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domingo, 27 de janeiro de 2019

De Beja a Siena.

 
 

 
A leitora Nela San enviou-me de Itália uma intrigante imagem, que viu em Beja. A fotografia parecia mesmo a de um rinoceronte heráldico, pelo que consultei de imediato o grande Miguel Metelo de Seixas, que sabe destas coisas como ninguém. E, para além do mais, tem um olho de lince que logo detectou não ser um rinoceronte mas um touro, o da emblemática pacense.
 
 
 


 
        
        Questionado sobre rinocerontes heráldicos, lembrou Miguel o da Contrada della Selva, de Siena (página oficial, aqui), em que um rinoceronte está aos pés de uma árvore, e nessa árvore existem adereços de caça porque a Selva era a contrada dos caçadores. Em cima, um sol flamejante, com a letra «U», de Umberto I de Itália. Mas o melhor vem agora: é que o rinoceronte da Contrada della Selva, segundo nos informam aqui, é nem, mais nem menos, inspirado directamente na célebre «Ganda», que D. Manuel I enviou ao Papa e que naufragou ao largo de La Spezia. Foi por volta de 1546 que a  Contrada della Selva passou a integrar um rinoceronte na sua tradição, consagrada sob forma heráldica  em 1888. O nosso rino, vindo das Índias!
 
 



Siena, Museu da Contrada della Selva

     
      Em agradecimento ao Miguel e à Nela, lembrei-me de devolver a Itália, e à terra do famoso Pálio, o rinoceronte que parecia mesmo ter aparecido por Beja, disfarçado de touro bravo.

 
 







 
 
 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O Papa sem Tiara.


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Ao ser eleito, um novo Papa perfaz duas escolhas simbólicas relativas à sua identidade recém-adquirida: no próprio momento subsequente à aceitação, a do nome apostólico por que quer vir a ser conhecido a partir de então; e, um pouco mais tarde, a das armas que passará a usar como chefe da Igreja.

No que respeita à onomástica, Joseph Ratzinger quebrou com a tradição dos seus quatro antecessores imediatos: não se chamou João, nem Paulo, nem ainda João Paulo – nomes que se inscreviam num desígnio reformador e na homenagem aos que haviam trilhado tal caminho desde 1958. Escolheu, com ressonâncias bem diferentes, o nome de Bento, já usado por quinze outros Papas antes dele (o último dos quais falecera em 1922).

A quebra da tradição foi porém mais substancial no que respeita às opções heráldicas tomadas por Bento XVI. O novo Papa escolheu um escudo com a partição heráldica chamada chapado, carregada de três figuras (uma concha, uma cabeça de negro ou de mouro, e um urso): armas complexas, tão ricas do ponto de vista simbológico quão contestáveis na sua dimensão estética, e que se inscrevem claramente numa tradição germânica.

Mas a verdadeira revolução heráldica guardava-se para o exterior do escudo de armas. Praticamente desde que os Papas passaram a usar emblemas heráldicos, estes foram acompanhados pelas insígnias desta sua dignidade: as chaves de São Pedro, evocativas da sucessão apostólica; e a tiara, peculiar forma de coroa, pela qual se pretendia simbolizar o exercício de um poder que era a um tempo espiritual e temporal.
 

 
Armas de Paulo VI
 
 
 
 
Armas de João Paulo I
 
 
 
 

 
Armas de João Paulo II
 
 
 

 
Por via de tal simbolismo, a tiara era tradicionalmente usada na cerimónia de coroação dos pontífices. Paulo VI foi o último protagonista deste ritual, em 1963. Depois dele, os Papas renunciaram ao uso dum objecto que parecia demasiado ligado ao poder temporal. Mas mantiveram o seu uso nas armas, em conjugação com as duas chaves passadas em aspa. Juntas, estas duas insígnias constituíam os elementos que, desde o século XIV e no fortemente hierarquizado sistema da heráldica eclesiástica, identificavam de forma inequívoca os chefes da Igreja Católica.

Daí a surpresa perante a renúncia heráldica com que Bento XVI iniciou o seu ministério. Em vez da tiara, insígnia tradicional e evidente da sua dignidade, o novo pontífice, mantendo embora as chaves petrinas, combinou-as simplesmente com uma mitra e um pálio, nenhum dos quais constituía emblema exclusivo do seu múnus (a mitra cabe por direito a todos os bispos e a alguns cónegos e abades, ditos mitrados; o pálio corresponde normalmente a atributo metropolitano).

Ao agir de tal sorte, Bento XVI insistia na dimensão pastoral da sua missão, ao mesmo tempo que reforçava o carácter colegial do cargo para o qual tinha sido eleito. Em detrimento dum entendimento simultaneamente místico e soberano do poder pontifício.

Nesse sentido, a sua rejeição heráldica inicial trazia já implícita, se não inerente, a possibilidade de uma plena renúncia futura. Porque traduzia uma dessacralização do poder do Sumo Pontífice. Bento XVI foi e continuará a ser o Papa sem tiara (agora emérito). Aguardemos para ver o que fará o seu sucessor.

 


Armas do Papa Bento XVI
 
 


Armas do Cardeal Joseph Ratzinger


 

Noticiário heráldico: as armas do Papa Bento XVI
 

 

Cada eleição de um novo pontífice da Igreja Católica Apostólica Romana representa sempre, para os heraldistas, um momento de certa expectativa. É sabido que, após a decisão tomada pelo colégio cardinalício, aquele que é chamado a ocupar o trono de São Pedro deve designar o nome por que quer passar a ser chamado e conhecido; tal escolha afigura-se reveladora porque, só por si, representa uma opção simbólica capaz de transmitir aos fiéis a ideia de uma devoção e porventura de um programa ou de uma tenção específicos. Não menos importante se afigura, no entanto, outra escolha simbólica e simbológica que compete ao Papa recém-eleito: a de definir as suas armas próprias.

