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quinta-feira, 7 de março de 2024

Sousa Martins.

 



Nasceu neste dia, há 181 anos, José Thomaz de Sousa Martins. Natural de Alhandra, perto de Lisboa, cresceu órfão de pai e teve de trabalhar desde os 12 anos. Enquanto era ajudante de farmácia, estudou ciências farmacêuticas e medicina, os dois cursos ao mesmo tempo. Licenciou-se em medicina com notas das mais altas. 

Viveu quase exclusivamente para o trabalho. Num tempo em que a peste e a tuberculose grassavam, fez por curar, ou pelo menos aliviar, o maior número possível de doentes. No hospital de São José, no seu consultório e nas incontáveis visitas domiciliárias que fez, acudiu a políticos republicanos e a duquesas, cobrando pelos seus serviços, e acudiu também, mas não cobrando, aos pobres dos bairros mais miseráveis de Lisboa e arredores. A estes ele dedicava tempo, conversando e empatizando, e chegava a oferecer-lhes dinheiro para que comprassem os medicamentos. Como disse a um amigo: “Ai!, o que eu vi, e onde entrei! Basta dizer-te que cheguei a escrever receitas com paus de fósforos”. 

Foi um médico reputado e pertenceu a organizações internacionais para o tratamento da tuberculose. Sugeriu que se construísse um sanatório na Serra da Estrela, o que veio a acontecer mais tarde. Foi um homem especialmente bom e dedicado aos seus pacientes. Quase um século e meio depois da sua morte, continua a haver quem o considere santo e diga que agiu por intercessão de Deus. Não falta quem lhe dirija as suas preces. Esse culto a Sousa Martins é particularmente visível em Lisboa e Alhandra, onde junto ao seu jazigo e às estátuas que o homenageiam se encontram dezenas de mensagens de agradecimento pelas curas supostamente milagrosas que operou. E onde continuam a desembocar todos os anos centenas de pessoas, muitas delas descendentes daqueles a quem fez bem. 

Entre o cemitério onde repousa e a Casa-Museu Dr. Sousa Martins, em Alhandra, fica a praça central da vila. Chama-se Praça 7 de Março de 1843 e recorda a data de aniversário do médico. Nessa praça encontra-se um busto representando-o, e nunca esse monumento de pedra e chumbo se vê por si só: há sempre flores aos seus pés. Porque, afinal, há muito quem continue a recordar uma das pessoas que mais praticaram o bem no nosso país. De quem Dom Carlos disse ter sido “a luz mais forte do reino”. 

 

                                                                        Rui Passos Rocha






segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Maria Veleda.


 



No final do século XIX, Portugal era um país agrário e tinha mais de 90% de analfabetos. Por serem consideradas frágeis (lembra-vos algo que disse um candidato do Chega, recentemente?), as mulheres só podiam ser educadoras, médicas ou funcionárias públicas, não podiam pedir o divórcio e eram tuteladas pelos maridos. Os homens podiam votar. As mulheres, mesmo as que tivessem estudos e uma profissão, as solteiras e chefes de família, não podiam votar. 

Maria Crispim era solteira, tinha dois filhos e trabalhava como educadora quando começou a escrever crónicas nos jornais. Designou-se Maria Veleda, em homenagem à sacerdotisa germânica que liderou o seu povo e enfrentou o Império Romano. Escreveu na imprensa do Algarve, primeiro, e depois em jornais nacionais, sediados em Lisboa, onde se tornou professora. O foco da sua escrita, e também o das peças de teatro que encenou, foi quase sempre a condição feminina: o desinvestimento do Estado na instrução das mulheres, a sua dependência económica em relação aos maridos, o impedimento legal a que votassem. Em suma, a ordem instituída que as considerava inferiores aos homens. 

Maria Veleda escrevia em tom cáustico, atraía respostas mordazes e ripostava na crónica seguinte. Era comum vê-la em debates políticos, praticamente sozinha entre mares de homens. Muitos deles eram-lhe hostis, mas outros, como Magalhães Lima e António José de Almeida, figuras máximas do republicanismo, incentivaram-na, tornando-a cronista d’O Século e dirigente da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.  

Com a Primeira República, que trouxe maior igualdade às relações conjugais e permitiu o divórcio, não chegaram a democratização da instrução nem o direito de voto para as mulheres. Numa época em que o movimento sufragista noutros países garantia mais direitos para as mulheres, não sem que muitas arriscassem a vida e fossem presas, a postura gradualista do republicanismo português gerava enorme frustração em Maria Veleda: “não sou sufragista, mas se o fosse pediria tudo e, se não dessem tudo, não aceitaria nada”, escreveu. António José de Almeida considerava-a “demasiado vermelha”. Em poucos anos, Maria Veleda desencantou-se do activismo e afastou-se. 

