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sábado, 14 de maio de 2016

Rico serviço.

 
 
 
 
O tempo medievo: «eles não viviam o tempo como nós, em horas e minutos»
Só daquela época? «acho que o sexo e a violência são duas coisas características daquela época»
Destruindo mitos historiográficos: «nesta época da Idade Média, a relação entre homens e mulheres era mais solta do que muitas vezes achamos».
Tudo na mesma: «do ponto de vista das emoções, os seres humanos não mudaram muito».
Muito giro, sem dúvida: «outra coisa muito gira é que não tinham pratos, usavam um “prato” de pão, uma espécie de pizza».
Sobre os amores de D. Afonso Henriques: «na vida de um homem, não é só conquistar cidades que é importante».
O Fundador, pai-galinha: «julgo que ele [D. Afonso Henriques] estava quase sempre rodeado de crianças»
 
(Domingos Amaral, entrevista ao jornal Sol/B.I., de 14-V-2016)

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Verão Quente (4ª e última parte).

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Domingos Amaral, de Pará de Minas.
Quem foi? Resposta aqui
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# – O enredo policiário



A trama de Verão Quente oscila entre a extrema linearidade e o cúmulo da complexidade. Até o narrador fica confuso com esta ambivalência. O livro resume-se, diz o Departamento de Contabilidade do Grupo LeYa, a “quatro balas assassinas, uma revolução confusa e dois milagres improváveis” (p. 15). Mas, às tantas, fica o enredo tão embrulhado que o narrador confessa que “tudo parece um pouco rebuscado de mais para ser verdade” (p. 256). De facto, no livro entra um mundo inteiro, desde sexo à bruta, betinhos do Porto, capitães de Abril, espiões do Grupo dos Nove e até elogios a Amaro da Costa e Freitas do Amaral por terem tido a coragem de votar contra a Constituição da República – coragem que, como é sublinhado na página 180, Sá Carneiro não teve (“O Freitas e o Amaro da Costa tiveram-na, ao contrário do Sá Carneiro”).

Para que não restem dúvidas de que Freitas do Amaral e Amaro da Costa tiveram mais coragem do que Sá Carneiro, Domingos Freitas do Amaral insiste. Agora, já não é Bebé do Porto que homenageia o exemplo do CDS e dos seus founding fathers. É Julieta que, com a conivência do narrador, recorda que a “Assembleia da República” (sic) aprovara “uma Constituição onde se diz que Portugal vai rumo ao socialismo”. Mas – atenção! – com “os votos contra dos deputados do CDS”. Remata Julieta, a fechar: “– Nem o Sá Carneiro foi capaz disso”. De facto, Sá Carneiro não foi capaz disso. Nem disso, nem de fazer uma coligação de governo com o Partido Socialista. Nem disso, nem de ser ministro de um governo liderado pelo engº José Sócrates.

Até pela sua extrema pobreza, o enredo de Verão Quente conta-se em poucas palavras. Comecemos pelo patriarca da família. Referindo-se a seu pai, Dom Rodrigo Silva Arca, Julieta diz que “apostou ‘no cavalo errado’ no dia 25 de Abril”, entregando-se nas mãos de Spínola. Nas palavras da filha, Dom Rodrigo e Spínola eram “dois meteoritos perdidos naquele universo”. Com esta lição de Astrofísica, ficamos a saber que os meteoritos se perdem no espaço. E, de acordo com o narrador, Dom Rodrigo e o general Spínola “chocam frontalmente com o planeta revolucionário em que Portugal se transformou” (p. 76). Coitados. Sendo amigo de empresários importantes, os “Mellos” e os “Espíritos” (sic), Dom Rodrigo acaba preso em Caxias.

O cenário decorre no palacete construído por Rodrigo Silva Arca na Arrábida, que arquitectonicamente, diz-nos o narrador, se assemelha ao castelo de Moulinsart, onde vive o capitão Haddock (!). A 3 de Agosto de 1975, num dos muitos quarto da mansão, aparecem mortos, com quatro tiros no lombo (“junto ao coração”), Miguel, o marido de Julieta, e Madalena, a irmã de Julieta. Julieta, essa, encontra-se estatelada no andar de baixo, ao fundo da escadaria, com a pistola na mão. O acidente deixa-a a semanas em coma e, em resultado disso, Julieta perde a visão para sempre. Desconhecemos se a queda de uma escadaria pode levar à perda da visão, mas confiamos, uma vez mais, nos conhecimentos médicos de Domingos Amaral, um autor escrupuloso que certamente não iria escrever uma coisa destas sem previamente se informar, sem se documentar. Julieta é presa e condenada a 16 anos de cadeia, ainda que não sejamos informados por que motivo o tribunal não se interrogou sobre o facto de a assassina jazer no chão do andar térreo, inanimada, enquanto os cadáveres repousavam quietinhos no piso de cima. Não passou pela cabeça aos juízes que Julieta poderia ter sido empurrada? Naquele tempo revolucionário, os “juízes eram parciais”, diz o advogado de defesa. Reforça a ideia: na comarca de Setúbal, “os juízes eram comunistas ou de extrema-esquerda”. E, por isso, trataram de condenar sumariamente aquela filha da alta burguesia. Em todo o caso, não houve recurso, de agravo ou de apelação? Terminou tudo assim, logo em pleno Verão Quente? Continuamos sem perceber como se condena à “pena máxima” uma pessoa que jazia no local do crime, inanimada. Havia um móbil para o duplo homicídio, é certo: Julieta apanhara o marido e a irmã envolvidos numa cena amorosa, ainda que apenas nos “preliminares”. Além do móbil do crime, havia também a arma, uma pistola colocada na sua mão. É estranho, em todo o caso, que uma pessoa rebole escadas abaixo, com tal violência que perca o sentido da vista, e se mantenha agarrada a uma pistola. Não acham?

No quarto, detalhe relevante, “não havia esperma”, somos informados na página 97. É compreensível, tanto mais que os cadáveres estavam ainda vestidos, ou quase (Madalena estava em topless). Assim, torna-se bastante reduzida a probabilidade de existir esperma num quarto em que um casal é morto a tiro, com as roupas ainda no corpo. Se ainda estavam vestidos, para quê falar sequer na presença ou ausência de esperma? O pai de Redonda, segundo esta relata, é morto com os calções de banho vestidos e a tia, essa, “tinha ainda a cueca do biquíni colocada” (p. 98). Sublinha Redonda, “mas estava com as maminhas à mostra” (p. 98). As maminhas, sempre as maminhas, fazem nova aparição em Verão Quente. O casal foi morto, portanto, quando se encontrava nos “preliminares” (p. 97). “Mortos antes do truca-truca… É azar, não achas? Mortos sem proveito”, na pitoresca linguagem de Tomás. Eis uma razão mais do que suficiente – e plausível – para não existir esperma no quarto. “Não é surreal?”, pergunta Redonda ao narrador, a dado passo. Respondemos nós: é surreal; sim, é bastante surreal. 