Na tradição heráldica da Igreja Católica, os eclesiásticos têm a liberdade de escolha das suas armas, podendo ordená-las mediante recurso a três fontes de inspiração:

·                  retomar a heráldica da família a que pertencem ou na qual pretendem entroncar (genealógica ou simbolicamente);

·                  criar armas de fé, recorrendo a símbolos religiosos que espelhem uma devoção ou vivência particular ou ainda um determinado programa de vida ou de acção pastoral;

·                  recorrer à heráldica de funções ou de instituições religiosas a que pertencem ou a que se encontrem ligados os seus percursos eclesiásticos (como por exemplo uma ordem religiosa, uma instituição de ensino ou formação, uma diocese).

Para além destes elementos livremente seleccionados por cada sacerdote, e que devem ser ordenados no interior do escudo em conformidade com as leis da armaria, a Igreja impõe estritas regras no que respeita aos elementos exteriores ao mesmo escudo. Tal condicionamento prende-se com o facto de esses elementos exteriores tornarem patente, por um código devidamente institucionalizado e difundido, as dignidades, os cargos e os títulos do utente das armas.

Analisemos pois a heráldica do Papa Bento XVI à luz desta dicotomia que rege a armaria da Igreja: concentremo-nos primeiro no escudo assumido pelo pontífice, procurando descortinar-lhe a simbologia, para em seguida nos determos nos seus elementos exteriores, reveladores do alto cargo ocupado por Joseph Ratzinger.

O escudo escolhido pelo actual Papa tem um formato boleado, comum na heráldica eclesiástica e que lembra o aspecto de um cálice, numa possível (ainda que não explícita) alusão ao mistério da Eucaristia. O campo do escudo apresenta uma partição invulgar na heráldica pontifícia – um chapado, com o seguinte ordenamento: chapado de vermelho e de ouro, no campo de vermelho uma vieira do segundo, no campo de ouro, à dextra uma cabeça de mouro de sua cor, com cabelo de negro, com lábios, coroa e colar de vermelho e com um brinco de ouro na orelha, e à sinistra um urso de sua cor em banda, lampassado e carregando um fardo de vermelho. Os esmaltes presentes nos campos desta partição – vermelho e ouro – representam uma ruptura com o cromatismo heráldico dos pontífices anteriores, cujas armas se compunham de bicromias diversas. Pensemos nos escudos dos quatro antecessores imediatos: João Paulo II optara pelo azul/ouro; João Paulo I pelo azul/prata; Paulo VI e João XXIII pelo vermelho/prata. Na verdade, para encontrar armas dominadas pelos esmaltes vermelho e ouro, é mister remontar a Bento XIV, cujo pontificado decorreu entre 1740 e 1758. Não sabemos que critérios levaram Joseph Ratzinger a optar pelo cromatismo vermelho/ouro, mas não deixa de ser assinalável o facto de o último Papa a ter usado tais esmaltes ostentar o mesmo nome de Bento. Um dos símbolos tradicionais do poder pontifício, o ombrellino, usado antigamente nas procissões solenes e hoje identificativo do cardeal camerlengo que rege os destinos da Igreja na ausência temporária de Papa (sede vacante), é listrado de ouro e de vermelho. Convirá outrossim assinalar que o vermelho tem antiquíssima tradição como cor dos pontífices, cujas vestes são brancas e rubras, e mesmo como cor do campo das armas da Igreja, as quais se ordenam de vermelho com duas chaves passadas em aspa, uma de ouro e a outra de prata.

Quanto ao significado da partição adoptada por Bento XVI, o chapado remete para a figuração de uma capa, veste usada em primeiro lugar pelos monges beneditinos (o que remete para São Bento como fundador do monaquismo ocidental e como patrono da Europa) e depois por outras ordens religiosas, e como tal símbolo do ideal monástico de vivência da fé. O chapado encontra-se pois presente na heráldica de ordens monásticas, em particular na dos dominicanos, que adoptaram como armas, na modalidade mais simples, um chapado de prata e de negro, em nítida representação das vestes próprias destes frades. Esta versão das armas dominicanas foi incluída no chefe das armas do Papa Bento XIII, oriundo da ordem dos Pregadores. É interessante notar que os dominicanos exerceram tradicionalmente o papel de guardiães da ortodoxia, do mesmo modo que Joseph Ratzinger exerceu durante longos anos o cargo de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé; nesse sentido, poderá pôr-se a hipótese de o chapado das actuais armas pontifícias ser uma alusão ao das armas dominicanas.

Tendo visto o significado da partição e dos esmaltes das armas de Bento XVI, concentremo-nos agora nas figuras que carregam o escudo. São, como vimos, três: uma vieira de ouro sobre o campo de vermelho; uma cabeça de mouro na metade dextra do chapado; um urso na metade sinistra. Antes de prosseguirmos na análise de cada uma destas figuras, atentemos que o seu número se adapta à tripartição do escudo.






