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sexta-feira, 14 de junho de 2013

Buzludzha.

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         Fiquei intrigado com estas imagens logo a primeira vez que as vi. A semelhança com a nave espacial dos Encontros Imediatos de Spielberg poderá parecer demasiado óbvia, mas foi ela que de imediato me acorreu ao espírito. Depois, lembrei-me da sala de congressos do Partido Comunista da China, por causa de outra semelhança – também ela, demasiado óbvia – entre a estrela vermelha na cúpula e esta foice e o martelo debruados com as palavras «Proletários de Todos os Países do Mundo, Uni-vos!». Quer aqui, quer na China, os símbolos dominam, a partir do tecto, um vasto espaço colectivo, edificado para grandiosos manifestações de aparato. Quando investiguei o que se tratava, lembrei-me dos Spomenik jugoslavos, de que já falei aqui no Malomil. Neste caso, porém, a marca do brutalismo arquitectónico é mais visível e acentuada.
         Estamos perante a Casa do Partido Comunista da Bulgária, um ovni colocado perto do Monte Buzludzha. Situa-se a 1441 metros acima do nível do mar, num dos mais inóspitos lugares das montanhas dos Balcãs. Basta dizer que «Buzludzha» (ou «Buzluca») significa literalmente «gelado» ou «glaciar». Porquê ali? Porque foi ali, ou nas imediações, que se travou uma das mais sangrentas batalhas entre russos e turcos, quando 2.500 russos e 5.000 voluntários búlgaros derrotaram um exército de 38.000 otomanos. Desde então, a Bulgária, um território que estivera sob dominação otomana durante cerca de cinco séculos, encontrou uma nova fidelidade, com contornos de subserviência. Instaurado o comunismo da grande Rússia,  a história das relações entre búlgaros e soviéticos é conhecida. E agora, num tempo em que tanto se fala de soberania, será interessante recordar que, na Bulgária, as aulas começavam pela manhã com os alunos a entoarem o hino… russo. Convém também recordar um dado importante: fora ali, no Monte Buzludzha que, após a Bulgária ter declarado a independência em 1891, que os socialistas revolucionários começaram a reunir-se em encontros secretos. A escolha deste lugar prende-se, portanto, com a vitória sobre os otomanos e com os alvores do comunismo búlgaro. Por isso lá está, em lugar de destaque, a figura de Dimitar Blagoev (1856-1924), a quem se atribui a paternidade intelectual do comunismo na Bulgária, o mesmo acontecendo a Georgi Dimitrov (1882-1949), que dirigiu o país entre 1946 e 1949.
Ao fim de vários anos de abandono, o monumento colossal começa a dar sinais de ruína. Há quem pense restaurá-lo, para atrair turistas ocidentais que gostem de viagens-aventura pelas memórias do comunismo. No entanto, os custos estimados dos trabalhos de reparação são de tal forma elevados que, muito provavelmente, um dia a Casa do Partido Comunista virá abaixo. Os ladrões começaram por levar bocados do telhado, com isso expondo o edifício às intempéries e ao tempo agreste que caracteriza aquela região do centro da Bulgária. Os custos de demolição também são incomportáveis. Ou seja: a Bulgária pós-comunista não tem meios, materiais e imateriais, de lidar com o seu passado recente. Não consegue restaurar como não consegue demolir a Casa do Partido. A ausência é, sobretudo, de vontade – de vontade política. E é isso que torna esta ruína tão intensamente simbólica e expressiva. Se quisessem mesmo recuperar o edifício, restaurando os ornatos do materialismo-dialéctico, certamente haveria dinheiro para o fazer. De igual modo, se a intenção fosse a destruição completa do singular monólito, também não faltaria engenho nem engenhos para o fazer – basta pensar nos Budas arrasados pelos talibãs. Dinheiro não faltaria, caso a opção fosse clara. Como, aliás, não faltou verba para edificar este monstro de betão, inaugurado em 1981, graças a donativos «espontâneos» de altos funcionários do Partido e a muito trabalho «voluntário» (é melhor manter as aspas em «espontâneos» e em «voluntário»). A torre tem 107 metros e, na fachada, encontram-se inscritas palavras da Internacional. Num site dedicado a este monumento, um daqueles inquéritos online, perfeitamente idiotas, sobre quem deveria participar no restauro: o Governo? O Partido Socialista da Bulgária? O povo búlgaro? Organizações não-governamentais? Ninguém avança.
         Enquanto isso não ocorre, alguém escreveu na entrada: FORGET YOUR PAST. Isto em 1991. Em 2012, alguém escreveu no interior: DON’T FORGET YOUR PAST. É esta ambivalência entre esquecimento e recordação que, no fundo, explica o actual estado do monumento. Semidestruído, mas ainda vivo.
 