Tudo apurado, a coisa era assim, simples, em 1975: se Otelo e os SUV’s ganhassem, Álvaro, que era uma toupeira do Grupo dos Nove, teria sido acusado da morte de Madalena. Como perderam, acabou Julieta por ser incriminada e Álvaro foi alvo de uma tentativa de homicídio. Ou seja, se a História não tivesse tomado o rumo que tomou, talvez Julieta não tivesse passado dezasseis aninhos na penitenciária. A História é uma realidade complexa, de facto. E estranha. “Os homens de Otelo” avisam Álvaro, apanhado a espiar para os Nove, que logo que conquistem o poder ele seria “eliminado”. Com um método “simples”: “a acusação de ser o mandante de um crime passional” (p. 275). Quer dizer: se tivessem alcançado o poder, Otelo e os SUV’s iriam levar Álvaro a tribunal. Como não o conseguiram, tentam matá-lo, em mais um acto terrorista das FP-25. Mas não teria sido mais simples matá-lo logo em 1975? E porque iriam ter o trabalho de o levar a tribunal? Mais: haveria tanta garantia de que os tribunais o iriam condenar? Otelo Saraiva de Carvalho tinha mesmo gosto em complicar as coisas. Quando podia ter despachado o traidor Álvaro, não o fez. Só depois, anos depois, em finais de 1983, é que as FP-25 o tentam matar, num atentado nos Olivais. Mas, com grande destreza, o antigo capitão de Abril bate-se com galhardia contra as FP-25: “Levei a mão direita ao coldre que usava no sovaco […]. Saquei da pistola e ripostei” (p. 278). Senhor leitor, um conselho de amigo: para sua protecção, e da sua família, traga sempre consigo um coldre nas axilas. Registe-se que, por essa altura, as FP-25 mataram um cúmplice de Álvaro, o tenente Rafael, que apareceu morto na banheira. Senhor leitor, outro conselho: evite os banhos de imersão.

Vinte e oito anos depois, em 2003, Julieta e a filha deslocam-se a umas termas, nos arredores de Coimbra. Uns dias antes, passearam pelos arredores, entre serranias. Poeticamente, “saem do carro e escutam o vento, sentadas nas rochas”. Um pastor acerca-se delas, contando-lhe histórias antigas, lendas de assombração. “Carros que em ponto de morto sobem estradas inclinadas” (esse mito urbano passa-se geralmente em Sintra) e “um cão que ressuscita depois de ser atropelado por um camião”. Curiosamente, o cão ressuscitado “volta a ser cão novamente” (p. 27). Antes de morrer, o cão tinha sido o quê? Uma lesma, um porco-espinho, um escritor sem talento? A ressurreição canina deve-se ao poder miraculoso das águas da região. Também graças a elas, Soraia, a massagista do hotel termal, consegue engravidar do marido. Já falámos de Soraia: morena, com cerca de 40 anos, ostentava uma “cara bonitinha”, “embora um pouco rústica” para o gosto do narrador. Soraia e o marido queriam um filho, mas nada.  Fora o cabo dos tormentos: o rapaz tinha os espermatozóides “preguiçosos” e, para os “espicaçar”, o casal tudo tentara – “uma alimentação cuidada, exercícios físicos, bebidas especiais e toda uma série de métodos de ajuda à procriação”. Após o coito, Soraia chegara a ficar deitada com as pernas mais altas do que a cabeça, para que os espermatozóides do marido “pudessem aproveitar a força da gravidade na correria a caminho dos seus óvulos”. Apesar da gravidade, nada de gravidez. É grave. Porém, Soraia descobrira há semanas que se encontrava grávida do marido. Isto, claro, enquanto toca ao de leve os testículos do narrador, a grande porca. “Para Soraia, haviam sido os banhos no spa a dissolver a preguiça dos ‘bichos’! As águas da região eram, todos o diziam, dotadas de minerais únicos, de propriedades energéticas invulgares, e isso, ao fim de pouco tempo, provocara alterações químicas no marido, possibilitando-lhe um ganho de produtividade sexual que noutras paragens não existia!” (p. 39). As águas milagrosas produzem também efeitos (milagroso) em dona Julieta. Certa manhã, passou quatro horas com a cabeça dentro de água. Não só não se afogou nessas quatro horas de submersão aquática como subitamente recuperou a visão perdida há quase três décadas. Verão Quente, um grande livro. Até o Correio do Minho gostou e sugeriu a leitura.   

No romance, além desta alteração química, também existe logo química entre o narrador e Redonda : “a nossa química nascente”, na p. 33, e “a boa química que cresce entre mim e Redonda”, na p. 258.  Redonda é, porém, um “quebra-cabeças”. Compreende-se, atendendo à “conjuntura afectiva difícil da sua vida” ou, se quisermos, à “dinâmica negativa daquele casal”, um “casal tenso, com uma impressionante falta de harmonia”.

Mas voltemos ao domínio do sobrenatural. O livro é pontuado por fenómenos estranhos, que cruzam a Engenharia Mecânica e a Philosophy of Mind. Nesse campo, aparece na página 11 uma “catapulta cerebral” e, na página 21, um “buraco negro na cabeça”. E, na página 173, entra em acção um perigoso “martelo pneumático mental”. Nada disso é de estranhar num autor que, na sua opus magnum, o formidável Enquanto Salazar dormia…, colocara o narrador a ser atingido duas vezes por “uma bola de demolição” (p. 407). Páginas imorredouras da literatura pátria.

Em Verão Quente, além de sexo à farta, há também misticismo, escrevendo-se que Julieta voltara a ver “como se um sopro do Espírito Santo a tivesse atingido” (p. 222) e que a verdade verdadeira se escondia “nas catacumbas do seu ser” (p. 304). Agora, era só abrir as “comportas da sua alma” (p. 305). Abertas as comportas, “solta-se o monstro, a besta negra que ainda vive dentro dela” (p. 305). E a besta negra, agora à solta, lá dá entrada na Casa das Letras, a recibos verdes, e aí vai perpetrando romances como este. 

Graças às águas milagrosas, que fazem renascer cães atropelados por camiões e, em simultâneo, dão vigor aos espermatozóides do marido da massagista Soraia, Julieta Silva Arca recupera a visão. Em Lisboa, consulta três oftalmologistas, nenhum encontrando uma explicação científica para o fenómeno. Mas, do mesmo passo, nenhum utiliza a palavra “milagre”. Invejosos. Segundo Julieta, não usam essa palavra por “insegurança profissional” ou “mesmo ciúme divino” (p. 101). Recomendam-lhe que evite “pancadas na cabeça”, o que parece ser um avisado conselho clínico. De facto, mesmo para os que nunca perderam o dom da visão é sempre de evitar pancadas na cabeça. Por isso, tenha cuidado se decidir comprar este livro de Domingos Amaral.  

