Perante a minha
surpresa com a velocidade do pôr-do-sol em Salvador da Bahia, um verdadeiro
ocaso em fast-forward, uma amiga nativa dizia-me que ali o sol não se punha.
Suicidava-se.
Anda lá perto a
sensação que dá o entardecer na passagem à hora de Inverno: o dia que se vai
num repente, um tombo do astro a que falta, hélas, o mesmo astral.
Para consolar os
espíritos, saia entãoLe
Soir, de Mel Bonis.
Compositora formidável
de fim de século, não só compôs a rodos como conseguiu que lhe publicassem as
partituras -- feito propriamente extraordinário quando não eram assinadas por
um homem. Quase tão extraordinário como o melodrama da história desta mulher,
que bem podia ter inspirado Os Maias do Eça. Casada com um
homem 50 anos mais velho, apaixona-se por alguém da sua idade, com quem terá um
filho que manterá secreto durante 25 anos. É esse jovem que, convidado para uma
soirée-concerto na casa da mãe, cuja identidade, porém, ele desconhecia, calha
apaixonar-se pela filha “legítima” de Mel – sua meia-irmã. Outro amor
recíproco, portentoso e agora catastrófico de impossível, que deixou toda a
gente de rastos com o desgosto.
Mas ide em paz enquanto
há castanhas, bom Inverno e boa sorte.
Disse
quem compôs o tema “tum, tum, ta, ta tum-tum”, em cima
das iniciais “MI” batidas em código Morse, que era música para pessoas com 5
pernas. Coisa impossível, parece, mas a que não falta ação e ainda mais
resolução. Não admira que haja um sem fim de versões
para despertador, com contagem decrescente de amplitude variável
consoante a envergadura e dificuldade da missão, e versões
épicas para missões que pedem mais fôlego e alguma pompa.
E o impossível acontece.
Não
é só nos filmes, note-se. O amigo violinista para quem J. Brahms compôs este
concerto para violino decretou, sem apelo nem agravo, que a
partitura era intocável, inexequível, missão propriamente impossível.
Ora.
Desde então houve um ror de gente a tocá-la, inclusive o próprio dedicatário.
Mas lá que é difícil… Ai. Ui. A ponto de se dizer que não é um concerto para violino,
antes contra o dito. Contra o violino, contra a orquestra,
contra o maestro ou maestra ou maestrina.
Só
que toda a arte deste concerto quase sem conserto, entre a ameaça e a
deflagração, é o arco físico, metafísico, patafísico que dá coerência à batalha
que é para tirar o coelho daquela cartola. É ver aqui
ao vivo, a partir do minuto 35, uma demonstração por A+B do
músculo Allegro giocoso, ma non troppo vivace com que se casam
aquelas três partes, para se perceber perfeitamente do que estou a falar.
A que soa um fim de tarde no Verão indiano, o de S. Martinho,
num jardim com amigos, folhas a mudar de cor e o brilho do sol mais perto dos
pés nus? Para Mozart, em visita de Outono a um amigo botânico, soava assim a
atmosfera em que compôs este Trio, também conhecido por Kegelstatt ou
Trio das Quilhas.
Agora,
mais precisamente no dia de hoje, é a vez do estendal.
Uma
das principais cenas que Jean Cocteau quis filmar nesse filme de culto que
é La Belle et La Bête foi a “cena dos lençóis no estendal”,
cena essa que era, para ele, uma obsessão.
Antes
de mais mobilizou tudo e todos e mandou a equipa em expedição em demanda dos
lençóis mais-que-perfeitos para estender no mais-que-perfeito estendal. O
diário de filmagem do realizador mostra-o constantemente inquieto e
meticulosamente preocupado com a localização do conjunto, a disposição, a
orientação do estendal. Mais: com cada fio do estendal, cada centímetro do fio
do estendal, cada centímetro quadrado de cada lençol no estendal.
Um
extrato do diário dá conta do feitiço que o tomou: “Tenho de tratar de tudo,
pendurar a roupa, amarrar os mastros (…), construir as ruelas de lençóis e
preencher os espaços a descoberto. É difícil imaginar o que é tentar alugar
doze lençóis suplementares em 1945… Eu só tinha seis. As ruelas e os
bastidores foram sendo construídos à medida que se ia avançando, o que me
impedia de ter à partida uma visão de conjunto. Mas na verdade até prefiro
assim. Se tivesse de descrever esse labirinto de lençóis, havia de arranjar
maneira de o leitor se perder nele”
Pode haver muito de diabolicamente absurdo na língua francesa. Na
ortografia, então, nem se fala. Por acaso já falava Voltaire, que lhe
ridicularizava as incongruências, e fala esta hilariante
e inteligente Ted Talk em torno da
obsessão ortográfica (vem com legendas, para quem ainda pesca algo de francês).
