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sexta-feira, 12 de junho de 2020
domingo, 28 de abril de 2019
Dois livros.
Na categoria da literatura antidepressiva,
a frondosa selecção de crónicas gastronómicas de Miguel Esteves Cardoso, Comes e Bebes: De que é que estavas à espera? Vale todos os cêntimos que o livro custa, um festival hedonista (e
um pouco gastador e consumista…), escrito por uma mão de luxo, das melhores de
Portugal. Já agora, para quando uma edição das outras crónicas de MEC no Público, as vinhetas breves que nos
iluminam os dias? Mais ou menos pela mesma altura em que me embrenhava nas volúpias
alimentícias de MEC, veio parar-me às mãos, por um acaso, um livro que
desconhecia, Coisismos, doutro
grande, enorme nome, o Paulo Varela Gomes. É um breviário já antigo, de 1990, ao que parece à venda aqui, um repositório de textos breves sobre coisas. Isso
mesmo: coisas, objectos, modas, tendências, um pouco à maneira das mitologias
de Barthes, escrito com a estrondosa inteligência e a imensa finesse d’esprit de Paulo Varela Gomes, cujas
crónicas na imprensa também deveriam – ai se deveriam! – ser compiladas na íntegra,
numa edição completa e exaustiva, pois são do melhor que por cá temos, do
melhor, do melhor que por cá temos, saudosamente melhor.
sábado, 6 de abril de 2019
Olha a felicidade
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Martin Parr
|
Olha a felicidade
É um gosto apagado,
como uma felicidade antiga que nem a memória é capaz de devolver.
É como ver uma
fotografia de quando tínhamos quatro anos. Olhamos e dizemos que parecíamos
felizes – mas já não nos lembramos se éramos, se é que alguma vez soubemos.
Nesses anos era preciso
obrigar as pessoas a sorrir. Na era antes das selfies havia
menos sorrisos postiços e mais sinceridade, por muito mal paga que fosse.
Era-se recompensado por não ser mentiroso. Hoje é-se recompensado pela situação
contrária: por parecer que acreditamos na mentira que dizemos.
Na sexta-feira comemos,
à chuva de Abril, os primeiros morangos do ano. Nasceram por causa do sol de
Março, prematuramente confundidos, tão enganados como deliciosos.
Comi os meus à inglesa
com natas frescas da Longa Vida. É um triste monopólio. A monotonia não enjoa
mas irrita.
Eram morangos bio sem
pesticidas, adubos ou fungicidas. Não é uma modernice: só há umas poucas
décadas é que existem essas novidades, que são para esquecer, como um
interlúdio de loucura e de ganância.
Custa-me não me guiar
por ideologias – é o mais fácil que há. É melhor e mais difícil guiar-me pelo
sabor de cada coisa que se me apresenta. É bom? É mau? Que decida o céu da
minha boca, que decida a minha língua: são eles que sabem o que eu deveras
sinto.
É caso a caso que se
chega à sabedoria. A inteligência só nos ajuda a gastar mais tempo, a não
sermos estúpidos e a não nos deixarmos governar por preconceitos.
A felicidade é mais um
acaso do que uma recompensa. Que pena – ou ainda bem?
Miguel
Esteves Cardoso
(in
Público)
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
A Marginal é linda.
A Marginal é linda
Há quem diga que a Marginal começa em Moscavide, para lá do Parque das
Nações, continuando sem tirar os olhos do rio Tejo e da esplendidamente
longínqua margem sul, até passar pelo Terreiro do Paço e chegar ao Cais do
Sodré, onde vai correndo paralelamente ao comboio que sai dali para Cascais.
Cascais também se contorna junto ao oceano até à estrada do Guincho onde a
Marginal continua mais em segredo, em direcção do Cabo da Roca e de além.
Assim, no caminho mais bonito que conheço, se aprende a diferença entre um rio
e o mar, com todas as misturas e cores de águas e de céus pelo meio.
Ajuda conhecer todas as paragens de comboio, tanto do lado mar como do
outro. A vista do comboio, à medida que se insinua, é um filme que se projecta em
movimento. Depois passeia-se de carro, numa hora calma, num dia bonito. A vista
é inteiramente nova — e surpreendente. Às vezes segue-se junto ao comboio e ele
faz-nos companhia, partilhando a mesma velocidade.
Em Caxias pode-se virar para a auto-estrada. Pois sim. Vasco Pulido Valente
acertou em cheio quando disse que a partir de uma certa idade ninguém resiste a
"ir por baixo", seguindo pela Marginal, hipnotizado pelas nuvens e
pelas luzes.