Além do regresso da visão de Julieta, outro milagre se produz. De facto, segundo o narrador, há dois milagres no livro. A devolução da vista e o facto de Julieta começar a ter flashbacks recorrentes. Volta não volta, lá temos um flashback. Nas palavras de Verão Quente, a isto chama-se “teoria do ‘buraco negro’”. Nas nossas palavras, a isto chama-se um expediente batidíssimo que os autores trapalhões, pouco imaginativos e muito preguiçosos utilizam ad nauseam na escrita de livros policiais de quinta categoria. Assim, com flashbacks e buracos negros a abrirem-se (!), todas as pistas são dadas aos narrador, sem qualquer esforço. No livro, o suor é gasto na cama, não à mesa de trabalho. No Verão Quente, de facto, ninguém trabalhou. Bernardo Souto, o “Bebé”, cinquentão da Foz, vive dos rendimentos. Redonda e a mãe aguentam-se à conta de Tomás, o tanso loiro de olhos azuis. Mas Redonda, atenção, é uma moça esperta. Tem “talentos escondidos”, uma espécie de perspicácia natural para fazer negócios e ganhar dinheiro. Sem esforço, claro. No final, quando o narrador e Redonda se aproximam amorosamente e se preparam para juntar os trapinhos, aquele gaba-lhe o dom para ganhar dinheiro fácil no mercado de capitais: “– Ainda bem, que tens jeito para as finanças, podes tratar das minhas contas, sou péssimo nisso… Um dia tentei jogar na bolsa e perdi uma fortuna. Redonda aconselha-me: para ser bom investidor é preciso não ter emoções com o dinheiro, ser frio, estabelecer objectivos, nunca se iludir com subidas ou descidas. E conclui: – Tudo o que sobe, desce” (pp. 290-291). Verão Quente  é um achado. Até conselhos de investimento – sensatos, prudentes – nos são oferecidos pela módica quantia de € 15,90.

O dinheiro é a força motriz do sexo feminino: “o dinheiro é muito importante para as mulheres, mesmo quando afirmam o contrário”, refere o narrador (p. 172). A deliciosa Redonda é um bom exemplo: só se divorcia de Tomás depois de conseguir fazer um negócio milionário com o seu patrão. Concretizado o negócio, que torna mãe e filha tremendamente ricas, Tomás é despachado com grande limpeza.

Não admira que procure vingar-se. Aparece de súbito na página 259, colocando ao narrador a seguinte questão: “– Ó meu cabrão, quem julgas que és?”. Bem poderia o narrador ter respondido que era um assalariado do Grupo LeYa e a coisa teria ficado por ali. Mas não. Manteve-se mudo, o grande estúpido. Tomás aborda a problemática num ângulo  um pouco diferente: “– Já comeste a mãe e agora queres comer a filha, meu cabrão?”. E de novo o narrador se mantém calado. Redonda, mais afoita, teve de sair em sua defesa. Tomás discordou desta atitude: “– Não o defendas, minha puta!”. O narrador disse, então, para os seus botões: “Isto está bonito”. O diálogo prossegue, tendo Tomás desgraduado o narrador, de “cabrão” para “caramelo”. Até o narrador fica perplexo perante tal despromoção: “Passei de cabrão a caramelo, será uma promoção ou uma despromoção?”. A conversa, que decorria amena junto ao Portinho da Arrábida, entre falésias e gaivotas, só é interrompida quando Redonda pega numa faca e a coloca junto à garganta de Tomás, que ficou “petrificado”. De onde terá surgido a faca? Aguardemos por uma 2ª edição de Verão Quente. Nesta edição, de Junho de 2012, a faca surgiu ali por um acaso. A navalha estava a dar uma volta pelo distrito de Setúbal, tranquila, sem fazer mal a ninguém, e, olha, decidiu meter-se na mão de Redonda – e na garganta de Tomás. Redonda, já dona da situação, espezinha o ego do marido. Confessa-lhe um segredo assombroso: manteve-se casada porque o patrão de Tomás lhe disse que, se acaso se divorciasse, Tomás seria despedido (“– Tinhas-me apresentado ao teu patrão, se te deixasse ele despedia-te. Foi ele quem mo disse!” – p. 263). O patrão de Tomás tinha “consideração” por ela e, enquanto o matrimónio perdurasse, haveria segurança no emprego. No fundo, Redonda era uma altruísta: mantinha-se casada com um homem que não amava apenas para que este não fosse parar ao Rendimento Social de Inserção. Estranha-se é a atitude do patronato, como sempre abjecta. Como tinha “consideração” por Redonda, obrigava-a a manter-se casada com um idiota de que não gostava. “– Não vales nada! Eu sei bem o que o teu patrão diz de ti. Só não te despediu porque tem consideração por mim, percebes?”. Por acaso, não percebo. Mas a vida tem destas contradições.   

         É que, logo a seguir, Redonda revela o motivo pelo qual se manteve casada com Tomás. A mãe observa: “– Não percebo como ficou tanto tempo casada com ele”. Julieta “suspira fundo”, olha para a mãe, e replica: “– Ainda se lembra onde estávamos há dois ou três anos?”. Pois é, estavam num apartamento minúsculo em Cascais. Ou, nas palavras do narrados: “Nesses tempos, Julieta é cega, as duas vivem com dificuldades, só o casamento melhora a vida de Redonda”. A filha coloca a questão em toda a sua crueza: “– Se eu me tivesse separado do Tomás, vivíamos de quê?”. Redonda passa, pois, de uma altruísta abnegada, a páginas 263, para uma materialista interesseira, a páginas 265. Assim, num ápice. A situação de mãe e filha não era risonha, por bandas de 2000, 2001. Os homens à sua volta, como Raul e Paulo, tinham batido a asa. “Comeram-nas, mas não as amaram”, diz o narrador. Feitas as contas, “resta Tomás”. Restando Tomás, pois fica-se com Tomás. “A troco de uma estabilidade económica mínima, [Redonda] permanece naquele casamento inglório, tortuoso e tenso” (p. 265).

