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sábado, 20 de julho de 2019

O Soldado Desconhecido.

 
 
 
Designam-se por Túmulo do Soldado Desconhecido os monumentos erigidos pelas nações para honrar os soldados que morreram em tempo de guerra sem que os seus corpos tenham sido identificados. Por vezes é um túmulo simbólico, ou cenotáfio, evocando todos os habitantes de um país que morreram em determinado conflito sem identidade conhecida, embora alguns contenham os restos mortais de soldados falecidos durante esses acontecimentos.
 
 
Frederícia, Dinamarca
 
 
O primeiro memorial conhecido foi o monumento ao Landsoldaten (Soldado de Infantaria) (1849), da Primeira Guerra de Schleswig, em Frederícia, na Dinamarca. Outro memorial antigo, deste tipo, é o Memorial ao Morto Desconhecido da Guerra Civil dos Estados Unidos, que data de 1866.
 
 
Abadia de Westminster
 

Paris, Arco do Triunfo
 
 
 
A tradição moderna desta prática foi iniciada no Reino Unido quando, terminada a Primeira Guerra Mundial, o governo decidiu criar um monumento funerário um combatente desconhecido, em homenagem a todos os soldados do exército do Império britânico, na Abadia de Westminster em 1920, o qual levou muitas outras nações a seguir o exemplo. Um dos túmulos mais famosos é o que está sob o Arco do Triunfo de Paris, que foi instalado em 1921 para honrar os mortos por identificar da Primeira Guerra Mundial.
 
Mosteiro da Batalha
 
Em Portugal, o túmulo do soldado desconhecido está no Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha.
Reza o comunicado oficial: «No dia 9 de Abril de 1921 foram conduzidos para o Mosteiro da Batalha, Templo da Pátria, os dois Soldados Desconhecidos, vindos da Flandres e da África Portuguesa representando os gloriosos mortos das expedições enviadas aos referidos teatros de operações e simbolizando o sacrifício heróico do Povo Português.».
De facto, desde o final do século XIX que o Mosteiro da Batalha permite uma leitura histórica de referência nacionalista e celebrativa que justificou ter sido o local escolhido para fiel guardião do Soldado Desconhecido, tornando-se cenário de patrióticas visitas.
Sepultado sob a arrojada abóbada da Casa do Capítulo e alumiado pela «Chama da Pátria» do Lampadário Monumental, da autoria de Lourenço Chaves de Almeida, o seu túmulo tem Guarda de Honra e a proteção do mutilado «Cristo das Trincheiras» que no território de Neuve-Chapelle, na Flandres foi companheiro constante das tropas portuguesas. 
 
 
Mário Cordeiro
 
 
 

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Mandume.

 
 
 
 
Mandume Ya Ndemufayo
O último soba do povo Cuanhama
 
O povo cuanhama habitava a região correspondente à parte sul de Angola (Ovambo), que faz fronteira atualmente com a Namíbia. Apesar do clima ser semi-árido e não favorecer a agricultura, as terras agrícolas, trabalhadas pelas mulheres cuanhamas, atingiam uma dimensão considerável. Devido aos constrangimentos climáticos, os cuanhamas eram forçados a constantes transumâncias, ora na busca de pastos, ora na busca de água – um elemento raro no espaço geográfico do Ovambo.
Entre os cuanhamas havia bons metalúrgicos, possuidores de técnica apurada para a obtenção do metal líquido, e era-lhes reconhecida a grande paixão pela cor vermelha e por ritmos fortes, normalmente emitidos por agigantados tambores cilíndricos com tímpanos de pele.
Revelavam uma inata vocação poética, possuindo no seu cancioneiro centenas de poemas, a maioria dedicados aos bois.
Os cuanhamas usavam como armas tradicionais o arco e flechas, o porrinho e a lança de arremesso equipada com caudas. Eram bons caçadores e destros cavaleiros, o que os tornava proprietários de muitos cavalos, constituindo esse facto motivo de grande prestígio e de vantagem estratégica em combate.
 