 
 

A concha, explica-nos D. Andrea Cordero di Montezemolo na página electrónica oficial da Santa Sé, encontra-se representada nas armas de Bento XVI com uma tripla simbologia:

·                  Remete em primeiro lugar para uma parábola colhida em Santo Agostinho: passeando este santo certo dia pela praia, encontrou um jovem que se azafamava a tirar água do mar com uma concha, vertendo-a de seguida num buraco que cavara na areia. Inquirindo Agostinho o que motivava tal acção, o jovem respondeu-lhe que pretendia esvaziar a água do mar. Reflectindo sobre a vanidade da actuação do jovem, Santo Agostinho compreendeu então que a actividade que presenciara era semelhante à do Homem que procura conhecer a infinidade de Deus, inalcançável para os limitados recursos da mente humana. A concha simboliza portanto em simultâneo a ânsia e as limitações do Homem em busca do conhecimento de Deus;

·                  Em segundo lugar, a concha constitui, desde os tempos medievais até aos nossos dias, o símbolo consagrado dos peregrinos, que a ostentavam nas suas vestes de forma a dar a conhecer a tarefa que se haviam proposto levar a cabo. Neste sentido, Bento XVI pretende evidenciar que a passagem do Homem pelo mundo corresponde a uma peregrinação em busca de Deus.

·                  Por fim, a concha faz parte das armas do mosteiro bávaro de Schotten, junto a Regensburgo, cenóbio a que o actual pontífice se encontra ligado por profundos laços espirituais, tendo aí dado aulas entre 1969 e 1977.





O Mouro de Freising





A segunda figura presente nas armas de Bento XVI consiste na cabeça de mouro representada no campo dextro do chapado. São as armas da diocese-principado de Freising, existentes desde o século XIV pois está documentado o seu uso pelo bispo Conrado III em 1316. A cabeça de mouro é uma figura que gozou de certa difusão na heráldica medieval, associando-se naturalmente ao contacto entre a cristandade e o islão. Na armaria germânica, esta figura recebe a designação de caput ethiopicum, e encontra-se fortemente relacionada com a diocese de Freising, a qual terá servido como um dos seus principais polos de difusão. Não se conhece ao certo, todavia, o significado original deste elemento exótico das armas da diocese de Freising; poder-se-á conjecturar que se trata de uma forma de lembrar o trabalho de difusão da mensagem cristã junto das populações seguidoras de outra fé. As armas da diocese de Freising transitaram para as da arquidiocese metropolitana de Munique e Freising, criada em 1818, de que Joseph Ratzinger foi titular entre 1977 e 1982. Nas armas dos arcebispos de Munique, é norma a conjugação da simbólica da respectiva diocese (a cabeça de mouro) com elementos próprios escolhidos pelo detentor do cargo (sejam eles de origem familiar ou armas de fé). Joseph Ratzinger, quando acedeu ao munus arquiepiscopal, usou um escudo esquartelado: em I e IV, de azul, um urso passante de ouro, carregando um fardo de vermelho; em II e III, uma estrela de cinco raios de prata, campanha nebulada do mesmo; escudete sobre-o-todo de ouro, carregado de uma cabeça de mouro de sua cor, com lábios, coroa, brinco e colar de vermelho. Nas armas pontifícias, no entanto, a cabeça de mouro não alude apenas ao arquiepiscopado bávaro, mas possui também uma conotação mais ampla: como representação de um elemento exótico na óptica dos povos europeus, a cabeça de mouro simboliza a universalidade da Igreja e a missão ecuménica de apostolado pontifical. Deve entretanto assinalar-se a delicadeza desta opção, dado o aceso confronto actual entre o mundo ocidental e o islâmico.
 

 
 

Jan Polack, O Milagre do Urso (1489).
Museu da Diocese de Freising.




O urso presente nas armas do actual Papa tem, também ele, uma origem bávara, relacionando-se com a hagiografia de São Corbiniano. Reza a lenda que este santo se encontrava de viagem entre as suas terras nativas germânicas e a cidade de Roma, quando, no meio da floresta, um urso o atacou. A fera, tendo devorado a montada em que Corbiniano seguia, investiu de seguida contra o romeiro. São Corbiniano, entretanto, invocou o auxílio divino e logrou amansar o urso: este não só lhe poupou a vida, como se pôs ao seu serviço ao longo do restante trajecto, carregando às costas o fardo das suas bagagens. O urso de São Corbiniano tem um significado pessoal para o Papa Bento XVI na medida em que aquele santo se tornou, no século VIII, no fundador da diocese de Freising; quando Joseph Ratzinger foi elevado a arcebispo de Munique e Freising, incorporou nas suas armas o urso da lenda. Mas, tal como sucede com a cabeça de mouro, o urso não se limita a um significado local, conotativo da origem geográfica e da actividade pastoral de Ratzinger. Segundo a parábola hagiográfica, o episódio da romaria de São Corbiniano demonstra a capacidade que a Igreja tem de domar pela palavra as forças selvagens, devendo entender-se como uma imagem do triunfo sobre as forças do paganismo. É aliás interessante notar que o urso sempre desempenhou, na mitologia e no folclore germânicos e nórdicos, o papel de «rei da floresta», consagrando-se como símbolo guerreiro e pagão. Por este motivo, a imagem do urso foi sistematicamente combatida e denegrida pela Igreja, que procurou e logrou substituí-la pela do leão, animal exótico sem conotações possíveis com os antigos rituais germânicos ou escandinavos, alçado a símbolo de Cristo e ao título de «rei dos animais». Para além desta simbologia hagiológica, o urso de São Corbiniano possui também, segundo a explicação do próprio utente das armas que vimos analisando, o significado de besta de carga ao serviço de Deus, disposta a arcar com o fardo das suas obrigações morais e das suas funções eclesiásticas, por muito pesado que tal fardo se revele.