O barrete pode ser enfiado em várias línguas e prometo comer o meu chapéu se
almas obcecadas como a minha não se rirem. Chapeau!
Mas uma das qualidades dessa língua é ter imensas palavras para
rimar com Outono -- ou Automne. Ouça-se aqui no Black
Trombone cantado por Terez
Montacalm, ou no original de Serge
Gainsbourg.
Já em português é uma tristeza na presente saison. Tirando-me o
sono, só me ocorreu "môno". Não conformada, fui procurar num
dicionário de rimas na internet, contando que sairia dali uma resma delas, uma
palete de palavras à altura da paleta de cores das folhas da estação. Qual quê.
Uma pobreza pobrezinha de paupérrima.
Não dei o meu tempo por perdido, porém. No top 10 das palavras
mais procuradas figurava esta, que compensa o esforço em apoteose, sendo em si
mesma um fogo de artifício: "labaxúria".
De cada vez que é usada
a expressão francesa rentrée em época de regresso às aulas,
devia arranjar-se maneira de saltar logo para uma outra, infinitamente mais
útil e, sobretudo, encantadora: Le chemin des écoliers.
E que tem de especial
“o caminho da escola”? É que não é bem-bem o caminho para a
escola, mas o caminho, ou caminhos, que a pequenada toma até lá chegar sempre
que pode. Não o caminho mais direto nem o pré-determinado, mas aquele que se faz
caminhando, desdobrado em múltiplos atalhos e desvios, ora encurtando o troço
mais feio e sensaborão, ora enveredando pelo percurso mais longo e aventuroso,
explorando as belezas das redondezas nas voltas e contravoltas -- e na
brincadeira com colegas, é claro.
Não é, pois, um
arrastar de pés cabisbaixo a retardar a chegada, uma procrastinação triste e
resignada do encontro com o destino. Tomar o caminho mais longo, le
chemin des écoliers, é uma flânerie viva e tónica, cheia de
propósito.
Não é de admirar que na
canção O Testamento,
George Brassens quisesse “partir para o outro mundo pelo chemin
des écoliers".
Se me pedissem para
escolher de repente, assim à queima-roupa, a encarnação de tudo isso em música
(“de repente”, porque se me ponho a matutar a coisa complica-se) seria a de
Carl Philipp Emanuel Bach -- filho do outro grande Bach. Carlos Filipe Emanuel,
filho de João Sebastião.
E escolhia, agora a
dedo e muito espiolhadas, interpretações audaciosas, imaginativas, arejadas,
ardentes, dessa música cheia de vida. Que não se limitam a executá-la como
esperado e a tocam como se fosse ao mesmo tempo a primeira e a última vez.
Ficam aqui 5 minutos da primeira, da orquestra Pulcinella, de
Ophélie Gaillard. Creio ser sobre ela que ouvi a um crítico, já meio enfadado
após ouvir de enfiada uma mão-cheia de outras interpretações mais quadradas ou
cinzentas, a seguinte tirada, irresistível de rabugice bem-humorada:
“Não há direito! Faltar a este ponto
ao respeito a um grande compositor, filho de outro grande compositor. Devia ser
proibido. Sempre a fervilhar de ideias, de alacridade, de chama, de brilho, de
cor… Mas quem lhes pediu tal coisa? É ultrajante. Ainda por cima têm o topete
de tocar bem. Se tocassem mal, ainda vá, ficava tudo mais sossegado. Assim não
dá. Em suma: genial. O respeito é para os cemitérios. Isto vive, vibra!”
O mesmo se poderia
dizer desta (mon
coeur balance) e desta. E para
não se pensar que cheia de vida é sinónimo de contentete e alegrete, eis
este largo.
Nota: este texto foi
redigido de acordo com… novas preocupações, éticas e estéticas. Na minha
rentrée, vou propor a estudantes que descubram o preceito escondido, o discutam
com calor e arejamento, e redijam um parágrafo segundo o mesmo preceito, sobre
assunto à escolha.