Mandume
O último chefe (soba) do povo cuanhama (ou kuanyama) foi Mandume ya Ndemufayo. Nasceu em 1884 e morreu em 1917, tendo reinado de 1911 até à sua morte. Num ponto, o povo cuanhama e a História são unânimes: era um homem cruel, mas muito inteligente e politicamente hábil: um déspota feroz, sagaz, mas corajoso.
O soba Mandume era letrado e, abstraindo a suas atitudes bárbaras, tolerava as missões protestantes alemãs, que o instruíram na língua, na escrita e na religião. Dizia ele, ao que consta, que «todos os brancos que estivessem dentro do seu território deviam ser mortos, à exceção dos padres», e a comprová-lo mandou matar um português, a mulher e os amigos que o acompanhavam. Para justificar a diferenciação que fazia entre as missões, católicas e protestantes, inimigas as primeiras, amigas as segundas, referia o facto de os católicos «só se dedicarem à catequese e se meterem em negócios de gado», enquanto os luteranos primavam por «elevar o nível social e intelectual das massas».
O seu fim, trágico define o homem que era: valente, ousado, arrogante e aventureiro. Abandonando N'Giva, sede do reino, depois da última batalha da Môngua com os portugueses, em Agosto de 1915, fugiu para Lhole, na fronteira com o Sudoeste, e prestou vassalagem à Coroa Britânica.
Impaciente, de espírito ardente e guerreiro, desenvolveu uma enorme atividade nos domínios já abrangidos pelos portugueses, incitando à revolta contra os brancos e intimando-os a passarem para o sudoeste com suas manadas. Eufórico, foi além dos limites da prudência e exerceu uma ação de combate em território inglês.
No ano seguinte, dirigiu investidas ao Cuanhama, tentando reconquistar o seu reino. Foi então que as autoridades portuguesas de Namakunde decidiram pedir aos ingleses que terminassem com as atividades de Mandume. A 30 de Outubro de 1916, o soba aniquilou uma força portuguesa, comandada pelo tenente Raul de Andrade, habilmente atraída a uma cilada.
Convocado pelos ingleses para uma conferência de paz em Windhoeck, no atual território namibiano, recusou-se a ir, argumentando: «os ingleses que venham ao Lhole, se quiserem», e preparando-se para os receber, sabendo de antemão que apressava o seu fim, declarou: «se os ingleses me querem, podem vir apanhar-me. Não dispararei o primeiro tiro, mas não sou um touro do mato. Sou um ser humano. E como também não sou uma mulher, combaterei até ao último cartucho».
 
 
 
 
 
 
Assim terá morrido, embora outras versões relatem o suicídio do soba, perante a ameaça das tropas portuguesas, ou o ter sido abatido a tiro por estas, sendo depois decapitado e a sua cabeça exibida «durante anos» pelas autoridades lusas. Desconhecendo-se os pormenores históricos e qual a versão que corresponde à verdade, mas deverá ficar para a memória coletiva esta personagem, bem relatada num poema épico laudatório escrito em sua honra pelo Padre Carlos Estermann, e que consta da sua obra Etnografia do Sudoeste de Angola, editada em 1960.
 
Mário Cordeiro




quarta-feira, 16 de março de 2016

As árvores morrem de pé...

 
 
Há um ano
 
Actualmente...
 






As árvores morrem de pé… a não ser quando o homem intervém.
 
Na Antiga Grécia, os metecos eram estrangeiros, sem direito a participar nas decisões políticas mas com muitos deveres e poucos direitos. Ontem senti-me assim no bairro onde vivo…
 