Tendo analisado cada uma das figuras presentes no escudo de armas de Bento XVI, procuremos agora classificá-las consoante a sua tipologia simbológica. Verificamos que o Papa escolheu estas figuras dando primazia à concha, imbuída de simbolismo religioso e representativa do seu entendimento da vida cristã e sacerdotal. As outras duas figuras, a cabeça de mouro e o urso, têm uma dimensão regional, demonstrativa da origem bávara do pontífice, mas conjugam-na com um simbolismo religioso. Ao somarmos as mensagens transmitidas pelas três figuras, apercebemo-nos de um verdadeiro programa de vida e de acção: a caminhada permanente do cristão em busca de Deus; a universalidade e o ecumenismo da Igreja; o fardo da função religiosa contínua e cegamente ao serviço de Deus. Convém realçar a complexidade da simbologia das figuras escolhidas por Bento XVI, cada uma das quais possui significados polissémicos que se completam e esclarecem mutuamente. No final desta leitura simbológica, sobressai não só o nítido carácter doutrinário das armas pontificais, bem de acordo com o facto de o seu detentor ter exercido por longos anos os cargos de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, de presidente da Pontifícia Comissão Bíblica, de presidente da Comissão Teológica Internacional, e de presidente da comissão encarregada de preparar o novo Catecismo da Igreja Católica. Da análise simbológica que conduzimos sobressai também a realidade de estas armas transmitirem a imagem de um percurso pessoal, esclarecendo o observador acerca da origem, da formação, das opções e prioridades morais e teológicas de Joseph Ratzinger.

As considerações que acima tecemos acerca do conteúdo do escudo referiram-se apenas ao aspecto simbológico. Comentemos agora a dimensão estética destas armas. A heráldica eclesiástica pautou os seus dois últimos séculos de existência pela consagração do saudável princípio de simplificação dos elementos representados. Sobretudo no século XX, e com o apoio incondicional do maior estudioso e criador deste ramo da heráldica, monsenhor Bruno Bernard Heim, vieram a aligeirar-se os escudos eclesiásticos. Nas armas do pontífice anterior, por exemplo, o campo de azul completava-se apenas com duas figuras: uma cruz adextrada e a letra M, ambas de ouro. Bento XVI, pelo contrário, optou por introduzir uma partição no seu escudo: o já referido chapado, e carregou os três campos assim delimitados cada qual com a sua figura. O efeito estético afigura-se pesado pelo facto de não ficar praticamente superfície livre de figuras, além de desequilibrado porque cada figura possui uma escala diferente das restantes. Acresce que duas dessas figuras são de sua cor, o que não sendo propriamente um erro heráldico, é todavia um factor de diminuição do valor estético do conjunto. No seu todo, o escudo surge pois demasiado carregado e até confuso, com uma certa dimensão «folclórica» que de certa forma se distancia tanto da dignidade do cargo ocupado por Bento XVI, como das preocupações simbológicas que este pontífice quis transmitir às suas armas. Conhecendo o percurso pessoal de Joseph Ratzinger como guardião da ortodoxia católica, compreende-se que ele tenha querido exprimir uma mensagem complexa nas suas armas como Papa; mas seja-nos permitido perguntar: mesmo pagando o elevado preço de uma diminuição da carga simbólica do escudo, não teria sido mais interessante simplificar as suas figuras de forma radical?

Analisemos agora os elementos exteriores ao escudo de armas de Bento XVI:

- duas chaves passadas em aspa, uma de ouro e a outra de prata, atadas de vermelho e sotopostas ao escudo;

- uma mitra de prata ornada de três tiras horizontais unidas ao centro por uma tira vertical, todas de ouro, com as suas fíbulas de vermelho ornamentadas com uma cruz de ouro e franjadas do mesmo;

- um pálio de prata, ornamentado com três cruzes páteas de vermelho, com o seu bico de negro.

As duas chaves passadas em aspa, sotopostas ao escudo, correspondem a um tradicional atributo iconográfico que, desde o século V, caracteriza São Pedro. A partir do início do século XIII, desde o pontificado de Inocêncio III, as chaves passaram a representar o papado. Elas assinalam a consagração do Papa como herdeiro de São Pedro, a quem Cristo confiou a tarefa de erguer a Igreja, conferindo-lhe para tal o poder de ligar e desligar os fiéis dela. Em finais do século XIII, Bonifácio VIII conferiu às duas chaves um uso heráldico, como elemento externo ao escudo. Quis este pontífice assinalar assim que o Papa é herdeiro de São Pedro e da sua missão apostólica. Ao integrar nas suas armas a representação das duas chaves passadas em aspa, Bento XVI deu pois continuidade a um dos principais símbolos da dignidade pontifícia.

A mitra que encima as armas do actual pontífice representa uma assinalável inovação com relação aos usos estabelecidos. Com efeito, desde a Idade Média, todos os Papas usaram como insígnia distintiva da sua função não uma mitra (própria dos bispos, embora de uso extensivo a outros eclesiásticos, como abades e cónegos ditos mitrados) mas uma tiara de três coroas (triregnum). A tiara pontifícia tem origens incertas. Muitos estudiosos vêem na tiara uma forma de barrete frígio, o qual, na antiguidade clássica, simbolizava a alforria e a liberdade. Quer a tradição que o uso da tiara tenha sido concedido ao Papa Silvestre I por Constantino I, querendo o imperador significar, por meio desta autorização, que a Igreja ganhara um estatuto de autonomia, libertando-se pois da autoridade do soberano temporal. É claro que tal origem lendária constitui uma criação medieval, destinada a explicar e justificar a detenção de poder temporal pelos Papas. Na verdade, as primeiras alusões ao uso da tiara pelos sucessores de São Pedro remontam aos séculos IX ou X, relacionando-se directamente com a constituição dos Estados Pontifícios. Trata-se pois, muito provavelmente, de um símbolo de soberania. As primeiras representações da tiara datam do século XIII, podendo ver-se nelas a figuração de uma só coroa; foi o Papa Bonifácio VIII (1294-1303) quem, no início da centúria seguinte, lhe juntou uma segunda coroa, talvez  para assinalar a dupla detenção de poder: espiritual e temporal. A terceira coroa foi acrescentada à tiara por um dos sucessores de Bonifácio VIII, Bento XI (1303-1304) ou Clemente V (1305-1314), como forma de simbolizar a supremacia da Igreja sobre todos os outros Estados, o que se deve compreender no âmbito da rivalidade política entre o Papa e o imperador.
 
