Fiquei intrigado com estas imagens logo
a primeira vez que as vi. A semelhança com a nave espacial dos Encontros Imediatos de Spielberg poderá parecer demasiado
óbvia, mas foi ela que de imediato me acorreu ao espírito. Depois, lembrei-me da
sala de congressos do Partido Comunista da China, por causa de outra semelhança
– também ela, demasiado óbvia – entre a estrela vermelha na cúpula e esta foice
e o martelo debruados com as palavras «Proletários de Todos os Países do Mundo,
Uni-vos!». Quer aqui, quer na China, os símbolos dominam, a partir do tecto, um
vasto espaço colectivo, edificado para grandiosos manifestações de aparato.
Quando investiguei o que se tratava, lembrei-me dos Spomenik jugoslavos, de que já falei aqui no Malomil. Neste caso, porém, a marca do brutalismo arquitectónico
é mais visível e acentuada.
Estamos perante a Casa do Partido
Comunista da Bulgária, um ovni colocado perto do Monte Buzludzha. Situa-se a
1441 metros acima do nível do mar, num dos mais inóspitos lugares das montanhas
dos Balcãs. Basta dizer que «Buzludzha» (ou «Buzluca») significa literalmente
«gelado» ou «glaciar». Porquê ali? Porque foi ali, ou nas imediações, que se
travou uma das mais sangrentas batalhas entre russos e turcos, quando 2.500
russos e 5.000 voluntários búlgaros derrotaram um exército de 38.000 otomanos.
Desde então, a Bulgária, um território que estivera sob dominação otomana
durante cerca de cinco séculos, encontrou uma nova fidelidade, com contornos de
subserviência. Instaurado o comunismo da grande Rússia,a história das relações entre búlgaros e
soviéticos é conhecida. E agora, num tempo em que tanto se fala de soberania,
será interessante recordar que, na Bulgária, as aulas começavam pela manhã com
os alunos a entoarem o hino… russo. Convém também recordar um dado importante:
fora ali, no Monte Buzludzha que, após a Bulgária ter declarado a independência em 1891, que os socialistas revolucionários começaram a reunir-se
em encontros secretos. A escolha deste lugar prende-se, portanto, com a vitória sobre os otomanos e com os alvores do comunismo búlgaro. Por isso lá está, em
lugar de destaque, a figura de Dimitar Blagoev (1856-1924), a quem se atribui a paternidade
intelectual do comunismo na Bulgária, o mesmo acontecendo a Georgi Dimitrov (1882-1949),
que dirigiu o país entre 1946 e 1949.
Ao fim de
vários anos de abandono, o monumento colossal começa a dar sinais de ruína. Há quem pense restaurá-lo, para atrair turistas ocidentais que gostem
de viagens-aventura pelas memórias do comunismo. No entanto, os custos
estimados dos trabalhos de reparação são de tal forma elevados que, muito
provavelmente, um dia a Casa do Partido Comunista virá abaixo. Os ladrões
começaram por levar bocados do telhado, com isso expondo o edifício às
intempéries e ao tempo agreste que caracteriza aquela região do centro da
Bulgária. Os custos de demolição também são incomportáveis. Ou seja: a Bulgária pós-comunista
não tem meios, materiais e imateriais, de lidar com o seu passado recente. Não
consegue restaurar como não consegue demolir a Casa do Partido. A ausência é,
sobretudo, de vontade – de vontade política. E é isso que torna esta ruína tão
intensamente simbólica e expressiva. Se quisessem mesmo recuperar o edifício, restaurando os ornatos do
materialismo-dialéctico, certamente haveria dinheiro para o fazer. De igual
modo, se a intenção fosse a destruição completa do singular monólito, também
não faltaria engenho nem engenhos para o fazer – basta pensar nos Budas
arrasados pelos talibãs. Dinheiro não faltaria, caso a opção fosse clara. Como, aliás,
não faltou verba para edificar este monstro de betão, inaugurado em 1981,
graças a donativos «espontâneos» de altos funcionários do Partido e a muito
trabalho «voluntário» (é melhor manter as aspas em «espontâneos» e em «voluntário»).
