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sábado, 3 de abril de 2021

Agregado Familiar.

 


 

AGREGADO FAMILIAR

 



Oito gatos, quatro cães, amores vários,

papagaios de papel, gralhas que cantam

nas estantes e imitam, sem emenda,

a triste voz humana, peixinhos-de-prata

e um velho coelacanto não sei onde.

 

Nenhuma senha de razão e todas as línguas

na gamela: tudo flui e o amor permanece

no centro desta mesa, tábua redonda e de salvação.

Amigos que entram sem lei, ordem ou decreto

pela nossa casa adentro: Embaixada dos Únicos.

 

Anunciam-se os obscuros intentos de S. Bento

à Porta Fechada: a treva, o ranço e a barbárie

a rondar os ninhos da Criação. Os ministérios

abriram as agendas negras e a Arca da Peste:

tentam limitar e extinguir o agregado familiar.

 

Podre vai o vosso reino. Aviso: nenhum verme,

besta de cargo, bicho de contas, animal de rácio

ou outro baixo indignitário nos há-de fiscalizar

os bens e males das empresas falidas do coração,

as belas propriedades trespassadas do interior,

o mel do sangue, o puríssimo ouro da União.

 

 

Ricardo Álvaro in Revista CÃO CELESTE # 7, AAVV (Lisboa, Cão Celeste, Julho de 2015)




domingo, 28 de fevereiro de 2021

Vergonha na cara, ou falta dela.





 

Perante este massacre, o Sr. Presidente da Fencaça, mudando radicalmente a opinião avançada há dois meses, diz agora que não se tratou de uma «caçada», mas, pasme-se, de uma «correcção de densidade». (aqui)

A explicação é simples: como foram abatidos 600 hectares de floresta para construir um parque fotovoltaico, os animais ficaram sem abrigo. Logo, havia que matá-los ou, melhor dito, «corrigir a sua densidade».

Resta saber como foi possível, numa propriedade de 1200 hectares, autorizar a destruição de 600 hectares do seu arvoredo.

E, já agora, porque foram chamados caçadores espanhóis para «corrigir a densidade».

E, sendo obrigatório apor um selo por cada animal morto numa montaria, como é possível a proprietária do terreno dizer que emitiu apenas 40 selos, as autoridades terem encontrado 270 canhotos de selos na herdade e, no final, terem sido mortos 540 animais. De 40 para 540 há uma diferença, não? Como a explica o senhor Amaro?

Ao vir agora defender esta matança, Jacinto Amaro, presidente da Fencaça, além de se cobrir de ridículo, acaba por confessar o óbvio: foi a delegação de Évora da Fencaça (a organização de que ele é presidente há 29 anos) que emitiu as licenças para os 16 caçadores espanhóis poderem caçar em Portugal.

Não lhe ocorre que, perante este grotesco e pornográfico conflito de interesses, o melhor seria ter estado calado? Não lhe ocorre que, com isso, mancha de forma indelével a imagem da caça e dos caçadores portugueses, que é suposto representar?

Uma falta de vergonha completa.









quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Desprezível, sem perdão.





 

Que estas bestas tenham pago sete a oito mil euro para matar animais é coisa que, já por si, não se compreende. Que, depois da matança, estas bestas se deixem fotografar sorridentes, frente a 540 cadáveres, é coisa mesmo inconcebível. Quem fez isto, além de multado e bem multado, deveria ser envergonhado e humilhado para todo o sempre e onde quer que tivesse o desplante de mostrar a cara ou, melhor, o focinho. Desprezível, sem perdão.

 

 







terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Quem mata um urso.


 

Quem mata um urso devia saber, antes de mais, o que é um urso. No Diário de Notícias, em Péssima Companhia, aqui

 



terça-feira, 13 de outubro de 2020

Dehesa.



Todos nos lembramos das séries do grande, enorme, Félix Rodriguez de la Fuente. Para quem gosta, dos criadores de um filme extraordinário, Cantábrico, agora surgiu Dehesa. El Bosque del lince ibérico. Fica a nota, muito elevada, máxima, com distinção e louvor.






 




sábado, 10 de outubro de 2020

A mosca.