Tiara de Pio IX
 


A tiara era uma cobertura de cabeça exclusiva do sumo pontífice, que mais ninguém podia legitimamente usar (a única excepção duradoura foi a dos patriarcas de Lisboa), e por isso funcionou como principal elemento identificativo do Papa e dos Estados Pontifícios, quer do ponto de vista iconográfico quer heráldico. A tiara não tinha, todavia, um uso litúrgico, mas antes estatal: o Papa cobria-se com ela para a sua coroação e para outras ocasiões em que aparecia como chefe de Estado. Não obstante a sua origem profana, a tiara foi ganhando ao longo da sua existência um simbolismo religioso, passando a exprimir a primazia do Papa sobre a Igreja considerada nas suas três vertentes: militante, penitente e triunfante, bem como as três categorias de poderes detidos pelo sumo pontífice: os de ordem, jurisdição e magistério. O ritual de entronização do sumo pontífice consagrava a tiara como símbolo específico do seu poder, com a seguinte fórmula: «Accipe tiaram tribus coronis ornatam; et scies te esse Patrem Principum et Regum, Rectorem Orbis, in terra Vicarium Salvatoris Nostri Jesu Christi, Cui est honor et gloria in saecula saeculorum» («Aceita esta tiara ornada de três coroas; e fica ciente de que te tornas Pai de Príncipes e Reis, Reitor do Orbe, Vigário na terra de Nosso Senhor Jesus Cristo Salvador, Cuja glória perdure pelos séculos dos séculos»). O último pontífice a fazer uso ritualístico da tiara foi Paulo VI. Os seus sucessores entenderam que a cerimónia de início de um pontificado devia ter um carácter exclusivamente religioso, abolindo portanto o rito da coroação; a partir de então, o uso da tiara passou a limitar-se à sua representação nas armas de cada Papa e nas do próprio Estado da Cidade do Vaticano. O que levou pois Bento XVI a abandonar a representação da tiara?
 
 
Inocêncio III (1198-1216)
 
Bento XI (1240-1304)
 
Coroação de Paulo VI

 

Tiara de Paulo VI
 
Tiara de João Paulo II
 
Tiara de Bento XVI,
apresentada em 25 de Maio de 2011, mas nunca utilizada
 
 

É de crer que tal abandono se insira na prossecução da política de despojamento da heráldica eclesiástica de todos os símbolos de autoridade temporal, política seguida desde o século XIX e verdadeiramente consagrada na centúria seguinte. Os brasões eclesiásticos livraram-se da parafernália de elementos exteriores conotativos de dignidades seculares, tais como as espadas (símbolos de jurisdição autónoma) ou os coronéis (sinais nobiliárquicos). A omissão da tiara nas armas pontifícias insere-se sem dúvida neste processo generalizado, e constitui um salutar exemplo vindo de cima... Mas procuremos aprofundar o assunto da representação heráldica da hierarquia no seio da Igreja Católica, para podermos avaliar o impacto da erradicação da tiara nas armas de Bento XVI. Em paralelo com a eliminação de símbolos de dignidades temporais, a heráldica eclesiástica conheceu outrossim outra tendência não menos radical: a do banimento de vestes litúrgicas como representação de funções ou dignidades religiosas. Desta forma, verificou-se uma tendência para erradicar a representação de mitras nas armas dos prelados de dignidade episcopal (e nas armas de outros religiosos que tinham direito ao uso de mitra por especial concessão, caso de certos abades e cónegos). A instrução Ut Sive Sollicite, emanada pelo Papa Paulo VI a 31 de Março de 1969, proibia de forma explícita qualquer representação da mitra nas armas de religiosos. Como se pretendia então simbolizar as funções eclesiásticas? Através do recurso ao chamado chapéu eclesiástico, de formato típico (copa baixa e redonda, aba larga, dois cordões ou atilhos laterais de que pendem borlas). Precisamente porque não se trata de uma veste litúrgica, este chapéu pôde ser usado de forma eficaz para representar minuciosamente a hierarquia da Igreja, através da variação da cor da copa, aba, cordões e borlas, e do número de borlas pendentes (desde o chapéu de vermelho com trinta borlas, próprio dos cardeais, até ao chapéu de negro com duas borlas, dos simples padres). De certo modo, a tiara pontifícia insere-se dentro da lógica deste sistema, pois, tal como o chapéu eclesiástico, ela não é um instrumento litúrgico, mas sim um puro símbolo heráldico. Ao invés, a mitra escolhida por Bento XVI contraria profundamente a tendência da armaria eclesiástica, já que, no seio da complexa e eficaz representação heráldica da hierarquia da Igreja, a mitra pontifícia não constitui um sinal verdadeiramente específico, pois o seu uso não está reservado ao sumo pontífice. Se o Papa recém-eleito queria por força abandonar a tiara, porque não criou uma insígnia que se adequasse melhor ao sistema heráldico vigente? Surge-nos desde logo uma imagem óbvia: se a representação da hierarquia da Igreja se baseia no chapéu eclesiástico, porque não criar um chapéu com copa e borlas de branco, que se tornaria num símbolo específico do Papa?