A
torre tem 107 metros e, na fachada, encontram-se inscritas palavras da Internacional. Num site dedicado a este monumento, um daqueles
inquéritos online, perfeitamente
idiotas, sobre quem deveria participar no restauro: o Governo? O Partido
Socialista da Bulgária? O povo búlgaro? Organizações não-governamentais?
Ninguém avança.
Enquanto isso não ocorre, alguém
escreveu na entrada: FORGET YOUR PAST. Isto em 1991. Em 2012, alguém escreveu no interior: DON’T FORGET YOUR PAST.
É esta ambivalência entre esquecimento e recordação que, no fundo, explica o
actual estado do monumento. Semidestruído, mas ainda vivo.
Sempre preocupado com o bem-estar do povo, o governo da Coreia do Norte acaba de aprovar os 28 novos modelos de penteados
«recomendáveis» para os cidadãos daquele país. Para as senhoras, há 18
penteados à escolha. Para os cavalheiros, 10 modelos diferentes, todos muito
bons e vanguardistas. Mais informações aqui.Marcações e unhas de gel emhttp://www.joseluispeixoto.net/
Foi um destacado membro do Partido Comunista da
Roménia – integrou o Comité Municipal de Bucareste (1968), o Comité Central (1972), o Comité Executivo
(1973) e o respectivo Gabinete Permanente (1977) e presidiu à Comissão de
Quadros do Partido e do Estado (1980). Foi também, enquanto
vice-primeiro-ministro, a segunda figura na hierarquia do Estado romeno
(1980−1989). E se é inquestionável que a sua ascensão a estes e a outros cargos
decorreu essencialmente do facto de ser casada com o homem que por mais de três
décadas dominou a Roménia, não o é menos que ao exercê-los revelou excepcional
desenvoltura e invulgares atributos, concretizados em inúmeros feitos, dos
quais uma ínfima parte bastaria para lhe garantir, de pleno direito (e
dispensando a marital intercessão) um lugar neste sombrio recanto do nosso
cemitério.
Sucede, porém, que não é por conta dessas negras e conhecidas proezas que
trago aqui hoje Elena, mas de outras, que ainda hoje me causam fascínio. Um absurdo,
enviesado e inexplicável fascínio diante do que de grotesco, quase patético,
tem o poder exercido de forma desmedida e desconectada da realidade.
A queda do regime romeno, em 1989, tornou bem patente o abissal contraste
entre a sua mirífica imagem, veiculada pela propaganda, e a sinistra realidade
das várias atrocidades por si concebidas, ordenadas e cometidas. Um aspecto
houve, contudo, que na torrente de dados sobre a vida de Elena me intrigou
especialmente: o seu impecável e extenso curriculum académico e
científico, o qual incluía um PhD em química de polímeros – com uma tese
considerada, à época, um major breakthrough na área – cerca de 11
livros, 90 artigos em revistas científicas, romenas e estrangeiras, e mais de
30 patentes de invenção registadas em seu nome. Achievements próprios de
uma vida dedicada ao estudo e à investigação, no resguardo de laboratórios,
bibliotecas e gabinetes – e claramente inconciliáveis com uma tão intensa
actividade pública como era a sua, entre os lugares políticos que acumulava e a
omnipresença, ao lado do marido, enquanto “mãe da nação romena”. A explicação
para tão improvável sobreposição de percursos surgiria pouco depois, através de
sucessivas revelações que eu segui, num ávido e mórbido crescendo de horror e deleite.
Elena nasceu em 1919, no sul da Roménia, numa família modesta que, ainda
assim, a conseguiu manter a estudar até aos catorze anos, altura em que decidiu
abandonar a escola – com negativas a tudo, excepto a costura – e rumar a
Bucareste. Aí trabalhou como assistente de um laboratório clandestino que
produzia pastilhas para emagrecer e como operária têxtil. Nos anos cinquenta,
já casada com Nicolae Ceausescu, inscreveu-se num curso nocturno de química,
num instituto dedicado à instrução de adultos, a cujas aulas raramente
comparecia e do qual foi expulsa por ter sido apanhada a copiar num exame.