 



Moscas há muitas, mas só algumas são notícia. As mais espertas sabem como atrair os holofotes. Conhecem os truques todos – como o de incluir na mira de voo a presidência dos Estados Unidos da América. Ascendem então vertiginosamente ao estrelato, fazendo-se enxotar com elegância e graciosidade irreal por um incumbente; ou aderindo com eficácia de ventosa à testa de um aspirante, com a familiaridade que se tem perante velha matéria conhecida.

Porém, quanta mosca anónima merecia sair da obscuridade.  Há todo um mundo por descobrir, como conta a Musca Domestica do “Insektarium” de Berit Johansen, ou o Diário de uma Mosca do “Mikrokosmos” de Béla Bartók.

Há ainda sortes piores que a do anonimato, como ser-se até tomado por outrem e não merecer sequer o simples reconhecimento correto da identidade de inseto. É o que acontece com o famosíssimo Voo do Besouro da ópera “O Conto do Czar Saltan”, de Rimsky-Korsakov, que na tradução portuguesa acabou, sem apelo nem agravo, como o Voo do Moscardo.  

A atenuante é que, errando na letra, acertou no espírito, pois o zumbido do moscardo, quanto a mim, é muito mais irritante, vingativo e epicamente enlouquecedor – como se quer no personagem da história -- do que o do fofinho e rechonchudo himenóptero.  

Tudo isto é triste, razão pela qual se encerra este capítulo com A Morte do Senhor Mosca, de Eric Satie.



Manuela Ivone Cunha




terça-feira, 1 de setembro de 2020

Os elefantes de Antivouniotissa.









A Manuela S. é mesmo uma condessa descalça. Os seus pés já palmilharam muitos litorais do seu amado Alentejo, na companhia de um cão. É uma espécie de versão trekking das viagens com o Charlie, de saborosa memória (quem não leu, não sabe o que perdeu). A Manuela voltou há tempos ao seu país, visitei-a em Ravenna o ano passado, em jantar memorável e exquis no melhor restaurante da cidade (grazie). Este ano foi complicado para todos, para a Manuela em especial, com a Matilde a viver em Milão, grande aflição. Tudo se compôs, como sempre acontece às pessoas genuinamente boas. E prosseguiu a tara, dela e minha, pelos elefantes. Da Manuela tenho recebido imagens e histórias de elefantes e rinocerontes dos sítios mais incríveis e recônditos de Itália inteira, sítios a que nunca fui – e acreditem que, modéstia à parte, é terra que conheço como poucas.

Agora reciproco, a partir de Corfu. 

A Igreja de Antivouniotissa (melhor dito, a Igreja de Santa Mãe de Deus de Antivouniotissa), belíssima, alberga hoje um assombroso museu de ícones, o melhor da ilha (há outro, na Fortaleza Velha, mas é mais pequeno e inexpressivo).  Tudo doação de quatro famílias, os Mylonopoulos, os Alamanos, os Rizikaris  e os Skarpas, que se desfizeram dos tesouros pós-bizantinos que tinham em suas casas para usufruto público, obrigado. Não há espaço nem tempo nem paciência vossa para falar aqui dos ícones fulgurantes, até porque o tema é paquidermes. Directo ao assunto: no interior do templo, sumptuoso, com vista para a baía, vi-me rodeado de elefantes, ainda que escondidos pela penumbra do lugar e pelo negrume das telas, circunspectas e austeras.




(esta foi tirada da Net)


O catálogo da igreja-museu, portentoso e opulento, da autoria de Stamatios T. Chondrogiannis (Tessalónica, 2010), informa que são cenas do Antigo Testamento, pintadas em 1699 por Konstantinos Kontarinis. Os painéis, de grande dimensão (164 cm X 133 cm), estão assinados e datados, aliás. E não é preciso grande ciência para perceber que os elefantes surgem na tela alusiva à criação do mundo e episódios subsequentes de Adão e Eva e expulsão do paraíso e por aí fora. Estive muito tempo a contemplar aquilo, embriagado pela figura de Eva, originalíssima, musculada e masculinizada. Além de elefantes há outros bichos raros, pois claro, como leões,  ursos, cobras e camelos (estes, dentro e fora da tela).