         Mas, em poucos meses, tudo muda. A conjuntura socioeconómica altera-se radicalmente. Julieta mete a cabeça na água milagrosa e passa a ver, o narrador entra em cena para pagar as contas e ter as mamas de Redonda esborrachadas contra si e, acima de tudo, o milionário negócio com o patrão de Tomás “vai para a frente”. Tomás torna-se descartável e, como tal, é descartado. Redonda mostra de que massa é feita. Mas nada disso a impede de ser a heroína deste romance. A ausência de quaisquer princípios e o facto de ser mentirosa não impedem o narrador de a querer por companheira para toda a vida. Nunca subestimemos o poder de umas boas mamas.   
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         Não se dando por vencido, Tomás reaparece por bandas de páginas 290, 290 e picos. Nessa altura, já o narrador e Redonda se amavam. Que fazia o empregado de Domingos Amaral? Estava dentro de Redonda, obviamente. Tomás aparece-lhes no quarto, vestido de homem-rã (mas sem barbatanas), com uma pistola a apontar para o casal. Chama-lhes “filhos da puta” e “cabrões”. E remata: “eu fodo-vos a vida!” (também um oportuno "Puta de merda!"). Aponta ao casal, mas a pistola, molhada, encrava, no momento decisivo, o clímax em que Tomás iria cumprir a solene promessa de foder a vida ao narrador e a Redonda, a puta de merda. Página 294, atençãozinha aí, na plateia. Julieta irrompe na cena e dá com um remo na tromba de Tomás, que cai inerte. Portou-se, diz o narrador, como uma “padeira de Aljubarrota”. O narrador, que há instantes tinha saído de dentro de Redonda, encontrava-se desnudado. A mãe, Julieta, olha para o seu “baixo-ventre” e manda-o compor-se, que a GNR vem a caminho. Acompanha esta ordem com uma tirada de elite: “– É uma pena, mas tem de ser”. Redonda, encantada, chama-lhe “meu herói”. Julieta mete prego a fundo na boçalidade, advertindo a filha: “– Cuidado, olhe que ele está nu e o peru ainda se entusiasma!”. E, como se já não bastasse a alusão ao entusiasmo do peru, a fina senhora ainda acrescenta: “– Os homens são uns sempre em pé, todo o cuidado é pouco”. A cena decorre exactamente vinte e oito anos depois do crime de 1975. A 3 de Agosto, nem um dia a mais, nem um dia a menos. Tomás estrebucha, metem-lhe na boca um pano de cozinha e não vale a pena gastar mais caracteres Times New Roman Tipo 14 com este idiota. Alguns pormenores apenas merecem ser realçados, pois adensam a comicidade da cenaça. Quando chega a GNR, é exactamente o mesmo tenente, “de pança e bigode”, que 28 anos antes deparara com os cadáveres de Madalena e Miguel, e Julieta estatelada no chão, de pistola em punho. Agora, estava agarrada a um remo de um barco, o que motiva o sagaz comentário do guarda republicano: “– A senhora tem sempre alguma coisa na mão, desta vez é um remo”. Domingos Amaral é mesmo um pândego, não acham? O tenente da GNR, arguto, afirma, peremptório: “Isto é violência doméstica” (p. 296). Como sabia ele que Tomás era casado com Redonda? E, já agora, chamar violência doméstica a uma tentativa de homicídio parece-nos um eufemismo jurídico (leia-se: uma calinada das grandes). Mas será sob a acusação de violência doméstica que Tomás se virá envolvido nas teias da justiça (cf. p. 311). Outra coisa: repararam que Julieta ficou ali, de remo na mão, longuíssmos minutos, até a GNR chegar? Outra ainda, decisiva, fatal: a arma, uma pistola, encravara por se encontrar molhada. Tomás, sempre estúpido, viera a nadar até à mansão Silva Arca, não tendo o cuidado de guardar a arma num saco. Tê-la-á trazido na mão? Ou à cintura? Em qualquer dos casos, uma coisa é certa: de acordo com as informações que recolhemos (e, claro, que podem ser contestadas...), AS PISTOLAS NÃO ENCRAVAM COM A ÁGUA. Claro que haverá problemas se se tratar de um mosquete antigo e a pólvora ficar molhada. Mas, apesar de o parecer, Verão Quente não é um filme de capa e espada, com pólvora e mosquetes. A menos que esteja semanas e semanas submersa, uma arma de fogo não encrava por ficar debaixo de água um par de horas. O oxigénio que se consome na queima não se encontra na água, mas  no próprio explosivo de base tripla: nitroglicerina, nitroglicol e nitroguadidina. Aliás, se o projéctil já estava na câmara... Bem, não vamos maçar os leitores com explicações de balística elementar. Tudo visto e resumido: de acordo com as informações que possuímos, este episódio em que uma pistola encrava por estar molhada só pode ter acontecido na imaginação de Domingos Amaral, nunca na realidade dos factos.  Daí que esta cena, uma cena absolutamente crucial na trama do romance, a cena em que o marido enganado tenta matar o narrador, se baseie num facto inverosímil, que não podia ter acontecido. É de admirar que o dr. Moita Flores, experiente criminologista, não tenha notado isso, na apresentação pública deste Verão Quente, no El Corte Inglés.
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Domingos Amaral e Francisco Moita Flores, na cerimónia de lançamento, aqui
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Bem, com pistolas que encravam na água, o melhor é irmo-nos todos deitar. Meu dito, meu feito: narrador e Redonda deitam-se juntos. Porém, ela evita intimidades. A noite, a célebre noite da pistola encravada, já fora agitada em excesso. Na manhã seguinte, de novo o narrador se esforça por se meter dentro de Redonda. Nova negativa (“Gosto de sexo de manhã, e estava com esperança que Redonda gostasse também, mas ela acordou a chorar, angustiada” – p. 299). Nada feito, portanto. Necas de pitibiriba.

         Aproximamo-nos do fim. Há que despachar a coisa, pois o Verão espreita e Verão Quente quer estar presente em todas as praias de Portugal. Para ajudar na empreitada, que fazer? Julieta tem um novo flashback, claro. Desta feita, dá um uivo. O narrador fica impressionado: “nunca esperei ver um ser humano tão destroçado” (p. 303). Num ápice, Julieta vê tudo e vai contando o que a sua memória recupera. Mas, de súbito, nova paragem. Raul, solícito, pergunta-lhe “– Outro flashback?”. Julieta prefere um dry martini. E aponta o nome de Kurt.  

Assim, lá vai o narrador, coitado, a caminho da Costa Alentejana, onde se avista com o assassino, o alemão Kurt, “um homem muito magro e seco, como se o seu corpo tivesse sido chupado por dentro, um pneu a quem alguém tirou o ar” (p. 312). Uns anos antes, caíra de um pinheiro, e ficara paraplégico. Cá se fazem, cá se pagam. À semelhança de todos os homens da novela, Kurt possui uma visão pouco abonatória do comportamento de Madalena: “uma leviana, uma sem-vergonha, uma prostituta reles” (p. 314). Ainda assim, considera-a fisicamente “um belo naco” (p. 317).   

         O crime prescreveu, como é frequente num país em que romances como Verão Quente são sucessos de vendas. Agora, nada havia a fazer. Nada? Não é bem assim. Julieta vai dormir na endiabrada companhia de “demónios esconjurados” (p. 318). E o narrador lá consegue o seu intento: meter-se dentro de Redonda. “Entro finalmente dentro dela, agora é que vai ser, amá-la-ei até ao fim pela primeira vez, não vou parar…”. Cai o pano.  

