parto e outra, por fim, quando acompanhava os jornalistas que faziam a cobertura de uma fuga de reclusos. Hoje, Michelle Lyons já não trabalha no Texas Department of Criminal Justice. O seu antigo chefe reformou-se mas continua a ser testemunha. Testemunha de defesa, nos processos que possam resultar na aplicação da pena de morte. Michelle não é uma adversária aberta da pena capital, mas questiona os novos métodos que estão a ser utilizados. Ela e o seu antigo chefe insurgem-se contra as drogas que agora são frequentemente usadas nas injecções letais. Drogas que levaram, por exemplo, a que no passado mês de Julho, no Arizona, Joseph Rudolph Wook tenha agonizado durante duas horas antes de morrer. «Contorcia-se como um peixe fora de água», disse um repórter que presenciou o episódio macabro. O Estado do Texas tem restringido o acesso dos jornalistas às salas de execução.