Ficam, portanto, os elefantes de Antivouniotissa à vossa guarda, mas, atenção!, são todinhos inteirinhos de e para a Manuela S., em recordação de 2020, the year of living dangerously, como diz o filme, ou o ano em que estivemos em parte nenhuma, como reza o livro.


Para Manuela S.












































quarta-feira, 5 de agosto de 2020

No mar, no campo, na floresta e outros destinos de vilegiatura…







Criaturas aladas e aquáticas; da terra e do ar; bípedes, quadrúpedes e centípedes fazem-no. Os bacalhaus no mar fazem-no, decerto. Possivelmente fazem-no até em viveiro, hoje em dia. Que o façam no mar de Portugal, aí já tenho sérias dúvidas. Nesse caso, por que teriam, então, partido em massa os nossos pescadores para mares tão longínquos em demanda do fiel amigo?

É este o problema capital de que padece a recriação brasileira do clássico Let's Do It (Let's Fall in Love), de Cole Porter, interpretado em baixo por Conal Fowkes.

Abraço, para este efeito, um tipo de atitude crítica em tudo análogo à perspetiva modelar que presidiu àquela que é talvez a melhor recensão de livro de sempre, feita por Ed Zern em 1959 na revista Field and Stream à obra O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence.

Dizia Zern que este “relato ficcional do quotidiano de um guarda de caça” tem ainda um considerável interesse para os amantes da vida ao ar livre, pois contém muitas passagens sobre a criação de faisões, a deteção de caçadores furtivos, o controlo de infestantes e outros deveres e tarefas do guarda de caça profissional. Infelizmente, prossegue o recenseador, é-se obrigado a percorrer muitas páginas de material irrelevante, lateral ao assunto, para se poder desfrutar destas curiosidades sobre a gestão de uma coutada nas Midlands de Inglaterra. E, a ser assim, o livro não poderia nunca alcandorar-se ao lugar de Practical Gamekeeping, de J. R. Miller.

Pois bem, algo de semelhante afeta Façamos, Vamos Amar, a recomposição tropical de Let’s Do It levada a cabo por Carlos Rennó e interpretada por Elza Soares e Chico Buarque. A manifesta falta de trabalho no tema do bacalhau (que inexiste) em águas territoriais, questão central tratada assim com tanta displicência e falta de empenho, inquina de alto a baixo o que de outro modo seria um exercício instrutivo e meritório sobre a vida animal. Mais até do que o original, educativo no seu tempo, mas que se vê agora atualizado com um toque de contemporaneidade e em sintonia com novas realidades.

Ficam, pois, as duas composições para cotejo e verificação rigorosa, acompanhadas logo a seguir pelas respetivas letras, com a infame passagem do bacalhau devidamente assinalada a vermelho para comodidade dos leitores.




Cole Porter, Let's Do It (Let's Fall in Love) · Conal Fowkes

Let's Do It, Let's Fall in Love

When the little blue bird who has never said a word
Starts to sing, "Spring, spring"
When the little blue bell in the bottom of the dell
Starts to ring, "Ting, ting"
When the little blue clock in the middle of his work
Sings a song to the moon up above
It is nature that's all
Simply telling us to fall in love
And that's why birds do it
Bees do it
Even educated fleas do it
Let's do it, let's fall in love

In Spain, the best
Upper sets do it
Lithuanians and letts do it
Let's do it, let's fall in love
The dutch in old Amsterdam do it
Not to mention the fins
Folks in Siam do it
Think of Siamese twins
Some Argentines
Without means, do it
People say in Boston even beans do it
Let's do it, let's fall in love

Sponges
They say, "Do it"
Oysters down in oyster bay do it
Let's do it, let's fall in love
Cold cape cod clams
Against their wish, do it
Even lazy jellyfish, do it
Let's do it, let's fall in love
Electric eels I might add do it
Though it shocks 'em I know why ask if shad do it
Waiter bring me bring me shad roe
Come on and bring me, bring me shad roe
In shallow shoals
English soles do it
Goldfish in the privacy of bowls do it
Let's do it, let's fall in love

Now if the birds and the bees and the trees do it
The monkeys and the birds, bees do it
In, in water gates they quarrel but they do it
And if they can make up and still do it baby, how about me and you?
Hey let's do it now
Let's do it, let's fall in love