Inexiste qualquer prova de que tenha prosseguido os seus estudos ou completado
uma licenciatura. E, no entanto, escassos anos depois, em 1960, doutorou-se summa
cum laude, com uma monografia intitulada Stereospecific Polymerization
of Isoprene on the Stabilization of Synthetic Rubbers and Copolymerization.
Seguiram-se a nomeação para a presidência do ICECHIM, o principal laboratório
de investigação química da Roménia (1965), a condecoração com a Ordem do Mérito
Científico de 1ª Classe (1966), a Presidência do Conselho Nacional da Ciência e
Tecnologia, criado para si (1970), o ingresso na Academia Romena das Ciências
(1974), a Presidência do Conselho Nacional da Cultura e Educação (1975). Tudo
isto em estreito – e inequívoco – paralelo com a firme e imparável ascensão do
seu marido no interior do Partido Comunista e à frente dos destinos da Roménia.
A mesma ganância que fez Imelda Marcos juntar uma obscena colecção de 3000
pares de sapatos terá, numa bem mais retorcida versão, levado Elena Ceausescu a
acumular títulos e distinções e a construir um impressionante curriculum,
recorrendo, para tanto, aos mais ínvios e tortuosos métodos. Se Evita quis ser
lembrada pela sua generosidade e bondade para com os descamisados, Elena
de tudo fez para criar e consolidar uma imagem de inteligência, competência e
sabedoria que estava longe de possuir.
Sabe-se hoje que se contava entre os seus planos receber um Nobel. Que as
viagens oficiais do casal Ceausescu eram precedidas de nada discretas
diligências junto das principais universidades do país em causa, no sentido de
lhe serem atribuídos – espontaneamente, claro – doutoramentos honoris causa.
E que chegaram a frustrar-se ou a estar em risco algumas dessas viagens ante a
recusa, peremptória, de várias universidades, irredutíveis apesar das pressões
diplomáticas e políticas “ao mais alto nível”*. Já então no Ocidente se
questionava abertamente a autoria dos trabalhos de Elena – que a incansável
máquina de propaganda do regime romeno se encarregava de distribuir,
traduzidos, pelas bibliotecas científicas de referência. As suspeitas radicavam
em raras, mas esclarecedoras, prestações públicas em que aquela exibira uma
confrangedora ineptitude em matérias em que seria perita e nas denúncias que,
clandestinas, chegavam da comunidade científica romena.
Só com o fim da era Ceausescu a verdade emergiu. Acerca da extorsão a que
haviam sido submetidos inúmeros cientistas, desapropriados, sob ameaça de
represálias, dos resultados de anos de paciente e dedicada investigação, os
quais eram publicados e, sendo o caso, patenteados por Elena, em seu nome e
proveito. Mas também quanto à falta de capacidades intelectuais e de
qualificações básicas desta para poder sequer aspirar a tal carreira. São
especialmente ilustrativas as circunstâncias em que obteve o seu doutoramento:
a recusa inicial da sua tese pelo respeitado Prof. Simionescu (que por isso foi
afastado da universidade e cujos trabalhos foram tornados inacessíveis, como se
o seu autor jamais houvesse existido), a sua aceitação por um académico menor
(que com tal feito se lançou numa fulgurante carreira) e, last but not the
least, a prova, que não decorreu na data e local marcados e de forma
pública, tendo sido antecipada e realizada à porta fechada. Elena não chegou a
comparecer, tendo enviado, através de agentes de Securitate, a sua defesa
gravada em cassette, não fosse ter de responder a alguma questão do
júri…
Durante mais de trinta anos, Elena fez-se passar por grande académica e
investigadora, na mira do prestígio que julgava daí lhe advir. Fê-lo à custa da
coacção e da exploração exercidas sobre cientistas capazes mas indefesos, os
quais foram injustamente privados do reconhecimento e dos frutos económicos do
seu trabalho e remetidos a um anonimato forçado, a troco de paz e sossego.