Uma brisa basta. No último dia de máscaras na rua, uma toada de despedida.
Sem saudades, só esperança numa aterragem tão auspiciosa como a que parece
aguardar os bonequinhos parapentistas da foto em baixo. O que virá depois não
há de ser um furacão.
Nunca ouvi o vento desta maneira em “Soave sia il vento”, em Così
Fan Tutte, de Mozart. Nesta interpretação, datada de 2020, ano de pandemia e de sufoco alucinado, o que se ouve no
primeiro ato já nem parece um trio de vozes. Antes um quarteto -- e a brisa, o
sopro das cordas, o elemento central.
É comparar: quem ansiar menos por uma vibração do ar assim, tamanha, a
insuflar-nos por dentro até nos criar asas próprias, e preferir algo mais
estelar, pode ficar com proveito a cintilar com estetrio de estrelas.
Ao contrário do que se imagina, há burocratas com sentido de
humor. Talvez por ter sido alimentado com um sentido de auto-derrisão tão comum
entre belgas como a batata frita e o mexilhão, certo membro de uma estrutura
administrativa gestora da qualidade, interpelado ao telefone por uma académica
bruxelense minha conhecida, indignada com a enésima massacrante exigência
burocrática que emanava dali, reagiu com desarmante franqueza à sugestão desta
para que lesse o já famoso Bullshit Jobs (trabalhos
da treta), do antropólogo David Harvey: “Bem… Aqui já todos o lemos…”.
E citou, por seu turno, mais duas ou três obras na mesma linha,
em que afinal ele e colegas admitiam reconhecer-se, tim-tim por tim-tim -- ou
Tintin, sendo ele belga. Após um breve silêncio, desataram ambos a rir ao
telefone, unidos no reconhecimento cúmplice de tanto absurdo burocrático, da
tácita comédia de enganos que todos sabem desprovida de sentido, ou de real
propósito útil.
É certo que o sentido de humor pode ser involuntário, como o de
uma estrutura congénere de uma respeitável instituição de ensino superior,
desta feita portuguesa, que de tão embalada na volúpia burocrática, de tão alheada
na sua bolha, nem percebeu o gáudio generalizado aí gerado pela circular que
divulgou, intitulada: “Documento de Procedimentos para Obtenção de Feedback
Sobre o Feedback nos Processos de Avaliação do Ensino”. Porventura melindrada
pelo efeito cómico, que continuou sem compreender, acabaria por não chegar a
produzir o documento que já toda a gente antevia seguir-se, destinado a obter o
Feedback Sobre o Feedback Sobre o Feedback, em loop perpétuo.
Agora que a rentrée se aproxima em condições de alguma
normalidade no rescaldo da pandemia, que o apetite burocrático desperta e,
quiçá, asMãos
Doemjá em tanto formigueiro, é de ficar com a Sonatine
Bureaucratique, de Eric Satie, a
quem voto um respeito terno. Mais ainda depois de saber que o seu apartamento
continha um sem-número de guarda-chuvas e dois pianos de cauda, um sobre o
outro, e que usava o de cima para guardar cartas e encomendas. Não é de admirar
que deixasse partituras em sítios estranhos e variados, para além de
extraviá-las em bolsos de fatos de veludo.
O absurdo de Satie é um deleite não vampírico, que não suga o
tempo, a energia, a força anímica de ninguém. O que não significa que não
soubesse moer quem merece ser moído, como no prefácio a Sports &
Divertissements: o Coral Desagradável,
que Satie disse ter escrito “para criaturas ressequidas e estupidificadas, uma
espécie de preâmbulo azedo, uma introdução austera e não frívola. Pus nele –
diz Satie -- tudo o que conheço sobre Aborrecimento. Dedico este Coral a quem
não gosta de mim. Retiro-me”.
Ver algures
lembrado o dia de hoje, 17 de junho, como o dia do nascimento de Igor
Stravinsky (1882-1971), acordou de imediato na memória remota uma Sagração
da Primavera que me fizera há uns anos rumar a sul, ao Coliseu, para vê-la
conduzida por Esa-Pekka Salonen.
Mas o que
tornou esta Sagração memorável, além da batuta de Salonen, foi a
performance primaverildas cabeças dos dois adolescentes que me
acompanhavam. Metal, impecavelmente heavy. Um fenomenal head-banging
que Nijinsky não teria hesitado roubar na hora para coreografar uma versão
contemporânea do número da “Dança dos Adolescentes”.