 
António Araújo

 
 
 
 
 
 








 
 
 
 






 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 4 de março de 2013

O programa capilar da Coreia do Norte.

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Sempre preocupado com o bem-estar do povo, o governo da Coreia do Norte acaba de aprovar os 28 novos modelos de penteados «recomendáveis» para os cidadãos daquele país. Para as senhoras, há 18 penteados à escolha. Para os cavalheiros, 10 modelos diferentes, todos muito bons e vanguardistas. Mais informações aqui. Marcações e unhas de gel em http://www.joseluispeixoto.net/

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Elena e os polímeros.


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Foi um destacado membro do Partido Comunista da Roménia – integrou o Comité Municipal de Bucareste (1968), o Comité Central (1972), o Comité Executivo (1973) e o respectivo Gabinete Permanente (1977) e presidiu à Comissão de Quadros do Partido e do Estado (1980). Foi também, enquanto vice-primeiro-ministro, a segunda figura na hierarquia do Estado romeno (1980−1989). E se é inquestionável que a sua ascensão a estes e a outros cargos decorreu essencialmente do facto de ser casada com o homem que por mais de três décadas dominou a Roménia, não o é menos que ao exercê-los revelou excepcional desenvoltura e invulgares atributos, concretizados em inúmeros feitos, dos quais uma ínfima parte bastaria para lhe garantir, de pleno direito (e dispensando a marital intercessão) um lugar neste sombrio recanto do nosso cemitério.

Sucede, porém, que não é por conta dessas negras e conhecidas proezas que trago aqui hoje Elena, mas de outras, que ainda hoje me causam fascínio. Um absurdo, enviesado e inexplicável fascínio diante do que de grotesco, quase patético, tem o poder exercido de forma desmedida e desconectada da realidade.  

A queda do regime romeno, em 1989, tornou bem patente o abissal contraste entre a sua mirífica imagem, veiculada pela propaganda, e a sinistra realidade das várias atrocidades por si concebidas, ordenadas e cometidas. Um aspecto houve, contudo, que na torrente de dados sobre a vida de Elena me intrigou especialmente: o seu impecável e extenso curriculum académico e científico, o qual incluía um PhD em química de polímeros – com uma tese considerada, à época, um major breakthrough na área – cerca de 11 livros, 90 artigos em revistas científicas, romenas e estrangeiras, e mais de 30 patentes de invenção registadas em seu nome. Achievements próprios de uma vida dedicada ao estudo e à investigação, no resguardo de laboratórios, bibliotecas e gabinetes – e claramente inconciliáveis com uma tão intensa actividade pública como era a sua, entre os lugares políticos que acumulava e a omnipresença, ao lado do marido, enquanto “mãe da nação romena”. A explicação para tão improvável sobreposição de percursos surgiria pouco depois, através de sucessivas revelações que eu segui, num ávido e mórbido crescendo de horror e deleite.