Conta-se que no julgamento sumário que antecedeu a sua execução, no Natal de
1989, um dos oficiais se lhe dirigiu repetidamente usando a alcunha por que era
conhecida nos meios científicos - “codoi”, a
forma peculiar e por demais reveladora da sua ignorância, como se referia ao
dióxido de carbono (CO2). A visão disso e do que se seguiu poderá até ter sido
uma catarse para muitos. O mal feito, esse é mais difícil de reparar: a autoria
de muitos trabalhos e patentes subsiste inalterada e é possível que decorram
muitos anos até ser reposta a verdade. Ou que isso nunca venha a acontecer, full
scale. Porque muitos daqueles que foram despojados morreram já e muitos outros
partirão sem ter a satisfação de ver o seu trabalho e o seu mérito
reconhecidos.
* Foi o caso de Oxford,
Cambridge e da major league das universidades americanas. Mas não já das
Universidades de Atenas, de Lima, de Buenos Aires, de Nice, de Quito, Teerão,
de Amman, de Manila, do Central London Polythechnic (actual University of
Westminster) que lhe atribuíram doutoramentos honoris causa e, bem assim, da
Royal Society of Chemistry e da Illinois Academy of Sciences, que a admitiram
como membro.
Disraeli, Teixeira-Gomes, Leopold
Senghor, Vaclav Havel, o que entre eles há de comum foi terem sido escritores e
estadistas, com sortes e estros diferentes em ambas as matérias. Haverá decerto
mais exemplos capazes de provar a compatibilidade entre o romanesco e a
política, e não necessariamente do calibre de Leonid Brejnev que em 1979
granjeou o Prémio Lenine de Literatura, proporcionando uma anedota: Brejnev
perguntou aos membros do Politburo se tinham gostado das suas memórias; como
todos se prostraram em elogios, concluiu: “se são assim tão boas também tenho
que as ler.”
Agora do que não há grande memória é
de ter havido muitos críticos literários cuja obra os tenha impulsionado às
altas esferas do Estado, tomando decisões de vida ou morte sobre os seus
concidadãos por via das suas aptidões analíticas no domínio das letras. Assim
de repente, recorde-se um caso, trata-se de um nome assaz obscuro para a
maioria dos coevos e tão-só vagamente reminiscente para a minoria que ainda se
lembre e seja capaz de retirar sentido histórico à expressão “Bando dos Quatro”.
Sim, é o enigmático, veemente, intimidador e diminuto Yao Wenyiuan, que em seu
tempo de glória era sobejamente temido pelo epíteto de “o cacete”.
Yao Wenyuan em ação
Em 1965 Wenyuan saiu da obscuridade
ao escrever uma crítica a uma peça que já estava em cena há 4 anos na Ópera de
Pequim, ou seja, com mais atraso que as críticas do nosso “Expresso”. Este artigo,
com o exemplarmente humilde e académico nome “Acerca da nova ópera histórica de
Beijing ‘Hai Rui demitido do seu cargo’”, publicado no formidável Wenhui bao de
Xangai, que à época tirava a bagatela de 1,8 milhões de exemplares, comprovou
por extenso uma das leis políticas de Mao Zedong: “uma só centelha pode incendiar
toda a pradaria”.
O libreto da ópera tinha sido escrita
por Wu Han, reputado historiador, figura destacada do partido e nº 2 na
vereação de Pequim – um figurão do regime. Escudado num episódio histórico,
talvez fosse ou talvez não fosse uma codificada e irónica alegoria a Mao, mas
foi isso que Yao Wenyuan disse que era: “não uma flor fragrante mas uma erva
daninha”, concluindo que “se não limparmos este veneno, ele acabará por infetar
a causa do povo.”