A energia, a
precisão, a amplitude do movimento desenhado por aquela trunfa e aquele
cabelame, em perfeita sincronia e sem falhar um único tempo forte das
percussões, deixou-me pasmada, verde de inveja. A mim e, suspeito, ao entorno
da plateia. Aquilo era contagiante, mas não estava ao nosso alcance.
Seriam precisas umas dezenas de audições para acertar daquela maneira no tempo.
A mística ficou, indelével.
Agora os Melodica Men, grandes
mestres saídos da Juilliard School (juro), dão uma ajuda com os instrumentos de
percussão que introduziram. E dá para ficar com uma vaga ideia do que se passou
no Coliseu.
Olhando ao
escândalo que foi a estreia de uma das obras mais revolucionárias do século 20,
Stravinsky não se vai aborrecer com esta prenda de aniversário.
Há greves
que atrasam regressos, outras que os aceleram. One man’s trash is another
man’s treasure – como é sempre bom ouvir em estrangeiro na Feira da Ladra.
A atrasada é
esta cliente, assunto de greve de comboios, que, esses, não perdem pela demora.
Hão de cá vir não tarda.
Agora é a
vez de outra greve, que pôs fim a uma paralisação e desencadeou um regresso.
Uma greve, um protesto sindical que é todo ele um tesouro: a graça, a
inteligência, o acerto, o espírito, a finura – a classe. Além disso, tudo a
expensas do patrão.
O patrão era
o príncipe Esterhazy e os trabalhadores, os músicos ao seu serviço. Como todos
os anos, acompanhavam-no no retiro estival para o palácio de Verão a fim de
continuarem a entreter a aristocracia. Acontece que, dessa vez, o Verão do
príncipe teimava em eternizar-se. Era novembro e não despencava dali. A estadia
durava, durava, e os pobres músicos, impedidos de regressar a casa, agonizavam
de saudades.
J. Haydn, ao
contrário dos músicos, tinha sido autorizado a levar a família. Grande como
era, percebeu a injustiça e o abuso, e, em vez de se armar em capataz, fez de
delegado sindical. Vai daí, compõe essa estranha pérola que é a "Sinfonia
do Adeus", partitura encomendada e paga pelo príncipe – lá está.
A apoteose
em anti-clímax pode ser vista nesta interpretação do último andamento da Sinfonia
pela orquestra filarmónica de Viena, dirigida por Daniel Barenboim perante uma
plateia perplexa que só a partir de dada altura começa a perceber o que se está
a passar. É ver tudo para saborear a exímia debandada orquestrada por Haydn,
naipe após naipe, como não quer a coisa. Quem tem pressa – horror! – pode
arrancar ao minuto 4 e picos.
Quanto ao
príncipe, que não era burro nenhum, enfiou de imediato a carapuça e deixou
partir os músicos na manhã seguinte.
Antes de o sabermos de
saber-ensinado, já o sabemos de saber-sentido, intuído na voz de Dietrich
Fischer-Dieskau a cantar “Mache dich, mein Herze, rein", da Paixão Segundo S. Mateus, de J. S. Bach.
Não é num sepulcro de
pedra que Jesus vai dormir para sempre nesta ária do enterro. É no coração de
um ser humano. É num coração humano que vai descansar e encontrar repouso. É
cantada, por isso, como uma canção de embalar. Não sei se mais alguém a terá
cantado assim, com tanta serenidade e doçura.
Aqui numa gravação de
1959 com a Munich Bach Orchestra, dirigida por Karl Richter
São seis, as consolações
de Franz Liszt. Em regime de racionamento, o pacote S. 172 dá para a semana
inteira, administrado à razão de uma consolação por dia. É só fazer as
contas.
Não é engano. Ao terceiro
dia o pacote estica com dose dupla da mais famosa de todas, para mais em
andamento lento plácido. Um consolo.
O bem é distribuído pelas
aldeias, no caso diferentes pianistas, para não descambar em açambarcamentos.
Hoje, mas só porque é
hoje, começa-se pela primeira.
Dois tangos por elas, a fazerem-no delas. E a graça que é
terem escolhido um deles para comemorar a conquista do direito de voto pelas
mulheres. Libertango,
de A, Piazzola, e Tango
Pour Claude, de Richard Galliano.