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quinta-feira, 1 de julho de 2021

Como é possível?






Gostava de perceber como é que em Portugal 2021 um palácio do Estado, no centro de Lisboa, pode ser roubado e vandalizado. Infelizmente, é verdade: na Junqueira, o Palácio Burnay, antiga sede do ISCSP, tinha quadros na parede. Agora, já não tem. Como é possível isto? Além de todos nós, quem são os responsáveis por este estado de abandono, pelo furto, por esta incrível e bem reveladora miséria? (as imagens e o alerta são do Fórum Cidadania Lx, como sempre).



quinta-feira, 13 de maio de 2021

Um filme pornográfico.

 



Vejam com olhos de ver a atrocidade que está a acontecer na Biscaia, em pleno Parque natural de Sintra Cascais, com a cumplicidade da Câmara Municipal. Não é bem uma casa, uma moradia, parece mais um estúdio de cinema porno disfarçado de Casa da Cascata-Lloyd Wright.

   

          Vejam com olhos de ver:  O edifício tem uma implantação de 492m2 (dos quais 100m2 correspondem à piscina) e uma área total de construção de 682m2 distribuída por 3 pisos - proporções totalmente desenquadradas do pequeno aglomerado urbano de génese rural que é a Biscaia.

 

O imóvel está em comercialização e os anúncios online confirmam as piores expectativas:   https://www.idealista.pt/imovel/29283913/

 

A construção teve início na 2ª feira, à data de hoje já devastou toda a flora numa área de 2 mil metros quadrados (vejam a fotografia, com olhos de ver).

 


Há uma petição em curso. Aqui:


https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT108594 


Não pedimos o seu sangue nem o seu dinheiro, apenas uma assinatura, coisa de 4, 5 segundos. É muito?

 

 

 

         


O enigma do mausoléu.

 







Ermida de Nossa Senhora da Conceição:

O enigma do mausoléu de D. João III

 

 

Aviso prévio ao leitor: não embarco de ânimo leve nessas descrições de lugares e sítios mágicos, cabalísticos, mantenho-me indiferente ao tesouro dos Templários e ao esoterismo que tantos propalam, atribuindo a Tomar virtudes simbólicas ímpares. Enfim, está tudo por demonstrar, embora a atmosfera propicie as visitas dos cultivadores de enigmas. Mas estou absolutamente seguro de que há templos que permitem interpretações que a História às vezes ajuda a corroborar. E com esta mania das leituras de coisas antigas, vou-vos falar do enigma do mausoléu de D. João III, que está para dar e durar. Tudo começou quando li uma revista infelizmente há muito desaparecida.

 O número 1 do Boletim Cultural e Informativo da Câmara Municipal de Tomar, março de 1981, apareceu cheio de vida, parecia destinado a mexer no orgulho tomarense. O seu conteúdo fala por si: um enternecedor trabalho sobre o tipismo e as tradições tomarenses; José Inácio da Costa Rosa, autor da capa, escrevia sobre os oito claustros do Convento de Cristo; cozinha, doçaria e vinhos de Toma, toponímia das ruas de Tomar, eram outros aliciantes de uma publicação que parecia fadada a uma longa vida e constituir uma ferramenta cultural topo de gama.

Rafael Moreira entendeu por bem debruçar-se sobre um dos mistérios mais cuidadosamente guardados da arquitetura tomarense: qual seria o destino a dar à Ermida de Nossa Senhora da Conceição, grande demais para capela, pequena demais para igreja?

Primeiro, a sua construção. A obra fez-se durante o priorado de Fr. António de Lisboa, provavelmente em 1550 ou 1551, sofreu várias paragens, concluiu-se 20 anos depois, quando se assentou a cobertura, mais no século seguinte ainda havia acabamentos para resolver. Enfim, uma construção com altos e baixos, denota desinteresse e abandono da sua finalidade inicial.