É certo que o modelo de mitra adoptado por Bento XVI possui uma simbologia interessante. Com efeito, a mitra das novas armas papais permite recordar que a função pontifícia é fundamentalmente uma função pastoral; e que o Papa, chefe da Cristandade católica, é também bispo de Roma, cidade sede da Igreja. As três faixas horizontais unidas pela pala vertical recordam o antigo triregnum da tiara, simbolizando a presença do triplo poder (de ordem sagrada, de jurisdição e de magistério) numa única pessoa: o Papa. Hábil, pois, do ponto de vista simbólico, o uso da mitra pontifícia não deixa de se integrar com alguma dificuldade no sistema heráldico estabelecido dentro da Igreja. O abandono da tiara quebra com uma tradição existente há meio milénio, e exclui da heráldica pontifícia o seu principal e consagrado sinal identificativo de função.

O último dos ornamentos exteriores das armas de Bento XVI é o pálio, que se encontra sotoposto ao escudo. Tal como a tiara, também o pálio tem origem na antiguidade: no período do Baixo Império, quer o imperador quer os altos funcionários áulicos usavam uma estola de lã alva. Depois da dissolução do Império Romano do Ocidente, os sumos pontífices mantiveram como próprio este sinal distintivo, que passou a simbolizar a sua função de pastores do rebanho de fiéis. Pelo menos a partir do século VI, os Papas tomaram o hábito de conceder o uso do pálio a determinados prelados (em particular aos arcebispos metropolitas), a título honorífico e pessoal, como forma de simbolizar a ligação de todas as dioceses com a sede apostólica. No século XII, o pálio ganhou as características que mantém até hoje: passou ter o formato de um Y e a ser ornamentado com cruzes páteas. Os prelados a quem o Papa autorizava o uso do pálio costumavam ostentá-lo nas suas armas, geralmente fora do escudo, mais raramente dentro dele. Em contrapartida, o pálio nunca se integrou na heráldica pontifícia. Ao romper com esta tradição, Bento XVI terá procurado atingir dois objectivos:

·        integrar na heráldica dos Papas aquele que há séculos era já um sinal distintivo da jurisdição pontifícia, fazendo assim coincidir os ornamentos exteriores das armas com as insígnias efectivamente usadas liturgicamente;

·         assinalar a ligação do chefe da Igreja com os arcebispos seus sufragâneos, e através destes com todos os restantes bispos, simbolizando assim os princípios de colegialidade e de subsidiaridade da Igreja.

Analisemos agora os ornamentos exteriores das armas de Bento XVI no seu conjunto. Verificamos que o actual pontífice introduziu modificações revolucionárias com relação aos usos vigentes. Tradicionalmente, os Papas usavam como ornamentos exteriores as duas chaves passadas em aspa e a tiara. Bento XVI apenas conservou as chaves, e baniu a tiara. Em sua substituição, passou a usar um modelo próprio de mitra e um pálio. Tais opções têm um sentido nítido: pretendem erradicar insígnias que já não correspondam a um uso efectivo (pois os Papas deixaram de ostentar a tiara como forma própria de coroa), e aproximar os usos heráldicos dos usos efectivos e dotados de simbolismo religioso (a mitra e o pálio). O efeito, porém, afigura-se-nos empobrecedor do ponto de vista heráldico: quer a mitra, não obstante a sua ornamentação peculiar, quer o pálio, não são atributos específicos do sumo pontífice. Ao eliminar a tiara e substituí-la pela mitra e pelo pálio, Bento XVI retirou aos ornamentos exteriores das armas pontifícias o seu aspecto claramente distintivo. Ora, a heráldica é um código simbológico que visa, precisamente, identificar e distinguir da maneira mais evidente que for possível.

As armas escolhidas por Joseph Ratzinger como Papa são pródigas em novidades heráldicas e em complexidade simbológica. A ruptura com os antecedentes situa-se tanto no interior como no exterior do escudo: Bento XVI adoptou uma partição e uma bicromia pouco comuns na heráldica pontifícia (o chapado curvado de vermelho e de ouro), preenchendo-a com três figuras também elas inusitadas: uma concha, uma cabeça de mouro e um urso. Fora do escudo, as inovações do actual Papa foram ainda mais radicais, pois dos tradicionais ornamentos exteriores apenas reteve as duas chaves passadas em aspa (alusivas a São Pedro) e abandonou a tiara. Em substituição desta última, Bento XVI criou uma mitra própria, dotada de três tiras horizontais unidas por uma vertical – a que poderíamos chamar criptotiara pois trata-se de uma tiara encoberta – e completou os ornamentos exteriores ao seu escudo de armas com a representação do pálio, antiquíssima insígnia dos sumos pontífices mas nunca até agora usada na respectiva heráldica.

No que respeita ao conteúdo simbológico das armas de Bento XVI, destaca-se a sua complexidade, bem expressiva dos seus desígnios e das suas crenças: a concha simboliza o peregrino em contínua busca da Fé; a cabeça de mouro alude à universalidade e ecumenismo da Igreja; o urso com o seu fardo representa o poder e a missão do sacerdote ao serviço de Deus. Para além desta simbólica universalista, os dois últimos móveis reenviam também para o percurso pessoal de Joseph Ratzinger como arcebispo de Munique e como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. No seu conjunto, as armas assumidas por Bento XVI apresentam-se, para quem as souber observar e ler, como um reflexo do seu programa de pontificado.