Elena nasceu em 1919, no sul da Roménia, numa família modesta que, ainda assim, a conseguiu manter a estudar até aos catorze anos, altura em que decidiu abandonar a escola – com negativas a tudo, excepto a costura – e rumar a Bucareste. Aí trabalhou como assistente de um laboratório clandestino que produzia pastilhas para emagrecer e como operária têxtil. Nos anos cinquenta, já casada com Nicolae Ceausescu, inscreveu-se num curso nocturno de química, num instituto dedicado à instrução de adultos, a cujas aulas raramente comparecia e do qual foi expulsa por ter sido apanhada a copiar num exame. Inexiste qualquer prova de que tenha prosseguido os seus estudos ou completado uma licenciatura. E, no entanto, escassos anos depois, em 1960, doutorou-se summa cum laude, com uma monografia intitulada Stereospecific Polymerization of Isoprene on the Stabilization of Synthetic Rubbers and Copolymerization. Seguiram-se a nomeação para a presidência do ICECHIM, o principal laboratório de investigação química da Roménia (1965), a condecoração com a Ordem do Mérito Científico de 1ª Classe (1966), a Presidência do Conselho Nacional da Ciência e Tecnologia, criado para si (1970), o ingresso na Academia Romena das Ciências (1974), a Presidência do Conselho Nacional da Cultura e Educação (1975). Tudo isto em estreito – e inequívoco – paralelo com a firme e imparável ascensão do seu marido no interior do Partido Comunista e à frente dos destinos da Roménia.

A mesma ganância que fez Imelda Marcos juntar uma obscena colecção de 3000 pares de sapatos terá, numa bem mais retorcida versão, levado Elena Ceausescu a acumular títulos e distinções e a construir um impressionante curriculum, recorrendo, para tanto, aos mais ínvios e tortuosos métodos. Se Evita quis ser lembrada pela sua generosidade e bondade para com os descamisados, Elena de tudo fez para criar e consolidar uma imagem de inteligência, competência e sabedoria que estava longe de possuir.

Sabe-se hoje que se contava entre os seus planos receber um Nobel. Que as viagens oficiais do casal Ceausescu eram precedidas de nada discretas diligências junto das principais universidades do país em causa, no sentido de lhe serem atribuídos – espontaneamente, claro – doutoramentos honoris causa. E que chegaram a frustrar-se ou a estar em risco algumas dessas viagens ante a recusa, peremptória, de várias universidades, irredutíveis apesar das pressões diplomáticas e políticas “ao mais alto nível”*. Já então no Ocidente se questionava abertamente a autoria dos trabalhos de Elena – que a incansável máquina de propaganda do regime romeno se encarregava de distribuir, traduzidos, pelas bibliotecas científicas de referência. As suspeitas radicavam em raras, mas esclarecedoras, prestações públicas em que aquela exibira uma confrangedora ineptitude em matérias em que seria perita e nas denúncias que, clandestinas, chegavam da comunidade científica romena.

Só com o fim da era Ceausescu a verdade emergiu. Acerca da extorsão a que haviam sido submetidos inúmeros cientistas, desapropriados, sob ameaça de represálias, dos resultados de anos de paciente e dedicada investigação, os quais eram publicados e, sendo o caso, patenteados por Elena, em seu nome e proveito. Mas também quanto à falta de capacidades intelectuais e de qualificações básicas desta para poder sequer aspirar a tal carreira. São especialmente ilustrativas as circunstâncias em que obteve o seu doutoramento: a recusa inicial da sua tese pelo respeitado Prof. Simionescu (que por isso foi afastado da universidade e cujos trabalhos foram tornados inacessíveis, como se o seu autor jamais houvesse existido), a sua aceitação por um académico menor (que com tal feito se lançou numa fulgurante carreira) e, last but not the least, a prova, que não decorreu na data e local marcados e de forma pública, tendo sido antecipada e realizada à porta fechada. Elena não chegou a comparecer, tendo enviado, através de agentes de Securitate, a sua defesa gravada em cassette, não fosse ter de responder a alguma questão do júri…