Mesmo depois do 25 de Abril, que trouxe o sufrágio universal ao nosso país, quando em 1976 foram atribuídos nomes de rua à urbanização da Quinta dos Condes de Carnide, a mais importante das ruas foi dada a Ana de Castro Osório, a gradualista antecessora de Maria Veleda na liderança da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. O radicalismo não deixou boa lembrança. Será por esse motivo que a Rua Maria Veleda surge mais perto da Rua Adelaide Cabete, sublinhando que, mais do que o activismo político, o que ali se memorializa é a Obra Maternal de apoio a crianças órfãs, que dirigiram.

 

                                                Rui Passos Rocha


domingo, 25 de fevereiro de 2024

Cesário Verde.


 



Neste mesmo dia, em 1855, nasceu na baixa de Lisboa um filho de comerciantes. O pai tinha uma loja de ferragens na Rua dos Fanqueiros e esse filho, varão primogénito, foi encaminhado para a gestão dos negócios. Assim foi: em adulto, geriu a loja e lidou, também, com a exportação de fruta e vinhos, outro negócio da família. 

Acontece que este jovem chamado Cesário Verde viu morrer duas irmãs e um irmão. E que também ele, dos 22 anos até aos 31 com que morreu, padeceu da tuberculose que matou dois desses irmãos. Tamanho sofrimento familiar, mais as leituras que o moldaram, fizeram dele um observador sensível ao que o rodeava, em particular às vivências dos mais desfavorecidos. 

A poesia de Cesário Verde relata a pulsão de vida e o dinamismo do comércio na baixa lisboeta: os navios que chegavam e partiam, o rebuliço de gente, a força e a graça das varinas. Mas mais do que isso, fala-nos da sujidade, da pobreza, dos moribundos de cólera, peste e tuberculose, doenças que grassavam nos bairros pobres. Conta-nos, também, que nas noites sepulcrais de Lisboa, que lhe despertavam “um desejo absurdo de sofrer”, se ouvia um barulho aterrador vindo do Aljube: eram as “velhinhas e crianças” lá presas a baterem nas grades. 

A essa Lisboa decadente, e também à soturnidade industrial de Londres e de Liverpool, Cesário preferia o ar puro e a viçosidade da quinta de família em Linda-a-Pastora, nos arredores de Lisboa: a terra que sempre fazia brotar vida, as abelhas que “engordavam na vindima” e polinizavam, a poda das videiras, o trabalho braçal, dele próprio, dos seus e dos contratados. 

Tanto os seus poemas urbanos e decadentistas, entre eles “O Sentimento de um Ocidental”, como os pastoris, de que se destaca “Nós”, foram ridicularizados ou simplesmente ignorados pela crítica literária da época. Os poetas queriam-se eruditos e românticos, não a versejar sobre “o peixe podre [que] gera os focos de infecção”. Cesário Verde morreu sem saber que viria a ser considerado um dos principais poetas da modernidade portuguesa. Para isso foram essenciais o seu amigo Silva Pinto, que coligiu os seus poemas em livro, e Álvaro de Campos, o heterónimo de Fernando Pessoa que venerava Cesário Verde. 

Republicano convicto, é homenageado em Lisboa, desde o início da década de 1920, através de um Jardim Cesário Verde. E o Estado Novo, que nele se inspirou para a propaganda da ruralidade, acrescentou a esse jardim o busto que aqui vemos.  

 

                                                           Rui Passos Rocha


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Gisberta Salce Júnior.

 



Há exactamente 18 anos, num dia 22 de Fevereiro, morria Gisberta Salce Júnior no Porto. Causa da morte: afogamento. Causa da causa: sete dias (sete!) a levar pancada de um grupo de 14 rapazes adolescentes, que a deixaram inconsciente e, temendo tê-la matado, resolveram atirá-la para um poço.  

Causa da causa da causa: transfobia. Causas da causa da causa da causa: invisibilidade social das pessoas transgénero e hostilidade generalizada para com elas, bem como o facto de que os 14 adolescentes, nascidos em contextos de violência e negligência, estavam entregues a uma instituição de acolhimento cuja ideia de integração social consistia em ensinar um ofício e o temor a Deus, bem como em, aos fins-de-semana, deixar jovens com tal passado à sua sorte, livres para cirandar e asneirar pela cidade. O local onde encontraram e mataram Gisberta ficava a 40 minutos a pé da instituição que os (des)acolhia. 