Há cerca de dois anos, na revista ZINE, do Agrupamento Dona Filipa de Lencastre, em Lisboa, no Bairro de São João de Deus, podia ler-se: «As árvores da Guerra Junqueiro foram pensadas para as suas folhas caírem tarde (Novembro) e aparecerem cedo (Fevereiro), estando agora na sua maior pujança, o que dá à rua uma enorme frescura… e às vezes é bem fresco, quando a nortada resolve invadir Lisboa e a rua, orientada no sentido noroeste-sueste, serve de “tubo de escape” da ventania».
Consultando sítios de agências imobiliárias, quando se procura um apartamento neste bairro – Praça de Londres, Guerra Junqueiro, Av. Paris, Alameda, etc – é quase sempre realçado o «aspecto verdejante» do local, aprazível por ser das raras zonas da cidade em que os edifícios e os envolventes, designadamente os passeios largos com canteiros grandes e o enorme arvoredo, se assemelham ao que há de melhor nas capitais europeias onde a qualidade de vida dos habitantes, trabalhadores, comerciantes e transeuntes em geral é levada a sério.
Há um ano, de repente, na sequência de um ramo que, durante uma tempestade, caiu em cima de um carro topo de gama, chegou uma empresa que, rapidamente, «fez o diagnóstico». Passados escassos dias, ao que dizem a mesma empresa, interveio na «terapêutica», que foi cortar, cortar e cortar… até os protestos populares fazerem o presidente da Junta vir ao local e constatar, ao Jornal Público, «que se tinham esticado um bocado». Prometeu muitas árvores para Setembro… provavelmente na China, porque aqui não foi.
O verão foi quente e o comércio ressentiu-se. As casas ficaram muito mais abafadas. As árvores, coitadas, resistiram e agora, em Fevereiro, começaram a deitar novos ramos, flexíveis, finos, que não se quebrarão com o vento mas que estão repletos de folhas verdes e já dão alguma sombra. A saúde mental de quem por aqui vive ou passa também se ressentiu.
Ontem, contudo, eis que avançam as máquinas e a razia é total. Não sobra nada. Em vez das árvores antigas colocam-se umas «pauzinhos» de dois metros de altura, sem rebentos e que, coitados, com a poluição automóvel e de gases pesados duvido que consigam crescer nas próximas décadas. Assim se destrói o património verde – a Junta sabe, a Junta é eleita, a Junta decide… mas por acaso houve muitos pareceres contra, desde engenheiros do ambiente e paisagistas, a agrónomos e botânicos que consideraram não ser necessário tanto «esticanço». As fotografias atestam.
Anteontem, ao rever com um dos meus filhos, que está no 7º ano, a matéria para o teste de História, que versava sobre a Grécia Antiga, senti-me um perfeito meteco, ou seja, um «indivíduo livre mas estrangeiro, que tinha muitos deveres mas poucos direitos, designadamente o de intervir politicamente e de colaborar nas decisões públicas».
A Junta quis, pôde e mandou. Ouvindo e havendo tantas opiniões diferentes, talvez uma consulta pública e um período de discussão não tivessem sido disparate, pelo menos num horário e em formas alargadas, e não apenas numa tardezinha, em meia hora impossível, na sede da Junta. O Fórum Cidadania Lisboa bem tentou debater o assunto mas de nada serviu.
Assim vai a política autárquica, que nada tem a ver com a Câmara Municipal de Lisboa, mas com o facto de se terem transferido pelouros a mais para a competência das Juntas.
Sinto-me meteco no bairro onde moro, trabalho, faço compras, descanso e passeio. Felizmente tenho esta tribuna, coisas que os metecos não tinham… mas a Guerra Junqueiro e a Praça de Londres ficarão despidas do seu verde… os agentes imobiliários vão ter de inventar outro slogan… e o meu cão está triste, nos seus passeios, que ficarão infinitamente mais pobres.
 
Mário Cordeiro
 
(publicado no jornal i, de 15-III-2016; aqui republicado com autorização de Mário Cordeiro: obrigado, Mário, um abraço!)


terça-feira, 29 de setembro de 2015

Manuais escolares, perplexidades ingénuas de um pai.

 
 

Manuais escolares elaborados por autores conceituados, pagos pelo Estado, que durem para vários anos, produzidos e distribuídos pela Imprensa Nacional/Casa da Moeda. Custarão menos de metade. E, já agora, que se possam reutilizar de ano para ano.  
 
Chega a esta altura do ano e repete-se a cena. As aulas começam e os alunos trazem as inevitáveis listinhas dos manuais, cadernos de exercícios e livros de leitura recomendados, para lá da panóplia de materiais escolares.

 
        Por outro lado, há ainda alguns professores exigentes, que marcam faltas de material se, na segunda semana de aulas, os alunos não trouxerem tudo o que lhes foi recomendado, ou rejeitando o livro do ano anterior porque a página 20 passou a ser a 24.

 
Pondo de parte o transferidor e a régua, gostava de vos transmitir algumas das minhas “ansiedades” quanto aos manuais escolares. Tenho três filhos no 3º ciclo e, nesta época do ano fiquei mais uma vez perplexo e, devo dizer, irritado e sentindo-me, passe a expressão coloquial, “embarretado”.