Durante mais de trinta anos, Elena fez-se passar por grande académica e investigadora, na mira do prestígio que julgava daí lhe advir. Fê-lo à custa da coacção e da exploração exercidas sobre cientistas capazes mas indefesos, os quais foram injustamente privados do reconhecimento e dos frutos económicos do seu trabalho e remetidos a um anonimato forçado, a troco de paz e sossego. Conta-se que no julgamento sumário que antecedeu a sua execução, no Natal de 1989, um dos oficiais se lhe dirigiu repetidamente usando a alcunha por que era conhecida nos meios científicos -codoi”, a forma peculiar e por demais reveladora da sua ignorância, como se referia ao dióxido de carbono (CO2). A visão disso e do que se seguiu poderá até ter sido uma catarse para muitos. O mal feito, esse é mais difícil de reparar: a autoria de muitos trabalhos e patentes subsiste inalterada e é possível que decorram muitos anos até ser reposta a verdade. Ou que isso nunca venha a acontecer, full scale. Porque muitos daqueles que foram despojados morreram já e muitos outros partirão sem ter a satisfação de ver o seu trabalho e o seu mérito reconhecidos.
 
 

* Foi o caso de Oxford, Cambridge e da major league das universidades americanas. Mas não já das Universidades de Atenas, de Lima, de Buenos Aires, de Nice, de Quito, Teerão, de Amman, de Manila, do Central London Polythechnic (actual University of Westminster) que lhe atribuíram doutoramentos honoris causa e, bem assim, da Royal Society of Chemistry e da Illinois Academy of Sciences, que a admitiram como membro.
 
 
Joana Vasconcelos
 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Os universos da crítica.

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Disraeli, Teixeira-Gomes, Leopold Senghor, Vaclav Havel, o que entre eles há de comum foi terem sido escritores e estadistas, com sortes e estros diferentes em ambas as matérias. Haverá decerto mais exemplos capazes de provar a compatibilidade entre o romanesco e a política, e não necessariamente do calibre de Leonid Brejnev que em 1979 granjeou o Prémio Lenine de Literatura, proporcionando uma anedota: Brejnev perguntou aos membros do Politburo se tinham gostado das suas memórias; como todos se prostraram em elogios, concluiu: “se são assim tão boas também tenho que as ler.”

Agora do que não há grande memória é de ter havido muitos críticos literários cuja obra os tenha impulsionado às altas esferas do Estado, tomando decisões de vida ou morte sobre os seus concidadãos por via das suas aptidões analíticas no domínio das letras. Assim de repente, recorde-se um caso, trata-se de um nome assaz obscuro para a maioria dos coevos e tão-só vagamente reminiscente para a minoria que ainda se lembre e seja capaz de retirar sentido histórico à expressão “Bando dos Quatro”. Sim, é o enigmático, veemente, intimidador e diminuto Yao Wenyiuan, que em seu tempo de glória era sobejamente temido pelo epíteto de “o cacete”.

 

Yao Wenyuan em ação
 
 
Em 1965 Wenyuan saiu da obscuridade ao escrever uma crítica a uma peça que já estava em cena há 4 anos na Ópera de Pequim, ou seja, com mais atraso que as críticas do nosso “Expresso”. Este artigo, com o exemplarmente humilde e académico nome “Acerca da nova ópera histórica de Beijing ‘Hai Rui demitido do seu cargo’”, publicado no formidável Wenhui bao de Xangai, que à época tirava a bagatela de 1,8 milhões de exemplares, comprovou por extenso uma das leis políticas de Mao Zedong: “uma só centelha pode incendiar toda a pradaria”.

O libreto da ópera tinha sido escrita por Wu Han, reputado historiador, figura destacada do partido e nº 2 na vereação de Pequim – um figurão do regime. Escudado num episódio histórico, talvez fosse ou talvez não fosse uma codificada e irónica alegoria a Mao, mas foi isso que Yao Wenyuan disse que era: “não uma flor fragrante mas uma erva daninha”, concluindo que “se não limparmos este veneno, ele acabará por infetar a causa do povo.”