Gisberta nasceu no Brasil e emigrou aos 18 anos, fugida de uma vaga de assassinatos transfóbicos. Viveu no Porto os últimos 20 dos seus 46 anos de vida. Nos últimos 10, com SIDA. Fez de Marilyn Monroe em espectáculos transformistas na noite portuense, prostituiu-se para ganhar a vida. Foi sem-abrigo nos seus últimos anos. Esse foi o estado em que 3 dos 14 adolescentes a encontraram e, apiedando-se dela inicialmente, lhe deram de comer, conversaram com ela, voltaram várias vezes. Até que falaram dela aos outros 11 e tudo descambou. 

O horror da morte de Gisberta levou Pedro Abrunhosa e Maria Bethânia a cantá-la, originou peças de teatro e uma curta-metragem premiada (em breve, também o fabuloso livro de Afonso Reis Cabral sobre o tema será vertido em filme). Os crimes transfóbicos passaram a ter penas pesadas, nasceram o Centro Gis e a Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto para dar apoio e visibilidade às pessoas transgénero. 

Outra prova de que Gisberta não morreu em muitos corações é que em breve haverá uma Rua Gisberta Salce Júnior no Porto. Ficará entre a Rua e a Travessa das Eirinhas, na freguesia do Bonfim. A poucos minutos de onde Gisberta teve casa e dois cães, e a ainda menos minutos de onde foi sem-abrigo e perdeu a vida de modo horrível.

                                                                Rui Passos Rocha 


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Dia dos Namorados.

 




Hoje é aquele dia do ano que muitos casais comemoram e que para outros casais é indiferente; que pessoas solteiras gostariam de comemorar e outras acham uma piroseira. Um dia que se diz dos Namorados, mas que a Igreja, que o instituiu, prefere chamar de São Valentim – porque não só isso puxa a brasa à mitologização dos santos mártires, mas também acentua a importância do casamento (católico), que é, dizem, o verdadeiro sinal de união entre duas pessoas (heterossexuais). 

Por falar disso: não há provas de que o bispo romano Valentim, do século III, tenha celebrado casamentos num tempo em que estes estariam supostamente proibidos pelo imperador. Nem que ele tenha curado da cegueira a filha do seu carcereiro e, logo depois, caído de amores por ela. A própria Igreja, que o santificou, abandonou a celebração do Dia de São Valentim há cerca de 50 anos. 

Restam então os namorados, que existem e são muitos, felizmente. Pois se tiverem relações verdadeiramente amorosas (sejam elas monogâmicas ou de outros tipos, entre pessoas com as identidades de género x, y ou z), o que é certo, diz-nos a ciência, é que tendem a ter melhor saúde mental, melhores índices de pressão arterial, colesterol e inflamação, uma maior capacidade de entrega aos outros, um maior sentimento de bem-estar e de realização pessoal. 

O problema, muitos dirão, é que as Escadinhas do Amor (em Caneças, Odivelas) muitas vezes desembocam numa Rua do Jogo (na freguesia de Amor, em Leiria). Assim é. Porém, não faltam também casos de ruas dos Amores que acabam bem, como a dos arredores de Braga amorosamente colada a uma Rua dos Abraços.  

De todos os topónimos adequados a este dia, o meu preferido é o Jardim dos Namorados da cidade onde cresci, Penafiel. Não porque lhe associe memórias amorosas (olhem, não calhou), mas pela tranquilidade desse recanto, a beleza do seu verde, o ar puro que ali se respira e as vistas deslumbrantes – e também pela óptima biblioteca e a deliciosa pastelaria ali mesmo ao lado, bem no centro da cidade. 

 

                                                                    Rui Passos Rocha


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Tomás da Fonseca.

 



Leio sobre o início da vida dele e parece que estou a ler sobre o meu pai, nascido sete décadas depois: cresceu numa família de proprietários rurais; cedo se juntou à lavoura, tal como os muitos irmãos; teve de caminhar quilómetros e quilómetros, duas vezes por dia, para poder estudar; prosseguiu os estudos num seminário bem longe; e abandonou o seminário antes de se tornar padre, para desgosto dos pais. 

Mas ao contrário do meu pai, católico até hoje, Tomás da Fonseca tornou-se um ateísta fervoroso e militante para o resto da vida. Em artigos de jornal e nos livros que publicou, criticou o sadismo, a misoginia e a pedofilia nos seminários; escreveu que os professores deviam ser carinhosos para com os alunos, e não punitivos como era norma; pugnou por um ensino laico, liberto de obscurantismos e democrático (na região onde cresceu havia apenas uma turma para 12 raparigas em 20 quilómetros, enquanto três das muitas turmas para rapazes tinham falta de alunos). 

Foi assessor na Primeira República, odiou o sidonismo e ainda mais o Estado Novo, que o prendeu no Aljube por ter escrito sobre o Tarrafal. Criticou a beatificação de Nuno Álvares Pereira, instrumentalizado por monarquistas e conservadores no final da República. E, mais do que tudo, lançou-se de unhas e dentes contra o Cardeal Cerejeira e outros dois membros do clero por, juntos, terem montado a estratégia propagandística que fez das visões de Fátima, décadas antes, um fenómeno nacional e internacional com reconhecimento, até, pelo próprio Papa. 

