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Não podia estar mais de acordo com Clara Ferreira Alves quando esta lamenta a ausência de cultura das actuais elites portuguesas. «É a falta de cultura, estúpido», assim se intitula a crónica notável que publicou na última edição do semanário Expresso. No deserto mental em que vivemos, na aridez de ideias em que nos deixámos mergulhar, Clara Ferreira Alves destaca-se da mediocridade reinante. Única, singularíssima, praticamente isolada. Alguns, porventura muitos, consideram-na pedante, snob, arrogante, superficial, vazia, frívola, ignorante – o que só demonstra inveja perante o seu talento ou incapacidade de compreender as suas reflexões profundas. Na verdade, Portugal tem hoje poucos, muito poucos, com a estatura intelectual de Clara Ferreira Alves. Quase nenhuns, ousamos dizer. Pela criatividade da sua escrita, pela contundência do seu verbo, pela vastidão da sua cultura, Clara Ferreira Alves é uma voz inquieta e incómoda, que merece ser escutada, que tem de ser escutada. Ainda vamos a tempo de mudar de rumo.
Na sua última crónica, a autora de Mala de Senhora e Outras Histórias fustiga impiedosamente a incultura que domina o Portugal contemporâneo. Assistimos ao triunfo da «brigada iletrada», como lhe chama a cronista, citando Martin Amis. Das elites políticas aos jornalistas, ninguém escapa ao olhar penetrante de Clara Ferreira Alves, senhora de uma lucidez que corta a direito e vai fundo. Uma cronista que grita a sua dor, a dor lancinante de quem vive num país atrasado e inculto. Clara Ferreira Alves possui a qualidade ímpar de, em breves linhas, fazer uma síntese perfeita do estado a que chegámos: «Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura, quase toda velha e sem sucessores». Não procuremos culpados, diz-nos. Culpados, somos todos. «Nós não somos diferentes disto», escreve Clara Ferreira Alves, num assomo de modéstia e de humildade que só os grandes possuem.
Contudo, há que apontar culpados. Só conseguiremos mudar se apurarmos responsabilidades. Entre os culpados, destaca a jornalista e escritora «o jornalismo, aterrorizado com a ideia de que a cultura é pesada e de que o mundo tem de ser leve». E, por isso, «nivelou a inteligência e a memória pelo mais baixo denominador comum». Daí «nasceu o avatar da cultura de massas que dá pelo nome de light culture, em oposição à destrinça entre high e low».
Houve um tempo em que tudo era diferente em Portugal. Sim, houve um tempo diferente, muito diferente, uma época em que era vincada – e bem visível – a «destrinça entre high e low». Um passado em que os líderes eram cultos e letrados, alguns até eruditos, todos detentores de uma impecável high culture. Nesse passado irrecuperável, os intelectuais sabiam o que diziam – e os cronistas escreviam sobre o que sabiam.
Actualmente, «a cultura de massas ganhou» e «o tempo dos chefes cultos acabou». «Nada distingue hoje a burguesia do proletariado», observa a cronista. Nos nossos dias tudo se nivela por baixo, pelo light, pelo fácil, pela falta de saber e de cultura, pelo ritmo frenético das televisões, pela escrita apressada em efémeras colunas de jornal. Mas, naquele tempo, no tempo pretérito, as elites eram diferentes e «o partido comunista tinha uma elite intelectual e de resistência inspirada por um chefe que, aos 80 anos, quase cego, resolveu traduzir Shakespeare». Clara Ferreira Alves refere, pois, que, aos 80 anos de idade, praticamente cego, Álvaro Cunhal resolveu traduzir Skakespeare. Mais precisamente, o «Rei Lear».