Hoje é escusado tentar separar a perspicácia crítica da paranoia política, porque sem descurar os seus créditos, o nosso Yao corroborava a denúncia com um impecável pedigree revolucionário: o seu pai era o reputado Yao Pengzi de quem herdara o facho da atividade crítica literária e fundador do movimento “Escritores Pela Pureza Proletária” do qual o filho se tornara figura de destaque. Rezam as crónicas que a prosa de Yao Wenyuan era chatíssima e só com muita relutância e outra tanta influência política o Diário do Povo de Beijing a publicou na secção de ensaios académicos. Ou seja, ali estava mais uma peça crítica condenada ao oblívio, como lamentavelmente sucede com a maior parte delas, até as da Sra. Clara Ferreira Alves.

Sucedeu, no entanto que quem exultou com o panfleto de Yao Wenyuan foi Jian Qing, a companheira do Grande Timoneiro, a “cadela do Presidente Mao, que mordia onde ele mandava morder” como se autodefiniu mais tarde aquando do seu julgamento, no único momento de risada geral nesse lúgubre episódio. Quem sabe se em conversas de travesseiro a esposa convenceu o marido de que as “ervas daninhas” haviam infestado o Partido de cima para baixo e que havia que expurgá-las por essa mesma ordem – e como fazê-lo?



Jiang Qing brilhando à luz do pensamento de Mao

Li Songsong, Wave, 2002
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Olhando para trás, para os primórdios do leninismo e, mais tarde, do estalinismo, o que se via era o laborioso Comissário Jadnov permanentemente ocupado em depurar o pecado por via da eliminação do pecador. A superior inteligência dialética de JIan Qin e do diligente Yao Wenyuan não tardou em verificar que o método além de moroso era subjetivo. O pecador era ele próprio um resultado de algo mais profundo e geral, que à luz do materialismo histórico só poderia ser uma sociedade pecaminosa. Por isso couraçados no livrinho vermelho e numa “visão crítica” – acessível apenas aos mestres dessa arte – propuseram-se desencadear o que veio a ser a famosa e famigerada Grande Revolução Cultural Proletária.

A grandiosa operação consistia em libertar a explosivas energias proletárias das massas, de maneira a que fossem desmascarados os dirigentes burocratas, acomodados, cúpidos e aburguesados que tinham usurpado o Partido e, concomitantemente, traído o socialismo.

Ora as massas proletárias eram na verdade os estudantes, que na sua candura juvenil constituíam a vanguarda esclarecida dos novos valores. Ei-los que deveriam organizar-se numa tropa de choque, como Guardas Vermelhos da pureza revolucionária. Talvez um leninista mais recalcitrante pudesse objetar que havia qualquer coisa de ideologicamente desconforme nisto de colocar os estudantes (categoria que não pertencia a nenhuma classe social segundo o cânone marxista) na vanguarda do proletariado (rezavam os livros que era a única classe, organizada no seu partido, capaz de conduzir a revolução). Mas à época só aos sorumbáticos dirigentes da “Cortina de Ferro”, sobretudo os da pungente RDA, ocorreu proferir tímidos reparos a tal contradição, o que foi meio caminho andado para não serem escutados.





Grande Revolução Cultural Proletária, as massas e os líderes



Xangai foi o epicentro deste maremoto que derramado por toda a China, devastou qualquer resquício de autoridade, de tradição, de dúvida e, já agora de sensatez. Yao Wenyuan, diziam as más línguas (“a mordedura de uma cobra cura-se com o veneno da própria cobra”, não sendo um provérbio chinês, não só parece como vem a propósito), não passava de um mandarete de Jian Qing, precisamente nativa de Xangai, onde tinha os seus grandes apoios. Entre eles contava-se nada menos que Zhang Chungqiao, o fundador e líder da Comuna de Xangai e emérito dinamizador da Revolução Cultural. O Bando dos Quatro completava-se com o jovem Wang Hongwen, um operário siderúrgico, também ele de Xangai, cujo mérito foi ter sido o autor do primeiro cartaz de crítica, apontado ao diretor da sua fábrica, com a consequente expulsão deste e a imediata ascensão de Wang ao Comité Central.