 Em Verão Quente, não nos é indicada a profissão do narrador, a não ser esta mesma: ser narrador de um livro de Domingos Amaral. Mais um precário, portanto. Mas até nisso o rapaz se mostra pouco operoso, limitando-se a seguir na sua investigação os flashbacks que Julieta lhe vai dando, enquanto tenta a todo o custo encontrar um abrigo dentro das personagens femininas. Ninguém trabalha em Verão Quente, sendo Domingos Amaral, provavelmente, o que menos trabalhou em toda a história.
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A melhor parte do livro: a contracapa
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# – Entre o essai filosófico e o manual de auto-ajuda


A terminar, diremos que Domingos Amaral, autor nascido em 1967, com sete livros dados à estampa, tem uma qualidade que redime a sua prosa da manifesta falta de inteligência da escrita, da ausência completa do bom gosto e da subtileza. Na verdade, sem se aperceber disso, produziu um ensaio filosófico. Involuntário, é certo, mas denso e profundo. À maneira da literatura moral clássica, o produto das meditações domingueiras é condensado em epigramas e máximas, de modo a que as mesmas serviam de pautas ou regras de conduta que todos poderemos aplicar no governo das nossas vidas:

·  “Quando conhecemos uma mulher bonita, não a devemos apenas lisonjear, isso todos o fazem, mas sim ir directo ao que ela dá importância” (p. 19);

·  “Qualquer pessoa sabe que a culpa só muito raramente é de uma das partes, e quando se começa por aí uma explicação de um falhanço demonstramos raiva e ressentimento e não a serena aceitação de um fracasso mútuo” (p. 22);

·  “a raiva é uma emoção viva” (p. 22);

·  “um casamento é uma coisa muito difícil” (p. 22);

· “Acredito na alteração da ordem natural das coisas, seja lá qual for a causa; aquilo que não podemos explicar com a razão, só com o coração” (p. 26);

· “Prefiro o silêncio a qualquer lamento piedoso” (p. 32);

·  “Entre mães e filhas, há sempre alguma tensão” (p. 32);

·  “O que nos vale é que nada é definitivo na vida” (p. 33);

·  “Em teoria é sempre mais fácil seduzir uma filha quando temos a bênção explícita da sua mãe” (p. 34);

·  “Por vezes, tenho a sensação de que as mulheres falam entre si numa língua diferente da dos homens, cifrada, em código, impedindo-nos de as compreender” (pp. 35-36);

·  “Quão disparatados somos, ao procurar significados ocultos e imorais em situações tão banais para uma massagista!” (p. 37);

·  “Normalmente, as pessoas mais controladoras, e as mais ciumentas, são também as mais infiéis. Como agem assim, acham que o mundo inteiro é composto por gente igual a elas, e vivem aterrorizadas, receiam que lhes façam o mesmo que elas fazem aos outros. Homens e mulheres, nisso são muito parecidos” (p. 57);

·  “As mulheres bonitas e com corpos atraentes provocam sempre nos homens excitação” (p. 62);

·  “Ao longo de uma noite de insónia, o nosso cérebro parece que se aguça e nos proporciona uma lucidez adicional” (pp. 64-65);

·  “Quando nos fazem o retrato psicológico de alguém, temos tendência para imaginar o seu aspecto físico em concordância” (p. 82);

·  “Os homens são animais muito competitivos” (p. 89);

·  “As mulheres têm a traição no coração ou sou eu que sou um descrente?” (p. 90);

·  “é profundamente doloroso ver uma irmã a enganar-nos com o nosso marido” (p. 139);

· “a nossa moralidade tem tendência a defender quem nós gostamos” (p. 154);

·  “o que define a amizade quando nela cabe tanta coisa tão diferente?” (p. 173);

·  “a amizade nunca pode ser a consolação de um falhanço sexual, pois é a única relação escolhida e desligada dos instintos sexuais humanos” (p. 173);

·  “Uma coisa é brincar com um homem, tentá-lo excitá-lo; outra, completamente diferente, é tê-lo ao lado” (p. 176);

·  “Pois” (p. 177);

· “Diz-se que muitas mulheres, quando acabam um amor importante, se reinventam olhando primeiro para o passado, e buscam nos antigos namorados um consolo” (p. 179);

·  “O amor não tem a ver com a prática nem com a idade, mas sim com o que temos cá dentro para dar” (p. 204);

·  “Os seres humanos mentem muito uns aos outros. Então nas coisas do amor é raro ouvir alguém dizer a verdade” (p. 216);

·  “Para as mulheres, a culpa é sempre dos homens, o que vale é que para estes a culpa é sempre delas, e assim será enquanto existirem seres humanos sobre a Terra” (p. 217);

·  “Merda. O país está a arder em fogos. E nós também” (p. 225);

         ·  “É difícil negar uma grande paixão, mesmo muitos anos depois” (p. 231);

         ·  “É sempre bom manter um trunfo na manga” (p. 235);

·  “Quando nos pedem que recordemos o que se passou há quase trinta anos, é normal que muitos de nós esqueçamos certos detalhes” (p. 246);

·  “a maior parte das vezes as pessoas não concretizam as ameaças” (p. 247);

·  “As feridas mudam as pessoas, as renúncias mudam as pessoas e as infidelidades também” (p. 265);

·  “É impressionante como as mulheres sabem virar a seu favor uma situação difícil […]. A culpa é nossa, dos homens. Somos tão gabarolas dos nossos feitos que ficamos cegos e não só pagamos um preço alto pela gabarolice, como também passamos ao lado da realidade feminina mais secreta, que acontece sem darmos por ela” (p. 301);

·O assassino volta sempre ao local do crime. Esta é uma máxima antiga que quase sempre se verifica” (p. 310).
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Concluindo, e bem vistas as coisas, o preço deste livro nem é caro. Nada caro, € 15,90 por uma obra humorística que tem sexo, história política, trama policial e ainda serve de manual de auto-ajuda, com sábios conselhos para orientarmos a nossas vidas. É uma desgraça completa em todas essas modalidades, mas no conjunto acaba por valer muito a pena. E a capa, toda sarapintada, é linda de morrer. Em entrevistas, o autor ameaça escrever uma nova obra de dois em dois anos.

Verão Quente é o último romance de Domingos Amaral. Mas, infelizmente, o último romance de Domingos Amaral nunca é o último.



António Araújo
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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Verão Quente (3ª parte).