 

Miguel Metelo de Seixas


 


(publicado na revista Tabardo,
do Centro Lusíada de Estudos Genealógicos e Heráldicos,
n.º 3, 2006, pp. 343-352)

 

 

 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A invenção da vida.



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Fotografia de Miguel Metelo de Seixas




Passo a vida a buscar-me e não me encontro,
Passo a vida à procura de mim mesmo.
Julgo ser eu e sou apenas outro
Que vive em mim a vida que eu invento.


Anrique Paço d’Arcos, Círculos Concêntricos, 1965

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Heráldica inesperada.



 


As cidades são corpos. Nascem, crescem, envelhecem, espraiam-se e encolhem, vestem-se e despem-se, unem-se e separam-se, definham, morrem. Por vezes até ressuscitam. É como se, em vez de ar, respirassem terra.
Algumas cidades conhecem histórias tão longas que o seu corpo inteiro parece feito de sedimentos. Acumulam sem cessar camada sobre camada, vestígio ao lado de vestígio, até todo o seu vulto se tornar numa imensa, complexa manta de retalhos. Cada indício ou cicatriz relembra uma ocupação; mas as memórias respectivas têm vida semelhante à das próprias marcas deixadas no terreno: também aquelas se entrecruzam, baralham e perdem, ou por vezes sobrevivem e readaptam-se de forma imprevisível. De modo que os vestígios materiais e as memórias das cidades suprem alegria aos contadores de histórias e desafio aos hermeneutas.
Nas cidades tudo se acumula. Não apenas os resíduos físicos ou memoriais, mas também os homens. Tal como as pedras se deslocam – arrancadas do local de origem para reaparecerem, arrastadas e reaproveitadas, numa nova construção – assim também os homens sucedem uns aos outros e se alternam nos sítios e nas ideias. Para os homens, a hereditariedade e a migração são os dois sucedâneos dessa eternidade aparente que apenas podem – ou crêem – contemplar na pedra. E assim de pedras, gentes e memórias, cada qual com as suas formas de perpetuidade, se constrói a cidade.
Algumas cidades, mercê da antiguidade e grandeza da sua história, apresentam-se como expoentes desse mundo de intersecções. Digo algumas cidades e penso logo numa: Roma. Claro, a Cidade. Mas penso também em Lisboa, que nesse sentido é uma outra (pequena) Roma. Depois, dentro do território de cada cidade, há igualmente parcelas mais propícias à acumulação de indícios e à sua reciclagem – e que são valorizadas como tal; e outras, modernas ou simplesmente desvalorizadas, que parecem aos olhos do observador menos pródigas em vestígios. Todas, contudo, revelam o corpo da cidade. E guardam surpresas e enigmas para o observador atento ou apenas afortunado.


Rua Senhora da Glória


Assim é o vale de Santo António, antiga extrema oriental da cidade de Lisboa, já fora da muralha fernandina, hoje contido entre a Graça, Sapadores e Santa Apolónia. Outrora retalhado por quintas e azinhagas, o vale deve o nome a uma bonita lenda, que aí faz decorrer o primeiro milagre do santo lisboeta, ainda menino e acompanhante do pai no lavor dos campos; prodígio esse que envolve revoadas de pássaros a debicar colheitas, prova de como pelo vale se deviam então estender verdejantes hortas. Nada mais revelarei da lenda, que fica para aguçar a curiosidade do leitor que a não conheça.
Nos dois últimos séculos, porém, o vale perdeu o seu aspecto bucólico. Invadido por algumas indústrias, sujeito à pressão urbanística, aproveitado para um vasto quartel de sapadores, o chão das hortas deu lugar a um emaranhado de prédios e quintais, tal como os muros das azinhagas se abateram em prol do traçado de ruas de esquadria mais ou menos direita, conforme as épocas em que se abriram e as insondáveis circunstâncias da propriedade dos terrenos. Do vale antigo parecem sobrar escassos vestígios: das antigas quintas, pouco subsiste; apenas os edifícios religiosos mereceram perpetuação, e assim perduram, agora encaixadas entre prédios, a ermida do milagre antoniano e a igreja dedicada à Senhora da Glória.
Precisamente entre o antigo quartel de sapadores, que deu nome ao bairro, e a igreja da Senhora da Glória, estende-se, sob esta mesma invocação, uma calçada íngreme, cuja toponímia logrou portanto escapar à fúria transformista que a edilidade lisboeta, ao longo dos dois últimos séculos, foi aplicando às artérias da cidade. Logo no começo da descida, abre-se um banal portão de ferro com a identificação de Vila Rodrigues: trata-se de uma das muitas ilhas de casas em que originalmente se amontoavam os operários das fábricas vizinhas.