 
Ao encomendar os livros, deparei-me com várias questões, que passo a expor, quanto mais não seja para partilhar as minhas “angústias”.

 
Para dar um exemplo: fazendo as contas, os manuais e respectivos apêndices, para o 7º ano, incluindo uma língua estrangeira para lá do inglês, ficam (com desconto de utilizador frequente) pela módica quantia de 396€. Trezentos e noventa e seis euros. Se considerarmos que frequentam o 7º ano cerca de 123.000 alunos, temos um total de 48 milhões de euros. Só para o 7º ano! E há doze anos de escolaridade obrigatória! Os leitores façam as contas e vejam o resultado.

 
Se decidirem editar um livro a cores, em formato A4, e com o mesmo número de páginas, com capa plastificada, brilhante a cores, terão de desembolsar apenas metade já incluindo o IVA. Todavia, se a Imprensa Nacional/Casa da Moeda, que é a “tipografia” oficial do Estado português, fizer essa edição, como o faz para o Boletim de Saúde Infantil e Juvenil, o Diário da República, os Livros de Reclamações que existem em todos os estabelecimentos ou até o Livro de Registos de Lições de Teoria de Condução, o custo será muitíssimo menor e sem IVA, estando a priori assegurada a sua distribuição através do Ministério da Educação.

 
Posto isto, assalta-me a questão: uma medida tão simples será absurda?

 
E agora umas perguntinhas: qual a razão por que o Ministério, que (creio…) é o responsável pelas linhas gerais da política educativa, não cria um grupo de trabalho para cada disciplina (e que os profissionais que o integrem sejam bem pagos) e esses peritos são encarregues de elaborar manuais para os estudantes de todo o país? O ensino será assim tão diferente para um aluno de Braga relativamente a um de Faro, Famalicão ou Leiria? A matemática muda de norte para sul? Ou a história de Portugal?

 
Por outro lado, ao querer aproveitar os livros do meu filho que está no 8º ano para um dos que está no 7º, deparei-me com o facto de ser muito difícil apagar o que ficou do ano passado, mesmo escrito a lápis. Ah! E ao pretender comprar apenas o caderno de actividades (que é o que está inutilizado), constatei que a editora só vende em bloco as duas coisas: manual e caderno. Depois, pequenas mudanças de paginação inutilizam, pelo menos para alguns “s’tores”, o uso do manual do ano anterior. Mais: os manuais mudam conforme o vento e este ano até pode ser outro.

 
Resumindo, leitores. Porque não manuais de um grupo conceituado de autores, pagos pelo Estado, que durem para vários anos (D. Afonso Henriques deixa de ser o primeiro rei de Portugal ou a capital de França vai ser Nice, para o ano que vem? Arquimedes já não dirá “Eureka” quando olhar para o sabonete da banheira?) e produzidos e distribuídos pela Imprensa Nacional/Casa da Moeda.

 
Aqui estão algumas das minhas perplexidades. Este ano foram cerca de 1.200€ só em manuais… eu posso, mas há muitos que não podem. E mesmo podendo irrita-me ser explorado, encostado à parede e esmifrado por pessoas gananciosas, com o apadrinhamento do governo do meu país, dentro do quadro de uma escolaridade que é obrigatória e um dos maiores investimentos que se pode fazer para avanços civilizacionais.
 
Mário Cordeiro
Pediatra
 
(publicado no jornal «i», reproduzido no Malomil com autorização:
obrigado, Mário!)
 
 

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Os cinemas do Bairro.

 

 