Hoje é escusado tentar separar a
perspicácia crítica da paranoia política, porque sem descurar os seus créditos,
o nosso Yao corroborava a denúncia com um impecável pedigree revolucionário: o seu pai era o reputado Yao Pengzi de
quem herdara o facho da atividade crítica literária e fundador do movimento
“Escritores Pela Pureza Proletária” do qual o filho se tornara figura de
destaque. Rezam as crónicas que a prosa de Yao Wenyuan era chatíssima e só com
muita relutância e outra tanta influência política o Diário do Povo de Beijing
a publicou na secção de ensaios académicos. Ou seja, ali estava mais uma peça
crítica condenada ao oblívio, como lamentavelmente sucede com a maior parte
delas, até as da Sra. Clara Ferreira Alves.
Sucedeu, no entanto que quem exultou
com o panfleto de Yao Wenyuan foi Jian Qing, a companheira do Grande Timoneiro,
a “cadela do Presidente Mao, que mordia onde ele mandava morder” como se autodefiniu
mais tarde aquando do seu julgamento, no único momento de risada geral nesse
lúgubre episódio. Quem sabe se em conversas de travesseiro a esposa convenceu o
marido de que as “ervas daninhas” haviam infestado o Partido de cima para baixo
e que havia que expurgá-las por essa mesma ordem – e como fazê-lo?
Jiang Qing brilhando à luz do pensamento de Mao
Li Songsong, Wave, 2002
. . .
Olhando para trás, para os primórdios
do leninismo e, mais tarde, do estalinismo, o que se via era o laborioso Comissário Jadnov permanentemente
ocupado em depurar o pecado por via da eliminação do pecador. A superior
inteligência dialética de JIan Qin e do diligente Yao Wenyuan não tardou em
verificar que o método além de moroso era subjetivo. O pecador era ele próprio
um resultado de algo mais profundo e geral, que à luz do materialismo histórico
só poderia ser uma sociedade pecaminosa. Por isso couraçados no livrinho
vermelho e numa “visão crítica” – acessível apenas aos mestres dessa arte –
propuseram-se desencadear o que veio a ser a famosa e famigerada Grande
Revolução Cultural Proletária.
A grandiosa operação consistia em
libertar a explosivas energias proletárias das massas, de maneira a que fossem
desmascarados os dirigentes burocratas, acomodados, cúpidos e aburguesados que
tinham usurpado o Partido e, concomitantemente, traído o socialismo.
Ora as massas proletárias eram na
verdade os estudantes, que na sua candura juvenil constituíam a vanguarda
esclarecida dos novos valores. Ei-los que deveriam organizar-se numa tropa de choque,
como Guardas Vermelhos da pureza revolucionária. Talvez um leninista mais
recalcitrante pudesse objetar que havia qualquer coisa de ideologicamente
desconforme nisto de colocar os estudantes (categoria que não pertencia a
nenhuma classe social segundo o cânone marxista) na vanguarda do proletariado (rezavam
os livros que era a única classe, organizada no seu partido, capaz de conduzir
a revolução). Mas à época só aos sorumbáticos dirigentes da “Cortina de Ferro”,
sobretudo os da pungente RDA, ocorreu proferir tímidos reparos a tal
contradição, o que foi meio caminho andado para não serem escutados.
Grande Revolução Cultural Proletária, as massas e os líderes
Xangai foi o epicentro deste maremoto
que derramado por toda a China, devastou qualquer resquício de autoridade, de
tradição, de dúvida e, já agora de sensatez. Yao Wenyuan, diziam as más línguas
(“a mordedura de uma cobra cura-se com o veneno da própria cobra”, não sendo um
provérbio chinês, não só parece como vem a propósito), não passava de um
mandarete de Jian Qing, precisamente nativa de Xangai, onde tinha os seus
grandes apoios. Entre eles contava-se nada menos que Zhang Chungqiao, o
fundador e líder da Comuna de Xangai e emérito dinamizador da Revolução
Cultural. O Bando dos Quatro completava-se com o jovem Wang Hongwen, um
operário siderúrgico, também ele de Xangai, cujo mérito foi ter sido o autor do
primeiro cartaz de crítica, apontado ao diretor da sua fábrica, com a
consequente expulsão deste e a imediata ascensão de Wang ao Comité Central.