Tomás da Fonseca morreu a 12 de Fevereiro de 1968, meses antes da queda de Salazar e anos antes do fim do Estado Novo. Bem no centro da sua Mortágua natal, a longa Rua Tomás da Fonseca serve de residência para a biblioteca municipal (a que foi dado o nome de um seu filho) e conduz os visitantes até uma Praceta 25 de Abril na qual se encontra um busto deste escritor, activista e professor. A apenas 10 minutos dali, de carro, chega-se a Santa Comba Dão e ao seu Largo Dr. Salazar. Duas mundivisões tão distintas em tão curta distância. 

 

                                                                    Rui Passos Rocha



sábado, 10 de fevereiro de 2024

Maluda.

 



Os nomes das ruas costumam durar décadas ou séculos, raramente são alterados. É o caso da longa Rua das Praças, no bairro da Lapa em Lisboa, que é cortada por sete ruas, passa pelo mítico Sr. Vinho cantado por Amália e acaba junto ao ISEG. A rua é estreita e ladeada por prédios, não há ali praça nenhuma, hoje, mas o nome mantém-se desde o século XVIII. 

É pena, porque lhe ficaria bem o nome Rua Maluda. A pintora Maluda (Maria de Lourdes Ribeiro) viveu nessa rua e teve aí o seu atelier. Mais importante: as janelas e azulejos dessa mesma rua inspiraram alguns dos quadros mais icónicos de Maluda, entre eles o que ilustra este texto, baseado na fachada do n.º 37 da Rua das Praças. Crê-se também que o lindíssimo azul-Tejo de tantas obras da pintora resultou de anos e anos a ver o rio pela janela de sua casa. 

Nascida e crescida, até aos 30 anos, na liberdade colonialista de Goa e Maputo e na liberdade europeia de Paris, Maluda viveu os seus restantes 35 anos vida em Lisboa (morreu faz hoje 25 anos). Tinha um estilo de vida boémio e era amiga de muitos outros artistas, entre os quais a já referida Amália. Era também homossexual, e o seu longo namoro com Ana Zanatti provocou um mini-escândalo na elite socioeconómica a que pertencia.  

Da sua obra sobressaem as janelas lisboetas, quase sempre fechadas, reflectindo mais o exterior do que mostrando o interior. O detalhe geométrico dos desenhos e o brilho nos azulejos são um deleite para quem ama Lisboa banhada pelo sol, para quem ama pintura e arquitectura, simetria e ordem, cores fortes e cheias. Mas Maluda fez muito mais: desenhou Lisboa vista de cima, com o Tejo ao fundo; desenhou quiosques lisboetas, faróis e janelas manuelinas em selos premiados internacionalmente; fez cartazes, tapeçarias, serigrafias. 

A Rua das Praças é a minha Rua Maluda, e não a Rua Maluda que existe, desde 2007, no bairro das Galinheiras da freguesia de Santa Clara, a mais exterior do concelho de Lisboa. Essa longa rua, tem graça, também é cortada por várias, neste caso seis, ruas transversais. As suas muitas janelas, sem azulejos em volta, são de bairro social. E é possível que dentro delas vivam algumas das pintoras do futuro. 

 

                                                                            Rui Passos Rocha

 

 



 


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

CR7.





Faz hoje 39 anos o futebolista que mais golos marcou na História, que mais jogos, golos e assistências fez na Liga dos Campeões, troféu que conquistou por cinco vezes; que mais jogos e golos tem pela sua, nossa, Selecção; que mais cedo chegou à marca dos 1000 milhões de euros na conta bancária (finjamos que é uma); que mais seguidores tem nas redes sociais. Aos 39 anos, ainda faz um golo por jogo e é dele, aposto, o recorde mundial de banhos de gelo de um ser humano.

Não sei quanto a vocês, mas hesito entre o Cristiano Ronaldo do Manchester United e o do Real Madrid. O primeiro fintava um, dois, três, voltava ao segundo e ao primeiro, partia-os de novo e ainda cruzava para golo ou estourava ao ângulo (meu pobre FCP). O segundo quis ser ponta-de-lança e marcou mais de um golo por jogo: de pé direito ou esquerdo, de cabeça a roçar nas nuvens, de bicicleta, calcanhar ou ombro. Não sei qual foi o melhor CR7, se o “inglês” ou o “espanhol”. Só sei que ele tem sido um portento ao longo de mais de duas décadas, um feito de longevidade ao mais alto nível.