 
Os optimistas podem dizer que hoje há um cinema em cada casa (ou mais do que um, se contarmos com os vários aparelhos de televisão e com os computadores e tablets). Em cada casa ou em cada mão. Os pessimistas recordarão que «ir ao cinema» não é o mesmo que ver um filme. É mais. E é mais do que pipocas ou gomas, do que aproveitar uma ida ao supermercado, a uma loja de roupas de criança ou comprar um acessório para o computador ou para o telemóvel. É… «ir ao cinema», um conceito que se vai perdendo, mas que fique claro não se tratar de um juízo de valor, mas tão-somente de uma constatação. Um ritual, que implicava horários, disposição, um conjunto de gostos e obrigações que eram saborosas. Claro que se ficava furioso quando se chegava atrasado ou a lotação estava esgotada… ou mesmo quando só havia bilhetes na primeira fila e os primeiros cinco minutos a olhar para o ecrã eram piores do que estar às voltas numa nave espacial.
Os tempos mudam e as actividades também. Mais, muda a gestão dessas mesmas actividades. Vai-se ao cinema um pouco a correr, porventura como se fazem as festas das crianças num local programado e com uma duração de duas horas mal contadas.
Todavia, sendo o cinema uma das Artes que mais influenciou o mundo – seja no ecrã de um cinema, seja no de uma televisão ou computador  –, vale a pena relembrar os três cinemas que faziam parte: o Roma, o Star e o Londres. Hoje todos desapareceram. O Roma tornou-se na sede da Assembleia Municipal de Lisboa. O Star deu origem à C&A e, actualmente, à VIVA. O Londres está fechado, aguardando a decisão de ser ou não transformado numa «loja do chinês».
Começando pelo Roma, ficava no nº 14 da Avenida de Roma, perto da piscina municipal, e é conhecido agora como Fórum Lisboa, sendo também sede da Videoteca Municipal. O auditório funciona, agora, para projecção de filmes, quando inseridos em festivais, conferências, seminários e para concertos de música. A sala abriu portas em 1957. Tinha uma capacidade de 1.107 lugares, sendo um dos cinemas gigantes dos anos 50. Foi concebido com base nas novas ideias de grandiosidade da arquitectura típica do Estado Novo. Em Setembro de 1963, para promover o filme Summer Holiday / Mocidade em Férias, com Cliff Richard e os Shadows, a gerência do cinema resolveu por bem organizar um concurso de bandas a que deu o curioso título Conjuntos Portugueses do tipo "The Shadows". Inscreveram-se 22 conjuntos e o vencedor foi o Conjunto Mistério com Fernando Concha. O cinema encerrou em 1988 e durante algum tempo foi utilizado como armazém até ser comprado pela Câmara Municipal
O Star ficava na Av. Guerra Junqueiro e abriu ao público em meados dos anos 70, sendo depois uma loja de roupa (primeiro a Marks & Spencer e depois a C&A). Ficou famoso por ser mais largo do que comprido, por ter cadeiras enormes e super-confortáveis, onde se podia dormir uma boa soneca e por ter passado, semanas a fio, um filme de Claude Lelouch, Les Uns et Les Autres.
O Londres foi o último a terminar, no ano passado. Curiosamente, nasceu a partir de uma discoteca chamada Tropical, em 1969, e situava-se na Av. de Roma, entre a Praça de Londres e a Av. João XXI. O grupo português Os Sheiks, que marcaram uma geração, tocaram pela última vez ao vivo nessa discoteca, no dia 28 de Outubro de 1967; nela existia também uma pista de automóveis denominada Bólide.
Quando foi inaugurado, em 1972, com o filme Morrer de Amar, de André Cayatte, o Londres tinha uma só sala, com cadeiras que desciam quando a pessoa se sentava e eram muito confortáveis. A capacidade era de 460 espectadores e o espaço pensado para três funções: ver cinema, jantar no snack-bar e conversar no Pub The Flag, que ficava ao lado, anexo ao cinema. A programação era excelente, variada e cobrindo os vários filmes dos diversos países. Talvez por isso tenha resistido mais tempo, mesmo que dividido em duas salas mais pequenas, para rentabilizar o espaço, dada a redução de espectadores. O Café Magnólia explorou a parte de restauração até ao final.
Lisboa perdeu praticamente todos os cinemas – o que existem, sim, são múltiplas salas onde se projectam filmes, dentro de centros comerciais. Curiosamente, isto não acontece em Madrid, Paris, Roma ou Londres… é um fenómeno quase exclusivo português.
Será que, ao perdermos a mística e a magia de «ir ao cinema» não estaremos a dar um passo no caminho da banalização de tudo, da perda de rituais e do «ter tudo na hora, à distância de um click»? Fica a dúvida, se, ao perdermos estes cinemas – como tantas outras coisas – estaremos a evoluir ou involuir em termos civilizacionais.
 
Mário Cordeiro
 
 

segunda-feira, 23 de março de 2015

Estado de Direito.





 
Não existe o crime de pedofilia. Quem o referir, seja jornalista, magistrado, ministro ou cidadão comum, estará a falar de uma coisa inexistente.