Segundo, faz todo o sentido olhar para este edifício como exemplo de arte funerária monumental e supor o seu destino. D. João III jaz na capela-mor dos Mosteiros dos Jerónimos, mas tudo quanto se tem publicado sobre as preocupações do monarca para jazigo da sua família fazem pensar que D. João III não o destinava para seu sepulcro nem para sua mulher, D.ª Catarina de Áustria. Como observa o autor, quando foi entendimento em sepultá-lo em Belém, foi necessário improvisar um lugar “aos pés da sepultura de el-Rei D. Manuel seu pai”. O autor enfatiza que D. João III não planeara vir repousar ao lado de seus pais e seus irmãos na capela-mor de Belém, a sua decisão induz-se pela negativa: excluir-se do panteão de Belém significava ter formado o desígnio no sentido de erigir outro para si, tudo indicando que foi precisamente com esse fim que se fundou a capela de Nossa Senhora da Conceição. E abona com vários testemunhos, onde não faltam Francisco de Holanda e Fernão Duarte de Montarroio.

A ligação de D. João III com o Convento de Tomar era solidíssima: concedeu-lhe sucessivos privilégios, ele que era grão-mestre perpétuo da Ordem de Cristo, privilégios que suscitaram remoques se não ódios de outras ordens religiosas (dos Alcobacenses, por exemplo, a quem o monarca retirou chorudas rendas. D. João III concedeu a Tomar o título de “Vila notável”. E o autor questiona porquê um panteão real na órbita do Convento de Cristo? E responde dizendo que nenhuma das suas dependências tinha caráter apropriado. Ora o local escolhido para a Ermida da Nossa Senhora da Conceição é ao mesmo tempo uma pequena acrópole e a traça é a de um típico mausoléu à antiga em forma de templo destinado ao enterramento e culto do defunto.

Olhando para o edifício, tudo faz para nos convencer, alegando que temos ali os elementos mais significativos da sua intencionalidade. A complicada organização volumétrica espelha a diferenciação entre a zona religiosa e a zona funerária. “Interiormente, o traço que define a estrutura é o extraordinário relevo dado à zona do cruzeiro como foco de atração visual. Precedido pela colunata coríntia que funciona como um vestíbulo, a ele conduz o movimento dos entablamentos e abóbadas, nele se concentram os elementos decorativos (na cúpula, sobre a qual se erguem por fora bolas de fogo e o ovo primordial), converge e angulação das janelas do transepto e desembocam as linhas de comunicação dos recessos internos; um ponto exato à entrada do cruzeiro é, de facto, o centro da construção perspética da igreja. Em confronto com ele, a capela-mor torna-se insignificante, e quase passa desapercebida. Os braços do transepto criam extensões laterais de valor equivalente a esse espaço central. Nos arcos-cegos que se abrem cada topo – hoje vazios à exceção de um pequeno altar de talha – deveriam talvez ter sido abertas as sepulturas de D. João III e D.ª Catarina, nunca construídas”.

Obviamente que todo este quadro de suposições implica o autor a questionar por que motivo D. João III não ficou aí sepultado, deixando a sua capela panteão vazia. A resposta é lapidar, é a própria História que o explica. “Passado esse fugaz momento de apogeu do poderia imperial, soprando já os ventos da viragem tridentina, a abertura às ideias humanistas cede lugar a um classicismo formal. O falecimento súbito do monarca em 1557, sem lhe dar tempo sequer de fazer testamento irregular o problema sucessório, deixou campo livre aos influentes grupos de pressão que atuavam na corte e no alto clero, conduzindo o país a alinhar nas novas correntes internacionalistas e centralizantes da Contrarreforma. Apesar do apoio de D.ª Catarina, a Ordem de Cristo sofre violentos ataques e entra rapidamente em recessão: o Cardeal-Infante D. Henrique tentará mesmo extingui-la. Desta nova conjuntura que se afirma durante a regência de D. Henrique (1562-68) é expressão emblemática o panteão real dos Jerónimos. Foi ele, sem dúvida, quem decidiu a sua construção, com o consequente abandono das obras de Tomar, só retomadas muitos anos mais tarde”.

E o artigo termina com um comentário bem curioso, da autoria de Frei Bernardo da Costa: “Os magníficos conventos e casas reais de Portugal, todos se enobrecem com os depósitos das reais cinzas dos nossos monarcas. Assim S. Cruz de Coimbra, Alcobaça, Batalha, Belém, S. Vicente de Fora. O convento de Tomar é privado desta honra”. Ao que o autor contrapõe: “Mal saberia ele por pouco, se não estou em erro, essa pretensão tinha estado para se realizar”.