Parece-me seguro dizer que Cristiano Ronaldo voou mais alto do que Eusébio. E não sei se não começou ainda mais baixo na vida. O que só torna o seu sucesso desportivo ainda mais incrível e admirável. Por outro lado, esse mesmo passado duro, solitário e pouco escolarizado – o pai alcoólico que cedo morreu, a mãe que pensou em abortá-lo, a agressividade que o levou a arremessar uma cadeira a um professor, o ter completado apenas o 6.º ano – ajudará a explicar, ainda que não justificar nem perdoar, o horror de alegadamente ter violado três mulheres em 2005 e 2009 (neste último caso, pagou 375 mil dólares para terminar o processo judicial).

Esses alegados crimes sexuais, e também os 15 milhões de euros ocultados ao fisco espanhol, que lhe valeram dois anos de pena suspensa e uma pesada multa, fazem dele um exemplo problemático de conduta fora dos relvados. Mas isso é convenientemente esquecido por muitos amantes de futebol e da projecção internacional que Portugal ganha com Ronaldo. Tendo-se até chegado ao ponto de atribuir o nome dele (ainda em vida!) ao aeroporto do Funchal e, na mesma cidade, à centralíssima Praça CR7, com a sua estátua e Museu CR7 a homenagearem o craque. 


                                                                        Rui Passos Rocha 





 


terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Damião de Góis.

 



 

Há exactamente 450 anos, neste mesmo dia, morreu Damião de Góis em Alenquer. Ou então morreu há 452 anos, também a 30 de Janeiro, numa cela do Mosteiro da Batalha. Não se sabe ao certo.  

Já sobre a vida dele sabe-se muito. Mas por péssimos motivos: é que este intelectual português foi obrigado a relatar a sua vida em detalhe perante a Inquisição. Não uma, mas duas vezes. E em ambas foi condenado. 

O que fez ele para merecer o castigo do Santo Ofício? Deu-se com algumas das principais figuras do humanismo cristão (Erasmo e Thomas More, entre outros) e do protestantismo (Lutero e muitos mais), defendeu os cristãos coptas da Etiópia, quis uma Igreja que acolhesse as diferentes práticas do cristianismo. Numa época de Reforma e Contra-Reforma, com Portugal tão alinhado que até uma Inquisição tinha para punir os hereges, a tolerância de Damião de Góis não foi propriamente bem-vinda. 

A sua abertura a todos os crentes da “verdadeira fé” não o salvou da Inquisição (muito pelo contrário). Nem os seus escritos elogiosos da expansão marítima e cristã o salvaram. Nem o facto de pertencer à alta aristocracia portuguesa. Nem os muitos anos como diplomata e secretário da feitoria portuguesa em Antuérpia. Nem o cargo de guarda-mor da Torre do Tombo. Nem a encomenda régia de uma crónica sobre Dom Manuel – nada disso o salvou da Santa Sé. Quando muito, salvou-o de ser executado. Mas não o salvou de viver boa parte dos seus últimos 30 anos quer na prisão, quer a defender-se no tribunal da Igreja, quer a receá-lo. 

Que contraste, que imenso contraste entre esses últimos 30 anos num Portugal tão negro e os 20 anos anteriores de trocas comerciais e intelectuais em Antuérpia, estudos universitários em Louvain e Padova, muitos manuscritos publicados, meses a viver com Erasmo e a debater com outras das mentes mais brilhantes do seu tempo entre Bélgica, Holanda, França, Alemanha, Rússia e Itália! 

É precisamente para lembrar esse contraste entre escuridão e luz que existe hoje, na terra natal deste humanista (um dos poucos da história de Portugal), um Museu de Damião de Góis e das Vítimas da Inquisição. É pequeno, mas bem pungente, esse museu situado na Calçada Damião de Góis, em Alenquer. 

 


                                                                                         Rui Passos Rocha



 


sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Mumadona Dias.


 



A história que os manuais nos contam sobre Portugal tem algumas figuras centrais, como Dom Afonso Henriques, o infante Dom Henrique e Vasco da Gama. E tem também personagens secundárias, cujo propósito maior é engrandecer as personagens principais. A narrativa dominante sobre Dona Teresa, o infante Dom Fernando e Bartolomeu Dias reduz os seus feitos a isto: traidora, mártir cristão e aventureiro dos mares. Essa narrativa nacionalista e imperialista, muito disseminada pelo Estado Novo, perdura até hoje. 

E depois há figuras secundárias que, não tendo sido contemporâneas dos grandes heróis, entram na narrativa de forma rebuscada: Viriato a mostrar a índole lusitana, de que supostamente descendemos; Dom Dinis a lavrar o pinhal de Leiria, como que prenunciando as caravelas; e Mumadona Dias a erguer o castelo onde, diz-se, nasceu o primeiro rei de Portugal. 