....Ser-se pedófilo é ter como objecto de desejo sexual, as crianças. É uma parafilia, ou seja, um desvio do que se entende por sexualidade “normal”. Todavia, a maioria dos pedófilos, mesmo que comprem um apartamento com vista para uma escola e se excitem ao ver crianças, não interagem com estas nem lhes fazem, mal. Mais: sofrem porque não podendo concretizar as suas pulsões sexuais, por considerarem que eticamente não o podem fazer – ao contrário de quem tem desejo por adultos e até mesmo de fetichistas e sado-masoquistas –, nunca concretizam o seu desejo sexual. Muitos pedófilos procuram ajuda junto de psiquiatras e nunca fizeram mal a uma mosca.

....Outra coisa, que, sim, é crime, é o abuso sexual de crianças, ou como se diz na lei: crimes contra a liberdade e a auto-determinação sexual das crianças e adolescentes. Esses crimes, que vão da pornografia infantil ao abuso e contacto sexual, podem ser cometidos por pedófilos ou por adultos que, mesmo não sendo pedófilos, usam crianças porque estas são presas fáceis, calam-se e, ao confundirem mimo e afecto com a sedução, deixam-se conquistar.

....Qualquer crime tem uma moldura penal definida no Código Penal, e cada crime tem uma taxa de reincidência, seja o tráfico de droga, o homicídio, a violência doméstica, o abuso sexual ou a fuga aos impostos ou à Segurança Social. Para cada crime há uma moldura penal e que, com atenuantes ou agravantes, é estabelecida.

....Num Estado de Direito, uma vez cumprida a pena estabelecida pelo tribunal, o condenado e ex-prisioneiro deve ser considerado uma pessoa livre, havendo algumas inibições estabelecidas pelos códigos diversos (um banqueiro corrupto não pode trabalhar na banca, etc), e se se pressupõe uma taxa de reincidência deve ser feito um percurso terapêutico durante o cumprimento de pena e depois dela.

....Sendo as crianças um tema “epidérmico” (e tantas vezes usado abusivamente), a “caça ao pedófilo” pode ser uma realidade, levando a julgamentos populares e a linchamentos e a justiça por mãos próprias, o que contraria o que o avanço civilizacional nos garante. Mais: a consulta por leigos pode levar a tentativas de justicialismo e de “justiça preventiva”, a “derramas de nomes” para jornais (se aconteceu com espiões e com pessoas colocadas em redes de investigação anti-crime, o que seria alguns tablóides publicarem nomes…) e se isso fosse legítimo para este tipo de crime, porque não para a violência doméstica o que levaria ao caricato de termos de ir à polícia saber o cadastro dos potenciais namorados e namoradas… Aliás, na adolescência, a violência no namoro é uma realidade que ultrapassa, de longe, o crime sexual contra menores, só para dar um exemplo. Se o governo desejar aumentar a moldura penal, que o faça, mas cravar um ferrete em pessoas para toda a vida, designadamente quando, por exemplo, se tentem tratar e re-integrar, é em si criminoso. Além de ineficaz porque, como na pena de morte, quem comete esse tipo de crimes não vai ler as estatísticas nem pensar com lógica e racionalidade antes de os cometer! Então a “pulseira electrónica” social, de cidadãos que, aos olhos da lei, são livres, terem de reportar para onde vão ou qualquer emprego necessitar de certificados criminai roça o obsceno. Então as empregadas de casa, as educadoras, os professores, os monitores das escolas, enfermeiros, médicos, auxiliares, técnicos de radiologia ou análises, fisioterapeutas, osteopatas, acupunctores, professores de piano ou violino, o senhor que vende cromos, ou da pastelaria…

....A vida tem algo de imprevisível e não podemos proteger os nossos filhos de todos os riscos, mas podemos, sim, fazê-los confiar em nós e eles saberem que defenderemos os seus interesses. Mas escutando-os, acreditando neles, investigando se for o caso, reportando às autoridades competentes, e não agindo de forma selvática e primitiva. Não vivemos nem desejamos viver na barbárie e em estados discricionários, mas num Estado de Direito em que a força da democracia é ter, por vezes, fraquezas, mas em que um inocente na cadeia repugna muito mais do que um criminoso à solta. É essa a força do Humanismo e da Liberdade.

 
Mário Cordeiro