Seja como for, a Ermida é obra sem igual e não exagera quem já passou a escrito que é um dos mais belos interiores que existem no mundo. Digo-vos eu, plenamente convicto.


Mário Beja Santos




 






quinta-feira, 25 de março de 2021

Uma biblioteca de pedra na estação do metro de Entre Campos.

 


 


A estação Entre Campos abriu ao público em 1959, quando da inauguração da rede, seguiu, em termos arquitetónicos e artísticos, o programa adotado para todas as estações desta primeira fase da sua vida, o projeto arquitetónico foi de Keil do Amaral e o revestimento de azulejos pertenceu a Maria Keil. Esta adotou um padrão que tem como fundo uma harmonia de cores quentes que vão do amarelo ao vermelho, marcados aqui e além por pequenos grupos de azulejos de fundo verde e claro.

 

Em 1993, Entre Campos foi a primeira estação a beneficiar de obras de remodelação, Bartolomeu Cid dos Santos foi o artista convidado para a animação plástica e o escultor José Santa Bárbara para o tratamento da zona de ligação com o interface com a CP.

 

 




 

O interface entre o metro e a CP tem 150 metros de comprimento, o escultor José Santa Bárbara idealizou, em pedra e aço inox, uma espécie de fonte estilizada. O escultor declarou a tal propósito: “Não cedo a tentações de facilidade e rejeito o à vontade de um computador que faz tudo menos conseguir transmitir qualquer tipo de sentimento. O interface tem passadeiras e um corredor por onde se espalham lojas. Ali estive o tempo suficiente para me aperceber que a multidão leva destino, não se debruça sobre a peça estética de Santa Bárbara, há gente a ler nas passadeiras rolantes ou a congeminar a elaboração do jantar, mas há gente que se passeia com propósito de compra ou beber um café ou mordiscar um salgado ou ver as montras com roupa e artigos de papelaria.

 






Enfim, já estamos no átrio Sul, é território de Bartolomeu Cid dos Santos, está aqui a sua decoração mural em pedra gravada, é um painel dedicado a uma biblioteca. Bartolomeu deu a seguinte explicação: “Tentei organizar os livros, não só cronologicamente mas também por associações de autores ou movimento literários”. Para quebrar a monotonia deste trabalho, Bartolomeu repensou as lombadas de modo a assegurar referências gráficas do conteúdo dos livros ou dos seus autores. No centro da composição, um número significativo de escritores autografaram o painel, num grafiti representativo da literatura atual (da época).

 



Frente à biblioteca, mesmo por cima das linhas do metro, está um painel transversal, com 40 metros de comprimento. Bartolomeu deu o seguinte esclarecimento: “Eu e os meus colaboradores decidimos dedicar este espaço ao grande pintor norte-americano Robert Motherwell, admirado por todos nós e que havia falecido recentemente. Criou-se um trabalho discreto, em branco sobre branco, ou seja, em que o branco da pedra polida e não gravada contrasta com a área baça, corroída pelo ácido”. No painel pode ler-se: “Importa saber que não se pode falar numa arte nacional; ser simplesmente um artista americano ou francês não significa coisa nenhuma. Não ser capaz de sair do seu primeiro meio artístico, é meio caminho para nunca atingir o Humano”, Motherwell define assim o conceito de universidade de arte, que Bartolomeu subscreve.



A plataforma poente tem por tema Luís de Camões, é uma sequência de 10 imagens, cada uma referente a um dos Cantos dos Lusíadas, todos interpretados muito livremente.

 


Os painéis que prolongam pelas escadas os outros dois painéis correspondentes aos de Camões e Fernando Pessoa levantaram problemas a Bartolomeu. Ele explicou: “Enquanto os painéis até aqui descritos foram desenhados no verniz e depois gravados, os restantes foram pintados com verniz na horizontal antes de serem tratados com ácido. Quem subir qualquer das escadas encontrará em sequência aos painéis dos poetas duas enormes cabeças de mulher, memórias de pinturas romanas que numa recente visita a Roma havia conhecido. Se assim o desejarmos, poderemos também considerá-las como as musas dos respetivos poetas”. 