Nos sete anos do seu governo, Mumadona teve de se haver com vikings na costa, com muçulmanos entre o Mondego e o Douro e, certamente, com os condes galegos e o rei de Leão. Mas tudo isso, tanto quanto se sabe, também foi o pão diário dos outros condes portucalenses da época. Então, porque a lembramos mais do que a eles? 

O que cola Mumadona às narrativas nacionalistas é o acaso de Dom Afonso Henriques ter ascendido ao poder em Guimarães. Porque foi ela quem fundou esse burgo, num testamento assinado a 26 de Janeiro; porque calhou ser no castelo de Guimarães, por ela mandado erguer, que século e meio depois Dom Henrique e Dona Teresa assentaram o poder de Portucale; porque foi também nesse castelo que, diz-se sem provas, nasceu o seu filho Afonso, o tal que é personagem principal; e porque foi no campo de São Mamede, que a lenda coloca junto ao castelo, que Afonso guerreou e venceu a mãe “traidora”. 

É essa ligação tortuosa ao primeiro rei que explica a memorialização de Mumadona. Fundadores de cidades há muitos, narrativas e estátuas sobre eles é que são bem menos. E Guimarães tem ambas. Bem no centro do Largo da Condessa Mumadona, uma estátua da fundadora, inaugurada em 1960, põe-lhe a cruz de Cristo numa mão e uma miniatura do castelo na outra. O olhar, esse, está posto na colina do castelo. Porque foi isso o que verdadeiramente interessou a quem “inventou” Mumadona. 

 

                                                                            Rui Passos Rocha

 


segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Henrique Galvão.



 




Não se fala sobre Henrique Galvão no Portugal democrático. O militar que escreveu um longo relatório sobre as condições laborais em Angola (pessoas transportadas como gado – palavras dele – para trabalho duríssimo e quase gratuito, sujeitas a punições físicas pelos mais pequenos erros), que apoiou dois candidatos presidenciais contra Salazar e que foi preso por planear uma revolução contra o Estado Novo. 

Mais do que isso, Galvão ficou famoso por ter desviado o cruzeiro Santa Maria. O navio português, que se dirigia aos EUA com tripulantes daquele país, estava atracado na costa venezuelana quando Galvão e outros setenta embarcaram, disfarçados, e se apoderaram do leme (num dia 22 de Janeiro, como hoje). Durante duas semanas, os piratas, como o governo português lhes chamou, levaram o navio para Sul, comunicando aos media dos EUA que apenas queriam alertar para a podridão da ditadura portuguesa. 

O problema é que Henrique Galvão foi um opositor manchado. Anos antes, tinha participado no sidonismo e no 28 de Maio, tinha sido deputado à Assembleia Nacional e um dos principais organizadores das exposições coloniais, de que ainda podemos ver, no espaço público de hoje, o Monumento ao Esforço Colonizador Português (no Porto) e o Padrão dos Descobrimentos (em Lisboa). Admirava regimes autoritários e conservadores, era um anti-comunista ferrenho e um colonialista irredutível (concebeu o mapa do “Portugal não é um país pequeno”).

 

Em suma, Galvão não almejava propriamente uma democracia liberal. Queria substituir Salazar por outro “homem forte” (ele próprio?) que, acima de tudo, trouxesse desenvolvimento económico às colónias. Quanto à autodeterminação dos colonizados, podia esperar. Sentada.

 

É por isso que, apesar do muito que arriscou para destronar Salazar, Galvão é uma figura pouco apreciada hoje. Vivemos num regime democrático, anti-colonial e com dois partidos marxistas no Parlamento, tudo coisas que ele repudiaria. E é também por isso que, se procurarmos Henrique Galvão no espaço público, não encontraremos qualquer estátua em sua homenagem ou qualquer topónimo mais relevante do que rua ou travessa. Com uma única e honrosa excepção: a da Avenida Henrique Galvão, no Barreiro, onde nasceu.

 

 

                                                                        Rui Passos Rocha


quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Rotunda de São Bernardo.





 

Há coisa de 850 anos, também num dia 18 de Janeiro, o Papa canonizou Bernardo de Clairvaux. E o que é que eu tenho a ver com isso? - pensam vocês. É que este santo da actual França teve um papel determinante na independência de Portugal. 

Bernardo nasceu numa família aristocrata, o que, historicamente, já era meio caminho para chegar a santo. Apenas três anos depois de entrar na ordem de Cister (com mais 30 familiares e amigos), recebeu aval para fundar uma abadia em Clairvaux. Aí, nos anos que se seguiram, os seus escritos, regra monástica e lista de contactos atraíram muita gente. Inclusive o futuro Papa Eugénio III. 