Façamos, Vamos Amar

Os cidadãos no Japão fazem
Lá na China um bilhão fazem
Façamos, vamos amar
Os espanhóis, os lapões fazem
Lituanos e letões fazem
Façamos, vamos amar
Os alemães em Berlim fazem
E também lá em Bonn
Em Bombaim fazem
Os hindus acham bom
Nisseis, níqueis e sansseis fazem
Lá em São Francisco muitos gays fazem
Façamos, vamos amar

Os rouxinóis nos saraus fazem
Picantes pica-paus fazem
Façamos, vamos amar
Uirapurus no Pará fazem
Tico-ticos no fubá fazem
Façamos, vamos amar
Chinfrins, galinhas afim fazem
E jamais dizem não
Corujas sim fazem, sábias como elas são
Muitos perus todos nus fazem
Gaviões, pavões e urubus fazem
Façamos, vamos amar

Dourados no Solimões fazem
Camarões em Camarões fazem
Façamos, vamos amar
Piranhas só por fazer fazem
Namorados por prazer fazem
Façamos, vamos amar
Peixes elétricos bem fazem
Entre beijos e choques
Cações também fazem
Sem falar nos hadoques
Salmões no sal, em geral, fazem
Bacalhaus no mar em Portugal fazem
Façamos, vamos amar

Libélulas em bambus fazem
Centopéias sem tabus fazem
Façamos, vamos amar
Os louva-deuses com fé fazem
Dizem que bichos de pé fazem
Façamos, vamos amar
As taturanas também fazem
Com um ardor incomum
Grilos meu bem fazem
E sem grilo nenhum
Com seus ferrões os zangões fazem
Pulgas em calcinhas e calções fazem
Façamos, vamos amar

Tamanduás e tatus fazem
Corajosos cangurus fazem
Façamos, vamos amar
Coelhos só e tão só fazem
Macaquinhos no cipó fazem
Façamos, vamos amar
Gatinhas com seus gatões fazem
Tantos gritos de ais
Os garanhões fazem
Esses fazem demais
Leões ao léu, sob o céu, fazem
Ursos lambuzando-se no mel fazem
Façamos, vamos amar

Manuela Ivone Cunha







segunda-feira, 6 de julho de 2020

Brincar com o fogo.




Não, não é mais uma tirada estraga-festas a ralhar à volta. O fogo do título é fogo mesmo, não do que arde sem se ver. São as labaredas e as cinzas da “flor vermelha dos humanos”, a men’s red flower que é cobiçada e receada no artigo do dia, do Livro da Selva. E a brincar sou eu comigo, com o medo que foi o fogo à porta nos incêndios de 2017, e cresce de novo com as espécies que regressaram a eito, em força e em dobro. 

Daquelas que não só ardem muito como querem arder e assim ganhar terreno sobre as autóctones, que ardem menos, e se foram nele, o fogo.

Entretanto guardo o swing do rei Louis Armstrong, que é o primeiro a dar a voz e o scat ao tema I Wan'na Be Like You, de Louis Prima, numa animação da Disney a partir do livro de Rudyard Kipling.

Logo a seguir, o mesmo tema numa versão mais recente de The Jungle Book, desta vez com o King Louie da história a ser interpretado em modalidade mafiosa por esse gigantopithicus de ator que é Christopher Walken. Sem procurar igualar o swing do antecessor, compensa a rodos na encarnação you-be-do… you-u-uuuu. True-u-uuu.






Manuela Ivone Cunha




sexta-feira, 19 de junho de 2020

:)






Eia, desconfinaram. Ver golfinhos no Tejo, e com esta clareza, com esta nitidez, é coisa maravilhosa. Dizem que tem a ver com agora navegarem menos barcos no rio, o não existir tanta poluição nas águas. Talvez. Mas o certo é que eles já tinham dado um ar da sua graça a 19 de Março, quando os efeitos da poluição ainda eram decerto visíveis, julgo eu. Não importa. O que importa é perguntar: entre ver estes animais magníficos, felizes da vida, ou ver uns paquidermes transatlânticos a deitar fumo, carregados de turistas parvos e poluição mortal, o que é melhor? Sim, o que é melhor?