De 1966 até 1976, nunca a democracia de base teve tanto esplendor. As aulas nas universidades foram suspensas para que os estudantes pudessem participar livremente nas sessões de crítica e autocrítica promovidas por todos os recantos do Império do Meio; mais lhe era facultado, por decreto pessoal de Mao Zedong, circular livre e gratuitamente para onde quisessem de comboio, camioneta ou avião, de modo encherem os estádios em que tais sessões decorriam. Do que se passou sobram poucos registos, mas há pouco tempo foram reveladas as fotos que Li Zhensheng mantivera em segredo, constituindo um precioso acervo dos acontecimentos na cidade de Harbin, em nada discrepantes do que ocorreu em qualquer outro lugar.
 
 
O Comité Provincial do PCC em Harbin,
denunciado durante a Grande Revolução Cultural Proletária
 

Wang Yilun, Secretário Provincial do PCC em Harbin, Agosto de 1966
 

Jornalistas do diário Heilongjian denunciando um quadro do PCC

 

- fotos de Li Zhengsheng -
 

Além do mais que possa provocar repulsa, uma característica é verdadeiramente avassaladora, tão estranha como inédita, neste circo de crueldade. Os desgraçados que aqui vemos submetidos a tais vexames públicos de maneira passiva e estoica, não eram dissidentes, marginais, oposicionistas, relapsos, gente clandestina ou das sombras; eram dirigentes do Estado, comunistas de velha guarda do Partido, tantos deles protagonistas da Longa Marcha. Desorientados com a falta de diretivas e sedentos de agradar a Mao Zedong, entregavam-se voluntariamente aos Guardas Vermelhos e deixavam-se imolar sem um queixume. O próprio Presidente da República Liu Shaoqi foi alvo de tão funestas atenções acabando por morrer na prisão de maneira ignóbil e brutal e a sua mulher Wang Guangmei foi passeada nas ruas com um colar de bolas de ping-pong a gozar com o de pérolas que usara numa visita de Estado a Jakarta e com a saia rachada das concubinas.



Última foto de Lio Shaoqi, Presidente da RPC




Wang Gaungmei (2ª à dir.) em Djakarta com o vestido fatídico
 

Wang Guangmei exibida com colar e vestido trocista


Wang Gaungmei criticada pelos estudantes da Universidade de Tsingua
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Entretanto o nosso “Cacete”, já promovido ao Comité Central e introduzido no estreito círculo dos dirigentes máximos da Revolução, perseverou com o frenesim dos iluminados a sua obra crítica. De tal modo que ao atingir a quantia de 100 escritores desmascarados, dos quais muitos malharam com os ossos em remotos campos de trabalho, Yao Wenyuan celebrou efusivamente o feito – a cultura que ele pusera em marcha atingia o climax.

À Europa chegaram esparsos e escassos ecos destas evoluções, mas os suficientes para que os estudantes de Nanterre e da Sorbonne aclamassem a Grande Revolução Cultural Proletária como uma utopia realizada. Que liberdade maravilhosa a de poder cuspir na cara dos maîtres-à-penser da república tão enfatuados com as suas façanhas da Resistência, que exaltante ato de higiene revolucionária o derrube de todos os símbolos do glorioso passado da França jacobina. Tiveram a sua oportunidade na primavera do ano seguinte, em 1968, e Sartre cavalgou essa onda com emulações de Mao, um olho nas cargas dos CRS e outro no cadáver ainda fresco de Che Guevara.