Quanto mais bonita se torna a Marginal — e isso tem acontecido, sei lá
porquê, com a passagem dos anos —, mais depressa acaba. Afinal é uma estrada
muito curta, que passa num instante.
É impossível uma pessoa habituar-se à Marginal. De Lisboa para Cascais é
uma beleza, de Cascais para Lisboa é outra.
Miguel Esteves Cardoso, no PÚBLICO
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
Dahlov Ipcar.
As paixões
são assim, repentinas. Mas, quando batem, dão forte. Ando desvairado por uma
senhora. E não me importa nada que se chame Dahlov Ipcar e que tenha nascido no ano
de 1917, prestes a ser centenária. Como não me interessa nada saber como é que
nasceu com o apelido Zorach e tenha decidido ficar com o nome do marido,
que, bem vistas as coisas, também é um bocadinho estranho: Ipcar (que até
parece nome de um instituto público).
O objecto da minha paixão teve – e tem – uma vida
maravilhosa. Nasceu no Vermont, viveu uns tempos em Greenwich Village, NY, mas
fixou-se no Maine em 1937 – e, desde então, pouco de lá saiu. A biografia de
Dahlov resume-se a isto. O resto é trabalho e família, uma existência longa e boa e simples a
desenhar coisas lindas. A partir dos anos 80, muito do que fez Dahlov não
suscita a comoção do belo, havendo até umas rosáceas com animais que mais valia
eu não as ter visto. Mas os livros infantis dos anos 60 são simplesmente únicos.
Descobri-os há pouco, é paixão recente, tórrida de poucos dias. Hoje falo apenas daquele que considero
o melhor de todos, I Like Animals, de 1960,
reeditado o ano passado pela Flying Eye Books. As fotografias dão uma pálida imagem do talento da
senhora Ipcar, que tem aquilo que alguém já chamou a inteligência amorosa das coisas. Com um grafismo típico dos anos
60, alternando páginas carregadas de cores vivas com outras mais sóbrias na
paleta, I Like Animals é uma delícia
indescritível. Aos 97 anos, fresquíssima, Dahlov Ipcar continua a desenhar e a
pintar, na companhia de netos e cães.
Há uns dias, o Miguel Esteves Cardoso
teve a desfaçatez amiga de se pôr a falar, para mais em Público, da minha generosidade, só por eu mostrar aqui no Malomil o que vou
lendo e encontrando por aí fora. Não há generosidade nenhuma, só a dele, imensa como sempre, na irmandade do twee. Falar de Dahlov Ipcar não é generosidade nenhuma. Esconder a
senhora é que seria um crime. Simplesmente isso, nada mais do que isso.
António Araújo
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Miguel Esteves Cardoso
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Os olhos de Ruslana.
Estava
para escrever sobre este livro, mas o Miguel Esteves Cardoso antecipou-se e,
como sempre, esmagou.
Esmagou talvez em excesso, porque,
apesar de o classificar como «interessantíssimo», critica em demasia o livro Nothing Is True and Everything Is Possible,
de Peter Pomerantsev.
Não digo que seja uma obra-prima, nem
pretende sê-lo. É o relato de uma Rússia que sabemos que existe, mas que nos é
trazida de uma forma irresistível. Através de uma acumulação de histórias e
episódios que foi acompanhando ao viver dez anos nesse país, escrito em jeito
de reportagem, o livro de Pomerantsev traça um fascinante retrato da Rússia do
nosso tempo. Lê-se avidamente. É, sem dúvida, um livro «orientado» para ilustrar
a Rússia de Putin e dos oligarcas nos seus aspectos mais sombrios – ou, se
quisermos, mais feéricos e reluzentes – e, por isso, bem nos avisa MEC para
desconfiarmos da obra.
Porém, esta não tem a pretensão de
avançar uma «teoria», ou sequer uma «explicação» para o que está sucedendo a
Leste. Não é uma obra académica, como aquela que Karen Dawisha deu à estampa, o
volumoso Putin’s Cleptocracy. Who owns Russia? (vamos ouvir falar muito deste livro, que, ainda não tendo sidon publicado, já mereceu a atenção do TLS e da London Review of Books). Aqui, no livro de Pomerantsev, contam-se apenas
histórias, umas atrás das outras. A crítica internacional concentrou-se,
porventura em excesso, na história de Ruslana Korshunova (1987-2008), a modelo que se
suicidou em Nova Iorque. Sempre que existem cisnes em palco, as atenções focam-se
neles. Ainda há pouco, por causa de um escândalo de contas num banco suíço, os
olhares viraram-se para Elle MacPherson. O olhar de Ruslana era especial.