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O autor e a família, no Castelo da "Caras", aqui




          # – O livro e a sua circunstância


Prossigamos a análise deste livro, enquadrando-o na vasta obra do autor, Domingos Amaral. Em Verão Quente, como temos visto, abundam expressões rascas como “fechar as pernas”, “saltar para a cueca”, “comer”, “não fode nem sai de cima” (p. 223), “cobrir todas galinhas da capoeira” (p. 234). A hipocrisia das mulheres, outro estereótipo machista, é uma constante. Julieta envolve-se com o narrador às escondidas da filha, esta mantém um casamento de fachada por razões financeiras e, quando Julieta se aproxima de Raul, o advogado mulherengo, tem o cuidado de advertir o narrador: “Nada de contar ao Raul as nossas aventuras tórridas, ouviu? Não me estrague o futuro” (p. 290).
As expressões mais boçais são repetidas à exaustão. Raul, que fora seduzido por Madalena, chama a Julieta “ceguinha endiabrada”, enaltece os dotes físicos e sexuais de ambas as irmãs (“Que manas!”), chama “folia” ao relacionamento de dois anos com Julieta (que “sofreu um bocado, coitada”…). Depois, para salvaguarda do matrimónio de Raul, é o filho, Paulo, quem passa a tratar dos problemas jurídicos da família Silva Arca. Com as consequências de todos conhecidas – Redonda acaba a praticar sexo oral com ele, no interior de um veículo automóvel: “faz uns belos bobós!”, informa Paulo na página 120. Em suma, nas palavras sempre elevadas do dr. Raul Salavisa Pinto, “foi pior a emenda que o soneto”. Ao proferi-las, o advogado solta “uma pequena risada”. Mas, à semelhança do narrador, que acaba no final por ficar ao lado de Redonda, apesar de esta lhe ter mentido, Julieta acaba por ficar com Raul, apesar de este lhe ter mentido – e ser um notório alarve. A culpa não é dele, a culpa nunca é dos homens. São elas que os fazem assim: “Eh pá, com estas mulheres, é difícil um homem não perder a cabeça! Elas são um espanto, sempre foram!”, conclui Raul. Um espanto.  
Após dialogar com Raul, o narrador sai então do escritório, sendo interpelado pelo seu amigo Paulo, com duas tiradas de grande alcance: “– Sabes que o meu pai comeu as duas?”; “– A que morreu e a cega. É pior do que eu! Eu só comi a filha!”. Julieta esperava lá fora, mas ouviu tudo. Descem as escadas e a senhora é acometida por um flashback,  fenómeno que adiante analisaremos. A seguir ao flashback, Julieta e o narrador vão para o Hotel do Chiado, onde irá decorrer uma cena épica, ou hípica, que já descrevemos. Repare-se que nessa altura já Julieta sabe que o narrador não a ama, mas antes à sua filha. O que não impede a cinquentenária senhora, muito conservadora e antiquada, de transformar uma suíte do Hotel do Chiado num recinto escaldante, gritando muito alto sempre que atinge o orgasmo. “Este interlúdio carnal e intenso foi bom, mas acabou-se”, conclui o narrador, à saída de cena.
As descrições das cenas de sexo têm momentos interessantes, até para uma reconstrução sociológica das vivências contemporâneas da intimidade. Na mansão da Arrábida, antes de saltar para cima de Julieta, o narrador avisa-a de que “cheira mal dos pés e a sovaco”. Ela ri e chama-lhe “palerma”. Retaliando caninamente, ele dá-lhe “uma pequena mordidela”. Como Julieta estivesse inibida devido às marcas da idade no seu corpo, o narrador proclama: “Não quero ouvir mais falar de defeitos, defeitos temos todos, até Deus”. Só faltou acrescentar que até Deus, também Ele, cheira mal dos pés e a sovaco. Mas Julieta e o narrador já não estão nem aí. Agora, ele ensina-lhe “como deve colocar os lábios em ó”. Encontrava-se Julieta a aprender como colocar os lábios em ó e, de súbito, entram a filha e o genro pelo quarto dentro. Pergunta da filha: “– Mãe, como foste capaz?”. Mesmo com os lábios em ó, a mãe não se fica nem perde a classe: “– O que veio a menina cá fazer?”. Provavelmente, acompanhar in loco a aprendizagem, por parte de sua mãe, da difícil arte de colocar os lábios em ó. A seguir, Julieta vai para a casa de banho, põe a água a correr. Quando regressa ao quarto, é acometida por um novo flashback e o romance prossegue a bom vapor, com paragens em Alfarelos e Coimbra-B. Já vestidos, o narrador e Julieta descem ao andar de baixo, à sala, pois queriam “partilhar com Redonda e Tomás este último flashback”. E pronto, acaba tudo amigo, na converseta, a esmiuçar o último flashback de Dona Julieta Silva Arca. Este livro é de deixar os lábios em ó. Não acreditam? Além do mau cheiro dos pés e das axilas do narrador, temos outros momentos escatológicos. Numa manhã na Arrábida, já perto do final do livro, Redonda e o narrador (o rapaz dos pés e do sovaco) acordam, enamorados. “Em silêncio, Redonda levanta-se, vai à casa de banho, faz o que tem a fazer […]” (p. 299). Que coisa inominável terá feito Redonda na casa de banho? Que coisa fez, que coisa tinha a fazer? Ler um livro de Domingos Amaral? A dado trecho, na página 237, o narrador diz: “Foda-se, apetece-me vomitar”. A nós também.
Alguns dirão, em defesa do autor, que este mais não quis do que retratar, até com ironia e fino humor, a boçalidade do Portugal contemporâneo. Cremos, todavia, que nessa boçalidade dos nossos dias se inserem também os romances de Domingos Amaral – todos eles. De facto, não precisamos de gastar muito tempo e dinheiro para perceber que, noutros livros, a visão do mundo e o estilo literário são exactamente idênticos aos deste inenarrável Verão Quente. Trata-se de uma forma mentis, não de um artefacto ficcional.
Ainda que mais conseguido como intriga romanesca, Enquanto Salazar dormia… é um bom exemplo. Aí se desvenda, desde logo, a omnipresença das mamas, verdadeira obsessão literária de Domingos Amaral. A acção decorre durante a 2ª Guerra. Em Lisboa, nesse tempo, havia Oliveira Salazar, espionagem dos Aliados e do Eixo e “regabofe com mulheres” (p. 15). Stephanie, uma cidadã belga (“melhor que a belga já não se fabrica”), tem “peitos volumosos” (p. 57). Rita é senhora de “uma cara rosada e seios volumosos” (p. 89). Uma outra mulher, que participa num ménage à trois com o narrador e com Mary, possui “seios volumosos” (p. 126). Na página 150, de novo com Rita: “Toquei no seu peito, sentindo o mamilo frio contra a minha mão. Ela gemeu baixinho” (p. 150). Três páginas adiante, lá surge o “peito volumoso” de Rita (p. 153). Os peitos são sempre “volumosos”. Domingos Amaral não terá um Dicionário de Sinónimos? Por acaso, tem. É que na página seguinte já são “arqueados” os peitos de Rita (p. 154). “Umas mamas inesquecíveis” (p. 162). Algo horripilados, deparamos a páginas 199 com um “peito peludo”. Calma, calma, é o velho marinheiro Aníbal, homem encorpado e de “enorme bigode”. Regressando aos peitos das fêmeas, têm estes, entre vários atributos, uma extrema acuidade visual. Em Verão Quente era o mamilo esquerdo de Redonda que estava sempre a “vir à janela”, espreitar. Aqui, em Enquanto Salazar dormia…, é o seio de Alice que perscruta o mundo. Os cabelos de Alice desciam “até ao peito, tapando-lhe um dos seios, enquanto o outro me olhava, redondo e cheio” (p. 251). “Redondas e nuas” eram as nádegas de Alice, na página 253, mas já vamos tratar dessas partes. Agora, o tema é outro, as mamas. Ou, se preferirmos, os seios. Os seios de Alice, por exemplo, que num jantar no distintíssimo Hotel Aviz estavam “quase a transbordar para cima da mesa” (p. 257). É certo que rabos e seios frequentemente se misturam. Alice, mais uma vez, “sempre gostara” que o narrador lhe desse “fortes palmadas nas nádegas” enquanto “lhe afagava as mamas” (p. 325). Outra mulher surge em Enquanto Salazar dormia…. O seu nome: Anika. O seu peito? “Era redondo, cheio e rijo” (p. 420). Em face disso, não admira que o Instituto de Meteorologia e Geofísica haja detectado “movimentos de excitação”. Onde? “Lá em baixo”, obviamente (p. 420). Lá em baixo, sem dúvida, mas também noutras divisões da casa. Na cozinha, por exemplo. Que fazia Anika na cozinha, um dia? Cozinhava, o parece evidente. Mas cozinhava nua da cintura para cima, com “o belo peito ao ar” (p. 423).
Às tantas, a personagem principal de Enquanto Salazar dormia…, Jack Gil Mascarenhas Deane, interroga-se sobre a vida. Pergunta se a sua existência não iria ser “uma longa colecção de casos, de rabos e mamas, de gritos ofegantes e suores partilhados” (p. 458). No romance de Domingos Amaral, a resposta é claramente afirmativa. Logo na página 13, temos Alice, uma “mulher dos diabos”, e temos Jack a tirar as ligas a Mary, “desesperada”, e a atirá-las “para cima do lençol”. “Mulheres que amavam como possessas”, assim eram as senhoras da Lisboa dos anos quarenta.
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Edição portuguesa