Que repercussões teve isto em Portugal? À época quase nenhumas, pois a tampa do Estado Novo não levantou, nem com Marcelo Caetano, e o susto foi longínquo. Mas 10 anos depois, em 1975, ou seja, quando finalmente estas questões ficaram na ordem do dia no seio da esquerda rotundamente marxista-leninista, o saudoso cinema Universal (que depois, o tempora o moraes, se veio a transformar no Rock Rendez-Vous e a seguir em nada) exibiu com garbo e militância o filme “O destacamento vermelho feminino”. Sucedia que antes do genérico inicial vinha à tela um cartão em que se agradecia ao PCP (m-l) do renegado (Eduíno) Vilar a disponibilidade da fita, mensagem que dava azo a uns 15 minutos de algazarra dentro da sala, com os MRPPs aos uivos de um lado, os UDPs à cuspidelas lá de cima do balcão e outros m-ls sortidos expelindo imprecações soezes, tais como: “sociais fascistas!”, “as massas vos darão um corretivo exemplar!”, “traidores!”, “Viva Enver Hoxha!”. Havendo troca de sopapos e tabefes como chegou a haver, as luzes acendiam-se, a projeção interrompia-se e o arrumador que também era bilheteiro e projecionista, acudia à bulha a mandar-nos todos à merda que não estava para aturar isto, querem lá ver…! Reposta a legalidade burguesa, a unanimidade era alcançada com arrebatada ovação à legenda “um filme produzido na República Popular da China”. Vão lá perguntar aos professores Crato e Espada ou ao Sr. Barroso se não foi assim, que eles logo vos dirão.
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“The gang is all there” no funeral de Mao Zedong em 1976 (Yao Wenyuan é o 4ª à dir.)
 
A mesma foto publicada no ano seguinte…
 
 
Lenine teve um Jadnov, Estaline um Beria, Mao não chegou a ter um Yao porque tinha uma Jiang Qing, tão bailarina quanto esquerdista, tão vingativa quanto uma Agripina. Mas em 1976, logo após a morte de Mao, a revolução ruiu como um castelo de cartas e Yao Wenyuan de permeio com os outros três camaradas, agora sob o labéu de Bando dos Quatro, foi sequestrado à entrada de uma reunião do Comité Central, depois arrecadado preventivamente numa cadeia e por fim levado à barra, num julgamento transmitido pela televisão. Não havia perigo de repercussões pois as massas populares vieram para a rua dançar ao saberem da sua detenção. Ao cabo de tantos artigos críticos, Yao Wenyuan terá verificado que não foram os suficientes para educar o proletariado e extirpar-lhe os defeitos burgueses.
 
 
 
 

Cartazes de 1977 denunciando o Bando dos Quatro
 

Curiosamente a justiça da RPC, não sendo famosa pela sua doçura, tratou o Bando dos Quatro com inesperada condescendência. Começou por condená-los à morte, para não destoar da tradição imperial, quer a antiga quer a moderna, mas em vez de os liquidar sumariamente, comutou as penas em prisão perpétua.



Yao Wenyuan durante o julgamento do bando dos Quatro

 
Yao Wenyuan foi o derradeiro sobrevivente, tendo passado com a máxima discrição os últimos nove anos da sua vida em Xangai, livre mas impedido de comunicar, mirrado e curvado pela tuberculose, sempre envergando a característica indumentária dos seus tempos áureos, o paletó e as calças de sarja cinzenta. Diz-se que estava a escrever um livro e ainda hoje há quem secretamente procure o seu mítico diário, ao que consta iniciado aos 15 anos de idade.
Pois aqui fica, para proveito e exemplo das novas e vivas massas, parte delas sedenta de justiça manual, o que pode um crítico, para mais literário, quando alcandorado às aras do poder, quase absoluto – Yao Wenyuan, o purificador cultural, o mentor radical, o impetuoso retificador dos vícios da sociedade, o idealista de um novo mundo, enfim, que mais dizer senão um simples crítico?
 
 
José Navarro de Andrade