Devido a um defeito de nascença, os seus olhos tinham uma incisão, minúscula, o
que a fazia lacrimejar constantemente. Os olhos de Ruslana possuíam um brilho
ímpar, e talvez por isso esta rapariga foi notada e elevada ao estrelato das passerelles.
A notícia da sua morte causou sensação. Ruslana atirara-se de um prédio em Nova
Iorque. A autópsia não revelou sinais de fogo, violência ou drogas ilícitas.
Mas sabe-se que, para ter caído como caiu, Ruslana teve de correr vários metros
e lançar-se no vazio. Não se atirou simplesmente. Correu para a morte,
literalmente.
Pomerantsev
investigou em detalhe a morte desta e doutra modelo, que se suicidaram com um
intervalo de pouco tempo. Chegou a um lugar estranho, um grupo de auto-ajuda, a
Rosa do Mundo (ou Roza Mira), que organizava (organiza?)
as suas sessões de «terapia» num pavilhão hoje um pouco degradado, mas que fica
num dos lugares emblemáticos da Moscovo estalinista, conhecida nessa época
terrífica como VDNK – Exposição dos Feitos Económicos Nacionais.
Apetecia-me falar um pouco desse
espaço, e da sua fonte majestosa, mas não vou maçar os leitores com um texto
quilométrico. Deve notar-se, em todo o caso, que a atracção russa pelo luxo –
e, ao mesmo tempo, a denúncia do luxo como sintoma de degradação humana,
realidade muito presente no livro de Pomerantsev – está muito impregnada na
história daquela nação. É interessantíssimo ler o inventário dos bens que
agentes da NKVD descobriram na casa do sinistro Yagoda, nas purgas de 1937. O
rol, que logo foi apresentado como prova da corrupção de Yagoda, é descrito num
livro – esse sim, portentoso – de Karl Schlögel, Terror e Utopia. Moscovo, 1937. Além de milhares de rublos em nota
viva, tinha Yagoda no seu lar: 3.904 fotografias pornográficas; 11 filmes
porno; 11.075 cigarros, alguns de marca estrangeira; casacos de homem, quase todos
estrangeiros: 22; casacos de astracã: 2; fatos de homem de confecção
estrangeira: 22; sapatos de mulher de fabrico estrangeiro: 31 pares; chapéus de
mulher feitos no estrangeiro: 22; meias de seda feitas no estrangeiro: 130
pares; gramofones estrangeiros: 2; gravatas estrangeiras: 34; cuecas de
senhora, em seda, feitas no estrangeiro: 68; colecção de cachimbos e boquilhas
de marfim e âmbar, a maioria com motivos pornográficos: 165. Além de uma
máquina de escrever, três pianos e pianolas, 542 livros de literatura
contra-revolucionária e trotsquista, 19 revólveres, sete binóculos, etc., etc.
Além do puritanismo ancestral mas
também muito soviético – o detalhe da pornografia é sempre referido –, é
curioso observar que o «luxo» era já identificado com «fabrico estrangeiro». É
assim na Rússia, desde Pedro, o Grande. Foi assim no tempo de Estaline, e
continua a sê-lo na era de Putin. Os oligarcas têm o fascínio dos produtos de
luxo feitos no Ocidente – é sintomático que o disputadíssimo nº 1 da Praça
Vermelha seja a sede da Rolls Royce –, algo que contradiz um pouco o
nacionalismo espartano de Vladimir. Este, contudo, é mestre em gerir essas
contradições. A primeira coisa a que lançou mão foi a televisão, como observa Pomerantsev.
Antes de qualquer outra, repita-se. E, a partir daí, construiu uma forma nova,
muito mais insidiosa, de autoritarismo. Um autoritarismo capitalista, de mercado, forma
ilusória de democracia liberal. Na aparência, há partidos da oposição e imprensa livre.
Na realidade, são criados e alimentados directa ou indirectamente a partir do
Kremlin, para manter a fachada. Como nota Miguel Esteves Cardoso, e bem, uma
das personagens mais fascinantes do livro de Pomerantsev é o propagandista
Vladislav Surkov, mestre de todos os ardis.