Edição portuguesa, de bolso

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A “atracção sexual entre homens e mulheres é cheia de mistérios”, diz-se na página 42 de Enquanto Salazar dormia… Quanto a Mary, Jack “desejava possuí-la” (p. 43). E a rapariga, “mulher experiente e vivaça” (p. 47), com “um currículo tão vasto” (p. 47), tinha o marido ausente. Em suma, “estava necessitada de homem” (p. 43). Passaram juntos essa noite, claro está. Jack, que  se encontrava “demasiado excitado para reparar nos pormenores”, só recorda algo que, note-se, não era um pormenor: “foi a primeira que lhe vi as ligas e eram pretas” (p. 44). “Queres continuar a montá-la?”, pergunta Michael a Jack (p. 50). É que, ali ao lado, à mão de semear, estava Rita, “uma truta!” (p. 57). Entre o hipismo e a gastronomia, os dois cavalheiros ingleses referem-se ainda às artes tauromáquicas. Michael, à má fila, aproveita para “espetar uma bandarilha no cachaço” de Jack. Com a pergunta: “– Vais tentar ser, uma vez na vida, o primeiro e não o último da lista?” (p. 57).



Edição brasileira

Edição polaca




A ideia de que as mulheres têm uma “lista” e que aos homens pode ser concedido o privilégio da sua inauguração solene é bastante ilustrativa de uma mentalidade arcaica, boçal e alarve que Domingos Amaral sabe captar de forma muito insistente e inteligente, trazendo-a para o interior dos seus vários romances. “Adoro vê-las corar”, diz para consigo o protagonista principal de Enquanto Salazar dormia… O primarismo machista aparece amiúde em Verão Quente, como aparece amiúde em Enquanto Salazar dormia…, uma obra que teve dezenas de edições, vendeu 200 mil exemplares (segundo a publicidade), já saiu em versão de bolso e foi dada à estampa no Brasil e na Polónia. As críticas feitas na Internet, aqui ou aqui, por exemplo, são entusiásticas. E merecidas. Trata-se de um livro notável, em que a “famosa carpete” do Hotel Aviz tem “20 centímetros de espessura” (p. 66). Assim, nem mais, nem menos. Por ela “circulavam em silêncio imensos empregados, como que deslizando”. Vinte centímetros de profundidade lãzuda? Muitos criados devem certamente ter ficado atolados nesse pantanal de conforto e luxo, com alcatifa pelos joelhos. Alguns ter-se-ão mesmo afogado. Mas desses, dos fracos e pobres, não reza a História, madrasta de oprimidos.
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20 centímetros (aprox).
Espessura da carpete do Hotel Aviz, segundo Domingos Amaral
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À semelhança do que acontece em Verão Quente, em Enquanto Salazar… deparamos com uma visão Tupperware da sexualidade, com homens a refugiarem-se constantemente no interior das mulheres: “– Vem para dentro de mim” (p. 76); “quando entrei dentro dela” (p. 300); “decidi sair dentro dela” (p. 301); “à medida que ia crescendo dentro dela, vendo-a assim dominada […]” (p. 301).   
Emerge, de igual sorte, uma concepção singular do erotismo à luz da qual os homens e as mulheres, com maiores ou menores dificuldades, se acomodam mutuamente, quais peças de Lego: “caímos sobre a cama, enroscados uns nos outros” (p. 126); “o seu corpo encaixou-se no meu, como se fôssemos duas colheres numa gaveta de um faqueiro” (p. 149); “encaixámo-nos de novo, agora nus” (p. 150); “encaixámo-nos um no outro com suavidade” (p. 421).
Por sua vez, as línguas dos livros de Domingos Amaral andam a precisar da ajuda de um GPS. Sempre que se encontram em boca alheia parecem estar perdidas, buscando avidamente companhia e amparo: “as nossas línguas entregaram-se, sôfregas” (p. 126); “a sua língua à procura da minha” (p. 285); “deu-me um beijo na boca, procurando a minha língua com desejo” (p. 300); “senti a sua língua batalhar com a minha, entusiasmada” (p. 463).  
Octogenário, autodefinindo-se como “um velho caco com 85 anos”, Jack Gil faz o balanço da sua vida – e da relação com Mary, alcoólica. “Sei hoje que o meu egoísmo não a ajudou”, confessa, arrependido, na página 76. Porém, logo a seguir, de rajada: “Mas homens são homens e os problemas da alma dela que fossem para o diabo!” (p. 76). Homens são homens. Enquanto homens, precisam de mulheres. Com Anika, suceder-lhe-ia o mesmo: “[…] contribuí para o seu desequilíbrio daqueles dias? […] não tenho uma resposta. Não sou psiquiatra. Era apenas um homem […] e se ela queria que eu a fodesse até ao tutano, por mim tudo bem” (p. 424). Jack Gil Mascarenhas Deane, um gentleman. O essencial era haver mulheres. Em as havendo, e em elas querendo que as fodessem até ao tutano, “tudo bem”. Como confessa a Jack um antigo embarcadiço, “no porão não há mulheres, cada um esgalha o seu pau e, se não temos cuidado, ainda nos vão ao cú” (p. 331). “Saciei-lhe a fome da passarinha”, informa-nos um dos heróis desta história, referindo-se a uma mulher, na página 338, numa homenagem velada aos praticantes de birdwatching.     