De 1966 até 1976, nunca a democracia
de base teve tanto esplendor. As aulas nas universidades foram suspensas para
que os estudantes pudessem participar livremente nas sessões de crítica e
autocrítica promovidas por todos os recantos do Império do Meio; mais lhe era
facultado, por decreto pessoal de Mao Zedong, circular livre e gratuitamente
para onde quisessem de comboio, camioneta ou avião, de modo encherem os
estádios em que tais sessões decorriam. Do que se passou sobram poucos
registos, mas há pouco tempo foram reveladas as fotos que Li Zhensheng mantivera em segredo,
constituindo um precioso acervo dos acontecimentos na cidade de Harbin, em nada
discrepantes do que ocorreu em qualquer outro lugar.
O Comité Provincial do PCC em Harbin,
denunciado durante
a Grande Revolução Cultural Proletária
Wang
Yilun, Secretário Provincial do PCC em Harbin, Agosto de 1966
Jornalistas
do diário Heilongjian denunciando um quadro do PCC
Além do mais que possa provocar
repulsa, uma característica é verdadeiramente avassaladora, tão estranha como
inédita, neste circo de crueldade. Os desgraçados que aqui vemos submetidos a
tais vexames públicos de maneira passiva e estoica, não eram dissidentes,
marginais, oposicionistas, relapsos, gente clandestina ou das sombras; eram
dirigentes do Estado, comunistas de velha guarda do Partido, tantos deles
protagonistas da Longa Marcha. Desorientados com a falta de diretivas e
sedentos de agradar a Mao Zedong, entregavam-se voluntariamente aos Guardas
Vermelhos e deixavam-se imolar sem um queixume. O próprio Presidente da
República Liu Shaoqi foi alvo de tão funestas atenções acabando por morrer na
prisão de maneira ignóbil e brutal e a sua mulher Wang Guangmei foi passeada
nas ruas com um colar de bolas de ping-pong a gozar com o de pérolas que usara
numa visita de Estado a Jakarta e com a saia rachada das concubinas.
Última foto de Lio Shaoqi, Presidente da RPC
Wang
Gaungmei (2ª à dir.) em Djakarta com o vestido fatídico
Wang
Guangmei exibida com colar e vestido trocista
Wang
Gaungmei criticada pelos estudantes da Universidade de Tsingua
, . .
Entretanto o nosso “Cacete”, já
promovido ao Comité Central e introduzido no estreito círculo dos dirigentes
máximos da Revolução, perseverou com o frenesim dos iluminados a sua obra
crítica. De tal modo que ao atingir a quantia de 100 escritores desmascarados,
dos quais muitos malharam com os ossos em remotos campos de trabalho, Yao
Wenyuan celebrou efusivamente o feito – a cultura que ele pusera em marcha
atingia o climax.
À Europa chegaram esparsos e escassos
ecos destas evoluções, mas os suficientes para que os estudantes de Nanterre e
da Sorbonne aclamassem a Grande Revolução Cultural Proletária como uma utopia
realizada. Que liberdade maravilhosa a de poder cuspir na cara dos
maîtres-à-penser da república tão enfatuados com as suas façanhas da
Resistência, que exaltante ato de higiene revolucionária o derrube de todos os
símbolos do glorioso passado da França jacobina. Tiveram a sua oportunidade na
primavera do ano seguinte, em 1968, e Sartre cavalgou essa onda com emulações
de Mao, um olho nas cargas dos CRS e outro no cadáver ainda fresco de Che
Guevara.