Eugénio III tornou-se Papa em 1145. No ano seguinte, pediu a Bernardo que pregasse a cruzada contra os muçulmanos. O discurso deste perante as ordens militares ficou para a História: disse-lhes que Deus estava zangado com a cristandade por permitir o avanço dos infiéis e garantiu que quem fosse combater teria a eternidade no Paraíso. Resultou. Ao longo dos séculos seguintes, o espírito de cruzada e guerra santa foi muito forte. 

Cá no rectângulo, Dom Afonso Henriques andava há anos a combater os almorávidas entre Coimbra e Leiria. Em 1147, pediu ajuda de cruzados para tentar tomar Santarém e Lisboa. Foi então que prometeu a Bernardo de Clairvaux (borgonhês tal como o pai de Afonso) ceder 44 mil hectares de território a Cister se Santarém passasse para mãos cristãs. Vieram charters de cruzados, claro. 

Santarém caiu e, logo a seguir, o território do actual concelho de Alcobaça, mais coisa menos coisa, passou para as mãos de Cister. A ordem religiosa englobou esses terrenos no seu vasto sistema de produção e comércio agrícolas, que ia de Portugal à Suécia, aproveitando a muita mão-de-obra gratuita (os camponeses trabalhavam para comer). Cister continuou tão poderosa que Bernardo se manteve influente no Vaticano. E essa influência (mais os rios de dinheiro que Dom Afonso Henriques enviou ao Estado papal, vá) foi fundamental para que, em 1179, o Papa declarasse a independência de Portugal. 

Em Alcobaça, a Ordem de Cister ergueu um mosteiro imponente, símbolo da vitória de Portugal sobre os mouros. A poucos metros do Mosteiro de Alcobaça, e voltada para ele, pode ver-se uma estátua em honra do santo, numa rotunda que leva o seu nome: a 𝗥𝗼𝘁𝘂𝗻𝗱𝗮 𝗱𝗲 𝗦𝗮𝗼 𝗕𝗲𝗿𝗻𝗮𝗿𝗱𝗼. 

 

 

                                                                                       Rui Passos Rocha  


quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Imperadores.

 




Foi num dia 16 de Janeiro que Augusto se fez imperador e assim criou o Império Romano. Por cá, foi o culminar de séculos em que Roma “pacificou” à força os lusitanos e os outros povos ibéricos – uma gente incivilizada que não queria a paz.

Sabemos o que se seguiu: estradas, termas e villas; leis e administração; cidadãos de primeira e de segunda; recursos minerais extraídos até ao tutano; e o poder político lá longe. Mais ou menos o que Portugal depois fez nas ex-colónias. Aprendemos a civilizar com os melhores.

Uns bons dezoito séculos depois do nascimento do Império Romano nasceu um outro império, mais pequeno em escala, mas não em sonho: a vila de Manique do Intendente, com 2000 habitantes (à data e também hoje), entalada entre a serra de Montejunto e o Tejo. A povoação azambujense já existia, mas Dona Maria II achou boa ideia renomeá-la, fazer dela concelho e assim honrar Pina Manique, que lá tinha morgadio.

Pina Manique também achou boa ideia. Assim que se viu com uma vila nas mãos, contratou arquitectos e idealizou a sua Manique do Intendente com uma grande praça hexagonal, ladeada por edifícios em estilo neoclássico, com um pelourinho ao centro e cinco longas ruas a projectarem-se da praça para os concelhos vizinhos. Cada rua com o nome de um ilustre romano: Sertório, Júlio César, Augusto, Trajano e Justiniano.

Dois séculos depois, resta o pouco que se construiu naqueles anos: as ruas com os nomes romanos, que iam ser longas, têm meia dúzia de metros e não levam a lado nenhum; e dos edifícios neoclássicos fez-se apenas o da Câmara Municipal, visível na imagem. Nesse edifício funciona hoje um centro de dia, porque a vila já não é concelho, nem sequer freguesia, apenas parte de uma união de freguesias.

Ali perto, resta também a fachada do palácio que Pina Manique mandou erguer, mas que assim ficou, pela fachada e pouco mais, quando ele morreu.

Esta é a ordem natural das coisas: desaparecer e virar fachada. Tal como desapareceu o Império Romano, subsistindo hoje nessa modesta fachada que é a 𝗣𝗿𝗮𝗰̧𝗮 𝗱𝗼𝘀 𝗜𝗺𝗽𝗲𝗿𝗮𝗱𝗼𝗿𝗲𝘀 𝗱𝗲 𝗠𝗮𝗻𝗶𝗾𝘂𝗲 𝗱𝗼 𝗜𝗻𝘁𝗲𝗻𝗱𝗲𝗻𝘁𝗲, um hexágono com 300 metros quadrados no meio do nada.

 

                                                                                       Rui Passos Rocha






terça-feira, 17 de agosto de 2021

Agora falando sério.