“Grande é o teu rabo. Grande e bom”, diz Jack a Mary (p. 77). Excepção feita ao pojadouro e à alcatra, o rabo era inquestionavelmente a mais suculenta parte de Mary: “Mary não tinha seios grandes, eram pequenos. Rijos mas pequenos. O rabo é que era grande, redondo, bem desenhado. Gostava do rabo dela” (p. 89). Nós também. Luisinha, a portuguesita casta, “apanhou-me a mirar-lhe o rabo”, confidencia Jack, algo embaraçado, na página 163. Nada de grave. No final do romance, Jack já está a dar um beijo na boca a Luisinha, “um beijo profundo, apaixonado” (p. 463). Isto na plateia do cinema Politeama, na estreia de Casablanca, tendo de um lado a severa e gélida mãe de Luisinha, Dona Guilhermina, admiradora de Hitler e Mussolini, e, do outro lado, o pai, um general venerando, amigo de Salazar!   
Os diálogos são muito conseguidos, e de fino recorte. No Hotel Palácio, ao Estoril, Jack e Alice debatem uma questão científica: “os macacos, os gorilas e os orangotangos têm o pénis muito pequeno. Os homens não. Os homens têm o pénis grande!” (p. 232). Ao ouvir isto, Jack dá uma gargalhada. Em todo o caso, mais adiante Jack prossegue com Alice os seus debates em torno do reino animal: “– Adoro mulheres que uivam à noite. Como as lobas” (p. 246). Alice era um fenómeno da Natureza. Em si, ou no seu corpo, convergiam diversas catástrofes atmosféricas: “Era um vulcão, um tornado, uma tromba-d´água, um tremor de terra, um furacão” (p. 248). Em direitas contas, concluímos que Alice só não era um ciclone – nem uma personagem literariamente verosímil. Tendo em conta os devastadores efeitos do Furacão Alice, não admira que os hóspedes do hotel se queixassem. Jack resolve a coisa dando uma gorjeta de 20 escudos a um empregado. A calma regressa, e os diálogos adquirem um timbre pillow talk: “– Adoro que me toques na covinha do umbigo, aqui onde uma gota de água faz uma piscina, vês? – dizia Alice” (p. 249).
“– Estás pior do que uma barata, Jack Gil!”, afirma Michael, na página 281, frase que, convenhamos, deve ser difícil de utilizar na língua de Shakespeare: “– You’re worst than a cockroach, Jack Gyl!”, é a melhor tradução que poderemos oferecer. Parece-nos, por outro lado, que a expressão “dar com a boca no trombone”, na página 339, não deveria ser muito comum na Lisboa da década de quarenta.
“– Que monumento… Abençoadas entranhas que a criaram”, diz Michael para Jack, quando contemplam, extasiados, uma “belíssima mulher” (pp. 120-121). A mulher, a quem chamavam “o monumento” (p. 181), era Alice. Também conhecida por “a Devoradora de Nozes”, uma vez que apreciava apanhar nozes com a boca nos quartos dos homens, “de gatas, uma a uma, enquanto dá palmadas no rabo…” (p. 183). De manhã, os empregados dos hotéis de luxo da capital apanhavam as cascas nos quartos (p. 209). Portanto, toute Lisbonne conhecia esta inclinação da senhora. Agora como é que Alice, “bamboleante”, partia as nozes, disso é que não somos informados. Mas dizem-nos que era uma mulher “maior do que a vida” (p. 213). Traria consigo um quebra-nozes, partia as cascas com os dentes?
         No final vem a descobrir-se que Alice, “mulher de muito homem” (p. 261),  não devorava nozes, mas amêndoas. Estão em casa do pai de Jack, no Estoril (p. 286). A despensa paterna, em tempos de guerra e de racionamento, encontrava-se mal abastecida. Não havia nozes, uvas, nada. “– Pêssegos em calda? – perguntou Alice”. Nada. Jack faz duas contrapropostas, ambas bastante conserveiras: sardinhas e atum. Alice recusa, com veemência. De facto, para uma mulher andar de gatas num quarto, a dar palmadas nas suas próprias nádegas, impõe-se reconhecer que atum em óleo ou sardinhas de escabeche não serão propriamente dos alimentos mais atractivos. De repente, não mais que de repente, Alice dá “um gritinho”. Avistara na prateleira uma embalagem de “amêndoas de Páscoa”. E foi assim, com pascais amêndoas, que consumaram o acto. Na hora do adeus, o momento Bogart/Bergman desta historiazinha, com ela a entrar para dentro de um submarino estacionado no areal do Guincho, Alice despede-se: “– Adeus, Jack. Lembra-te de mim na Páscoa…” (p. 363). We will always have almond nuts.
         É foleiro. É tudo muito foleiro, sem dúvida. Mas se virem a descrição dos olhos de Anika… Eram “de um azul límpido, um azul mar das Caraíbas” (p. 373); “Admirei o azul mar das Caraíbas dos seus olhos” (p. 377); “Fitou-me com os seus olhos azuis, azul mar das Caraíbas” (p. 390); “aqueles olhos azuis, azul mar das Caraíbas, azul onde eu me perdi e me encontrei. Nunca mais vi nenhum azul assim” (p. 437). Caraças com o mar das Caraíbas! Uma figura de estilo foleira é para usar uma vez. Pois aqui existem quatro referências ao “azul mar das Caraíbas”. É demais, poças!
         A razão está na página 86 do livro: “Quando temos demasiados pensamentos eróticos, por vezes dá jeito pensar noutras coisas” (p. 80). A todos nós dava muito jeito que Domingos Amaral pensasse noutras coisas. Noutras coisas que não escrever livros – que, como se vê, são em tudo iguais uns aos outros. Mudam os ambientes históricos, mudam as personagens, mas o estilo é sempre o mesmo, sempre dominado por – como diríamos? – “demasiados pensamentos eróticos”.
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(Continua)