 




 

A plataforma nascente é dedicada a Fernando Pessoa, a sua obra foi descoberta por Bartolomeu em 1952. Ele não esconde a admiração por ele: “A obra do heterónimo Álvaro de Campos e especialmente a Ode Marítima, com o seu sentido de espaço, de distância, bem como de nostalgia de terras nunca visitadas, influenciou grande parte do meu trabalho desde então. Nada mais natural que dedicar 30 metros de parede a um dos meus poetas preferidos, usando uma forma de decoração afim do grafiti em que as palavras e as imagens se confundem”. 


Mário Beja Santos 

 





terça-feira, 2 de março de 2021

Portalegre, as tapeçarias.



O dia 9 de Março de 2013 foi um Sábado, e como era normal comigo em Argel, levantava-me um pouco mais tarde  e escrevia. Guardei assim desse período “argelino” da minha vida uma quantidade de escritos que agora mostram o que fui e senti nesse tempo.

Nesse dia escrevi:

“…Os jornais portugueses acompanham-me durante mais tempo que em Portugal. Antes de os deitar fora leio e releio procuro coisas que me toquem.

No Expresso de há uma semana, 2 de Março, vinha um artigo sobre as Tapeçarias de Portalegre.

Esta arte foi talvez menos mitificada em Portugal que outras. Naquela fúria de complexo de inferioridade português que “aí somos os melhores do mundo”. Assim éramos o primeiro produtor mundial de cortiça, os doces de ovos eram únicos, as nossas praias inigualáveis, etc.etc..

Eu em novo ainda fui nessa cantiga, mas depressa percebi que, por exemplo, a Espanha que eu tinha sido ensinado a ver como inimigo e como canto ignorado, era um país soberbo, com um flamenco que me leva às lágrimas, com uma cidade – Barcelona – que não conheço outra igual, com uma alegria e um fogo de pasmar, com Plazas Mayores cheias de gente ao fim da tarde…

Há medida que ia ficando mais velho percebi que o que era mesmo bom era a diferença. Deixei de perceber aquela gente que diz que gosta da Primavera, ou do Outono. Eu gosto é do rolar das estações. Gosto da chuva e dias cinzentos pela força e nostalgia. Gosto dos dias cheios de sol pela vida que nos trazem. Gosto do nevoeiro pelo mistério. Gosto da tempestade pelo que me assusta.

Gosto da terra por que é firme. E do mar porque se move e é líquido. Gosto do meu País, porque é meu e nele fui formado. Mas gosto da França porque é bela. E da Inglaterra porque é confortável e teatral. E da Itália porque de lá vimos. E de tantos outros pelas razões que cada um tem.

Gosto de me encantar e que me embalem os sonhos com novos sonhos.

Tudo isto para voltar ao Expresso e às Tapeçarias de Portalegre.

A jornalista que escreveu o artigo teve a sensibilidade e o bom senso de transcrever “ipsis verbis” as opiniões da responsável pela Manufactura, Fernanda Fortunato, que entrou na casa em 1957, a Escola Industrial feita, para o desenho de preparação das tapeçarias:

“…Encontrei lá colegas antigas da Escola Industrial, mais velhas que eu e uma do meu tempo. Diz-me ela: “Estou a ampliar é assim e assado” (…)  não percebia nada mas ia dizendo que sim com a cabeça.   Não houve aprendizagem nenhuma, nem preparação nenhuma. Mas lá fiquei a trabalhar sozinha no turno da noite, das 19 h à meia-noite. Estava projectado na parede um desenho do Almada, uma tapeçaria que está no Forte de Santa Luzia em Viana do Castelo, “A passagem do Rio Lethes”. Com toda a atenção ia desviando o original e desenhando quadrado a quadrado. Consegui que aquilo batesse certo, pensei. Passada a fase de correcção, porém, comecei a olhar e apercebi-me que não tinha dado ao desenho a alma necessária – na altura não lhe chamei isso – percebi que alguma coisa faltava na forma que eu lhe tinha dado. Foi então que comecei a desenhar como deve ser. (…) Dei-me conta tão tarde que me tinha apaixonada pelas tapeçarias que nem sequer sei quando foi. Terá sido pouco a pouco? Terá sido repentinamente? Não sei. Talvez tenha sido fruto de uma descoberta de um outro mundo, de uma sensibilidade que não conhecia e sobretudo da relação com os artistas. (…) Isso mexeu muito comigo. Aquele mundo que parece irreal,  aquelas sensibilidades todas que se calhar têm a ver comigo e que não estavam exploradas… Uma pessoa não se pode esquecer de onde vem e eu tenho isso muito presente. (…) O Almada e a mulher do Almada, casal exemplar, a sabedoria daquele homem, a capacidade de criar. A Maria Keil, uma senhora deliciosa, bonita, pequena, a caminhar na nossa sala de desenho tinha uma ondulação… O arquitecto Raul Lino, que veio cá com a esposa dele, já com 90 anos, que maravilha de casal… Eu fiz uma aprendizagem com essa gente toda e eles deixaram-me muito na passagem por aqui. O Renato Torres que tinha sido meu professor na Escola Industrial e que vim a encontrar aqui, tinha afinal razão. Todo aquele sofrimento de que ele falava nas aulas e que eu nunca percebi enquanto aluna, o sofrimento de quem cria, só o entendi a conviver com artistas. Uma pessoa não percebe essa dor enquanto não lida com eles. É por isso que é tão importante conhecê-los. Quando depois estamos a mexer nas coisas deles, intuitivamente somos capazes de perceber porque pintaram assim.(…) É preciso viver com os terrores da Paula Rego, como é que uma pessoa lhe pode chamar, é preciso conviver comos universos complexos de Armando Alves, de Júlio Resende, de Vieira da Silva e de Arpad, com o impacto da cor de José de Guimarães, com humor de Júlio Pomar, com a generosidade de Camarinha…Tenho medo de me esquecer de alguém… Mas nada disto se explica sem ser vivenciado, partilhado. (…) Eduardo Nery, Rigo (…) são pessoas extraordinárias, também. Mas agora olho para eles e sinto-os muito meninos. Está lá tudo, mas é de outra forma. Eles também são outros. Há uma forma de estar diferente. Por isso pintam de uma maneira diferente. As desilusões parece que não são tão fortes. Há outras esperanças… A Joana Vasconcelos, por exemplo, é muito engraçada porque tem uma exuberância que me fala de alegria, não me fala de sofrimento. Ela é cor, e a tapeçaria também. A tapeçaria é tudo o que eles quiserem. ”

Tudo isto é prodigioso e não há comentários possíveis…”

Eis senão quando, por afazeres profissionais de necessidade de restauro de um grande tapeçaria, me dirigi à Manufactura de Tapeçarias e tive o gosto de ter visita guiada pela mesma Senhora Dona Fernanda Fortunato que, mostrando-me, com simplicidade, o extraordinário acervo de milhares de cartões assinados por uma plêiade de artistas, o cuidado na guarda de novelos com dezenas de anos para eventuais restauros em cores originais, na explicação de que a lã utilizada é, pela necessidade de grande qualidade, não só da matéria prima como da tosquia, a proveniente de ovinos australianos e  só da zona da cabeça e, finalmente no trabalho artesanal que se desenvolve na transcrição dos cartões e na feitura de tapeçaria a que assisti, confesso que com comoção, ao entrelaçar manualmente fio a fio numa teia que se estendia num tear manual ao longo de metros e me era explicado a diferença entre Portalegre e Gobelins.

Depois, numa voz simultâneamente simples, triste e resignada, a Senhora Dona Fernanda Fortunato contou-me o fim anunciado da Manufactura, sem muito dinheiro para pagar a pessoal, sem qualquer acordo com um qualquer Ministério para formar pessoal na arte, sem encomendas do Estado que seria a ajuda que se pediria.

E já de saída, no pequeno museu, entre cartas de Régio e Almada, pasmei perante a beleza de Sintra plasmada em tapeçaria à espera de comprador.

 

 

Portalegre, Abrigada, 18 de Fevereiro de 2021

 

Miguel Geraldes Cardoso