Entrada da Vila Rodrigues

Corredor de acesso à Vila


O portão abre para uma passagem entre os prédios contíguos, apenas duas dezenas de metros, após os quais o caminho vira para a direita e se alarga em duas fiadas de casario. Habitações modestas, dispostas em dois andares ligados por escadas e balcões de ferro corridos, formando uma estrutura paralela à calçada e dela bem resguardada. Na esquina, antes de virar da passagem para a zona habitada, um bloco de caixas de correio metálicas vem provar que a antiga vila operária, longe de se ter despovoado, conserva uma alta taxa de ocupação, aliás também perceptível pela quantidade de vasos de flores e de roupa estendida em cordas.
Aninhado junto às caixas de correio, no meio de carrinhos de bebé, surge um elemento imprevisto: uma pedra de armas apeada e inserida no muro, rente ao chão. Quando a vi pela primeira vez, o acaso daquela descoberta varou-me. Desde logo, porque não é uma pedra de armas qualquer: num grande rectângulo de calcário branco, característico das construções lisboetas de prestígio, o cinzel dum artífice anónimo delineou um elmo de torneio (vulgo boca de sapo) figurado a três quartos para a dextra (é a designação heráldica da esquerda do observador), rasgado de uma escassa viseira e dotado de correias de suspensão, sobre o qual assenta um virol de panejamentos e irrompe um paquife frondoso, exuberante de voltas e cujas extremidades se desenham em folhas de acanto. O elmo e o paquife enquadram um escudo em que proliferam algumas figuras típicas do brasonário português: uma aspa carregada de besantes, uma águia, cinco vieiras, cinco estrelas emolduradas por uma bordadura. Sobre o elmo, um vazio denota a única mutilação da pedra: falta-lhe o timbre, normalmente esculpido à parte por causa da sua tridimensionalidade. No conjunto, a peça afigura-se notável pela qualidade, força e delicadeza do trabalho: mais parece obra de lapidário.
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Quando o acaso me levou a observá-la pela primeira vez, desconcertado pela descoberta e pelos enigmas que ela lançava a um heraldista, lembro-me de que fiquei algum tempo a contemplá-la. Estando eu nesses preparos, saiu um vulto de uma das casas; uma velhinha, vestida com um robe de turco cor-de-rosa e chinelos felpudos, vinha passear o cão, um daqueles rafeiros de patas e pêlo curto que parecem formar raça própria dos bairros antigos de Lisboa. Se eu estava intrigado com a pedra, a velhinha não o estava menos comigo. Só que, no caso dela, havia sobretudo desconfiança ou talvez mesmo irritação perante a minha curiosidade. De modo que, tendo-a cumprimentado a ela e fotografado a pedra, pouco mais demorei por ali. Ao sair, senti nas costas o olhar suspeitoso que acompanhava meus passos.
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De regresso a casa e à proximidade das obras de referência, tentei decifrar o enigma da pedra. Logo percebi que se tratava das armas das linhagens de Araújo, Azevedo e Sequeira (ou Velho). O facto de a pedra em questão se apresentar como um rectângulo quase quadrado levou-me a pensar que o artífice tivesse partido de uma iluminura constante numa carta de brasão de armas (documento pelo qual o rei de Portugal, por via do oficial heráldico mais elevado da sua cúria, chamado rei de armas Portugal, conferia ou reconhecia o uso de armas aos requerentes, como prova da nobreza destes). Se assim fosse, contudo, a pedra deveria incluir no primeiro quartel um sinal a que se chamava "diferença", uma pequena figura solta colocada no canto superior da dextra ou no meio da parte superior daquele quartel, destinada a indicar de que ramo genealógico provinham as armas ao requerente. No caso da pedra analisada, esses espaços estavam infelizmente delidos, o que tornava mais difícil encontrar a correspondência das armas com um indivíduo concreto. Tampouco seria fácil atribuir-lhe datação inequívoca: apenas por via de comparação estilística, tudo na pedra – a força e simultânea delicadeza do lançamento do paquife, o subtil e eficaz jogo de proporções entre escudo e elementos exteriores, a estilização rigorosa mas não seca das figuras – fazia lembrar o século XVI, quando muito o princípio do seguinte. O timbre em falta, esse, era fácil de reconstituir: deveria ser o dos Araújos, um mouro sainte.
Apenas até aí me levaram as minhas averiguações. Decerto a pedra ornara a frontaria ou o portão de uma quinta próxima da actual vila, entretanto destruída para dar lugar à urbanização. Essa crença advinha apenas da falta de melhor explicação para tão insólita aparição: por que outro motivo haveria a pedra de ter ido parar ali, se não fosse simplesmente por se ter deixado ficar? Tanto mais que o transporte daquele pedregulho haveria de ser tarefa custosa… Faltava, para ir mais longe, tentar encontrar outros dados sobre as quintas outrora existentes no vale e sobre as famílias que aí se haviam estabelecido. Coisas para as quais não tinha eu tempo. Nem talvez vontade. Ficava com a convicção de que a pedra lembrava decerto grandeza pretéritas, porém tão longínquas que o rastro se lhes perdera sem grande esperança de voltar a ser encontrado. No quadro da vila operária, a pedra vinha assim trazer uma nota insólita, de aparente incongruência. Um elo com um passado remoto, proclamado de forma indubitável pela permanência daquele vestígio.


A pedra é da Vila



Mas um mistério aguça sempre a nossa imaginação, fica a trabalhar em surdina como um insecto roendo a trave por dentro. E ao longo de meses, lá me lembrava da pedra da vila operária e tentava a talho de foice compulsar outras fontes, no desejo de perceber quem se escondia por trás daquele enigma heráldico. Em vão: a pedra guardava seu sigilo. Até que um dia, fez-se luz. Relembrei a aparição da velhinha com o cão. Voltei a sentir o peso do seu olhar, em que eu identificara desconfiança mas que, na verdade, continha também um misto de orgulho e posse perante aquele monumento. E só então compreendi, por fim, o segredo da pedra. Ou melhor, a irrelevância dele. Pois a pedra deixara de identificar os seus longínquos comanditários. Passara a ser dos moradores da vila.


 
Miguel Metelo de Seixas