Que repercussões teve isto em
Portugal? À época quase nenhumas, pois a tampa do Estado Novo não levantou, nem
com Marcelo Caetano, e o susto foi longínquo. Mas 10 anos depois, em 1975, ou
seja, quando finalmente estas questões ficaram na ordem do dia no seio da esquerda
rotundamente marxista-leninista, o saudoso cinema Universal (que depois, o tempora o moraes, se veio a
transformar no Rock Rendez-Vous e a seguir em nada) exibiu com garbo e militância
o filme “O destacamento vermelho feminino”. Sucedia que antes do genérico
inicial vinha à tela um cartão em que se agradecia ao PCP (m-l) do renegado
(Eduíno) Vilar a disponibilidade da fita, mensagem que dava azo a uns 15
minutos de algazarra dentro da sala, com os MRPPs aos uivos de um lado, os UDPs
à cuspidelas lá de cima do balcão e outros m-ls sortidos expelindo imprecações
soezes, tais como: “sociais fascistas!”, “as massas vos darão um corretivo
exemplar!”, “traidores!”, “Viva Enver Hoxha!”. Havendo troca de sopapos e
tabefes como chegou a haver, as luzes acendiam-se, a projeção interrompia-se e
o arrumador que também era bilheteiro e projecionista, acudia à bulha a
mandar-nos todos à merda que não estava para aturar isto, querem lá ver…!
Reposta a legalidade burguesa, a unanimidade era alcançada com arrebatada ovação
à legenda “um filme produzido na República Popular da China”. Vão lá perguntar
aos professores Crato e Espada ou ao Sr. Barroso se não foi assim, que eles
logo vos dirão.
. .
“The
gang is all there” no funeral de Mao Zedong em 1976 (Yao Wenyuan é o 4ª à dir.)
A mesma foto publicada no ano seguinte…
Lenine teve um Jadnov, Estaline um
Beria, Mao não chegou a ter um Yao porque tinha uma Jiang Qing, tão bailarina
quanto esquerdista, tão vingativa quanto uma Agripina. Mas em 1976, logo após a
morte de Mao, a revolução ruiu como um castelo de cartas e Yao Wenyuan de
permeio com os outros três camaradas, agora sob o labéu de Bando dos Quatro, foi
sequestrado à entrada de uma reunião do Comité Central, depois arrecadado
preventivamente numa cadeia e por fim levado à barra, num julgamento
transmitido pela televisão. Não havia perigo de repercussões pois as massas
populares vieram para a rua dançar ao saberem da sua detenção. Ao cabo de
tantos artigos críticos, Yao Wenyuan terá verificado que não foram os suficientes
para educar o proletariado e extirpar-lhe os defeitos burgueses.
Cartazes
de 1977 denunciando o Bando dos Quatro
Curiosamente a justiça da RPC, não
sendo famosa pela sua doçura, tratou o Bando dos Quatro com inesperada
condescendência. Começou por condená-los à morte, para não destoar da tradição
imperial, quer a antiga quer a moderna, mas em vez de os liquidar sumariamente,
comutou as penas em prisão perpétua.
Yao
Wenyuan durante o julgamento do bando dos Quatro
Yao Wenyuan foi o derradeiro
sobrevivente, tendo passado com a máxima discrição os últimos nove anos da sua
vida em Xangai, livre mas impedido de comunicar, mirrado e curvado pela
tuberculose, sempre envergando a característica indumentária dos seus tempos
áureos, o paletó e as calças de sarja cinzenta. Diz-se que estava a escrever um
livro e ainda hoje há quem secretamente procure o seu mítico diário, ao que
consta iniciado aos 15 anos de idade.
Pois aqui fica, para proveito e
exemplo das novas e vivas massas, parte delas sedenta de justiça manual, o que
pode um crítico, para mais literário, quando alcandorado às aras do poder,
quase absoluto – Yao Wenyuan, o purificador cultural, o mentor radical, o
impetuoso retificador dos vícios da sociedade, o idealista de um novo mundo,
enfim, que mais dizer senão um simples crítico?