![]() |
Vladislav Surkov
|
Pelo meio, as tradições mantêm-se: uma
burocracia kafkiana, a corrupção em tudo quanto é lugar, o convívio
horripilante da opulência nova-rica com a miséria mais confrangedora (a pobreza e a riqueza cruzam-se, desde logo, no cruel destino das raparigas vindas da província que aspiram a encontrar um «padrinho» rico, que as tome como amantes, com casa posta e jóias de marca). Tudo isso
sucede sob o verniz de «democracia». E quem anda de metro ou vai ao teatro não está
livre de ser sequestrado por terroristas chechenos, morto pelas «viúvas-negras»
que se fazem explodir em martírio, delas e de quem está à sua volta. Orgias, luxo, petróleo e crime, tudo é possível
porque nada é real. O título do livro de Pomerantsev resume a Rússia
contemporânea: Nothing Is True and
Everything Is Possible. Nada é verdadeiro, nem sequer a existência de
grupos oposicionistas ou de críticas (moderadas) feitas a Putin, a maioria dos
quais «plantadas» na televisão para nos dar a ilusão de que o regime é
democrático. Parece, não é. E, por isso, é particularmente perigoso. Putin e os
seus próximos perceberam que havia que encontrar uma forma de hegemonia e
domínio mais subtil do que a dos czares ou dos sovietes. Então, tudo era
ostensivo, facilmente catalogável como «ditadura» e descartável do nosso
convívio. Agora, as coisas são mais elaboradas, porventura mais pérfidas. Com a
agravante de muitos dos poderosos – e, claro, dos caídos em desgraça – viajarem
por toda a parte, terem casas de luxo em Belgravia ou Manhattan. Para usar o
título de um livro de Wiesenthal, os
assassinos estão entre nós. Não os vemos sequer, mas estão aí – em Londres
ou na Califórnia, na Suíça e em Paris.
Nothing Is True and
Everything Is Posible
conta várias histórias, todas incríveis. É pena que seja
reduzido à tragédia de Ruslana. A par dela, conta-se a história de uma mulher,
Yana Yakovleva, que foi detida longos meses. Hora a hora, minuto a minuto,
reconstrói-se o seu quotidiano carcerário. Foi presa por uma simples razão:
tinha uma empresa de produtos farmacêuticos, a concorrência mafiosa conseguiu
que fosse acusada de traficar estupefacientes, substâncias proibidas. Enquanto
esteve na prisão, ficaram-lhe com a firma, levaram-na quase à miséria. Foi
salva pelos seus pais, e pela sua capacidade de resistência.
Mas, quem lê o livro, percebe, até
certo ponto, a popularidade de Putin. No meio do caos iminente, entre um mundo
surreal de milionários e miseráveis, Vladimir Putin representa, para muitos
russos, a última réstia de orgulho nacional. A encarnação da «ordem» numa
cidade prestes a devorar-se a si própria. Depois dele, o abismo. Até quando
durará esta autofagia da Rússia? Pior ainda: o que virá depois dela? Tudo será possível. Mas nada será real.
António Araújo
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terça-feira, 25 de setembro de 2012
Continue o presente.
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Augusto Brázio, série «Natureza», aqui
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O futuro contém a nossa morte e, depois dela, o infinito de nadas, chato como o ferro do cosmos, que antecedeu os nossos nascimentos.
A felicidade, se calhar, é desejar que as coisas não piorem muito, de dia para dia, para não se notarem tanto.
O presente — aquilo que ainda se tem, a começar por estar vivo e lembrarmo-nos de termos estado pior — é a felicidade maior, somada às memórias de felicidades que continuam vivas e que nos fazem sorrir, pertencer e desejar bem aos outros que ainda não as tiveram. Se não nos lembrarmos de termos estado pior ou não tivermos a esperança de ficarmos melhor, já não conta como felicidade; já não conta como presente. Não é só dizer “eu ainda consigo”: é preciso também haver a consciência de ter prazer, não em conseguir, mas nas coisas que se fazem.
Todos sabemos o que nos espera. Interessa apenas decidir não tanto o que fazer enquanto esperamos como descobrir as formas que ainda nos restam de nos distrairmos. A distracção é a forma mais exaltante da vida. Quem se pode distrair — amando, lendo, pintando, trabalhando, coleccionando, politicando — não pode ser inteiramente triste, não por não estar apenas simplesmente não-morto e vivo, mas por ter encontrado a maneira de fazer pouco do presente, em atenção ao passado ou ao futuro lembrado ou desejado, como momento e movimento em direcção a eles.
Restam as consolações.
Quando é ser momento ou movimento a única coisa, para se ser feliz, que se quer.
Miguel Esteves Cardoso, Público, de 25/09/2012
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