Álvaro Barreirinhas Cunhal (1913-2005) traduziu efectivamente The King Lear. Mas não foi aos 80 anos, quando estava quase cego. A tradução de William Shakespeare realizada por Álvaro Cunhal foi feita entre 1953 e 1955. Tinha o dirigente comunista 40 anos, portanto. Acompanhada de notas (notas eruditas), a tradução foi publicada nas Obras de Shakespeare, começadas a editar em 1962 pela Tipografia Scarpa (de José Scarpa), com direcção literária de Luís de Sousa Rebelo, direcção artística de Manuel Lapa e coordenação de Manuel do Nascimento. Nesta edição das obras de William Shakespeare, originalmente saída em fascículos, a tradução da autoria de Álvaro Cunhal surge assinada por «Maria Manuela Serpa», um pseudónimo ou nome emprestado, e foi publicada no Volume I, a páginas 229 e seguintes.
Álvaro Cunhal traduziu e anotou The King Lear entre 1953 e 1955, quando se encontrava preso na Penitenciária de Lisboa (e não em Peniche, como por vezes se diz, por exemplo aqui). A história dessa tradução é bem conhecida – pelo menos, das pessoas cultas – e foi já narrada em diversos lugares. Na sua biografia de Cunhal, José Pacheco Pereira descreve-a ao pormenor [cf. Álvaro Cunhal. Uma Biografia Política. Vol. 3 – O Prisioneiro (1949-1960), Lisboa, Temas e Debates, 2005, pp. 205-208].
Na sua crónica, Clara Ferreira Alves critica «o jornalismo, aterrorizado com a ideia de que a cultura é pesada». A história da tradução de Cunhal foi contada em inúmeros jornais: no Público, de 31/08/2002, por Manuel Gomes da Torre, num texto intitulado «Uma Tradução com História e para a História». Na mesma edição do jornal Público, Vasco Graça Moura publicou o texto «Álvaro Cunhal e O Rei Lear», em que analisa a qualidade da tradução feita pelo dirigente comunista na década de cinquenta.
Em 2002, a Editorial Caminho publicou O Rei Lear, com a tradução e as notas que Álvaro Cunhal fizera quarenta anos atrás. O livro tem, aliás, um prefácio de Cunhal, em que, nalguns passos, este segue de perto o que escreveu sobre a obra de Shakespeare no seu ensaio A Arte, o Artista e a Sociedade (Lisboa, Editorial Caminho, 1996). Por sua vez, numa nota introdutória, parcialmente transcrita aqui, Luís de Sousa Rebelo explica como tudo se passara décadas atrás. A obra da Editorial Caminho foi lançada por ocasião da Festa do Avante!, em 7 de Setembro de 2002, sendo o facto amplamente noticiado na altura. Vários órgãos de comunicação relataram a história da tradução de Cunhal e da sua republicação. Assim aconteceu com o jornal onde Clara Ferreira Alves publica as suas crónicas, o Expresso, na sua edição nº 1554, mas também com o popular Correio da Manhã, de 23/8/2002, no seu suplemento dominical, um exemplo típico da cultura low. O facto foi noticiado até na imprensa regional açoriana, pelo Diário Insular, em 18/8/2002.
Também a Internet, veículo por excelência da light culture, contém numerosas referências à tradução de Cunhal. Até aqui, na Wikipedia, paradigma da cultura de massas, vem tudo explicado.
A autora de Pluma Caprichosa afirma textualmente que Cunhal, «aos 80 anos, quase cego, resolveu traduzir Shakespeare». Como é que Clara Ferreira Alves cometeu este erro de palmatória, uma calinada de dimensões tão monumentais? É, de facto, um lapso tremendo e lamentável. Mas erros, mesmo erros grosseiros como este, acontecem aos melhores. E Clara Ferreira Alves integra indiscutivelmente o grupo dos nossos melhores. Pertence, por mérito próprio, à escassa high culture portuguesa. Sendo brutal e colossal, o seu inacreditável equívoco em nada afecta a admiração que esta jornalista nos deve merecer. Em todo o caso, nós, os que a admiramos com sinceridade e até carinho, ficámos um pouco tristes com uma mancha cultural desta gravidade. Para mais, numa crónica que tem por título «É a falta de cultura, estúpido».
António Araújo