 



 

Isto torna as coisas bem mais concretas: segundo o Climate Central, uma non-profit gerida por uma data de cientistas e comunicadores de ciência norte-americanos da área do clima, as projecções realistas já para 2030 (daqui a 9 anos!) põem praticamente toda a reserva natural do Tejo e a lezíria junto a Samora Correia e Benavente abaixo do nível da água. A zona do Montijo e de Alcochete vai ser uma península com menos 1/10 do território. O Barreiro também vai perder o cotovelo a noroeste. Parte do areal de Carcavelos vai à vida e o mesmo para Tróia e a Comporta. A Ria Formosa entre Faro e a Fuseta quase vai desaparecer. Junto à foz do Mondego e à Figueira da Foz, uma enorme área até Montemor-o-Velho também se vai. De Ovar até para lá de Ílhavo, boa parte da costa ficará abaixo do nível do mar. Tudo isto nos próximos 9 anos. E claro, se não forem construídos ou elevados vários diques e outras obras de engenharia.

Se quisermos ver no mapa, também, as partes de Portugal que sofrerão com cheias anualmente já em 2030, então temos entre Caminha e Viana do Castelo, Esposende, Vila do Conde, Matosinhos, a Foz do Douro, Espinho, Aveiro, Belém entre a Fundação Champalimaud e o Padrão dos Descobrimentos, o Terreiro do Paço e o Cais das Colunas, o Beato até ao Museu do Azulejo, boa parte do Parque das Nações entre o Oceanário e a ponte, praticamente todas as praias da linha de Cascais, a Costa da Caparica por inteiro, o Estuário do Sado, Lagos e Portimão.

Tudo isto não impede que algo seja feito para reduzir ou mesmo eliminar o impacto do aumento do nível do mar e das cheias. Mas isso significará um grande investimento ao longo de toda a costa portuguesa. Fiz uma pesquisa rápida e vi que está previsto o investimento de 470 milhões nestes mesmos 10 anos só para a requalificação do litoral entre Caminha e Espinho. Não sei e gostaria de saber o que se planeia para o resto do país e por quanto dinheiro (nomeadamente do PNI 2030). Quem m'ajuda?

Para mim, é um choque ver que tantas das zonas do país que mais gosto de visitar poderão/poderiam desaparecer em apenas 9 anos, se nada for/fosse feito. E é outro choque ver que, segundo as projecções, é muito curta a diferença entre as projecções mais moderadas e as mais pessimistas quanto às zonas afectadas pelo aumento do nível do mar e de cheias.

Deixo-vos o mapa: https://coastal.climatecentral.org/map

(O Climate Central salienta que estas projecções são baseadas na evidência científica actual e que vai sendo, como toda a evidência científica, reavaliada.)

 

Rui Passos Rocha




segunda-feira, 9 de março de 2020

Declínio e queda.


obrigado, Rui!




Ao ter visto o anúncio deste documentário aqui no Malomil, um leitor atento e assíduo mandou uma notícia sobre a Festa do Xá, constante do Le Monde. Obrigado, José Rentes de Carvalho, um grande abraço, com a muita amizade do António.



  

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Comboio fantasma.

 







Há uns tempos já passado escrevi nas páginas do Público (obrigado, Paula Barreiros) um texto sobre Arquipélago Gulag. Talvez por isso, o Rui Passos Rocha mandou-me  (obrigado, Rui) um assombroso foto-ensaio do Guardian: milhares e milhares de homens, todos presos políticos, desbravaram o Ártico na construção de uma linha ferroviária. Mais um projecto megalómano de Estaline. Hoje já pouco resta do que foi essa tarefa hercúlea. Só a memória persiste. E, ainda assim, ténue, estilhaçada, como os farrapos que vemos ao vento, presos no arame farpado. Ah, e uma locomotiva negra e vermelha. Não é possível saber ao certo quantos seres humanos ali morreram. Mas que foram muitos, foram.
 
 

domingo, 19 de novembro de 2017

Trocando para miúdos.

 
 
 

 
 
O Rui Passos Rocha, que entre mil e um talentos anda a estudar para infográfico ou mesmo infogravador, com officina & typographia numa cave ao Poço dos Mouros (é mentira!), mandou-me dois trabalhos notáveis, absolutamente notáveis, de que teve conhecimento graças à curiosidade imensa que o anima em tudo o que faz e perante a realidade circundante. Num deles, uma amostra gráfica dos efeitos dos drones no Afeganistão. Brutal. Não menos avassalador, um quadrinho interactivo e todo techno sobre a Sida nos States. Brutal, idem. Por estas brutalidades dominicais matinais, um abraço Rui, com a amizade e a admiração, ambas enormes, do
 
António
 
O dos drones afegãos é este.
 
E o da Aids in América é este.